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SAÚDE E DIREITOS DA CLIENTELA DO PLANO NOSSA HISTÓRIA A nossa história inicia com a realização do sonho de um grupo de empre- sários, em atender à crescente demanda de alunos para cursos de Graduação e Pós-Graduação. Com isso foi criado a nossa instituição, como entidade ofere- cendo serviços educacionais em nível superior. A instituição tem por objetivo formar diplomados nas diferentes áreas de conhecimento, aptos para a inserção em setores profissionais e para a partici- pação no desenvolvimento da sociedade brasileira, e colaborar na sua formação contínua. Além de promover a divulgação de conhecimentos culturais, científicos e técnicos que constituem patrimônio da humanidade e comunicar o saber atra- vés do ensino, de publicação ou outras normas de comunicação. A nossa missão é oferecer qualidade em conhecimento e cultura de forma confiável e eficiente para que o aluno tenha oportunidade de construir uma base profissional e ética. Dessa forma, conquistando o espaço de uma das instituições modelo no país na oferta de cursos, primando sempre pela inovação tecnológica, excelência no atendimento e valor do serviço oferecido. Sumário SAÚDE E DIREITOS DA CLIENTELA DO PLANO ............................................... 1 NOSSA HISTÓRIA ........................................................................................................ 2 1. INTRODUÇÃO ....................................................................................................... 4 2. CLASSIFICAÇÃO JURÍDICA DO DIREITO À SAÚDE ......................... 11 3. SAÚDE SUPLEMENTAR ............................................................................ 14 4. OBJETO DA RELAÇÃO JURÍDICA DE NATUREZA PRIVADA ........ 14 5. A REGULAMENTAÇÃO DA LEI DOS PLANOS DE SAÚDE .............. 15 6. ENTIDADES OPERADORAS DE PLANOS PRIVADOS DE ASSISTÊNCIA À SAÚDE .......................................................................................... 16 7. INFORMAÇÃO ASSIMÉTRICA ................................................................. 18 8. O DIREITO DO CONSUMIDOR À INFORMAÇÃO ................................ 21 9. A DIFICULDADE EM EFETIVAR O DIREITO À INFORMAÇÃO NOS CONTRATOS DE PLANO DE SAÚDE ................................................................... 23 10. O DIREITO À INFORMAÇÃO CLARA, PRECISA E COMPLETA NOS CASOS DE NEGATIVA DE PEDIDOS POR PARTE DO USUÁRIO ................. 23 11. REMÉDIOS E REFLEXOS JUDICIAIS PARA ESSA PRÁTICA ......... 24 12. MOVER AÇÃO JUDICIAL. ......................................................................... 25 13. CONCLUSÃO ................................................................................................ 27 14. REFERÊNCIAS ................................................................................................ 29 file:///F:/SAÚDE%20E%20DIREITO%20DA%20CLIENTELA%20DO%20PLANO/SAÚDE%20E%20DIREITO%20DOS%20CLIENTES%20DO%20PLANO.docx%23_Toc76940949 1. INTRODUÇÃO A Constituição Federal de 1988 legitimou a saúde como um direito de to- dos e dever do Estado, com status de bem público, porém livre à iniciativa pri- vada, cujas instituições podem participar de forma complementar ao Sistema Único de Saúde (BRASIL, 1988). Desse modo, o sistema de saúde brasileiro é composto por dois subsistemas: o público e o privado (PIETROBON; PRADO; CAETANO, 2008). No início do século XXI 48,5 milhões de pessoas (cerca de 25% da popu- lação brasileira) usufruía assistência privada à saúde. (SCHWARTZ, 2001:149) Dentre os inúmeros fatores que possibilitaram o crescimento do setor, o mais expressivo é a procura por uma melhor assistência à saúde, tendo em vista a precariedade do Sistema Público de Saúde. Nesse cenário, os serviços privados, que nas décadas de 1970 e 1980 vinham se ampliando significativamente, passam a configurar o setor de saúde suplementar, sendo reconhecidos como parte da política nacional de saúde, sem, no entanto, ter suas atividades regulamentadas, normatizadas, orientadas e fiscalizadas. Isso só ocorre em 2000, com a criação da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) pela Lei nº 9.961, de 28 de janeiro de 2000. Diante da ausência de uma legislação específica para o setor da saúde suplementar, a norma mais frequente para a tentativa de resolução dos conflitos nas relações entre beneficiários e as operadoras dos planos de saúde era o Có- digo de Defesa do Consumidor, sendo o PROCON a instituição de referência. Segundo Andrade, Maia e Rodrigues (2013) e Alves, Bahia e Barroso (2009), as grandes questões que levavam os beneficiários a acionar o sistema judiciário, geralmente decorrentes de contratos “injustos e excludentes”, eram a restrição de cobertura, o acesso aos serviços, os aumentos dos preços praticados e a interrupção do tratamento de maneira unilateral, juntamente com questões rela- cionadas à portabilidade, descredenciamento de rede, entre outras questões re- ferentes mais estritamente ao direito do consumidor. Nesse contexto, a ANS passa a atuar basicamente na promoção da de- fesa do interesse público na assistência suplementar à saúde, regulando priori- tariamente as relações contratuais dos beneficiários com as operadoras dos pla- nos de saúde e, indiretamente, com os prestadores a estas vinculados, visando à garantia do acesso à assistência suplementar à saúde. Sua atuação, inicialmente, foi centrada em três pontos principais: susten- tabilidade do mercado; direito dos consumidores; produtos, valores e coberturas. Além disso, a agência teria como atribuição o controle da assimetria da informa- ção e a ampliação da participação do beneficiário no setor. A incidência da prá- tica regulatória na sustentabilidade do mercado tem destacado as ações direci- onadas para a intermediação dessas relações contratuais, as quais têm se con- figurado então como competência mais visibilizada da agência. O investimento em tais relações, nos últimos anos, parece ter garantido a ampliação e estabilidade do setor, com a democratização do acesso aos servi- ços, impulsionada ao mesmo tempo pelo aumento do poder aquisitivo de parcela considerável da população, ocasionada pelo desenvolvimento socioeconômico (SANTOS; MALTA; MERHY, 2008). A proposta de expansão de planos de saúde “acessíveis”, “populares” ou “baratos”, apresentada pelo Ministro da Saúde, Ricardo Barros, tem o mesmo traço de redução de direitos sociais expresso em outras medidas do atual go- verno, entre elas a PEC 241 (http://www.camara.gov.br/ proposições Web/ficha de tramitacao? Id Proposic ao=2088351), a Proposta de Emenda Constitucional que, se aprovada, reduzirá o gasto público per capita com saúde 1 e contribuirá para o aprofundamento das iniquidades no acesso à saúde no Brasil. Na ausência de esforços para a identificação dos problemas e dos deter- minantes da conjuntura política e econômica nacional, a expressão “crise”, es- tendida acriticamente para o sistema de saúde, é extraída diretamente de agen- das empresariais setoriais. Apresenta-se, como suposta solução única para a crise, a expansão do mercado de planos e seguros privados, mediante a comer- cialização de contratos com diminuição de coberturas assistenciais ou de esque- mas de copagamentos inibidores do uso dos serviços. Essa formulação é autóctone, embora mantenha conexão com o receitu- ário de agências multilaterais que preconizam a austeridade com radicalização do ajuste fiscal, e a redução das responsabilidades sociais dos Estados nacio- nais. Há encaixes entre a iniciativa de estimular planos baratos e recomenda- ções internacionais, como as do Banco Mundial, para a implementação de co- bertura universal de saúde para países de baixa e média rendas, com base em políticas de suporte à demanda, quePelotas: EDUCAT, 1998. 90. FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda, Dicionário Eletrônico da Língua Por- tuguesa. Versão 3.0. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira S/A. Lexikon Informá- tica, 2003. 91. _______ . Minidicionário da Língua Portuguesa. 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MONTEIRO, Meire Lúcia Gomes Monteiro (Coordenadora). Introdução ao Di- reito Previdênciário. São Paulo: Ed. LTr, 1998. 100. MONTENEGRO, Antonio Lindbergh C. Ressarcimento de Danos. 6ª ed. Rio de Janeiro. Ed. Lúmen Júris, 1999. 101. NETO, Antonio Joaquim Fernandes Neto. Plano de Saúde e Direito do Consu- midor. Belo Horizonte: Ed. Del Rey, 2002. 102. PIETRO, Maria Sylvia Zanella Di. Direito Administrativo. São Paulo: Ed. Atlas, 2000. VENOSA, Sílvio de Salvo. Teoria Geral das Obrigações e Teoria Geral dos Contratos. 3ª ed. São Paulo: Ed.Atlas S.A.,2003, p.199-234.(Coleção de Direito Civil; v.2) 103. PEREIRA, Caio Mário da Silva. Instituições de Direito Civil. 19ª ed. v. I. Rio de Janeiro: Ed. Forense, 2000. 104. PEREIRA, Caio Mário da Silva. Instituições de Direito Civil. 19ª ed. v. II. Rio de Janeiro: Ed. Forense, 2000. 105. QUEIROGA, Antônio Elias de. Responsabilidade Civil e o Novo Código Civil. Rio de Janeiro: Ed. Renovar, 2003. 106. SILVA, José Afonso da Silva. 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No entanto, a associação da proposta nacional de planos baratos aos câ- nones de agências multilaterais limita-se aos enunciados genéricos de promoção de maiores gastos privados de indivíduos e famílias, com estímulos ao modelo de pré-pagamento ou coparticipação. A fórmula inicialmente apresentada con- siste na conjugação da desregulamentação das regras de cobertura, especial- mente aquelas relacionadas com a possibilidade de redução do número de uni- dades assistenciais, de restrição da oferta de especialidades médicas e da me- nor abrangência territorial dos planos de saúde. Outra formulação aventada pretende a oficialização da “dupla porta”, que consiste no atendimento a pacientes e pagamentos pelo Sistema Único de Sa- úde (SUS) e por planos privados nas mesmas unidades de saúde públicas. Com a finalidade de elaborar “projeto de plano de saúde acessível”, um grupo de tra- balho 4 foi convocado pelo Ministro da Saúde, com a participação da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) e da Confederação Nacional das Empre- sas de Seguros Gerais, Previdência Privada e Vida, Saúde Suplementar e Capi- talização (CNSeg). Simultaneamente, parecer da Advocacia Geral da União (Consultoria Ju- rídica junto ao Ministério da Saúde. Memorando no 219, de 8 de agosto de 2016. Ressarcimento ao SUS) admitiu a possibilidade de estabelecimento de contratos individualizados “entre unidades prestadoras de serviços públicas e operadoras”, além do perdão das dívidas não pagas pelos planos de saúde referentes a co- branças do ressarcimento ao SUS. O núcleo central da viabilidade dos planos baratos parece consistir, pelo lado da demanda, no aumento das despesas diretas de indivíduos e famílias para a utilização de serviços de saúde e, pelo lado das empresas do setor, na integração oficial de parte da rede pública do SUS aos serviços credenciados pelos planos de saúde, como uma das estratégias para a redução dos custos com o cuidado de saúde prestado e, consequentemente, para a oferta de produ- tos de menor preço no mercado. As empresas de planos de saúde contariam, assim, com estabelecimen- tos públicos em sua rede de prestadores credenciados. Por sua vez, a redução das coberturas seria mitigada pelo uso de unidades públicas, nas condições de saúde, nos seus agravamentos e nas demais situações excluídas ou limitadas pelos contratos dos planos baratos. Ou seja, a universalidade e a integralidade previstas no SUS seriam avalistas da redução do preço da mensalidade dos pla- nos privados. Outras investidas nacionais para elevar planos baratos à condição de pro- grama governamental tiveram desenho menos extravagante. A primeira ocorreu no segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso, mediante Medida Provi- sória 5 logo após a aprovação da legislação setorial (Lei no 9.656/1998) que regulamentou as normas de cobertura e reajuste de preços dos planos de saúde. Naquela ocasião, os empresários buscavam desidratar conteúdos legais e fazer avançar a ideia de planos ainda mais restritos, por exemplo, subsegmen- tados por áreas geográficas, que ofertariam apenas o cuidado disponível nos serviços ali localizados. Nova investida aconteceu no final da primeira gestão de Dilma Rousseff, no contexto de alteração da estrutura da pirâmide de renda, cuja base foi deslocada para cima em função da ampliação dos postos de trabalho formalizados e do crescimento da massa salarial. Proprietários de grandes grupos econômicos ligados a planos de saúde, por meio de articulações paralelas, tais como reuniões com altas autoridades públicas e contratação de consultores entre personalidades políticas com acesso direto aos núcleos executivos governamentais, buscaram obter subsídios públi- cos para expandir a oferta de planos “básicos” para milhões de brasileiros 6. A onda de bonança estimulou, ainda, a apresentação, pelo então depu- tado Eduardo Cunha, de PEC 451 (http://www.camara.gov.br/proposi- coesWeb/fichadetramitacao?idProposicao= 861000) que, se aprovada, tornará obrigatória a oferta de plano privado pelos empregadores. O SUS, nessa arru- mação, seria destinado aos trabalhadores do mercado informal. Cabe ressaltar que o legislativo brasileiro é ambiente permeável aos interesses particulares dos planos de saúde. As empresas ou empresários do setor destinaram, segundo registros no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), R$ 54,9 milhões a campanhas eleitorais em 2014 7, contribuindo para a eleição de três senadores e 30 deputados federais, entre eles o ex-deputado Eduardo Cunha e o atual Ministro da Saúde, Ricardo Barros. A fórmula brasileira de “planos baratos” contém uma sobrecarga de prag- matismo. Sempre no presente ou no curto prazo, seus defensores evocam a conjuntura econômica e as situações “sem saída”, mas, no fundo, pouco se im- portam com os sinais positivos ou negativos de crescimento econômico. O uso e a mistura de ingredientes do senso comum, como a impossibili- dade do SUS de atender a todos, ou as afirmações de gestores de que o SUS constitucional precisa ser revisto 8, ecoadas por setores com inequívoca força social, confluíram para a apresentação de uma solução “mágica”, carregada de elevadíssimo teor ideológico, mas com um envoltório técnico e de defesa do bem comum 9. No entanto, existem matizes nas proposições de planos “acessíveis” que, se explicitadas, subsidiam a reflexão e a ação política. Sob o pressuposto de que os sistemas públicos de países de baixa e mé- dia rendas são incapazes de propiciar efetivamente coberturas universais, de- fensores da transição de sistemas baseados na oferta e nas redes públicas para sistemas direcionados pela demanda e pelos contratos de pré-pagamento, ad- mitem soluções distintas: para os países ricos prescreve-se o modelo universal clássico, seja via serviço nacional de saúde, seja via seguro social, e para os demais países restaria a proposta de cobertura universal 3. Diversas condições e circunstâncias têm servido de pretexto para a natu- ralização de assimetrias sociais e, especialmente, para a aquiescência em rela- ção a padrões diferenciados de direito à saúde. Entre elas, a dificuldade de ar- recadação de contribuições sociais e impostos, já que uma parcela importante da população trabalha no setor informal; o subfinanciamento e a insatisfação social com a baixa qualidade do cuidado prestado por redes assistenciais públi- cas; o grande número de agentes e barreiras burocráticas e institucionais (veto players e veto points), que impedem reformas radicais e políticas redistributivas; além da limitada disponibilidade de informação sobre a opinião e a experiência das pessoas no acesso e uso de serviços de saúde, o que distancia as decisões políticas das prioridades da população 3. Somam-se, ainda, à proeminência do setor privado nos sistemas de saúde de países em desenvolvimento e a existên- cia de sistemas públicos organizados em torno de programas verticais 10. O mercado de planos de saúde se caracteriza pela atuação das segura- doras de saúde, das empresas de medicina de grupo, das cooperativas médicas e das entidades de autogestão. Na qualidade de terceiro-pagador, essas orga- nizações vendem planos de pré-pagamento que intermedeiam o financiamento do acesso aos serviços privados de saúde, protegendo os segurados do risco associado ao custo de adoecer. Isso permite, ademais, uma queda do montante do desembolso direto das famílias, pois seu gasto potencial pode ser dividido entre um conjunto de segurados. Desde fins da década de 1960, um número crescente de trabalhadores passou a ser coberto pelos planos de saúde, seja mediante a celebração de contratos individuais, seja mediante a adesão a um contrato empresarial ou as- sociativo. A assistênciaà saúde, assim, se transformava em um bem de consumo — um bem de consumo médico (Luz, 1991) — no âmbito do mercado de traba- lho. Anos mais tarde, entretanto, esperava-se que a implantação do Sistema Único de Saúde (SUS) na Constituição de 1988 pudesse reverter em parte essa situação, dado o acesso universal dos seus serviços. No entanto, o SUS não fora capaz de atrair para o seu interior as famílias que compunham o núcleo dinâmico da economia, fenômeno conhecido grosso modo como universalização excludente (Faveret Filho e Oliveira, 1990). Dentre as principais causas atribuídas a esse fenômeno estariam a escassez da oferta e a baixa qualidade dos serviços oferecidos pelo sistema público 1.1METODOLOGIA Para a construção deste material, foi utilizada a metodologia utilizada de pesquisa bibliográfica, com o intuito de proporcionar um levantamento de maior conteúdo teórico a respeito dos assuntos abordados. Através de pesquisa bibliográfica em diversas fontes, o estudo se desen- volve com base na opinião de diversos autores, concluindo que a formação e a motivação são energias que conduzem a atividade humana para o alcance dos objetivos de excelência na prestação de serviços públicos e podem também se converter nos principais objetivos da gestão de pessoas no setor público e no fundamento de sua existência. A pesquisa bibliográfica consiste em um levantamento de informações e conhecimentos acerca de um tema a partir de diferentes materiais bibliográficos já publicados, colocando em diálogo diferentes autores e dados. Entende-se por pesquisa bibliográfica a revisão da literatura sobre as principais teorias que norteiam o trabalho científico. Essa revisão é o que cha- mamos de levantamento bibliográfico ou revisão bibliográfica, a qual pode ser realizada em livros, periódicos, artigo de jornais, sites da Internet entre outras fontes. 2. CLASSIFICAÇÃO JURÍDICA DO DIREITO À SAÚDE Não obstante a Constituição de 1988 conferir à saúde o status de um di- reito do cidadão faz-se imperioso analisar qual a classificação jurídica desse di- reito. O direito à saúde encontra-se esculpido no Título II da CR/88 sob a égide “Dos Direitos e Garantias Fundamentais” trata-se, portanto, de um direito funda- mental da pessoa humana. Ainda que restasse alguma dúvida quando ao caráter fundamental do direito à saúde, a Lei 8.080/90, em seu artigo 2º, expressamente, determina que “a saúde é um direito fundamental do ser humano, devendo o Estado prover as condições indispensáveis ao seu pleno exercício”. Direitos fun- damentais, nos dizeres de José Afonso da Silva, (2000:182) “se trata de situações sem as quais a pessoa humana não se realiza, não convive e, às vezes, nem sobrevive; fundamentais do homem no sentido de que a todos, por igual, devem ser, não apenas formalmente reconhecidos, mas concreta e materialmente efetiva- dos” Como a saúde é um elemento indispensável à vida humana, se o indiví- duo não usufrui de boa saúde (bem-estar físico, mental e social), seu direito à vida está sendo ameaçado. Destarte, como os direitos fundamentais são prerro- gativas sem as quais os indivíduos não podem se realizar, resta claro que a sa- úde é um direito fundamental. Afinal, se um cidadão não tem acesso à saúde (preventiva, curativa ou qualidade de vida), a concretização de seus projetos e sonhos restarão frustrados. Enquanto direito fundamental, o direito à saúde é inalienável, pois não possui conteúdo patrimonial, logo, não pode ser transferido, negociado; é im- prescritível, porque nunca deixa de ser exigível, contra ele não corre prescrição haja vista que esta é instituto peculiar dos direitos patrimoniais; é irrenunciável, pois o indivíduo não pode renunciar seu direito à saúde, ainda que não o exerça, tal fato não configura renúncia. (SILVA, 2000: 185) Tendo em vista que o direito à saúde é um direito fundamental, as normas constitucionais referentes à saúde são normas de aplicabilidade imediata e de eficácia plena. Nos termos do art. 5º, §1º da CR/88 “as normas definidoras dos direitos e garantias fundamentais têm aplicação imediata”, ou seja, não é neces- sário que uma lei posterior regulamente o assunto para que o direito seja exigí- vel, pois, a própria norma constitucional impõe ao Estado o dever de prover as condições necessárias ao pleno exercício do direito à saúde, bem como de abs- ter-se de todo ato que possa coloca-la em risco. O título II da CR/88, que disciplina os direitos fundamentais é subdividido em cinco capítulos: “Dos direitos individuais e coletivos”, “Dos direitos sociais”, “Da nacionalidade”, “Dos direitos políticos” e por fim, “Dos partidos políticos”. O direito à saúde está inserido no art. 6º do Capítulo II, que trata dos direitos soci- ais, segundo o qual: “Art. 6º. São direitos sociais a educa- ção, a saúde, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos de- samparados, na forma desta Constituição”. Daí se infere mais uma característica do direito à saúde, trata-se de um direito social. Os direitos sociais são aqueles que exigem uma prestação positiva do Estado, independentemente das possibilidades financeiras do indivíduo. As- sim, a saúde é um direito social porque exige uma conduta positiva do Estado - prestação da assistência à saúde a toda a sociedade indistintamente. Os direitos sociais estão intimamente ligados ao direito de igualdade so- cial, e têm por finalidade proporcionar a melhoria das condições de vida dos hi- possuficientes que, sem a ação do Estado, não teriam acesso a serviços de sa- úde, educação e segurança, por exemplo. Ainda que o direito à saúde tenha sido regulamentado no capítulo II da CR/88, que trata dos direitos sociais, parte da doutrina nacional entende que, inobstante ser um direito social, trata-se também de um direito individual, haja vista que “a saúde é, senão o primeiro, um dos principais componentes da vida, seja como pressuposto indispensável para sua existência, seja como elemento agregado à sua qualidade” (SCHWARTZ, 2001: 52). Assim, como o direito à vida é um direito individual, a saúde, na qualidade de direito conexo àquele, também o é. Daí se infere que o direito à saúde confere ao indivíduo uma autonomia, independência diante dos demais membros da so- ciedade e do Estado. Assim, muito embora se fale em direitos sociais ou políti- cos, é inquestionável que tais direitos possuem um caráter individual, afinal é o indivíduo que irá exercer o direito à saúde, assim como é o indivíduo que irá exercer o direito de voto. Não obstante ser um direito social, a saúde é, também, um direito difuso. Natureza, esta, inquestionável, pois não há como determinar quem são os titu- lares do direito à saúde, afinal, toda coletividade o é, razão pela qual o Estado deve garantir o acesso à saúde a todos, indistintamente. Com o advento do Có- digo de Defesa do Consumidor (CDC), Lei nº 8.078/90, a saúde passa a ser concebida como um direito do consumidor. É o que se depreende do texto do art. 6º, §1º, segundo o qual “são direitos básicos do consumidor: a proteção da vida, saúde e segurança contra riscos provocados por práticas no fornecimento de produtos e serviços considerados perigosos ou nocivos”. Por derradeiro, o direito à saúde é também um direito público subjetivo. Ao determinar que “a saúde é direito de todos e dever do Estado”, o art. 196 da CR/88 estabelece um vínculo jurídico entre o Estado/devedor e o cidadão/credor. Esse vínculo jurídico impõe ao Estado obrigações positivas e negativas em rela- ção à assistência à saúde, e confere ao cidadão o direito subjetivo de exigir do Estado as prestações que lhe são devidas. Como o cidadão tem direito à prestação sanitáriado Estado, caso este seja omisso quanto à sua obrigação, ou seja, se o Estado não desempenhar seu papel de garantidor do direito à saúde, o indivíduo poderá reclamar a tutela judi- cial e/ou administrativa, a fim de obter a satisfação de seu direito. A classificação do direito à saúde como um direito público subjetivo, opo- nível contra o Estado, é um corolário do princípio da aplicabilidade imediata e eficácia plena dos direitos fundamentais. Afinal, caso o Estado seja omisso quanto às prestações sanitárias, o indivíduo poderá pleitear a tutela judicial ou administrativa, a fim de que a prestação sanitária seja efetiva e eficaz. 3. SAÚDE SUPLEMENTAR Se por um lado a assistência à saúde é um dever do Estado. Por outro, o Poder Público admite que as ações e serviços de saúde sejam prestados pela iniciativa privada. É o que se depreende do art. 199, “caput”, segundo o qual a assistência á saúde é livre à iniciativa privada. Assim, além dos serviços de saúde prestados pelo SUS, a Carta Consti- tucional admite que pessoas físicas e jurídicas de direito privado (hospitais, cli- nicas, operadoras de planos de saúde), prestem esses serviços mediante uma contra prestação dos usuários. A assistência à saúde não constitui um monopólio do Estado. Entretanto, por se tratar de um direito fundamental de relevância pública, quando prestada por entidade privada, está submetida à regulamentação, fiscalização e controle do pode Público. Essa assistência à saúde exercida por entidades privadas, financiada di- retamente pelo usuário, caracteriza o setor chamado de saúde suplementar. O relatório da OPAS, supracitado, faz menção a serviços exclusivamente privados, que realmente o são, afinal, a saúde suplementar é financiada única e exclusi- vamente por seus usuários. 4. OBJETO DA RELAÇÃO JURÍDICA DE NATUREZA PRI- VADA O direito subjetivo público à saúde é o objeto da relação jurídica estabe- lecida constitucionalmente entre o Estado e o indivíduo. No que tange à assis- tência privada, a relação jurídica se estabelece mediante contrato privado de assistência à saúde. Constitui objeto destes contratos a assistência à saúde. Ou seja, na relação jurídica de direito privado não existe um direito público subjetivo à saúde (esta compete ao Estado prestar), mas há tão-somente um direito à assistência à saúde. Elucidativo é o comentário do Prof. Antonio Joaquim Fernandes Neto (2002:113), segundo o qual “há uma enorme diferença entre o direito subjetivo público à saúde, garantido pela Constituição, e o direito à assistência à saúde, que, na Lei de Planos de Saúde, se restringe à assistência médica, hospitalar e odontológica”. Quando uma pessoa contrata um serviço de assistência privada à saúde, está contratando, apenas, alguns serviços expressamente elencados no instru- mento contratual. Na seara do direito privado, não há que se observar os princí- pios da universalidade (apenas o contratante e seus dependentes poderão usu- fruir os serviços contratados) e da integralidade (o contratante só tem direito aos serviços efetivamente contratados). A fim de evitar abusos das entidades privadas de assistência à saúde, a Lei de Planos de Saúde institui um plano-referência, ditando a cobertura mínima que as operadoras de planos de saúde devem assegurar. O próprio plano-refe- rência possui limitações, excluindo de sua cobertura, dentre outros, os procedi- mentos clínicos ou cirúrgicos para fins estéticos e as inseminações artificiais. Ora, se o contratante não tem direito a uma assistência integral e gratuita, conclui-se que o objeto da relação contratual privada não é o direito subjetivo à saúde, 36 mas tão-somente o direito à assistência à saúde, nos moldes estipu- lados no contrato. A esse respeito, perspicaz é a observação do Prof. Antonio Joaquim Fer- nandes Neto (2002:121) para quem: “O setor privado, mesmo por meio das grandes empre- sas que atuam no setor de planos e seguros de saúde, não po- deria assumir a responsabilidade atribuída ao Estado de reduzir as doenças e outros agravos e promover o acesso de todos às ações e aos serviços de saúde. Tampouco seria possível exigir que as operadoras de planos de saúde se obrigassem a garantir o completo bem-estar, físico, psíquico e social, de todos os seus clientes”. 5. A REGULAMENTAÇÃO DA LEI DOS PLANOS DE SAÚDE Diante da deficiência e inoperância da assistência médica prestada pelo INANPS, na década de 70, as empresas precisaram buscar alternativas para garantir a assistência à saúde de seus empregados. Neste contexto, surgiram as entidades privadas especializadas na assistência à saúde que, nas décadas seguintes, cresceram de forma surpreendente. Por um período de quase 30 anos, no entanto, o setor atuou sem uma regulamentação específica. Várias empresas foram criadas, mas por motivos desconhecidos fracassaram, causando prejuízos a consumidores e prestadores de serviços (NETO, 2002:42). Durante esse período, inúmeras ações foram interpostas no judiciário, questionando os contratos celebrados com as entidades privadas. Assim, a fim de regulamentar as ações das operadoras de planos de saúde, o Congresso Nacional aprovou a Lei 9.656, de 03.06.1998 – Lei de Planos de Saúde (LPS), que trata, desde a autorização para funcionamento destas empresas até as cláu- sulas que devem constar dos contratos celebrados com prestadores de serviços e consumidores. Compete ao Poder Público regulamentar, fiscalizar e controlar os serviços de saúde (art. 197, in fine). Com a edição da Lei 9.656/98, o Estado passou a intervir diretamente no setor de assistência privada à saúde, regulamentando-o, fiscalizando-o e con- trolando-o, ainda que com uma década de atraso. 6. ENTIDADES OPERADORAS DE PLANOS PRIVADOS DE ASSISTÊNCIA À SAÚDE Nos termos do art. 1º da LPS submetem-se às disposições desta Lei as pessoas jurídicas de direito privado que operam planos de saúde. Planos de sa- úde são sistemas de prestação de serviços médico-hospitalares, para atendi- mento em larga escala, com custos controlados. Configura, via de regra, contratação com pré-pagamento e com ofereci- mento de rede própria, credenciada ou referenciada de hospitais, clínicas, médi- cos, laboratórios etc. Alguns planos, no entanto, admitem também a livre escolha de serviços mediante reembolso nos termos definidos em contrato e em tabela de preços. No que concerne às operadoras, são os fornecedores de planos que ofe- recem serviços privados de assistência à saúde, ou seja, são as pessoas jurídi- cas, constituídas sob a modalidade de sociedade civil ou comercial, cooperativa, ou entidade de autogestão, que operam os planos de saúde. As 3 principais categorias são: Medicina de Grupo: Na década de 60 os serviços de saúde prestados pelo Estado mostraram-se incapazes de satisfazes às necessidades dos trabalhadores. Neste momento surgiram as empresas es- pecializadas na venda de serviços médicos ao setor industrial. Os médicos se organizaram em grupos, criando uma estrutura de atendi- mento, com custos fixos e previsíveis, e passaram a vender esses serviços do grupo às grandes empresas. Com a edição da CR/88, essas empresas dedica- das à “medicina de grupo”, ampliaram seu campo de atuação dando origem às empresas especializadas em planos de saúde. Em 1998 representavam 47% do mercado de serviços privados (OPAS, 1998:31). Cooperativas médicas: As Cooperativas Médicas são instituições em que os médicos, além de prestadores de serviços, são também co-proprietários; re- cebem pagamentos na proporção dos atos médicos que realizam a título de "adi- antamento" e, no encerramento de cada exercício, também uma participação nos resultados, nas "sobras" das transações realizadas, que podem ser destina- das a fundos de benefício social ou de reinvestimento, de acordo com decisões tomadas emassembléia geral de cooperados. Um exemplo muito conhecido em todo o país, de cooperativa médica, é a Unimed. Em 1988 representavam 25% do setor privado de assistência à saúde (OPAS, 1998:31). Autogestão: São empresas, ou outro tipo de organização como as socie- dades civis e fundações, que instituem e administram os planos de saúde de seus empregados, sócios, e beneficiários. Daí serem chamadas de entidades fechadas, pois ao contrário da Medicina de Grupo e das Cooperativas, não estão abertas a todas as pessoas, ao contrário, só prestam assistência à saúde de seus empregados ou associados. A assistência à saúde prestada por estas entidades dá-se através de con- tratos privados de prestação de serviços, celebrados entre as operadoras e par- ticulares ou empresas, por meio dos quais o indivíduo (particular ou empregado) terá direito aos serviços privados de assistência à saúde. O mercado de planos de saúde se caracteriza pela atuação das segura- doras de saúde, das empresas de medicina de grupo, das cooperativas médicas e das entidades de autogestão. Na qualidade de terceiro-pagador, essas orga- nizações vendem planos de pré-pagamento que intermedeiam o financiamento do acesso aos serviços privados de saúde, protegendo os segurados do risco associado ao custo de adoecer. Isso permite, ademais, uma queda do montante do desembolso direto das famílias, pois seu gasto potencial pode ser dividido entre um conjunto de segurados. Desde fins da década de 1960, um número crescente de trabalhadores passou a ser coberto pelos planos de saúde, seja mediante a celebração de contratos individuais, seja mediante a adesão a um contrato empresarial ou associativo. A assistência à saúde, assim, se transformava em um bem de consumo — um bem de consumo médico (LUZ, 1991) — no âmbito do mercado de traba- lho. Anos mais tarde, entretanto, esperava-se que a implantação do Sistema Único de Saúde (SUS) na Constituição de 1988 pudesse reverter em parte essa situação, dado o acesso universal dos seus serviços. No entanto, o SUS não fora capaz de atrair para o seu interior as famílias que compunham o núcleo dinâmico da economia, fenômeno conhecido grosso modo como universalização excludente (FAVERET FILHO E OLIVEIRA, 1990). 7. INFORMAÇÃO ASSIMÉTRICA Os consumidores não detêm conhecimento suficiente, tampouco os meios para identificar e resolver seus problemas de saúde. Por isso, eles procu- ram os serviços de saúde, na medida em que o médico possui habilidades es- pecíficas para diagnosticar e recomendar ações terapêuticas. Para discutir esse tema, o foco da análise tradicional baseia-se nos problemas de agência do mer- cado de planos de saúde, isto é, nos problemas relativos ao supplier-induced demand e nos efeitos da introdução de mecanismos de competição e incentivos financeiros na conduta dos médicos (SCOTT E FARRAR, 2003: 77). Na presença de informação assimétrica, as relações contratuais entre se- guradoras, prestadores médico-hospitalares e consumidores podem apresentar desequilíbrios decorrentes dos denominados problemas de agência. Diz-se que, na relação entre o agente (plano de saúde) e o principal (paciente), o abuso dos consumidores (no tocante ao sobreconsumo e ao gasto excessivo) e a presença de seleção adversa (impossibilidade de discriminar as pessoas segundo o risco de adoecer) poderiam levam a uma maior utilização dos serviços e um aumento dos prêmios, sendo — em tese — fontes de ineficiência no sentido de Pareto, ao impedir a obtenção da melhor alocação possível (ANDRADE E LISBOA, 2001). Cumpre assinalar, em particular, que o pedido excessivo de exames — cujos resultados são negativos a posteriori — pode derivar de outros fatores, tais como o método de remuneração dos prestadores (ANDREAZZI, 2003), a precá- ria formação profissional, a baixa remuneração que induz o médico a usar apoio diagnóstico para reduzir o tempo da consulta e a ausência de protocolos clínicos. Em especial, a presença desse último poderia atuar nas duas pontas, inibindo o racionamento, mas também o abuso de exames complementares, ao menos da- queles procedimentos padronizáveis e daquelas ações de prevenção de grande impacto sobre a saúde coletiva. Nesse quadro, como o consumidor não é “soberano” nesse mercado, Fi- gueras diz que em um contexto de competição perfeita, (...) a demanda é o re- sultado de preços e quantidades que o consumidor está disposto a pagar. O preço que os produtores conseguem depende do que os consumidores gosta- riam de consumir, assim como dos seus bens substitutos. Sem dúvida, isto não ocorre no mercado de serviços de saúde, onde as falhas de mercado se multi- plicam. Em primeiro lugar, a principal demanda dos recursos sanitários provêm na realidade de decisões adotadas pelo provedor (o médico). Em segundo lugar, os consumidores se encontram muito limitados para julgar a qualidade dos ser- viços. Ademais, a demanda com que, muitas vezes, se requerem os serviços de urgência restringem as possibilidades de uma escolha livre e ótima. (FIGUERAS, 1991: 6, tradução livre) Em alguns casos, os médicos tendem também a sonegar informações aos pacientes, apesar do compromisso ético da categoria. Nessa linha, tratando da informação assimétrica no contexto da relação médico-paciente, Phelps alerta que “o simples motivo do lucro entra em conflito com tal compromisso, o que poderia levar o médico a tomar decisões diferentes. Em suma, o médico poderia enganar o paciente e ganhar mais dinheiro com isso” (PHELPS, 1997: 7, tradu- ção livre). De sua parte, os consumidores, em posse do diagnóstico da sua doença, poderiam em tese omitir suas condições de saúde, quando contratam um plano de saúde. Daí a existência de um sério contencioso jurídico acerca da cobertura de doenças preexistentes entre os órgãos de defesa do consumidor, as agências reguladoras e as operadoras de planos de saúde. Segundo a seminal publicação de Arrow (1963: 964-966), há incerteza no tocante aos efeitos do tratamento de uma pessoa enferma, isto é, em relação aos resultados da intervenção médica. Em nossos termos, de um lado, nada garante que a conduta médica adotada seja bem-sucedida em direção à cura do paciente: o diagnóstico pode ser equivocado, a terapia pode ser inadequada, ou determinada cirurgia pode ter sido um sucesso do ponto de vista clínico, mas o paciente morre durante a cirurgia, por motivos alheios à conduta médica prees- tabelecida. De outro, em relação à eficácia de um tratamento específico, há incerteza quanto aos remédios prescritos, ao tipo de terapia recomendada ou à validade da introdução de novas técnicas cirúrgicas, com ou sem o uso de tecnologias sofisticadas. Ademais, para aquelas nosologias em que o diagnóstico de cura ainda não foi descoberto, sendo a expressão mais cruel de tais incertezas, ha- veria sérias implicações quanto ao custo do tratamento envolvido. Em uma di- mensão econômica, isso tornaria pouco clara a eficácia dos prestadores no to- cante ao provimento do bem-estar dos consumidores. São os casos em que o consumo ou a produção de um bem ou serviço têm efeitos positivos ou negativos marginais sobre outros indivíduos que não aqueles diretamente envolvidos no ato de consumir ou produzir. No episódio dos cuidados médicos, existe um valor social associado ao consumo: ao ser vaci- nado, por exemplo, o cidadão evitaria que outras pessoas fossem contaminadas, gerando uma externalidade positiva para a sociedade. Isso caracterizaria, portanto, a presença de bens públicos os quais, a um só tempo, não excluem do seu consumo um indivíduo em particular (não-exclu- sividade) ou a sua quantidade disponível (não-rivalidade). É, igualmente, o caso do controle da poluição, do combate a vetores de doenças e das ações de vigi- lância sanitária e epidemiológica. Da ótica dos planos de saúde, a coberturade bens e serviços desse tipo poderia implicar benefícios marginais para a clientela do plano concorrente — free riders — sem a desejável cotização dos custos. Assim, a forte presença de externalidades não ajudaria os mecanismos de mercado, tais como os incentivos e a competição, na alocação de recursos da maneira mais eficiente: “O mercado, não avaliando a externalidade, fi xaria um preço muito alto para vacina (...) e não seria obtida uma solução eficiente (a quantidade consumida seria inferior à ótima)” (MARTÍN, 1996: 77). É inegável que o usuário de plano de saúde é um consumidor, o que o torna titular dos direitos previstos no Código de Defesa do Consumidor (Lei 8.078, de 11 de setembro de 1.990). Isso decorre da combinação dos artigos 2º e 3º do CDC, posto que o usu- ário é pessoa física que adquire e utiliza serviço como destinatário final (art. 2º do CDC), e o plano de saúde é pessoa jurídica de direito privado que desenvolve atividade de comercialização e de prestação de serviço (art. 3º do CDC). A própria legislação específica da saúde suplementar prevê a aplicação do CDC aos contratos de plano de saúde, de forma subsidiária. Segundo Clayton Maranhão (VIEIRA, BENEVIDO; 2016); "muito embora os planos de saúde estejam regulados por nor- mas específicas (...), a própria Lei 9656/98 indica no art. 35-G que se aplicam subsidiariamente aos contratos entre usuários e operadoras de planos privados de saúde as disposições do Código de Defesa do Con- sumidor". Por se tratarem de normas protetivas do consumidor, a subsidiariedade consiste na agregação dos direitos garantidos pelo CDC aos já previstos na le- gislação específica. 8. O DIREITO DO CONSUMIDOR À INFORMAÇÃO Compreendido o usuário de plano de saúde como consumidor, cabe ana- lisar um direito garantido pelo Código de Defesa do Consumidor – o direito à informação. Esse direito decorre do inciso III do art. 6º do CDC, que diz expres- samente ser direito básico do consumidor "a informação adequada e clara sobre os diferentes produtos e serviços, com especificação correta de quantidade, ca- racterísticas, composição, qualidade e preço, bem como sobre os riscos que apresentam". Esse direito à informação deve ser interpretado da forma mais ampla pos- sível, abrangendo, também, o direito a todas as informações que digam respeito ao objeto do contrato. Ou seja, a disposição do art. 6º, III, do CDC, deve ser considerada como um rol exemplificativo, não afastando direito a outras informa- ções decorrentes da relação de consumo. https://jus.com.br/tudo/direito-do-consumidor Isso também decorre da boa-fé que se deve ter nos contratos, conforme determina o art. 422 do Código Civil e o art. 4º, III, do CDC. Segundo Nelson Nery Junior (PREKER, LINDNER et al; 2013): "No sistema brasileiro das relações de consumo, houve opção explícita do legislador pelo primado da boa-fé. Com a menção expressa do art. 4º, III, do CDC à ‘boa-fé e equilíbrio nas relações entre consumidores e fornecedores’, como princípio básico das relações de consumo (...), de modo a fazer com que haja ‘transparência e harmonia nas relações de consumo’ (art. 4º, caput, CDC), mantido o equilíbrio entre os contratantes". A boa-fé – da qual decorre o dever de informação, transparência e har- monia – é ainda mais qualificada em sede de contratos de plano de saúde, dado o caráter de direito fundamental que se dá à saúde, nos termos do art. 6º da Constituição Federal. Desta forma, o usuário de plano de saúde tem direito a todas as informa- ções que digam respeito à sua relação com a operadora do plano, sendo que qualquer ato desta que vise tolher ou prejudicar esse direito deve ser repudiado e reparado. A obrigatoriedade de se informar o consumidor de forma precisa, clara e completa decorre naturalmente da qualidade de fornecedor no mercado de con- sumo. Ainda assim, a Resolução 08/1998 do Conselho Nacional de Saúde Su- plementar – CONSU, através do art. 4º, impôs às operadoras de planos de saúde o dever de "fornecer ao consumidor laudo circunstanciado, quando solicitado, bem como cópia de toda a documentação relativa às questões de impasse que possam surgir no curso do contrato (...)". Por tudo o que se sustentou até aqui, em especial quanto à extensão do direito à informação, é inequívoco que o usuário tenha direito às informações acima mencionadas, já que são fundamentais para que se possa apurar se real- mente o contrato está sendo cumprido, e para que se possa, quando o caso, reclamar uma revisão do pedido. Mais do que isso, o usuário tem o direito a receber tais informações por escrito, já que isso é medida que permite que ele possa buscar a proteção juris- dicional de seus direitos, de forma adequada e eficaz, conforme garante o art. 6º, VII e VIII, do Código de Defesa do Consumidor. Em suma, é direito do consumidor ser informado em tempo razoável, por escrito, de forma justificada, clara, precisa e completa. 9. A DIFICULDADE EM EFETIVAR O DIREITO À INFORMA- ÇÃO NOS CONTRATOS DE PLANO DE SAÚDE Mesmo sendo cristalino o direito do usuário de plano de saúde em rece- ber, de forma clara e por escrito, todas as informações que digam respeito às negativas de consultas ou procedimentos, na prática o que se percebe é que muitas empresas fornecedoras do serviço de plano de saúde ignoram esse di- reito, deixando os usuários desamparados ou, ao menos, prejudicados, quando da busca do cumprimento adequado do contrato. Em muitos casos, a negativa é feita por telefone, não sendo fornecido ao usuário qualquer transcrição da conversa; outras vezes, essa negativa vem acompanhada de um número de protocolo, mas, ao se buscar informações sobre esse protocolo (em especial pelo site da empresa), nenhuma informação apa- rece; em outros casos, sequer é informado ao usuário a negativa, deixando-o por meses angustiado por uma resposta que nunca vem. Essa postura, como dito, tem um único intuito – tolher ou prejudicar o usu- ário no momento de buscar saber se a negativa é justa, ou no momento de bus- car a proteção do Poder Judiciário para a reparação da violação do direito do consumidor. É lamentavelmente costumeiro o desrespeito ao direito de o consumidor receber informação adequada das operadoras de planos de saúde, como regis- trou Joseane Suzart Lopes da Silva ( FOX, 2015): "A vulnerabilidade dos consumidores é flagrante diante dos planos de saúde, uma vez que atrelados a estes de forma duradoura – sem a pretensão de findar a relação formalizada, pois busca-se uma proteção futura e o não disperdício do quanto já pago – terminam acei- tando os abusos cometidos". 10. O DIREITO À INFORMAÇÃO CLARA, PRECISA E COM- PLETA NOS CASOS DE NEGATIVA DE PEDIDOS POR PARTE DO USUÁRIO Não é difícil entender que o usuário do plano de saúde tem direito, quando da contratação, a todas as informações sobre seus direitos e deveres, o que deve compreender, dentre outros, os procedimentos cobertos, a forma para so- licitar procedimentos e consultas e a forma para reclamar seus direitos perante a própria empresa. Mas o que realmente pretende-se neste estudo é demonstrar que, quando o usuário pretende alguma consulta ou procedimento, e isso lhe é negado, há o direito à completa informação, abrangendo, em especial, o exato motivo da ne- gativa (apontando-se, quando possível, a cláusula do contrato ou o dispositivo de lei que sustenta a negativa), a data em que ocorreu, quem determinou a ne- gativa, e, quando for o caso, o procedimento a ser tomado pelo usuário para pedir uma revisão dessa negativa. Não deve o consumidor aceitar, inerte, os abusos. Passa-se a analisar os meios pelos quais se pode efetivar o direito à informação. 11. REMÉDIOS E REFLEXOS JUDICIAIS PARA ESSA PRÁ- TICA Através da Lei 9961/2000, foi criada a Agência Nacional de Saúde Suple- mentar – ANS, entidade autárquicacuja função é regulamentar e fiscalizar o de- senvolvimento das atividades do setor. "Essa intervenção se fez necessária porque a maioria dos contratos cele- brados na área de saúde são de consumo e o consumidor estava desprotegido, pois era obrigado a contratar por ser tratar de serviço de natureza pública e es- sencial, submetendo-se, em muitos casos, à imposição de cláusulas abusivas impostas em seu desfavor, dificultando-lhe a prestação dos serviços contratados (...)". (M.S, 2016) A ANS mantém postos em praticamente todos os Estados, para atender às demandas dos consumidores dos planos de saúde e para fiscalizar a ativi- dade das operadoras, inclusive aplicando sanções, quando necessário. ( M.P 2177) Uma primeira possibilidade, portanto, é abrir uma reclamação junto à ANS, o que pode ser feito pelo serviço de atendimento por telefone (0800.701.9656) ou pela internet (www.ans.gov.br). A reclamação não tem as mesmas consequências do que uma ação judicial, mas pode surtir efeitos, já que a ANS pode exigir explicações junto à operadora de plano de saúde, forçando-a a informar adequadamente o consumidor. Além disso, a comprovação de recla- mação na ANS forma um indício acerca da negativa, o que certamente pode vir a ser usado em futura ação judicial. Outra possibilidade é enviar uma notificação à operadora de plano de sa- úde, cobrando as informações acerca dos motivos da negativa da consulta ou do procedimento. Para garantir a prova do teor e do recebimento, o mais seguro é que tal notificação seja feita por meio de Cartório de Títulos e Documentos (extrajudicial) ou por meio de notificação judicial, já que cartas, ainda que com aviso de recebimento, não têm o condão de provar o conteúdo. Enviar um e-mail exigindo informações também pode servir, quando se puder obter cópia do e-mail. Registrar reclamação junto à ouvidoria da opera- dora, exigindo-se número de protocolo, também é aconselhável. Isso dificilmente gerará resultados imediatos, mas pode ser utilizado no processo como indício da negativa. Essa preocupação em documentar a situação (negativa injustificada) tem uma finalidade: a de facilitar a prova do fato no processo. Isso porque, quando não se tem qualquer documento, a alegação da negativa no processo não passa de mera alegação, permitindo que a operadora, no processo, altere a realidade dos fatos, sempre em prejuízo do usuário. Além disso, facilita-se a obtenção de provimentos liminares. 12. MOVER AÇÃO JUDICIAL. Neste caso, o interesse pode se limitar a documentar o ocorrido (negativa sem motivo), o que poderá ser feito por medida cautelar de justificação. Isso apenas terá utilidade se for para documentar a situação para uma futura outra ação, senão de nada servirá. O mais comum é propor ação para o cumprimento do contrato, pleiteando que o juiz determine a autorização que foi negada. Neste caso, deverão ser uti- lizados os documentos comprobatórios do ocorrido, acima estudados, como prova da negativa. Como não se terá o motivo (já que, para o presente estudo, se está par- tindo da situação em que o motivo não é informado por escrito ao usuário), o Judiciário deverá considerar a negativa como sem motivos, não podendo aceitar, posteriormente, qualquer outra justificativa apresentada pela operadora, já que, se isso ocorrer, se estará aceitando uma manobra astuciosa em prejuízo do sis- tema de defesa dos consumidores a) O usuário de plano de saúde, contratado diretamente com a empresa fornecedora do plano, é consumidor para os fins do Código de Defesa do Con- sumidor, fazendo jus aos direitos nele previstos, em especial o direito à informa- ção. b) O direito à informação deve ser interpretado de forma ampla, e, em sede de contratos de plano de saúde, deve compreender o direito à informação, por escrito, dos motivos da recusa à pedido de consulta ou procedimento cirúr- gico. c) Quando o plano de saúde não atender a tal direito do usuário, isso deve ser levado em conta pelo juiz em futura ação judicial, não admitindo prejuízo à defesa dos interesses do consumidor em juízo por conta dessa postura ilegal da operadora do plano de saúde. d) Para documentar a situação, o usuário pode abrir uma reclamação junto à ANS, enviar uma notificação judicial ou extrajudicial (por cartório), enviar um e-mail ou propor medida cautelar de justificação. e) Utilizando-se desses documentos, poderá o consumidor propor ação judicial para obter o cumprimento do contrato, servindo-se tais documentos como prova da negativa injusta, o que servirá para fins do julgamento do feito e para apreciação de pedido liminar. 13. CONCLUSÃO A “saúde” é conceituada como o bem estar físico, mental e social do indi- víduo. Neste sentido, para sua consecução, exige-se, além da ausência de do- enças, qualidade de vida e bem-estar social. A Carta Constitucional de 1988, em seu art. 196, positivou o direito à saúde. Este direito, garantido constitucional- mente, abrange tanto atividades “curativas” e “preventivas”, quanto a promoção do bem-estar social. Conclui-se, portanto, que direito à saúde vai além do direito ao tratamento e prevenção de doenças, pois compreende uma série de outros fatores tais como moradia, alimentação, educação e saneamento básico. A saúde, dentre outras características, é um direito fundamental do ser humano, e como tal, é inalienável, irrenunciável e imprescritível. É um direito social que exige do Estado uma conduta positiva - a prestação da assistência à saúde a toda população. Por fim, é um direito subjetivo público, que impõe ao Estado o dever de prestar a assistência à saúde, e confere ao indivíduo o direito subjetivo de exigir do Estado o que lhe é devido. Nos termos do art. 196 da CR/88, a saúde é um direito de todos e dever do Estado. A Carta Constitucional garante o acesso universal e gratuito aos ser- viços de saúde. Embora seja um dever do Estado, o art. 197 da CR/88, in fine, permite que a iniciativa privada preste os serviços de assistência à saúde, razão pela qual, coexiste no país, o serviço público de saúde, prestado pelo Sistema Único de Saúde; e o serviço privado, prestado por particulares. Os serviços públicos de saúde regem-se pelos princípios da descentrali- zação, pois são de competência da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios; da integralidade de cobertura, uma vez que o SUS executa ati- vidades preventivas e curativas, abarcando o tratamento de toda espécie de en- fermidade, das mais simples às mais complexas; da universalidade do atendi- mento, já que toda pessoa tem direito à assistência à saúde, independentemente de condição financeira; da 64 solidariedade de financiamento, haja vista que a saúde, assim como os demais seguimentos da seguridade social, é custeada por toda sociedade, através dos impostos pagos aos entes federados, das contribui- ções sociais destinadas à seguridade, e das demais fontes de financiamento previstas em lei; e da gratuidade, afinal, se os serviços já foram pagos por toda sociedade, não há razão para o SUS cobrar do usuário uma contra-prestação por tais serviços. A assistência privada à saúde é prestada por pessoas físicas (médicos, fisioterapeutas, psicólogos) e pessoas jurídicas de direito privado (clínicas, labo- ratórios, hospitais, operadoras de planos de saúde). Estes serviços são custea- dos pelos próprios usuários e, ao contrário dos serviços públicos, não observam o princípio da universalidade, pois apenas o contratante e seus beneficiários po- derão usufruir os serviços particulares; e da integralidade, pois o contratante só tem direito aos serviços, efetivamente, contratados. Embora o legislador constituinte tenha permitido que a iniciativa privada prestasse os serviços de saúde, conferiu ao Poder Público o dever de regula- mentar, fiscalizar e controlarestes serviços. Neste sentido, o Estado editou a Lei 9.656/98, com a finalidade de regulamentar as operadoras de planos privados de assistência à saúde. Nos termos do art. 32 desta lei, as operadoras devem ressarcir ao SUS, os serviços previstos nos respectivos contratos, prestados a seus clientes pelo sistema público de saúde. 14. REFERÊNCIAS 1. VIEIRA FS, BENEVIDES RPS. Os impactos do Novo Regime Fiscal para o financiamento do Sistema Único de Saúde e para a efetivação do direito à saúde no Brasil. Brasília: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada; 2016. (Nota Técnica, 28). 2. PREKER AS, LINDNER ME, CHERNICHOVSKY D, SCHELLEKENS OP. Scaling up affordable health insurance: staying the course. Washington DC: World Bank; 2013. 3. FOX AM, Reich MR. The politics of universal health coverage in low-and middle-income countries: a framework for evaluation and action. J Health Polit Policy Law 2015; 40:1023-60. 4. Ministério da saúde. Portaria no 1.482, de 4 de agosto de 2016. Institui Grupo de Trabalho para discutir projeto de Plano de Saúde Acessível. Diário Oficial da União 2016; 5 ago. 5. Presidência da República. 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