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<p>Especialista em Inventários – Material de apoio</p><p>@prof.jayltonlopes</p><p>1</p><p>AULA 3</p><p>NEGÓCIOS JURÍDICOS PROCESSUAIS</p><p>1. INTRODUÇÃO</p><p>Conforme estudado no capítulo anterior, os negócios jurídicos processuais estão</p><p>inseridos dentro da classificação dos fatos jurídicos processuais.</p><p>Tendo em vista a importância dada pelo CPC/15 aos negócios jurídicos processuais</p><p>(art. 190 do CPC), optou-se nesta obra por dedicar um capítulo próprio ao tema.</p><p>2. CONCEITO E CLASSIFICAÇÃO</p><p>A possibilidade de se transportar para o campo do direito processual civil o</p><p>conceito de negócio jurídico desenvolvido pelo direito privado não é nenhuma</p><p>novidade1. É preciso, contudo, compreender a sua estrutura a partir da abertura dada</p><p>pelo CPC/15 à celebração de negócios jurídicos processuais atípicos (art. 190 do CPC).</p><p>Segundo Antonio do Passo Cabral, “convenção (ou acordo) processual é o negócio</p><p>jurídico plurilateral, pelo qual as partes, antes ou durante o processo e sem necessidade</p><p>da intermediação de nenhum outro sujeito, determinam a criação, modificação e</p><p>extinção de situações jurídicas processuais, ou alteram o procedimento”2.</p><p>Durante a vigência do CPC/73 já se admitia a celebração de negócios jurídicos</p><p>processuais (ex.: cláusula de eleição de foro; convenção das partes para suspensão do</p><p>processo; convenção das partes para adiamento da audiência de instrução e julgamento</p><p>1 Cf. CARNELUTTI, Francesco. Sistema de direito processual civil: da estrutura do processo. 1ª ed. São Paulo:</p><p>Classic Book, 2000, v. III, p. 122-125.</p><p>2 CABRAL, Antonio do Passo. Convenções processuais. Salvador: JusPodivm, 2016, p. 68.</p><p>Fatos jurídicos</p><p>processuais em</p><p>sentido amplo</p><p>Fatos jurídicos</p><p>processuais em</p><p>sentido estrito</p><p>Atos jurídicos</p><p>processuais</p><p>Atos jurídicos</p><p>processuais ilícitos</p><p>Atos jurídicos</p><p>processuais lícitos</p><p>Atos jurídicos</p><p>processuais em</p><p>sentido estrito</p><p>Atos-fatos jurídicos</p><p>processuais</p><p>Negócios jurídicos</p><p>processuais</p><p>Especialista em Inventários – Material de apoio</p><p>@prof.jayltonlopes</p><p>2</p><p>etc.). O que não havia àquela época era uma cláusula geral permissiva de negócios</p><p>jurídicos processuais atípicos.</p><p>Com o advento do CPC/15, os negócios jurídicos processuais ganharam substancial</p><p>evidência, especialmente diante da cláusula geral prevista no art. 190 do CPC, in verbis:</p><p>Art. 190. Versando o processo sobre direitos que admitam autocomposição,</p><p>é lícito às partes plenamente capazes estipular mudanças no procedimento</p><p>para ajustá-lo às especificidades da causa e convencionar sobre os seus ônus,</p><p>poderes, faculdades e deveres processuais, antes ou durante o processo.</p><p>Parágrafo único. De ofício ou a requerimento, o juiz controlará a validade das</p><p>convenções previstas neste artigo, recusando-lhes aplicação somente nos</p><p>casos de nulidade ou de inserção abusiva em contrato de adesão ou em que</p><p>alguma parte se encontre em manifesta situação de vulnerabilidade.</p><p>Embora o CPC/15 não tenha adotado, de forma expressa, a designação negócio</p><p>jurídico processual, a Lei nº 13.874/2019 (Lei da Liberdade Econômica) tratou de inserir</p><p>o referido termo no ordenamento jurídico brasileiro. O art. 13 da supracitada lei deu</p><p>nova redação ao art. 19 da Lei nº 10.522/2002 e inseriu os §§ 12 e 13 com o seguinte</p><p>teor:</p><p>§ 12. Os órgãos do Poder Judiciário e as unidades da Procuradoria-Geral da</p><p>Fazenda Nacional poderão, de comum acordo, realizar mutirões para análise</p><p>do enquadramento de processos ou de recursos nas hipóteses previstas neste</p><p>artigo e celebrar negócios processuais com fundamento no disposto no art.</p><p>190 da Lei nº 13.105, de 16 de março de 2015 (Código de Processo Civil).</p><p>§ 13. Sem prejuízo do disposto no § 12 deste artigo, a Procuradoria-Geral da</p><p>Fazenda Nacional regulamentará a celebração de negócios jurídicos</p><p>processuais em seu âmbito de atuação, inclusive na cobrança administrativa</p><p>ou judicial da dívida ativa da União.</p><p>Por sua vez, a Lei nº 13.964/2019 (Pacote Anticrime) atribuiu ao instituto da</p><p>colaboração premiada a natureza de negócio jurídico processual, conforme se infere do</p><p>seu art. 3º-A (“O acordo de colaboração premiada é negócio jurídico processual e meio</p><p>de obtenção de prova, que pressupõe utilidade e interesse públicos”).</p><p>Os negócios jurídicos processuais podem ser classificados em:</p><p>a) Negócios jurídicos processuais unilaterais e negócios jurídicos processuais</p><p>plurilaterais</p><p>§ Negócios jurídicos processuais unilaterais: praticados por apenas um dos sujeitos</p><p>da relação jurídica processual. Há apenas uma declaração de vontade suscetível</p><p>de produzir efeitos jurídicos processuais. Exemplos: a) desistência da ação antes</p><p>Especialista em Inventários – Material de apoio</p><p>@prof.jayltonlopes</p><p>3</p><p>da citação do réu (art. 485, § 2º, do CPC); b) desistência do recurso (art. 998 do</p><p>CPC); c) reconhecimento da procedência do pedido (art. 487, III, “a”, do CPC); d)</p><p>renúncia à pretensão (art. 487, III, “c”, do CPC) etc.;</p><p>§ Negócios jurídicos processuais plurilaterais: praticados por mais de um sujeito da</p><p>relação jurídica processual. Há duas ou mais manifestações de vontades</p><p>convergentes para a produção de um determinado efeito jurídico processual.</p><p>Exemplos: a) cláusula de eleição de foro (art. 63 do CPC); b) convenção para</p><p>suspensão do processo (art. 313, II, do CPC); c) convenção para modificação do</p><p>procedimento etc.</p><p>b) Negócios jurídicos processuais dispositivos e negócios jurídicos processuais</p><p>obrigacionais</p><p>§ Negócios jurídicos processuais dispositivos (acordos sobre o procedimento): são</p><p>negócios jurídicos processuais que têm por objetivo a derrogação de normas</p><p>procedimentais. Exemplos: a) modificação de prazo; b) convenção sobre</p><p>distribuição do ônus da prova etc.;</p><p>§ Negócios jurídicos processuais obrigacionais: são negócios jurídicos que</p><p>estabelecem uma obrigação, impondo aos sujeitos da relação processual um fazer</p><p>ou um não fazer. Não há alteração do procedimento em si. Exemplos: a)</p><p>convenção estabelecendo renúncia a determinado recurso (cláusula de não</p><p>recorribilidade da sentença); b) convenção para afastar determinado tipo de</p><p>constrição na execução ou no cumprimento de sentença etc.</p><p>c) Negócios jurídicos pré-processuais e negócios jurídicos processuais incidentais</p><p>§ Negócios jurídicos pré-processuais: são convenções celebradas antes do</p><p>ajuizamento da ação. Exemplo: cláusula de eleição de foro. As convenções pré-</p><p>processuais revelam a utilização de uma técnica de antecipação procedimental</p><p>(antecipação de segundo grau ou contrato sobre contrato)3. Isso porque é negócio</p><p>jurídico processual inserido em negócio jurídico de direito material. O negócio</p><p>jurídico processual, aliás, é autônomo em relação ao negócio em que estiver</p><p>inserido, de tal sorte que a invalidade deste não implica necessariamente a do</p><p>negócio jurídico processual4. Registre-se, ademais, que o art. 190 do CPC (cláusula</p><p>geral do negócio jurídico processual), diante de sua abertura semântica, permite</p><p>que, em regra, seja celebrado negócio jurídico processual em qualquer tipo de</p><p>negócio jurídico de direito material. Nesse sentido, dispõe o enunciado 18 da I</p><p>Jornada de Direito Processual Civil – CJF que “a convenção processual pode ser</p><p>3 Cf. CABRAL, Antonio do Passo. Convenções processuais. Op. cit., 75-76</p><p>4 Cf. Enunciado 409 do Fórum Permanente de Processualistas Civis – FPPC.</p><p>Especialista em Inventários – Material de apoio</p><p>@prof.jayltonlopes</p><p>4</p><p>celebrada em pacto antenupcial ou em contrato de convivência, nos termos do</p><p>art. 190 do CPC”;</p><p>§ Negócios jurídicos processuais incidentais: são convenções celebradas no curso</p><p>do processo. Exemplo: convenção estabelecendo uma forma diversa de</p><p>distribuição do ônus da prova entre as partes (art. 373, § 3º, do CPC).</p><p>d) Negócios jurídicos processuais gratuitos e negócios jurídicos processuais</p><p>onerosos</p><p>§ Negócios jurídicos processuais gratuitos: o ônus da convenção é suportado por</p><p>apenas uma das partes. Não há contraprestação. Exemplo: convenção</p><p>estabelecendo que todos os gastos com eventual realização de perícia serão</p><p>suportados por apenas uma das partes;</p><p>§ Negócios jurídicos processuais onerosos: o ônus é suportado por ambas as partes.</p><p>Exemplos: a) convenção estabelecendo o rateio de toda e qualquer despesa</p><p>processual; b) convenção dispondo que em caso de reconhecimento da</p><p>procedência do pedido, o valor devido sofrerá um desconto de 30% (trinta por</p><p>cento).</p><p>e) Negócios jurídicos processuais típicos e negócios jurídicos processuais atípicos</p><p>§ Negócios jurídicos processuais típicos: são aqueles expressamente previstos na</p><p>lei, a qual estabelece os sujeitos, a forma, o objeto e, eventualmente, os seus</p><p>limites. Exemplos: a) convenção objetivando a suspensão do processo (art. 313, II,</p><p>do CPC); b) convenção dispondo quanto à distribuição do ônus da prova (art. 373,</p><p>§ 3º, do CPC); c) convenção para saneamento do processo (art. 356, § 2º, do CPC);</p><p>§ Negócios jurídicos processuais atípicos: o art. 190 do CPC estabelece uma cláusula</p><p>geral de negociação, permitindo que as partes estipulem mudanças no</p><p>procedimento para ajustá-lo às especificidades da causa e convencionar sobre os</p><p>seus ônus, poderes, faculdades e deveres processuais, antes ou durante o</p><p>processo. Trata-se de norma que dá sustentação ao exercício da autonomia da</p><p>vontade no tocante à criação, modificação e extinção de situações jurídicas</p><p>processuais. Exemplo: negócio jurídico processual por meio do qual as partes</p><p>renunciam ao duplo grau de jurisdição, renunciando, assim, ao direito de recorrer</p><p>contra a decisão de mérito.</p><p>3. COGNOSCIBILIDADE DO JUIZ</p><p>A aplicabilidade de uma convenção processual pode ser determinada de ofício</p><p>pelo juiz ou depende de manifestação da parte interessada? Embora a questão seja</p><p>Especialista em Inventários – Material de apoio</p><p>@prof.jayltonlopes</p><p>5</p><p>polêmica, adota-se nesta obra a proposta apresentada por Antonio do Passo Cabral5,</p><p>para quem a cognoscibilidade do negócio jurídico processual depende da sua natureza,</p><p>ou seja, se dispositivo ou obrigacional.</p><p>§ Negócios jurídicos dispositivos (acordos sobre o procedimento): como se</p><p>referem ao próprio procedimento, ao qual o órgão jurisdicional estará vinculado,</p><p>podem ser conhecidos de ofício pelo juiz. Têm, portanto, natureza de objeção</p><p>processual;</p><p>§ Negócios jurídicos obrigacionais: como dizem respeito às prerrogativas das partes</p><p>no processo, não podem ser conhecidos de ofício pelo juiz. Assim, caberá à parte</p><p>interessada suscitar a aplicação da convenção processual. Têm, portanto, natureza</p><p>de exceção processual6.</p><p>4. REQUISITOS DE VALIDADE DO NEGÓCIO JURÍDICO PROCESSUAL</p><p>Assim como ocorre em todo e qualquer negócio jurídico privado, as convenções</p><p>processuais (típicas e atípicas) devem observar os pressupostos de existência, os</p><p>requisitos de validade7 e todo o complexo de deveres decorrentes da boa-fé objetiva8.</p><p>São requisitos de validade dos negócios jurídicos processuais:</p><p>4.1. Capacidade de ser parte e capacidade de estar em juízo</p><p>A capacidade de estar em juízo não se confunde com a capacidade de ser parte.</p><p>Esta decorre da aptidão para ser sujeito de direitos e obrigações na ordem jurídica (art.</p><p>1º do CC). Aquela da aptidão, conferida pelo ordenamento jurídico, para que a pessoa</p><p>atue em juízo sozinha (art. 70 do CPC).</p><p>5 CABRAL, Antonio do Passo. Convenções processuais. Op. cit., p. 238-239.</p><p>6 Sobre a distinção entre objeção e exceção processual, ver capítulo XXII.</p><p>7 Conforme enunciado 403 do Fórum Permanente de Processualistas Civis – FPPC, “a validade do negócio</p><p>jurídico processual, requer agente capaz, objeto lícito, possível, determinado ou determinável e forma</p><p>prescrita ou não defesa em lei”.</p><p>8 Aos negócios jurídicos processuais deve ser dado o mesmo tratamento conferido aos negócios jurídicos</p><p>relativos ao direito privado, haja vista que nascem da mesma fonte (teoria dos fatos jurídicos). Essa</p><p>compreensão pode ser extraída dos seguintes enunciados do Fórum Permanente de Processualistas Civis</p><p>– FPPC: a) enunciado 115 (“O negócio jurídico celebrado nos termos do art. 190 obriga herdeiros e</p><p>sucessores”); b) enunciado 403 (“A validade do negócio jurídico processual, requer agente capaz, objeto</p><p>lícito, possível, determinado ou determinável e forma prescrita ou não defesa em lei”); c) enunciado 404</p><p>(“Nos negócios processuais, atender-se-á mais à intenção consubstanciada na manifestação de vontade</p><p>do que ao sentido literal da linguagem”); d) enunciado 405 (“Os negócios jurídicos processuais devem ser</p><p>interpretados conforme a boa-fé e os usos do lugar de sua celebração”); e) enunciado 406 (“Os negócios</p><p>jurídicos processuais benéficos e a renúncia a direitos processuais interpretam-se estritamente”); f)</p><p>enunciado 407 (“Nos negócios processuais, as partes e o juiz são obrigados a guardar nas tratativas, na</p><p>conclusão e na execução do negócio o princípio da boa-fé”).</p><p>Especialista em Inventários – Material de apoio</p><p>@prof.jayltonlopes</p><p>6</p><p>A capacidade exigida para a celebração de negócios jurídicos processuais é a</p><p>capacidade de estar em juízo. Faltando esta capacidade à parte, o negócio jurídico</p><p>processual ainda assim poderá ser realizado, mediante atuação do representante ou</p><p>assistente do incapaz. O que não se admite é a celebração de negócio jurídico processual</p><p>por incapaz, sem que ele tenha seja devidamente assistido ou representado.</p><p>4.2. Objeto</p><p>Uma das mais difíceis questões que se apresentam no campo dos negócios</p><p>jurídicos processuais diz respeito ao seu objeto. Quando se tratar de negócios jurídicos</p><p>típicos, a própria lei estabelece o respectivo objeto. O problema reside nos negócios</p><p>jurídicos atípicos. Qual o seu conteúdo mínimo? O princípio da autonomia da vontade é</p><p>absoluto? Há limites objetivos e subjetivos?</p><p>A despeito da enorme problemática envolvendo o tema, é possível identificar</p><p>alguns parâmetros no tocante ao objeto dos negócios jurídicos processuais. Vejamos:</p><p>§ Ausência de taxatividade legal quanto ao objeto do negócio jurídico processual:</p><p>há certos atos processuais ou mesmo relações jurídicas estabelecidas</p><p>processualmente que dependem de previsão legal. É o que ocorre, por exemplo,</p><p>com os recursos, cujo rol é taxativo. Assim, não se admite convenção processual</p><p>para criar recurso não previsto em lei ou mesmo para aumentar as hipóteses de</p><p>cabimento dos recursos previstos. Assim, não é possível, por exemplo, a</p><p>celebração de negócio jurídico processual tendo por objeto a criação de recurso</p><p>contra despachos);</p><p>§ A relação jurídica de direito material objeto do processo deve admitir a</p><p>autocomposição: conforme dispõe expressamente o art. 190 do CPC, o negócio</p><p>jurídico processual somente será permitido quando a causa admitir a</p><p>autocomposição. Não se pode confundir eventual inadmissibilidade de</p><p>autocomposição com indisponibilidade da relação jurídica de direito material.</p><p>Explico: há direitos indisponíveis que admitem autocomposição (ex.: ação de</p><p>alimentos; ações envolvendo interesses públicos secundários da Fazenda Pública9</p><p>etc.). Assim, ainda que se trate de causa envolvendo direitos indisponíveis, caso</p><p>seja possível a autocomposição, será admitida, de igual forma, a celebração de</p><p>negócio jurídico processual;</p><p>§ Licitude, possibilidade e determinabilidade do objeto: o objeto do negócio</p><p>jurídico processual deve ser lícito, possível, determinado ou determinável, da</p><p>mesma forma exigida para os negócios jurídicos de direito privado (art. 104, II, do</p><p>CC).</p><p>9 Nesse sentido, dispõe o enunciado 17 da I Jornada de Direito Processual Civil – CJF que “a Fazenda Pública</p><p>pode celebrar convenção processual, nos termos do art. 190 do CPC”.</p><p>Especialista em Inventários – Material de apoio</p><p>@prof.jayltonlopes</p><p>7</p><p>ð Licitude: objeto lícito é aquele que não encontra vedação no ordenamento</p><p>jurídico. Se em determinado negócio jurídico processual as partes</p><p>convencionam a possibilidade de o futuro exequente usar a força privada</p><p>para a constrição de</p><p>bens, tal negócio será nulo (ilicitude do objeto), já que</p><p>a ninguém é dado, salvo em situações excepcionais previamente admitidas</p><p>pela lei, fazer justiça com as próprias mãos;</p><p>ð Possibilidade: o objeto deve ser fisicamente possível. A título ilustrativo,</p><p>seria nulo, por impossibilidade física do objeto, eventual negócio jurídico</p><p>processual estabelecendo a utilização, no processo, de provas obtidas por</p><p>mensagens e sinais sobrenaturais como preponderante em relação às</p><p>demais provas produzidas. Não se pode perder de vista, ainda, a regra</p><p>insculpida no art. 106 do CC, aplicável aos negócios jurídicos processuais,</p><p>segundo a qual, “a impossibilidade inicial do objeto não invalida o negócio</p><p>jurídico se for relativa, ou se cessar antes de realizada a condição a que ele</p><p>estiver subordinado”. Por conseguinte, se o objeto puder ser realizado por</p><p>terceiros, às custas da parte obrigada, deve ser mantida a validade da</p><p>convenção;</p><p>ð Determinabilidade: o objeto do negócio deve ser determinado ou</p><p>determinável. A determinabilidade interessa não apenas à validade do</p><p>negócio, mas à sua própria executoriedade. O negócio jurídico processual</p><p>que aumenta determinado prazo processual, por exemplo, deve descrever</p><p>exatamente o prazo que será observado pelas partes. Pode ocorrer ainda de</p><p>o objeto do negócio jurídico processual não ser determinado no momento</p><p>da avença, mas passível de determinação futura. Nesse caso, há de se</p><p>manter a sua validade (ex.: negócio jurídico pré-processual no qual as partes</p><p>convencionam a impenhorabilidade de qualquer semovente adquirido pelas</p><p>partes após o ajuizamento da ação).</p><p>§ Observância aos direitos fundamentais: o objeto do negócio jurídico processual</p><p>não pode esgotar o conteúdo mínimo de um direito fundamental, tendo em vista</p><p>a sua irrenunciabilidade. Nesse sentido, eventual negócio jurídico que viole, por</p><p>exemplo, o direito de acesso à justiça, o princípio do juízo natural, o princípio do</p><p>devido processo legal substancial, a liberdade de locomoção, a inviolabilidade do</p><p>domicílio etc., será nulo;</p><p>§ Derrogabilidade das normas jurídicas: há normas jurídicas que são inderrogáveis</p><p>pela vontade das partes, e, portanto, não podem ser afastadas mediante negócio</p><p>jurídico processual (ex.: negócio jurídico que modifica regras de competência</p><p>absoluta; negócio jurídico que afasta a primeira instância)10.</p><p>10 Nos termos do art. 62 do CPC, “a competência determinada em razão da matéria, da pessoa ou da</p><p>função é inderrogável por convenção das partes”.</p><p>Especialista em Inventários – Material de apoio</p><p>@prof.jayltonlopes</p><p>8</p><p>Ainda no campo do objeto do negócio jurídico processual, indaga-se: deve ser</p><p>admitida convenção processual que tenha por objeto norma fundamental do processo</p><p>civil, como, por exemplo, contraditório? Sim, porém, caberá ao magistrado exercer um</p><p>juízo de ponderação entre os direitos eventualmente conflitantes. Especificamente em</p><p>relação ao contraditório, se o juiz verificar que sua supressão conduz à desigualdade</p><p>entre as partes no processo, o negócio processual deverá ser considerado inválido.</p><p>Conforme já decidiu a Quarta Turma do Superior Tribunal de Justiça, “o negócio jurídico</p><p>processual que transige sobre o contraditório e os atos de titularidade judicial se</p><p>aperfeiçoa validamente se a ele aquiescer o juiz”.11</p><p>4.3. Forma</p><p>Tratando-se de negócios jurídicos processuais típicos, a lei definirá os seus limites,</p><p>inclusive os de ordem formal (ex.: a cláusula de eleição de foro e a convenção de</p><p>arbitragem devem ser realizadas por escrito). Já no tocante aos negócios jurídicos</p><p>processuais atípicos, aplicar-se-á o princípio da liberdade das formas (art. 188 do CPC),</p><p>podendo a convenção processual se realizar tanto de forma verbal12 (excepcionalmente)</p><p>quanto de forma escrita (regra geral).</p><p>5. NULIDADE, ANULABILIDADE E CONTROLE DO NEGÓCIO JURÍDICO PROCESSUAL</p><p>Por se tratar de negócio jurídico privado, ainda que com produção de efeitos</p><p>jurídicos processuais, aplicam-se aos negócios jurídicos processuais as mesmas causas</p><p>de nulidade e anulabilidade disciplinadas pelo direito privado. Vale novamente registrar</p><p>que a convenção processual é autônoma em relação ao negócio jurídico de direito</p><p>material em que estiver inserta. Logo, eventual invalidade do negócio jurídico material</p><p>não gerará, necessariamente, a invalidação da convenção processual.</p><p>Não contendo qualquer vício, o negócio jurídico processual atípico deve ser</p><p>admitido pelo juiz, pois não se sujeita, como regra, à homologação. Não obstante, é</p><p>possível que a própria lei exija a homologação judicial. É o que ocorre, por exemplo, no</p><p>negócio jurídico processual sobre saneamento do processo. Nos termos do § 2º do art.</p><p>357 do CPC, “as partes podem apresentar ao juiz, para homologação, delimitação</p><p>consensual das questões de fato e de direito a que se referem os incisos II e IV, a qual,</p><p>se homologada, vincula as partes e o juiz”.</p><p>11 REsp 1.810.444-SP, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, Quarta Turma, por unanimidade, julgado em</p><p>23/02/2021.</p><p>12 Imagine o seguinte exemplo de negócio jurídico processual verbal: por ocasião da realização de uma</p><p>perícia judicial, as partes convencionam, na data da perícia e na presença do expert, a extensão do objeto</p><p>da perícia, convencionando inclusive sobre eventual complementação dos honorários periciais.</p><p>Especialista em Inventários – Material de apoio</p><p>@prof.jayltonlopes</p><p>9</p><p>O juiz exercerá apenas o controle da constitucionalidade e legalidade dos negócios</p><p>jurídicos processuais. Conforme estabelece o parágrafo único do art. 190 do CPC, “de</p><p>ofício ou a requerimento, o juiz controlará a validade das convenções previstas neste</p><p>artigo, recusando-lhes aplicação somente nos casos de nulidade ou de inserção abusiva</p><p>em contrato de adesão ou em que alguma parte se encontre em manifesta situação de</p><p>vulnerabilidade”. Vê-se, assim, que o juiz, em regra, não é parte da convenção</p><p>processual, mas a ela se vincula.</p><p>É preciso registrar ainda que a inserção de convenção processual em contrato de</p><p>adesão, por si só, não gera qualquer nulidade. Caberá ao magistrado a interpretação da</p><p>cláusula, de tal sorte que quando houver no contrato de adesão negócio jurídico</p><p>processual com previsões ambíguas ou contraditórias, dever-se-á adotar a interpretação</p><p>mais favorável ao aderente13. O que não se admite é a convenção processual abusiva</p><p>inserida em contrato, seja ou não de adesão. Aliás, os deveres inerentes à boa-fé e à</p><p>cooperação sequer podem ser afastados por negócio jurídico processual14.</p><p>6. NEGÓCIOS JURÍDICOS POCESSUAIS E AS POSIÇÕES JURÍDICAS DE TERCEIROS</p><p>Os negócios jurídicos processuais devem se restringir às partes convenentes. Isso</p><p>porque por se tratar de ato de disposição, deve ele emanar dos próprios sujeitos</p><p>titulares da situação ou posição jurídica hipotética. Nesse sentido, é preciso estabelecer</p><p>filtros subjetivos15. Vejamos:</p><p>§ Inadmissibilidade de negócio jurídico processual para afastar a atuação do</p><p>Ministério Público: as funções do Ministério Público decorrem de previsão</p><p>constitucional, havendo na legislação infraconstitucional hipóteses de intervenção</p><p>obrigatória que não podem ser derrogadas pela vontade das partes, justamente</p><p>por atingir uma posição jurídica que pertence a terceiro (Ministério Púbico).</p><p>§ Inadmissibilidade de negócio jurídico processual para impor segredo de justiça</p><p>ao processo: a publicidade dos atos do poder público é imposição constitucional</p><p>que somente pode ser afastada nas estritas hipóteses legalmente previstas. A</p><p>publicidade permite uma espécie de controle e fiscalização da sociedade, a qual</p><p>seria diretamente atingida pelo negócio jurídico processual.</p><p>§ Inadmissibilidade de negócio jurídico processual dispondo sobre poderes do juiz:</p><p>não se pode negar que um negócio jurídico processual pode repercutir, de certo</p><p>modo, nos poderes do juiz, o qual vincula-se aos termos da convenção,</p><p>especialmente no tocante à modificação das regras do procedimento.</p><p>Entretanto,</p><p>quando houver norma estabelecendo poderes e prerrogativas do juiz, decorrentes</p><p>do próprio poder-dever jurisdicional, não haverá campo para a convenção</p><p>13 Cf. Enunciado 408 do Fórum Permanente de Processualistas Civis – FPPC.</p><p>14 Cf. Enunciado 6 do Fórum Permanente de Processualistas Civis – FPPC.</p><p>15 Cf. CABRAL, Antonio do Passo. Convenções processuais. Op. Cit., p. 269-272.</p><p>Especialista em Inventários – Material de apoio</p><p>@prof.jayltonlopes</p><p>10</p><p>processual. Nesse sentido, não se pode admitir, por exemplo, a celebração de</p><p>negócio jurídico processual: a) dispondo sobre causas de impedimento do juiz; b)</p><p>para proibir o juiz de julgar com base nas provas produzidas; c) para proibir o juiz</p><p>de julgar com base na legalidade; d) para proibir o juiz de julgar com base em</p><p>precedente vinculante; e) para afastar o poder-dever geral de efetivação (art. 139,</p><p>IV, do CPC); f) para proibir o exercício do poder de polícia (art. 139, VII, do CPC); g)</p><p>para proibir o juiz de observar as normas fundamentais do processo (ex.: boa-fé,</p><p>cooperação, primazia do julgamento do mérito); h) para proibir que o juiz oficie</p><p>aos legitimados para a ação coletiva quando se deparar com diversas demandas</p><p>individuais repetitivas (art. 139, X, do CPC); i) para proibir o exercício do poder</p><p>instrutório do juiz (art. 370 do CPC); j) que limite os poderes de instrução do juiz</p><p>ou de sanção à litigância de má-fé; k) que subtraia do juiz o controle da</p><p>legitimidade das partes ou do ingresso de amicus curiae.</p><p>7. INADIMPLEMENTO DO NEGÓCIO JURÍDICO PROCESSUAL</p><p>O incumprimento do negócio jurídico processual deve ser arguido pelo</p><p>convenente interessado na primeira oportunidade que tiver para falar nos autos, sob</p><p>pena de preclusão. Isso significa que o juiz não pode conhecer, de ofício, do</p><p>inadimplemento do negócio jurídico processual.</p><p>Tal entendimento decorre do fato de que as convenções processuais residem no</p><p>âmbito da autonomia privada das partes. Não por outra razão que a existência de</p><p>eleição de foro e de convenção de arbitragem devem ser arguidas pelo réu, em</p><p>preliminar de contestação, sob pena de preclusão16.</p><p>Uma vez suscitado o inadimplemento, é possível aplicar à parte inadimplente,</p><p>conforme o caso, as sanções previstas no CPC (ex.: litigância de má-fé; ato atentatório à</p><p>dignidade da justiça, concessão de tutela provisória da evidência com base no art. 311,</p><p>I, do CPC etc.), bem como as sanções previstas na própria convenção processual17, desde</p><p>que seja assegurado à parte, evidentemente, o exercício do contraditório (art. 10 do</p><p>CPC).</p><p>8. EXEMPLOS DE NEGÓCIOS JURÍDICOS PROCESSUAIS ADMITIDOS E NÃO ADMITIDOS</p><p>A partir de entendimentos firmados em enunciados do Fórum Permanente de</p><p>Processualistas Civis – FPPC, vejamos os negócios jurídicos processuais admitidos e os</p><p>não admitidos.</p><p>16 Cf. Enunciado 252 do Fórum Permanente de Processualistas Civis – FPPC.</p><p>17 Conforme enunciado 17 do Fórum Permanente de Processualistas Civis – FPPC, “o descumprimento de</p><p>uma convenção processual válida é matéria cujo conhecimento depende de requerimento”.</p><p>Especialista em Inventários – Material de apoio</p><p>@prof.jayltonlopes</p><p>11</p><p>a) Negócios jurídicos processuais admitidos</p><p>Segundo previsão dos enunciados 19, 21, 490, 491, 579, 580 do Fórum</p><p>Permanente de Processualistas Civis – FPPC, são admissíveis os seguintes negócios</p><p>jurídicos processuais, entre outros:</p><p>§ Pacto de impenhorabilidade, acordo de ampliação de prazos das partes de</p><p>qualquer natureza, acordo de rateio de despesas processuais, dispensa consensual</p><p>de assistente técnico, acordo para retirar o efeito suspensivo de recurso, acordo</p><p>para não promover execução provisória;</p><p>§ Pacto de mediação ou conciliação extrajudicial prévia obrigatória, inclusive com a</p><p>correlata previsão de exclusão da audiência de conciliação ou de mediação</p><p>prevista no art. 334;</p><p>§ Pacto de exclusão contratual da audiência de conciliação ou de mediação prevista</p><p>no art. 334;</p><p>§ Pacto de disponibilização prévia de documentação (pacto de disclosure), inclusive</p><p>com estipulação de sanção negocial, sem prejuízo de medidas coercitivas,</p><p>mandamentais, sub-rogatórias ou indutivas;</p><p>§ Previsão de meios alternativos de comunicação das partes entre si; acordo de</p><p>produção antecipada de prova;</p><p>§ Escolha consensual de depositário-administrador no caso do art. 866;</p><p>§ Convenção que permita a presença da parte contrária no decorrer da colheita de</p><p>depoimento pessoal;</p><p>§ Acordo para realização de sustentação oral;</p><p>§ Acordo para ampliação do tempo de sustentação oral;</p><p>§ Julgamento antecipado do mérito convencional;</p><p>§ Convenção sobre prova;</p><p>§ Convenção sobre redução de prazos processuais</p><p>§ Pacto de inexecução parcial ou total de multa coercitiva; pacto de alteração de</p><p>ordem de penhora;</p><p>§ Pré-indicação de bem penhorável preferencial (art. 848, II);</p><p>§ Pré-fixação de indenização por dano processual prevista nos arts. 81, §3º, 520, inc.</p><p>I, 297, parágrafo único (cláusula penal processual);</p><p>§ Negócio de anuência prévia para aditamento ou alteração do pedido ou da causa</p><p>de pedir até o saneamento (art. 329, inc. II).</p><p>Especialista em Inventários – Material de apoio</p><p>@prof.jayltonlopes</p><p>12</p><p>§ Negócio que estipule mudanças no procedimento das intervenções de terceiros,</p><p>observada a necessidade de anuência do terceiro quando lhe puder causar</p><p>prejuízo;</p><p>§ Negócio que estabeleça a contagem dos prazos processuais dos negociantes em</p><p>dias corridos;</p><p>§ Negócio que estabeleça que a alegação de existência de convenção de arbitragem</p><p>será feita por simples petição, com a interrupção ou suspensão do prazo para</p><p>contestação.</p><p>b) Negócios jurídicos processuais não admitidos</p><p>Nos termos do enunciado 20 do Fórum Permanente de Processualistas Civis –</p><p>FPPC, não são admissíveis os seguintes negócios bilaterais, dentre outros:</p><p>§ Acordo para modificação da competência absoluta;</p><p>§ Acordo para supressão da primeira instância;</p><p>§ Acordo para afastar motivos de impedimento do juiz;</p><p>§ Acordo para criação de novas espécies recursais;</p><p>§ Acordo para ampliação das hipóteses de cabimento de recursos.</p><p>9. NEGÓCIO JURÍDICO PROCESSUAL E ORDEM CRONOLÓGICA DE CONCLUSÃO</p><p>O art. 12 do CPC impõe que juízes e tribunais atendam, preferencialmente, à</p><p>ordem cronológica de conclusão para proferir sentença ou acórdão, ressalvadas as</p><p>exceções legais estabelecidas no § 2º do supracitado dispositivo.</p><p>Conforme estudado no capítulo II desta obra, entendo que caso determinado</p><p>negócio jurídico processual tenha por objeto o afastamento da ordem cronológica de</p><p>conclusão para a prolação de sentença ou acórdão, o juiz deverá exercer o devido</p><p>controle e não admiti-lo no processo, sob pena de se abrir uma perigosa porta para a</p><p>livre negociação das posições cronológicas dos processos, em evidente prejuízo aos</p><p>demais jurisdicionados. Ademais, a regra do art. 12 do CPC visa proteger interesse</p><p>público.</p><p>Especialista em Inventários – Material de apoio</p><p>@prof.jayltonlopes</p><p>13</p><p>10. CALENDÁRIO PROCEDIMENTAL</p><p>10.1. Conceito e natureza jurídica</p><p>A criação de um calendário procedimental é mais uma novidade apresentada pelo</p><p>CPC/15. Tem previsão no art. 191 do CPC, com a seguinte redação:</p><p>Art. 191. De comum acordo, o juiz e as partes podem fixar calendário para a</p><p>prática dos atos processuais, quando for o caso.</p><p>§ 1o O calendário vincula as partes e o juiz, e os prazos nele previstos somente</p><p>serão modificados em casos excepcionais, devidamente justificados.</p><p>§ 2o Dispensa-se a intimação das partes para a prática de ato processual ou a</p><p>realização de audiência cujas datas tiverem sido designadas no calendário.</p><p>À luz do dispositivo supracitado, percebe-se a especial importância dada pelo</p><p>legislador ordinário à autonomia de vontade das partes, ao permitir que sejam pré-</p><p>estabelecidos os termos inicial e final do processo, os prazos e datas para apresentação</p><p>de peças processuais e prática de atos processuais</p><p>diversos, realização de audiências</p><p>etc.</p><p>A calendarização procedimental, nesse sentido, tem natureza de negócio jurídico</p><p>plurilateral, pois celebrado entre as partes e o juiz. Busca, em grau máximo, a razoável</p><p>duração do processo e efetividade da jurisdição, pois a razoável duração do processo,</p><p>na compreensão das partes, revela-se no calendário fixado.</p><p>A despeito de o art. 191, caput, do CPC se referir a partes, se o caso for de</p><p>intervenção obrigatória do Ministério Público, este também deverá integrar a</p><p>convenção, salvo se, conforme a convenção, não houver qualquer reflexo na atuação do</p><p>parquet. Por sua vez, o termo juiz deve ser compreendido como juízo, pois nada impede</p><p>que a calendarização procedimental seja realizada em processos de competência</p><p>originária de tribunal ou mesmo em grau recursal18.</p><p>10.2. Momento da celebração do negócio</p><p>A calendarização do procedimento, em regra, será realizada após o contraditório,</p><p>já que deve ser celebrada entre partes e juiz, conforme previsão do caput do art. 191 do</p><p>CPC. Talvez o momento mais propício para a calendarização procedimental seja o do</p><p>saneamento e organização do processo. Não vejo qualquer óbice de a calendarização</p><p>ser realizada por ocasião da audiência de conciliação ou mediação, desde que presidida</p><p>18 Conforme enunciado 414 do Fórum Permanente de Processualistas Civis – FPPC, “o disposto no §1º do</p><p>artigo 191 refere-se ao juízo”.</p><p>Especialista em Inventários – Material de apoio</p><p>@prof.jayltonlopes</p><p>14</p><p>pelo juiz, ou mesmo que seja designada uma audiência específica para que seja criado o</p><p>calendário procedimental19.</p><p>Sem embargo, nada impede que o negócio jurídico de calendarização seja pré-</p><p>processual. Nesse caso, a validade e eficácia do negócio dependerão da homologação</p><p>do juiz, pois ele é, segundo o art. 191, caput, do CPC, um dos convenentes do negócio.</p><p>10.3. Obrigatoriedade e possibilidade de revisão</p><p>Uma vez fixado o calendário procedimental, estarão vinculados a ele as partes e o</p><p>juiz, razão pela qual será dispensada a intimação das partes para a prática de ato</p><p>processual ou a realização de audiência cujas datas tiverem sido designadas no</p><p>calendário (art. 191, § 2º, do CPC).</p><p>O calendário processual, nesse sentido, revela-se como um importante</p><p>instrumento de racionalidade do processo, permitindo alcançar uma maior economia</p><p>processual e, especialmente, um menor tempo de tramitação do processo. A</p><p>modificação dos prazos previstos no calendário é medida excepcional, conforme dispõe</p><p>o art. 191, § 1º, do CPC. Assim, conforme as peculiaridades apresentadas no processo,</p><p>poderão as partes e o juiz entabular um novo negócio para modificar os prazos previstos</p><p>no calendário. Entendo ainda que o próprio juiz, uma vez identificado problemas de</p><p>funcionalidade do processo e do próprio juízo decorrentes da calendarização, pode</p><p>modificar os prazos previstos no calendário, desde que o faça por decisão fundamentada</p><p>e haja prévia consulta às partes (arts. 6º e 10 do CPC).</p><p>Ótimos estudos!</p><p>19 Conforme enunciado 299 do Fórum Permanente de Processualistas Civis – FPPC, “o juiz pode designar</p><p>audiência também (ou só) com objetivo de ajustar com as partes a fixação de calendário para fase de</p><p>instrução e decisão”.</p>