Prévia do material em texto
Disciplina | Introdução Teorias Cognitivas do Desenvolvimento| 1 DISCIPLINA A LINGUAGEM ESCRITA NOS ANOS INICIAIS AULA 02 Aspectos da Aprendizagem na Educação Infantil A Linguagem Escrita nos Anos Iniciais | Sumário Teorias Cognitivas do Desenvolvimento| 2 A Faculdade Focus se responsabiliza pelos vícios do produto no que concerne à sua edição (apresentação a fim de possibilitar ao consumidor bem manuseá-lo e lê-lo). Nem a instituição nem os autores assumem qualquer responsabilidade por eventuais danos ou perdas, a pessoa ou bens, decorrentes do uso da presente obra. É proibida a reprodução total ou parcial de qualquer forma ou por qualquer meio, eletrônico ou mecânico, inclusive através de processos xerográficos, fotocópia e gravação, sem permissão por escrito do autor e do editor. O titular cuja obra seja fraudulentamente reproduzida, divulgada ou de qualquer forma utilizada poderá requerer a apreensão dos exemplares reproduzidos ou a suspensão da divulgação, sem prejuízo da indenização cabível (art. 102 da Lei n. 9.610, de 19.02.1998). Atualizações e erratas: este material é disponibilizado na forma como se apresenta na data de publicação. Atualizações são definidas a critério exclusivo da Faculdade Focus, sob análise da direção pedagógica e de revisão técnica, sendo as erratas disponibilizadas na área do aluno do site www.faculdadefocus.com.br. É missão desta instituição oferecer ao acadêmico uma obra sem a incidência de erros técnicos ou disparidades de conteúdo. Caso ocorra alguma incorreção, solicitamos que, atenciosamente, colabore enviando críticas e sugestões, por meio do setor de atendimento através do e-mail tutoria@faculdadefocus.com.br. Material didático elaborado pela equipe de Engenharia e Gestão do Conhecimento do Grupo Focus de Educação sob solicitação do CENES – Centro de Estudos de Especialização e Extensão. © 2023, by Faculdade Focus Rua Maranhão, 924 - Ed. Coliseo - Centro Cascavel - PR, 85801-050 Tel: (45) 3040-1010 www.faculdadefocus.com.br Este documento possui recursos de interatividade através da navegação por marcadores. Acesse a barra de marcadores do seu leitor de PDF e navegue de maneira RÁPIDA e DESCOMPLICADA pelo conteúdo. G892 GRUPO FOCUS DE EDUCAÇÃO. A Linguagem Escrita nos Anos Iniciais: Aspectos da Aprendizagem na Educação Infantil / Org. Vitor Matheus Krewer. – Cascavel: Grupo Focus de Educação, Focus, 2023. 23 P. 1. Alfabetização. 2. Educação de crianças. 3. Escrita. 4. Linguagem – Aquisição. I. Título. CDD 23 ed.: 370.72 http://www.faculdadefocus.com.br/ mailto:tutoria@faculdadefocus.com.br http://www.faculdadefocus.com.br/ A Linguagem Escrita nos Anos Iniciais | Sumário Teorias Cognitivas do Desenvolvimento| 3 Sumário Sumário ----------------------------------------------------------------------------------------------------- 3 Introdução -------------------------------------------------------------------------------------------------- 4 1 Concepções de Criança e Infância --------------------------------------------------------------- 4 2 Concepções de desenvolvimento e de aprendizagem ------------------------------------- 8 2.1 Teorias Cognitivas do Desenvolvimento ------------------------------------------------------------------- 9 Jean Piaget (1896-1980)-------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 9 3 Concepções de Pré-Escola ------------------------------------------------------------------------ 17 4 Anos Iniciais do Ensino Fundamental --------------------------------------------------------- 19 Conclusão -------------------------------------------------------------------------------------------------- 21 Referências ------------------------------------------------------------------------------------------------ 22 A Linguagem Escrita nos Anos Iniciais | Introdução Teorias Cognitivas do Desenvolvimento| 4 Introdução A compreensão da infância e da educação infantil passa por uma série de evoluções e interpretações que são fundamentais para moldar as práticas educativas contemporâneas. Reconhecer as crianças como agentes ativos na cultura e detentoras de uma perspectiva crítica nos levou a desafiar a ideia de que a infância é apenas um prelúdio para a maturidade humana. Assim, ao explorar a relação entre infância e educação, esta unidade busca contextualizar as teorias cognitivas do desenvolvimento da criança, além de apresentar aspectos críticos que influenciam esse desenvolvimento no âmbito educacional, tanto na pré-escola como nos primeiros anos do ensino fundamental. As concepções variadas de pré-escola refletem as diferentes visões sociais sobre a infância e a educação infantil ao longo da história. Veremos que o compromisso com o desenvolvimento humano pleno na educação envolve desafios como a adequação de espaços físicos e recursos materiais, adaptação dos instrumentos de registro e normatizações, e, acima de tudo, a abordagem pedagógica. 1 Concepções de Criança e Infância A infância não deve ser vista meramente como uma etapa de crescimento biológico, preparatória para a vida adulta, ela possui uma identidade única, evidenciada na capacidade de imaginar, fantasiar e criar. Crianças são agentes ativos na produção cultural e possuem uma perspectiva crítica e astuta, capaz de questionar e reinventar o status quo. Esta visão vai contra uma interpretação que apenas vê a infância como um prelúdio para a maturidade humana. Conforme aponta Clarice Cohn (2005, p. 7), foi a partir da década de 1960, quando conceitos fundamentais à antropologia, como cultura e sociedade ou estrutura e agência, foram reformulados, que “começou-se a perceber na criança um “sujeito social”, abrindo caminho para novas formas de estudar a criança. Na revisão do conceito de cultura, os antropólogos se afastaram da visão de cultura como algo empiricamente observável e limitado, focando menos em costumes, valores ou crenças e mais na lógica subjacente que os molda, ou seja, “um sistema simbólico acionado pelos atores sociais a cada momento para dar sentido a suas experiências”. Trata-se de um sistema não mensurável e presente em toda a sociedade e é usado diariamente, muitas vezes inconscientemente, assim como a A Linguagem Escrita nos Anos Iniciais | Concepções de Criança e Infância Teorias Cognitivas do Desenvolvimento| 5 gramática é usada na fala. A cultura, portanto, está não “nos artefatos nem nas frases, mas na simbologia e nas relações sociais que os conformam e lhes dão sentido” (COHN, 2005, p. 13). O conceito de sociedade passa por uma revisão similar, também sendo tomado como um sistema simbólico, consistente e estruturado, esse sistema permite a formação e reconhecimento de sentidos e significados. Assim, “sem abdicar de sua condição estruturada, o conceito de sociedade se abre para dar conta de uma produção contínua das relações que a formam. Não se trata mais de pensar uma totalidade a ser reproduzida, mas de um conjunto estruturado em constante produção de relações e interações” (COHN, 2005, p. 14). Essa revisão leva também a uma reavaliação do papel do indivíduo, pois a sociedade só é continuamente produzida através dos indivíduos que a compõem, os quais são, portanto, atores sociais, que não apenas interpretam papéis predefinidos, mas criam seus próprios papéis enquanto vivem e interagem na sociedade. Essas são revisões de conceitos-chave da antropologia. E, por isso, permitem que se vejam as crianças de uma maneira inteiramente nova. Ao contrário de seres incompletos, treinando para a vida adulta, encenando papéis sociais enquanto são socializados ou adquirindo competências e formando sua personalidade social, passam a ter um papel ativo na definição de sua própria condição. Seres sociais plenos, ganham legitimidadecomo sujeitos nos estudos que são feitos sobre elas (COHN, 2005, p. 14). Historicamente, a noção de infância evoluiu, refletindo as transformações na estrutura social, nas relações interpessoais, no trabalho, e nas maneiras como as crianças são integradas à sociedade. A participação da criança na esfera social é um fenômeno complexo e multidimensional. Inseridas em seu contexto, internalizam valores e comportamentos, demonstrando que as interações sociais são fundamentais para o seu desenvolvimento e crescimento. Traçando a evolução do conceito de infância, observa-se que, durante a Idade Média, não havia um reconhecimento distinto da criança em relação ao adulto. As crianças eram vistas como versões menores dos adultos, compartilhando as mesmas responsabilidades e ocupações. A ênfase estava em amadurecer rapidamente para contribuir para o trabalho e a sociedade adulta. A educação, acessível apenas a A Linguagem Escrita nos Anos Iniciais | Concepções de Criança e Infância Teorias Cognitivas do Desenvolvimento| 6 poucos, consistia em uma transmissão de conhecimento sem atenção ao desenvolvimento comportamental fora da sala de aula. Com o advento da sociedade capitalista e urbano-industrial, o papel e a percepção da criança na sociedade começaram a mudar. Diferentemente da sociedade feudal, onde a criança assumia funções produtivas de adulto após sobreviver à infância, no contexto burguês, a criança passou a ser vista como um ser que necessitava de cuidados e educação para desempenhar um papel na sociedade futuramente. No século XVII, a ideia de que as crianças eram seres frágeis ganhou força e a pedagogia tradicional enfatizava a disciplina como meio de incutir regras, com o adulto desempenhando um papel ativo e constante na transmissão de valores e comportamentos. À medida que a sociedade capitalista se firmava, a escola emergia como uma ferramenta de divisão social, segregando crianças de adultos e separando os estratos sociais mais ricos dos mais pobres. O sistema educacional classificava as crianças por idade e reforçava a estratificação social, permitindo apenas aos indivíduos de classes mais altas o acesso aos níveis superiores de educação. Segundo Kuhlmann Jr. (1998), a educação escolar emergiu substituindo a aprendizagem no seio da comunidade e do trabalho adulto, isolando a criança numa espécie de reclusão pedagógica. Com o apoio emocional da família, que se tornou um refúgio de afeto entre cônjuges e filhos, a noção de infância foi se estabelecendo, espalhando-se das classes altas para as mais baixas. No Brasil dos séculos XVIII e XIX, um movimento higienista liderado por médicos e mulheres da burguesia inaugurou as primeiras creches, focando no cuidado dos filhos de trabalhadoras domésticas e na redução da mortalidade infantil. Essa preocupação com a saúde infantil se estendia a todas as classes sociais, combatendo a ignorância sobre as causas da alta mortalidade entre crianças, que não poupava nem as famílias ricas. Apesar de a escola ter adotado métodos autoritários e repressivos por muito tempo, foi também o ambiente escolar que permitiu o progresso no entendimento e na valorização da infância. Com o tempo, foram mapeadas as várias etapas do desenvolvimento cognitivo infantil, e a infância passou a ser vista como um valor social crucial, portadora das promessas para o futuro da sociedade. A Linguagem Escrita nos Anos Iniciais | Concepções de Criança e Infância Teorias Cognitivas do Desenvolvimento| 7 Faria (1999) destaca que, apesar das particularidades do capitalismo brasileiro, há elementos comuns a todos os processos de industrialização, como o crescente envolvimento das mulheres no mercado de trabalho e a transformação da estrutura familiar sob a influência do capital. Essas mudanças impunham um novo papel para a infância, onde agora a educação para o futuro torna-se essencial, inculcando desde cedo uma nova forma de vida pautada pela lógica do tempo de trabalho. Ariès, citado por Kramer (1996), aponta para duas visões contemporâneas sobre a infância que parecem contraditórias: a imagem da criança como um ser ingênuo e puro, sujeito a mimos excessivos, e a percepção da criança como um indivíduo imperfeito, carente de correção e educação moral por parte dos adultos. Essas visões, embora opostas, unem-se na definição de uma essência própria da infância, ocultando as verdadeiras dinâmicas sociais que moldam a experiência infantil. Cohen (2005) corrobora, explicando, ao examinar as diversas representações da infância, que existe uma variedade de concepções das quais precisamos nos desvencilhar para abordar o universo e a realidade e entender o que existe neles: A criança pode ser a tábula rasa a ser instruída e formada moralmente, ou o lugar do paraíso perdido, quando somos plenamente o que jamais seremos de novo. Ela pode ser a inocência (e por isso a nostalgia de um tempo que já passou) ou um demoniozinho a ser domesticado (quantas vezes não ouvimos dizer que “as crianças são cruéis”?). Seja como for, em todas essas ideias o que transparece é uma imagem em negativo da criança: quando falamos assim, estamos usando-a como um contraponto para falar de outras coisas, como a vida em sociedade ou as responsabilidades da idade adulta. E, pior, com isso afirmamos uma cisão, uma grande divisão entre o mundo adulto e o das crianças. Portanto, se quisermos realmente responder àquelas questões, precisamos nos desvencilhar das imagens preconcebidas e abordar esse universo e essa realidade tentando entender o que há neles, e não o que esperamos que nos ofereçam. Precisamos nos fazer capazes de entender a criança e seu mundo a partir do seu próprio ponto de vista (COHN, 2005, p. 5). Portanto, na sociedade contemporânea, não se pode pensar a infância de maneira isolada, sem considerar o contexto de classe social. Abstrair a criança de suas condições de vida reais oculta a verdadeira natureza social da infância. A pedagogia A Linguagem Escrita nos Anos Iniciais | Concepções de desenvolvimento e de aprendizagem Teorias Cognitivas do Desenvolvimento| 8 que ignora estas realidades falha ao não reconhecer a existência de desigualdades sociais que também afetam as crianças. Atualmente no Brasil, a visão da criança como um ente a ser mimado ou moralizado, uma pequena semente humana em processo de florescimento, evoluiu significativamente em termos teóricos. Agora, a infância é objeto de estudo em diversas áreas do conhecimento e inspira a mobilização de vários setores da sociedade civil. Esses grupos, ao reconhecerem as crianças como cidadãos plenos, batalham para que os direitos sociais garantidos pela Constituição de 1988 — incluindo o direito à educação — sejam efetivamente praticados. Com isso, a perspectiva educacional se orienta para a formação cidadã, percebendo as crianças como jovens cidadãos, dotados de capacidade para imaginar e criar. Dessa forma, a missão da educação escolar é vista como a formação de indivíduos críticos, criativos e autônomos, preparados para interagir e modificar o seu entorno. Dentro da relação entre infância e educação, percebe-se a importância de ampliar continuamente o conhecimento sobre as crianças, reconhecendo que elas se desenvolvem psicologicamente com características distintas ao longo do tempo e em diversos aspectos. Embora tenha havido progresso na educação, com uma nova ênfase na cidadania, ainda existem muitas outras concepções arraigadas relacionadas à educação infantil e pré-escolar que persistem. Para melhor compreensão sobre as crianças e da infância, é fundamental voltarmos nossos olhos para as teorias do desenvolvimento, que apresentam os princípios gerais sobre o desenvolvimento da criança, nos permitindo enxergar os fatos sob diversas perspectivas. É sobre algumas dessas teorias que trata o próximo capítulo.2 Concepções de desenvolvimento e de aprendizagem As disciplinas científicas que estudam a infância e como ocorre o desenvolvimento infantil enfatizam a importância dos primeiros anos de vida para o crescimento e aprendizado futuros, e são fundamentais para que a educação defina seus objetivos e métodos a partir do nascimento. A psicologia, em particular, fornece insights valiosos sobre o desenvolvimento infantil em diversas áreas e nos ajudam a entender como as crianças se desenvolvem, A Linguagem Escrita nos Anos Iniciais | Concepções de desenvolvimento e de aprendizagem Teorias Cognitivas do Desenvolvimento| 9 formam seu conhecimento e o que são capazes de aprender em cada momento da vida, tanto no nível sensório-motor, quanto nos níveis socioafetivo, cognitivo, simbólico e linguístico. Davis e Oliveira (1994) descrevem o desenvolvimento como um processo ativo pelo qual o indivíduo, interagindo com o ambiente físico e social, constrói suas características e salientam que, diferentemente de outras espécies, as características humanas não são uma herança biológica, mas sim construções históricas. Kohl (1993) vê a aprendizagem como um processo distinto de fatores inatos ou de maturação biológica, sendo definida como a aquisição de informações, habilidades, atitudes e valores que acontecem através do contato com a realidade, o meio ambiente e as interações sociais, diferenciando-se das capacidades inatas, como a digestão, ou dos processos de maturação que são independentes do ambiente, como a maturação sexual. Ambos compactuam da ideia de que o desenvolvimento e a aprendizagem ocorrem a partir da interação de múltiplos fatores determinantes. Teóricos cognitivos, como Piaget e Vygotsky exploraram profundamente essa interação, focando no desenvolvimento humano, no processo de aprendizagem e na relação entre ambos. 2.1 Teorias Cognitivas do Desenvolvimento As teorias cognitivo-desenvolvimentais enfatizam o desenvolvimento cognitivo focando nas ações da criança em seu ambiente e no processamento cognitivo das experiências que vivem. Duas teorias cognitivas recebem notável ênfase nos estudos do desenvolvimento no campo da educação, são as teorias de Piaget e de Vygotsky. Jean Piaget (1896-1980) O psicólogo suíço Jean Piaget (1896-1980) é reconhecido como o mais notável teórico do desenvolvimento cognitivo. Segundo ele, o desenvolvimento é composto por dois aspectos: um psicossocial, que envolve a aprendizagem proveniente do exterior, como a influência da família e da educação formal; e outro aspecto espontâneo ou psicológico, relacionado ao desenvolvimento autônomo da inteligência, no qual a criança aprende independentemente, por meio de sua própria exploração e descoberta (Padilla, 1998). Em outras palavras, o desenvolvimento cognitivo é um processo que emerge da interação entre o amadurecimento biológico e ambiental percorrendo um ciclo de desequilíbrios e reequilíbrios. A Linguagem Escrita nos Anos Iniciais | Concepções de desenvolvimento e de aprendizagem Teorias Cognitivas do Desenvolvimento| 10 Piaget notou padrões regulares no desenvolvimento do pensamento infantil, observando que crianças de diferentes idades tendem a fazer descobertas sequenciais similares e cometer erros semelhantes ao aprender sobre seu mundo. As observações detalhadas de Piaget sobre essas mudanças sistemáticas no pensamento das crianças levaram-no a diversas suposições, a mais central das quais diz que é da natureza do organismo humano adaptar-se ao seu ambiente. Este é um processo ativo. Ao contrário de muitos teóricos, Piaget não pensava que o ambiente molda a criança. Antes, a criança (como o adulto) busca ativamente entender seu ambiente. No processo, ela explora, manipula e examina objetos e pessoas em seu mundo (BEE, 2015, p. 37). Segundo Piaget, a criança desenvolve uma série de “entendimentos” ou “teorias” sobre como o mundo funciona, cada uma correspondendo a um estágio específico de desenvolvimento. Ele propôs uma sequência fixa de quatro estágios principais de desenvolvimento cognitivo, cada um baseado e originado a partir do anterior, representando um sistema ou organização mais ou menos completo de conceitos, estratégias e suposições. Piaget acreditava que todos os bebês nascem com habilidades e estratégias inatas semelhantes e que, devido às semelhanças importantes nos ambientes que as crianças experimentam, os estágios de desenvolvimento do pensamento também são semelhantes. Piaget teorizou, ainda, sobre o processo de adaptação e os diversos subprocessos que fazem parte dele – a assimilação, a acomodação e o equilíbrio –, que atuam para trazer harmonia quando alterações ambientais ou novas habilidades orgânicas geram perturbações e desequilíbrio ao longo dos diferentes estágios do desenvolvimento. A assimilação é o mecanismo no qual o organismo, sem mudar suas estruturas internas, adapta e integra novas experiências baseando-se em conhecimentos anteriores. Já na acomodação, o organismo altera suas estruturas para se adaptar a novas condições ambientais (Davis e Oliveira, 1994). Durante o desenvolvimento, ocorrem fases em que a assimilação é mais dominante e outras em que a acomodação é mais significativa. Piaget entende que o desenvolvimento é uma sequência de equilibrações progressivas e de autorregulação, um processo contínuo. A Linguagem Escrita nos Anos Iniciais | Concepções de desenvolvimento e de aprendizagem Teorias Cognitivas do Desenvolvimento| 11 Segundo Helen Bee (2015, p. 168), um conceito fundamental na teoria de Piaget, e um dos mais complexos, é o esquema (às vezes chamado de plano). Esse conceito é frequentemente usado como um sinônimo de "conceito" ou "categoria mental", porém Piaget o concebeu de forma mais abrangente. Para ele, o conhecimento não se restringe a categorias mentais passivas, mas inclui ações, sejam elas mentais ou físicas e cada uma dessas ações representa um esquema. Assim, um esquema não é apenas uma categoria, mas sim o ato de categorizar de uma maneira específica. Ações puramente físicas ou sensoriais, como pegar (esquema de pegar) ou olhar (esquema de olhar) uma bola, também são consideradas esquemas. Piaget afirmava que cada bebê inicia a vida com um conjunto básico de esquemas sensoriais ou motores simples, como olhar, provar, tocar, ouvir e agarrar. Para um bebê, um objeto é definido pelas sensações que provoca (sabor, textura, cor etc.). Com o tempo, a criança desenvolve esquemas mentais, como categorizar ou comparar objetos. Durante o desenvolvimento, esses esquemas tornam-se cada vez mais complexos, evoluindo para habilidades como análise dedutiva ou raciocínio esquemático e, ao longo da vida, continuam adquirindo novos esquemas, tanto físicos quanto mentais. Piaget explicou que esses esquemas surgem da interação com o ambiente, através de um processo mental inato chamado organização, o qual permite deduzir esquemas generalizáveis a partir de experiências específicas. Por exemplo, um bebê que manuseia uma bola desenvolve um esquema que será aplicado a outros objetos semelhantes. Além disso, diferenciou entre esquemas figurativos, que são representações mentais das propriedades básicas dos objetos, e esquemas operativos, que permitem compreender as associações lógicas entre objetos e raciocinar ou agir sobre eles. Enquanto os esquemas figurativos envolvem rotular e descrever características e comportamentos típicos (como distinguir cães de gatos), os esquemas operativos são usados para entender relações lógicas (como reconhecer que poodles são cães e cães são mamíferos) (BEE, 2015). Assim, Piaget classifica os estágios em que são observadas novas formas de pensamento em estágio sensório-motor, pré-operatório, operatório-concreto e operatório-formal, os quais referem-se a maneiras específicas de interação com o mundo e são experimentadospor todos os indivíduos na mesma ordem, mas não necessariamente no mesmo tempo. Sua teoria considerada o fator de equilibração das ações como essencial para a compreensão da ordem dos estágios do desenvolvimento e a transição de uma etapa A Linguagem Escrita nos Anos Iniciais | Concepções de desenvolvimento e de aprendizagem Teorias Cognitivas do Desenvolvimento| 12 do desenvolvimento mental para outra. Outros fatores básicos que também afetam o processo são os fatores biológicos, maturação do sistema nervoso, experiências com objetos e interações sociais e fatores educacionais também são influentes. Em seu entendimento, a interação social é considerada menos relevante. Estágios do Desenvolvimento No estágio sensório-motor, que vai dos 0 aos 2 anos, a criança aprende e explora o mundo através da percepção e movimento. Durante este período, a criança desenvolve e organiza conceitos a partir da interação com o ambiente, um processo em que afetividade e inteligência são indissociáveis e moldados pela socialização. Progressivamente, a criança diferencia seu 'eu' do mundo exterior (DAVIS e OLIVEIRA, 1994). O período pré-operatório, que vai dos 2 aos 7 anos e é crucial para educadores de pré-escola, é caracterizado pelo desenvolvimento da linguagem. Esta nova habilidade linguística impacta significativamente as áreas intelectual, emocional e social da criança, permitindo-lhe criar esquemas simbólicos. Nesta fase, a criança interpreta a realidade através de seus desejos e fantasias. Durante este estágio, a criança frequentemente imita a fala sem compreender completamente o significado das palavras e, devido ao seu pensamento egocêntrico, interpreta os acontecimentos exclusivamente do seu ponto de vista, o que dificulta o trabalho em grupo, já que a criança tem dificuldade em considerar perspectivas alheias. Além disso, nesse período, a criança ainda não compreende a reversibilidade e a conservação, acreditando que mudanças na aparência de um objeto alteram suas propriedades fundamentais, como quantidade e volume, por exemplo. Quando a criança entra no período das operações concretas, dos 7 aos 11 ou 12 anos, seu conhecimento se torna mais alinhado com a realidade circundante. Davis e Oliveira (1994) destacam que o pensamento lógico e objetivo se torna predominante, com as ações interiorizadas progressivamente mais reversíveis e flexíveis. O pensamento da criança se torna menos egocêntrico, e a distinção entre realidade e fantasia se torna mais clara. Na fase operatório-formal, que começa aos 11 ou 12 anos, o indivíduo é capaz de raciocinar logicamente e de realizar operações abstratas sem a necessidade de manipulação concreta. Neste estágio, ele alcança o nível mais avançado de A Linguagem Escrita nos Anos Iniciais | Concepções de desenvolvimento e de aprendizagem Teorias Cognitivas do Desenvolvimento| 13 desenvolvimento cognitivo e o foco passa a ser o aprimoramento e enriquecimento de suas estruturas cognitivas. Mizukami (1986) afirma que Piaget vê o conhecimento humano como fundamentalmente ativo. Ele entende que conhecer um objeto envolve agir sobre ele e transformá-lo, compreendendo os mecanismos dessa transformação. “Conhecer é, pois, assimilar o real às estruturas de transformações, e são as estruturas elaboradas pela inteligência enquanto prolongamento direto da ação” (MIZUKAMI, 1986, p. 64). Lev Vygotsky (1896 – 1934) Vygotsky (1984) considera que o sujeito não é apenas ativo, mas também interativo, pois constitui conhecimento através de relações intra e interpessoais. Conforme destaca Kohl (1993), justamente por enfatizar os processos sócio-históricos, Vygotsky entende que a internalização do conhecimento e das funções sociais ocorre através da interação com outros e com o próprio sujeito, transitando do social para o individual. Da mesma forma, apesar de aprendizagem e desenvolvimento serem processos distintos, eles são interdependentes. Assim, ressalta a importância da capacidade humana de compreender e usar a linguagem. Vygotsky (1987) argumenta que a aprendizagem eficaz organiza e impulsiona o desenvolvimento mental, ativando processos evolutivos que não ocorreriam de outra forma, defendendo que a aprendizagem começa bem antes da escola, com a criança interagindo desde o nascimento com diversas pessoas e situações, o que a ajuda a atribuir significados a diferentes ações e experiências. O aprendizado escolar, portanto, introduz uma nova dimensão no desenvolvimento infantil, promovendo uma percepção mais generalista e conscientizando a criança sobre seus processos mentais. Vygotsky (1984) introduz o conceito de zona de desenvolvimento proximal para explicar a relação entre desenvolvimento e aprendizagem. Ele distingue entre o nível de desenvolvimento real da criança, referente às habilidades já adquiridas, e o nível de desenvolvimento potencial, que se refere à capacidade da criança de realizar tarefas com a ajuda de adultos ou colegas mais capazes. O modelo de desenvolvimento proposto por ele observa, portanto, os seguintes critérios: Primeiramente, o modelo deve ser explicativo, não apenas descritivo, organizado por princípios substanciais que expliquem o A Linguagem Escrita nos Anos Iniciais | Concepções de desenvolvimento e de aprendizagem Teorias Cognitivas do Desenvolvimento| 14 desenvolvimento como um "processo único de autodesenvolvimento". Em segundo lugar, deve considerar a criança como um todo integral. Em terceiro lugar, a infância deve ser dividida em períodos, cada um caracterizado de maneira unificada e baseada em princípios abstratos, mas manifestados de forma concreta em cada período etário (CHAIKLIN, 2003, p. 40, nossa tradução). Assim, propôs que cada período da infância fosse caracterizado por uma estrutura psicológica, um conjunto de relações integrais entre funções psicológicas (como percepção, memória voluntária, fala, pensamento). Essa estrutura reflete a criança como um todo, descrevendo tanto suas qualidades quanto seu relacionamento com o ambiente. Trata-se de uma estrutura integrada de relações entre funções psicológicas desenvolvidas e em desenvolvimento adquiridas através da interação material. Vygotsky descreveu o desenvolvimento infantil como uma série de períodos estáveis longos (1 a 4 anos), intercalados por períodos mais curtos de crise. A dinâmica desse desenvolvimento pode ser entendida a partir da compreensão sobre como e por que ocorre uma mudança qualitativa na estrutura psicológica característica de cada período etário. O ponto de partida é a relação específica da criança com o ambiente, designada como a situação social de desenvolvimento. Cada período etário tem uma nova formação central (ou neoformação) própria diferente daquela em que as funções psicológicas se desenvolvem. Essa nova formação é organizada na situação social de desenvolvimento por uma contradição básica entre as capacidades atuais da criança, suas necessidades e desejos, e as demandas e possibilidades do ambiente (CHAIKLIN, 2003). As funções necessárias para a transição para um novo período etário são formadas e elaboradas nessas situações de confronto. Cada período tem uma atividade principal, que é a principal fonte de desenvolvimento dentro de um período. A atividade em si não desenvolve a criança, mas as ações que a criança realiza para realizar a atividade principal servem para desenvolver as funções psicológicas necessárias para essa atividade. A nova formação é um produto, não um pré-requisito, de um período etário. Esses períodos etários são entendidos como construções históricas e materiais. A situação social de desenvolvimento fornece uma maneira de caracterizar a interação entre formas historicamente construídas de prática e os interesses e ações da criança. A Linguagem Escrita nos Anos Iniciais | Concepções de desenvolvimentoe de aprendizagem Teorias Cognitivas do Desenvolvimento| 15 Mudanças nas relações históricas podem levar a mudanças nas funções psicológicas. É importante destacar que esses períodos não refletem uma necessidade biológica, mesmo que o desenvolvimento de funções psicológicas superiores dependa de condições naturais. Quando Vygotsky fala em "idade", ele se refere a uma categoria psicológica, não apenas temporal. Da mesma forma, nenhuma das funções psicológicas é "pura" no sentido de ser um módulo ou faculdade biologicamente dado. Elas foram formadas tanto historicamente no desenvolvimento filogenético das sociedades humanas quanto individualmente no desenvolvimento ontogenético de pessoas nessas sociedades (CHAIKLIN, 2003, p. 47). O conceito de zona de desenvolvimento proximal é introduzido a partir desse modelo de desenvolvimento da criança e usado na análise do desenvolvimento psicológico para dois propósitos diferentes. O primeiro, é identificar os tipos de funções psicológicas de maturação (e as interações sociais associadas a eles) necessário para a transação de um período para o outro. O outro, é identificar o estado atual da criança em relação ao desenvolvimento dessas funções. Para cada período etário, existe um conjunto de funções psicológicas que estão maturando em relação à neoformação e que levará à reestruturação das funções existentes e à formação de uma nova estrutura psicológica. Esta nova formação resulta na transição para o próximo período etário. Vygotsky refere-se a isso como a zona objetiva de desenvolvimento proximal, a qual é objetiva porque não se refere a uma criança individual, mas às funções psicológicas que precisam ser formadas em um determinado período etário para a formação do próximo período. Essa zona objetiva não é definida a priori, mas reflete as relações estruturais historicamente construídas e objetivamente constituídas no período histórico em que a criança vive. Pode-se dizer que ela é normativa, uma vez que reflete as demandas e expectativas institucionalizadas que se desenvolveram historicamente em uma tradição de prática social. Por exemplo, espera-se que crianças em idade escolar desenvolvam a capacidade de raciocinar com conceitos acadêmicos, assim, é possível que os indivíduos que não desenvolvem essa capacidade tenham uma estrutura intelectual diferente da maioria das crianças em idade escolar. Vygotsky aponta que as principais neoformações que participam da instrução escolar estão associadas às novas formações deste período, que são a consciência e a volição, características que distinguem todas as funções mentais superiores que se desenvolvem durante este período (CHAIKLIN, 2003, p. 49). A Linguagem Escrita nos Anos Iniciais | Concepções de desenvolvimento e de aprendizagem Teorias Cognitivas do Desenvolvimento| 16 A zona de desenvolvimento proximal é uma ferramenta para avaliar o desenvolvimento de uma criança em relação a uma zona objetiva estabelecida. A zona objetiva representa as funções psicológicas que precisam amadurecer durante um determinado período etário para avançar para o próximo, sendo que a avaliação deve focar no estado atual dessas funções em maturação. Como essas funções ainda não estão completamente desenvolvidas para um desempenho independente, é necessário identificá-las por meio de procedimentos dinâmicos e interativos que ajudem a estimar o grau de desenvolvimento delas. Vygotsky diferencia, ainda, a zona subjetiva de desenvolvimento proximal, que se refere ao ponto em que as funções em maturação de uma criança estão alcançando a estrutura do próximo período etário. Esta zona é chamada de "subjetiva" porque se relaciona com o desenvolvimento de uma pessoa individual em relação ao período de desenvolvimento histórico e objetivo seguinte. Em resumo, as principais características da análise da zona de desenvolvimento proximal são (a) a criança como um todo, (b) estrutura interna (ou seja, relações entre funções psicológicas), (c) desenvolvimento como uma mudança qualitativa nas relações estruturais, (d) promovido pelas ações da criança na situação social de desenvolvimento (refletindo o que a criança percebe e pelo que se interessa), onde (e) cada período etário tem uma atividade/contradição principal que organiza as ações da criança (dentro da qual os interesses subjetivos estão operando) através da qual novas funções se desenvolvem. A zona de desenvolvimento proximal é uma forma de se referir tanto às funções que estão se desenvolvendo ontogeneticamente para um determinado período etário (objetivo) quanto ao estado atual de desenvolvimento da criança em relação às funções que idealmente precisam ser realizadas (subjetivo) (CHAIKLIN, 2003, p. 50, nossa tradução). No âmbito educacional, a zona de desenvolvimento proximal pode ser definida, então, como a diferença entre o nível de desenvolvimento real, medido pela capacidade de resolver problemas independentemente, e o nível de desenvolvimento potencial, medido pela resolução de problemas com ajuda. Assim, professores, incluindo os de pré-escola, devem conhecer o nível de desenvolvimento dos alunos para atuar de maneira eficaz, e o ensino deve visar não só as etapas de A Linguagem Escrita nos Anos Iniciais | Concepções de Pré-Escola Teorias Cognitivas do Desenvolvimento| 17 desenvolvimento já alcançadas pelos alunos, mas as que ainda estão por ser incorporadas. 3 Concepções de Pré-Escola As concepções de pré-escola são diversas, principalmente em razão das diferentes percepções sociais sobre a infância e do trato educacional direcionado às crianças ao longo da história. A função atribuída à educação pré-escolar de crianças de 4 a 6 anos varia de acordo com as visões sobre a criança, a educação infantil e a própria pré-escola. Historicamente no Brasil, a pré-escola tinha a função de cuidar das crianças, liberando as mulheres para o trabalho. Esta visão predominou durante o período escravagista, imperial e no início da República, com foco em garantir a sobrevivência das crianças através de cuidados básicos em saúde, higiene e alimentação, muitas vezes em tempo integral. Neste contexto, a educação pré-escolar era vista apenas sob a perspectiva da saúde física. Posteriormente, com a valorização do progresso e da indústria, surgiu a "assistência científica", que abordava questões como a habitação dos pobres, além da alimentação (Kuhlmann Jr., 1998). Com o tempo, a pré-escola começou a ser vista mais como um espaço educacional do que apenas assistencial, assumindo a função preparatória. Esta função tinha como objetivo preparar as crianças para o ensino fundamental, sendo considerada uma solução para o problema do fracasso escolar. A função de preparação servia tanto para acelerar o aprendizado de crianças de classe média quanto para compensar carências de crianças de classes populares. Esta abordagem compensatória, baseada na teoria da deficiência cultural, visava proporcionar estímulos para superar as supostas carências culturais associadas às populações de baixa renda. Segundo Patto (1977), a educação compensatória se dividia em preventiva, que buscava evitar as consequências negativas de um ambiente pobre em estímulos cognitivos, e remediativa, aplicada quando a educação preventiva falhava ou não era oferecida. Atualmente, muitos educadores ainda mantêm a visão da função preparatória da pré-escola, onde o foco principal é a escolarização. As características da escolarização tradicional antecipada incluem um ambiente pouco inspirador, com a realização de atividades repetitivas e pouco criativas, exigência de silêncio e restrição de movimento. Essa abordagem enfatiza que todos os alunos façam as mesmas A Linguagem Escrita nos Anos Iniciais | Concepções de Pré-Escola Teorias Cognitivas do Desenvolvimento| 18 atividades ao mesmo tempo, sem espaço paraa diversidade de trabalhos, pesquisa de assuntos interessantes ou incentivo à curiosidade e aprendizado independente, segundo Oliveira (2013). Neste modelo, a criança não é vista como um agente ativo, interativo e explorador. O foco excessivo na alfabetização e em um planejamento rígido, mencionado por Faria (1999), limita a construção de novos conhecimentos e acaba por reduzir o aspecto lúdico à didática. Faria argumenta que, nesta fase, a educação deve fornecer outros tipos de conhecimento, além da escolarização tradicional. Com o aumento das críticas à educação compensatória, surge uma nova visão de pré-escola focada no desenvolvimento integral e harmonioso da criança. No entanto, Kramer (1997) aponta que essa abordagem muitas vezes ignora a diversidade social e o papel político da pré-escola no contexto mais amplo da educação e da sociedade brasileira. A pré-escola com função pedagógica busca instrumentalizar as crianças através de atividades significativas para suas vidas, promovendo o desenvolvimento e a aquisição de novos conhecimentos. Kramer defende que o trabalho pedagógico deve considerar as crianças como seres sociais, respeitando suas diferentes características, histórias de vida, classe social, etnia e gênero. Ela enfatiza a importância de abordar e trabalhar os conflitos para promover uma inserção social construtiva, valorizando a autonomia, identidade e cooperação. Contudo, Oliveira (2013) destaca que ainda existem equívocos na compreensão da função pedagógica da pré-escola. Muitos educadores importam práticas do ensino fundamental, como a ênfase cognitiva e a organização disciplinar, minimizando a importância do jogo e da motricidade. Isso leva a uma discrepância entre a concepção pedagógica declarada e a prática real na educação pré-escolar. Ao entender como as crianças se desenvolvem e aprendem, reconhece-se a importância da pré-escola como um período propício para fomentar e expandir esse desenvolvimento e aprendizado. Nesta fase, as crianças são naturalmente curiosas, ansiosas por explorar, experimentar e questionar, e aprendem rapidamente. É crucial, portanto, que elas recebam atenção e cuidado adequados. Neste sentido, Barros (2009), esclarece Ao brincar, afeto, motricidade, linguagem, percepção, representação, memória e outras funções cognitivas estão profundamente interligados. A brincadeira favorece o equilíbrio afetivo da criança e A Linguagem Escrita nos Anos Iniciais | Anos Iniciais do Ensino Fundamental Teorias Cognitivas do Desenvolvimento| 19 contribui para o processo de apropriação de signos sociais. Cria condições para uma transformação significativa da consciência infantil, por exigir das crianças formas mais complexas de relacionamento com o mundo. Isso ocorre em virtude das características da brincadeira: a comunicação interpessoal que ela envolve não pode ser considerada “ao pé da letra”; sua indução a uma constante negociação de regras e à transformação dos papéis assumidos pelos participantes faz com que seu enredo seja sempre imprevisível (BARROS, 2009). A autora destaca, ainda, a essencialidade dos jogos simbólicos para fomentar a imaginação e promover abordagens inovadoras de ver o mundo, desempenhando um papel crucial no desenvolvimento da autonomia, criatividade e na exploração de diferentes significados e interpretações. Além disso, influencia a habilidade da criança de imaginar e representar, conectando-se com outras formas de expressão e servem como meios eficazes para o aprendizado de normas sociais. Muitos teóricos, bem como as políticas e programas atuais de educação infantil, demonstram uma preocupação crescente com esta fase do desenvolvimento infantil. Eles buscam aprofundar a compreensão sobre esta etapa vital na vida das crianças e sobre o papel da pré-escola, propondo diretrizes para uma abordagem educacional apropriada. No entanto, é essencial também levar em conta a perspectiva dos próprios professores. É importante entender como eles percebem a relevância da pré-escola e de que maneira ela pode impactar as crianças nas séries iniciais do ensino fundamental. É necessário investigar se muitas das características e comportamentos manifestados pelas crianças mais tarde podem ser influenciados pelo seu desenvolvimento durante os anos na pré-escola. 4 Anos Iniciais do Ensino Fundamental A educação comprometida com o desenvolvimento humano pleno envolve diversos desafios, que incluem a adequação dos espaços físicos, a garantia de recursos materiais adequados, a adaptação dos instrumentos de registro e normatizações e, especialmente, a abordagem pedagógica. Antes de analisar e refletir sobre esses desafios, é crucial reconhecer que eles derivam da concepção de infância que fundamenta a ação educativa. Uma prática educativa de qualidade exige que a criança A Linguagem Escrita nos Anos Iniciais | Anos Iniciais do Ensino Fundamental Teorias Cognitivas do Desenvolvimento| 20 seja vista como central no processo e que se considere as diferentes dimensões de sua formação. Hoje, reconhece-se que a infância, tal como a entendemos atualmente, não é um fenômeno natural e universal, mas o resultado de uma construção gradual das sociedades moderna e contemporânea. Como vimos em momento anterior, a infância deixou de ser vista apenas como uma preparação para a idade adulta e passou a ser entendida como uma fase única da vida. Essa compreensão da especificidade da infância trouxe avanços na perspectiva do desenvolvimento infantil, focando em como as crianças compreendem e interagem com o mundo. Nesse contexto, teóricos como Piaget dedicaram-se a estudar a gênese das funções psíquicas infantis, considerando os processos vividos na infância como fundamentais para a formação mental do adulto. O que importa destacar é que o reconhecimento da especificidade da infância, como esperamos ter assinalado, não pode significar seu isolamento diante dos demais grupos sociais. Se o estatuto de ator social é conferido aos seres humanos tendo em conta sua capacidade de interagir em sociedade e de atribuir sentido a suas ações, então, reconhecer a infância como uma construção social da qual participam as crianças como atores sociais de pleno direito implica considerar sua capacidade de produção simbólica, de representações e crenças em sistemas organizados. É na inter- relação com as outras culturas que a cultura infantil se constitui como tal. Nesse sentido, pode-se afirmar que as crianças são sujeitos capazes de interagir com os signos e símbolos construídos socialmente, bem como de atribuir distintos significados a partir dessa interação. Assim, é importante salientar que nove anos de escolaridade obrigatória devem significar a ampliação do direito à educação não apenas quantitativamente – mais crianças na escola e mais anos de escolarização para cada uma delas – mas, sobretudo, qualitativamente – mais crianças, por mais tempo, em uma escola de qualidade. Uma escola que respeite as crianças e que lhes assegure o tempo da infância. Como bem postulou Marsiglia (2011), ao explorar a lei n. 11.114/2005 que alterou os dispositivos da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (lei n. 9.394/96) com o objetivo de tornar obrigatório o início do ensino fundamental aos seis anos de idade, Na perspectiva teórica da pedagogia histórico-crítica e da psicologia histórico-cultural, não se encontra nenhum prejuízo na escolarização. Ao contrário, entende-se que a educação escolar deve ser garantida A Linguagem Escrita nos Anos Iniciais | Conclusão Teorias Cognitivas do Desenvolvimento| 21 também às crianças pequenas, pois é por meio da apropriação do patrimônio humano-genérico, de modo privilegiado pela educação de caráter escolar, que os seres humanos podem desenvolver-se. No entanto, não basta que o ensino fundamental comece um ano antes do queocorria. Também não cabe a defesa de uma educação para as crianças do Iº ano que, em nome de um suposto respeito às suas particularidades, lhes sonegue o direito ao conhecimento. O que se faz premente é uma educação escolar de qualidade desde a educação infantil, rica em possibilidades e intervenções que proporcionem aos indivíduos a apropriação da cultura em suas formas mais desenvolvidas. Trata-se de ter, como afirmou Duarte (1998), uma concepção afirmativa pelo ato de ensinar, que se adiante ao desenvolvimento, contribuindo no processo de humanização dos indivíduos (MARSIGLIA, 2011, p. 121). Para a autora, a tarefa de enfrentar desafios crescentes na educação na sociedade contemporânea se torna cada vez mais complexa. Assim, é fundamental que os educadores intensifiquem seus esforços na defesa da educação, opondo-se a concepções que são contrárias aos princípios escolares. Neste sentido, a discussão sobre as práticas educativas a serem desenvolvidas nos primeiros anos do Ensino Fundamental de nove anos de duração deve, pois, responder ao desafio de assegurar uma educação de qualidade para as crianças. Conclusão Nesta unidade, buscamos refletir sobre a complexidade da infância e da educação infantil. Vimos como a atual compreensão sobre as fases do desenvolvimento infantil evoluiu ao longo da história influenciando as práticas educativas atuais. Reconhecendo as crianças como participantes ativas e críticas na sociedade, movemo-nos além da noção de que a infância é meramente um estágio preliminar para a maturidade. Aprofundamos nosso entendimento sobre como as teorias cognitivas do desenvolvimento da criança fornecem insights valiosos para a educação infantil e os anos iniciais do ensino fundamental, abrindo caminho para uma abordagem educacional que respeita e valoriza a singularidade e a capacidade de cada criança. A Linguagem Escrita nos Anos Iniciais | Referências Teorias Cognitivas do Desenvolvimento| 22 Refletimos sobre como a educação infantil e os primeiros anos do ensino fundamental são períodos cruciais que requerem uma abordagem multifacetada que leve em conta tanto o desenvolvimento cognitivo como os aspectos emocionais, sociais e culturais da criança. Este entendimento aprofundado guia os educadores a promoverem práticas que não só atendam às necessidades imediatas das crianças, mas que também as preparem para se tornarem cidadãos engajados e conscientes em um mundo em constante mudança. Referências ARIÉS, P. História social da criança e da família. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1981. 279p. BARROS, F. C. O. M. Cadê o brincar? Da educação infantil para o ensino fundamental [online]. São Paulo: Edutora UNESP. 2009. BEE, H. A criança em desenvolvimento. – 12 ed. Porto Alegre: Artmed, 2011. CHAIKLIN, S. The Zone of Proximal Development in Vygotsky’s Analysis of Leaning and Instruction. In.: KOZULIN, A.; GINDIS, B.; AGEYEV, V. S.; MILLER, S. M. Vygotsky’s Educational Theory in Cultural Context. New York: Cambridge University Press, 2003, p. 39-64. COHN, C. Antropologia da criança. – 2 ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2005. DAVIS, C & OLIVEIRA, Z. M. R. Psicologia na educação. 2ª ed. São Paulo: Cortez, 1994. FARIA, A. L. G. de. Educação pré-escolar e cultura. Campinas: Cortez, 1999. KRAMER, S. et al. Leitura e escrita de professores em suas histórias de vida e formação. Rio de Janeiro: PUC; CNPq, 1997. p. 127-138. KRAMER, S.; LEITE, I. Infância: fios e desafios da pesquisa. Campinas: Papirus, 1996. KRAMER, S.; SOUZA, S. J. (org). Histórias de professores: leitura, escrita e pesquisa em educação. São Paulo: Ática, 1996. KUHLMANN, M. Jr., Infância e educação infantil: Uma abordagem histórica. Porto Alegre: Mediação, 1998. MARSIGLIA, A. C. G. A prática pedagógica histórico-crítica na educação infantil e ensino fundamental. Campinas, SP: Autores Associados, 2011, - (Coleção Educação Contemporânea). A Linguagem Escrita nos Anos Iniciais | Referências Teorias Cognitivas do Desenvolvimento| 23 MIZUKAMI, M. G. N. Ensino: as abordagens do processo. São Paulo: EPU, 1986. OLIVEIRA, M. K. Vygotsky: aprendizado e desenvolvimento. Um processo histórico. São Paulo: Scipione, 1997. OLIVEIRA, Z. M. R. de. Educação infantil: fundamentos e métodos [livro eletrônico]. São Paulo: Cortez, 2013. Patto, M. H. S. Para uma crítica da razão psicométrica. São Paulo: Psicologia USP, 1997. A Linguagem Escrita nos Anos Iniciais | Referências Teorias Cognitivas do Desenvolvimento| 24 Sumário Introdução 1 Concepções de Criança e Infância 2 Concepções de desenvolvimento e de aprendizagem 2.1 Teorias Cognitivas do Desenvolvimento Jean Piaget (1896-1980) Estágios do Desenvolvimento Lev Vygotsky (1896 – 1934) 3 Concepções de Pré-Escola 4 Anos Iniciais do Ensino Fundamental Conclusão Referências