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OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM > Explicar a disponibilização espacial do território. > Descrever os domínios socionaturais brasileiros. > Reconhecer a economia política do espaço. Introdução Neste capítulo, você vai estudar a formação do Brasil a partir da chegada dos colonizadores portugueses, com foco na questão das terras e na ação política e administrativa. Você vai ler sobre o papel dos colonizadores, bandeirantes e jesuítas, bem como sobre impactos e formas de exploração de indígenas e negros. Além disso, vai conhecer a organização administrativa do território via capitanias hereditárias e sesmarias, a organização produtiva, social e de trabalho no período dos ciclos econômicos (açúcar, ouro, café e borracha) e a organização relativa a elementos naturais (relevo, clima, vegetação e hidrografia). Ao longo do capítulo, você ainda vai estudar os domínios geobotânicos (tropical, campestre e equatorial) e os domínios morfoclimáticos (amazônico, cerrado, mares de morros, caatinga, araucária e pradarias). Ademais, vai ler sobre a questão da renda da terra diferencial como fator determinante das formas de utilização e ocupação do território nacional. Formação territorial do Brasil Francielly Naves Fagundes Uso e ocupação do território brasileiro Quando os portugueses chegaram ao Brasil, em 1500, grupos étnicos indígenas já ocupavam o território do País. Por séculos, as terras brasileiras foram uti- lizadas pelos indígenas, o que se modificou com a chegada dos portugueses, que tomaram posse do território. A coroa portuguesa e os portugueses enviados para colonizar o Brasil adotaram um modelo de colonização de exploração (de terras, recursos naturais e mão de obra), visando a direcionar produtos para a metrópole. Ao chegar aqui, os colonos portugueses encontraram um território “[...] povoado por uma diversidade de tribos indígenas cuja soma chega a uma população de mais de cinco milhões de habitantes. Espaço e força de trabalho aí estão reunidos [...]” (MOREIRA, 2011, p. 11). Os portugueses, os bandeirantes (homens que exploravam e penetra- vam as terras) e os religiosos jesuítas foram agentes que por cerca de três séculos interviram no País e alteraram as formas de uso e ocupação do território brasileiro, bem como a vida dos indígenas que já residiam nesse território. Veja: Os três primeiros séculos serão dedicados a essa tarefa de disponibilização, re- alizada por intermédio de uma ação simultânea de expropriação e realocação territorial das tribos indígenas. A expropriação será a tarefa dos bandeirantes. A realocação, dos jesuítas. Disponibilizado, o espaço pode agora ser ocupado pelo colono. E a população indígena dele despojada, usada como força de trabalho (MOREIRA, 2011, p. 11–12). A organização do território brasileiro ocorreu inicialmente por meio das capitanias hereditárias. As capitanias eram uma forma de distribuição de terras imposta pelos colonizadores. As faixas de terra eram destinadas aos donatários e repassadas por hereditariedade (na família, de pais para filhos). Cada donatário deveria administrar e proteger as terras recebidas e responder às imposições do rei de Portugal. Atente ao seguinte: As capitanias hereditárias foram a primeira medida real de colonização tomada pelos portugueses em relação ao Brasil. Com as capitanias, foi implantado um sistema de divisão administrativa por ordem do rei português D. João III, em 1534. A América Portuguesa foi dividida em 15 faixas de terra, e a administração dessas terras foi entregue aos donatários. As capitanias existiram no Brasil durante séculos, mas, a partir de 1548, uma nova forma de administrar o Brasil foi criada (SILVA, 2020, documento on-line). Formação territorial do Brasil2 Na Figura 1, a seguir, veja as capitanias hereditárias e os seus respec- tivos donatários, isto é, os europeus que receberam faixas de terra para administrar. Figura 1. Capitanias hereditárias do Brasil Colônia. Fonte: Albuquerque, Reis e Carvalho (1996 apud PERON, 2020, documento on-line). Outra forma de organização do espaço geográfico do País — nesse caso, de distribuição das terras brasileiras — foram as sesmarias. As sesmarias foram criadas como um meio de implantar práticas de agricultura e povoar as novas terras da coroa portuguesa. Veja a definição de sesmaria: Sesmaria era um lote de terras distribuído a um beneficiário, em nome do rei de Portu- gal, com o objetivo de cultivar terras virgens. Originada como medida administrativa nos períodos finais da Idade Média em Portugal, a concessão de sesmarias foi largamente Formação territorial do Brasil 3 utilizada no período colonial brasileiro. Iniciada com a constituição das capitanias hereditárias em 1534, a concessão de sesmarias foi abolida apenas quando houve o processo de independência, em 1822. A origem das sesmarias esteve relacionada com as terras comunais existentes no reino português e com a forma de distribuição delas entre os habitantes das comunidades rurais (PINTO, 2020, documento on-line). De acordo com Théry e Mello-Théry (2005), os ciclos econômicos do Brasil permitiram o povoamento do território. Para os autores, o processo de interiorização do País (a colonização ficou muito tempo restrita às faixas litorâneas) deu-se por meio dos diferentes ciclos econômicos. Afinal, tais ciclos desencadearam a exploração de regiões até então não ocupadas. Iniciava-se, assim, a formação de um Brasil “arquipélago”, com uma espécie de mosaico de regiões autônomas. Formava-se um país de di- ferenças regionais, com uma série de ciclos econômicos em regiões distintas. Cada tipo de produção afetou uma região diferente do País, permitindo novos povoamentos (chamados de “interiorização”) (THÉRY; MELLO-THÉRY, 2005). Até o século XVII, predominou o ciclo econômico do açúcar, restrito às áreas territoriais do litoral onde se cultivava a cana-de-açúcar e se produzia o açúcar em engenhos. Depois, iniciou-se um processo de interiorização, povoamento e expansão para Minas Gerais, com a descoberta de ouro. O ciclo econômico do ouro começou no final do século XVII (THÉRY; MELLO-THÉRY, 2005). A mineração em Minas Gerais impulsionou a mudança da capital do Brasil Colônia. A capital, que antes era Salvador, passou a ser o Rio de Janeiro. Com essa mudança, o centro econômico, que era restrito ao litoral nordestino, deslocou-se para o centro-sul brasileiro. Isso intensificou o processo de interiorização do Brasil; formaram-se vilas e, consequentemente, cidades polos de mineração. Em seguida, teve início o ciclo econômico do café, nos séculos XIX e XX. Nesse ciclo, São Paulo ganha destaque. No estado, o café desenvolveu-se magnificamente sobretudo no Vale do Paraíba Paulista, adaptando-se bem à terra roxa. Nesse período, o cultivo do café utilizava mão de obra assalariada (não mais servil e pouco qualificada), constituída no início prin- cipalmente de imigrantes custeados pelos fazendeiros paulistas (THÉRY; MELLO-THÉRY, 2005). Outro ciclo econômico e produtivo que contribuiu para modelar o território brasileiro foi o da borracha, no início do século XX, na região da Amazônia. Ademais, destaca-se a pecuária, que contribuiu mais do que o ouro para Formação territorial do Brasil4 dilatar o espaço brasileiro. A produção pecuária se estendeu até depois do período do ouro, criando estradas e pontos de apoio estáveis. Destacam-se ainda a atuação dos bandeirantes (bandeirantismo) e dos missionários jesuítas (aldeamentos) e a expansão da agropecuária no pro- cesso de interiorização do País. No entanto, esses processos acarretaram impactos sociais e ameaças aos povos originários indígenas, bem como aos povos e comunidades afrodescendentes. Devido aos modelos econômicos e de trabalho vigentes, esses povos foram capturados, escravizados e em alguns casos mortos e extintos. Portanto, a distribuição de terras por capitanias hereditárias e sesmarias e os ciclos econômicos influenciaram a formação territorial do país. Entreas consequências desses processos, destacam-se a economia e a política latifundiárias (em que prevalecem as grandes propriedades rurais), a con- centração fundiária e a desigualdade social rural. Quer aprender mais sobre as expedições dos bandeirantes pelo interior do Brasil? Assista ao quarto episódio de Entradas e Bandeiras, da TV Brasil. Esse episódio está disponível on-line; para encontrá-lo, utilize o seu site de buscas favorito. Ocupação do território socionatural brasileiro Nos períodos colonial e monárquico, a matriz espacial de organização do território brasileiro considerou formas de utilização e ocupação baseadas nos recursos da natureza. Segundo Moreira (2011), a priori os colonos portugueses organizaram o território a partir de características socionaturais denominadas “faixas geobotânicas”. A seguir, veja quais são essas faixas. � Costeira (litoral): vegetação de mata tropical. � Interiorana (interior): vegetação de mata campestre. � Setentrional (Região Norte): vegetação de mata equatorial. Na Figura 2, veja os domínios geobotânicos brasileiros e a sua represen- tação cartográfica. Formação territorial do Brasil 5 Figura 2. Domínios geobotânicos do Brasil. Fonte: Becker e Egler (2006 apud MOREIRA, 2011, p. 9). Nos domínios geobotânicos, instalam-se as formas de produção do setor primário da economia (agricultura, pecuária e extrativismo). Os colonizadores portugueses tinham como objetivo implantar práticas de uma agricultura de monocultura baseada no sistema de plantation, com o objetivo de comercia- lizar essa produção agrícola e direcioná-la à metrópole portuguesa (relação colônia–metrópole). A lavoura se instala em áreas de mata tropical litorânea. Por sua vez, a pecuária se instala em áreas de mata campestre do interior. Já o extrativismo se instala em áreas de mata equatorial ao norte do País (MOREIRA, 2011). Considere o seguinte: A entrada do colono português com seu modo de vida de monocultor e mercantil- -exportador por essas três faixas, embora quase numa reprodução do modo de ocupação indígena, com a lavoura ocupando as áreas de mata do litoral e a pecuária, as de formação aberta campestre da hinterlândia, além do extrativis- mo, as da mata equatorial, gera um novo tipo de enraizamento, movimentando socioambientalmente o quadro de integração da natureza sob novos modos de interligação e arranjo (MOREIRA, 2011, p. 19). Formação territorial do Brasil6 No Quadro 1, veja uma síntese das principais características físicas e naturais das três faixas geobotânicas. Quadro 1. Principais características físicas e naturais das faixas geobotânicas Domínio geobotânico Características Mata tropical � Floresta latifoliada, úmida, densa e fechada � Árvores de grande porte (20 a 30 metros de altura), caules grossos e poucos galhos � Árvores de porte médio e arbustos, como palmeiras, cipós e lianas � Plantas herbáceas, gramíneas e vegetais de pequeno porte � Terreno montanhoso, acidentado, encostas inclinadas � Ventos quentes e úmidos, elevada incidência de chuvas � Mata perene das encostas litorâneas — mata semidecídua das áreas planálticas — mata decídua da Bacia Paranaica Mata campestre � Caatinga: planalto nordestino. Semiaridez, matas secas com vegetação de aspecto diferenciado (por exemplo: cactáceas, bromeliáceas, herbáceas, arbustos e árvores baixas). Solo pedregoso. � Cerrado: planalto central. Campo cerrado com vegetação aberta. Relevo com topo plano e extenso das chapadas. Área central da faixa interiorana nas regiões de Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso. � Campos limpos: planalto e coxilhas do Sul. Áreas baixas da campanha gaúcha. Mata de araucária (por exemplo, pinheiros). Área do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina e do Paraná. Mata equatorial � Floresta latifoliada, típica da latitude equatorial (próxima à linha do Equador), densa e fechada � Árvores de grande porte (até 40 metros de altura); arbustos e subarbustos, como cipó, liana, epífita, sapopemba, igapó � Solo raso e pobre, com camada de húmus frágil e pouco espessa, proveniente da decomposição dos restos da própria floresta, entre 20 cm e 2 metros de profundidade, com areia e argila � Solos mais férteis em áreas de mata de várzea (às margens de rios e alagadas na época das cheias) � Área da Amazônia Fonte: Adaptado de Moreira (2011). Segundo Gomes (1988), o arranjo e a organização espacial se dão em decorrên- cia do modo de vida e copertencimento de grupos étnicos indígenas como o tupi (agricultura, lavoura de mandioca), os gês (coleta e caça), o caribe e o aruaque. Na faixa da mata atlântica, habitam as tribos indígenas tupis; na faixa da vegetação Formação territorial do Brasil 7 campestre, habitam as tribos indígenas gê; já na faixa da mata equatorial, habitam as outras tribos indígenas, como caribe e aruaque (GOMES, 1988). Posteriormente, uma nova forma de organização do território se inicia, conside- rando não apenas a distribuição espacial das tribos indígenas e as faixas geobotâ- nicas, mas também questões de clima (tipos de clima, massas de ar, temperatura, regime de chuvas), relevo e bacias hidrográficas. Os novos ocupantes atuam [...] substituindo pelo seu modo mercantil de ocupação espaços cultural e ambien- talmente enraizados nos modos de vida comunitários das tribos indígenas, numa modalidade de relação que mantenha a complexidade de integração morfoestrutu- ral e edafomorfoclimática que cada faixa geobotânica envolve (MOREIRA, 2011, p. 17). Para definir os domínios morfoclimáticos do Brasil, Ab’Sáber (2003) con- siderou elementos naturais (relevo, clima, vegetação e hidrografia) e suas relações e interações nas paisagens. Veja: [...] domínio morfoclimático e fitogeográfico [é] um conjunto espacial de certa or- dem de grandeza territorial — de centenas de milhares a milhares de quilômetros quadrados de área — onde haja um esquema coerente de feições de relevo, tipos de solos, formas de vegetação e condições climático-hidrológicas. Tais domínios espaciais, de feições paisagísticas, de certa dimensão e arranjo, em que as condições fisiográficas e biogeográficas formam um complexo relativamente homogêneo e extensivo (AB’SÁBER, 2003, p. 11–12). Na Figura 3, veja os domínios morfoclimáticos do País. São eles: amazônico, cerrado, mares de morros, caatinga, araucária e pradarias. Além disso, há faixas de transição não diferenciadas em suas características. Figura 3. Domínios morfoclimáticos do Brasil. Fonte: Ab’Sáber (2003 apud RICO, 2017, documento on-line). Formação territorial do Brasil8 Moreira (2011) destaca que a organização no território e o arranjo espacial dos indígenas e dos colonos apresentam relação de correspondência com os domínios morfoclimáticos. O autor ainda afirma que a faixa de mata atlântica de ocupação tupi e de prática da lavoura agrícola no Brasil Colônia corresponde ao domínio de mares de morros. Por sua vez, a faixa de mata campestre de ocupação tapuia e prática pastoril corresponde aos domínios da caatinga, do cerrado, de araucárias e de pradarias. Por fim, a mata equatorial, ocupada por várias tribos e marcada pela prática do extrativismo, corresponde ao domínio amazônico. Veja: E que em si embutem tanto o modo indígena quanto o colonial de arranjo espa- cial numa relação de correspondência em que o domínio dos “mares de morros” florestados da faixa atlântica é o da área de ocupação tupi e da lavoura colonial; os domínios das depressões interplanálticas e semiáridas das caatingas do Nor- deste, dos chapadões centrais recobertos dos cerrados, cerradões e campestres e das coxilhas subtropicais com formação mista das pradarias são os da ocupação tapuia e pastoril; e o domínio das terras florestadas da Amazônia, o da ocupação das múltiplas tribos e extrativismo (MOREIRA, 2011, p. 17). Portanto, a formação territorial do País se deu a partir de formas de uso e ocupação que consideraram questões socionaturais. Para conhecer melhor os domínios morfoclimáticosdo Brasil, confira o oitavo episódio do programa Intérpretes do Brasil, da TV Brasil, com o renomado geógrafo brasileiro Aziz Ab’Sáber. Esse episódio está disponível on-line; para encontrá-lo, utilize o seu site de buscas favorito. Questões econômicas e políticas na formação territorial do Brasil A lei do arranjo espacial é aquela que melhor contemple fatores como locali- zação e fertilidade do solo. Essa é uma combinação perfeita (solo e localiza- ção), denominada “renda diferencial”. Há locais em que se busca compensar a pobreza edáfica (referente aos solos) com uma excelente e privilegiada localização geográfica, como a litorânea (área portuária e estratégica para o escoamento da produção) (MOREIRA, 2011). A renda diferencial, segundo Oliveira (2007), é aquela que independe da aplicação de capital. Ela decorre do tipo de solo e da fertilidade natural dos Formação territorial do Brasil 9 solos, que acarreta maior produtividade. Nesse contexto, a fertilidade natural dos solos, a localização das terras (devido à valorização das terras pelo mercado naquela localidade) e o transporte (devido a despesas com frete) são conside- rados fatores territoriais importantes. (OLIVEIRA 2007). Considere o seguinte: A renda diferencial I causada pela diferença da fertilidade natural dos solos exis- tentes no país é, portanto, resultado da posse de uma força natural que foi mono- polizada. [...] Assim a desigualdade natural dos diferentes tipos de solos permite a aqueles que detêm os solos mais férteis a possibilidade de auferirem renda da terra diferencial I de forma permanente, evidentemente, desde que este solo esteja produzindo (OLIVEIRA, 2007, p. 45). Atente também ao seguinte: A localização das terras como fonte formadora da renda da terra diferencial I também será analisada a partir da premissa de que iguais quantidades de capital aplicadas em terras diferentes, mas com áreas iguais, produzem resultados desi- guais. [...] [Isso] quando não ocorre a alta dos preços de mercado, mas aparece um aumento na eficiência dos meios de transportes (OLIVEIRA, 2007, p. 48). A ocupação do território no Brasil Colônia ocorreu inicialmente nas se- guintes capitanias da Região Nordeste: São Vicente, Bahia e Pernambuco. Tal ocupação envolveu a instalação de canaviais (lavouras de cana-de-açúcar) e engenhos de cana-de-açúcar em áreas de várzeas de rio (onde os solos são férteis para a prática da agricultura) e áreas próximas de zonas portuárias (para escoamento da produção e do extrativismo e exploração das riquezas das terras) (MOREIRA, 2011). Veja: Na Bahia e em Pernambuco, onde com o tempo a economia canavieira se concen- tra, frente o fracasso da experiência vicentina, a altíssima fertilidade do massapê compensa o problema da localização, cada vez mais interiorizada, resolvendo-se o problema com a abertura de portos à beira do rio e chamando para aí a localização do canavial e do engenho. O tempo foi afastando, todavia, os centros de produção dessa combinação solo–localização apropriada, num adentramento vale acima, rio adentro, de custos crescentes (MOREIRA, 2011, p. 41). Com a migração da Região Nordeste para a Região Sudeste, a relação entre localização e fertilidade dos solos também influenciou a lavoura de café: Com o tempo, assim como na área canavieira dos solos de massapê da zona da mata nordestina, a renda diferencial puxa a monocultura para localizações distantes e solos menos férteis, a lei do rendimento decrescente empurrando a cafeicultura para localizações e solos cada vez mais distantes da costa e custos cada vez mais altos (MOREIRA, 2011, p. 41). Formação territorial do Brasil10 Portanto, o processo de formação, ocupação e uso do território brasileiro perpassou ciclos produtivos e econômicos. Nesse processo, a localização das atividades produtivas se deu a partir de interesses dos colonizadores na extração de recursos da natureza e na exploração de sujeitos sociais (como os indígenas e os negros). Além disso, ela foi influenciada por leis espaciais de localização de atividades produtivas (considerando fatores como qualidade e fertilidades das terras, deslocamento dos produtos e distância de centros consumidores) e pela lógica do valor e da reprodução social, que gerou im- pactos duradouros na sociedade e nos territórios. Referências AB’SÁBER, A. N. Os domínios de natureza no Brasil: potencialidades paisagísticas. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003. GOMES, M. P. Os índios e o Brasil. Petrópolis: Vozes, 1988. MOREIRA, R. Sociedade e espaço geográfico no Brasil: constituição e problemas de relação. São Paulo: Contexto, 2011. OLIVEIRA, A. U. Renda da terra. In: OLIVEIRA, A. U. Modo capitalista de produção, agri- cultura e reforma agrária. São Paulo: FFLCH, 2007. cap. 6. Disponível em: http://gesp. fflch.usp.br/sites/gesp.fflch.usp.br/files/modo_capitalista.pdf. Acesso em: 17 jan. 2021. PERON, A. C. As capitanias hereditárias e o governo-geral no Brasil colonial. [2020]. Disponível em: https://cursoenemgratuito.com.br/capitanias-hereditarias-e-governo- -geral/. Acesso em: 20 jan. 2021. PINTO, T. S. O que é sesmaria? [2020]. Disponível em: https://brasilescola.uol.com. br/o-que-e/historia/o-que-e-sesmaria.htm. Acesso em: 17 jan. 2021. RICO, N. F. Domínios morfoclimáticos e as formações vegetais do Brasil. 2017. Disponível em: https://docplayer.com.br/55283284-Dominios-morfoclimaticos-e-as-formacoes- -vegetais-do-brasil.html. Acesso em: 20 jan. 2021. SILVA, D. N. Capitanias hereditárias. [2020]. Disponível em: https://brasilescola.uol. com.br/historiab/capitanias-hereditarias.htm. Acesso em: 17 jan. 2021. THÉRY, H.; MELLO-THÉRY, N. A. Gênese e malhas do território. In: THÉRY, H.; MELLO-THÉRY, N. A. Atlas do Brasil: disparidades e dinâmicas do território. São Paulo: EdUSP, 2005. Os links para sites da web fornecidos neste capítulo foram todos testados, e seu funcionamento foi comprovado no momento da publicação do material. No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. Formação territorial do Brasil 11 A construção imaginária das identidades nacionais Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: n Defi nir o conceito de identidade nacional. n Analisar como esse conceito se manifesta na história da literatura brasileira. n Contrastar diferentes discussões sobre a identidade em obras literárias distintas. Introdução Quando conversa com alguém sobre sua nacionalidade, você auto- maticamente oferece informações acerca de seu país de origem. Essas informações criam sentidos sobre quem você é. A ideia de nacionalidade retoma uma outra muito importante para o que você vai estudar neste texto, a de nação. É a partir das culturas das nações que as identidades nacionais são construídas. Nesse sentido, se as identidades nacionais são construções que surgem do imaginário das pessoas, não podem ser entendidas como um todo unificado e estável. Neste texto, você vai entender como funcionam as identidades nacionais e analisar como a literatura brasileira contribui para essa discussão. Identidade, nação e narração Você já deve ter ouvido falar que os ingleses são pontuais, que os alemães são disciplinados e que os brasileiros são alegres e festivos. Isso ocorre por- que estamos habituados a relacionar características de personalidade aos países a que as pessoas pertencem. No entanto, as identidades nacionais não são herdadas como parte de nossa genética, não nascem conosco, conforme explica o sociólogo Stuart Hall. Da mesma forma, não podem ser tidas como Textos Fundamentais de Ficção em Língua Portuguesa_U2_C04.indd 53 09/06/2017 15:01:43 uma essência, ou seja, como traços defi nitivos. As identidades nacionais são narrativas constituídas por outras tantasnarrativas sobre uma nação. Essas narrativas contam histórias reais ou fi ctícias, idealizadas ou críticas, sobre o passado, o presente ou o futuro da nação, assim emprestando sentidos à sua defi nição. Elas percorrem os mais variados meios: mitologia, literatura, artes visuais, música, cinema, anedotas, histórias populares, etc. Mas, afi nal, o que é uma nação? Um estudioso chamado Ernest Renan propôs pensar justamente sobre esse questionamento em uma conferência proferida em 1882. Ele, já nessa época, apresentou a ideia de nação como uma construção que está sujeita à vontade do homem (RENAN, 1999). A nação envolve sacrifícios que os indivíduos fazem ou estão dispostos a fazer por consentimento. A maioria das nações passou a ser unificada depois de um violento processo de conquistas. Por isso, de acordo com Renan, é necessário esquecer a violência que envolve essas origens para criar um sentimento de lealdade em relação à nação a fim de que os sujeitos queiram se sentir parte dela. Nesse sentido, você pode pensar que a nação, de uma forma mais ampla, é um grande sistema de represen- tação de uma cultura, isto é, é o que é narrado sobre determinados povos, são os sentidos construídos acerca do que é ser inglês, alemão e brasileiro, por exemplo. Você pode entender as culturas nacionais, então, como discursos que, criando sentidos sobre a nação, constroem também identidades com as quais você é capaz de se identificar. Nesse âmbito, as identidades nacionais consti- tuem “comunidades imaginadas”, como destaca Benedict Anderson (2008). Sendo assim, o que há de diferente entre as nações seria a forma como elas são imaginadas. Você conhece o conceito de discurso? Um importante teórico que tratou desse conceito é Michel Foucault (2010). Ele explica que o discurso não é só o que manifesta o desejo, mas também o que é objeto desse desejo. Sendo assim, ele envolve poder. As culturas nacionais são entendidas como discursos não porque elas determinam o que uma identidade ou uma nação realmente é, mas o que se deseja contar sobre determinada identidade ou nação. Nesse sentido, os discursos sempre vão evidenciar uma perspectiva que, é claro, serve a interesses de quem os detém. Textos fundamentais de ficção em língua portuguesa54 Textos Fundamentais de Ficção em Língua Portuguesa_U2_C04.indd 54 09/06/2017 15:01:43 A repetição de narrações sobre o passado de uma nação cria a ideia do que se chama tradição. A partir de um mito de origem, isto é, uma narrativa sobre como começou a nação, uma série de atributos é idealizada como pertencendo a todos os cidadãos do lugar, desde os heróis desse passado idealizado até os cidadãos do presente. Dessa forma, a tradição pretende conectar nossas vidas a um passado comum, criando a sensação de que todos os indivíduos de uma nação descendem de uma mesma origem. Temos a tendência a pensar nessas tradições como muito antigas, porque as narrativas mitológicas as colocam como pertencendo a um passado remoto e original. Contudo, toda narração de um passado é composta a partir do presente. Assim, muitas das tradições são recentes e obedecem a diversos interesses contemporâneos. Por isso, os historiadores Eric Hobsbawm e Terence Ranger (1984) se referiram a esse tema com a expressão “a invenção das tradições”. Você deve ter em mente, portanto, que as identidades nacionais são construções culturais. Sustentadas por narrativas que criam tradições, elas pertencem ao âmbito do discurso e estão sujeitas às mutações da história. É preciso, no entanto, tomar cuidado, pois isso não significa afirmar que elas não são reais. Como produtos da cultura do homem, são, sim, reais. O que você deve perceber é que elas não existem desde sempre ou estão impressas nos nossos genes. Como construção, elas são criadas e trans- formadas na sociedade. Identidade nacional: o caso da literatura brasileira A literatura é um dos meios pelos quais circulam as narrativas que formam a ideia da identidade de uma nação. Como você percebeu na discussão anterior, não há uma essência que predefi na o que signifi que ser inglês, alemão ou brasileiro. Como fenômeno da modernidade ocidental, a identi- dade nacional é uma construção histórica, o que signifi ca dizer que ela é mutável ao longo do tempo. Dessa forma, “O que é ser brasileiro?” é uma pergunta para a qual não há uma resposta defi nitiva. Ao longo da história da literatura brasileira, diversas obras formularam (de forma mais ou menos direta) respostas para ela. Como bem destaca a teórica comparatista Tania Franco Carvalhal (1997), nenhuma dessas respostas é mais verdadeira que a outra. Todas elas são verdadeiras no sentido de serem construções que determinado autor ou autora, pertencente a seu tempo e a sua cultura, ela- 55A construção imaginária das identidades nacionais Textos Fundamentais de Ficção em Língua Portuguesa_U2_C04.indd 55 09/06/2017 15:01:43 borou. Nesse sentido, para Carvalhal (1997), o que importa é a comparação dessas versões para que se possa perceber a heterogeneidade escondida na pretensa homogeneidade da nação. Para fazer esse exercício de refl exão, você conhecerá alguns dos diversos textos signifi cativos sobre a literatura brasileira e a identidade nacional. O brasileiro como o bom selvagem Começamos por um dos textos mais importantes da história do Brasil: a carta escrita pelo escrivão ofi cial da embarcação de Pedro Álvarez Cabral, Pero Vaz de Caminha (1500). A função de Caminha era redigir ao rei de Portugal, D. Manuel I, um documento compartilhando as principais descobertas dos navegantes na então chamada Terra de Vera Cruz. Imagine você o desafi o do escritor português. Em 1500, sem os recursos tecnológicos de que dispomos hoje (internet, fi lmagem, fotografi a, etc), ele teria que explicar como era um local completamente desconhecido aos olhos portugueses: seus habitantes, seus hábitos, sua vegetação, seus animais. Dessa maneira, para dar uma forma ao desconhecido, Caminha recorreu ao imaginário europeu do paraíso perdido. Desde o período medieval, os europeus imaginavam existir locais ideais, de clima ameno, natureza exuberante e alimentação abundante para além de onde seus mapas poderiam defi nir. Portanto, quando o português tenta descrever o completo desconhecido, ele precisa se apegar a algo conhecido para formular sua compreensão. O mito do paraíso perdido surge então como moldura que dá forma ao que Caminha descreve. Dessa forma, a carta é marcada pelo tom de espanto com a exuberância natural do território encontrado. É como se Caminha descrevesse um paraíso que os portugueses acharam por recompensa de suas aventuras marítimas. Como consequência, os habitantes locais também são descritos como parte desse paraíso a que os portugueses teriam direito. Os índios são vistos como extremamente ingênuos, bons e gentis – sobretudo a partir do momento em que presenteiam os portugueses com um carregamento de madeira. As índias, por sua vez, descritas a partir do maravilhamento do olhar masculino euro- peu, são vistas como corpos à disposição dos navegantes. Como conclusão, Caminha recomenda ao rei que salve a alma dessa gente. Ou seja, diante do olhar desbravador lusitano, os índios que darão origem ao ser brasileiro são descritos como bons selvagens: servis, sem maldade e necessitados do que os europeus denominavam civilização (seu próprio sistema de crenças, sejam elas religiosas, científicas ou culturais). Criava-se assim o precedente para a colonização. Textos fundamentais de ficção em língua portuguesa56 Textos Fundamentais de Ficção em Língua Portuguesa_U2_C04.indd 56 09/06/2017 15:01:43 A carta de Pero Vaz de Caminha (1500) está disponível online, em domínio público. Você pode conferir no link ou código a seguir: <https://goo.gl/2M0RyB> Moacir: o primeiro brasileiro Uma obra importante que você vai conhecer também e que busca retratar o processo de colonização do Brasil é o romance Iracema: lendado Ceará, publicado em 1865 por José de Alencar (1991). Pertencente à estética romântica, Alencar não se furta das características do romantismo ao constituir em sua narrativa um mito fundacional para o País. Dessa forma, o enredo do romance está centrado na união amorosa idealizada entre Martin, aventureiro português, e Iracema, índia tabajara. Da história de amor vivenciada por ambos, nasce Moacir – o primeiro cearense ou, metonimicamente, o primeiro brasileiro. Ao afi rmar que toda essa história se passou nessa terra (referência ao Ceará de maneira específi ca e ao Brasil de maneira mais ampla), Alencar fecha um ciclo mitológico, criando desse modo um passado que dê sentido ao presente do brasileiro, pretendendo assim caracterizá-lo como oriundo de um processo de hibridação étnica e cultural. No entanto, se você refletir criticamente sobre a hibridez com a qual Alencar responde à pergunta “O que é ser brasileiro?”, pode perceber que essa união não se dá de forma igualitária. Ao passo que Martin – homem, branco e português – é caracterizado por sua honra, fé, valentia e lealdade (características típicas do cavaleiro medieval europeu), Iracema – mulher e indígena – é caracteri- zada por sua beleza física, frequentemente comparada à beleza exuberante e exótica da flora e da fauna brasileiras (ALENCAR, 1991). Assim, é como se o homem europeu emprestasse os atributos morais ao brasileiro, ao passo que a mulher indígena cede os atributos físicos e representa um mero objeto ao dispor do aventureiro (em discurso semelhante ao de Caminha). Se você pensar em alguns episódios que compõem o romance, verá que essa assimetria fica ainda mais clara: Iracema teve que trair sua tribo e abandonar sua cultura para viver junto a Martin. A índia tabajara acaba inclusive morrendo para 57A construção imaginária das identidades nacionais Textos Fundamentais de Ficção em Língua Portuguesa_U2_C04.indd 57 09/06/2017 15:01:43 que Moacir cresça. Dessa forma, simbolicamente, é como se o indígena fosse apenas um elemento de origem mítica do brasileiro. No entanto, nessa visão, sua cultura não é decisiva para a formação da identidade. Por fim, depois de ser educado na Europa, Moacir volta com seu pai ao Ceará para cravar o “lenho sagrado” (cruz) e constituir a primeira cidade brasileira. Portanto, já em Alencar é sustentado o mito da democracia racial brasileira, tão comum em tantas narrativas até hoje, sejam elas tratados sociológicos ou propagandas político-partidárias. Você pode conferir o filme Iracema – uma transa amazônica, sob a direção de Jorge Bodanzky e Orlando Senna, e comparar as duas narrativas sobre o Brasil. Às narrativas que sustentam os grandes mitos das identidades nacio- nais, como é o caso do mito da democracia racial brasileira, em Alencar o teórico indiano Homi Bhabha (2013) chamou de “narrativas da nação”. Essas narrativas acabam por idealizar um passado para construir a ideia do “muitos em um”. No caso do romance de Alencar, é como se todos os brasileiros pudessem ser representados como descendentes de Moacir. No entanto, as histórias do cotidiano de pessoas às margens da nação acabam por confrontar as grandes histórias que pretendem contar sua origem. Dessa forma, mulheres, negros e indígenas, por exemplo, ao relatar seu dia a dia mostram que nem todos se encaixam no “muitos em um” que a nação pre- tende representar. São essas narrativas das minorias que Bhabha chama de “contranarrativas da nação”. Uma sociedade desigual Um dos escritores mais consagrados da literatura brasileira, Machado de Assis, ao representar a condição de sujeitos negros em alguns de seus contos, entra na discussão sobre a identidade nacional com algumas “contranarrativas da nação”. Em “Pai contra mãe”, conto publicado na obra Relíquias da casa velha, de 1906, Machado (ASSIS, 1990) contrapõe sua visão crítica, realista e irônica ao romantismo de Alencar. O conto tem como protagonista Cândido Neves, sujeito branco e pobre que se casa com Clara (chamam atenção aqui Textos fundamentais de ficção em língua portuguesa58 Textos Fundamentais de Ficção em Língua Portuguesa_U2_C04.indd 58 09/06/2017 15:01:44 as palavras que remetem à cor branca no nome dos dois personagens). Com poucas oportunidades de emprego, Neves acaba trabalhando como caçador de recompensas: captura escravos fugidos para receber alguma bonifi cação de seus senhores. No entanto, a falta de estabilidade fi nanceira acaba fazendo com que seja pressionado por Tia Mônica (responsável pela criação de Clara) para que abandone o fi lho recém-nascido do casal na Roda dos Enjeitados. Assim, em meio à difi culdade fi nanceira, um quarto membro na família não ameaçaria a sobrevivência dos outros três. A tensão da narrativa se dá quando Neves, inconformado por ter de abrir mão de seu filho, encontra Arminda: escrava grávida que havia fugido e pela qual se pagaria uma grande recompensa. A narrativa chega a sugerir, inclusive, que sua gravidez é consequência de violência sexual por parte do senhor. Diante do conflito posto entre salvar seu filho ou o filho da escrava, Neves opta pelo primeiro. Ao ser devolvida, Arminda é agredida e acaba abortando. “Nem todas as crianças vingam”, desfecha ironicamente o narrador. A frase é significativa na representação do Brasil como um país em que, apesar da pluralidade étnica e cultural, nem todos têm direitos – inclusive à vida. O filme Quanto vale ou é por quilo?, de Sérgio Bianchi, toma como inspiração o conto de Machado de Assis, retomando elementos dessa narrativa e trazendo-os para a atualidade. Tendo sido formado por um violento processo de massacre indígena e pelas mãos do trabalho forçado dos negros, o Brasil é retratado assim como um país em que etnia, gênero e classe social são posições de uma violência historicamente constituída. Cândido Neves, enquanto sujeito pobre, é redu- zido a objeto de coerção das classes dominantes. Ele serve para garantir que os sujeitos mais explorados desse sistema, os escravos, não se rebelem. No entanto, a manutenção do trabalho escravo é a própria causa do desemprego e da consequente objetificação do personagem. Fecha-se assim um ciclo que garante a imobilidade social e a manutenção de privilégios. Dessa forma, se pode dizer que Machado responde à pergunta “O que é ser brasileiro?” de modo oposto a Alencar, mostrando que ser brasileiro é ser produto e produtor de uma sociedade extremamente violenta e desigual. 59A construção imaginária das identidades nacionais Textos Fundamentais de Ficção em Língua Portuguesa_U2_C04.indd 59 09/06/2017 15:01:44 Macunaíma: o anti-herói A questão em pauta foi tomada como ponto central de debate entre os modernis- tas de 22. Buscando se desvencilhar da infl uência da literatura e da gramática portuguesas, Oswald de Andrade passa a valorizar a fala dos sujeitos das camadas populares do País como representativas de sua identidade e objeto de valor poético. O cotidiano passa a ser cada vez mais signifi cativo da nação: Tarsila do Amaral pinta obras que retratam operários, pescadores e morros de favelas, por exemplo. Tarsila do Amaral não foi escritora, mas é um importante nome do mo- dernismo brasileiro. Ela foi pintora, desenhista e tradutora. Entre suas telas mais conhecidas estão: A Negra, Abaporu e Operários. A artista e o seu então marido Oswald de Andrade foram os fundadores do Movimento Antropo- fágico, e Abaporu foi o seu grande símbolo. Isso porque o título da tela tem como significado “o homem que come carne humana”, justamente a principal ideia que queria expressar o movimento: o desejo de engolir, deglutir tanto as culturas europeias quanto as culturas locais e transformá-las em algo que fosse representativo da identidade nacional. Nesse contexto, a obra que mais se destaca na representação da identidade nacional é Macunaíma: o herói sem nenhum caráter, publicada por Mário de Andrade em 1928. Essa obra (ANDRADE, 2008), misto de romancee rapsódia, apresenta como protagonista o índio Macunaíma. Sem nenhum caráter, ele retoma do romance Memórias de um sargento de milícias (1852- 3), de Manuel Antônio de Almeida (1959), a ideia do anti-herói, típica na caracterização do brasileiro simples com traços de malandragem. Assim, Macunaíma, “o filho da mata virgem”, é descrito na obra como feio, sapeca e preguiçoso. Ao se relacionar com Ci, a mãe do mato, Macunaíma recebe a mui- raquitã, espécie de pedra-amuleto, como presente. Esta é roubada por Venceslau Pietro Pietra, o gigante Piaimã. Dá-se início então a uma longa peregrinação a partir da perseguição ao gigante. Essa perseguição servirá de mote para que o protagonista percorra os mais variados cantos do País: indo do norte ao sul do Brasil, e passando por São Paulo – importantíssima na obra para a representação de um Brasil urbano, moderno e burocrático. Ao longo dessa jornada, o anti-herói muda de etnia, sendo índio, negro e branco e fazendo referência a muitos mitos indígenas e afro-brasileiros (ANDRADE, 2008). Dessa forma, Mário de Andrade, para responder à pergunta proposta, retoma a questão da hibridação como elemento fundamental à constituição Textos fundamentais de ficção em língua portuguesa60 Textos Fundamentais de Ficção em Língua Portuguesa_U2_C04.indd 60 09/06/2017 15:01:44 identitária brasileira. No entanto, o escritor modernista o faz deixando de lado o idealismo romântico do século XIX. A relação entre as culturas europeias, africanas e indígenas na composição nacional é vista de maneira mais crítica. Isso ocorre, por exemplo, na passagem em que os irmãos do anti-herói, que são indígenas, o criticam por tê-los esquecido depois que este vira branco. Também o desenvolvimento urbano associado ao progresso do País é criticado, como na figura burocrática de Venceslau Pietro Pietra. Ele é o grande vilão da obra e simboliza o homem burguês médio. O Brasil que tem fome Por fi m, você vai conhecer outra típica “contranarrativa” da nação. Trata-se de Quarto de despejo: diário de uma favelada, publicado por Carolina Maria de Jesus em 1960 (Figura 1). Figura 1. Carolina Maria de Jesus autografando seu livro. Fonte: Valek (2016). Carolina vivia na hoje extinta Favela do Canindé, em São Paulo. Mãe solteira, ela coletava lixo para posteriormente vender à reciclagem. Quarto 61A construção imaginária das identidades nacionais Textos Fundamentais de Ficção em Língua Portuguesa_U2_C04.indd 61 09/06/2017 15:01:44 de despejo (JESUS, 2007) é o conjunto de diários que a catadora manteve de 1955 até 1960, relatando o difícil cotidiano de uma mulher negra, fa- velada, mãe solteira, lutando incessantemente contra a fome de seus três filhos. A riqueza de referências literárias e de recursos de linguagem fez com que os diários passassem a ser lidos como obra literária, configurando uma das mais comentadas obras de ficção brasileiras do século XX. No dia 13 de maio, data da abolição da escravatura, Carolina (JESUS, 2007, p. 31-32) comenta: Hoje amanheceu chovendo. É um dia simpático para mim. É o dia da Abolição. Dia que comemoramos a libertação dos escravos. [...] Que Deus ilumine os brancos para que os pretos sejam feliz. Continua chovendo. E eu tenho só feijão e sal. A chuva está forte. Mesmo assim, mandei os meninos para a escola. Estou escrevendo até passar a chuva, para eu ir lá no senhor Manuel vender os ferros. Com o dinheiro dos ferros vou comprar arroz e linguiça [...]. Eu tenho tanto dó dos meus filhos. Quando eles vê as coisas de comer eles brada: – Viva a mamãe! A manifestação agrada-me. Mas eu já perdi o hábito de sorrir. Dez minutos depois eles querem mais comida. [...] E assim no dia 13 de maio de 1958 eu lutava contra a escravatura atual – a fome! Dessa forma, Quarto de despejo traz à tona um outro brasileiro que não teve espaço nas grandes narrativas da nação: o brasileiro que tem fome. Em um dos países que mais produz alimentos, Carolina relembra daqueles que não têm o que comer. Em uma literatura bastante marcada por autores e personagens brancos e de classe média, ela faz com que sujeitos periféricos também possam se enxergar como autores e personagens. Sua linguagem, incorreta do ponto de vista gramatical para muitos, passa então a ser vista como mais uma forma possível de expressão literária (como idealizara Oswald de Andrade). Em uma literatura predominantemente masculina (seja no número de autores ou de protagonistas), Carolina mostra o ponto de vista da mulher sobre a nação. E ela tem o ponto de vista crítico de quem escolheu não casar para não sofrer os abusos de um casamento predominantemente masculino – em que, como Iracema (ALENCAR, 1991), as mulheres acabam tendo de abrir mão de si enquanto sujeitos para constituir a tradicional família brasileira. Trata-se, portanto, de uma resposta bastante crítica sobre “O que é ser brasileiro?”, pois produzida pelos sujeitos que geralmente têm a voz e a cidadania negadas na tão frágil democracia nacional. Textos fundamentais de ficção em língua portuguesa62 Textos Fundamentais de Ficção em Língua Portuguesa_U2_C04.indd 62 09/06/2017 15:01:44 A pluralidade: os brasileiros são muitos Para compreender a importância da literatura como meio de propagação das narrativas que formam a identidade de uma nação, você conheceu melhor a história da literatura brasileira. Você fez essa refl exão por meio de cinco obras: A carta de achamento do Brasil, Iracema: lenda do Ceará, “Pai contra mãe”, Macunaíma: o herói sem nenhum caráter e Quarto de despejo: diário de uma favelada. Cada uma das cinco responde de modo diferente à pergunta central que guiou este texto: “O que é ser brasileiro?”. Além delas, uma variedade muito grande de obras literárias se debruçaram sobre essa questão, trazendo à tona novas respostas para o questionamento. Desse modo, você deve ter percebido que o brasileiro, assim como qual- quer cidadão de qualquer outra nacionalidade, não possui uma essência que torne sua identidade fixa e estável. Pelo contrário, como defendem os teóricos que refletiram sobre o tema, as identidades nacionais são móveis e fragmentadas. Por isso, mais importante que uma versão particular sobre a identidade nacional é a pluralidade de versões. A riqueza do Brasil, assim como a de outras nações, está justamente nesse diálogo estabelecido ao longo da história e para o qual as literaturas foram fundamentais. Esse diálogo é formado por muitas vozes, sejam elas nacionais ou estrangeiras, masculinas ou femininas, heterossexuais ou homossexuais, brancas, negras ou indígenas. Todas elas são importantes para constituir o coro plural e positivamente contraditório da nação. Afinal, como defendeu Arnaldo Antunes (1996) na canção “Inclassificáveis”, “[...] aqui somos mestiços mulatos cafuzos pardos mamelucos sararás crilouros guaranisseis e judárabes [...]”. 63A construção imaginária das identidades nacionais Textos Fundamentais de Ficção em Língua Portuguesa_U2_C04.indd 63 09/06/2017 15:01:44 ALENCAR, J. Iracema. 24. ed. São Paulo: Ática, 1991. (Bom Livro). Disponível em: <https:// goo.gl/TZJCJI>. Acesso em: 13 abr. 2017. ALMEIDA, M. A. Memórias de um sargento de milícias. Rio de Janeiro: Pongetti, 1959. ANDERSON, B. R. Comunidades imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo. São Paulo: Companhia das letras, 2008. ANDRADE, M. Macunaíma: o herói sem nenhum caráter. São Paulo: Agir, 2008. ANTUNES, A. Inclassificáveis. In: ANTUNES, A. O silêncio. Los Angeles: Ariola Records, 1996. 1 CD. ASSIS, M. Pai contra mãe. In: ASSIS, M. Relíquias de casa velha. Rio de Janeiro: Garnier, 1990. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000245. pdf>. Acesso em: 13 abr. 2017. BHABHA, H. O local da cultura. Belo Horizonte: UFMG, 2013. CAMINHA, P. V. A carta. Belém: Unama, 1500. Disponível em: <http://www.dominio- publico.gov.br/download/texto/ua000283.pdf>. Acesso em: 04 abr. 2017. CARVALHAL, T. F. Anação em questão: uma leitura comparatista. In: SCHMIDT, R. T. Nações/narrações: nossas histórias e estórias. Porto Alegre: ABEA, 1997. FOUCAULT, M. A ordem do discurso. 20. ed. São Paulo: Loyola, 2010. HALL, S. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2006. HOBSBAWM, E.; RANGER, T. A invenção das tradições. Rio de Janeiro: Paz e terra, 1984. (Pensamento Crítico, v.55). JESUS, C. Quarto de despejo. São Paulo: Ática, 2007. RENAN, E. O que é uma nação. Caligrama, Belo Horizonte, n. 4, p. 139-180, 1999. VALEK, A. Carolina Maria de Jesus, a catadora de letras. CartaCapital, São Paulo, 15 mar. 2016. Disponível em: <https://www.cartacapital.com.br/cultura/carolina-maria- -de-jesus-a-catadora-de-letras>. Acesso em: 27 abr. 2017. Textos fundamentais de ficção em língua portuguesa66 Textos Fundamentais de Ficção em Língua Portuguesa_U2_C04.indd 66 09/06/2017 15:01:45 Culturas afro-brasileira e indígena na sociedade brasileira contemporânea Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Reconhecer as influências africanas e indígenas na constituição da cultura brasileira. Analisar as representações dos africanos e indígenas na literatura brasileira. Discutir sobre estratégias de desconstrução de estereótipos e precon- ceitos em relação a africanos e indígenas no Brasil contemporâneo. Introdução Neste capítulo, você vai ver como se deu o processo de conquista do território brasileiro. Antes da chegada dos portugueses, em 1500, esta terra não era isolada nem desabitada; muito pelo contrário, era dispu- tada por diversos povos nativos, que foram denominados “índios” pelos portugueses. O século XVI foi marcado por um choque cultural sem proporções na história da humanidade, pois colocou em lados opostos grupos com cul- turas e visões de mundo antagônicas. Portugueses e indígenas possuíam entendimentos distintos em relação à riqueza, à utilização da terra, ao trabalho, às relações pessoais, à organização social, etc. Esse caldo cultural “engrossa” mais quando um novo elemento entra em cena, o africano. Como você vai ver, aspectos culturais de origem africana e indígena contribuíram para a formação do Brasil. Apesar da violência à qual os indígenas e africanos foram historicamente submetidos, eles consegui- ram burlar as regras estabelecidas e sobreviver, mesclando sua cultura à cultura dominante e tornando o Brasil, ao contrário do que pretendiam os colonizadores portugueses, um país plural. Colonização do Brasil: táticas de resistência cultural O processo de conquista e colonização das terras brasileiras pelos portugueses se inseriu na lógica da expansão ultramarina europeia, iniciada no século XV pelos reinos ibéricos de Portugal e Espanha e difundido, posteriormente, para as demais nações daquele continente. De maneira geral, esses reinos busca- ram expandir o seu território conquistando novos mercados consumidores, obtendo recursos naturais e eliminando outros povos que se opuseram aos seus objetivos. Esse empreendimento colocou em contato visões de mundo antagônicas que difi cilmente poderiam conviver de maneira pacífi ca, uma vez que o modelo colonizador utilizado pelos europeus determinava apenas um padrão de comportamento, o proposto pelos próprios colonizadores, que deveria ser seguido à risca pelos colonizados. Isso traz à tona a violência que todo processo de colonização possui em sua essência: a eliminação do outro, seja física, simbólica ou culturalmente. Certeau (2009), em A Invenção do Cotidiano, analisou como o ser humano consegue criar um modelo de comportamento denominado por ele de “arte de fazer”. Fugindo dos padrões e regras impostos pelo modelo dominante, os indivíduos inventam o seu cotidiano criando, de maneira sutil, diversas “táticas” de resistência e sobrevivência, de modo que códigos e objetos são alterados em seu benefício. Essa noção é de suma importância para que você possa compreender como se deu a permanência de características culturais de africanos e indígenas na cultura brasileira. Michel de Certeau foi um erudito francês que nasceu em Chambéry em 1925. Sua formação abrengeu os campos da filosofia, das letras clássicas, da história e da teologia. Nas suas pesquisas, ele utilizou métodos da antropologia, da linguística e da psicanálise. Na obra A Invenção do Cotidiano, Certeau (2009) desenvolve duas noções para analisar a sociedade. A primeira delas é denominada “estratégia”, que é o modelo dominante, criado pelos grupos sociais que ocupam o topo da sociedade; esse modelo serve como padrão. Do outro lado, existem as táticas, ações criadas intencionalmente pelos grupos dominados para burlar a ordem existente. São modelos próprios de ações que, de maneira astuciosa, enfrentam o padrão vigente sem, no entanto, comprometer ou destruir a sua existência. Culturas afro-brasileira e indígena na sociedade brasileira contemporânea2 Essa questão evidencia as condições nas quais a nação brasileira foi for- jada. Estava em jogo um projeto político criado pela coroa portuguesa, que deveria ser levado a cabo por indivíduos que vinham para a terra brasilis em busca de fama e riqueza, incentivados pela notícia de que ouro e prata haviam sido encontrados pela coroa espanhola no mesmo continente. Apesar de ser pioneiro no processo das grandes navegações, o reino de Portugal não possuía condições materiais suficientes para efetivar a conquista e a posse do território. Além disso, havia total desconhecimento da fauna e da flora da região, uma vez que o litoral brasileiro é formado por aproximadamente 7.300 km de extensão, habitados então por povos distintos. Os indígenas sob o olhar europeu: entre o bom e o mau selvagem A expansão ultramarina levou os europeus ao encontro de um continente até então desconhecido por eles: a América. Da mesma maneira, houve um conhecimento das populações nativas dessa região, que, apesar de possuírem características heterogêneas entre si, se assemelhavam por se diferenciarem física e culturalmente dos europeus. No aspecto cultural, é emblemática a percepção das diferenças na organização social, a qual diferia bastante dos modelos preconizados pelas sociedades europeias. Pero de Magalhães de Gândavo foi um historiador, gramático e cronista português que esteve no Brasil no início do século XVI. Ao escrever História da Província de Santa Cruz que vulgarmente chamamos Brasil, em 1576, ele deixa claro que os portugueses, e europeus de maneira geral, percebiam as suas diferenças em relação à população indígena. Leia o trecho a seguir e reflita sobre a impossibilidade da compreensão do outro por parte dos portugueses: “A língua de que usam toda pela costa é uma [...] Carece de três letras, convém a saber, não se acha nela F, nem L, nem R, coisa digna de espanto, porque assim não tem Fé, nem Lei, nem Rei: e desta maneira vivem desordenadamente [...]” (GÂNDAVO, 1576, fl. 33v). 3Culturas afro-brasileira e indígena na sociedade brasileira contemporânea A percepção das diferenças entre indígenas e europeus suscita um debate acerca da humanidade daqueles. Os portugueses se questionavam sobre a existência da alma indígena e sobre a possível conversão dos índios. Sobre essa questão, veja o que afirma Laplantine (2007, p. 37–38): A grande questão que é então colocada, e que nasce desse primeiro confronto visual com a alteridade, é a seguinte: aqueles que acabaram de ser descobertos pertencem à humanidade? O critério essencial para saber se convém atribuir- -lhes um estatuto humano é, nessa época, religioso: o selvagem tem uma alma? O pecado original também lhes diz respeito? O olhar europeu sobre a população nativa cria dois modelos que servem de explicação para a percepção a respeito dos indígenas durante o processo de colonização. Esses arquétipos inserem grupos inteiros sob uma mesma denominação, estabelecendo modelos de ação perante a população nativa. São eles: o “bom selvagem”e o “mau selvagem”. A definição de mau selvagem recai sobre aqueles indivíduos que possuem estas três caracterís- ticas: “estar nu ou vestido de peles de animais” (aparência física); “comer carne crua/canibalismo” (comportamentos alimentares); “falar uma língua ininteligível” (inteligência, a partir da linguagem) (LAPLANTINE, 2007). Na Figura 1, a seguir, você pode observar dois quadros pintados pelo holandês Albert Eckhout, que esteve no Brasil entre os anos de 1637 e 1644. Neles, é possível identificar a oposição entre o “bom” e o “mau” selvagem. A mulher tupi é representada sob o viés maternal. Ela carrega a vida ao segurar seu filho no colo, eliminando qualquer possibilidade de ameaça. Além disso, transporta um recipiente com água e uma cesta com produtos manufaturados e veste uma saia branca (inserida no seu vestuário pelos colonizadores). Na paisagem, é possível identificar três características que fazem menção à colonização europeia nos trópicos: a bananeira, planta introduzida no Brasil pelos portugueses; a paisagem colonial, com a plantação de cana-de-açúcar; e a casa-grande no engenho. Em contrapartida, a mulher tapuia carrega a morte, um cesto com uma perna decepada. Na sua mão direita, ela segura a mão de outro indivíduo, remetendo à prática do canibalismo. Está nua, mesmo que parcilamente coberta por folhas, e calça sandálias de fibras vegetais. Já a paisagem re- presenta a cena de guerreiros armados, ao fundo, demonstrando a condição natural dessa sociedade sem contato com os “civilizadores” europeus. Culturas afro-brasileira e indígena na sociedade brasileira contemporânea4 Figura 1. (a) Mulher Tupi e (b) Mulher Tapuia, óleo sobre tela, de Albert Eckhout, 1641. Fonte: Fonte: Chicangana-Bayona (2008, p. 606–607). Esses olhares criados sobre a população nativa demonstram tanto o po- sicionamento dos nativos em relação aos europeus quanto o modo como estes últimos perceberam as trocas culturais entre os povos. De um lado, posicionam-se aqueles que lutaram contra o invasor, mantendo suas práticas religiosas e culturais e abertamente inimigos do europeu (maus selvagens). Do outro lado, figuram aqueles grupos que aceitaram determinados aspectos da colonização, como roupas, língua e religião, submetendo-se ao poder colonial, mas, apesar disso, não conseguindo tratamento igualitário (bons selvagens). Índios e negros na literatura brasileira Na literatura brasileira, há representações de índios e negros que expõem muito mais a visão do autor do que necessariamente aquilo que ele deseja representar. Tais obras ganham notoriedade por dois aspectos que se relacionam entre si. 5Culturas afro-brasileira e indígena na sociedade brasileira contemporânea O primeiro deles é a amplitude de leitores que são capturados pelas páginas dos romances, sendo mais fácil um leitor conhecer uma obra de fi cção do que um livro acadêmico. Já o segundo é o fato de que, embora sejam obras de fi cção, elas possuem em comum a semelhança com a realidade, o que traz à tona a possibilidade de serem analisadas sob a óptica da verossimilhança. Afi nal, em determinada medida, tais obras lançam uma luz sobre a sociedade na qual estão inseridas, demonstrando os medos, anseios e pensamentos de uma época. Conforme destaca Chartier (2010, p. 21), “As obras de ficção, ao menos alguma delas, e a memória, seja ela coletiva ou individual, também conferem uma presença ao passado, às vezes ou amiúde mais poderosa do que a que estabelecem os livros de história [...]”. Tendo como base esse pressuposto, a seguir você vai ver como a ficção criou representações e perfis para africanos escravizados e índios na sociedade brasileira. Você também vai verificar como esses lugares comuns foram sendo considerados pela sociedade como definidores de comportamento da população afrodescendente e indígena no Brasil, sendo retroalimentados por outras mídias, como novelas e filmes. Coragem, nobreza e solidariedade: a poesia indianista Gonçalves Dias foi o poeta que deu início à idealização do indígena na litera- tura brasileira. Na corrente do Romantismo, o nativo é associado à coragem, à compaixão, à bondade, à nobreza e à solidariedade, da mesma forma que os cavaleiros medievais no imaginário europeu. Autor de diversos poemas indianistas, como I-Juca-Pirama, Marabá e Canção do Tamoio, Gonçalves Dias refl ete a percepção sobre os indígenas no Brasil enquanto um ideal distante, que não pode mais ser alcançado. I-Juca-Pirama (“aquele que deve morrer”), escrito em 1851, é considerado a obra máxima do autor. Ela conta a história de um nobre índio tupi que, após ser derrotado, torna-se prisioneiro de outra tribo, os timbira. O guerreiro tupi encontra o seu pai com saúde debilitada, pois está velho e doente, então toma uma decisão inusitada, pedindo ao chefe timbira que o deixe voltar para a sua tribo para cuidar do progenitor. Porém, na cultura indígena, esse ato é interpretado como covardia. É isso o que pensa o seu pai quando o guerreiro retorna à tribo para informar a sua decisão. O pai recebe o filho com desprezo e indignação, afinal este humilhou não só a si, mas a toda a sua geração. Então, para provar o seu valor e recuperar a sua honra, o guerreiro decide ir lutar sozinho contra os inimigos. Após vários combates, a vitória é obtida e o chefe da tribo timbira encerra a luta. O pai reconhece o valor do filho, digno de ser chamado novamente de tupi. Culturas afro-brasileira e indígena na sociedade brasileira contemporânea6 Veja os trechos a seguir, retirados de I-Juca-Pirama, de Gonçalves Dias. No Canto IV, é possível perceber a identificação do personagem: Meu canto de morte, Guerreiros ouvi: sou filho das selvas, nas selvas cresci; Guerreiros, descendo da tribo Tupi. Da tribo pujante, que agora anda errante por fado inconstante, guerreiros, nasci: sou bravo, sou forte, sou filho do Norte; meu canto de morte, Guerreiros, ouvi (DIAS, 1851, canto IV). No Canto VIII, há a reação do pai ao descobrir que, após o seu filho ser preso, chorou pedindo para não morrer: Tu choraste na presença da morte? Na presença de estranhos choraste? Não descende o cobarde do forte, pois choraste, meu filho não és! Possas tu, descendente maldito de uma tribo de nobres guerreiros, implorando cruéis forasteiros, seres presa de vis Aimorés (DIAS, 1851, canto VIII). Por fim, no Canto X, há a redenção do indígena, que é rememorada por um velho timbira que relata o heroísmo dele, servindo de modelo para os mais jovens: “Um velho Timbira coberto de glória, guardou a memória do moço guerreiro, do velho Tupi! E à noite, nas tabas, se alguém duvidava do que ele contava, dizia prudente: ‘meninos, eu vi!’”. Em outro poema, Canção do Tamoio, um guerreiro da tribo tamoio explica ao seu filho recém-nascido qual é o seu papel no mundo, como ele deve se comportar frente aos perigos da vida. Ou seja, o pai informa ao filho que tipo de comporta- mento é esperado que ele exerça, não só pelo seu pai, mas por todos os membros da tribo tamoio e dos outros povos que vierem a ter contato com eles. Veja: I. Não chores meu filho; não chores, que a vida é luta renhida: viver é lutar. A vida é combate, que os fracos abate, que os fortes, os bravos só pode exaltar. II. Um dia vivemos! O homem que é forte não tema da morte; só teme fugir; no arco que entesa tem certa uma presa, quer seja tapuia, condor ou tapir. III. O forte, o cobarde, seus feitos inveja de o ver na peleja garboso e feroz; e os tímidos velhos nos graves conselhos, curvadas as frontes, escutam-lhe a voz! IV. Domina, se vive. Se morre, descansa dos seus na lembrança, na voz do porvir. Não cures da vida! Sê bravo, sê forte! Não fujas da morte, que a morte há de vir! [...] XI. E cai como o tronco do raio tocado, partido, rojado por larga extensão; assim morre o forte! No passo da morte triunfa, conquista mais alto brasão (DIAS, 1852). 7Culturas afro-brasileira e indígena na sociedade brasileira contemporânea Veja outras obras que abordama população indígena: José de Alencar: O Guarani, Iracema e Ubirajara Gonçalves de Magalhães: A Confederação dos Tamoios Gonçalves Dias: I-Juca-Pirama, Canção do Tamoio, Marabá, Leito de Folhas Verdes, Canto do Piaga Outro exemplo das obras indianistas de Gonçalves Dias é Marabá. O termo que dá título à obra é de origem tupi e significa “de mistura”. Nesse poema, Gonçalves Dias expõe o dilema de uma índia mestiça que é recusada pelos índios guerreiros justamente por sua condição. A personagem Marabá possui olhos com “cor das safiras”, rosto “da alvura dos lírios” e “loiros cabelos”, porém não consegue encontrar um guerreiro que a deseje, terminando por viver “[...] sozinha, chorando mesquinha, que sou Marabá!” (DIAS, 1968, p. 325). Essas representações da população indígena presentes nas obras literárias criam um ideal que se encaixa em um perfil de guerreiros honrados. Assim, impossibilita-se outra manifestação cultural e psicológica. Além disso, entra em cena a crença em um tipo indígena preso no passado, que não conseguiu acompanhar o desenvolvimento da civilização brasileira. A escravidão no Brasil: denúncias e crueldade No ano de 1869, Joaquim Manuel Macedo publica um romance intitulado As Vítimas-Algozes: Quadros da Escravidão, uma obra de literatura que propõe uma espécie de denúncia contra a escravidão praticada no Brasil. Seu autor era um emancipacionista convicto e defende, utilizando diversos argumentos, o fi m da escravidão, pois para ele “A escravidão gasta, caleja, petrifi ca, mata o coração do homem escravo [...]” (MACEDO, 1869, p. 53). O romance narra a história de três escravizados, todos com características que têm o objetivo de demonstrar como a sociedade era afetada pela escravi- dão. São eles: Simeão, o crioulo; Pai-Raiol, o feiticeiro; e Lucinda, a mucama. Apesar de ser uma obra de ficção, o autor deixa claro o seu papel de denúncia, na medida em que os textos escritos são “[...] romances sem atavios, contos sem fantasias poéticas, tristes histórias passadas aos nossos olhos, e a que não poderá negar-se o vosso testemunho [...]” (MACEDO, 1869, p. 1). Culturas afro-brasileira e indígena na sociedade brasileira contemporânea8 A construção da argumentação de Macedo (1869) é baseada na ideia de que a escravidão era um atraso econômico, uma ideia inaceitável em um país que deveria passar por um processo de modernização, deixando de ser agrí- cola. Além disso, o autor defende uma linha de pensamento que demonstra a crueldade desse sistema: a escravidão era um veneno e criava inimigos dentro de casa. Isso mostra que Macedo (1869) entende o escravo como o verda- deiro inimigo, pois é corrompido pelo sistema e simultaneamente corrompe a sociedade. Para o autor, o Brasil deveria acabar com a escravidão, não por humanidade, mas para se livrar dos incômodos desse sistema, incluindo aí a população afrodescendente. Uma das personagens principais da obra de Macedo (1869, p. 157) é a mucama Lucinda, “Uma escrava mucama da menina que em breve ia ser moça!”. A menina chama-se Cândida e acaba de completar 11 anos de idade, ganhando como presente, uma prática comum do Brasil oitocentista, uma jovem mucama, Lucinda. No desenrolar da trama, o problema surge a partir do momento em que a mucama Lucinda, corrupta e imoral, começa a fazer parte do cotidiano da doce e angelical Cândida. O uso de adjetivos para definir os comportamentos da mucama e da menina é intencional por parte do autor; de um lado, há uma pessoa corrupta e imoral; do outro, alguém doce e angelical. O contato entre elas cria uma rachadura no comportamento que era esperado para uma moça que faria parte da sociedade. Após várias conversas, a mucama percebe que a menina é ingênua e começa a questionar seus conhecimentos sobre “ser moça” e “casamento”, maculando assim sua pureza inicial. Segundo o autor, a escrava Lucinda, que em momento algum demonstra inocência em suas atitudes, envenena a alma de Cândida com as “explicações necessariamente imorais” (MACEDO, 1869). Com essa narrativa, o autor tem por objetivo criar uma dicotomia entre as protagonistas, Cândida e Lucinda. A primeira é uma menina branca, ingênua e pura que é corrompida pela segunda, uma escrava negra e promíscua. Essa dinâmica torna a sinhazinha “escrava da sua escrava” (MACEDO, 1869), uma vez que desperta nela um desejo que não poderia ser conhecido naquele momento e que só foi possível graças à convivência degenerante. Para o autor emancipacionista, um dos piores males que a escravidão gerava era o da convivência entre inimigos naturais, ou seja, senhores e escravos. Segundo ele, “O escravo é necessariamente mau e inimigo do seu senhor. A madre-fera escravidão faz perversa, e vos cerca de inimigos [...]” (MACEDO, 1869, p. 29). Essa ideia é percebida quando, ao explicar a transgressão do caráter de Cândida por Lucinda, o autor afirma que “[...] a ideia do casamento 9Culturas afro-brasileira e indígena na sociedade brasileira contemporânea atirada ali de mistura com a de moça feita confundiu ainda mais a pobre e curiosa menina abandonada à companhia da mulher escrava [...]” (MACEDO, 1869, p. 172). Novamente, percebe-se a suposta depravação que a escravidão trazia para os brancos. Era por meio do “abandono à companhia da mulher escrava” que as sinhazinhas e a sociedade branca em geral eram corrompidas aos poucos pelos negros escravizados. Devido a relatos de viajantes estrangeiros e às condições precárias e desumanas da escravidão, imaginou-se que era impossível a formação de núcleos familiares por pessoas escravizadas. Entretanto, esse posicionamento está sendo revisto pela historiografia. Obras como Na senzala, uma flor, do historiador norte-americano Robert W. Slenes, buscam trazer à luz histórias de vidas de pessoas escravizadas que, lutando contra todas as condições da época, conseguiram formar famílias e buscar auxílio para sobreviver em uma sociedade que agia de forma violenta e arbitrária. Essa percepção negativa sobre as consequências que a presença dos escra- vizados tinha no cotidiano da população não se resumiu às escravas mucamas, estendendo-se a outro personagem de As Vítimas Algozes, Simeão, um crioulo, o qual também é afetado psicologicamente pela ação degenerativa da escravi- dão. O fato de o indivíduo ser um escravo alterava a sua percepção emocional: Simeão não possuía a capacidade de amar, já que a escravidão o degradava e arrancava toda e qualquer forma de sentimento puro. Veja: O escravo não amava, não amou Florinda; mas em sua mente audaz, em seus instintos escandalosos, revoltantemente ultrajadores e licenciosos, lembrou, contemplando a senhora-moça, o que lembrava aproximando-se da negra fácil, da escrava desmoralizada que lhe agradava e não fugia a seus ignóbios afagos (MACEDO, 1869, p. 51). As denúncias da escravidão presentes na obra de Macedo (1869) também são estendidas aos escravizados, daí o título da obra, Vítimas Algozes. A ideia é que aqueles que sofrem a violência da escravidão reproduzem essa mesma Culturas afro-brasileira e indígena na sociedade brasileira contemporânea10 violência na sociedade, tornando-se também algozes. Esse pensamento deve ser dimensionado, pois cria uma espécie de amenização da escravidão desen- volvida no Brasil, uma vez que retira parte da culpa dos próprios senhores de escravos, já que estes também se tornam vítimas do processo. Em uma perspectiva diferente, outro autor que também contesta a escravidão desenvolvida no Brasil é Machado de Assis. Ao contrário do que acontece no caso de outros autores da sua época, como o próprio Macedo (1869), as denúncias de Machado de Assis são explícitas e o caráter cruel e violento da escravidão é denunciado em suas páginas. Após 18 anos da abolição da escravidão, que ocorreu em 13 de maio de 1888, Machado de Assis publica o conto “Pai contra Mãe”, presente na obra Relíquias da Casa Velha, de 1906. No conto, a violência da escravidão é mostrada quando umcaçador de escravos, chamado Cândido Neves, passa por um dilema ético e moral: para conseguir dinheiro para cuidar da sua família, deve ir atrás de uma escrava que está grávida, correndo o risco de fazê-la abortar o bebê. Acesse o link a seguir para ler o conto. https://qrgo.page.link/sa6tv As várias faces da escravidão são mostradas por Machado de Assis nas suas obras. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, de 1881, Prudêncio, um antigo escravo do protagonista, é visto no cais do Valongo impondo sua fúria a outro indivíduo, também negro, porém seu escravo. Essa violência era uma reação à condição de vida imposta ao indivíduo escravizado: Era um modo que o Prudêncio tinha de se desfazer das pancadas recebidas — transmitindo-as a outro. Eu, em criança, montava-o, punha-lhe um freio na boca, e desancava-o sem compaixão; ele gemia e sofria. Agora, porém, que era livre, dispunha de si mesmo, dos braços, das pernas, podia trabalhar, folgar, dormir, desagrilhoado da antiga condição, agora é que ele se desban- cava: comprou um escravo, e ia-lhe pagando, com alto juro, as quantias que de mim recebera (ASSIS, 1881, p. 76). 11Culturas afro-brasileira e indígena na sociedade brasileira contemporânea Outro autor que também viveu e escreveu sobre o século XIX no Brasil, enfocando o tema da escravidão, foi Castro Alves, conhecido como “o poeta dos escravos”. Ele faleceu com apenas 24 anos, sem ver a abolição da escravidão nem a publicação da sua obra máxima, Navio negreiro, de 1880. Nessa obra, ficam evidentes os horrores da escravidão e as condições desumanas do transporte marítimo dos “tumbeiros”, termo que designava popularmente os navios que transportavam os escravizados na travessia transatlântica. Como o índice de mortandade era elevado, a comparação com tumbas era evidente. A obra é dividida em partes (cantos): (1) a descrição do belo natural, a exuberância da natureza brasileira; (2) a descrição do belo humano, a valorização dos marinheiros dos diferentes países; (3) a indignação ao ver o que se passa no interior do navio, a estupefação; (4) a descrição dos hor- rores cometidos contra os escravos; (5) a comparação da vida pregressa dos negros com o horror do momento; e (6) a crítica ao Brasil, por se beneficiar da infame escravidão. Por uma educação antirracista Uma educação antirracista nas escolas deve contemplar a identidade e a história dos indivíduos e dos respectivos grupos que frequentam o ambiente escolar. Para que esse processo seja de fato efetivado, a escola deve repensar a sua estrutura, ampliando a defi nição de currículo, avaliação e material didático e as formas de ação entre corpo docente e corpo discente. Geralmente, o debate sobre o racismo e as formas de combatê-lo vêm à tona apenas nas datas de 19 de abril, para a população indígena, e 13 de maio e 20 de novembro, para os afrodescendentes. Esses marcos simbólicos, caso não sejam devidamente problematizados, podem servir para reproduzir estereótipos e reforçar visões negativas sobre as populações, transformando a escola em um ambiente hostil para determinados grupos e anulando a sua função social de aparelho que possibilita o acesso à cidadania e a emancipação dos indivíduos. Ao analisar as ações dos movimentos sociais na busca por uma sociedade mais justa e igualitária, percebe-se que a legislação avançou, possibilitando a materialização de um aparato legal que diminua e iniba a prática de racismo em território nacional. Sobre essa questão, Sousa (2005, p. 110–111) destaca o seguinte: Culturas afro-brasileira e indígena na sociedade brasileira contemporânea12 Dizem até que falar de racismo é invenção do negro complexado, que tem ver- gonha da própria origem. Felizmente esta cultura do silenciamento está sendo superada, um resultado de décadas de lutas do movimento negro organizado por todo este país e que vem obtendo importantes conquistas, inclusive no campo legal, como, por exemplo: o art. 5º da Constituição Federal de 1988, que torna “a prática do racismo crime inafiançável e imprescritível”; a lei 3.198/2000, que institui o “Estatuto da Igualdade Racial”; a lei 10.639/2003, que torna obrigatório incluir nos currículos escolares a “história e cultura afro-brasileira”. Isso demonstra que avanços estão sendo conquistados, apesar de ainda termos muito a buscar. Soma-se a essa trajetória de luta antirracista a promulgação da Lei nº 11.645, de 10 de março de 2008. Ela modifica a Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003, e amplia a obrigatoriedade do ensino da história e da cultura afro-brasileira e indígena na educação básica do País. No link a seguir, confira o aparato legal que tornou possível o ensino da história e da cultura indígena e afro-brasileira nas escolas do País. https://qrgo.page.link/zuKnW Racismo: identificar e combater Gilberto Freyre, na sua obra máxima Casa-Grande & Senzala, de 1933, foi o responsável por criar um mito que até hoje ecoa na sociedade brasileira, a ideia de democracia racial. De acordo com esse autor, que era pernambucano e descendente de antigos senhores de engenho da região, o Brasil seria a “mais perfeita democracia racial do mundo”, pois o português teria criado nos trópicos uma sociedade em que os preconceitos de raça ou cor teriam sido diluídos na mistura entre brancos, negros e índios. Assim, teria forjado um ambiente propício para o desenvolvimento de uma sociedade em que a prática de racismo era inexistente, modelo bem diferente do de outras sociedades, como os Estados Unidos da América, onde houve luta por direitos civis, segregação e ação de grupos racistas como a Ku Klux Klan. 13Culturas afro-brasileira e indígena na sociedade brasileira contemporânea Esse mito começou a ser combatido nos anos 1950, pela chamada “escola de sociologia paulista”. Autores como Florestan Fernandes e Fernando Hen- rique Cardoso questionaram a existência de uma democracia racial no Brasil e passaram a denunciar as condições nas quais a população negra brasileira estava inserida, configurando, portanto, a primeira crítica contudente a Freyre e revelando o racismo na sociedade brasileira após a abolição da escravidão. O Geledés (Instituto da Mulher Negra) explica como o mito da democracia racial está presente na sociedade brasileira. Confira no link a seguir. https://qrgo.page.link/AHgV6 A negação do racismo no Brasil reforça a ideia de que no País as condições de vida e as oportunidades são iguais para todos, independentemente da cor de pele, visão que não reflete a realidade. Em uma análise sobre o perfil étnico do Brasil e o seu reflexo nas condições econômicas, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2018) constatou que, em média, os brasileiros brancos possuem salários maiores, sofrem menos com desemprego e possuem maior acesso ao nível superior. Essa situação reflete o processo histórico iniciado pela colonização portuguesa e atinge principalmente os grupos que foram historicamente afastados das classes dominantes. Negros e indígenas no Brasil hoje Ao combater o racismo no ambiente escolar, a escola cumpre a sua função so- cial. Nesse processo, os professores são peças fundamentais dessa engrenagem. Identifi car o racismo, compreender as suas consequências para a formação do alunado e o seu consequente exercício de cidadania, reconhecer a presença de estereótipos, bem como a ausência de embasamento durante a formação inicial e continuada dos professores, é o caminho a ser seguido para, enfi m, ter uma educação antirracista. Sobre essa questão, Gomes (2009, p. 57) afirma o seguinte: “[...] somos desafiados a realizar uma mudança epistemológica, no campo da formação de professores(as) no Brasil, que vá além das velhas dicotomias entre o escolar e Culturas afro-brasileira e indígena na sociedade brasileira contemporânea14 o não escolar, o político e o cultural, o instituído e o instituinte, ainda presente em vários currículos e práticas de formação de professores [...]”. Ao longoda história do Brasil, os grupos de indivíduos não brancos, como negros e indígenas, criaram diversas táticas para burlar a ordem vigente e realizar suas práticas culturais sem que fossem punidos pelo poder colonial estabelecido. Essas astúcias foram materializadas em diversos aspectos da vida cotidiana desses indivíduos, inclusive na esfera religiosa, com a criação de irmandades religiosas de negros e pardos, em que as divindades e os orixás africanos foram assimilados ao culto aos santos católicos. No campo cultural, destaca-se a prática da capoeira, uma mistura de luta com dança, inicialmente proibida e, posteriormente, alçada à condição de patrimônio histórico e cultural nacional. Aspectos linguísticos também foram afetados, como o vocabulário, que amenizou o português europeu, desenvolvendo uma nova linguagem mais branda, com a repetição de sílabas. Os aspectos da cultura africana foram ressignificados no Brasil, adqui- rindo outras roupagens, repletas de herança, memória e resistência étnica e cultural. No campo do sagrado, as religiões afro-brasileiras se materia- lizaram como práticas de fé. Nesse contexto, destacam-se as irmandades negras, associadas ao catolicismo; a umbanda, associada ao espiritismo; o candomblé; o culto dos orixás; o tambor de mina (Maranhão); e o culto congo-angolano (Rio de Janeiro e Bahia). A interação étnica e cultural no Brasil foi tão intensa que surgiram também cultos afro-indígenas, como os candomblés de caboclo (Bahia), jurema (Paraíba e Pernambuco), barba-soeira (Amazônia e Pará) e terecô (Maranhão), popularmente denominados de catimbó, macumba e canjerê. Os folguedos dos reis negros, também conhecidos como festas do rosário, são manifestações culturais que demonstram a forte presença da cultura africana no Brasil. Essas manifestações culturais têm origem nas irmandades religiosas de escravizados, quando os irmãos em um ato de fé elegiam um rei que era conhecido pelos membros da irmandade e tinha sua autoridade validada inclusive pelos colonizadores, mostrando como a vida social durante a escravidão era complexa. No Brasil, essas denominações mudaram, depen- dendo do local de origem, entretanto guardam semelhanças entre si. Lutas por posse e manutenção das terras, seja por comunidades tradicionais indígenas ou comunidades remanescentes de quilombos, refletem a disputa pelo acesso à terra no Brasil, que ficou restrito a pequenos grupos com capital necessário e que herdaram a posse da terra dos antigos senhores da região. Todas essas questões evidenciam a luta pela sobrevivência de negros e indí- genas no Brasil de hoje. 15Culturas afro-brasileira e indígena na sociedade brasileira contemporânea Assim, a resistência de índios e negros não terminou; ela não ficou restrita ao passado, mas continua viva, existindo no Brasil contemporâneo. Enquanto houver uma sociedade racista, que busca eliminar os indivíduos que agem de modo diferente da classe dominante, a luta antirracista é necessária. As histórias em quadrinhos são uma forma de literatura que pode contribuir para aproximar os alunos da cultura afro-brasileira. A seguir, confira uma seleção de obras. André Diniz: Chico Rei (2007) e O Quilombo Orum Aiê (2010) Marcelo D’Salete: Cumbe (2013) e Angola Janga (2016) Amaro Braga, Danielle Jaimes e Roberta Cirne: AfroHQ: História e Cultura Afro-Brasileira e Africana em Quadrinhos (2010) Alexandre Miranda Silva: Orixá: Do Orum ao Ayê (2011) ASSIS, M. Memórias póstumas de Brás Cubas. In: ASSIS, M. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1881. ASSIS, M. Pai contra mãe. In: ASSIS, M. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguillar, 1888. BRASIL. Lei nº 11.645, de 10 de março de 2008. Altera a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, modificada pela Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena”. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2008/lei/l11645. htm. Acesso em: 19 ago. 2019. CERTEAU, M. A invenção do cotidiano. 16. ed. Petrópolis: Vozes, 2009. (Artes de Fazer, v. 1). CHARTIER, R. A história ou a leitura do tempo. 2. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2010. CHICANGANA-BAYONA, Y. A. Os Tupis e os Tapuias de Eckhout: O declínio da imagem renascentista do índio. Varia História, Belo Horizonte, v. 24, n. 40, p. 591–612, 2008. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/vh/v24n40/16.pdf. Acesso em: 19 ago. 2019. Culturas afro-brasileira e indígena na sociedade brasileira contemporânea16 DIAS, G. Canção do Tamoio. Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional, [1852]. DIAS, G. I-Juca-Pirama. Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional, 1851. DIAS, G. Marabá. [S. l.: s. n.], 1968. GÂNDAVO, P. M. História da província Santa Cruz que vulgarmente chamamos Brasil. Lisboa: Antônio Gonçalves, 1576. GOMES, N. L. Diversidade étnico-racial: por um projeto educativo emancipatório. In: FERREIRA, R. F. Afro-descendente: identidade em construção. São Paulo: EDUC, 2009. IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua: PNAD contínua. Mercado de trabalho brasileiro: 4º trimestre de 2017. Rio de Janeiro: IBGE, 2018. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/media/com_mediaibge/arquivos/08933e7cc5 26e2f4c3b6a97cd58029a6.pdf. Acesso em: 20 ago. 2019. LAPLANTINE, F. Aprender antropologia. 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Vai compreender também que as relações sociais foram determinadas pelo tipo de organização econômica estabelecida, e, por isso, a utilização de mão de obra escravizada teve grande influência nas manifestações simbólicas e culturais da sociedade em formação, especialmente nas relações familiares afetivas que se constituam entre cuidadores negros e as crianças brancas. Por fim, verá que houve e há resistência de diferentes composições étnicas, especialmente negra e indígena, ao longo de todo o processo de constituição da sociedade brasileira contemporânea, identificando a importância de reconhecer Formação sociocultural do Brasil I Aline Michele Nascimento Augustinho as dinâmicas de poder e de classena manutenção de privilégios que afastam as elites das bases das pirâmides sociais. Origens socioculturais do Brasil O Brasil republicano foi simbolicamente desenhado como uma nação miscige- nada, formada por várias culturas que não apenas conviveriam pacificamente, mas que também contribuíram para a formação de uma cultura e de uma identidade nacionais exclusivas do Brasil. Porém, nas reflexões acadêmicas e sociais que se realizam, ao olhar para as culturas que formam a identidade brasileira é possível identificar as falácias no discurso da miscigenação pacífica e integradora. Muito embora seja verdade que a identidade nacional e os elementos culturais que a permeiam — como a música, as artes, o idioma, a culinária, as tradições, religiões, costumes e comportamentos sociais — sejam de fato produto da interação de culturas de diferentes origens, especialmente de povos indígenas, povos negros e povos europeus, não é mais possível que no século XXI se reproduza a ideia da miscigenação sem a reflexão da violência estrutural resultante das relações de poder entre esses povos. A reflexão sobre essas relações de poder, além de oferecer melhor compre- ensão sobre a história do país, pode ainda contribuir para políticas públicas de reparação de violências e injustiças, reorganizando as dinâmicas sociais contemporâneas e ajustando os espaços e acessos de povos de diferentes origens aos itens de bem-estar social e à efetivação da cidadania, como assim define a Constituição Federal de 1988. Para compreender como se constitui a realidade social e cultural do Bra- sil contemporâneo, com suas possibilidades, desafios e a necessidade de resgates históricos, é necessário antes retomar as origens dessa sociedade. Retomar o processo de colonização é fundamental, mas, para compreender a formação de nossa identidade brasileira contemporânea, é preciso retomar o contexto de formação da república brasileira. É na formação do Estado-nação republicano, no final do século XIX, que surgiu a necessidade de criação de um elemento simbólico que levasse os sujeitos à validar a noção de pertencimento à nação. A noção de pertenci- mento é um dado simbólico que influencia a formação da identidade dos sujeitos, associando tais identidades aos laços sociais constituídos em sua formação como um sujeito que pertence a determinada cultura, que pertence a determinado país. A noção de pertencimento foi intencionalmente desenvolvida no Brasil republicano especialmente por meio da educação pública, a fim de difundir Formação sociocultural do Brasil I2 o conceito de identidade nacional — e esse pressuposto tinha um objetivo político: o fim do Império. Nesse sentido, o exílio do imperador Dom Pedro II não foi um ato de ruptura popular com o absolutismo, como aconteceu na Europa dos séculos XVIII e XIX. Pelo contrário, o imperador Dom Pedro II era benquisto pelos brasileiros de classes mais baixas, que não participaram do movimento golpista que levou à constituição da República. Assim, a construção da sensação de pertencimento ajudava a formar e legitimar a identidade nacional, e essa identidade, por sua vez, estreitaria os laços do povo com o novo Estado e sua forma de organização e governo, prevenindo movimentos separatistas, mantendo unido o território vasto do antigo Império e salientando a unidade nacional frente a possíveis ameaças externas. Naquele momento, no final do século XIX, a constituição da República buscava criar a imagem de um país moderno e economicamente alinhado às principais potências capitalistas mundiais — Estados Unidos e França. Para isso, os ideais de liberdade, igualdade e participação que permearam as revoluções burguesas nesses dois países precisavam ser aqui reproduzidas, com a transição da forma do Estado monárquico para o republicano. Assim, buscou-se criar elementos simbólicos que afastassem a memória social dos contextos de colonização e da égide da monarquia portuguesa como expressões de dominação europeia — muito embora o país fosse inde- pendente desde 1822, os laços com a coroa portuguesa não foram cortados, mesmo que a monarquia brasileira se mostrasse mais conectada ao Brasil que às memórias das cortes europeias. Na busca pela criação de uma identidade nacional que se descolasse das memórias coloniais e do impacto da dominação cultural, política e econômica, as dinâmicas de poder entre as culturas que formariam o povo e a identidade culturais brasileiras foram moldadas para salientar uma espécie de simbiose entre diferentes culturas, apagando um histórico de dominação e violência. Assim, surgiu a noção de que povo brasileiro, miscigenado entre povos negros, brancos e indígenas, convivia em paz com as diferentes origens que formariam uma só cultura, diversificada, única e sobretudo pacífica e integrada. Desse modo, a identidade nacional e a noção de pertencimento foram estabelecidas no início do século XX, resultando na manutenção de violências estruturais e simbólicas de povos durante a colonização, com a valorização da influência dos povos europeus, sem, no entanto, que se admitisse a existência do racismo, levando à formação do mito da igualdade racial. Formação sociocultural do Brasil I 3 De acordo com o sociólogo brasileiro Florestan Fernandes (1978), a socie- dade brasileira do século XX foi pautada no mito da igualdade entre todos seus componentes étnicos, o que, segundo sua perspectiva, seria uma inverdade, já que as relações raciais coloniais mantiveram os traços de segregação e violência na constituição da divisão social do trabalho capitalista no Brasil do século XX. Nesse âmbito, os negros seguiram marginalizados nas dinâ- micas sociais com as elites, tendo acesso restrito ao trabalho e à educação e reproduzindo dispositivos que impediam sua autonomia. No próximo tópico, você verá como se deu o reconhecimento dos povos nativos e das sociedades já estabelecidas no território que se tornaria o Brasil no contexto da colonização. Ocupação e colonização brasileira Consideradas as interações múltiplas e a intenção sociopolítica na criação do conceito de identidade nacional e da noção de pertencimento para o fortale- cimento e legitimação da República, chega o momento de uma reflexão que retoma pontos históricos ainda mais longínquos: o processo de colonização. Afinal, é a partir desse processo que o Brasil se torna um Estado, com uma sociedade que submete às regras legais e de conduta centrais. Isso, porém, não significa que uma sociedade com cultura, condutas e hábitos particulares se estabelece apenas com a colonização. Antes da ocupação do território brasileiro pelos portugueses, a região era habitada por diferentes povos indígenas, que mantinham dinâmicas internas específicas de auxílio mútuo ou de belicosidade, de trocas comerciais e disputas territoriais. Assim, é preciso ressaltar que sociedades nativas, indígenas, ocupavam o território brasileiro antes da chegada e da posterior ocupação forçada dos portugueses. Aliás, esses povos nativos mantinham contato e trocas comerciais e culturais por toda a América do Sul, estabelecendo diálogos com grandes impérios nativos como os Incas, na região do Peru, até os Maias, na América Central. Uma das provas dessas dinâmicas é o Caminho de Peabiru, uma trilha de cerca de 3 mil quilômetros de extensão, em muitas partes pavimentada com pedras, que ligava o litoral de São Paulo, na região de São Vicente, à região de Cuzco, no Peru, coração do Império Inca antes da invasão e colonização espanhola naquela região (Figura 1). Formação sociocultural do Brasil I4 Figura 1. Trajetória pré-colombiana do Caminho de Peabiru, do litoral de São Paulo até a região de Cuzco, capital do antigo Império Inca, no Peru. Fonte: Colavite e Barros (2009, p. 89). A trilha apresentava centenas de “ramais”, pequenas trilhas anexas que ligavam a trilha central a aldeias e comunidades, de modo que o Caminho de Peabiru se configurava como instrumento de comunicaçãoe troca comercial local e intercontinental, mesmo considerando a multiplicidade de etnias, idiomas e culturas indígenas nativas ao longo do trajeto. Apenas com o reconhecimento do Caminho de Peabiru já é possível refletir sobre pontos importantes do processo de formação cultural da sociedade brasileira: em primeiro plano, havia sociedades plenamente estabelecidas num território que foi invadido por um povo colonizador, que tomou para si as terras e suas riquezas. Nesse contexto, houve um processo de imposição pela força, de modo que o povo colonizador, os portugueses, pudesse subjugar os povos nativos, Formação sociocultural do Brasil I 5 forçando-os ao trabalho segundo sua definição, invadindo e destruindo vilarejos, raptando crianças para a formação católica forçada — desse modo aprenderiam o idioma do colonizador, seus valores morais por meio da religião, e poderiam ser mais facilmente controlados, afastados de sua cultura nativa. Os primeiros 60 anos de colonização, concentrados nas regiões de São Vicente, sul da Bahia e Recife, foram orientados à exploração de bens já disponíveis, como o pau-brasil, enquanto testes de adaptabilidade do solo para o plantio de cana-de-açúcar e cacau eram realizados. Nesse contexto, a mão de obra indígena, também escravizada, era a utilizada. Os portugueses estabeleceram-se como senhores da terra ocupada, legalizando a ocupação com outros europeus, os espanhóis, com os quais dividiram as porções con- tinentais a serem exploradas. De modos diversos, os dois povos colonizadores buscaram anular as or- ganizações sociais já estabelecidas no período pré-ocupação, e isso significa não apenas a imposição de violência e exploração de mão de obra escravizada, mas o apagamento de itens simbólicos, como fortificações, estruturas urbanas, templos e totens religiosos, além do impedimento da comunicação entre as comunidades, o que dificultava — mas não impedia — a resistência nativa. Há dois fatores nesse processo que levaram os portugueses a inserirem a mão de obra de povos negros escravizados no Brasil: em primeiro lugar, a adaptação da cana-de-açúcar ao clima e ao solo do nordeste brasileiro. A criação de engenhos exigia conhecimento técnico que os nativos indígenas não possuíam e relutavam em aplicar. No entanto, tanto Portugal quanto Espanha, Holanda, Inglaterra e França já haviam utilizado mão de obra de povos africanos escravizados em plantios na América Central. A experiência anterior de escravização levou os colonizadores a iniciarem a forçada diáspora africana para o Brasil, cumprindo a necessidade de criar, expandir e movimentar os engenhos de cana-de-açúcar. Essa ação teve ainda cunho político: com o território do nordeste tendo sua população ampliada e atividades comerciais mais ativas, mantinha-se afastada a ameaça de invasão holandesa, intenção que permaneceu ativa até o século XVIII. O segundo fator foi a necessidade de ocupação territorial continental, ou seja, a expansão das atividades para além da faixa costeira. Essa necessidade surgiu já no século XVII, quando o sucesso na exploração de ouro e minerais preciosos na porção continental ocupada pela Espanha levou os portugueses a temerem que a exploração espanhola ultrapassasse os limites acordados, além da perspectiva de encontrar ouro em abundância mais ao interior do continente. Formação sociocultural do Brasil I6 Assim, em busca de minas e veios de ouro iniciou-se a expansão territorial e a ocupação por meio da composição de vilarejos e cidades em torno de regiões com veios e minas de ouro na região sudeste. Como as incursões exploratórias não permitiam lutar com indígenas, ocupar espaços e formar vilarejos sem os retornos financeiros esperados, a mão de obra de povos negros foi inserida já no processo de exploração do território. Com a paulatina ocupação do litoral brasileiro principalmente pelos colonizadores portugueses, para além de tentativas de ocupação francesa e holandesa, acarre- taram-se imensos prejuízos para os inúmeros grupos étnicos, que se destacavam por sua diversidade linguística, religiosa e cultural, e que foram progressivamente reduzidos ou, em muitos casos, até mesmo dizimados. Com o tempo, os atos de violência perpetrados pelos invasores de Pindorama também passaram a ter como alvo diversas etnias africanas que foram sequestradas de seus respectivos territórios de origem, para serem então comercializadas e exploradas no Brasil Colônia de forma inumana (ROMÃO, 2018, documento on-line). Ao longo do tempo, com a expansão territorial e a consolidação dos vilare- jos e expansão da população portuguesa chegada para explorar o território, crescia também a presença de escravizados negros, ao passo que diminuía a de povos nativos, mortos pela recusa a ceder território ou pela recusa à escravização. A ocupação inicial do território brasileiro oferece então a composição social da nova colônia: no topo da pirâmide social, nobres e ricos comerciantes. Na base, os povos explorados: povos negros e indígenas escravizados. Havia também pessoas brancas não nobres, que partiam de Portugal em busca de oportunidades no Novo Mundo, mas que viam-se sem lócus, sem espaço social a ser ocupado na ausência de titulação aristocrática, grandes posses ou carreira militar. Essas pessoas, no entanto, foram importantes para estruturar os vilarejos e o processo de ocupação territorial. Se por um lado observaram-se formas de controle e imposição do poderio do colonizador, por meio da violência e da catequese (imposição religiosa, fonte do apagamento cultural nativo), observou-se no Brasil Colônia também o processo de resistência que levaria a importantes núcleos da cultura nacional: a formação dos quilombos. Os quilombos eram territórios social, política, econômica e militarmente organizados, que recebiam povos negros e também indígenas que fugiam da condição de escravidão. Tais territórios promoviam a autossustentabilidade, já que não podiam expor sua localização, sobretudo quando especializavam-se na insurgência e no enfrentamento do poder dos colonizadores. Havia, porém, Formação sociocultural do Brasil I 7 aqueles que atuavam também no comércio, com os excedentes produzidos e artesanatos. Tereza de Benguela é um exemplo de líder quilombola que orientava sua microssociedade, o Quilombo de Cariterê, ao comércio, mas também à ativi- dade bélica. Segundo Anal de Vila Bela do ano de 1770, no atual Mato Grosso: Governava esse quilombo a modo de parlamento, tendo para o conselho uma casa destinada, para a qual, em dias assinalados de todas as semanas, entrava os deputados, sendo o de maior autoridade, tipo por conselheiro, José Piolho, escravo da herança do defunto Antônio Pacheco de Morais, Isso faziam, tanto que eram chamados pela rainha, que era a que presidia e que naquele negral Senado se assentava, e se executava à risca, sem apelação nem agravo (FUNDAÇÃO CULTURAL PALMARES, 2017, documento on-line). Uma das táticas de apagamento da cultura nativa indígena e so- breposição forçada da cultura colonizadora era a disseminação da ideia de inferioridade artística ou intelectual e de inverdade associada às religiões indígenas. Assim, ao mesmo tempo em que se disseminava a noção de superioridade cultural das sociedades europeias, atribuía-se as ações de violência e até extermínio à ideia de auxílio no desenvolvimento, ou seja, de que os europeus estariam ajudando os nativos a conhecerem culturas mais eficien- tes, mais desenvolvidas e superiores. Essa ideia parte da violência simbólica, mas concretiza-se em violência real, e fez parte do itinerário do desenrolar da sociedade brasileira republicana, com a noção de marginalização atribuída às expressões culturais e religiosas de matrizes indígenas e africanas (CARNEIRO, 2020). Colonização e relações de poder O processo de colonização determinou um padrão de relacionamentos sociais em que havia dinâmicas de poder estabelecidas entre dominadores e domina-dos: colonizadores, brancos europeus, determinaram a língua, a religião e as formas de organização social que regrariam as condutas coletivas, como na formação de famílias ou exercício do trabalho. O que surgiu, com isso, segundo Darcy Ribeiro (2016, p. 19–20), foi um povo ao mesmo tempo novo e velho: Novo porque surge como uma etnia nacional, diferenciada culturalmente de suas matrizes formadoras, fortemente mestiçada, dinamizada por uma cultura sincrética e singularizada pela redefinição de traços culturais delas oriundos. Também novo porque se vê a si mesmo e é visto como uma gente nova, um novo gênero humano Formação sociocultural do Brasil I8 diferente de quantos existam. Povo novo, ainda, porque é um novo modelo de estruturação societária, que inaugura uma forma singular de organização socioe- conômica, fundada num tipo renovado de escravismo e numa servidão continuada ao mercado mundial. Novo, inclusive, pela inverossímil alegria e espantosa vontade de felicidade, num povo tão sacrificado, que alenta e comove a todos os brasileiros. Velho, porém, porque se viabiliza como um proletariado externo. Quer dizer, como um implante ultramarino da expansão europeia que não existe para si mesmo, mas para gerar lucros exportáveis pelo exercício da função de provedor colonial de bens para o mercado mundial, através do desgaste da população que recruta no país ou importa. A sociedade e a cultura brasileiras são conformadas como variantes da versão lusitana da tradição civilizatória europeia ocidental, diferenciadas por coloridos herdados dos índios americanos e dos negros africanos. O Brasil emerge, assim, como um renovo mutante, remarcado de características próprias, mas atado genesicamente à matriz portuguesa, cujas potencialidades insuspeitadas de ser e de crescer só aqui se realizariam plenamente. Tais dinâmicas de poder influenciariam também a formação das iden- tidades dos diferentes povos que compunham a sociedade brasileira nos contextos da colonização e também dos dois períodos imperiais, até 1889. Isso porque “[...] a identidade é uma categoria social discursivamente construída, expressa e percebida por diferentes linguagens: escritas, corporais, gestu- ais, imagéticas, midiáticas” (MORENO, 2014, documento on-line), ou seja, a identidade é construída e percebida pelos sujeitos à medida que as práticas e comportamentos a ela associados são reproduzidos. Mais incisivamente do que a noção de cultura, a identidade implica a produção de discursos portadores de signos de identificação. Nem sempre um grupo com uma cultura em comum percebe-se, denomina-se, reconhece-se ou é objeto de discursos identitários. A identidade estaria ligada, desta forma, à representação da cultura de um ou mais grupos humanos (MORENO, 2014, documento on-line). Por isso, as dinâmicas das relações de poder são tão relevantes na for- mação das identidades: ao reafirmar e reproduzir lugares e condutas onde há privilegiados e oprimidos, cria-se a referência do pertencimento, o que pode dificultar ações de resistência. No Brasil, foi especialmente no trabalho doméstico e na relação estreita entre trabalhadoras negras e as famílias brancas que se operou a reprodução do lócus social pautado nas relações de poder coloniais. De acordo com Eneida Gaspar (2008), na língua e nos laços, as dinâmicas entre culturas que formam costumes novos e desenvolvem novas formações culturais podem ser vistas nas relações coloniais e pós-coloniais entre mulheres negras cuidadoras de crianças brancas, como você pode ver na cantiga “Neném bagunceiro”: Formação sociocultural do Brasil I 9 Neném faz lambança comendo canjica. Babá se enquizila e dá um chilique: — Moleque sapeca! Não faça bagunça! Nenê, encabulado, funga, faz dendo... Babá engambela, faz um cafuné: — Nana, nenê, que a Cuca já vem... Nenê esquece a fuzarca... bambeia... e cochila... (GASPAR, 2008, p. 21). Tais relações, repetidas em diversas unidades familiares por reproduzirem um padrão de dominação social, terminam exacerbando as unidades fami- liares e reproduzidas, fazendo parte do contexto cultural. No poema acima, para além das relações de cuidado entre a mulher e a criança cuidada, há a reprodução de palavras de origem banto, como “neném”, “cafuné”, “lambança”, que terminaram como parte da língua falada, o português do Brasil. Cultura imaterial A diáspora africana no Brasil causada pela escravização de povos negros influencia a formação da cultura brasileira, imprimindo impactos na cultura imaterial, incluindo o idioma, as religiões, a culinária, a música, mas também influencia os sentidos dados à essas expressões imateriais. Esses povos não aceitavam a condição da escravidão, e a partir do sé- culo XVI, fugindo dos engenhos e das fazendas escravistas, desenvolveram comunidades específicas onde pudessem viver em liberdade e onde suas tradições e saberes ancestrais pudessem ser protegidos e transmitidos aos descendentes. Observe o poema a seguir: Batuca o bumbo, sacoleja o caxixi, cutuca a cuíca, toca marimba e ganzá. Desencabula, saçarica na catira, ginga no samba, no fandango e carimbo (GASPAR, 2008, p. 21). Esse texto utiliza palavras de origem africana, trazidas ao Brasil por meio dos povos escravizados, que terminaram se tornando parte integrante do idioma, mas não apenas suas palavras e sentidos, como também aquilo que descrevem: a música, o ritmo e as manifestações culturais, provas da influência dos povos escravizados na formação da cultura imaterial nacional, como nos ritmos da catira, do samba, do carimbó e do fandango. Perceba que cada uma Formação sociocultural do Brasil I10 dessas expressões musicais se atrela a uma região específica do Brasil (o samba ao Sudeste, o fandango ao Sul, a catira ao Centro-Oeste e o carimbó ao Norte e Nordeste), mas são todas influenciadas pela perspectiva cultural, simbólica e linguística banto, povo africano escravizado e concentrado no Brasil especialmente na região do Rio de Janeiro. A sociedade brasileira multiétnica projeta nas expressões culturais tanto as origens dos povos quanto o produto das dinâmicas entre eles: dinâmicas de poder, de assimilação ou de confluência. O território do país era ocupado por nativos de diferentes etnias, formando milhares de microssociedades, mas que podem ser identificados por meio de quatro troncos linguísticos, que denotam coesão sociocultural entre si: nas faixas litorâneas, tupis-guaranis; na porção centro-oeste e do Planalto Central, macro-jê/tapuias; na região amazônica, dois troncos, aruaques e caraíbas (karib). Entre os povos negros escravizados, houve maior diversidade étnica entre o sudeste e o nordeste, sendo trazidos forçadamente povos bantos do Congo, Angola e Moçambique, para o Rio de Janeiro, Minas e São Paulo, enquanto povos sudaneses originários de Costa de Marfim e Nigéria foram levados às lavouras do nordeste, especialmente à Bahia. Foram trazidos ao Brasil aproximadamente 4 milhões de pessoas africanas até o século XIX (FLORENTINO, 1995). Você sabia que as comunidades e sociedades indígenas pré-colom- bianas, ou seja, que antecederam a ocupação colonial pela invasão de povos europeus no território, eram organizadas e possuíam delimitações específicas para centros comerciais, centros militares e centros religiosos? O processo de colonização buscou apagar as marcas dessas populações, atri- buindo-lhes uma imagem de desorganização e ausência de desenvolvimento artístico e cultural, o que os primeiros antropólogos chamavam de “primitivas”. Hoje, sabe-se que o conceito de primitivo é etnocêntrico, ou seja, considera uma cultura como centralizadora para análises comparativas. Saiba mais sobre essa reflexão no artigo “Urbanismo mesoamericano pré-colombiano: Teotihuacán” (BERNARDES, 2008). Formação sociocultural do Brasil I 11 Diferentes manifestações culturais: identidades coletivas e identidades ancestrais Os diferentes povos que formaram a sociedade brasileira não dispunhamdos mesmos privilégios e acessos a itens de conforto, bem-estar e segurança, e tampouco a um processo de legitimação, configuração reforçada e continua- mente reproduzida principalmente por meio das relações trabalhistas, que marginalizavam os povos negros e anulavam os povos indígenas. Com a intensificação do processo de industrialização e expansão da urbanização no século XX, especialmente em capitais como São Paulo e Rio de Janeiro, a configuração espacial das cidades passou também a reproduzir as dinâmicas e relações de poder que centralizam os brancos e marginalizam os não brancos. Vejamos o trecho a seguir sobre o espaço urbano da cidade de São Paulo na metade do século XIX: [...] as ruas, alamedas e praças da cidade, todas as suas áreas de circulação e reunião pública, estavam de posse dos escravos (que constituíam mais de 1/4 da população) e de homens livres humildes: tropeiros, vendeiros, lavradores. As famílias patriarcais viviam retiradas em seus sobrados. Não tinham pontos diários de reunião em público, nem passeios, nem centros de lojas, nem restaurantes elegantes (MORSE, 1970, p. 62). Essa reflexão percebe a ocupação dos espaços públicos pela população racial e economicamente marginalizada, o que, em tese, impedia a ocupação desses espaços pelas famílias patriarcais, pelas representantes das elites e do statu quo vigente. Essa percepção levou às reformas higienistas nos espaços urbanos em São Paulo e no Rio de Janeiro, que construíram praças, alamedas e passeios públicos a serem ocupados pelas elites em seu trânsito e lazer, numa tentativa de assemelhar as capitais brasileiras às capitais europeias, especialmente à Paris, símbolo da modernidade e da elegância associadas à riqueza capitalista emergente. Como um Estado que procurava modernizar-se e criar uma nova identi- dade nacional, a remodelação do espaço público fazia parte do processo. No entanto, a sociedade não foi interpretada como miscigenada e plural, embora única, como a premissa nacionalista divulgava: trabalhadores, escravizados e ex-escravizados eram retirados à força dos espaços públicos e até presos quando não cumpriam a ordem de abandonar os espaços destinados às “famílias tradicionais”. Formação sociocultural do Brasil I12 O entorno das praças e passeios públicos também foi afetado pelo projeto higienista urbano, demolindo moradias simples e levando à formação das favelas e cortiços às margens das cidades. As músicas e expressões artísticas de origem negra, como a capoeira e o samba, foram por décadas proibidas em espaços públicos e associados à “vadiagem”, punidos com prisão. Do período higienista até a década de 1930, o samba, ritmo criado por povos negros e associado à cultura brasileira como característica nacional, foi considerado vadiagem e punido com até 30 dias de prisão. Você pode saber mais sobre esse contexto na matéria “Carnaval 2020: quando tocar samba dava cadeia no Brasil” (CARNAVAL..., 2020). O samba continuou sendo tocado e vivido para além das áreas centrais das cidades remodeladas, como uma forma de resistência cultural que salientava a formação de microssociedades com identidades particulares e conectadas à ancestralidade. Assim, a ideia de possível homogeneidade que criou uma só cultura com o processo de miscigenação não existia de fato. Assim como a música, o sincretismo religioso pode ser visto como uma forma de resistência e sobrevivência à marginalização e à violência com que as manifestações religiosas de matriz africana, especialmente, mas também indígena, foram reprimidas. Roger Bastide (2001) pontua sobre as diferentes nações, ou etnias, de povos negros que formaram novas comunidades no Brasil a partir dos sujeitos escravizados, mesclando crenças e ritos já praticados, mas associando suas divindades às divindades católicas, aceitas pela elite branca: Os candomblés pertencem a ‘nações’ diversas e perpetuam, portanto, tradições diferentes: angola, congo, jeje (isto é, euê), nagô (termo com que os franceses designavam todos os negros de fala ioruba), da Costa dos Escravos), queto, ijexá. É possível distinguir essas ‘nações’ umas das outras pela maneira de tocar o tambor (seja com a mão, seja com as varetas), pela música, pelo idioma dos cânticos, pelas vestes litúrgicas, algumas vezes pelos nomes das divindades, e enfim por certos traços do ritual. Todavia, a influência dos iorubás domina sem contestação o con- junto das seitas africanas, impondo seus deuses, a estrutura de suas cerimônias e sua metafísica aos daomeanos, aos bantos (BASTIDE, 2001, p. 29). O sincretismo resultou em diferentes expressões religiosas, sendo o can- domblé uma das mais proeminentes e que mais tarde terminou ganhando fiéis brancos e partícipes da elite. Não se trata de assimilação ou de aculturação; nesse caso, quando uma cultura dominante (por questões políticas ou eco- nômicas) é pouco a pouco absorvida por outra, passando a ter novos valores Formação sociocultural do Brasil I 13 e expressões da cultura assimilante, o sincretismo foi na verdade um projeto de resistência para a manutenção do culto a divindades de matriz africana. E essa escolha pode ter sido também reflexo da violência com que os colo- nizadores portugueses impuseram o catolicismo aos indígenas, especialmente por meio das missões jesuítas nas regiões sul, sudeste e amazônica, quando não apenas as crenças religiosas eram forçadamente trocadas por aquelas ditas como “verdadeiras”, mas para professá-las, era necessário adotar o idioma, as vestimentas, os hábitos alimentares e sociais dos colonizadores, despindo os povos indígenas de suas características socioculturais. De acordo com Darcy Ribeiro (2016), para além da formação triplo-étnica da sociedade brasileira entre brancos, negros e indígenas, que por si só con- tribui para a heterogeneidade cultural, há ainda as diferenças internas entre cada um desses povos, dadas as múltiplas sociedades indígenas, diferentes nacionalidades e etnias de povos negros e diferentes nacionalidades de povos brancos que, chegando após a colonização, puderam atrelar-se aos privilégios sociais e econômicos associados à elite dominante, como os italianos que chegaram ao Brasil durante o ciclo do café. Por isso, Ribeiro (2016) sustenta que até há uma unidade cultural e simbólica que forma a cultura e a ideia de nacionalidade brasileiras, mas nela não há uniformidade, sendo as diferenças influenciadas por três elementos principais. O primeiro deles, segundo Ribeiro (2016), é a ecologia (ambiente). De fato, os fatores ambientais geoclimáticos afetaram, em conjunto com as culturas ancestrais dos povos que chegaram durante a colonização, a formação de culturas locais, que se ligavam com expressões mais amplas e gerais, mas revelavam peculiaridades advindas dos diálogos diretos dos sujeitos com seus ambientes. O segundo elemento é a economia — nesse caso, o autor pondera sobre dois níveis: quais tipos de vínculo os povos tinham com a economia (escravi- zados, assalariados, nobres, mercadores) e a condição brasileira de colônia de exploração e em transição para uma economia capitalista autônoma, mas periférica. A construção do país como Estado capitalista a partir do século XIX tem impacto direto na formação sociocultural, derivada das formas de organização social do trabalho. Um exemplo é a escolha de trazer imigrantes europeus como trabalhadores assalariados para as lavouras paulistas, sem a integração econômica dos povos negros após a abolição da escravatura. Por fim, o terceiro elemento a influenciar diferenças é a imigração não negra, que especialmente a partir do século XVIII trouxe ao Brasil grandes contingentes de povos europeus, árabes e asiáticos, concentrados em regiões específicas do país. Assim, essas novas imigrações associadas a fatores Formação sociocultural do Brasil I14 como a economia (e suas relações de trabalho) e a influência geoclimática terminaram por criar expressões socioculturais, naspalavras de Ribeiro (2016), “abrasileiradas”. Isso significa que não houve aculturação, mas um processo de assimilação que nem absorveu a nova cultura por completo e nem a apagou, criando uma composição híbrida. Esses três fatores viriam a formar as expressões tipicamente brasileiras influenciadas por povos não nativos, “[...] como sertanejos do Nordeste, ca- boclos da Amazônia, crioulos do litoral, caipiras do Sudeste e centro do país, gaúchos das campanhas sulinas, além de ítalo-brasileiros, teuto-brasileiros, nipo-brasileiros” (RIBEIRO, 2016, p. 20). A unicidade não homogênea da composição sociocultural brasileira seria marcada, portanto, tanto pelo que os brasileiros têm em comum quanto pelas suas diferenças advindas de “[...] adaptações regionais ou funcionais, ou de miscigenação e aculturação que emprestam fisionomia própria a uma ou outra parcela da população” (RIBEIRO, 2016, p. 20). A partir da promulgação da Constituição de 1988, diversas formas de organização para horizontalização do diálogo e participação democrática entre Estado e sociedade civil foram determinadas, incluindo processos de descentralização administrativa, como conselhos de justiça e fóruns. Dois exemplos de organizações importantes na luta pela equidade social na sociedade brasileira contemporânea são o Fórum Nacional de Lideranças Indígenas e o Fórum Nacional de Educação Escolar Indígena (FNEEI). Por sua vez, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) mantém Comissões para Igualdade Racial em cada unidade federativa, promovendo o cumprimento das práticas de equidade descritas na Constituição nos processos legislativos. No Brasil, segundo os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicí- lios (PNAD) de 2019 (IBGE, 2019), 42,7% dos brasileiros se declararam brancos, 46,8% pardos, 9,4% pretos e 1,1% amarelo ou indígena. Dessa forma, 57,3%, a maioria dos brasileiros, entende-se como não branca, colocando em xeque a noção de minoria étnica não branca criada pela centralização colonizadora europeia, que manteve a população branca nas elites, com o passar do tempo e as diferentes formas de Estado e movimentações do tecido social. Mesmo que não pertençam às elites econômicas, no Brasil as populações brancas terminam por sentir com menor intensidade a exclusão capitalista e têm maior acessos a itens de bem-estar social, mobilidade social e efetividade da cidadania (Figura 2). Formação sociocultural do Brasil I 15 Figura 2. Composição social brasileira segundo a raça. Fonte: IBGE (2019, documento on-line). Esse reconhecimento é necessário para que se compreenda como o pas- sado e as relações de dominação e poder influenciam as dinâmicas sociais contemporâneas, especialmente aquelas nos espaços educacionais e de trabalho. No entanto, isso não elimina as facetas reais de integração entre as culturas que modelam a sociedade brasileira contemporânea, sobretudo por meio do idioma, da culinária e da música. A confluência de tantas e tão variadas matrizes formadoras poderia ter resultado numa sociedade multiétnica, dilacerada pela oposição de componentes dife- renciados e imiscíveis. Ocorreu justamente o contrário, uma vez que, apesar de sobreviverem na fisionomia somática e no espírito dos brasileiros os signos de sua múltipla ancestralidade, não se diferenciaram em antagônicas minorias raciais, culturais ou regionais, vinculadas a lealdades étnicas próprias e disputantes de autonomia frente à nação. As únicas exceções são algumas microetnias tribais que sobreviveram como ilhas, cercadas pela população brasileira. Ou que, vivendo para além das fronteiras da civilização, conservam sua identidade étnica. São tão peque- nas, porém, que qualquer que seja seu destino já não podem afetar à macroetnia em que estão contidas. O que tenham os brasileiros de singular em relação aos portugueses decorre das qualidades diferenciadoras oriundas de suas matrizes indígenas e africanas; da proporção particular em que elas se congregaram no Brasil; das condições ambientais que enfrentaram aqui e, ainda, da natureza dos objetivos de produção que as engajou e reuniu (RIBEIRO, 2016, p. 21). A sociedade multiétnica não homogênea, mas em unicidade, como pontua Ribeiro, exprime suas relações sociais e a interpretação das manifestações culturais e simbólicas na contemporaneidade por meio das dinâmicas de classe e poder orientadas pelo capitalismo periférico, dependente e neo- liberal. De acordo com Florestan Fernandes (1978), portanto, a sociedade Formação sociocultural do Brasil I16 brasileira organiza suas relações sociais por meio das relações de poder advindas da estratificação social, das associações entre classe e poder, já que os trabalhadores estariam sujeitos à lógica e ao projeto político das elites. Porém, as relações de poder entre as classes no Brasil seriam, segundo esse sociólogo, produto direto das relações raciais determinadas pelo processo de colonização. A luta dos povos indígenas na resistência à ditadura militar ocor- rida entre 1964 e 1985 se deu em um contexto em que a cultura, a identidade e as religiões indígenas foram ameaçadas de forma violenta por um modo de organização social em que a elite estruturalmente branca impunha, dessa vez segundo intenções e valores políticos, a sua própria visão de mundo. Para saber mais, acesse o site Memórias da Ditadura, verbete “Repressão e resistência”, subverbete “Indígenas”. Assim, compreender as dinâmicas socioculturais no Brasil é um trabalho em dois níveis, que têm características próprias, mas que nesse contexto não se separam, porque foram forjados segundo a mesma lógica: as relações de classe e as relações raciais exprimem um modelo capitalista de exploração racista. A noção de pertencimento e a identidade nacional foram legitimadas com o passar do tempo no país. No entanto, é preciso ter em mente a inexistência da homogeneidade cultural que seria produto da pretensa igualdade racial, comprovadamente uma falácia no Brasil, ainda que atualmente haja muito trabalho de grupos transversais na defesa de plataformas e políticas públicas que assegurem a equidade social. As marcas do racismo estrutural permanecem reproduzidas na so- ciedade contemporânea brasileira, uma vez que as contribuições dos povos negros parecem validadas pelas elites somente — e momentaneamente — quando sobressaem-se em manifestações artísticas ou esportivas, relegando à população preta brasileira os maiores índices de encarceramento, os maiores índices de violência obstétrica e os menores índices de acesso à educação superior. Reconhecer a violência escravocrata e, a partir de tal reconhecimento, desenvolver políticas públicas de reparação pode ser um caminho para que se alcance a equidade étnica na sociedade brasileira. Na letra da canção “Identidade”, de autoria do sambista Jorge Aragão, você pode observar um reflexo claro da segregação, do racismo estrutural e da violência simbólica expressas na marginalização de pessoas negras quando têm Formação sociocultural do Brasil I 17 de utilizar elevadores de serviço ao invés do social, uma separação tipicamente brasileira: Se preto de alma branca pra você É o exemplo da dignidade Não nos ajuda, só nos faz sofrer Nem resgata nossa identidade Elevador é quase um templo Exemplo pra minar teu sono Sai desse compromisso Não vai no de serviço Se o social tem dono, não vai Quem cede a vez não quer vitória Somos herança da memória Temos a cor da noite Filhos de todo açoite Fato real de nossa história (ARAGÃO, 2021, documento on-line). Referências ARAGÃO, J. Identidade. In: LETRAS. [S. l.: s. n.], 2021. Disponível em: https://www.letras. mus.br/jorge-aragao/77012/. Acesso em: 31 ago. 2021. BASTIDE, R. O candomblé da Bahia. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. BERNARDES, A. G. M. Urbanismo mesoamericano pré-colombiano: Teotihuacán. 2008. Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo) — Universidade de Brasília, Brasília, 2008. Disponível em: https://repositorio.unb.br/bitstream/10482/11291/1/2008_An-dreaGoncalvesMoreiraBernardes.pdf. Acesso em: 31 ago. 2021. CARNAVAL 2020: quando tocar samba dava cadeia no Brasil. BBC News Brasil, 21 fev. 2020. Disponível em: https://www.terra.com.br/diversao/arte-e-cultura/carnaval-2020- -quando-tocar-samba-dava-cadeia-no-brasil,f4e5777d6b8e6820648c338bb1485afe- p9f6bszg.html. Acesso em: 31 ago. 2021. CARNEIRO, B. A cultura negra para além da escravidão. In: COMBATE racismo ambiental. [S. l.: s. n.], 2020. Disponível em: https://racismoambiental.net.br/2020/04/23/a-cultura- -negra-para-alem-da-escravidao. 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Formação sociocultural do Brasil I20 A DINÂMICA DA ESCRAVIDÃO NO BRASIL Resistência, tráfico negreiro e alforrias, séculos XVII a XIX 1 Rafael de Bivar Marquese RESUMO O artigo examina as relações entre o tráfico negreiro transatlân- tico para o Brasil, os padrões de alforria e a criação de oportunidades para a resistência escrava coletiva (formação de quilombos e revoltas em larga escala), do final do século XVII à primeira metade do século XIX. Valendo-se das propo- sições teóricas de Patterson e Kopytoff, sugere uma interpretação para o sentido sistêmico do escravismo brasileiro na longa duração, sem dissociar a condição escrava da condição liberta, nem o tráfico das manumissões. PALAVRAS-CHAVE: escravidão; história do Brasil; tráfico negreiro; alforrias; resistência escrava. SUMMARY The article examines the relationships between the transa- tlantic slave trade for Brazil, manumissions patterns and the creation of opportunities for collective slave resistance (formation of maroons communities and large revolts), from the end of the XVIIth century to the first half of the XIXth century. Based on the theoretical propositions of Patterson and Kopytoff, it suggests an interpretation for the Brazilian slave system in the long duration without dissociating the slave condition from the freedman one and the slave trade from the manumissions. KEYWORDS: slavery; Brazilian history; transatlantic slave trade; manumissions; slave resistance. NOVOS ESTUDOS 74 ❙❙ MARÇO 2006 107 [1] Texto originalmente apresen- tado ao I Encontro entre Historiado- res Colombianos e Brasileiros, pro- movido pelo Ibraco em Bogotá, Colômbia, em agosto de 2005. O ENIGMA DE PALMARES A Guerra dos Palmares foi um dos episódios de resistên- cia escrava mais notáveis na história da escravidão do Novo Mundo. Ainda que as estimativas das fontes coevas e dos historiadores sobre o número total de habitantes divirjam bastante — de um mínimo de 6 mil a um máximo de 30 mil pessoas –,não há como negar que as comunida- des palmarinas, dada a extensão territorial e a quantidade de escravos fugitivos que acolheram, tornaram-se o maior quilombo na história da América portuguesa. Suas origens datam do início do século XVII, mas sua formação como grande núcleo quilombola se deu apenas no con- texto da invasão holandesa de Pernambuco,quando diversos escravos se aproveitaram das desordens militares e fugiram para o sul da capitania. 08_Marquese.qxd 4/6/06 7:32 AM Page 107 [2] Sobre Palmares, ver, de Décio Freitas:Palmares, a guerra dos escravos. Rio de Janeiro: Graal, 1990 (1a ed. 1971) e República de Palmares. Pesquisae comentários em documentos históricos do século XVII. Maceió: Editora da Ufal, 2004. Sobre a resistência escrava no Caribe inglês e francês e no Suriname, ver Patterson, Orlando. “Slavery and slave revolts: a socio- historical analysis of the First Maroon War, 1655-1740”. Social and Economic Studies, vol. 19, no 3, set. 1970; Craton, Michael. Testing the chains. Resistance to slavery in the Bri- tish West Indies. Ithaca: Cornell Uni- versity Press, 1982; Price, Richard. First-Time. The historical vision of an Afro-American people. Baltimore: The Johns Hopkins University Press, 1983; Dubois, Laurent. Avengers of the New World. The story of the Haitian revolution. Cambridge, MA: Belknap Press, 2004. [3] Sobre a atividade quilombola em Minas Gerais, ver Guimarães, Carlos Magno. Uma negação da ordem escra- vista. Quilombos em Minas Gerais no século XVIII. São Paulo: Ícone, 1988; sobre o ciclo de revoltas na Bahia, ver Reis, João José. Rebelião escrava no brasil. A história do levante dos malês em 1835. Ed. revista. São Paulo: Compa- nhia das Letras, 2003. [4] Essa é a explicação proposta por Stuart Schwartz,que encontrou largo desenvolvimento no trabalho de Sil- via Lara. Ver, respectivamente desses dois historiadores, os ensaios “Re- pensando Palmares: resistência es- crava na Colônia”. In: Escravos, rocei- As comunidades rebeldes que então se organizaram resistiram a diver- sas incursões da Companhia das Índias Ocidentais e, após a expulsão dos holandeses, a ataques das tropas luso-brasileiras. Nas décadas de 1670 e 1680, os africanos, crioulos e descendentes alojados em Palmares eram vistos pelas autoridades metropolitanas como “holandeses de outra cor”, por conta da ameaça que representa- vam à ordem colonial portuguesa na América.Sua derrota pela força das armas só ocorreu em meados da década seguinte,após um conflito secu- lar com dois dos maiores poderes coloniais europeus do mundo moderno. Antes da revolução escrava de São Domingos (1791-1804) e das grandes revoltas abolicionistas do Caribe inglês no primeiro terço do século XIX, o episódio de Palmares só teve equivalente na I Guerra Maroon da Jamaica (1655-1739) e na Guerra dos Saramaca no Suriname (1685-1762). Nesses dois casos, entretanto, os quilombolas consegui- ram vencer as tropas repressoras, forçando autoridades e senhores a reconhecerem a liberdade dos grupos revoltosos2. A história da derrota do grande quilombo palmarino deu origem a um enigma que há certo tempo chama a atenção dos especialistas em escravidão brasileira: por que não houve outros Palmares na história do Brasil? O ponto é importante,pois a atividade quilombola se ampliou no século XVIII, com o aumento do volume do tráfico negreiro transatlân- tico e a formação dos núcleos mineratórios no interior do território, assumindo diferentes modalidades de norte a sul da América portu- guesa. Afora as numerosas comunidades quilombolas, de dimensões e duração variáveis, o Brasil viu aparecer no início do século XIX outra forma de resistência escrava coletiva, presente no Caribe inglês havia bom tempo:o ciclo de revoltas africanas que agitou o Recôncavo Baiano entre 1807 e 18353. A resposta que os historiadores forneceram ao enigma aponta para a mudança na legislação escravista portuguesa. Após Palmares, dizem eles, houve uma progressiva especificação das funções do capitão-do- mato — responsável legal nas diferentes localidades da América portu- guesa pela captura de escravos fugitivos — e delimitação, nas letras da lei, do que seria uma comunidade quilombola. A institucionalização da figura do capitão-do-mato e a definição de quilombo como qualquer ajuntamento composto de alguns poucos escravos fugitivos teriam tolhido, já no nascedouro, a formação de comunidades rebeldes com as proporções de Palmares4. Creio, no entanto, ser possível avançar outra explicação, que — sem negar a fornecida pelos historiadores que trata- ram do assunto — recorre à configuração que o escravismo brasileiro adquiriu a partir do final do século XVII. O objetivo deste ensaio é justamente entender por que não houve outros Palmares na história do Brasil. Para tanto, concentrarei minha atenção nas relações entre tráfico negreiro transatlântico, alforrias e criação de oportunidades para a resistência escrava coletiva (como a formação de quilombos e as revoltas em larga escala),do final do século 108 A DINÂMICA DA ESCRAVIDÃO NO BRASIL ❙❙ Rafael de Bivar Marquese 08_Marquese.qxd 4/6/06 7:32 AM Page 108 ros e rebeldes. Bauru: Edusc, 2001, e “Do singular ao plural: Palmares, capitães-do-mato e o governo dos escravos”. In: Reis, João José & Go- mes, Flávio dos Santos (orgs.). Liber- dade por um fio. História dos quilombos no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. [5] A idéia que subjaz a essa diferen- ciação deriva em parte da proposta de Robin Blackburn para a contraposição entre “escravidão barroca” e “escravi- dão moderna”. Ver The making of New World slavery. From the Baroque to the Modern, 1492-1800. Londres: Verso, 1997.Blackburn,no entanto,não levou em devida conta a inserção das regiões de “escravismo barroco” na moderni- dade, dentro da lógica do mercado mundial.Ver,a respeito,as críticas per- tinentes de Stuart Schwartz em “- Review of the Making of New World Sla- very: From the Baroque to the Modern, 1492-1800, by Robin Blackburn”. In: William and Mary Quarterly, série 3,vol. LV,no 3, jul.1998. [6] Ver, a respeito, os seguintes tra- balhos:Schwartz,Stuart.“Alforria na Bahia, 1684-1745”. In: Escravos, rocei- ros e rebeldes, pp. 165-212; Slenes, Robert.The demography and economics of Brazilian slavery: 1850-1888. Tese de doutorado em História. Stanford: Stanford University, 1976; Alencas- tro, Luiz Felipe de. “La traite négrière et l’unité nationale brésilienne”. XVII à primeira metade do século XIX. A idéia é de que eventos como Palmares, a Guerra Maroon jamaicana ou a campanha dos Saramaca estiveram diretamente ligados à configuração de determinado tipo de sistema escravista,que denominarei “escravismo de plantation”.Nesse sistema, a produção econômica se concentrava em um único produto e o quadro social era marcado por desbalanço demográfico entre brancos livres e escravos negros, amplo predomínio de africanos nas escrava- rias, poucas oportunidades para a obtenção de alforria e altas taxas de absenteísmo senhorial. Um sistema escravista dessa natureza, típico das colônias caribe- nhas inglesas e francesas do século XVIII,e cujas características básicas tiveram desenvolvimento apenas parcial na América portuguesa da pri- meira metade do século XVII, não mais encontrou espaço nos dois séculos subseqüentes da história do Brasil. Com a mineração, essa mudança de fundo no caráter do escravismo brasileiro apenas se acen- tuou. A instituição se difundiu social e espacialmente, com a dissemi- nação da posse de escravos pelo tecido social e a criação de hierarquias étnicas e culturais bastante complexas. Antigas áreas de plantation, como a Zona da Mata pernambucana e o Recôncavo Baiano, mesmo mantendo a produção escravista açucareira, verificaram igualmente essas transformações5. A partir de fim do século XVII, o sistema escravista brasileiro pas- sou a escorar-se em uma estreita articulação entre tráfico transatlân- tico de escravos bastante volumoso e número constante de alforrias. Nessa equação, era possível aumentar a intensidade do tráfico, com a introdução de grandes quantidades de africanos escravizados, sem colocar em risco a ordem social escravista. Logo após a derrota de Pal- mares, reduziram-se substancialmente as oportunidades de sucesso para as revoltas escravas e os grandes quilombos no Brasil. Não por acaso, com exceção de uma breve ocasião na década de 1670, ainda no curso da Guerra dos Palmares, as autoridades coloniais portuguesas e os representantes imperiais brasileiros sempre se recusaram a nego- ciar com revoltosos e quilombolas. Essa posição política, que traduzia o quadro das relações de força entre senhores e escravos no Brasil, teve como contrapontoa atitude de ingleses e holandeses, forçados a reco- nhecer em tratados de paz as conquistas que Maroon e Saramaca obti- veram em campo de batalha. É importante salientar que faz pelo menos três décadas os historia- dores têm anotado a relação estreita que houve na história do Brasil entre o volume do tráfico negreiro transatlântico e as altas taxas de alforrias6. O que falta, acredito, é fornecer um enquadramento teórico mais subs- tantivo para essa articulação,relacionando-a ao limitado campo de pos- sibilidades de sucesso para a resistência escrava coletiva no Brasil. Valendo-me dos estudos disponíveis, procurarei ler os resultados à luz das proposições teóricas de Orlando Patterson e Igor Kopytoff, que não secionam a experiência do escravo da experiência do forro; ambos 109NOVOS ESTUDOS 74 ❙❙ MARÇO 2006 08_Marquese.qxd 4/6/06 7:32 AM Page 109 Revue Française d’Histoire d’Outre- Mer, nos 244-245, 1979; Eisenberg, Peter. “Ficando livre: as alforrias em Campinas no século XIX”. In: Ho- mens esquecidos. Escravos e trabalhado- res livres no Brasil, séculos XVIII e XIX. Campinas: Editora da Unicamp, 1989; Karash, Mary. A vida dos escra- vos no Rio de Janeiro, 1808-1850. São Paulo: Companhia das Letras, 2000; Mattos, Hebe Maria. “A escravidão moderna nos quadros do Império português: o Antigo Regime em pers- pectiva atlântica”. In: Bicalho, M. F.; Gouvêa, M. de F. & Fragoso, João (orgs.) Antigo Regime nos Trópicos. A dinâmica imperial portuguesa (séculos XVI-XVIII). Rio de Janeiro: Civiliza- ção Brasileira, 2001; Florentino, Ma- nolo. “De escravos, forros e fujões no Rio de Janeiro Imperial”. Revista USP. Dossiê Brasil Imperial, no 58, jul.- ago. 2003. [7] Kopytoff, Igor. “Slavery”. Annual Review of Anthropology, vol.11, 1982, pp. 221-22. Ver também Patterson, Orlando. Slavery and social death. A comparative study. Cambridge, Mass.: Harvard University Press, 1982. [8] Cf.Miller,Joseph C.“O Atlântico escravista: açúcar, escravos e enge- nhos”. Afro-Ásia, nos 19-20, 1997. encaram a escravização, a situação de escravidão e a manumissão como partes de um mesmo processo institucional. De acordo com a sugestiva formulação de Kopytoff, a escravidão não deve ser definida como um status,mas sim como um processo de transformação de status que pode prolongar-se uma vida inteira e inclusive estender-se para as gerações seguintes.O escravo começa como um estrangeiro [outsider] social e passa por um processo para se tornar um membro [insi- der].Um indivíduo,despido de sua identidade social prévia,é colocado à mar- gem de um novo grupo social que lhe dá uma nova identidade social. A estra- neidade [outsidedness], então,é sociológica e não étnica7. Com base nessa proposição, tentarei sugerir um esquema interpre- tativo para o sentido sistêmico do escravismo brasileiro na longa dura- ção, sem dissociar a condição escrava da condição liberta e o tráfico negreiro das alforrias.Como em todo ensaio,há sempre o risco derivado do alto grau de generalização, afora o fato de esse sentido sistêmico não ter sido de todo claro aos contemporâneos. A tomada de consciência do processo institucional do escravismo brasileiro ocorreu apenas no início do século XIX, mais especificamente no contexto da independência, tanto pelos viajantes estrangeiros que então percorriam o território bra- sileiro como, sobretudo, pelos construtores do Império do Brasil. Tal é meu ponto de chegada.Noutros termos,pretendo demonstrar que a per- cepção da experiência histórica colonial,que combinava tráfico negreiro e alforrias, teve papel importante para definir o porvir da escravidão nos quadros do Estado nacional brasileiro. ESCRAVISMO DE PLANTATION Nos séculos que se seguiram ao colapso do Império romano,a escra- vidão não desapareceu por completo na Europa ocidental e mediterrâ- nea. No entanto, no decorrer da Baixa Idade Média, a escravidão como sistema de trabalho deixou de existir no Ocidente europeu,excetuando- se os países do Mediterrâneo, isto é, das penínsulas Ibérica e Itálica. Mesmo aí, ela foi, nos séculos XIV e XV, tão-somente uma instituição urbana,com importância limitada no conjunto da economia;o emprego em larga escala de cativos na produção agrícola havia se tornado residual nestas últimas regiões. A recriação do escravismo, com o emprego mas- sivo de escravos nas tarefas agrícolas, seria realizada por portugueses e espanhóis só após a segunda metade do século XV, com a introdução da produção açucareira nas ilhas atlânticas orientais (Canárias, Madeira, São Tomé), e, no século XVI, com a colonização da América8. Baseada na experiência acumulada com o fabrico do produto nas ilhas da Madeira e de São Tomé,a Coroa portuguesa procurou estimular a construção de unidades açucareiras no Brasil desde a década de 1530. Mas, até os anos 1570, os colonos encontraram grandes dificuldades 110 A DINÂMICA DA ESCRAVIDÃO NO BRASIL ❙❙ Rafael de Bivar Marquese 08_Marquese.qxd 4/6/06 7:32 AM Page 110 [9] Cf. Schwartz, Stuart. Segredos in- ternos. Engenhos e escravos na sociedade colonial, 1550-1835. São Paulo: Com- panhia das Letras, 1988, pp. 22-73; Alencastro, Luiz Felipe de. O trato dos viventes. Formação do Brasil no Atlân- tico Sul, séculos XVI e XVII. São Paulo: Companhia das Letras, 2000, p. 69. Todos os dados sobre o tráfico transa- tlântico de africanos para o Brasil doravante citados foram retirados dessa fonte. para fundar em bases sólidas uma rede de engenhos no litoral,como pro- blemas com o recrutamento da mão-de-obra e falta de capitais para financiar a montagem dos engenhos.Ao serem superadas tais dificulda- des, com atrelamento da produção brasileira aos centros mercantis do Norte da Europa e articulação do tráfico de escravos entre África e Brasil, tornou-se viável o arranque definitivo da indústria de açúcar escravista da América portuguesa,o que ocorreu entre 1580 e 1620,quando o cres- cimento acelerado da produção brasileira ultrapassou todas as outras regiões abastecedoras do mercado europeu. Cabem aqui algumas palavras sobre o papel que o tráfico transatlân- tico de africanos desempenhou no deslanche da produção açucareira brasileira. A mão-de-obra empregada na montagem dos engenhos de açúcar no Brasil foi predominantemente indígena.Uma parte dos índios (recrutados em aldeamentos jesuíticos no litoral) trabalhava sob regime de assalariamento,mas a maioria era submetida à escravidão.Os primei- ros escravos africanos começaram a ser importados em meados do século XVI; seu emprego nos engenhos brasileiros, contudo, ocorria basicamente nas atividades especializadas. Por esse motivo, eram bem mais caros que os indígenas: um escravo africano custava, na segunda metade do século XVI, cerca de três vezes mais que um escravo índio. Após 1560, com a ocorrência de várias epidemias no litoral brasileiro (como sarampo e varíola),os escravos índios passaram a morrer em pro- porções alarmantes, o que exigia reposição constante da força de traba- lho nos engenhos. Na década seguinte, em resposta à pressão dos jesuí- tas, a Coroa portuguesa promulgou leis que coibiam de forma parcial a escravização de índios. Ao mesmo tempo, os portugueses aprimoravam o funcionamento do tráfico negreiro transatlântico, sobretudo após a conquista definitiva de Angola em fins do século XVI. Os números do tráfico bem o demonstram: entre 1576 e 1600, desembarcaram em por- tos brasileiros cerca de 40 mil africanos escravizados; no quarto de século seguinte (1601-1625), esse volume mais que triplicou, passando para cerca de 150 mil os africanos aportados como escravos na América portuguesa, a maior parte deles destinada a trabalhos em canaviais e engenhos de açúcar9. O sucesso da produção escravista de açúcar da América portuguesa logo atraiu a atenção dos demais poderes coloniais europeus. Já em fim do século XVI, era crescente o envolvimento de negociantes ingleses e holandeses no comércio açucareiro entre Brasil e Europa. As invasões holandesas da Bahia (1624) e Pernambuco (1630) foram em grande parte motivadas pelo dinamismo da economiaaçucareira dessas capita- nias. Os membros e acionistas da Companhia das Índias Ocidentais holandesa (WIC),contudo,na época em que comandaram a invasão das regiões produtoras de açúcar no Brasil, desconheciam por completo os segredos da produção do artigo, que se resumiam basicamente a três aspectos:as técnicas de processamento da cana-de-açúcar,as técnicas de administração dos escravos e a organização do tráfico negreiro transa- 111NOVOS ESTUDOS 74 ❙❙ MARÇO 2006 08_Marquese.qxd 4/6/06 7:32 AM Page 111 [10] Cf. Alencastro, O trato dos viven- tes, pp.188-246; Marquese, Rafael de Bivar. Administração & escravidão. Idéias sobre a gestão da agricultura escravista brasileira. São Paulo: Huci- tec, 1999, pp. 42-49; Puntoni, Pedro. A mísera sorte. A escravidão africana no Brasil holandês e as guerras do tráfico no Atlântico Sul, 1621-1648. São Paulo: Hucitec, 1999. [11] Cf. Emmer, P. C. “The Dutch and the making of the second atlantic system”. In: Solow, B. (org.). Slavery and the rise of the Atlantic System. Cambridge: Cambridge University Press, 1991. [12] Cf. Schwartz, “Repensando Pal- mares”, pp. 244-55. tlântico. Cedo os invasores perceberam a estreita relação geoeconômica que havia entre a África e as regiões de plantation escravista na América. De nada valeriam as possessões brasileiras se não se conquistassem os pontos que forneciam escravos do outro lado do Atlântico. Por esse motivo, sob o comando de Maurício de Nassau, a WIC promoveu em 1638 a conquista do entreposto português de São Jorge da Mina e em 1641 a invasão de Angola10. O domínio holandês em Pernambuco durou pouco. Em 1645, eclo- diu a revolta dos colonos luso-brasileiros, que levaria à expulsão defini- tiva dos holandeses da América portuguesa em 1654; antes disso, em 1648, os colonos luso-brasileiros do Rio de Janeiro se responsabiliza- ram diretamente pela expulsão dos holandeses de Angola. Com o fra- casso da experiência brasileira e angolana, a WIC deixou de priorizar a produção de açúcar e passou a direcionar-se para a compra do produto obtido em regiões que não estavam sob seu comando direto.Nesse sen- tido, os comerciantes holandeses procuraram estimular os colonos ingleses e franceses do Caribe a produzir açúcar.Ainda durante a ocupa- ção do Brasil, na segunda metade da década de 1640, os mercadores holandeses transmitiram as técnicas dos engenhos brasileiros aos colo- nos ingleses de Barbados e aos franceses da Martinica e Guadalupe,além de abastecê-los com escravos trazidos dos entrepostos da WIC no golfo da Guiné.A partir da década de 1660,a produção de açúcar com mão-de- obra escrava nas ilhas inglesas e francesas verificou crescimento notável, além de os mercadores desses dois países passarem a envolver-se direta- mente no tráfico negreiro transatlântico. No começo do século XVIII, a paisagem física e humana do Caribe havia se modificado completa- mente:as ilhas converteram-se em imensos canaviais e a população tor- nou-se esmagadoramente negra, quase toda ela escravizada11. No curso das guerras contra os holandeses no Atlântico Sul, o abas- tecimento de escravos aos engenhos brasileiros diminuiu de forma sen- sível. Se, entre 1601 e 1625, haviam sido introduzidos cerca de 150 mil africanos escravizados na América portuguesa, no quarto de século seguinte esse volume se reduziu para apenas 50 mil. De todo modo, a invasão holandesa de Pernambuco e os conflitos que se seguiram contra os colonos luso-brasileiros abriram boas oportunidades de resistência aos escravos que haviam desembarcado em grande número no primeiro quarto do século XVII. Não por acaso, o aporte cultural decisivo para a configuração política do reino “neoafricano” de Palmares foi fornecido pelos grupos humanos originários do Centro-Sul da África,exatamente a zona em que os traficantes portugueses mais operaram a partir de fim do século XVI12. A dimensão e a força do quilombo de Palmares se explicam não ape- nas pela conjuntura do conflito imperial entre portugueses e holande- ses, mas pela própria demografia da região das plantations açucareiras pernambucanas. Qualquer assertiva categórica sobre a composição da população colonial antes do século XVIII é perigosa, mas creio que não 112 A DINÂMICA DA ESCRAVIDÃO NO BRASIL ❙❙ Rafael de Bivar Marquese 08_Marquese.qxd 4/6/06 7:32 AM Page 112 há riscos em afirmar que quando os holandeses invadiram a capitania de Pernambuco, os escravos negros predominavam em termos numéricos sobre a população branca — e mesmo sobre os indígenas “domestica- dos”.Pode-se afirmar também,com base nos poucos dados disponíveis, que a população negra livre era relativamente diminuta. Tratava-se, enfim, de um quadro demográfico bastante propício à eclosão de movi- mentos coletivos de resistência escrava,como a experiência posterior do Caribe inglês bem o demonstraria. Após a expulsão dos holandeses, as tropas luso-brasileiras se encarregaram do combate sem trégua aos palmarinos. O grande pro- blema a ser enfrentado pelos colonos, no entanto, encontrava-se na esfera econômica. A rápida montagem do complexo açucareiro escra- vista nas Antilhas a partir da década de 1650 logo trouxe forte impacto negativo para a economia açucareira na América portuguesa. O cresci- mento das produções inglesa e francesa no Caribe derrubou o preço do açúcar nos mercados europeus, ao mesmo tempo que a demanda por trabalhadores negros nas plantations antilhanas aumentou os preços dos escravos no litoral africano. Além disso, os senhores de engenho luso-brasileiros tiveram que enfrentar outros dois problemas. Em pri- meiro lugar,devido às políticas mercantilistas adotadas pela Inglaterra e pela França na segunda metade do século XVII, que procuravam esti- mular a produção antilhana garantindo-lhe proteções monopolistas, o açúcar brasileiro foi praticamente excluído desses dois mercados euro- peus. Em segundo lugar, entre 1640 e 1668, Portugal travou uma dura guerra contra a Espanha em prol da independência, no exato momento em que o “Império da Pimenta” oriental entrava em colapso. Na segunda metade do século XVII, as possessões do Novo Mundo se tor- naram o sustentáculo econômico de Portugal. Uma tributação pesada sobre o açúcar brasileiro foi criada então para dar conta dos gastos com a diplomacia e a defesa do Reino. Tais atribulações não impediram a sobrevivência da economia açu- careira na América portuguesa. Em que pesem a desorganização trazida pelas guerras do Atlântico Sul entre as décadas de 1620 e 1650,a elevada taxação pós-1650,a concorrência antilhana e a restrição do acesso a cer- tos mercados europeus,os senhores de engenho luso-brasileiros conse- guiram manter a produção de açúcar em patamares estáveis. Para tanto, foi vital a consolidação do sistema atlântico bipolar unindo a África aos portos brasileiros, assegurada pela reconquista de Angola em 1648. Na segunda metade do século XVII, foram introduzidos cerca de 360 mil africanos escravizados no Brasil.Tal sistema,ao garantir um fluxo contí- nuo de escravos a baixo custo para os engenhos brasileiros, viabilizou a atividade econômica açucareira da Colônia em uma conjuntura interna- cional bastante adversa. Algumas evidências sugerem que, naquele período conturbado da economia açucareira, as alforrias ganharam impulso. É certo que a manumissão de escravos se fez presente na Colônia desde os primeiros 113NOVOS ESTUDOS 74 ❙❙ MARÇO 2006 08_Marquese.qxd 4/6/06 7:32 AM Page 113 [13] Cf. Schwartz, “Alforria na Bahia, 1684-1745”, pp. 165-212. [14] Marcílio, Maria Luiza. “A popu- lação do Brasil colonial”. In: Bethell, Leslie (org.). História da América Latina. Vol. 2: América Latina Colo- nial. São Paulo: Edusp/Funag, 1999, p. 321. anos. No entanto, a existência de documentação seriada da prática ape- nas na segunda metade do século XVII talvez indique que ela tenha se disseminado só após essa época. Na historiografia da escravidão brasi- leira,um dos primeiros estudos feitos sobre o tema tratou exatamente da Bahia — ao lado de Pernambuco, o centro da economiaaçucareira colo- nial — entre 1684 e 1745. O pesquisador Stuart Schwartz registrou e analisou uma série de práticas relacionadas à manumissão, as quais depois se repetiriam em diferentes tempos e espaços na América portu- guesa e no Império do Brasil. Dentre as mais de mil cartas de alforrias examinadas pelo autor,houve uma proporção constante de duas mulhe- res libertadas para cada homem.Dado o amplo predomínio numérico de homens no tráfico transatlântico e na própria composição das escrava- rias, escreve Schwartz, “as mulheres obtinham liberdade numa propor- ção muito maior do que as expectativas estatísticas”. Igualmente privi- legiados do ponto de vista estatístico foram os escravos nascidos no Brasil, isto é, os crioulos e, sobretudo, os pardos: este grupo constituiu 69% do universo das alforrias, contra apenas 31% de africanos liberta- dos.Houve,por fim,grande proporção de crianças e adolescentes meno- res de 14 anos entre os alforriados. A tendência predominante de alfor- riar mulheres escravas em idade fértil, conclui Schwartz, comprometeu as possibilidades de reprodução demográfica auto-sustentável da escra- vidão brasileira, o que acabou por acentuar o papel estrutural do tráfico negreiro transatlântico para repor a força de trabalho escrava13. MINERAÇÃO Esse padrão demográfico se consolidou com as descobertas aurífe- ras na virada do século XVII para o XVIII, ampliando-se geografica- mente. A atração que a possibilidade de enriquecimento rápido exerceu sobre a população metropolitana e colonial foi imensa, levando grandes contingentes humanos a se transferirem para a nova região das minas. Esse afluxo constituiu, nos termos de uma especialista, “a primeira grande migração maciça na história demográfica brasileira”14. Afora o deslocamento interno na Colônia, as minas atraíram para o Brasil um quantidade ainda maior de imigrantes portugueses, calculada em cerca de 400 mil indivíduos durante todo o século XVIII. A grande onda migratória para a região, contudo, foi compulsória. O volume do tráfico transatlântico de escravos para a América portuguesa,que já era o maior do Novo Mundo, duplicou na primeira metade do Setecentos. Entre 1701 e 1720,desembarcaram nos portos brasileiros cerca de 292 mil afri- canos escravizados, em sua maioria destinados às minas de ouro. Entre 1720 e 1741, novo aumento: 312,4 mil indivíduos. Nas duas décadas seguintes, o tráfico atingiu seu pico máximo: 354 mil africanos escravi- zados foram introduzidos na América portuguesa entre 1741 e 1760. O enorme avanço territorial e demográfico da colonização portu- guesa na América ocorrido no século XVIII se fez acompanhar por um 114 A DINÂMICA DA ESCRAVIDÃO NO BRASIL ❙❙ Rafael de Bivar Marquese 08_Marquese.qxd 4/6/06 7:32 AM Page 114 [15] Para uma visão de conjunto,ver o trabalho de síntese de Souza, Laura de Mello & Bicalho, Maria Fernanda. 1680-1720. O império deste mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. [16] Dentre esses estudos, veja-se com proveito Vallejos, Julio Pinto. “Slave control and slave resistance in colonial Minas Gerais, 1700-1750”. Journal of Latin American Studies, vol.17, no 1, maio 1985. [17] Reis, João José. “Quilombos e revoltas escravas no Brasil”. Revista USP. Dossiê Povo Negro — 300 anos. no 28, dez. 1995-fev. 1996, p.18. aumento correspondente das tensões econômicas, sociais e políticas. No caso específico de Minas Gerais, capitania criada em 1720, o pro- cesso tumultuário de ocupação de seu território se traduziu no aguça- mento dos conflitos: carência alimentar, que provocou fomes terríveis nos primeiros anos e a que se sucederam ações especulativas no abaste- cimento de gêneros de primeira necessidade para a região;embates entre os primeiros descobridores-povoadores (paulistas) e os adventícios, tanto da Colônia como do Reino,que explodiram na Guerra dos Emboa- bas; esforços da Coroa para impor seu poder na região, com a criação de vilas e a instalação de um aparato burocrático, acompanhados em con- trapartida por resistência aguda dos colonos a tal política de normatiza- ção15.Para nossos fins,no entanto, interessa ressaltar outro tipo de con- flito social, expresso nas fugas, na formação de quilombos e em planos mais amplos de levante escravo. Com efeito, diversos autores apontam que, dadas as condições par- ticulares da atividade mineratória, os escravos tiveram aí maiores opor- tunidades para exercer sua autonomia e resistir ao controle senhorial. A dispersão espacial das lavras auríferas,a possibilidade de os trabalhado- res se apropriarem de parte dos resultados da extração ou o próprio con- trole que detinham sobre o processo de trabalho (como no caso notório dos pretos-minas, reputados como grande mineradores no período) ampliaram sobremaneira a autonomia escrava. Por essas razões, os senhores recorreram com freqüência a meios não coercitivos para garan- tir a regularidade da extração, o que, por sua vez, facilitou o acúmulo de numerário e a compra da alforria pelos cativos16. A existência de canais para o exercício da autonomia escrava não sig- nificou tão somente acomodação com os poderes senhoriais, mas tam- bém maiores possibilidades para a resistência.Quanto ao último ponto, os historiadores registram a presença de um grande número de quilom- bos em Minas Gerais, os quais, repetidas vezes, mantiveram intensas trocas econômicas com a sociedade que os circundava. João José Reis indica que essa multiplicação da atividade quilombola pode ter sido decorrência da própria sanha repressora da metrópole,pois a “definição mesquinha” de quilombo como o ajuntamento de cinco ou mais negros fugidos arranchados em sítios des- povoados [...],concebida para melhor controlar as fugas,terminou por agigan- tar o fenômeno aos olhos de seus contemporâneos e de estudiosos posteriores17. Correta ou não a avaliação, o certo é que, dentre a miríade de peque- nos ajuntamentos de fugitivos,houve pelo menos dois grandes quilom- bos em Minas Gerais, cuja população atingiu a casa do milhar: o Qui- lombo do Ambrósio,derrotado em 1746,e o Quilombo Grande,vencido em 1759. Afora esses dois exemplos, os pesquisadores identificaram ainda três planos de levante escravos (1711, 1719 e 1756), todos desbara- tados antes que eclodissem. 115NOVOS ESTUDOS 74 ❙❙ MARÇO 2006 08_Marquese.qxd 4/6/06 7:32 AM Page 115 [18] Apud Lara, Silvia. “Do singular ao plural: Palmares, capitães-do- mato e o governo dos escravos”,p.90. [19] Cf. Ramos, Donald. “O quilom- bo e o sistema escravista em Minas Gerais do século XVIII”.In:Reis,João José & Gomes, Flávio dos Santos (orgs.). Liberdade por um fio. História dos quilombos no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. [20] Russell-Wood, A. J. R. Escravos e libertos no Brasil colonial. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,2005,p.315. A questão formulada no início do ensaio volta aqui: diante desse quadro social explosivo, com amplo predomínio numérico da popula- ção negra sobre a população branca, por que não houve nada similar a Palmares em Minas Gerais? A pergunta é ainda mais intrigante se lem- brarmos que o exemplo dos palmarinos rondou a cabeça das autorida- des públicas mineiras por toda a primeira metade do século XVIII. As advertências feitas em 1718 pelo conde de Assumar ao rei d. João V são famosas:segundo o governador da então capitania de São Paulo e Minas do Ouro, o combate aos quilombolas era assunto de fundamental rele- vância, pois dele poderia “depender a conservação ou ruína deste país [...] porque vejo mui inclinada a negraria deste governo a termos aqui algo semelhante aos Palmares de Pernambuco”18. Como já vimos, a resposta corrente é de que uma dura legislação repressiva, somada à institucionalização da figura do capitão-do-mato, impediu a eclosão de novos Palmares na América portuguesa. Alguns historiadores, no entanto, apresentam explicação alternativa. Donald Ramos, por exemplo, sugere que a própria proliferação de pequenas comunidades fugitivas em Minas Gerais serviu para esvaziar o poder de contestação ao sistemaescravista. O comércio ativo que muitos desses pequenos quilombos estabeleceram com a sociedade mineratória indi- caria que eles representaram antes uma “válvula de escape” do que uma oposição frontal ao sistema escravista19. O que mais nos interessa na argumentação de Ramos, contudo, é sua lembrança de que as alforrias desempenharam papel análogo como esteio da ordem social escravista. De fato, a prática da manumissão encontrou enorme difusão na América portuguesa a partir do século XVIII.Não por acaso,uma parcela substantiva dos estudos sobre o assunto tratam de Minas Gerais nesse período.Diante da impossibilidade de passar em revista todos os traba- lhos disponíveis ou mesmo os mais relevantes,o sumário dos resultados apresentado recentemente por John Russell-Wood é bastante útil. Dois pontos particularizaram a experiência mineira no conjunto da América portuguesa:em primeiro lugar,a tendência a libertar-se mais no período de apogeu (primeira metade do século XVIII) do que no período de retra- ção da atividade aurífera;em segundo lugar,a presença mais freqüente da coartação como mecanismo de libertação dos escravos, isto é, do paga- mento da carta de alforria pelo escravo em parcelas periódicas. Em tudo o mais que diz respeito à prática da manumissão,resume Russell-Wood, os estudos sobre as minas setecentistas concordam que as mulheres eram preferidas aos homens,os mulatos aos negros, os nascidos no Brasil aos nascidos na África,os escravos urbanos aos das regiões rurais e que muitos senhores preferiam alforriar bebês em vez de adultos20. As alforrias em Minas Gerais, enfim, em linhas gerais reiteraram o modelo que Stuart Schwartz encontrou para a Bahia já em fim do século XVII.Esse padrão obedeceu a uma norma básica:quanto mais afastados 116 A DINÂMICA DA ESCRAVIDÃO NO BRASIL ❙❙ Rafael de Bivar Marquese 08_Marquese.qxd 4/6/06 7:32 AM Page 116 [21] Cf. Watts, David. Las Indias Occi- dentales. Modalidades de desarrollo, cultura y cambio medioambiental desde 1492. Madri: Alianza Editoral, 1992, pp. 355-70. [22] Sobre a escravidão na América inglesa continental e na América espanhola,ver Blackburn,The making of New World slavery, pp. 457-508. da experiência do tráfico negreiro transatlântico,maiores seriam as pos- sibilidades de os escravos e as escravas ganharem alforria;o homem afri- cano, predominante nos tumbeiros, dificilmente a obteria, mas seus descendentes, em uma ou mais gerações, sim. O SISTEMA BRASILEIRO No fim do século XVIII e início do XIX, a América portuguesa con- tava com uma configuração demográfica ímpar no quadro das socieda- des coloniais do Novo Mundo. Para compreendê-la devidamente, vale dar uma olhada a vôo de pássaro nas demais colônias européias de então. As diversas ilhas açucareiras do Caribe inglês e francês, em que pesem as variações, apresentaram durante todo o século XVIII desba- lanço enorme entre a quantidade de brancos e escravos negros.O predo- mínio numérico dos últimos foi esmagador, mesmo em colônias com maior número relativo de colonos de origem européia.Esse foi o caso de Barbados, que, durante o Setecentos, teve sempre cerca de quatro escra- vos negros para cada branco.Já em colônias como São Domingos,às vés- peras da revolução a proporção era de quinze escravos para cada branco. Tampouco o número de negros e mulatos livres chegou a equipar-se com o de escravos. Em São Domingos, esses grupos — que seriam decisivos para o início da revolução que acabou por levar ao término da escravidão e do domínio francês — não somavam mais do que 30 mil indivíduos, número equivalente ao da população branca. Na Jamaica, a proporção era ainda menor21. As colônias do Sul da América inglesa continental e,posteriomente, os estados do Sul da República norte-americana, constituíram a outra sociedade escravista do Novo Mundo que teve caráter birracial. Se lá a quantidade de negros e mulatos livres era tão reduzida em termos rela- tivos como no Caribe inglês e francês, havia porém equilíbrio demográ- fico entre a comunidade branca e a comunidade negra escravizada. Por fim, a América espanhola exibia a maior variedade demográfica entre as colônias européias,contando no entanto com o aporte decisivo, nas colônias continentais, do elemento indígena. A concentração da escravidão negra em cidades ou enclaves (como a região de Caracas, a região de Chocó, a costa de Lima) não permite caracterizar a sociedade colonial espanhola como genuinamente escravista22. A América portuguesa, pelo contrário, constituía uma sociedade desse tipo,mas algo distinta do que se observava no Caribe inglês e fran- cês e no Sul dos Estados Unidos. O que a diferenciava era justamente uma considerável população livre negra ou mestiça descendente de afri- canos,a qual vivia lado a lado com uma quantidade substantiva de bran- cos, e uma maioria escravizada, composta em sua maioria de africanos e um número menor de crioulos e pardos nascidos na América. Em que pesem as variações de capitania a capitania (no extremo norte e no extremo sul, por exemplo, havia predomínio indígena) e as imprecisões 117NOVOS ESTUDOS 74 ❙❙ MARÇO 2006 08_Marquese.qxd 4/6/06 7:32 AM Page 117 [23] Cf. Marcílio, “A população do Brasil colonial”. [24] Alencastro, O trato dos viventes, p. 353. dos dados demográficos disponíveis, a população colonial brasileira no início do século XIX guardava as seguintes proporções:28% de brancos, 27,8% de negros e mulatos livres, 38,5% de negros e mulatos escraviza- dos, 5,7% de índios23. A gênese dessa grande população livre negra e mulata se deu, funda- mentalmente, pela dinâmica do tráfico transatlântico de escravos aco- plada à dinâmica da alforria.A escravização dos africanos,seu transporte para o Brasil,as atividades que aqui desempenharam como escravos (em geral, nas tarefas rurais e urbanas que não exigiam qualificação), a recomposição dos laços familiares e culturais,a produção de descenden- tes, que, em uma ou mais geração, certamente obteriam a liberdade via manumissão: todos esses movimentos e outros mais podem ser tidos como parte de um processo institucional em larga escala de transforma- ção de status, tal como propuseram Patterson e Kopytoff. Luiz Felipe de Alencastro percebeu com rara felicidade esse movi- mento na conclusão de seu O trato dos viventes, ao examinar o que deno- mina de a “invenção do mulato”. Segundo ele, as práticas de favoreci- mento dos mulatos na América portuguesa podem ser observadas em medidas como:emprego mais freqüente desse grupo em trabalhos qua- lificados, uso militar em tropas auxiliares, e sobretudo, privilegiamento no ato da manumissão. A esse quadro, Alencastro contrapõe a situação na África portuguesa, onde os mulatos foram desde cedo equiparados aos negros. Em seus termos, houve no Brasil um processo específico que transformou a miscigenação — simples resultado demográfico de uma relação de dominação e de exploração — na mestiçagem,processo social complexo dando lugar a uma sociedade plu- rirracial. O fato de esse processo ter se estratificado e, eventualmente, ter sido ideologizado, e até sensualizado, não se resolve na ocultação de sua violência intrínseca, parte consubstancial da sociedade brasileira: em última instância, há mulatos no Brasil e não há mulatos em Angola porque aqui havia a opres- são sistêmica do escravismo colonial,e lá não24. Resumindo: para garantir a reprodução da sociedade escravista bra- sileira no tempo, fundada na introdução incessante de estrangeiros, era fundamental criar mecanismos de segurança que pudessem evitar um quadro social tenso como o do Caribe inglês e francês ou mesmo o de Pernambuco no século XVII. A libertação gradativa dos descendentes dos africanos escravizados — não mais estrangeiros, mas sim brasilei- ros — constituiu o principal desses meios.A prova definitiva da validade dessa equação é a associação de negros e mulatos libertos e livres com o sistema escravista:o grande anseio econômico e social desses grupos era exatamente a aquisição de escravos, ou seja, tornar-sesenhor. Diversos trabalhos recentes documentam a prática bastante comum de negros e mulatos livres, libertos e mesmos escravos serem donos de escravos.Por conta da dinâmica do tráfico para o Brasil,o mais 118 A DINÂMICA DA ESCRAVIDÃO NO BRASIL ❙❙ Rafael de Bivar Marquese 08_Marquese.qxd 4/6/06 7:32 AM Page 118 [25] Cf. Florentino, Manolo. Em cos- tas negras. Uma história do tráfico atlântico de escravos entre a África e o Rio de Janeiro (séculos XVII e XIX). Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1995. volumoso na história do comércio negreiro transatlântico, o africano escravizado era uma mercadoria socialmente barata25.Foi isso que per- mitiu odisseminar da escravidão pelo tecido social brasileiro, mar- cando a particularidade desse sistema escravista. Essa mecânica, por sua vez, teve peso decisivo para a configuração econômica igualmente ímpar da América portuguesa. Como há muito é consenso na historiografia brasileira, a partir do século XVIII,com o impacto da mineração,houve grande diversificação na economia colonial. Antes de mais nada, pelo aparecimento de uma produção ativa voltada ao abastecimento do mercado interno, como a pecuária no Rio Grande do Sul e no vale do São Francisco, ou a produ- ção de mantimentos na própria capitania de Minas, em São Paulo e no Rio de Janeiro. O surgimento de vários núcleos urbanos em Minas Gerais, e mesmo o crescimento de antigas cidades como Rio de Janeiro e Salvador, também ativaram a economia interna. A produção de tabaco, no Recôncavo Baiano, foi outra atividade que recebeu impulso, pois se tratava de uma mercadoria central para a aquisição de cativos na Costa da Mina, especialmente valorizados nas zonas mineradoras. E, por último, não se pode esquecer que os enclaves de plantations açuca- reiras no Recôncavo Baiano, na Zona da Mata pernambucana e em Campos dos Goitacazes mantiveram sua vitalidade ao longo do século, a despeito da competição antilhana, que havia excluído seus produto- res dos mercados inglês e francês. O que importa para esta análise é o fato de todas essas atividades — rurais e urbanas — terem se baseado na escravidão,com uma estru- tura de posse dos escravos que os distribuía por diferentes faixas de riqueza, sem concentrá-los apenas nas mãos dos senhores mais capi- talizados ou mesmo dos proprietários brancos. A América portu- guesa, portanto, combinava com essas diferentes operações econômi- cas o leque das formas de exploração do trabalho escravo presentes no Novo Mundo: a mineração e a escravidão urbana da América espa- nhola, as plantations escravistas do Caribe, a produção de mantimen- tos da região de Chesapeake. Poder-se-ia argumentar que era igualmente essa a configuração econômica da América espanhola, que tinha na região de Caracas, por exemplo, um escravismo de plantation. Há que se lembrar, contudo, três diferenças básicas entre uma e outra.Em primeiro lugar,o peso eco- nômico decisivo da população indígena nas áreas centrais da América espanhola,contraposto à generalização do trabalho escravo na América portuguesa. Em segundo lugar, a ausência de integração econômica entre as colônias da América espanhola: a despeito da profunda cisão entre o vale Amazônico e o restante da Colônia, a mineração permitiu, na América portuguesa,uma integração econômica nada desprezível — ante os meios de transporte do período –, do Rio Grande do Sul a Per- nambuco. Terceiro, e mais importante, para a reprodução ampliada da economia, o tráfico negreiro transatlântico teve papel crucial na Amé- 119NOVOS ESTUDOS 74 ❙❙ MARÇO 2006 08_Marquese.qxd 4/6/06 7:32 AM Page 119 [26] Cf.Barickman,B.J.Um contrapon- to baiano. Açúcar, fumo, mandioca e escravidão no Recôncavo, 1780-1860. Rio de Janeiro:Civilização Brasileira,2003. rica portuguesa.Há,neste ponto,uma distinção substantiva em relação às colônias inglesas e francesas: lá,o tráfico negreiro sempre foi contro- lado a partir das respectivas metrópoles; na América portuguesa, pelo contrário, desde o século XVII, o tráfico foi gerido diretamente a partir dos portos brasileiros, isto é, os grandes traficantes que garantiam a reprodução do sistema escravista estavam sediados em Recife, Salva- dor e Rio de Janeiro, e não em Lisboa. A crise da mineração e a expansão da agroexportação escravista na passagem do século XVIII para o XIX — com o surgimento de novas áreas produtoras,como Maranhão (com o algodão) e o oeste de São Paulo (com o açúcar) — e a recuperação de antigas áreas produtoras, como Pernam- buco,Bahia e Rio de Janeiro,não romperam com o sentido sistêmico que o escravismo brasileiro adquirira no século precedente. Muito pelo con- trário, pois foi exatamente aquela configuração social e econômica que forneceu as bases para a pronta resposta dos produtores escravistas da América portuguesa às novas condições favoráveis do mercado mundial. Para os fins deste ensaio, interessa examinar o caso da resposta dos baianos, de grande relevo para a linha central de sua argumentação. A revolução escrava de São Domingos na década de 1790 trouxe modifica- ções profundas nos quadros da produção de açúcar nas Américas.Antes dessa data, a colônia francesa respondia por cerca de 30% da produção mundial total de açúcar e era a maior produtora mundial de café. Com o levante dos escravos, a partir de 1791, a produção açucareira e cafeeira de São Domingos entrou em colapso, abrindo enormes possibilidades para a produção desses gêneros em outras colônias nas Américas, a que se deve somar o aumento da demanda por gêneros tropicais nos países em processo de industrialização. Em vista dessa nova conjuntura, o trá- fico negreiro transatlântico para a Bahia se acelerou para atender à demanda do setor açucareiro por novos trabalhadores. A reativação da agroexportação no Recôncavo Baiano se fez acompanhar pela ampliação do cultivo de mantimentos nas paróquias que não eram adequadas ao plantio da cana e que também empregavam em larga escala a mão-de- obra escrava. A própria cidade de Salvador viu sua população ampliar, com o conseqüente aumento no número de cativos26. Desde fim do século XVII,a zona de eleição do tráfico transatlântico de escravos para Bahia era a Costa da Mina,ainda que parte dos trafican- tes operasse também em Angola. Na virada do século XVIII para o XIX, aumentou muito a oferta de cativos na Costa da Mina aos comerciantes baianos, por duas razões: primeiro, os traficantes ingleses e franceses deixaram de operar na área, devido ao fim do tráfico para suas colônias; segundo, as guerras intestinas na região, derivadas da jihad promovida por Usman dan Fodio, produziram grande quantidade de cativos, dos quais parte substancial foi direcionada à Bahia. Esses grupos egressos da Costa da Mina,sob diferentes identidades (Nagô, Hauçá, Jeje, Tapa), promoveram o maior ciclo de revoltas escra- vas africanas de que se tem notícia na história do Brasil. O caráter de 120 A DINÂMICA DA ESCRAVIDÃO NO BRASIL ❙❙ Rafael de Bivar Marquese 08_Marquese.qxd 4/6/06 7:32 AM Page 120 [27] Reis, João José. Rebelião escrava no Brasil, p. 9. [28] Reis, op cit., p. 322. resistência sistêmica à escravidão só teve equivalente, antes, na Guerra dos Palmares e,depois,no movimento abolicionista da década de 1880. Com efeito,entre 1807 e 1835,a Bahia viveu um período de rebeliões con- tínuas dos escravos africanos, cujo ápice foi a Revolta dos Malês, “le- vante de escravos urbanos mais sério ocorrido nas Américas”27. No que resultou todo esse movimento de resistência? O ciclo de revoltas africanas que a Bahia vivenciou entre 1807 e 1835 não teve nenhum efeito cumulativo para colocar em xeque a ordem escravista brasileira; ao contrário, portanto, do ciclo de levantes escravos ocorrido no mesmo período no Caribe inglês. O contexto atlântico mais amplo ajuda a compreender a dimensão real dos levantes baianos. As revoltas de 1816 (Barbados), 1823 (Demerara) e 1831 (Jamaica) foram decisivas para impulsionar a campanha contra a escravidão negra no Império inglês. Por sua vez, a resistência escrava na décadade 1880, fundamen- tal para o processo de abolição do cativeiro no Império do Brasil, não se valeu da experiência histórica da onda de levantes africanos que a Bahia vivenciou entre 1807 e 1835. Em uma frase: essas revoltas, apesar de sérias e violentas, não abalaram a ordem escravista brasileira. A chave para compreender esse fracasso reside exatamente nas cliva- gens que separavam de forma radical os africanos escravizados de seus des- cendentes — negros e mulatos — nascidos no Brasil. Não houve partici- pação destes últimos grupos nos levantes comandados pelos africanos escravizados na Bahia.Muito pelo contrário,como esclarece João José Reis: mulatos, cabras e crioulos forneciam o grosso dos homens empregados no con- trole e repressão aos africanos.Eram eles que faziam o trabalho sujo dos bran- cos de manter a ordem nas fontes, praças e ruas de Salvador, invadir e destruir terreiros religiosos nos subúrbios, perseguir escravos fugitivos através da pro- víncia e debelar rebeliões escravas onde quer que aparecessem28. O comprometimento social dos crioulos e mulatos — sobretudo quando livres e libertos — com a instituição da escravidão,e não apenas o comprometimento dos senhores brancos, foi o elemento decisivo que garantiu a segurança do sistema escravista brasileiro. IDEOLOGIA E ESTADO NACIONAL A blindagem criada por tal configuração sistêmica impediu não só a repetição de Palmares, mas, acima de tudo, qualquer chance de uma revolução escrava como a de São Domingos vir a ocorrer no Brasil. No século XIX, já no período do Estado nacional, esse quadro social escra- vista interno altamente estável permitiu a expansão inaudita do tráfico negreiro transatlântico — nas letras da lei, proibido desde 1831 — e do próprio escravismo brasileiro. No período de quarenta anos compreen- dido entre a vinda da família real para o Brasil (1808) e o fim definitivo do tráfico, em 1850, foi introduzido mais de 1,4 milhão de cativos no 121NOVOS ESTUDOS 74 ❙❙ MARÇO 2006 08_Marquese.qxd 4/6/06 7:32 AM Page 121 [29] Cf. Needell, Jeffrey. “The aboli- tion of the Brazilian slave trade in 1850: historiography, slave agency and statesmanship”. Journal of Latin American Studies, vol. 33, no 4, nov. 2001. [30] Para esta visão ideológica, ver os trabalhos de Sousa, Laura de Mello. Desclassificados do ouro. A pobreza mineira no século XVIII. Rio de Janeiro: Graal,1983,e Lara,Silvia H.Fragmen- tos setecentistas. Escravidão, cultura e poder na América portuguesa. Tese de livre-docência. Campinas: IFCH/ Unicamp, 2004. [31] Cf.Koster,Henry.Viagens ao Nor- deste do Brasil. Recife: Fundação Joa- quim Nabuco/Editora Massangana, 2002, capítulos XVIII e XIX, 2 vols. (1a ed. 1816). [32] Apud Berbel, Márcia Regina & Marquese, Rafael de Bivar. “A escravi- dão nas experiências constitucionais ibéricas, 1810-1824”. Texto apresen- tado ao Seminário Internacional Bra- sil, de um Império a Outro (1750- 1850) (Departamento de História, USP, set. 2005). Disponível em www.estadonacional.usp.br. Império, ou seja, cerca de 40% de todos os africanos desembarcados como escravos em três séculos da história do Brasil. Nesse sentido, as mudanças que se operaram no escravismo brasileiro oitocentista, em especial o incrível arranque da cafeicultura no vale do Paraíba, que rapi- damente converteu o Brasil no maior produtor mundial do artigo, con- tou com práticas arraigadas de longa duração,que possibilitavam intro- duzir enormes massas de estrangeiros escravizados sem colocar em risco a segurança interna dessa sociedade. No século XIX,a maior ameaça ao escravismo brasileiro veio de fora, ou seja, da pressão antiescravista inglesa29. Não por acaso, a resposta ideológica que os senhores e políticos brasileiros deram à ação diplomá- tica e militar inglesa recorreu, entre outros pontos, à própria lógica de funcionamento sistêmico da escravidão brasileira. Ao fazê-lo, inverte- ram a visão ideológica que foi predominante na Colônia. Com efeito, salvo um ou outro caso, as autoridades metropolitanas sediadas na América portuguesa sempre entenderam que o setor de homens negros e mulatos livres representava mais risco do que segurança à ordem colo- nial30.Em outras palavras,a maioria dos dirigentes metropolitanos não tinha consciência do processo institucional do escravismo brasileiro. Essa visão começou a modificar-se no início do século XIX,de início pela pena dos viajantes europeus que então passaram a percorrer ou morar no Brasil.O inglês Henry Koster,por exemplo,senhor de escravos em Pernambuco na segunda década do Oitocentos,não deixou de obser- var a facilidade com que escravos crioulos e mulatos obtinham a alforria no Brasil, contrastando-a com as dificuldades encontradas pelos escra- vos do Caribe inglês31.Reside aí,nos relatos de viajantes europeus,a ori- gem da imagem da escravidão brasileira — e mesmo ibérica — como mais “benigna” do que a escravidão anglo-saxônica. Rapidamente o tema foi instrumentalizado pelos construtores do Estado nacional brasileiro. A visão de que os libertos e seus descenden- tes eram aliados, e não inimigos dos senhores de escravos brasileiros, apareceu em 1822, nos debates das Cortes de Lisboa, quando se definiu o caminho da independência do Brasil.Naquela ocasião,ao discutir com parlamentares portugueses os critérios de cidadania e participação polí- tica a serem adotados pela futura Constituição, o deputado pelo Rio de Janeiro Custódio Gonçalves Ledo afirmou: não há razão alguma para privar os libertos deste direito [de voto]. Há mui- tos libertos no Brasil, que hoje interessam muito à sociedade, e têm grandes ramos de indústria; muitos têm famílias; por isso seria a maior injustiça pri- var estes cidadãos de poderem votar,e até poderia dizer que é agravar muito o mal da escravidão32. A definição de cidadania defendida por Custódio Ledo em Portugal cristalizou-se na Constituição Política do Império do Brasil.Conforme o artigo 6, parágrafo 1 da Constituição de 1824, os libertos, desde que nas- 122 A DINÂMICA DA ESCRAVIDÃO NO BRASIL ❙❙ Rafael de Bivar Marquese 08_Marquese.qxd 4/6/06 7:32 AM Page 122 [33] Cf. Marquese, Rafael de Bivar & Parron, Tâmis Peixoto. “Azeredo Coutinho, Visconde de Araruama e a Memória sobre o comércio dos escravos de 1838”. Revista de História, vol.152, 1o semestre 2005, p. 122. cidos no Brasil,eram considerados cidadãos brasileiros.Portanto,apenas os libertos africanos eram excluídos do corpo social da nação.Essa norma constitucional,por sua vez, franqueava aos libertos brasileiros a participa- ção no processo eleitoral: de acordo com os artigos 90 a 95, desde que possuíssem renda líquida anual de cem mil-réis,esses ex-escravos pode- riam votar nas eleições primárias, que escolhiam os membros dos colé- gios eleitorais provinciais,mas não poderiam participar destes últimos;já os ingênuos, isto é, os filhos dos libertos (tanto dos africanos como dos brasileiros), poderiam igualmente votar e ser votados nos colégios eleito- rais provinciais,desde que cumprissem os critérios censitários. Tratava-se,enfim,de uma definição de cidadania bastante inclusiva. O parágrafo constitucional acabou virando peça da propaganda de defesa do tráfico negreiro transatlântico para o Brasil, no contexto do acirramento das pressões inglesas. Em 1838, José Carneiro da Silva, futuro visconde de Araruama,destacado político conservador,defendeu a anulação da lei de 1831 e a legalização do tráfico negreiro com base jus- tamente na experiência histórica do escravismo brasileiro: Tenho visto escravos senhores de escravos, com plantações, criações de gado vacum e cavalar,e finalmente com um pecúlio vasto e rendoso.Tenho visto mui- tos escravos libertarem-se,tornarem-se grandes proprietários,serem soldados, chegarem a oficiais de patente,e servirem outros empregos públicos que são tão úteis ao Estado. Quantos e quantos oficiais de ofícios e mesmo de outras ordens mais superiores que, noutro tempo, foram escravos e hoje vivem com suas famílias, cooperando para o bem do Estado nas obras e empregosem que são ocupados,aumentando a população e o esplendor da nação,que os tem naturalizado! 33 No século XX, essa experiência se tornou tema caro à historiografia. Basta lembrar as teses de Gilberto Freyre e Frank Tannenbaum sobre o caráter supostamente benigno da escravidão brasileira,que logo se con- verteram em ideologia da democracia racial. Não cabe aqui jogar mais terra sobre esse caixão. O que não se pode nunca esquecer, entretanto, é que toda essa equação deitou raízes na maior migração compulsória do mundo moderno — um verdadeiro crime contra a humanidade, apesar das reticências atuais de países como Portugal, Inglaterra e Holanda em classificá-la como tal. Rafael de Bivar Marquese é professor no Departamento de História da USP. 123NOVOS ESTUDOS 74 ❙❙ MARÇO 2006 Recebido para publicação em 17 de janeiro de 2006. NOVOS ESTUDOS CEBRAP 74, março 2006 pp. 107-123 08_Marquese.qxd 4/6/06 7:32 AM Page 123 Patriarcado é um dos conceitos que vem despertando grande produção na literatura intelectual feminista recente e que também tem ocupado um lugar central no pensamento social brasileiro. Os debates intelectuais sobre esse tema, em cada uma dessas tradições analíticas, pouco se cruzam, dada a marginalidade conferida ao pensa- mento feminista nas Ciências Sociais no Brasil e a negligência do pensamento feminista local em esmiuçar os pressupostos teóricos clássicos ou aplicados à situação local para o estudo das relações entre homens e mulheres. Esse descaso impede que se examine em PATRIARCADO, SOCIEDADE E PATRIMONIALISMO Neuma Aguiar _____________________ Neuma Aguiar é professora da Universidade Federal de Minas Gerais. Resumo. Neste texto pesquisamos o significado do conceito de patriarcado no Pensamento Social Brasileiro. Observamos como o sistema de dominação é concebido de forma ampla e que incorpora as dimensões da sexualidade, da reprodução e da relação entre homens e mulheres no contexto de um sistema escravista. Nas sociedades onde o público se destaca do privado, sustentamos que as relações de gênero continuam patriarcais; no âmbito das sociedades patrimoniais, a intimidade entre público e privado também não resultou em uma maior participação política ou econômica das mulheres nessa esfera pela própria origem patriarcal do estamento burocrático no contexto de um patrimonialismo patriarcal. Palavras-chave: Brasil, patriarcado, patrimonialismo, femi- nismo, teoria. 304 Neuma Aguiar que medida as análises efetuadas por autores brasileiros possibilitam interpretar a condição social das mulheres, da mesma forma como eles são adequados a interpretar a situação dos homens. O presente texto busca comunicar essas duas vertentes de pensamento, possibi- litando efetuar esse intercurso. Raimundo Faoro, figura central nesse debate, vem argumentando que o patriarcado brasileiro cedeu lugar a um Estado Patrimonialista, observando que, ao contrário de vários países de origem anglo-saxã e sistema liberal de governo, o modelo de organização política, seguido pelo Brasil, se pauta pela dominação do público sobre o privado. Com isto Faoro se rebela contra o argumento de que uma das principais instituições sociais brasileiras, independentes do Estado, é a família, conforme as interpretações de Silvio Romero, Nísia Floresta, Oliveira Vianna, Gilberto Freyre, Joaquim Nabuco, Sérgio Buarque de Holanda e Antônio Cândido, entre outros. Esses últimos vêm analisando o patriarcado como uma herança do sistema escravista. Na literatura liberal anglo-saxã, o rompimento com a analogia entre sistema familiar e sistema de governo, em moldes patriarcais, ocorre com a proposta de uma nova interpretação do sistema político, baseada na capacidade de uso da razão dos cidadãos adultos que se organizam e negociam suas demandas públicas. Essa nova teoria política recusa os princípios absolutistas de poder das monarquias tradicionais, construindo, alternativamente, a idéia de uma sociedade civil que se governa a si própria, sem a tutela de um patriarca. Com essa recusa da analogia entre família e poder político, a esfera pública se distingue da privada. Como Faoro parte do princípio que herdamos uma tradição onde o público predomina sobre o privado, ele critica a noção de patriarcado como forma de organização privada que se apropriaria do domínio público. Uma sociedade baseada em uma instituição extremamente poderosa como a família contrariaria a visão dessa predominância do público sobre o privado, pois dessa forma o privado teria prioridade sobre o público. O argumento de Faoro é extremamente persuasivo no que se refere à preponderância do Estado sobre a Economia. Porém, encontro dificuldades na subsunção da família no âmbito do Estado, um argumento que foi pouco desenvolvido pelo autor. Olhando para a produção que discute a dominação do âmbito doméstico pelo Estado, observamos que essa subserviência da família à instância pública Patriarcado, sociedade e patrimonialismo 305 é por vezes lembrada na literatura sobre totalitarismo. Quando a dominação do Estado sobre a ordem privada não é total, como no caso do Brasil, falta ampliar a linha de argumentação, apresentando de forma persuasiva a relação entre família e sistema patrimonial. Dentre os estudos de patrimonialismo que constroem essa relação, destacamos apenas o que ressalta a política de alianças da realeza por intermédio de casamentos (Adams, 1994), tema este que não foi desenvolvido pela literatura nacional. Na literatura feminista internacional, a discussão sobre o patriar- cado tem indicado a existência desse fenômeno quando existe uma ausência de regulação da esfera privada em situações onde há um notável desequilíbrio de poder dentro dessa instância. A presença de violência doméstica, por exemplo, evidencia que a separação entre público e privado se deu de forma tão ampla que ocorrem situações de dependência no interior do espaço familiar, particularmente das mulheres com relação aos homens. Nesse caso, as instituições políticas ignoram essa situação que permanece à margem do sistema normativo. O patriarcado é um sistema de poder análogo ao escravismo, observa Carole Pateman (1988). Esse diagnóstico gera uma série de demandas normativas críticas de correção das situações de arbítrio de poder dentro do espaço familiar e para além do mesmo. No caso brasileiro, Faoro argumenta que o estamento burocrático gera uma legislação sobre a esfera privada. Porém, essa perspectiva não explica os casos de dominação arbitrária no interior da esfera familiar, como a obrigatoriedade, da parte das mulheres, de manter relações sexuais com os maridos, decorrentes de uma obrigação de atender aos desejos masculinos, independentemente das circunstâncias, e de sua própria vontade. A violência contra mulheres e a impunidade, como legítima defesa da honra masculina, consiste em outra indicação de relações patriarcais. Essas situações de arbítrio de poder na família foram amplamente documentadas pelo pensamento social brasileiro. Recupero em seguida as perspectivas sobre o patriarcado que foram desenvolvidas pelo pensamento social brasileiro, procurando observar como os teóricos identificam o fenômeno, uma vez que essa discussão contribui para a análise de relações de poder que ficaram fora do alcance do Estado. Curiosamente, muitas teóricas feministas brasileiras e latino- americanas rejeitam o conceito de patriarcado, o que examino mais 306 Neuma Aguiar adiante. Sugere-se, no final do texto, que uma dupla linha de investigação que analise simultaneamente o patrimonialismo e o patriarcado, a exemplo do que foi efetuado pela Escola Paulista de Sociologia, possa dar conta da importância que o patriarcado possui para a análise das relações familiares no Brasil. Em outras palavras, a relação entre Eco- nomia e Estado é pouco adequada para expressar a relação entre Família e Estado. A visão de Faoro, a priori, não concede espaço para a análise da sociedade, sua dinâmica, assimetrias e desigualdades. Antecedentes Encontro em Silvio Romeroo primeiro autor a discorrer sobre o patriarcalismo no pensamento social brasileiro. Utilizando uma perspectiva da Escola de Le Play, Romero estabelece uma tipologia para classificar as famílias brasileiras em quatro categorias analíticas: patriarcal, quasi-patriarcal, tronco e instável. A primeira é composta pelo pai com sua família e as famílias de seus filhos que coabitam em uma extensão ilimitada de terras; a segunda é uma família patriarcal de menor porte, o que decorre da limitação de terras, tendo a família que se subdividir, procurando novos recursos para a sua manutenção econômica; a terceira equivaleria à classificação atual de família nuclear, pois seus membros são mais individualistas, e os filhos procuram construir o próprio espaço de habitação, destacando-se dos pais; o último tipo é uma negação da família. Romero procura, então, relacionar as características ecológico-regionais do país com os tipos de socia- bilidade familiar preponderantes em cada contexto, buscando elucidar as formas de subsistência empreendidas por cada modalidade de organização social, ensejando esclarecer, no enunciado de Antônio Cândido, a adaptabilidade do povo brasileiro ao meio, situando, no processo, a questão da mestiçagem no Brasil. Não entrarei na questão racial tal como desenvolvida por Romero, tema que por si só mereceria um texto. Indico apenas que a questão é posteriormente retomada e modificada por Gilberto Freyre em sua análise do patriarcado brasileiro. O empreendimento de Romero é por ele defendido como sendo uma alternativa às visões românticas de sociedade então dominantes na literatura brasileira, pois o autor propõe que as formas de expressão literária se vinculem às variedades de experiências sociais existentes no Brasil. O método tem parentesco com o positivismo. Todavia, Patriarcado, sociedade e patrimonialismo 307 o autor preconiza um tipo de apreensão da sociedade brasileira por meio de outra corrente sociológica francesa, evitando assim qualquer aproximação de sua proposta com o enfoque de Comte ou de seus discípulos. Embora proveniente do campo literário, Romero, na observação de Antônio Cândido, procura oferecer uma base sócio- científica à cultura brasileira. A influência de Sílvio Romero, segundo uma observação de Antônio Paim, é passível de apreensão pelas referências bibliográficas efetuadas por Oliveira Vianna, uma vez que sua proposta de trabalho foi totalmente cumprida por este último autor. Usando as mesmas perspectivas teóricas da escola de Le Play, Oliveira Vianna analisa os clãs patriarcais como sendo constituídos por uma família estendida (incluindo parentes consangüíneos, por afinidade civil, religiosa e por adoção) chefiada por um patriarca – um grande proprietário de terras – circundado por uma massa de aparentados, e/ ou de outros dependentes sem laços de parentesco. Essa população é composta por pequenos proprietários e camponeses, com seus familiares, que encontram proteção no clã, formando com ele uma comunidade de sentimentos. Essas localidades são, basicamente, ilhas autônomas de prosperidade que tudo fabricam, atraindo os despossuídos em busca de apoio político e de recursos. Nísia Floresta aponta para a falta de acesso das mulheres à educação, a postos de trabalho e aos cargos públicos como indicações de uma injustiça dos homens, como denominou o sistema patriarcal. Já a análise de Oliveira Vianna diz respeito ao alto sentimento de comunidade, interno ao clã patriarcal, e à ausência de laços de solidariedade entre clãs. As redes assim criadas, organizadas com base em imensa distância social entre patriarca e dependentes, são o resultado da ausência de alternativas políticas ao sistema familiar predominante na sociedade agrária. Para obter garantias o povo- massa adere ao senhor, em busca de proteção social. No caso, ine- xistem instituições democráticas e predominam demandas de tratamento especial pelos chefes políticos que competem por favores. Oliveira Vianna critica a proposta liberal de descentralização política ao argumentar que, nas condições institucionais brasileiras, o liberalismo político representaria exatamente a preponderância do poder local, sem garantias ao povo-massa que permaneceria vulnerável ao poder dos clãs patriarcais. As mulheres seriam parte dessa massa popular que aderiria ao poder, no vazio decorrente da 308 Neuma Aguiar inexistência de instituições políticas. Vianna é criticado por Faoro ao conceder demasiada ênfase à autonomia e à prosperidade da ordem privada do latifúndio, em detrimento de um exame do papel do Estado Nacional no sistema de poder. Porém, é injusto com o conjunto da obra de Vianna ao negligenciar a discussão que este último entabula sobre o lugar da monarquia no jogo político dos clãs patriarcais e das propostas normativas subseqüentes que desenvolve sobre o corpo- rativismo. Os dois autores divergem exatamente quanto ao lugar do Estado centralizador no desenvolvimento nacional. Os princípios comunitários da ordem patriarcal, endossados por Vianna, não são enfatizados apenas pela escola de sociologia francesa. Eles são também objeto de interesse pela sociologia alemã. Tönnies os destaca quando contrasta os princípios hierárquicos, afetivos e arbitrários que regem as comunidades, com os princípios societários, impessoais e contratuais que predominam no meio urbano-industrial. Vianna, contudo, estava, mais atento em sua obra para as contribuições francesas. Um dos autores que mais se detém na análise do patriarcado é Gilberto Freyre. Independentemente das relações entre a organização do grupo doméstico e a forma de dominação estatal, o autor mostra que o patriarcalismo estabeleceu-se no Brasil como uma estratégia da colonização portuguesa. As bases institucionais dessa dominação são o grupo doméstico rural e o regime da escravidão. A estratégia patriarcal consiste em uma política de população de um espaço territorial de grandes dimensões, com carência de povoadores e de mão-de-obra para gerar riquezas. A dominação se exerce com homens utilizando sua sexuali- dade como recurso para aumentar a população escrava. A relação entre homens e mulheres ocorre pelo arbítrio masculino no uso do sexo. Apesar do emprego que Gilberto Freyre faz da religião em sua análise da ordem na casa-grande e nos sobrados, o patriarcado não se efetua pela dominação religiosa, a não ser pela influência que esta exerce nas relações familiares dentro do grupo doméstico. O poder da religiosidade aparece limitado para conter a liberdade sexual masculina e o abuso sexual da mão-de-obra escrava. Para Freyre, portanto, esse abuso consiste na própria essência do patriarcado. Padres portugueses por vezes abandonam o ascetismo religioso e aderem ao patriarcado, observa Freyre (1973, p. 447), que deixa de ser, assim, em contraste com a perspectiva weberiana, uma forma de racionalidade instituída pelo Patriarcado, sociedade e patrimonialismo 309 sistema religioso, para ser uma forma de racionalidade econômica e demográfica, estratégia de povoamento e aliciamento de mão-de-obra, estabelecida no processo de colonização portuguesa. Já dois outros autores, que se inspiraram em Freyre, destacam a importância da religião na contenção dos costumes (Azevedo, 1949, p. 69-71; Duarte, 1966, p. 76-77), o que para Freyre viria apenas subseqüentemente com o processo de urbanização. A originalidade da concepção de Freyre pode ser compreendida tomando as análises elaboradas por Weber (1964, p. 223-245) sobre patriarcalismo e religião como base de comparação. Nesse momento do texto, faço um pequeno desvio da exposição sobre o conceito de patriarcado no pensamento social brasileiro apenas para destacar a análise de Freyre das teses weberianas sobre esse tipo ideal de forma de dominação. Weber ressalta que os sistemas religiosos estabelecem uma relação íntima entre sociedade, sexualidade e erotismo, porquanto eles são também sistemas de controle da sexualidade e da reprodução. Associando sexualidade com práticas mágicas ecom o comportamento religioso comunal, Weber observa, ainda, que tanto as religiões místicas, quanto as ascéticas, são hostis à sexualidade, apresentando-lhe satis- fações substitutivas. A castidade é religiosamente vista como um tipo de comportamento que possibilita o desenvolvimento de qualidades carismáticas, dificultando que os sacerdotes tenham filhos e impedindo que os bens acumulados pela Igreja sejam transferidos por herança. A religião, portanto, procura eliminar o lado erótico da natureza humana, vetando socialmente tudo o que considera como sendo orgia sexual, quando enfatiza a abstinência como forma mística de alcançar a salva- ção, propondo, também, a evitação das emoções características do ato sexual e recomendando sua substituição pelo ascetismo vigilante, autocontrole e planejamento metódico da vida. A religião, portanto, enquanto substituta da magia, racionaliza o comportamento social pela regulação da sexualidade. Sistemas de crenças de natureza religiosa que não enfatizam a salvação por estarem mais vinculadas à vida neste mundo também se endereçam à sexualidade, podendo ser hostis às mulheres como nos casos do budismo e do confucionismo (Weber, 1964, p. 264). A religião elimina as relações sexuais livres no interesse da regulação e legitimação do casamento (Weber, 1964, p. 237-238). Para que este controle social se efetue as mulheres são assemelhadas, pelos 310 Neuma Aguiar sistemas religiosos, às criaturas irracionais (ou de difícil autocontrole, isto é, com grande capacidade de ocasionar o descontrole, ou como seres capazes de causar emoção em quem as circunda, inclusive pelos desejos que podem despertar (Weber, 1964, p. 238). A contenção desses sentimentos muitas vezes se estabelece pela instituição de regras sobre as vestimentas, normatizando que sejam cobertas as partes do corpo feminino que podem suscitar desejos nos homens. Além disso, se por um lado a religião enfatiza o exercício da sexualidade dentro do casamento para o conjunto da população, ela prescreve, também, o ascetismo religioso com abstenção sexual pelos sacerdotes. O sistema religioso, portanto, é dominado por homens que estabelecem práticas de controle da sexualidade voltadas para a interdição do acesso e até mesmo da visão do corpo feminino. Portanto, os sacerdotes no Brasil, que, segundo Freyre, caem no patriarcado, distanciam-se das formas de racionalidade religiosa que controlam o comportamento sexual dos sacerdotes ou do conjunto da população. Antônio Cândido, que segue a análise de Freyre neste ponto, excetua dessas práticas libidinosas apenas os jesuítas que se esforçam por regularizar as uniões e conter a licenciosidade. Na análise de Freyre sobre os sistemas de dominação, não há brechas para rebeliões, porém o exame de arquivos históricos documenta recusas da mão-de-obra escrava em dar a luz aos filhos do estupro. Estes arquivos mereceriam uma atenção cuidadosa na análise crítica do patriarcado. O caráter dessa resistência é indicado por Joaquim Nabuco (1988), cabendo aqui introduzir algumas das questões levantadas por este outro pernambucano na análise do patriarcado brasileiro. A Igreja, por intermédio dos conventos, é a principal proprietária de escravos. Em função disso, Nabuco demonstra como nos EE.UU. a religião se torna a campeã dos direitos civis, lugar institucional em que se refugia a população negra. No caso do Brasil, esta nega os sacramentos aos escravos. Na ausência de racionalização das relações sociais pelo caminho religioso, os escravos se vêem lançados à promiscuidade e à magia, aponta o autor. O que Nabuco caracteriza como uma forma de primitivismo pode ser compreendida como uma resistência das mulheres à escravidão, rejeitando serem usadas como aparelho reprodutivo pelos senhores de terra. As mulheres (Nabuco, 1988, p.38) usam ervas daninhas e venenos, matando o feto no ventre, Patriarcado, sociedade e patrimonialismo 311 enterrando-o no mato. O autor interpreta o fato como uma ausência de sentimentos religiosos e atribui tal prática à falta de instrução e não como uma forma de resistência à dominação. Observa também que o feto era de propriedade do senhor, estando condenado à escravidão. O estado de gravidez, todavia, não isenta a escrava de prestar serviços forçados. A paternidade inexiste, observa Nabuco, pois a família é negada, e a escrava está sujeita à luxúria dos brancos. A amamentação realiza-se conjuntamente com os trabalhos cativos. Aos cinco anos a criança já começa a trabalhar para obter hábitos servis (Nabuco, 1988, p.50), sendo recebida como alguém que aumenta o patrimônio do senhor. A escrava jovem, diz ele, é tornada pública, isto é, um joguete de instintos (Nabuco, 1988, p.51). Castigos, açoites, marcas com ferros denotam a violência das relações sociais predominantes, além do abuso sexual contra as escravas. Com a descrição destas práticas, o autor destaca a questão moral da corrosão dos costumes pelo ataque ao direito familiar, destituindo a dignidade da mãe pela violação de sua honra e separação de seus filhos, pela negação da paternidade e pela predominância do concubinato. Formas de exercício da dominação doméstica são transformadas durante o processo de urbanização (Freyre, 1951 e 1973; Araújo, 1994). Esta questão é trabalhada por Holanda (1971, p.113-125) quando propõe que o crescimento urbano suplanta o patriarcalismo agrário, dando margem ao aparecimento de um sistema peculiar de serviço público, efetuando uma confusão dos domínios público e privado. Antônio Cândido, um estudioso da obra de Silvio Romero, analisa a composição e as transformações da família patriarcal no Brasil. Esta compreende, de início, um núcleo central composto por um casal com seus filhos legítimos. Na periferia, encontram-se as concubinas, filhos ilegítimos, escravos e agregados. A autoridade paterna é quase ilimitada, incluindo o direito sobre a vida dos filhos que vivem na casa dos pais, ou em casas por ele concedidas. O autor (Cândido, 1951, p.293-294) analisa a presença de filhos ilegítimos desde o início da colonização portuguesa, quando há grave desequilíbrio entre os sexos. Os portugueses mesclam-se com as filhas de chefes indígenas em uma política de alianças destinada a manter a paz social. Por outro lado, a mistura étnica e a baixa densidade da população contribuem para que a bastardia seja comum, mantendo-se ao lado do núcleo 312 Neuma Aguiar familiar. Mesmo depois que as proporções de homens e mulheres tornam-se mais paritárias, os concubinatos continuam a ocorrer. Antônio Cândido retrata os papéis familiares como comple- mentares, embora indicando a presença latente de conflitos, pois os casamentos são arranjados e a satisfação sexual é procurada fora da instituição. Filhos bastardos, dependendo do arbítrio dos pais, são legitimamente reconhecidos e dotados de herança. Isto é aceito pela esposa quando os filhos do marido nascem antes do seu casamento (situação que se contrasta com a apontada por Weber, que observou como as mulheres, para além da tese de Engels, investiram no casa- mento monogâmico como estratégia de defesa do patrimônio de seus filhos). Nas cidades, algumas características do sistema patriarcal são preservadas, embora, com as separações e maior liberdade sexual para as mulheres, o domínio patriarcal se atenue. Um duplo padrão de moralidade passa a existir, com permissividade para a poliginia e interdições para a poliandria. O Debate de Faoro com Antônio Cândido e Sérgio Buarque de Holanda Para Raimundo Faoro, a principal característica da colonização portu- guesa consiste na forma de dominação estabelecida pelo governo central na condução das iniciativas empresariais, inibindo qualquer tentativa de desenvolvimento autônomo pelas unidades econômicas. Isso, aponta Faoro, representa um contraste com a organização econômica do feudalismo, cuja característica primordial é a da descentralização. Na Inglaterra, uma ilha mais afastada das ameaças de invasão pelos povos vizinhos, predomina um sistema econômico descentralizado.Tal não é o caso de Portugal em que o Estado absolutista é também um Estado patrimonial. As atividades empresariais, independentes do governo central, aponta o autor, são pesadamente taxadas. Como o império português se organiza com base em instituições militares que iniciam guerras para a ampliação do domínio, o rei de Portugal procura obter fundos para remunerar seus soldados, vencer batalhas e conquistar novos territórios. O soberano, portanto, não é apenas o chefe administrativo, mas, também, o principal empreendedor econômico. Para manter a posição, o soberano necessita fundar Patriarcado, sociedade e patrimonialismo 313 cidades e oferecer incentivos aos que lá vão residir, estabelecendo tarifas protecionistas. A economia independente que se desenvolve em plantações de finalidades comerciais, com base escravista, objeto das análises de Gilberto Freyre, é a forma que se adequa ao tipo de estratégia admi- nistrativa empregada no processo de colonização. A transferência da coroa portuguesa para o Brasil acentua a tendência centralizadora e, embora até possam ocorrer iniciativas de caráter liberal, a ordem patrimonial é predominante. Em texto da revista da USP (Faoro, 1993) dedicado à discussão do liberalismo no Brasil, Raimundo Faoro se insurge contra um comentário de Antônio Cândido que atribui ao autor de Raízes do Brasil, em prefácio à segunda edição desse livro, o primeiro emprego dos conceitos de patrimonialismo e de burocracia, segundo uma acepção weberiana. Dessa maneira, delineia-se, com o comentário, uma possível convergência entre as análises do próprio Faoro e as de Holanda, ao apontar que ambos empregam o mesmo tipo de conceito, tendo sofrido a mesma influência teórica. Faoro, todavia, advoga para si o mais autêntico uso do conceito de patrimonialismo, apontando para duas interpretações que preponderavam na análise da formação do Estado Nacional, até o aparecimento de seu texto Os Donos do Poder, que mudaria o rumo das interpretações sociopolíticas do Brasil. Faoro aponta que a perspectiva de Holanda está bem mais próxima da de Gilberto Freyre e de Oliveira Vianna sobre o patriarcado do que da sua própria que originara a interpretação do Estado brasileiro como um Estado Patrimonial. Isto porque, justifica Faoro, as relações patrimoniais desintegram o patriar- calismo puro, pois a organização doméstica que se reproduz na ordem política o faz dentro de um quadro burocrático-administrativo. Como derivação da organização doméstica, enfatiza o autor, o patrimonialismo se aproxima do patriarcado, se destacando também, por outro lado, da burocracia impessoal, produto da transformação do feudalismo em capitalismo, uma vez que o funcionário burocrático-patrimonial considera o cargo como direito pessoal e não como posição associada a normas objetivas e impessoais. De fato, o poder patriarcal é caracterizado por Max Weber (1947, p. 346) como sendo um sistema de normas baseado na tradição. Assim, as decisões são tomadas sempre de um mesmo modo. Outro elemento básico da autoridade patriarcal é a obediência ao senhor, além da que é devotada à tradição. A modalidade, por excelência, 314 Neuma Aguiar da relação de dominação inquestionável é a do poder patriarcal, uma vez que não há possibilidade de que a autoridade paterna seja questionada por intermédio da justiça. Todavia, o sistema patriarcal pode constranger o senhor a tratar seus súditos de forma protetora, o que o distingue das relações que ocorrem com a exploração racional da força de trabalho sob o sistema capitalista. Faoro contrasta sua interpretação da autoridade no sistema patrimonial, ao observar que o cargo burocrático não é visto como um direito pessoal do burocrata, e sim como direito pessoal do senhor. As relações de poder na dominação patriarcal fundamentam- se na autoridade pessoal. Weber (1947, p. 396) contrasta esta forma de poder com a que ocorre nas sociedades capitalistas, quando o processo de racionalização, resultante do desenvolvimento da ciência e da tecnologia, dá origem a um sistema de normas abstratas e impessoais, sob as quais os funcionários das burocracias se organi- zam. Essas normas estabelecem que a pessoa no poder possui auto- ridade legítima para acionar regras em circunstâncias determinadas (Weber, 1978, p. 1006). Já no sistema patriarcal, a autoridade é garantida pela sujeição pessoal. A análise de Holanda, adverte Faoro, estaria mais próxima do conceito de patriarcado do que de patrimonialismo, porque o que o primeiro produz na esfera política é a noção de que o quadro administrativo é um prolongamento da família. Nesse ponto, Faoro lembra que essa é a mesma análise elaborada por Oliveira Vianna quando este último cunhou o conceito de clã patriarcal em Populações Meridionais no Brasil, obra também amplamente usada por Gilberto Freyre em Casa-Grande e Senzala. Tudo o que se avança com esta visão da dominação patriarcal no contexto doméstico, critica Faoro, é a perspectiva política de um mandonismo, de um sultanismo, ou de uma oligarquia cujo poder não pode ser limitado. Já o liberalismo, observa o mesmo autor, se expressa constitucionalmente, enquanto no patrimonialismo estamental a oposição ao poder central só é possível porque os corpos intermediários entre governantes e governados lhe fazem resistência, ainda que por meios não constitucionais, podendo, ainda, se desenvolver um sistema de justiça, ainda que incipiente. Resta, no entanto, desenvolver a noção desse sistema normativo incipiente, uma vez que a impunidade por ocasião da violência doméstica é de fácil contastação na sociedade brasileira. Patriarcado, sociedade e patrimonialismo 315 Uma crítica parecida com essa é expressa por Florestan Fernandes quando aponta que aqueles mesmos autores não situam a dominação patriarcal em um contexto sócio-histórico mais amplo, por um processo de redução do macro ao micro, ponto ao qual retornarei mais adiante. Aponto, neste momento, apenas, que Faoro também contrapõe sua tese sobre o patrimonialismo com a da emergência da sociedade de classes pelo advento do capitalismo, adotada por alguns autores marxistas. Exemplo desta perspectiva se apresentaria pelas teses de Caio Prado Jr. que enfatizam no processo de colonização portuguesa a presença de um capitalismo mercantil, originando a burguesia na sociedade de classes. Faoro, no entanto, observa como Caio Prado Jr. aos poucos vai se rendendo à evidência de que o capitalismo brasileiro possui características peculiares, consistindo, muito mais em uma forma de capitalismo político. Neste, as empresas capitalistas são dependentes do setor público, em contraste com um capitalismo destacado do Estado, o que ocorre na situação clássica. O autor ressalta, com esta observação, que no patrimonialismo o poder público comanda o aparato burocrático, as forças militares e a economia. A sociedade civil é tutelada pelo Estado. Os elementos que compreendem o setor privado (família e economia) são comandados pelo setor público, reafirma Faoro, ao contrário das teses de Freyre, Holanda ou Vianna, em que são as instituições privadas as que comandam o setor público. Embora as duas visões enunciem a perspectiva de que o público e o privado se imiscuam, as teses são discordantes quanto ao elemento dominante na relação entre os dois setores. O contraste entre estas teses é retomado recentemente por Ângela Alonso (1996). Ela observa que, para Faoro, durante o processo de colonização (ao qual acrescentamos que até mesmo antes deste processo, e, acentuadamente, depois da vinda da coroa para o Brasil), um estamento teria se apropriado do Estado, provocando o seu crescimento descomunal, o que teria vitimado o país, quando uma parte desta sociedade passa a dominá-la com o predomínio do público sobre o privado. Ângela Alonso (1996) também destaca que o raciocínio de Sérgio Buarque de Holanda é o inverso daquele efetuado por Faoro. O patriarcalismo aparece como herança rural e o Estado patrimonial paulatinamente se edifica aprisionado nasteias familiares, isto é, o público permanece prisioneiro do âmbito privado. 316 Neuma Aguiar A meu ver, tanto Holanda quanto Faoro efetuam leituras adequadas de Weber, não existindo, portanto, uma versão mais correta do que a outra. Quando ambos procuram aplicar as teses weberianas ao Brasil, cada qual destaca elementos particulares de sua vasta obra. Naturalmente nenhuma teoria incorpora a totalidade do contexto social que o analista deseja explicar. Há sempre dimensões que escapam à visão teórica, particularmente quando se trata de tipos ideais. Este é o lado profícuo da aventura científica, deparar-se com o que não se encaixa nas interpretações dominantes, fazendo a Sociologia avançar. Faoro, por exemplo, ao observar que o estamento burocrático se apropria do Estado, não elabora a teia de vínculos particularistas que reúnem soberano e funcionários estamentais, uma perspectiva amplamente desenvolvida por Weber. Isto porque, sendo o patrimo- nialismo baseado em privilégios, as alianças familiares que se constituem por meio de casamentos e uniões, fazem parte do processo político de manutenção desses benefícios (Adams, 1994). O patrimonialismo é uma transformação do patriarcado pelo processo de diferenciação, que se constrói a partir das relações de dependência entre o senhor e seus familiares, ou entre o soberano e os funcionários burocrático-estamentais. Isto ocorre em contraste com o feudalismo, que se organiza a partir de uma associação entre iguais. O patrimonialismo se caracteriza pela subordinação dos funcionários despossuídos ao senhor. A relação é semelhante à de escravidão, também assemelhada por Weber à devoção familiar. Foi a associação entre patrimonialismo e escravidão que levou Buarque de Holanda a aplicar o conceito com relação ao Brasil e a destacar a abolição da escravatura como um dos principais fatores explicativos do processo de mudança na sociedade brasileira. O autor também enumera que o ingresso em uma nova ordem urbana dilui a formação rural que lhe antecede. Holanda adota assim a postura de que o processo de diferenciação segundo o eixo urbano/rural explica a transformação do patriarcado. Porém, cabe apontar nesse ponto que Faoro usa as passagens patriarcado/patrimonialismo/capitalismo do Estado dentro de uma perspectiva histórico-evolucionista, esque- cendo-se de que o conceito de patriarcado é empregado por Weber para analisar diferentes sociedades em distintos momentos históricos. Este é o caso, por exemplo, de sua análise sobre as relações patriar- cais a leste de Elba, na Alemanha, referindo-se às condições locais Patriarcado, sociedade e patrimonialismo 317 para a mudança do sistema capitalista. A análise de Weber evoca em muitos momentos as acepções de Oliveira Vianna, Freyre e Holanda, quando o autor observa a presença de relações comunais nas ações econômicas tradicionais, orientadas pelos senhores de terra para a manutenção de sua posição social. Estas ações, portanto, não estão primordialmente voltadas para a acumulação capitalista. O interesse, contudo, paulatinamente se sobrepõe à comunidade, e o rompimento da estabilidade nas relações sociais acaba provocando a miséria e a migração. Isto é possível enunciar no contexto de sua obra, porque o conceito de patriarcado não se encontra no mesmo nível que os demais, como os de feudalismo ou patrimonialismo. Por outro lado, a cons- tituição do Estado ou do sistema capitalista não representa a derrocada da família. As teses weberianas não advogam esta situação e sim o estabelecimento paulatino de normas, regulamentos e relações que se apresentam no espaço societário de forma distinta das que predominam no contexto familiar. Como na visão weberiana o sistema jurídico vai se destacando e diferenciando do arbítrio do pai-de-família, resta uma questão não discutida por Faoro. Com a nova ordem patrimonial, como o conjunto de normas jurídicas repercute no interior do espaço doméstico, quem julga os conflitos: o pai ou o juiz patrimonialmente designado? Como se dá a interação entre esses corpos intermediários de poder e a família? Que tipos de casos jurídicos emergem? Como são avaliados e implementados? Pela análise de Faoro, uma vez que o patrimonialismo se estabelece parece que não apenas a sociedade civil se lhe atrela, mas a sociedade dele, também, fica cativa. Pela equação sociedade civil/sociedade, esta última deixa de ser objeto de interesse analítico e as formas de organização da vida social desaparecem, obscurecidas pelo único interesse analítico no âmbito do Estado. O problema teórico refere-se a como essa dependência do contexto doméstico do Estado afeta o grau de arbítrio do chefe-do-domicílio, até então preponderante na família. Como as regras codificadas a partir da tradição se impõem na vida cotidiana, regulando, por exemplo, a violência doméstica. Sabe- se que no patriarcado, o pai-de-família detém prerrogativas de vida e morte sobre os familiares. Como fica esse poder ante o patrimo- nialismo? Como o poder público patrimonial, enunciando uma questão exemplar, se debruça sobre a escravidão? 318 Neuma Aguiar Um segundo ponto refere-se ao fato de que a relação entre família e Estado faz parte da teoria sobre a democracia liberal. No caso brasileiro, a teoria do patriarcado tem servido para a análise das relações de dominação que antecederam a emergência do sistema capitalista. Como relação de poder, teóricos do liberalismo desenvolvem esta perspectiva para discutir formas alternativas de resolução de conflitos e de desenvolvimento do processo decisório na relação entre Estado e Sociedade Civil. A família patriarcal e o modelo de relações políticas derivado da família estão no cerne dessa questão. Ao poder absoluto do rei, argumentam os adversários do patriarcado que todo sujeito adulto não mais necessita ser governado por uma autoridade que se assemelha à do pai de família. Se mesmo nas sociedades que separam o contexto privado do sistema de governo, e o primeiro se sobrepõe ao último, discute-se a noção das relações arbitrárias, como se dá, no contexto privado, a relação entre família e burocracia estatal quando o governo prepondera sobre o privado e o sistema jurídico não está constitucionalmente instituído? Para Faoro parece que o contraste entre a família como institui- ção privada e o poder estatal exercido pelo soberano apenas se coloca a partir da transformação do feudalismo em capitalismo. Porém, se o patriarcado é o princípio sob o qual o patrimonialismo se forma, é necessário incluir na análise a relação do patrimonialismo com a família, a não ser que a centralização governamental seja de tal forma idealizada que nada existe fora do domínio público. Nesse caso, as instituições externas ao governo centralizador deixam de ser objeto de interesse analítico e desaparecem. Uma Outra Leitura sobre Patriarcado e Estado Patrimonial: Florestan Fernandes e a Escola Paulista Florestan Fernandes adota um modelo interpretativo assentado em duas tradições analíticas quando estuda os processos de transformação da sociedade patriarcal no Brasil, elaborando uma fusão dos enfoques marxista e weberiano, o que lhe valeria a caracterização por Barbara Freitag de adepto da teoria crítica, a exemplo dos protagonistas da escola de Frankfurt. Assim, Fernandes discute a colonização portu- guesa no contexto do desenvolvimento de um complexo Estado Patriarcado, sociedade e patrimonialismo 319 Patrimonial. A dominação se exerce no Brasil mediante as concessões de sesmarias, o que se traduziria nas doações efetuadas pela coroa a um estamento administrativo. Isto representa a concentração da propriedade ou posse da terra nas mãos de alguns, e a exclusão da massa da população que não tinha acesso aos postos burocráticos. A escravidão representa o esteio dessa sociedade, pois ela é a semente da acumulação capitalista. A sociedade senhorial não se per- petua nem sufoca as atividades privadas, pois o excedente econômico é extraído pela coroa, permanecendo, assim, com a partedo leão. Florestan Fernandes concorda com a tese de Faoro segundo a qual Vianna, Freyre e Holanda vêem o setor doméstico como domi- nante, porém, em lugar de atribuir-lhes uma concepção de feudalismo, mais claramente enunciada por Vianna, aponta que as análises elaboradas por aqueles autores da organização patriarcal da sociedade carecem de um contexto sócio-histórico. Florestan Fernandes, Fernando Henrique Cardoso, Otávio Ianni e Heleieth Saffiotti, traçam, então, um eixo de interpretação da sociedade brasileira com grande impacto, tomando a sociedade escravista do tempo do Império, como ponto de partida histórico, classificando-a simultaneamente como escravocrata e senhorial. Eles não cometem o mesmo equívoco de Faoro que consiste em considerar a sociedade civil como estando a reboque do Estado, embora advirtam que isto até ocorre para uma das parcelas da burguesia nascente que se diferencia da camada senhorial. Por outro lado, eles observam que o Estamento burocrático no estado Patrimonial possui uma relação distinta da escravidão clássica para com a coroa. Algumas das funções estamentais são efetuadas pela escravidão que se superpõe, na visão de Fernandes, à sociedade senhorial. A escravidão é distinta da que serviu de base para que Weber analisasse as suas bases jurídicas. Os escravos não são um botim de guerra, mas constituem uma mercadoria. Portanto, ao Estado Patrimonial se sobrepõe a sociedade de classes. Florestan utiliza, então, três conceitos de estratificação: classe, estamento e casta, pois os negros na sociedade brasileira, para o autor, constituem uma casta. Os escravos, segundo Fernandes, não são uma classe, mas os agentes sociais responsáveis pela produção e acumulação primitivas, sob o capitalismo mercantil. Por outro lado, eles assumem funções que deveriam ser exercidas pela esfera 320 Neuma Aguiar estamental, sob o Estado Patrimonial. Os escravos, todavia, são alie- nados do sistema de benefícios patrimoniais, como seriam subseqüente- mente marginalizados pela ordem competitiva da sociedade de classes. Florestan utiliza aqui o conceito weberiano de casta, transplantando-o culturalmente, para indicar a condição dos negros, diferenciando-a do estamento ou da classe. Saffioti adota esse mesmo conceito, não sem uma certa desconfiança, pois a autora aponta que o processo de miscigenação racial indica a existência de um intercurso social entre brancos e negros, o que seria interditado numa sociedade de castas. A miscigenação consiste em uma possibilidade de ascensão social, afirma Saffioti seguindo os passos de Antônio Cândido, na medida em que o arbítrio da camada senhorial o viabilize, indiferenciando filhos e filhas legítimos dos ilegítimos. Essa capacidade de arbítrio nas relações de poder é objeto do interesse de Fernando Henrique Cardoso que retrata a violência no sistema de mando do Rio Grande do Sul (Cardoso, 1962, p.83-84; 102-119). O arbítrio ocorre pelo processo de regressão do patrimonialismo estatal ao patrimonialismo patriarcal. Cardoso observa que os cargos são distribuídos como prebendas típicas, porém como os direitos e deveres dos cargos numa sociedade em formação ainda não tinham sido estabelecidos, preponderam os costumes patriarcais sem os limites estipulados pela tradição. Isto porque, questiona Cardoso, como é possível falar-se em tradição em um país novo como o Brasil? Portanto, em lugar de regras codificadas na punição de crimes, no âmbito jurídico, predomina a impunidade. Heleith Saffioti endossa a visão de Cardoso ao observar que a vastidão da colônia e as dificuldades de comunicação dificultam a fiscalização dos funcionários patrimoniais que esbarram na existência de uma dominação patriarcal de origem local. A partir do século XIX, indica Saffioti, estaria consolidado o poder dos chefes de parentela, levando o Estado patrimonial a se assentar muito mais num tipo de patrimonialismo patriarcal do que em um patrimonialismo estamental. Essa forma de organização de poder, em visão totalmente oposta à de Faoro, se apresenta com alto grau de compatibilidade com o desenvolvimento do capitalismo, uma vez que a exploração lucrativa da propriedade territorial levaria a um processo de acumulação que se tornaria incompatível com a estrutura da sociedade colonial de caráter estamental. Florestan todavia aponta que as várias burguesias que se formam em torno da plantação e das cidades já nascem débeis. Em Patriarcado, sociedade e patrimonialismo 321 lugar de forjarem instituições próprias, elas procuram exercer pressão e influência sobre o Estado, formando o que o autor denomina de consolidação conservadora. Esta é o resultado da moldagem da mentalidade burguesa pelas oligarquias tradicionais. Dessa forma, as velhas estruturas se vêem restauradas. Saffioti ao desenvolver o tema do patrimonialismo patriarcal, toma dois eixos de análise: (1) a situação das mulheres brancas e das negras, no sistema senhorial, bem como a transformação que ocorre em sua posição decorrente da abolição da escravatura; (2) o processo de diferenciação, segundo os eixos: urbano/industrial e nordeste/sul, quando aquela autora atenta para o lugar que o sistema de educação nele detém. A reclusão doméstica se abranda com o ambiente das cidades, embora as mulheres brancas fiquem à margem do movimento abolicionista. No meio rural, persistem os códigos de comportamento da sociedade patriarcal com a reclusão das mulheres no âmbito doméstico. Porém, entre a desorganização da família estendida e o predomínio da família nuclear encontra-se ampla gama de experiências. A prepotência do pai-de-família vai dando lugar à função econômica de provedor. Saffioti mais recentemente aponta para um grande conjunto de contribuições na literatura feminista internacional que retoma a relação entre capitalismo e patriarcado, quando reafirma sua visão, tal como a defendida por Florestan Fernandes, que existe uma simbiose entre patriarcado, racismo e capitalismo (Saffioti, 1992, p.194-195). A autora advoga a importância de se lidar simultaneamente com as noções de dominação e exploração, na análise da dimensão de gênero nos fenômenos sociais. As questões debatidas na análise de Saffioti, no entanto, remetem-se bem mais à exploração do que à dominação. Várias discussões sobre este ponto foram detalhadas na literatura, dizendo respeito à associação entre a situação doméstica (no casamento ou derivada de emprego neste âmbito) e a de exército industrial de reserva. Em lugar de situar as mulheres casadas como uma reserva para o sistema capitalista, caberia observar como no espaço doméstico, pela domi- nação patriarcal, as mulheres prestam serviços aos homens, pois o ingresso em atividades capitalistas não elimina o trabalho doméstico. Os dois âmbitos, portanto, se condicionam. Outras discussões do trabalho de Saffioti, bastante revistas na literatura, dizem respeito ao impacto das crises econômicas na condição de trabalho das mulheres e à marginalização das mulheres pela introdução de tecnologias 322 Neuma Aguiar avançadas no processo de desenvolvimento socioeconômico, questões às quais não retornarei, restringindo-me à discussão do patriarcado. Embora Saffioti reafirme a importância do processo de urbanização na diluição do patriarcado, sua análise apresenta uma grande novidade. A industrialização que emerge com a ordem capitalista resulta no aumento das disparidades sociais entre homens e mulheres. Maria Valéria Junho Pena aponta que Saffioti neste caso sofre a influência de Engels. Quando a propriedade privada se sobrepõe, a monogamia e o direito paterno também passam a predominar, aumentando as disparidades sociais entre homens e mulheres. Castro e Lavinas (1992, p.236-238) colocam o conceito de patriar- cado como paradigmático nos estudos sobre mulheres e trabalho, porém não indicam outras contribuições brasileiras além das efetuadas por Saffioti. Em textos mais recentes, esta última autora passa a apontar a importância da dimensão de gênero como nova proposta teórica para os estudos demulheres e, em seu trabalho sobre violência contra as mulheres, a autora nesse particular estudo não faz referência à matriz do patriarcado, embora seja essa uma das perspectivas que constituem palco das discussões feministas sobre a questão da violência (Walby, 1990). Recentemente, todavia, Saffioti retorna ao tema. A escola de Florestan Fernandes, na qual incluímos Heleieth Saffioti, faz uso de uma combinação da teoria do patriarcado com a de classes sociais. A fusão dessas duas vertentes analíticas, no entanto, é revista pela literatura feminista internacional. Quando o patriarcado é compreendido como uma dimensão do sistema capitalista, diz-se que o enfoque é dual. Saffioti, da mesma forma que Fernandes, situa o patriarcado como um antecedente do capitalismo, procurando efetuar um enfoque histórico e assim evitar o dualismo. Fernandes, no entanto, aponta para o caráter dúbio do desenrolar histórico do processo brasileiro, quando a burguesia nacional apresenta um desenvolvimento limitado pelo capitalismo global, agindo freqüentemente como estamento e não como classe. O conceito de patriarcado tem sido usado na literatura feminista internacional para significar as relações de poder entre homens e mulheres. As mulheres são subordinadas aos homens no sistema patriarcal. A combinação com a teoria marxista ocorre para construir uma base material para essas relações de poder. Nesse ponto, Hartmann (1981, p.1-42) fala da parceria entre o sistema capitalista e o patriarcado, observando, no entanto, que a incorporação Patriarcado, sociedade e patrimonialismo 323 das relações de dominação patriarcais no sistema capitalista tem resultado em um casamento infeliz entre feminismo e marxismo, pois as relações econômicas sempre constituem o fator principal de explicação. O objetivo da autora, contudo, é o de explicar as diferenças salariais entre homens e mulheres, observando que os salários masculinos são maiores do que os femininos porque incorporam a subsistência familiar, isto é, a manutenção dos filhos, inclusive a das esposas. Já dos salários femininos são subtraídos esses recursos. Capitalistas-patriarcas adotam essa norma estabelecendo um sistema diferencial de remuneração do trabalho para homens e mulheres. Este sistema de dominação garante o exercício das atividades domésticas pelas mulheres. Silvia Walby (1990) também procura explicar tanto as relações domésticas no casamento quanto as de trabalho remunerado na esfera capitalista com o conceito de patriarcado. Para esta, é o sistema capitalista que produz a cisão entre a residência e as atividades remuneradas originando uma nova situação de dependência para as mulheres. Essa nova forma de arranjo social, aponta Walby (1990), propicia o surgimento de uma também nova modalidade de patriarcado. Porém, a tese da criação do patriarcado pelo sistema capitalista é uma visão que torna obscura as análises desenvolvidas no Brasil sobre a emergência de um patriarcalismo agrário e escravista. As formas de dominação patriarcal, no entanto, se alteram no decorrer da história aponta Walby (1990). Cabe portanto analisar como o patriarcado agrário e escravista se transforma, resultando em novas formas de dominação patriarcal ante a presença de um capitalismo privado, em sua forma econômica clássica, sob a dominância estatal. Em qualquer dessas modalidades, ocorre um processo de diferenciação que hipoteticamente resulta na criação de um estamento que se interporia entre a autoridade do mandatário e a posição dos demais membros da sociedade. Observe-se, outrossim, que a proposição de que o capita- lismo gera uma nova forma de patriarcado não deve ser contrastada apenas com a produção brasileira sobre o tema, analisada mais acima, e que prevê a erosão do patriarcado com o desenvolvimento urbano- industrial, ou com a emergência de um estamento burocrático, mas também com a própria perspectiva de Max Weber, uma vez que este último observou que um dos efeitos dos processos de racionalização e burocratização, característicos do sistema capitalista, é o da corrosão do patriarcado. A análise desenvolvida pela teoria feminista, portanto, 324 Neuma Aguiar entra em conflito com esta visão, pois os laços de dependência na esfera doméstica se acentuam com o desenvolvimento do capitalismo e/ou do Estado e da burocracia estamental. O duplo enfoque analítico do público e do privado, do âmbito doméstico e do trabalho remunerado, pode explicar como o desen- volvimento da racionalidade societária no contexto do Estado ou das relações de trabalho capitalistas não resulta na superação do patriarcado. Formas particularistas continuam a rebaixar os salários femininos, a incluir as mulheres em um número restrito de ocupações e a negar-lhes acesso a funções de poder, apesar de importantes mudanças culturais. Talvez por isto, algumas autoras como Elizabeth Souza-Lobo apresentem objeções ao conceito de patriarcado. Ela cita a problematização efetuada por Sheyla Rowbotham que rejeita o conceito de patriarcado como estrutura universal e historicamente invariante das relações entre homens e mulheres. Ações políticas não poderiam mudar essa estrutura. Além disso, para o pensamento social brasileiro, o patriarcado está associado a condições de vida pré- capitalistas. Souza-Lobo defende, então, o uso do conceito de gênero como uma categoria analítica, propondo que este deva ser empregado em lugar de patriarcado, na medida em que o novo conceito comporta a variabilidade histórica das relações entre homens e mulheres. Embora essas relações possam ser hierárquicas, em um dado momento histórico, elas também podem tornar-se igualitárias. Teresita de Barbieri também segue essa mesma pauta analítica, recusando o conceito de patriarcado em favor do conceito de gênero. A opção pelo conceito de gênero, todavia, pode levar à perda do contexto histórico, restringindo-se a uma atenção exclusiva para com a dimensão microssociológica. Na retomada recente do conceito de patriarcado na literatura internacional, postula-se que é perfeitamente possível empregar os dois conceitos, de gênero e de patriarcado, observando-se, quanto ao primeiro, que ele possui conotações que não estão presentes no último. Quanto ao patriarcado e o seu lugar na história, observa-se que a diferentes momentos históricos corresponderiam distintas formas de organização patriarcal, sendo este um fenômeno variável. A tarefa acadêmica reside exatamente em analisar essa variabilidade histórica (Walby, 1990). Já Carole Pateman (1988) tem uma visão bem distinta dessa. Ela rejeita gênero em favor de patriarcado, observando que este último conceito está muito mais ancorado na tradição das ciências humanas. Patriarcado, sociedade e patrimonialismo 325 A autora busca, então, examinar em que momento de sua construção teórica, a discussão do patriarcado não se adequa à análise das condições de vida das mulheres. Revendo autores como Locke e Maine, Pateman observa que o patriarcalismo, na teoria política clássica, se opõe ao contratualismo (Maine, 1970). Qual a conseqüência, pergunta a autora, de analisar as relações conjugais como um contrato sexual? Mesmo que preponderem relações contratuais, na vida social, observa a autora, há situações arbitrárias nas relações conjugais que permanecem acima das elaborações jurídicas, uma vez que estas foram separadas pelo código liberal como pertinentes ao âmbito privado. As mudanças na organização do Estado não representam uma transfor- mação automática do sistema jurídico ou dos códigos culturais que regem as relações entre homens e mulheres. Além disso, quando se estabelece um contrato entre membros de uma sociedade que detinham anteriormente posições de desigualdade, a relação assimétrica não é atenuada pelo pacto que as partes constituem entre si. A predominância de relações contratuais, portanto, é insuficiente para fazer cessar o patriarcado. A autora confirma as previsões estabelecidas por Zillah Eisenstein (1981) que anunciara um futuro radical para as feministasliberais quando estas se deparassem com os limites do liberalismo político para modificar o sistema de dominação patriarcal. Sylvia Walby (1992) propõe, então, analisar o desenvolvimento de duas formas de patriarcado: uma privada, baseada nos grupos domésticos, no âmbito do domicílio, e uma pública, correspondente à emergência do Estado. A autora propõe que o patriarcado público se endereça a várias dimensões além das diferenças no trabalho remunerado, incluindo-se a sexualidade, a violência e o Estado. Walby (1990, p.19) endossa uma visão de Carole Pateman (1988) sobre as análises clássicas do patriarcado, observando que essa literatura tem estado mais voltada para o estudo da relação entre homens de gerações diferentes do que da relação entre homens e mulheres. Ela estende esta observação para a teoria weberiana, o que considero inadequado. Demonstrei acima que em suas tipificações do patriarcado Weber discute explicitamente a situação das mulheres. Pela pesquisa com autores clássicos do pensamento social brasileiro empreendida acima essa crítica também não é pertinente. Uma importante contribuição para a análise do patriarcado a partir do contexto brasileiro é oferecida por Jeni Vaitsman (1994). A autora 326 Neuma Aguiar examina criticamente o sistema de classificação das famílias que as diferencia entre patriarcal ou extensa e nuclear ou burguesa, apontando que a família burguesa, de fato, é uma família patriarcal. Com a separação entre casa e trabalho, inaugura-se a divisão do sexual e do trabalho, com especialização das funções de provisão da casa e de cuidados com os filhos. O processo de modernização brasileiro, por- tanto, inaugura uma nova modalidade de patriarcado. A concepção de uma família patriarcal burguesa, portanto, permite explicar porque o desenvolvimento capitalista e a industrialização geram iniqüidades de gênero. Transformações sociais em ampla escala, incluindo-se nestas o processo de urbanização, têm sido apontadas como responsáveis pela criação de novos conceitos de intimidade e de esfera doméstica. Todavia, a divisão sexual também é recurso de sustentação de hierarquia no contexto privado. Desde a abolição da escravatura, boa parte da população negra migrou para as cidades, numa situação caracterizada por grande desequilíbrio entre os sexos, baixa taxa de nupcialidade e alta taxa de nascimentos ilegítimos, alta proporção de solteiros e baixo número de famílias com casamento regularizado, quando a união consensual sem legitimação jurídica consiste em um padrão de comportamento comum. Ao lado de famílias nucleares regularmente constituídas, encontra-se grande proporção de domicílios com uniões consensuais, isto é, com relações conjugais não contratuais. Chegamos, portanto a uma nova concepção de patriarcado para a análise da sociedade brasileira. Elizabeth Dória Bilac levanta a questão da família patriarcal e do concubinato remetendo a uma discussão que se iniciara com Antônio Cândido, tendo continuado com as análises de Florestan Fernandes e de Heleieth Saffioti, sobre a predominância de relações legítimas sancionadas pelo casamento para uma parcela da sociedade e de relações ilegítimas para outra camada social. A autora (Doria Bilac, 1996) examina a situação das uniões consensuais, observando a crescente procura da justiça comum, em casos de separação, principalmente quando estas ocorrem no bojo de uniões consensuais. O direito, afirma a autora, vem se tornando mais difícil de ser burlado, a tal ponto que os homens nunca foram tão responsáveis pela sua reprodução biológica. Com o avanço da Ciência e com as possibilidades de atribuição de paternidade que dantes não existiam, criam-se novas concepções sobre a relação entre público e privado, em conjunto com Patriarcado, sociedade e patrimonialismo 327 outros temas, colocando outros desafios para o sistema jurídico e deixando antever novas possibilidades de alteração e mudança dos sistemas patriarcais. O retorno à literatura clássica possibilitou, à luz da literatura feminista, observar a construção do conceito de patriarcado pelo pensamento social brasileiro e as modificações que nele vem sendo introduzidas em suas conotações. No texto, pesquisamos o significado do conceito de patriarcado no pensamento social brasileiro, suas conotações e discussões em torno do tema. Observamos como o sistema de dominação é concebido de forma ampla e que este incorpora as dimensões da sexualidade, da reprodução e da relação entre homens e mulheres no contexto de um sistema escravista. Observamos que uma atenção orientada exclusivamente para o âmbito da economia ou do sistema político perde de vista as relações hierárquicas no contexto doméstico. Se mesmo nas sociedades onde o público se destaca do privado as relações de gênero continuam patriarcais, no âmbito das sociedades patrimoniais a intimidade entre público e privado não resultou em uma maior participação política ou econômica das mulheres nessa esfera pela própria origem patriarcal do estamento burocrático no contexto de um patrimonialismo patriarcal. As assimetrias de poder nas relações entre homens e mulheres com o desenvolvimento da Ciência e do Sistema Jurídico podem ser transformadas historicamente, mas a análise do patriarcalismo no Brasil e em outros contextos pode documentar os obstáculos e avanços no desenvolvimento da sociedade. 328 Neuma Aguiar Abstract. In this text we search the meaning of the patriarchate concept in the Brazilian Social Thought. We observe how the dominance system is conceived in a wide form that incorporates the dimensions of sexuality, of reproduction and of the relationship between men and women in the context of a slavery system. We sustain that, if even in the societies where the public differs from the private, the gender relations remain patriarchal, in the scope of the patrimonial societies the involvement between public and private did not result in a larger political or economic participation of the women in this sphere for the own patriarchal origin of the bureaucracy in the context of a patriarchal patrimonialism. Resumé. L’article examine le concept de patriarcat dans la pensée social brésiliene. On observe qui le systéme de domination incorpore les dimensions de la sexualité e des relations entre les genres dans le contexte de l’ésclavage. On defand qui dans les societés patriominalistes la indifférenciation entre les ordres publique e privées ne conduit pas a une plus grande participation politique ou économique des femmes. Referências Bibiográficas ADAMS, Julia (1994). “The familial state; elite family practices and state-making in the early modern Netherlands”. Theory and Society, 23/24, August. AGARWALA, Bina (org.) (1988). Structures of patriarchy: the state, the community and the household. New Delhi: Indian Association for Women’s Studies. AGUIAR, Neuma (org.) (1984). A mulher na força de trabalho na América Latina. Rio de Janeiro: Vozes. AZEVEDO, Fernando de (1949). Canaviais e engenhos na vida política do Brasil. São Paulo: Edições Melhoramentos. BUTLER, Melissa A (1978). “Early liberal roots of feminism: John Locke and the attack on patriarchy”. American Political Science Review, n.º 72. COWARD, Rosalind (1983). Patriarchal precedents: sexuality and social relations. Londres: Routledge and Kegan Paul. 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Literatura popular e identidade cultural Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: � Apontar os mecanismos envolvidos na formação da identidade cultural. � Demonstrar a importância da literatura popular na formação da identidade cultural. � Identificar, na literatura popular, as marcas da identidade cultural. Introdução Quando usamos o termo “popular” associado à literatura, estamos nos referindo a um conjunto de produções literárias com característi- cas bem específicas e com uma ampla significação. O que entende- mos por “povo” é extremamente importante para estudar a literatura popular. No entanto, o fundamental é que a literatura, juntamente com outras expressões artísticas populares, faz parte de um imenso patrimônio cultural, que representa nossa identidade e evidencia um importante senso de pertencimento. Neste texto, você vai conhecer um pouco mais sobre a relação entre a literatura popular e a identi- dade cultural. Cultura e identidade cultural Você já sabe que o homem é, por natureza, um ser social, um produto cultural. Mas o que isso quer dizer? Durante muito tempo, a ideia de cultura e identidade esteve associada a uma visão nacionalista – cultura brasileira, identidade brasileira, povo brasi- leiro e, por extensão, uma literatura popular brasileira. Tal abordagem chegou até a despertar um senso de patriotismo (valorizar e exaltar o que é nacional). Além disso, chamou a atenção para a importância de estudar melhor aquilo que pertence ao país, em vez de buscar imitar modelos. Em contrapartida, tal enfoque apresenta alguns riscos, em especial o risco de homogeneizar ou simplificar conceitos como cultura, identidade e até de nação. Também pode Literatura_popular_U3_C08.indd 92 21/09/2016 16:28:04 levar a desconsiderar algumas práticas por não se enquadrarem numa defi- nição restrita de cultura ou povo. Desde o início do século XIX, quando essas visão nacionalista ganhou força, até os dias de hoje, ampliaram-se bastante esses conceitos. Quando atualmente tratamos do assunto, devemos considerar uma série de questões, como, por exemplo, a diversidade cultural e a importância de haver espaço para todo tipo de expressão cultural, sem que alguém ou alguma instituição imponha parâmetros ou delimitações a isso. Quanto à literatura, sabemos que ela é produto do seu meio – mesmo que um autor crie uma história que se passe em época diferente da sua ou mesmo em outro planeta, ainda assim, aspectos de seu contexto cultural estarão evi- denciados. Na literatura popular, porém, esse processo se dá de um modo mais parti- cularizado. A literatura, assim como a música, a pintura, a escultura, a dança, as festas e outros expressões populares, são produzidas e divulgadas a partir de um vínculo cultural e identitário bem significativo. Inicialmente, essas manifestações artísticas tinham vínculo com rituais e crenças compartilhados por certos grupos. Aos poucos, modificaram-se e ampliaram-se, tornando-se produtos estéticos, com fins de entretenimento. Contudo, conservam resquícios dessas práticas. Figura 1. Festa de São João. Fonte: Bricolage/Shutterstock.com 93Literatura popular e identidade cultural Literatura_popular_U3_C08.indd 93 21/09/2016 16:28:04 A cultura popular conserva uma relação muito estreita com os hábitos de vida, com crenças e valores. Você percebe isso nos contos, nos folhetos de cordel, na música, nas festas. Veja, por exemplo, que as comemorações juninas celebram a vida do homem sertanejo e suas atividades diárias. A festa é recheada de simbologias e significações. A cultura popular está associada a essas relações de trabalho e vida sim- ples, a um tempo em que as relações se davam por meio da presença, do con- tato olho no olho. Os códigos de conduta e os ensinamentos eram transmitidos através da palavra, a qual tinha força de lei. De certa forma, há um conservadorismo nesse processo. Como práticas sagradas, elas tendem a se reproduzir mais ou menos preservando as formas originais (daí os resquícios dos rituais). Não significa que essas práticas cultu- rais não se atualizem e se adaptem às naturais transformações do mundo. Isso acontece, sim. Por isso é que a cultura popular é complexa e rica de significa- ções e ainda hoje tem razão de existir. E também, por estabelecerem um vínculo cultural, não precisamos temer que vão desaparecer diante de novos hábitos e tecnologias. Elas se adaptam (ainda que em um processo mais lento). Se não forem mais significativas, essas práticas culturais desaparecem ou são substituídas naturalmente. Para estudar os produtos dessa cultura – como a literatura popular –, é preciso reconhecer as várias marcas de tempos passados e modos de vida que se transformam. Mais do que isso: qualquer produção literária popular reflete os interesses e os valores desse grupo, atende a certa expectativa. A aceitação, o reconhecimento e a reprodução dessas produções literárias se dão em um processo de identificação cultural, reforçando as marcas de uma coletividade, atendendo a uma necessidade de pertencimento, de vín- culo, tão indispensável em nossas relações sociais. Diversidade cultural Diversidade cultural é um conceito relativamente recente, como são re- centes as leis que determinam promover e valorizar a diversidade cul- tural. Com isso, a cultura popular e suas manifestações ganham amparo e in- centivo, um meio de fazer com que chegue a mais pessoas e seja reconhecida como parte da nossa identidade. Isso tem relevância porque, por muito tempo, o mais valorizado era a cul- tura “estrangeira”. No século XIX, por exemplo, quando o Brasil ainda era Literatura popular94 Literatura_popular_U3_C08.indd 94 21/09/2016 16:28:04 colônia de Portugal, difundia-sea ideia de que a cultura boa e de prestígio era a europeia e que a “boa formação” só poderia vir dos livros e do domínio da arte erudita – ópera, orquestra, teatro, literatura. Por extensão, a cultura popular era desprestigiada, considerada coisa de pobre e iletrado. A diversidade cultural sempre existiu, mas, em algumas épocas, essa mes- tiçagem era vista como algo negativo. Valorizava-se a pureza da raça e a fidelidade e processos estéticos padronizados. No final do século XIX, houve, no mundo todo, um importante avanço das ciências natu- rais, com descobertas significativas e uma valorização do olhar cientificista. Teorias como o evolucionismo de Charles Darwin e o determinismo de Hippolyte Taine defendiam a importância da adaptação do homem ao meio, destacavam as reações instintivas e indi- cavam que a genética tinha grande interferência nesse processo. Daí interpretações um tanto equivocadas que priorizavam a importância de uma pureza de raça Figura 2. Evolucionismo. Fonte: williammpark/Shutterstock.com O brasileiro, sob essa perspectiva, era visto como mais fraco, mas susce- tível (física e moralmente), porque produto de uma diversidade, diversidade essa que ainda contava com a influência africana, também menosprezada. E a literatura? Bem, a literatura erudita, de alguma forma, submeteu-se a essa perspectiva, e isso se deu de duas formas – menosprezando o elemento 95Literatura popular e identidade cultural Literatura_popular_U3_C08.indd 95 21/09/2016 16:28:04 local e valorizando a imitação de modelos europeus ou olhando para o ele- mento nacional como algo exótico e frágil. A literatura popular, como produto de uma coletividade, fica alheia a tudo isso. Porém, são os estudiosos que vão olhar para ela de um modo diferente, com consequências importantes. As manifestações literárias populares serão classificadas a partir das influências raciais e culturais, o que é uma forma bem simplista de análise, ainda que condizente com o pensamento do período. Como uma influência do Romantismo, que valorizava o saber do povo, houve um interesse pelo estudo das produções populares. Mais tarde, no final do século XIX, sob o viés cientificista, essas produções continuaram a ser estudadas e classificadas. Sílvio Romero, um pesquisador dessa época, publicou uma recolha de contos (Contos populares do Brasil, de 1897), os quais foram divididos em três categorias – contos de origem europeia, contos de origem indígena e contos de origem africana e mestiça. Essa divisão é condizente com esse olhar determinista da época. Ao fazer essa divisão, podemos perceber o que o pesquisador considera como elementos constituintes da cultura brasileira. Os contos de origem europeia são aqueles que envolvem elementos má- gicos, reis e príncipes. Os contos de origem indígena são as histórias de ani- mais (não aparecem indígenas!) e os contos de origem africana e mestiça com- preendem também histórias de animais (em especial, o macaco) e facécias, ou seja, histórias que provocam riso, expondo personagens bobos, pregui- çosos, ladrões, o que é um indicativo do que se pensava em relação ao povo de origem mestiça. Vejamos um exemplo deste último ponto. O NEGRO PACHOLA Havia uma senhora de engenho casada e sem filhos. Adoecen- do o marido e morrendo, ficou em lugar dele um preto africano, chamado Pai José. Assim que Pai José ouviu dizer que ia governar o engenho, ficou muito orgulhoso. Logo que foi distribuir o serviço com os outros ne- gros, passou ordem a eles que, de ora em diante, não o tratassem mais por Pai José, e sim Sinhô Moço Cazuza. Os negros lhe obedeceram. E, quando o viam, diziam: “A bença, Sinhô Moço Cazuza.” O negro, muito concha, respondia: “Bênção de Deus.” Literatura popular96 Literatura_popular_U3_C08.indd 96 21/09/2016 16:28:04 Não ficou só aí o orgulho do negro. Quando chegou à casa, disse para a senhora: “Meu sinhá, quando Sinhô Moço Cazuza chegava em casa cansado, meu sinhá não mandava logo botar banho para ele? Pois eu também quer.” A senhora, coitada, não teve outro remédio senão mandar botar banho para Pai José. Não satisfeito ainda, disse o negro: “Meu sinhá, não mandava mulatinha esfregar costa de meu sinhô? Pois eu também quer.” A senhora mandou a mulatinha esfregar as costas de Pai José. Este ainda continuou: “E meu sinhá não dava camisa gomada pra meu sinhô vestir? Pai José também quer.” A pobre mulher foi buscar uma camisa engomada, deu a Pai José para vestir. E, vendo que devia acabar com as pacholices daquele negro, falou com dois criados, muniu-se de dois bons chicotes e mandou-os esconde- rem-se no quarto. Esperou que o negro pedisse mais alguma coi- sa. E não tardou que ele dissesse: “Meu sinhá, quando meu sinhô acabava de tomar banho e de vestir a camisa grosmada, ia para o quarto pra meu sinhá catar piolho nele? Pai José também quer.” A moça não teve dúvida. Mandou-o entrar para o quarto e deu ordem aos criados que empurrassem o chicote. Se ela bem ordenou, melhor executaram os criados. Pai José apa- nhou tanto que escapou de morrer. No outro dia, bem cedo, o negro foi para a roça ainda muito ma- goado das pancadas. E, quando os negros o saudaram: “A ben- ça, Sinhô Moço Cazuza”, ele muito zangado respondeu: “Cazu- za, não, eu sou Pai José.” E deu ordem para o tratarem pelo seu próprio nome. Os negros muito admirados ficaram sem saber a causa daquela mudança. Nunca mais Pai José pediu banho, nem camisa engomada, nem à senhora para catar piolhos. (ROMERO, 1985, p. 194) 97Literatura popular e identidade cultural Literatura_popular_U3_C08.indd 97 21/09/2016 16:28:04 O conto mostra as relações sociais de poder e dominação, através da lição dada ao “pai José”. Mostra também a vida nos engenhos, a escravidão e al- gumas práticas cotidianas. Na moral do conto, percebe-se certa visão precon- ceituosa e a valorização dos brancos, em detrimentos dos negros. Leia a análise da literatura popular feita pelo próprio Sílvio Romero, à época: As relações da raça superior com as duas inferiores tiveram dois aspectos principais: a) relações meramente externas, em que os portugueses não poderiam, como civilizados, modificar sua vida intelectual que tendia a prevalecer e só poderiam contrair um ou outro hábito, e empregar um ou outro utensílio na vida cotidiana ordinária; b) relações de sangue, tendentes a modificar as três ra- ças e a formar o mestiço. (ROMERO, 1985, p. 16) través dela, notamos o reconhecimento de um multiculturalismo brasi- leiro, representado pelo mestiço, mas, ao mesmo tempo, uma noção que su- pervaloriza uma cultura em detrimento de outras, consideradas inferiores e desprovidas de “civilidade”. Felizmente, o que era considerado uma fraqueza – a mestiçagem – foi sendo percebido como uma riqueza, uma fonte inesgotável de criação, desper- tando interesses legítimos em termos de estudos, especialmente a partir dos anos 1920, com o Modernismo brasileiro. Atualmente, a diversidade cultural é mais valorizada, porque há um maior reconhecimento da complexidade de elementos e inf luências em nosso meio. Até mesmo os Parâmetros Curriculares Nacionais, um do- cumento que normatiza o ensino no Brasil, reforça a importância de co- nhecer e valorizar a pluralidade do patrimônio sociocultural brasileiro. Algumas leis preveem o ensino da cultura afro-brasileira e o contato com as culturas indígenas, em uma tentativa de nos reconhecermos como pro- duto de uma sociedade que valoriza a liberdade de criação e de expressão cultural. Literatura popular98 Literatura_popular_U3_C08.indd 98 21/09/2016 16:28:04 O contador de histórias – um mediador da cultura Para deixar mais clara a relação entre a cultura e a literatura popular, vamos analisar agora um aspecto essencial na literatura – o contador de his- tórias, ou cantador, ou poeta. Como dissemos anteriormente, a literatura popular conserva resquí- cios de rituais, que celebravam momentos importantes da vida em comu-nidade – colheitas, nascimentos, conquistas e até tragédias. Desde tempos imemoriais, as comunidades mais primitivas se organizavam em torno de líderes, responsáveis pelos ensinamentos e pela ordem. Em geral, esse papel era ocupado pelos mais velhos – os sacerdotes, os xamãs. Essas figuras estabeleciam uma ligação entre o sagrado e o cotidiano. Eram de- tentores do poder da palavra. Como sabemos, a literatura popular tem como suas bases a oralidade, daí o impacto da voz, daquilo que é proferido como valor-verdade. A partir desse conceito, podemos relacionar a função do xamã com a do poeta popular, que domina um código social, que conhece o seu grupo, que recorre à palavra para divulgar e transmitir os saberes de seu grupo. Ele faz a mediação entre a cultura e as pessoas, através da literatura. É por isso que, nas histórias populares, comumente percebemos o narrador se colocar como testemunha dos fatos, para reforçar a importância do que está sendo apresentado. Ao contar uma história, faz isso levando em consideração seu papel de mediador da cultura, o que exige conhecimento e experiência, mas também sensibilidade, para atingir seu interlocutor. Torna-se, de certa forma, a memória vida de sua cultura. Observe os exemplos a seguir, que evidenciam o papel do contador de histórias como um transmissor da cultura. 99Literatura popular e identidade cultural Literatura_popular_U3_C08.indd 99 21/09/2016 16:28:04 EXEMPLO 1 – O BOI LEIÇÃO Informante: José Maria de Melo, Alagoas E no dia do casamento houve uma festa tão grande que abalou todo o pessoal da redondeza. Dançou-se sete dias com sete noites “encastoados”. Naquele tempo eu ainda era solteiro, e meti-me no meio e dancei tanto que quase me acabo!… A festa só acabou no fim do sétimo dia; assim mesmo porque os dedos do tocador de harmô- nico, de tão inchados que estavam de tocar, não podiam mais arrastar o fole. (CASCUDO, 2003, p. 184) EXEMPLO 2 – LAMPEÃO ARREPENDIDO DA VIDA DE CANGACEIRO Autoria: Laurindo Gomes Maciel Virgolino Lampeão Se achar meu verso ruim Deus queira que o Governo Brevemente dê-lhe fim Falei somente a verdade Lampeão por caridade Não tenha queixa de mim. Terminei caro leitor O verso de Lampeão Descrevi divinamente O que ele fez no sertão Nada mais tenho a dizer, Quando Lampeão morrer Faço outra narração. (PROENÇA, 1986, p. 375) Literatura popular100 Literatura_popular_U3_C08.indd 100 21/09/2016 16:28:04 EXEMPLO 3 – MINHOCÃO Entrevistado: Vadô Outro dia, foi dois dia de festa, dois dia de festa. Dois, três dia que nós ia embora pra buscar padre que tinha lá, pra nós fazer essa brincadeira. Não, mas diz que é, eu tô falando pro senhor, é realidade! O que eu falo o senhor escreve, eu assino. Então, o senhor vê como é. Então tá. Bandeira ficava quadro, cinco dia. Comia capivara, peixe, o que tiver, né? Ah! Nesse tempo, mandioca tinha todo dia na beira do rio aí. Passava aquela lancha aí, a Cabuxio, a Panamericana, tudo. No tempo que matava capivara, sabe? Matava jacaré. [...] Aí, nós tomando umas pinga e tal... Aí o companheiro falou: – Ah! Rapaz, eu tô cum uma fome muito forte! Eu vou matar uma capivara! Falei: – Vamos, eu vou cum vocês. Outro falou: – Eu também vou! Vamos caçar aí, matar umas capivara aí, lontra, qualquer coisa, né? E eu tava enjoado dos remédio e bem passado da bebida. Pegamos essa canoa. Aaooô rapaz! [...] E esse rapaz caçava, esse que num quis pegar a bandeira, caçava também. Foi e atirou nesse bicho. Mas atirou: pá! [...] Aí o pessoal me disseram: – Cê sabe o que que é? Esse é o bicho que ele atirou. Esse é o minhocão. (FERNANDES, 2002, p. 168-169) No Exemplo 1, temos um trecho de um conto coletado por Câmara Cas- cudo. Trata-se do final da história. Em primeira pessoa, o narrador, para le- gitimar o teor do narrado, coloca-se como testemunha e descreve detalhes da festa em comemoração ao final feliz. No Exemplo 2, o final de um folheto de cordel. Como é muito comum nesse gênero literário, as últimas estrofes fazem referência ao interlocutor, motivando-o a comprar o folheto. Neste caso, em particular, o poeta dirige- -se, primeiramente, a Lampeão, receoso do impacto da narrativa; em seguida, dirige-se ao leitor, atestando seu conhecimento sobre o assunto e prometendo tornar a versejar sobre o tema. No Exemplo 3, temos a transcrição de um depoimento de um pantaneiro sobre sua vida de vaqueiro. No trecho, fica evidente a preocupação em ga- rantir a veracidade do narrado (como nos outros dois exemplos) a partir da legitimação da própria palavra (“O que eu falo o senhor escreve, eu assino”). 101Literatura popular e identidade cultural Literatura_popular_U3_C08.indd 101 21/09/2016 16:28:04 Também podemos conhecer mais sobre a vida no Pantanal, os hábitos e o imaginário – como o Minhocão, a cobra que, em noites de lua cheia, suga o sangue das pessoas. Nos três casos, há um comprometimento de quem conta com aquilo que é contado, evidenciando domínio do contexto onde se desenvolve a história. Através de seu relato, temos as explicações e as informações sobre as práticas culturais, sobre os modos de relacionar o cotidiano ao discurso literário. Os textos populares estão repletos de exemplos de modos de ser e de pensar. Conhecer a literatura popular, entre muitas vantagens, permite co- nhecermos expressões culturais e, mais do que isso, estreita nossos vínculos identitários, porque nos reconhecemos nessas histórias. Literatura popular102 Literatura_popular_U3_C08.indd 102 21/09/2016 16:28:05 CASCUDO, L. da C. Contos tradicionais do Brasil. 13. ed. São Paulo: Global, 2003. FERNANDES, F. A. G. Entre histórias e tererés: o ouvir da literatura pantaneira. São Paulo: EDUNESP, 2002. JOLLES, A. Formas simples: legenda, saga, mito, adivinha, ditado, caso, memorável, con- to, chiste. São Paulo: Cultrix, 1975. MEYER, M. (Org.). Autores de cordel: literatura comentada. São Paulo: Abril Educação, 1980. PROENÇA, M. C. Literatura popular em verso (antologia). 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A partir da segunda metade do século XX, o País experimentou grandes fluxos migratórios, que ocorreram sobretudo da região Nordeste em direção à Sudeste. Esse movimento de grandes contingentes teve as suas origens históricas na pobreza das regiões originárias dos migrantes, que funcionou como fator de expulsão destes de suas terras natais. Como fator de atração ao Sudeste, houve o grande desenvolvimento econômico pelo qual essa região passou, com a industrialização e a construção de rodovias, que facilitaram a migração. O processo migratório como fator social e econômico Eduardo Pacheco Freitas Desse modo, o País teve diversas esferas de sua sociedade influenciadas pelos movimentos de migração. A política, a cultura e a economia brasileiras têm, em suas expressões atuais, a marca do trabalho e da presença dos migrantes. Portanto, pode-se afirmar que o Brasil, como o conhecemos, não seria o mesmo sem os fluxos migratórios que ocorreram no século passado. Neste capítulo, você estudará sobre as origens históricas da migração no Brasil. Além disso, verá uma análise da migração sob o ponto de vista econômico e político.Por fim, você conhecerá o papel relevante dos migrantes para a formação sociocultural brasileira. Origens do processo migratório brasileiro Nos últimos 60 anos, o Brasil experimentou um grande fluxo migratório interno. Os movimentos migratórios estão profundamente conectados ao processo de urbanização crescente que o País viveu no período e à redistribuição da população brasileira no espaço do território nacional. Embora os fluxos mi- gratórios ocorram no País desde o século XIX, é a partir da segunda metade do século XX que eles irão se intensificar e se tornar um fenômeno bastante considerável (BAENINGER, 2012). A cada ciclo econômico verificado nos últimos dois séculos, houve formas migratórias diferentes: ao longo do século XIX, a migração esteve vinculada à produção cafeeira; da última década do século XIX até 1930, os migrantes buscavam inserção em um novo sistema cafeeiro e na industrialização inci- piente; entre os anos de 1940 e 1950, houve a integração do mercado interno e um maior desenvolvimento regional, sobretudo na região Sudeste, que passou a atrair cada vez mais migrantes (BAENINGER, 2012). De 1950 a 2000, ocorreu a internacionalização da economia brasileira, somada a um ritmo de urbanização jamais visto no País, sendo esse fenô- meno diretamente relacionado aos fluxos migratórios da região Nordeste em direção à Sudeste. Na década de 1980, esse fluxo migratório diminuiu consideravelmente, ganhando novo fôlego apenas no século XXI. Neste ca- pítulo, trataremos exclusivamente do período considerado mais relevante e com maiores impactos na sociedade brasileira, que corresponde justamente à segunda metade do século XX (BAENINGER, 2012). A partir da década de 1950, a principal causa para a migração interna foram os desiquilíbrios na distribuição regional da riqueza. As regiões Norte e Nordeste apresentaram, historicamente, uma menor participação na riqueza do Brasil, além de serem regiões negligenciadas em amplo aspecto pelo poder central que se encontrava no sul do País. Além disso, a necessidade cada vez O processo migratório como fator social e econômico2 maior de mão de obra não qualificada para a indústria e para a construção civil contribuiu sobremaneira para a atração de migrantes das regiões Norte e, principalmente, Nordeste em direção às regiões Sudeste e Sul (SINGER, 1980). Portanto, qualquer abordagem sobre os fenômenos migratórios deve ser realizada a partir da perspectiva histórico-estrutural, buscando-se compreender os fenômenos e processos que condicionaram as decisões dos migrantes de partirem em busca de novas oportunidades. Para melhor compreensão, deve-se considerar também a conjuntura internacional, em que as massas se deslocam em função do capital. Nesse sentido, Singer (1980, p. 80) afirma que: Como qualquer outro fenômeno social de grande significado na vida das nações, as migrações internas são sempre historicamente condicionadas, sendo o resul- tado de um processo global de mudança, do qual elas não devem ser separadas. Encontrar, portanto, os limites da configuração histórica que dão sentido a um determinado fluxo migratório é o primeiro passo para o seu estudo. No caso do Brasil, a origem das migrações está estreitamente relacionada com a economia, visto que, enquanto país inserido na periferia do sistema capitalista mundial, ele tem suas esferas econômicas, políticas e sociais profundamente afetadas pelo contexto internacional. O fenômeno migratório, como parte da sociedade, não poderia deixar de ser influenciado também pelas movimentações do capital mundial. Quando se inicia um grande fluxo de migrantes das regiões mais ao norte do País em direção às regiões ao sul, este se dá sobretudo pelas grandes transformações econômicas pelas quais o País passava, em um momento em que deixava de ser um país rural e passava a ser um país urbano (SINGER, 1980). Na região Nordeste, a década de 1950 foi marcada por um processo constante de crescimento demográfico, que desencadeou graves problemas em termos sociais e políticos. Ao mesmo tempo, havia uma espécie de insatisfação popular com as condições de vida locais, ao passo que se vis- lumbrava uma certa opulência (se comparada à vida miserável no Nordeste) no Sudeste, região mais desenvolvida do País. Houve tentativas de fixar os nordestinos em sua terra, por meio da criação de associações camponesas, que lutavam contra os latifúndios e buscavam promover o acesso à terra para os pobres. Contudo, a crise não foi solucionada, e políticas que incentivaram a migração foram implementadas, contribuindo para os fluxos migratórios em direção à região Sudeste e conformando uma situação dual no País, em que o campo é atrasado e o espaço urbano é desenvolvido (RUA, 2003). O processo migratório como fator social e econômico 3 Nesse contexto, o Brasil mudava — embora em dimensão reduzida — a sua participação no cenário internacional, tornando-se exportador de pro- dutos industrializados. Essa nova condição, ligada ao desenvolvimento das indústrias, sobretudo no estado de São Paulo, contribuiu de alguma forma para as migrações. Entretanto, o grande motor a colocar em marcha os fluxos migratórios da região Nordeste, sem sombra de dúvida, foi a criação de um mercado interno, no qual surgiram bens de consumo fabricados no próprio País, como uma linha variada de eletrodomésticos e, muito importante, um parque automobilístico, implantado durante o governo de Juscelino Kubitschek (1956–1961). Essa nova matriz industrial instalada no País exigia mão de obra de maneira crescente, funcionando como um fator de atração dos migrantes, que, em suas regiões de origem, enfrentavam fatores de expulsão (DRAIBE, 1985). Um dos paradigmas explicativos dos movimentos migratórios é o modelo “repulsão/atração”, segundo o qual “no centro dos processos migratórios, se encontra a decisão de um agente racional que, na posse de informação sobre as características relativas das regiões A e B, e de dados contextuais respeitantes à sua situação individual e grupal, decide pela perma- nência ou pela migração” (PEIXOTO, 2004, p. 5). Em outras palavras, a migração só pode ocorrer na convergência de processos complementares: as condições adversas na região de origem (dificuldades/repulsão) e o vislumbre de melhores condições em outro local (oportunidades/atração). No entanto, outras transformações da sociedade brasileira serviram como atração para os migrantes a partir da década de 1950. Naquele período, sobretudo no governo de Juscelino Kubistchek (JK), uma nova doutrina eco- nômica tomou conta do País: o nacional-desenvolvimentismo. A partir dessa doutrina, JK foi eleito, prometendo intervir fortemente na economia, com o objetivo de modernizar o País. A sua base foi o conhecido Plano de Metas, que propunha soluções para as áreas da indústria, do campo, da energia, da educação, entre outras. O slogan de JK foi “50 anos em 5”, afirmando que o Brasil experimentaria um avanço rápido como nunca visto em sua história. O maior símbolo da administração de JK foi a construção de Brasília, uma representação do novo país, industrializado e cosmopolita, que ele pretendia inaugurar (BIELSCHOWSKY, 2007). A construção de Brasília, iniciada em 1956, exerceu uma forte atração sobre os migrantes do norte e, principalmente, do Nordeste e do estado de Goiás. Os candangos, como ficaram conhecidos os migrantes-operários que construíram Brasília, chegaram a somar mais de 60 mil indivíduos no auge das O processo migratório como fator social e econômico4 obras. Para acomodar esse enorme contingente de pessoas, as construtoras levantaram grandes acampamentos, que, na prática, funcionavam como pequenas cidades (REIS JÚNIOR, 2008). Inicialmente, o maior número de migrantes veio de Goiás, segundo o censo realizado em 1957, que apontou como oriundos desse estado 3.152 migrantes. Entretanto, a partir de 1958, uma grande seca na região Nordeste promoveu o deslocamento de 4 mil flageladosem direção aos canteiros de obras da nova capital. Ainda assim, no ano de 1958, os operários goianos compunham 52% da população da Cidade Livre (Figura 1), acampamento que reunia a maior parte dos candangos. Portanto, tem-se dois fatores principais na formação do perfil do migrante que construiu Brasília: a proximidade geográfica (Goiás) e as dificuldades econômicos advindas das secas que assolavam a região Nordeste (REIS JÚNIOR, 2008). Figura 1. Cidade Livre (1959), a maior cidade dos candangos, que abrigou dezenas de milhares de migrantes-operários durante a construção de Brasília. Fonte: Núcleo... (2020, documento on-line). O processo migratório como fator social e econômico 5 Influências da migração sobre a economia e a política brasileiras A partir de 1930, as migrações internas brasileiras passaram a desempenhar um papel de destaque na recomposição espacial do Brasil. Como visto, os fluxos migratórios tinham relação com as atividades de produção mais expressivas de cada época histórica. Nas primeiras décadas do século XX, a atividade econômica primária brasileira estava no campo, contudo, ao longo do século, houve a transposição do centro da economia, que ficava no campo, para as cidades e suas indústrias, comércios e serviços (MATA, 1973). Portanto, o fenômeno de migração desse período foi caracterizado, muitas vezes, como êxodo rural, já que houve um deslocamento massivo de cam- poneses para as cidades em busca de trabalho e melhores oportunidades. Entre 1940 e 1970, por exemplo, enquanto a taxa da população rural crescia a 1,8%, nas áreas urbanas, o crescimento populacional era de 4,8%. Em suma, um dos principais resultados da migração interna brasileira foi o inchaço das grandes cidades do País, sobretudo São Paulo e Rio de Janeiro (MATA, 1973). No século XX, o Brasil modernizou a sua economia e, como não poderia deixar de ser, atrelada a essa nova dinâmica, a sociedade e a política se trans- formaram. Em decorrência da demanda por mão de obra nas indústrias, que surgiam em velocidade cada vez mais acelerada, principalmente na década de 1950, em função do desenvolvimentismo de Juscelino Kubitschek, houve a atração de migrantes da região Nordeste. Todavia, não foi somente para o trabalho na indústria que essas pessoas se deslocaram dentro do Brasil rumo à região Sudeste. À época, o Brasil passou a apostar fortemente no modelo de transporte estadunidense, deixando de lado as ferrovias e as hidrovias e investindo na construção de milhares de quilômetros de estradas, pontes e rodovias por todo o país (FREITAS, 2017). Desse modo, dois aspectos que se complementam podem ser destacados: primeiro, a transformação econômica nos campos da indústria e dos trans- portes, que funcionou como elemento de atração para os migrantes; segundo, as próprias rodovias e pontes construídas pela mão de obra dos migrantes facilitaram ainda mais o deslocamento destes para as regiões Sul e Sudeste. Assim, o Brasil se tornava um país em que as distâncias eram diminuídas a cada dia, promovendo uma grande transformação social devido à nova infraestrutura de transportes (FREITAS, 2017). Trata-se, pois, de uma relação dialética: à medida que a economia se desenvolvia, os migrantes desenvolviam a economia com sua força de tra- balho. Daí a centralidade dos migrantes da região Nordeste no dinamismo da O processo migratório como fator social e econômico6 economia brasileira do século XX. Portanto, não é possível analisar aquele período sem que os trabalhadores oriundos de outras regiões do Brasil — e suas realizações no Sudeste — sejam levados em consideração. É evidente que a maior parte dos trabalhadores migrados da região Nordeste para a Sudeste encontrou condições de vida tão ou mais adversas que aquelas existentes em seus estados de origem. Um importante fato econômico envolvendo os migrantes é chamado pela sociologia de cor- reias transmissoras. Na prática, isso significa que os migrantes fogem de um contexto de subemprego/desemprego de suas regiões originárias para, na maioria das vezes, encontrar a mesma condição nas metrópoles para as quais se transplantaram (FERREIRA, 1986). O campo político também foi significativamente influenciado pela presença dos migrantes. A sobreposição dos ambientes públicos urbanos, onde viviam a maior parte dos imigrantes, e o âmbito privado do trabalho forneceram todo tipo de combustível para a construção de identidades de classe, consciência da condição de migrante, bem como para a formação de movimentos sociais, sindicais e políticos característicos da periferia do capitalismo mundial. Aliás, os migrantes, como afirma o cientista social Nozaki (2009, p. 305), situam-se “nas periferias da periferia do capitalismo”. No século XX, os migrantes, principalmente os nordestinos, ajudaram a criar a classe operária brasileira, que atuou nas indústrias de base, petro- química, siderúrgica e automobilística. Em virtude de sofrerem com baixas remunerações, os trabalhadores se organizaram contra essas condições de trabalho, fundando alguns dos maiores sindicatos do País. Essas organizações, compostas em maior parte por migrantes ou filhos destes, foram respon- sáveis por buscar, no campo político, o cumprimento das suas demandas. Instrumentos como a greve foram particularmente importantes para que as categorias de trabalhadores conseguissem impor a sua vontade e obter mais direitos e melhores salários. O período que vai de 1964 até meados da década de 1980 foi muito compli- cado para os grupos que exigiam direitos e democracia. No entanto, é nesse período que grupos políticos e sindicais despontam no cenário político do País, como o Partido dos Trabalhadores (PT), criado em 1982, tendo um dos seus maiores expoentes o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, um migrante pernambucano que chegou a São Paulo vindo em um caminhão pau-de-arara (Figura 2). Lula ainda estaria no centro das atenções ao liderar o grande ciclo de greves dos metalúrgicos do ABC paulista, ocorrido entre 1978 e 1980 (Figura 3), já no ocaso da ditadura civil-militar. O processo migratório como fator social e econômico 7 Outra grande liderança política de origem migrante é Luiza Erundina, nascida no estado da Paraíba, que viria a se tornar a primeira prefeita de São Paulo, a maior cidade da América Latina. Desde a juventude, Erundina foi militante política, atuando na defesa da reforma agrária em seu estado Figura 2. O caminhão pau-de-arara é um meio de transporte irregular utilizado durante décadas no transporte de migrantes saídos da região Nordeste em direção a São Paulo. Como se vê na imagem, é um veículo sem qualquer tipo de conforto ou segurança para os passageiros. Fonte: Campanato (2006, documento on-line). Figura 3. O futuro presidente Lula, migrante e então sindicalista, discursa para uma multidão de operários grevistas, em 1979. Fonte: Piccino (1979, documento on-line). O processo migratório como fator social e econômico8 natal, no interior de movimentos católicos. Formada em Serviço Social pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Erundina também se tornaria uma das fundadoras do PT, junto a Lula. O PT, no contexto da redemocratização, tornou-se um sinal de esperança para a democracia brasileira, que renascia (ERUNDINA; JINKINGS; PERICÁS, 2020). Como visto, a migração no século XX, sobretudo em sua segunda metade, moldou a face do Brasil em diversos aspectos. Além da influência dos mi- grantes sobre a economia, desenvolvida a partir da sua força de trabalho, houve o aparecimento de lideranças políticas importantes e que mudaram a história do Brasil nas últimas décadas. Desse modo, pode-se concluir que, sem o fenômeno migratório – em particular o nordestino –, o Brasil seria um país com uma versão bastante diversa da atual. Migração e formação sociocultural brasileira O Brasil é um país eminentemente urbano, porém essa nem sempre foi a reali- dade nacional. Foi somente a partir da década de 1950 que ocorreuuma virada na composição da população brasileira no que se refere ao binômio rural/urbano. Naquele período, as cidades passaram a exercer uma forte atração sobre os migrantes, que incharam o uso do espaço urbano e contribuíram para a criação das regiões conturbadas e metropolitanas. Segundo o Censo de 2010, 84,35% da população brasileira vivia em cidades, e esse número não para de crescer, muitas vezes por conta dos fluxos migratórios, que continuam a enviar pessoas das regiões mais pobres do País — frequentemente rurais — para os grandes núcleos urbanos (INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 2010). A migração interna brasileira foi um dos fenômenos mais importantes para a transformação do Brasil de um país rural para um país urbano. Portanto, esse fato está profundamente conectado à criação não somente de uma sociedade urbana, mas também de uma cultura urbana. Conforme Gonçalves (2001, p. 174): De acordo com os censos do IBGE, na década de 1960, 13 milhões de pessoas trocaram o campo pela cidade; nos dez anos seguintes, esse número se elevou para 15,5 milhões. Tudo indica que desde 1970, quando a população rural passou a ser minoritária, até os dias de hoje, mais de 40 milhões de brasileiros migraram do campo para a zona urbana. Se levarmos em conta que a região Sudeste con- centra, sozinha, 72.282.411 habitantes, ou seja, 42,6% da população do país, e tem um percentual de urbanização da ordem de 90,52%, fica ainda mais evidente o crescimento da cidade em detrimento do campo. O processo migratório como fator social e econômico 9 Os números mencionados são impressionantes e dão a dimensão do tama- nho da migração interna que ocorreu no Brasil na segunda metade do século XX. Esses movimentos foram tão expressivos, que se tornaram responsáveis por modificar amplamente as características socioculturais do País. De uma sociedade mais engessada e tradicional, fundada no campo, o Brasil passou a ser uma nação mais dinâmica e com acelerado ritmo de transformações culturais e sociais, frutos obtidos diretamente da transposição de populações inteiras das áreas rurais e do sertão para os perímetros urbanos brasileiros. O caso do estado de São Paulo é particularmente interessante, pois esse estado concentra 1/5 da população brasileira, do qual 1/3 se encontra apenas na capital do estado. Ao lado do Rio de Janeiro, São Paulo é a região do País que mais recebeu migrantes nas últimas décadas, recebendo, assim, uma forte influência das culturas originais dos migrantes. Desde expressões linguísticas, passando por pratos típicos que caíram no gosto popular até a música, a contribuição dos migrantes se revela significativa, amalgamando culturas diferentes, das mais diversas regiões do Brasil (em particular do Nordeste), formando um caldeirão cultural na megalópole paulista. Para abordar corretamente o problema da formação sociocultural brasileira a partir das migrações, deve-se pensar sob a perspectiva das relações entre território e identidade cultural. Afinal, o território (no qual o migrante se estabelece) assume relevância para a formação e a afirmação de identidades e pertencimento. Para Jorge (2010, p. 240) a identidade é “resultado de um trabalho permanente de renovável construção social e política”, porém ela também tem origem “geográfica, que leva em conta a extrema mobilidade dos agentes sociais”. Dessa forma, o espaço físico onde o indivíduo vive é o elo comum que conduz à identificação dos sujeitos com o ambiente que ocupam. Assim, as identidades seriam fixadas no território naquilo que o autor qualifica de identidades socioespaciais, isto é, identificações individuais e culturais que integram um grupo em um determinado espaço. Em contrapartida, em vez de influir com a sua própria cultura na nova terra, pode ocorrer o processo de desterritorialização do migrante. Esse processo pode ser descrito brevemente como uma quebra de vínculos com um território originário. Para as classes superiores e abastadas, a desterritorialização não costuma ser algo nocivo, tratando-se de uma multiterritorialidade segura e opcional. Contudo, para os mais pobres (maior parte dos migrantes), a desterritorialização se manifesta frequentemente de maneira coercitiva, oriunda de opções exíguas para a sobrevivência individual ou familiar, muito comum nos casos dos refugiados. Catástrofes climáticas, guerras, disputas O processo migratório como fator social e econômico10 de fronteira e questões étnicas são as causas mais comuns para a produção de populações refugiadas, que perdem o vínculo com o território original, sendo sempre estrangeiros mesmo onde têm a possibilidade de se assentar (HAESBAERT, 1995). A migração também pode desencadear o processo de desterritorialização em dois aspectos principais. Em primeiro lugar, o migrante pode assumir — de maneira voluntária, como estratégia de sobrevivência em um novo meio — valores e práticas comuns ao novo território que habita. Em segundo lugar, a adoção dos novos costumes e o rechaço da sua cultura anterior podem ser constituídos por meio de elementos coercitivos, como o constrangimento social pela utilização de palavras ou expressões típicas de sua região de origem, que soam “exóticas” em sua nova realidade social (HAESBAERT, 1995). Das produções culturais humanas, o cinema é uma das mais rele- vantes para a compreensão da vida em sociedade e dos dilemas e sonhos dos seres humanos. Diversos filmes brasileiros já trataram da questão dos migrantes, mostrando as suas lutas e dificuldades na nova vida longe da sua terra natal. O filme O homem que virou suco, de 1981, roteirizado e dirigido por João Batista de Andrade, retrata a vida de Deraldo (interpretado por José Dumont), um poeta popular e migrante recém-chegado a São Paulo, onde tenta se adaptar a uma realidade muito diferente da que estava habituado e, ao mesmo tempo, tenta sobreviver da venda de folhetos com suas poesias. Em 2015, o filme entrou para a lista dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos (DIB, 2015). Outro impacto dos migrantes na sociedade, sobretudo nas grandes cidades brasileiras, foi o da “favelização”. As periferias das cidades se tornaram o des- tino de grande parte dos migrantes, em sua grande maioria direcionados para trabalhos que exigem pouca escolaridade. Em geral, as mulheres ocuparam os empregos domésticos, como faxineiras, diaristas ou babás. Já os homens, em sua maioria, foram para a construção civil e para os serviços braçais. Portanto, o sonho do migrante de encontrar condições de vida melhores nas cidades da região Sudeste, na maioria dos casos, não se concretizou. O trabalho se mostrou árduo e mal remunerado, e a habitação se manifestou longe das áreas mais nobres das cidades e com falta de saneamento básico (GALHARDO, 2007). Não é à toa que grande parte da cultura desenvolvida pelos migrantes a partir dessa realidade — principalmente no cancioneiro popular — manifeste a saudade e a intenção de retorno à terra de origem, como pode ser obser- O processo migratório como fator social e econômico 11 vado na obra do conhecido cantor e compositor Luiz Gonzaga. Conforme o pesquisador José Cunha Lima: Ao analisar a musicografia produzida por Luiz Gonzaga, logo observo que a saudade é um tema renitente e presente na vida do migrante e do sertanejo que fica espe- rando a notícia do parente que se foi em busca de melhores condições de vida, ou esperando pelo retorno, mas até o regresso é obra da saudade (LIMA, 2011, p. 47). Neste capítulo, você viu como o Brasil se formou econômica, política e culturalmente a partir da segunda metade do século XX com a presença e o trabalho dos migrantes. Os fluxos migratórios, originados principalmente na região Nordeste, tendo como destino o Sudeste brasileiro, estão relacionados à grande desigualdade entre as regiões. Enquanto o Nordeste, pobre, serviu como fator de expulsão de muitos de seus habitantes, o Sudeste, econo- micamente maisdesenvolvido, atraiu levas e levas de migrantes ao longo das décadas. Desse modo, diversos aspectos da sociedade brasileira foram moldados a partir desse processo migratório, tanto nas regiões de origem quanto nas regiões de chegada. Referências BAENINGER, R. Rotatividade migratória: um novo olhar para as migrações internas no Brasil. REMHU: Revista Interdisciplinar da Mobilidade Humana, Brasília, v. 20, n. 39, p. 77–100, jul./dez. 2012. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_ abstract&pid=S1980-85852012000200005&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt. Acesso em: 22 nov. 2020. BIELSCHOWSKY, R. Pensamento econômico brasileiro: o ciclo ideológico do desenvol- vimento. 4. ed. 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Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. O processo migratório como fator social e econômico14 OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM > Identificar os elementos históricos (da Europa e da América) que fomentaram as primeiras manifestações sociais e políticas no Brasil Colônia. > Descrever a influência europeia e dos Estados Unidos na fundamentação ideológica das manifestações sociaise políticas no Brasil Colônia. > Reconhecer o papel das manifestações sociais e políticas no Brasil colonial na posterior independência do País. Introdução Por muitos anos, foi cultivada a ideia de que o Brasil era um país pacífico, e de que suas revoltas e movimentos sociais não causaram grandes distúrbios, como uma guerra civil. Contudo, a historiografia passou a enfatizar que os diversos conflitos desencadeados ao longo de nossa história e como o governo da época lidou com eles deveriam ser analisados como períodos de profunda turbulência política e social. A organização da sociedade em prol de um objetivo em comum, seja em âmbito local ou federal, demonstram insatisfações e a necessidade de mudança. Desde a chegada dos portugueses, a sociedade brasileira foi formada a partir de conflitos. Houve as guerras contra os nativos, contra os invasores e aquelas As primeiras manifestações sociais e políticas no Brasil Ana Carolina Machado de Souza contra o sistema estabelecido. As revoltas nativistas e separatistas duraram mais de um século, causando um sensível impacto no governo colonial. Assim, neste capítulo, vamos tratar das manifestações sociais e políticas do Brasil colonial, com ênfase nas mudanças intelectuais causadas pelo Iluminismo. O Iluminismo e suas ramificações O Iluminismo foi um movimento filosófico e intelectual que nasceu na Europa no final do século XVIII, mas essa cronologia é debatida. Alguns argumentam que os ideais iluministas são oriundos do Renascimento Cultural e da Revo- lução Científica dos séculos XVI e XVII. O questionamento e o protagonismo do pensamento racional revolucionaram a metodologia científica, isto é, contribuíram para o surgimento de uma nova forma de enxergar o mundo. O Iluminismo é entendido como herdeiro dessa tradição — portanto, definir uma origem é tarefa ingrata. Contudo, é comum dizer que essa filosofia começou na França, no ano de 1715, quando morreu o Rei Luís XIV (1638–1715), que se tornou o símbolo do Absolutismo no País. Muito do que se ensina sobre o Absolutismo nas aulas escolares de história é proveniente da experiência francesa, principalmente sobre Luís XIV. Conhecido como “Rei-Sol”, ele conseguiu pacificar as relações diplomáticas com a Espanha, dando espaço para o desenvolvimento do regime absolutista. Ele se tornou rei em 1643, mas apenas em 1660 assumiu o trono de fato. Em seu reinado, o Estado foi centralizado totalmente, aumentando os gastos, modelo administrativo que se mostrou ineficaz (ANDERSON, 2004). Características gerais A França, no século XVIII, vivia um regime centralizador que custava muito aos cofres públicos. A Revolução Francesa, em 1789, foi o rompimento político e econômico com aquilo que os próprios revolucionários batizaram como “Antigo Regime”. Seu nascimento se relaciona com a contestação das desigualdades corroboradas pela maneira como o governo era conduzido. A Revolução foi um movimento complexo, maior do que as caudas econômicas e políticas óbvias que se obtêm ao se analisar seu contexto. O historiador François Furet (1989) defende que foi um acontecimento dinâmico, embasado, inclusive, em antigas mobilizações contra os governos de épocas anteriores. Porém, o movimento As primeiras manifestações sociais e políticas no Brasil2 de 1789 persistiu e definiu a nacionalidade do País. O que interessa aqui, contudo, é que a Revolução foi profundamente impactada pelo Iluminismo. O culto à razão impulsionou os revolucionários franceses. O Terceiro Es- tado, grupo hierarquicamente marginalizado pela política francesa, era muito diverso e compunha mais de 70% da população total. Nele, encontravam-se artesãos, profissionais liberais, pobres, miseráveis, bem como intelectuais e burgueses. Ou seja, uma parte tinha contato e/ou participava das mudanças filosóficas que ocorriam há décadas. Alguns nomes como François-Marie Arouet (1694–1778), conhecido pelo pseudônimo Voltaire, e Charles-Louis de Secondat (1689–1755), o Barão de Montesquieu, criticavam abertamente o governo francês. O primeiro, por exemplo, exaltava a tradição política da Inglaterra (notória inimiga da França), que, em 1688, viveu a Revolução Gloriosa e adotou a Monarquia Constitucional, mudando seu sistema político para o Parlamentarismo. Esse movimento inglês os ajudou a se recompor de todas as disputas dinásticas, conseguindo financiar desenvolvimentos tecnológicos como a Revolução Industrial de 1760. Além disso, na Reforma Anglicana de 1534, a Igreja Católica perdeu a hegemonia e a Igreja da Inglaterra se tornou subordinada ao Estado. Essa característica era exaltada por Voltaire e outros, pois, na França, vivia-se o chamado “direito divino dos reis”, segundo o qual os monarcas eram consi- derados enviados por Deus para ocupar seus cargos. Em 1734, Voltaire publicou as Cartas filosóficas, em que discutiu as ideias de liberdade política e tolerância religiosa. Devido ao conteúdo, foram censuradas pelo Estado francês. Já Montesquieu escreveu Do espírito das leis, em 1748, no qual remodelou o sistema político do País, sugerindo mudanças na Monarquia. Ficou conhecido por criar a divisão dos três poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário) para que a política se desenvolvesse de forma mais satisfatória. Em linhas gerais, pode-se definir o Iluminismo como um movimento que possuía alguns conceitos característicos que inspiraram as organizações e os intelectuais a repensarem desde pesquisas científicas até os sistemas políticos e econômicos. No caso, as ideias recorrentes eram racionalismo, progresso, liberdade e igualdade, sendo que os dois últimos merecem nossa atenção. Antes de tudo, é importante entender que conceitos e ideias também têm seus contextos. Quando se argumentava a favor da liberdade no século XVIII, fazia-se de acordo com as circunstâncias da época, totalmente diferentes das de hoje, século XXI. O primeiro passo para compreender seu significado, As primeiras manifestações sociais e políticas no Brasil 3 então, é definir que ele é ramificado. O Iluminismo se relacionava ao fim do Absolutismo, a uma maior limitação do poder real e à influência de outras classes sociais na política. Ademais, existia a questão da liberdade econô- mica, que buscava menos intervenção do Estado na economia, a base do liberalismo econômico. Porém, ela não atingia a todos pessoalmente, assim como a igualdade. Com relação à política, a igualdade não se relacionava à imposição de um sistema democrático, por exemplo. Na França, parte dos revolucionários do Terceiro Estado queriam aumentar sua mobilidade social e acabar com os privilégios da nobreza, mas isso não significava que todos alcançariam uma melhor posição hierárquica na sociedade. A burguesia procurava repre- sentação política, mas não queria que pobres e miseráveis estivessem na mesma posição. Os filósofos também não apontavam a igualdade universal e irrestrita. Porém, foram essas ideias que viajaram dentro da França e entre tantos outros países, abrindo espaço para o questionamento do status quo, e isso influenciou o cenário português. Portugal e o Marquês de Pombal Portugal foi um dos primeiros países europeus a consolidar o Absolutismo. Ainda no século XIV, a Dinastia de Avis assumiu o trono, centralizando o poder político que, mesmo com a União Ibérica (1580–1640), não sofreu a fragmentação de seu território. Diferentemente de como ocorria na França, não existia a ideia de “direito divino”, mas o monarca português era muito popular perante o povo. Como seu Absolutismo teve início antes do que o de muitos países, começou a Expansão Marítima pela circunavegação do território africano. A intenção era descobrir novas rotas para as Índias, onde eram retiradas as especiarias comercializadas na Europa. Nesse processo, a chegada à América e o início da colonização do Brasil foram fundamentais para o desenvolvimento do Mercantilismo. No século XVIII, o Absolutismo entrou em crise em vários países,mas com menor intensidade em Portugal. Apesar disso, o Iluminismo chegara com força. Em 1750, quem assumiu o trono foi D. José I (1714–1777), mas seu governo foi marcado pelo primeiro-ministro que ele mesmo nomeou. Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal (1699–1782), foi embaixador na Inglaterra (1739–1743) e na Áustria (1745–1750), e foi essa experiência que o ajudou na condução da política internacional e nas mudanças que ocorriam internamente. As primeiras manifestações sociais e políticas no Brasil4 Desde o Tratado de Methuen (ou Tratado de Pães e Vinhos), de 1703, Portugal estabelecera uma relação econômica desfavorável com os ingleses devido aos profundos problemas financeiros que o País vivia. A preocupação residia na obsolescência da infraestrutura tecnológica portuguesa. Se, no início da Era Moderna, os lusitanos eram o mais avançados nas técnicas marítimas e cientificas, no século XVIII, estavam em desvantagem se comparados a outras nações. Esses eram os problemas que Pombal enfrentava logo de início, então sua intenção era reestruturar a administração pública, mas sem modificar o sistema, que deveria continuar absolutista. O primeiro-ministro se tornou um dos principais déspotas esclarecidos da Europa, e o Iluminismo era a corrente filosóficas que embasava os novos tempos. Ainda que muitos iluministas criticassem o Antigo Regime, a filosofia foi utilizada por monarcas que buscavam a modernização racional de seus reinos, mas sem mudança estrutural do sistema. Foram os chamados déspotas esclarecidos, que queriam reformas na Corte e no próprio governo, sobretudo no que dizia respeito à arrecadação de impostos. Alguns nomes conhecidos foram Pedro, o Grande (1672–1725) e Catarina II, a Grande (1762–1796), da Rússia; Frederico II, o Grande (1740–1786), da Prússia; e próprio Marquês de Pombal (FLORENZANO, 1981). No meio do processo de reformas, em 1755, Portugal sofreu um dos piores terremotos de sua história, devastando a capital, Lisboa. Pombal, então, deu início à reconstrução a partir dos ideais iluministas, sobretudo da raciona- lidade. Tornou-se o símbolo de um país renovado e moderno, mas trouxe diversas consequências para o Brasil, já que a reestruturação não foi barata. Dessa forma, a cobrança de impostos aumentou consideravelmente, ainda mais com o êxito da mineração no Sudeste da colônia. Taxas como o quinto e a derrama atingiam os mineradores e foram estopins para o surgimento de várias revoltas. A Igreja e a educação foram, da mesma maneira, afetadas pelas reformas pombalinas. O ensino era coordenado pelos religiosos que se estabeleceram na colônia, e a administração portuguesa decidiu centralizar e expulsar os jesuítas de todo o território, o que aconteceu com a Lei de 3 de setembro de 1759. A partir disso, os bens eclesiásticos foram confiscados em nome do Estado, que também aumentou o controle dos governos locais com a proibição da escravidão indígena, em 1757, finalizando processos de recrutamento de mão de obra, por exemplo. As primeiras manifestações sociais e políticas no Brasil 5 Esses movimentos influenciaram diretamente o andamento das relações sociais na colônia, o que abordaremos mais adiante neste capítulo. Além das reformas de Pombal, o Iluminismo influenciou movimentos revolucionários fora da Europa, como nos Estados Unidos. A Revolução Americana (1776) O processo de independência dos Estados Unidos estava diretamente rela- cionado a sua colonização. As primeiras tentativas de ocupação do território americano aconteceram no século XVI, mas foi somente no século XVII que os ingleses conseguiram se estabelecer. Eles não foram os únicos, já que os franceses também construíram espaços coloniais, mas, ao longo do tempo, perderam a hegemonia. Em 1607, foi fundada Jamestown, na Virgínia, consi- derada a primeira colônia. Após tentativas frustradas, a Virginia Company bancou a ida e a permanência de colonos no intuito de explorarem a terra em busca de ouro e de pedras preciosas, como aconteceu com a Espanha. Observa-se, desde o início, que houve uma grande diferença entre os projetos coloniais português e inglês, sendo que este se baseava na iniciativa privada com apoio do Estado. Já a proposta lusitana era conduzida pela coroa, inclusive as pessoas que migraram para o Brasil foram indicadas e escolhidas para assumirem posições estratégicas na administração colonial. No caso britânico, a viagem para a América era uma forma de endividados tentarem uma nova vida, além de ser o destino de condenados da Justiça, em uma forma de punição. O controle estatal sobre a colonização não era tão forte quanto no Brasil, permitindo que os colonos americanos conseguissem se instalar e construir um aparato governamental comunitário e mais livre das amarras da Metrópole. Ainda pagavam impostos e taxas, mas a fiscalização era própria. Contudo, essa situação mudou no século XVIII. A Inglaterra passara por duas revoluções, a Puritana (1640–1648) e a Glo- riosa (1688), a partir das quais o sistema político mudou e alcançou maior estabilidade interna. Além disso, nessa época, as primeiras elites burguesas surgiram e a Revolução Industrial (1760) ajudou a consolidar a busca por mercado consumidor. Os olhares da coroa inglesa se voltaram para a América, dessa vez em busca de maior controle estatal. Foram vários os movimentos políticos que provocaram problemas na relação entre colonos e Metrópole. Primeiramente, a Guerra dos Sete Anos (1756–1763), entre a Inglaterra e a França, ocorrida em território americano, sobre a posse das terras ao Norte das 13 colônias, onde hoje é o Canadá. Os gastos foram altos e, para custeá-los, os impostos aumentaram. Em 1764, As primeiras manifestações sociais e políticas no Brasil6 foi estabelecida a Lei do Açúcar, que taxava o melaço usado rotineiramente, afetando o cotidiano colonial. Em 1765, foi aprovada a Lei do Selo, que obrigava a compra de um selo real para outorga de qualquer tipo de documento oficial. Ademais, em 1773, a Inglaterra concedeu, à Companhia Inglesa das Índias, o monopólio do comércio do chá, prejudicando os americanos que plantavam e impostavam o produto. A reação dos colonos foi se reunir e contestar os movimentos da Metrópole. Muitos dos políticos locais, apoiados por parte da população, passaram a considerar a necessidade de ficar independente. Os americanos passaram a questionar a falta de representatividade no Parlamento Inglês. Eles acreditavam que não deveriam seguir as leis inglesas se não tinham participação no debate político. Começou, por- tanto, o movimento No taxation without representation (“nenhum imposto sem representação”), a partir do qual pressionavam a Inglaterra, que, para evitar uma revolta, revogou a Lei dos Selos. Porém, outros impostos foram criados, inclusive sobre o chá (HEALE, 1991). Cada vez mais os americanos mostravam seu descontentamento, e o Iluminismo foi a filosofia que ajudou a fomentar uma nova visão sobre o que deveriam ser. Leandro Karnal (2010) argumenta que uma das maiores influências foi de um autor anterior ao século XVIII, John Locke (1632–1704), um dos primeiros a criticar a estrutura absolutista inglesa, e suas ideias se relacionavam diretamente à Revolução Gloriosa e ao início do Parlamenta- rismo na Inglaterra. Um dos episódios mais conhecidos foi a Festa do Chá de Boston, em 1773, quando grupos vestidos de nativos-americanos despejaram a carga de chá no mar. A Inglaterra decidiu recrudescer o regime e as punições após o ato e estabeleceu, em 1774, as Leis Intoleráveis, a partir das quais passou a substituir funcionários públicos (escolhidos por colonos) por ingleses ou por apoiadores do governo régio. A elite colonial se reuniu na Filadélfia para discutir esse movimento metropolitano, o que ficou conhecido como “Primeiro Congresso Continental”, quando as 13 colônias se uniram em prol de uma ideia, de um desejo em comum. Os primeiros acordos acerca deuma possível independência foram apresentados, mas não foram assinados ali. As reivindicações ao trono inglês eram maior liberdade dentro das colônias e o fim dos impostos e da repressão por causa da fiscalização, mas não foram atendidas. Em 1776 ocorreu o Segundo Congresso Continental, e foi nele que redigiram a Declaração Unânime dos Treze Estados Unidos da América, estabelecendo a As primeiras manifestações sociais e políticas no Brasil 7 independência a partir do dia 4 de julho daquele ano. A Inglaterra não aceitou o movimento e deu início à Guerra de Independência, que os americanos nomearam como “Revolução Americana”. Ela durou até 1783, com a derrota dos ingleses após a ajuda dos franceses e de alguns nativos, consolidada com a assinatura do Tratado de Paris, que era o conhecimento da emanci- pação. Os conceitos de liberdade e de igualdade permearam a ideologia por trás da Revolução. A própria Constituição, aprovada em 1787, estabelecia o poder tripartite definido por Montesquieu, e a política era descentralizada. Esse movimento influenciou diretamente a Revolução Francesa, de 1789, e o restante da América. Como diz Karnal (2010, p. 94–95): Para o resto da América, os Estados Unidos serviriam como exemplo. Uma inde- pendência concreta e possível passou a ser o grande modelo para as colônias ibéricas que desejavam separar-se das metrópoles. Os princípios iluministas, que também influenciavam a América ibérica, demonstraram ser aplicáveis em termos concretos. Soberania popular, resistência à tirania, fim do pacto colonial; tudo isso os Estados Unidos mostravam às outras colônias com seu feito. Revoltas nativistas Manifestações políticas e sociais brasileiras ocorreram durante todo o período colonial. A Revolta dos Beckman (1684), a Guerra dos Emboabas (1707–1709), a Guerra dos Mascates (1710–1711) e a Revolta Filipe dos Santos, ou Revolta de Vila Rica (1720), correspondem às chamadas revoltas nativistas. Apesar do nome, elas não buscavam a independência. Cada uma possui sua especifici- dade, mas a reivindicação em comum era o fim dos impostos, da corrupção e da opressão feita nos (e pelos) políticos locais. Revolta dos Beckman (1684) A região do Maranhão e do Grão-Pará teve uma colonização diferenciada em comparação às províncias do Nordeste e do Sudeste. Em 1782, foi criada a Companhia do Comércio do Maranhão, na tentativa de fortalecer a posição dos colonos na região. O monopólio comercial dos produtos explorados ali centralizaria os lucros e ajudaria no crescimento da elite local, que tinha o apoio da Metrópole. A partir disso, procuraram instalar de vez a mão de obra escravizada, que era muito lucrativa para o próprio Estado português. Por- tanto, a instalação da Companhia mudou a estrutura geral daquela sociedade. Os produtores e comerciantes locais, apesar de se beneficiarem de algumas medidas da nova instituição, perderam boa parte da autonomia. A proibição As primeiras manifestações sociais e políticas no Brasil8 do uso de mão de obra indígena escravizada atingiu diretamente aqueles que não podiam pagar pelos negros. Apesar disso, é preciso ter em mente que esse período foi bastante instável na colônia como um todo, pois o ciclo do açúcar estava em decadência e muitos colonos do litoral se aventuraram pelo interior na intenção de conseguirem novas terras e produtos para o comércio. Essa realidade atingiu o povo que já residia no estado do Maranhão e do Grão Pará. A Companhia de Comércio prometeu que intermediaria na questão dos negros escravizados e financiaria uma média de 500 pessoas por ano, as distribuindo entre aqueles que necessitavam de trabalhadores. Porém, o não cumprimento desse acordo foi o estopim para a Revolta dos Beckman. Tomás e Manuel Beckman eram irmãos, produtores locais e se tornaram os líderes do movimento contra a Companhia. Os amotinados tomaram a sede da instituição, destituíram os diretores e começaram um governo paralelo na cidade, a chamada Junta Geral do Governo. Esse governo provisório teve a duração de um ano, sempre com muitos conflitos entre os metropolitanos e os rebeldes. Para retomar o controle da situação, Portugal enviou reforço militar, ocasionando o aprisionamento de alguns líderes. Tomás Beckman foi, então, transferido para Lisboa e prometeu lealdade à coroa. Dessa forma, estabeleceu-se que o conflito tinha raiz nos problemas locais. Ele ficou preso em Pernambuco até sua morte, pois foi proibido de voltar ao Maranhão. Já seu irmão foi condenado à forca junto de nomes como Jorge de Sampaio e Carvalho, sentença assinada pelo governador. Guerra dos Emboabas (1707–1709) Foi um dos primeiros conflitos motivados pelo ouro encontrado nas Minas Gerais (que era parte de São Paulo e do Rio de Janeiro) e ocorreu entre os bandeirantes paulistas e os emboabas, os estrangeiros que migravam para explorarem a região. O bandeirismo começou ao mesmo tempo que o processo de colo- nização, na tentativa de explorar o território. Algumas bandeiras tinham a missão de sequestrar os indígenas para escravizá-los: foram as cha- madas “bandeiras de apresamento”. Já as “bandeiras de prospecção” tinham a função de encontrar metais preciosos. As expedições adentraram pelo território, cruzando os limites do Tratado de Tordesilhas, que se tornava obsoleto a cada momento (MONTEIRO, 1994). As primeiras manifestações sociais e políticas no Brasil 9 Com a possibilidade de exploração da terra, Portugal aumentou o con- trole, sobretudo com a imposição de novos impostos. Em Minas Gerais, a situação ficou cada vez mais insustentável, segundo a população local. Eles passaram a enfrentar não só o arrocho econômico, mas também o aumento da fiscalização, com mais autoridades políticas sendo enviadas para atuar na região. Vale destacar que as Minas Gerais só passaram a existir no século XVIII. Até então, havia as províncias de São Paulo e do Rio de Janeiro, sendo que os paulistas queriam o controle das minas, mas se tornaram minorias pelos emboabas. Em 1707, grupos armados de “estrangeiros” proliferaram, deixando a situação ainda mais tensa. Um dos líderes dos emboabas foi Bento Coutinho, que conseguiu a hege- monia na região por mais de um ano. Cada vez mais os paulistas perdiam o controle econômico e político. Por exemplo, um dos governadores nomeados era um emboaba, Manuel Nunes Viana. Porém, a coroa decidiu intervir antes que o movimento crescesse e se tornasse mais perigoso politicamente. Em 1709, foi criada a Capitania Real das Minas Gerais, independente das jurisdi- ções paulista e carioca. O foco se voltou para o Sudeste, mesmo que a capital da colônia ainda fosse Salvador. Com essa nova unidade política e administrativa, Portugal conseguiria organizar uma arrecadação de impostos mais eficiente, bem como uma fiscalização que funcionasse. Foi nesse momento que foram instituídas Vila Rica (atual Ouro Preto), Vila de Nossa Senhora do Carmo (atual Mariana) e Vila de Nossa Senhora da Conceição do Sabará, pontos nevrálgicos para a exploração dos metais. Com a intervenção política, também foi estabelecida a guarda militarizada, que abafou os conflitos entre paulistas e os migrantes, que se tornaram residentes na nova capitania. Dessa forma, a guerra foi neutralizada, e os bandeirantes de São Paulo, sobretudo, decidiram adentrar ainda mais a Oeste, criando aldeias e vilas no que hoje são Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás. Enquanto, no Sudeste, novas possibilidade econômicas eram exploradas, o litoral sofria com a queda constante dos preços e da demanda pelo açúcar, atingindo todo o ciclo social e urbano. Guerra dos Mascates (1710–1711) Pernambuco foi a capitania mais rica da colônia até o século XIX, e essa im- portância era reconhecida pelos colonos locais, sobretudo pela elite política, que utilizava esse prestígio para reivindicar mais autonomia. Além disso, a região foi dominada pelos holandeses no século XVII, e, mesmo com todo o As primeiras manifestaçõessociais e políticas no Brasil10 processo de guerra e expulsão dos invasores, conseguiu se desenvolver. O comércio e a agricultura davam, à capitania, sobretudo Recife, um terreno fértil para o surgimento de organizações sociais que queriam mudanças políticas que os favorecessem. Ao lado da cidade, ficava Olinda, a “capital do açúcar”, que mais se desenvolveu com o cultivo da cana e que, no início do século XVIII, passava por uma profunda crise. Segundo Lisboa (2011, p. 25–26): A luta contra os holandeses havia criado uma série de novos impostos para sus- tentar a guerra. criou-se o “donativo do açúcar”, imposto que era cobrado sobre o comércio e a produção do açúcar, e que constituía o principal recurso nas fi- nanças da Restauração. [...] Com o fim da guerra, as novas taxações continuaram a ser cobradas, já que a Coroa não queria dispensar essa nova receita fiscal [...]. Some-se a isso os antigos impostos donatariais que, mesmo com a incorporação da capitania à Coroa, eram ainda cobrados gerando insatisfação por parte dos moradores de Olinda. Enquanto era dominante, Olinda controlava a política local, inclusive de Recife. Quanto esta prosperou por causa do comércio com outras nações, sobretudo Portugal, a elite mercantil queria autonomia. Essa burguesia nascente foi chamada de “mascates” pela tradicional cena olindense, que não aceitava a busca pela autonomia dos vizinhos. Além disso, Olinda era mais beneficiada pela administração política, pois as obras estruturais e o peso das decisões políticas eram maiores e constantes ali. Já Recife se modernizara com a invasão holandesa, pois eles estimularam o comércio com a França, a África, as colônias do Caribe, entre outras na- ções. Para tentar mudar a situação, os mascates se organizaram e pediram a municipalização, que foi atendida em 1709 com a criação da vila de Santo Antônio do Recife. Foi o início da revolta armada capitaneada por grupos de Olinda, insatisfeitos com a decisão metropolitana. Entre 1710 e 1711, vários ataques foram realizados por partidários das duas causas. Portugal, novamente, interveio, mantendo a autonomia de Recife e confis- cando bens da elite olindense que instigou a crise, mas os perdoou três anos depois. Pernambuco, durante o século XVIII, não conseguiu se recuperar, e o tratamento dado pelos portugueses ajudou a semear o sentimento antilusi- tano, que será explorado nas revoltas separatistas posteriores. Revolta Filipe dos Santos, ou Revolta de Vila Rica (1720) Como Portugal dependia cada vez mais da arrecadação de impostos para manter os custos do Estado, era fundamental otimizar a coleta dos impostos As primeiras manifestações sociais e políticas no Brasil 11 e evitar fraudes. Em 1720, Vila Rica recebeu a primeira Casa de Fundição, local onde o ouro era fundido em barras para facilitar o transporte e o comércio do metal. Para a população local, esse era mais um entrave português, que criava mais obstáculos e diminuía a margem de lucro. Eentre as mais variadas taxas, o quinto correspondia à cobrança de 20% do ouro extraído na colônia e vigorava desde o século XVI, quando se estabeleceram as capitanias hereditárias. Apesar de explorarem a terra e minerarem desde 1590, foi no século XVIII que a cobrança do quinto se tornou uma prática mais controlada. Para evitar o contrabando, que era alto, obrigaram os mineradores a utilizar as Casas de Fundição da coroa, assim garantiriam o pagamento da taxa (BOXER, 1969). Com a maior intervenção da Metrópole, o povo decidiu se amotinar. Filipe dos Santos (1680–1720) era um português que se instalara no Brasil e que acabou por liderar a desobediência civil. Vale ressaltar que a elite local controlava o comportamento contrário aos agentes régios. O governador Conde de Assumar (1688–1756) foi nomeado em 1717 na tentativa de se impor perante os políticos da terra. Ele atuou nas negociações com os revoltosos, que reivindicavam o fim das Casas de Fundição e um maior relaxamento da carga tributária. Em contrapartida, os representantes da coroa pediam uma taxa extra, de 30 arrobas de ouro anuais, para que as casas fossem inutilizadas. Outra linha de frente era política. Rezende (2015) descreve que Assumar utilizou sua posição para manipular as eleições nas Câmaras Municipais de Vila Rica e das adjacências. A ideia era preencher os cargos públicos com simpatizantes da coroa. Houve, portanto, um enfrentamento também no âmbito político, que ajudou no estabelecimento da repressão à Revolta. O acordo não durou, e a instabilidade na região de manteve. Os líderes foram presos e Filipe dos Santos foi assassinado em praça pública, prática comum pelo governo português. Foi o fim dessa revolta, mas o início de muitas outras. Revoltas separatistas A grande diferença entre os conflitos nativistas e separatistas foi ideológica. Estes queriam a independência, o fim do subjugo do estado português ante a colônia, e o Iluminismo foi a base teórica fundamental para que os articula- dores delineassem esse processo. As revoltas mais conhecidas e trabalhados pela historiografia foram a Inconfidência Mineira (1789), a Conjuração Baiana (1798) e a Revolução Pernambucana (1817), três regiões muito importantes As primeiras manifestações sociais e políticas no Brasil12 para o desenvolvimento econômico e social do País. Contudo, assim como outras nações, no século XVIII, Portugal passou a ter problemas financeiros. A manutenção da máquina pública absolutista custava muito, exigindo o aumento exponencial de impostos. Nessa época, o açúcar brasileiro estava em decadência, pois enfrentava a concorrência das Antilhas, mas a descoberta de ouro e de pedras preciosas nas Minas Gerais foi vista como um bom sinal. Apesar disso, os impostos eram considerados abusivos pelos colonos, o que ajudou na organização de movimentos contestatórios. Inconfidência Mineira (1789) É considerada um dos movimentos separatistas mais importantes da história brasileira. A influência do Iluminismo francês e o exemplo da Revolução Americana foram fundamentais para a organização social e as reivindicações contra o Estado português. A Inconfidência Mineira foi utilizada pelos republicanos nos séculos XIX e XX como exemplo de revolta contra o sistema monárquico, que comandou o País desde 1500. Com dificuldades de consolidar a própria República, foram criadas narrativas a partir dos eventos passados para se estabelecer a ideia de heroísmo, por exemplo. Foi nesse momento que figuras como Tiradentes (1746–1792), Joaquim José da Silva Xavier, até então obscuras e pouco estudadas, ganharam notoriedade (CARVALHO, 2017). A Inconfidência foi, majoritariamente, formada por membros da elite mineira, que há décadas entravam em conflito com o poder régio. Membros do clero, proprietários rurais, mineiros que enriqueceram com o ouro, poetas e literatos, além de militares, concordavam que a dominação portuguesa su- focava a pauta local, mas não tinham um pensamento unânime. Por exemplo, alguns queriam, de fato, a separação, enquanto outros queriam a deposição do governador e de políticos leais à coroa. Como argumenta Maxwell (2001, p. 151): O programa da inconfidência refletia as compulsões imediatas e específicas que tinham alienado completamente os magnatas mineiros da coroa, forçando-os no rumo da revolução. Também refletia a presença entre eles de hábeis e preparados magistrados, advogados e padres obrigados à reavaliação das relações coloniais por outros motivos. E que se inspiravam no exemplo da América do Norte, nas constituições dos Estados da União Americana e na obra do abade Raynal. Das informações fragmentárias que restaram evidencia-se um perfil sumário de seus propósitos. A capital da república deveria ser São João d‘El Rey, decisão que es- pelhava as mudanças demográficas que se verificavam na capitania. Seria criada As primeiras manifestações sociais e políticas no Brasil 13 uma casa da moeda e a taxa de câmbio fixada em 1$500 réispor oitava de ouro. Esta medida tinha por fim acabar com a escassez crônica de moeda circulante na capitania, em parte causada pela alvará de dezembro de 1750 que fixara a taxa de 1$200 réis por oitava para Minas, enquanto a taxa vigorante por toda a parte era de 1$500 réis. Desde 1702, a coroa aumentara o controle na região de Vila Rica, sobretudo com a criação da Intendência de Minas que, basicamente, fiscalizava e recebia os impostos. Em 1720, a Casa de Fundição foi um dos estopins para a Revolta de Filipe dos Santos. Para piorar o relacionamento entre colonos, em 1751, foi anunciada mais uma taxa, a derrama, que criava um valor mínimo a ser pago pelo quinto, ou seja, atingia, principalmente, que não conseguia minerar o suficiente para lucrar mesmo pagando o imposto. Seriam cobradas 100 arrobas anuais ou 1500 quilos de ouro, sendo que o governo tinha a liberdade de confiscar bens daqueles que não honrassem o compromisso. Esse foi um dos principais motivos para essa mobilização em específico. Apesar do anúncio, seu estabelecimento não foi imediato, causando mais especulação e dando tempo de os locais se agruparem e se organizarem. Em 1755, após o terremoto de Lisboa, a coroa precisava, urgentemente, de fundos e, em 1763, instituiu a derrama. Nesse mesmo período, já ficara constatado que a quantidade de ouro no Brasil não era abundante como nas colônias espanholas. Mesmo assim, tanto Portugal quanto os políticos locais inves- tiam na exploração da terra, sendo que estes se encontravam cada vez mais endividados. Apenas em 1788 o grupo se organizou a ponto de tentar destituir o go- verno. O ideal era de liberdade, mas que não se ampliava ao nível social, com os negros ainda mantidos como escravos, por exemplo. Conforme o dia da derrama, no início de 1789, chegava, o clima em Vila Rica ficava mais violento. O governador percebia a movimentação e começava a reprimir qualquer ati- tude suspeita, assim como confiscar livros e panfletos. Além disso, algumas medidas foram instituídas. Primeiramente, anistiaram as dívidas, uma das principais prerrogativas dos inconfidentes, e cancelaram a cobrança dos impostos. Com isso, alguns dos manifestantes decidiram não continuar com o plano de tomada de poder e traíram seus companheiros, caso de Joaquim Silvério dos Reis (1756–1819). O resultado foi a prisão de mais de 30 líderes, sendo alguns exilados e outros mortos em praça pública. Apesar do esforço não ter atingido seu objetivo, o imaginário da Inconfidência serviu de exemplo para outras manifestações que tiveram espaço nessa época. As primeiras manifestações sociais e políticas no Brasil14 Conjuração Baiana (1798) Diferentemente das Minas Gerais, o movimento baiano ocorreu em um local que estava em plena decadência. Em 1763, a capital da colônia foi transferida para o Rio de Janeiro, concretizando a ideia de que o Nordeste deixara de ser o principal eixo econômico e político do Brasil. A manifestação surgida na Bahia foi profundamente influenciada pelos ideais iluministas, sobretudo com a queda do Antigo Regime francês, em 1789, mais um exemplo, além da Revolução Americana, de 1776, de que a situação política estava mudando. Havia, também, a consolidação do impacto da Revolução Industrial, de 1760, que obrigou os países a criarem alternativas para o Mercantilismo. O ponto específico e particular das reivindicações da Conjuração Baiana foi a escravidão. Até então, a situação dos negros sequestrados na África e transformados em escravos no Brasil havia sido pouco discutida em nível institucional. Apesar das revoltas promovidas por eles mesmos, e com o surgimento dos quilombos e dos focos de resistência, nada foi feito no âmbito político e legislativo para mudar o status dessas pessoas. O tráfico era muito lucrativo para a elite colonial, pois movimentava o comércio e a venda dos africanos escravizados, muitas vezes o principal sustento de famílias inteiras (LARA, 1986). O Iluminismo auxiliou no questionamento da moral escravista e a indus- trialização trazia um elemento prático: a necessidade de mercado consumidor. Os abolicionistas começaram a se manifestar e embasar suas ideias a partir desses elementos. Além disso, outro exemplo revolucionário surgiu nesse contexto. A Revolução Haitiana (1791–1804) provocou a independência da ilha, que foi tomada pelos negros até então subjugados. Inspiração para aqueles que questionavam o sistema colonial, esse evento causou temor nas metrópoles europeias e nas elites coloniais que exploravam os trabalhadores africanos à exaustão. A primeira medida portuguesa foi, dessa forma, censurar a circulação de obras iluministas e das que aludissem aos acontecimentos nos Estados Unidos, na França e no Haiti. Contudo, o contrabando se tornou prática comum, mostrando que a proibição cultural nunca deu certo em nenhum contexto. A rebelião baiana, ocorrida em Salvador, foi organizada por alguns mem- bros da elite, mas tinha um caráter notadamente popular, diferentemente da Inconfidência. Negros alforriados, abolicionistas, comerciantes e pequenos As primeiras manifestações sociais e políticas no Brasil 15 proprietários foram os principais articuladores do movimento, que buscava o fim do sistema colonial e, consequentemente, da escravidão. Os líderes mais conhecidos foram João de Deus Nascimento (1771–1799), Manuel Faustino dos Santos (1775–1799) e Luiz Gonzaga das Virgens (1761-1799), e eles constru- íram alianças com membros da maçonaria e políticos como Cipriano Barata (1762–1838). As reuniões aconteciam na Academia Brasílica dos Acadêmicos Renascidos, que foi criada em 1759. Porém, uma similaridade com outras revoltas separatistas era a pluralidade de ideais, já que alguns proprietários de terras, por exemplo, não queriam o fim da escravidão. Em 1792, os conjurados começaram a expressar suas insatisfações e a divulgar, pela cidade, o movimento, que inclusive debatia a manutenção do sistema monárquico. Eles espalhavam folhetos pelas ruas, em uma alusão aos revolucionários franceses que arrebatavam apoiadores com a panfleta- gem. Conforme o clima se acirrava, as divergências internas aumentavam, causando o rompimento entre a aula popular e a elite. Dessa forma, em 1798, os principais líderes do povo foram presos e alguns foram enforcados publicamente para servirem de exemplos. Revolução Pernambucana (1817) Outra revolta que ocorreu em Pernambuco foi o movimento revolucionário do século XIX, um dos mais importantes e impactantes para o processo de independência de 1822. Esse movimento ocorreu porque o governo colonial percebeu a fragmentação política, e a atuação da elite pernambucana causou medo na Coroa. Os oitocentos começaram com a vinda da Família Real e da Corte em 1808, fugindo da expansão napoleônica. A Abertura dos portos às nações amigas e a assinatura do Tratado de aliança e amizade, em 1810, expandiram as opções comerciais da colônia, aumentando os lucros de parte da elite mercantil. Contudo, o Sudeste experienciou essa mudança de forma mais latente do que o Nordeste, ainda que Pernambuco se mantivesse como a capitania mais lucrativa mesmo com a crise do açúcar. Ou seja, o desprestígio era mais político do que econômico, acirrando o sentimento antinacional. Assim como na Bahia, havia diversidade entre os participantes do movi- mento pernambucano; porém, eles possuíam um elemento identitário muito forte: a busca pela emancipação da província, isto é, não queriam o fim do sistema colonial no País todo, mas se tornar uma nação. A região questio- nava a dominação portuguesa desde a expulsão dos holandeses no século XVII, quando Recife se tornou a cidade mercantil mais importante do Brasil. Portanto, o movimento foi mais coeso do que os anteriores observados aqui. As primeiras manifestações sociais e políticas no Brasil16 Havia alguns grupos hegemônicos, mas vários membros da hierarquia social faziam parte do movimento, sendo que os principais líderes foram o religiosoFrei Caneca (1779–1825), o juiz Antônio Carlos Ribeiro de Andrada Machado e Silva (1773–1845), Domingos Teotônio Jorge (?–1817), entre outros. Inclusive, o clero passou a discutir os ideais de liberdade e igualdade do Iluminismo, demonstrando a influência do pensamento. A grande diferença em relação à Inconfidência e à Conjuração Baiana foi a efetividade do movimento. Ele saiu da teoria e se expandiu para outros estados. Paraíba, Rio Grande do Norte e Alagoas aderiram à causa independentista, causando o receio da Coroa, já que o sentimento antilusitano crescia. Em 6 de março de 1817, os revolucionários mataram o comandante por- tuguês Manoel Joaquim Barbosa de Castro, que foi designado pelo governo régio local para prender os líderes da Revolução. A revolta se generalizou e o governo foi deposto, dando início ao Governo Provisório e às Leis Or- gânicas, o sistema administrativo-legislativo criado pelos revolucionários. As principais medidas eram o republicanismo, com a divisão dos poderes à la Montesquieu, a liberdade de imprensa e religiosa e a igualdade, menos relacionada à escravidão. A capital não aceitou a contestação, e o governo revolucionário durou cerca de 70 dias. A repressão foi muito violenta, e o poder central foi res- taurado em 19 de maio de 1817. Alguns dos presos políticos foram mortos e esquartejados, mas o impacto do movimento foi inegável. As províncias questionavam o domínio português a ponto de a Família Real considerar proclamar a independência para não perder o controle do Brasil. A história brasileira é permeada por momentos de instabilidade política e social que foram fundamentais para a nossa formação como sociedade. Do século XVI até o século XIX, o País viveu revoltas cujo objetivo era o rearranjo da estrutura colonial local e outras que queriam a emancipação ou da colô- nia ou do Império. Além disso, na base do sistema estava a escravidão, que transformou profundamente a noção de hierarquia social, além da cultura. Vale destacar que, apesar das diferentes naturezas de cada uma das revoltas, o tratamento foi o mesmo: violenta repressão do governo vigente. Esse detalhe corrobora a ideia que se tornou frequente nos estudos sobre o Brasil, que é classificá-lo como um país belicoso. Na década de 1930, Sérgio Buarque de Holanda escreveu o clássico Raízes do Brasil, no qual desen- volveu o conceito de “homem cordial”, tendo como base a história colonial brasileira. A “cordialidade” é um disfarce para as dificuldades sociais vividas pelo brasileiro, que não consegue, por consequência, estabelecer um plano político democrático, por confundir o limiar entre público e privado. Apesar As primeiras manifestações sociais e políticas no Brasil 17 disso, ainda se manteve, no senso comum, a ideia de que o Brasil é um país pacífico, o que pode ser contestado pela regularidade dos conflitos discutidos neste capítulo. Referências ANDERSON, P. Linhagens do estado absolutista. São Paulo: Brasiliense, 2004. BOXER, C. R. A idade de ouro do Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1969. CARVALHO, J. M. de. A formação das almas: o imaginário da República no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. FLORENZANO, M. As revoluções burguesas. São Paulo: Brasiliense, 1981. FURET, F. Pensando a revolução francesa. São Paulo: Paz e Terra, 1989. HEALE, M.J. A revolução norte-americana. São Paulo: Ática, 1991. KARNAL, L. (org.). História dos Estados Unidos. São Paulo: Contexto, 2010. LARA, S. H. Campos da violência: escravos e senhores da capitania do Rio de Janeiro (1750–1808). São Paulo: Paz e Terra, 1988. LISBOA, B. A. V. Uma elite em crise: a açucarocracia de Pernambuco e a Câmara Municipal de Olinda nas primeiras décadas do século XVIII. 2011. 229 f. Dissertação (Mestrado) — Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2011. MAXWELL, K. A devassa da devassa: inconfidência Mineira — Brasil e Portugal (1750– 1808). São Paulo: Paz e Terra, 2001. MONTEIRO, J. M. Negros da terra: índios e bandeirantes nas origens de São Paulo. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. REZENDE, L. A. O. A Câmara Municipal de Vila Rica e a consolidação das elites locais, 1711–1736. 2015. 390 f. Dissertação (Mestrado) — Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2015. Leituras recomendadas CASSIRER, E. A filosofia do iluminismo. Campinas: Editora da Unicamp, 1992. (Coleção Repertórios). FAUSTO, B. História do Brasil. 10. ed. São Paulo: EDUSP, 2002. (Didática, 1). 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As primeiras manifestações sociais e políticas no Brasil 19 OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM > Identificar os principais grupos étnicos que foram inseridos no território nacional brasileiro por meio de incentivos governamentais e por acordos diplomáticos entre os países envolvidos. > Avaliar os efeitos da diversidade imigratória na formação da política, da economia e da sociedade brasileira. > Relacionar os efeitos da imigração de exploração com a relação de trabalho que foi constituída pelos brasileiros ao longo da sua história. Introdução O processo imigratório brasileiro como política de Estado teve início no século XIX. Desde a chegada da Família Real, em 1808, foram tomadas medidas no intuito de modernizar a colônia, na qual a escravidão era a principal, mas não única, forma de trabalho para a manutenção da economia agroexportadora. Também existiam trabalhadores livres e serviços públicos, mas eles não movimentavam as contas públicas. No próprio século XIX, mudanças profundas surgiram como consequência dos movimentos revolucionários do final do século XVIII — e no Brasil não foi diferente. O questionamento sobre a viabilidade, a longo prazo, da escravidão mobilizou a criação dos primeiros projetos imigratórios visando à inserção da mão de obra livre no País. Neste capítulo, você poderá aprender a respeito da história da imigração no Brasil, com foco sobre a formação de uma nova classe trabalhadora e a importância Classe trabalhadora brasileira Ana Carolina Machado de Souza disso para a nossa formação política, social e econômica. Ademais, você poderá compreender o impacto que a imigração teve sobre o movimento abolicionista, as mudanças legislativas e o desenvolvimento do pensamento eugenista no Brasil. Os projetos de imigração Antes de o governo sancionar a vinda de imigrantes para trabalharem nas lavouras, grupos de estrangeiros chegavam ao Brasil desde o início do sé- culo XIX. Quando a corte se estabeleceu no Rio de Janeiro, em 1808, missões científicas foram autorizadas para dar seguimento a estudos sobre a fauna, a flora e as sociedades brasileiras. As missões artísticas e científicas tinham como objetivo a coleta de informações sobre a natureza e o passado colonial. Em 1816, ocorreu a Missão Artística Francesa, muito conhecida pelas imagens feitas pelo francês Jean-Baptiste Debret (1768–1848). Em 1817, teve início a Missão Austríaca, cujos cientistas faziamparte da comitiva da arquiduquesa Leopoldina (1797–1826), que vinha ao Brasil para se casar com D. Pedro I (1798–1834). A viagem de Jean-Baptiste Debret ao Brasil é retratada no livro J.-B. Debret, historiador e pintor. A viagem pitoresca e histórica ao Brasil (1816–1839), de Valéria Lima. Em 1818, D. João VI (1767–1826) assinou uma Carta Régia, na qual aceitava a vinda de um grupo de suíços para o estado do Rio de Janeiro. Eles se esta- beleceram na atual região de Friburgo, assim nomeada em homenagem ao cantão de onde vieram. No documento, o rei atestava a boa relação diplomática com a Confederação Suíça e garantia às famílias que aqui se instalariam o recebimento de terras doadas pelo Estado para cultivarem e se estabele- cerem. Esse foi um núcleo voltado totalmente para a ocupação territorial e para a diplomacia. Tal medida não se sustentou nem foi repetida, e a própria instabilidade política do Brasil auxiliou para que esse fosse o resultado. O século XIX foi muito tumultuoso no Brasil. Além das questões políticas, como a Independência, a Regência e os reinados de D. Pedro I e D. Pedro II, vários conflitos aconteceram em todas as regiões. Essas instabilidades cau- saram uma profunda crise política e econômica, que teve como uma de suas consequências diretas a dificuldade de se definir uma identidade nacional. O Primeiro Reinado (1822–1831) manteve o que havia sido feito anterior- mente, visando ao povoamento de locais estratégicos para o governo. Um bom exemplo é o Sul do País, onde as disputas territoriais com os países vizinhos Classe trabalhadora brasileira2 — alguns em processo de emancipação — eram um problema crescente. Em 1825, por exemplo, teve início a Guerra Cisplatina (1825–1827), uma disputa contra a Argentina por causa da região uruguaia, chamada Cisplatina. Núcleos coloniais como o de São Leopoldo, o de Três Forquilhas e o de São Pedro de Alcântara de Torres, todos no Rio Grande do Sul, não tinham o objetivo de contribuir para os latifúndios cafeeiros e eram financiados com verba federal. Esse direcionamento foi questionado pelos fazendeiros paulistas e cariocas, que queriam maior auxílio por parte do governo (HOLANDA, 2004). Da década de 1830 em diante, o cultivo de café começou a crescer no Su- deste. A elite agrária, por um lado, reivindicava auxílios econômicos, enquanto, por outro, criticava o processo imigratório, que não havia atingido resultados expressivos até então. Emília Viotti da Costa (1999) relata como o Império decidiu, em 1827, encaminhar alguns estrangeiros para São Paulo, na tentativa de expandir o programa; porém, essa medida também não rendeu frutos. Em 1830, foi aprovada uma nova Lei do Orçamento, que reformulou as despesas do Império. Um dos gastos que foram cortados se relacionava à imigração outorgada na Carta de 1818. Apesar das mudanças políticas e orçamentárias, nessa época o trabalho ainda se mantinha majoritariamente escravo. Foi apenas na década de 1840 que as políticas imigratórias foram postas em prática. Colônia de Parceria Em 1847, teve início o modelo de Colônia de Parceria, criado a partir do in- centivo estatal e da iniciativa privada. Nele, eram prometidas terras para os estrangeiros, que poderiam quitar o financiamento a partir da venda dos produtos cultivados. Essa “parceria” entre latifundiários e imigrantes seria o primeiro passo para a expansão do trabalho em massa. Porém, na prática, havia muitas exigências para poucos benefícios. Toque de recolher, restrição de mobilidade, não acesso à terra própria, além dos custos abusivos do deslocamento suscitaram o descontentamento dos europeus. Como diz Souza (2012, p. 87): Embora o sistema de parceria tenha sofrido alterações significativas em seus mecanismos ao longo do tempo pode-se dizer que seu cerne permaneceu prati- camente o mesmo ao longo das mais de três décadas em que foi empregado. Seus principais componentes referiam-se ao: (i) endividamento do imigrante por meio de pagamento de passagens e de adiantamentos para sua manutenção nos primeiros anos; (ii) divisão (meação) dos resultados econômicos entre o fazendeiro e o colono. Classe trabalhadora brasileira 3 Nesse caso, observa-se um choque cultural entre diferentes formas de se entender e praticar o trabalho. Os fazendeiros tratavam os estrangeiros com desconfiança e rigor, causando problemas para a efetividade de todo o sistema. Até que, em 1856, ocorreu um motim na propriedade do senador Nicolau Campos Vergueiro (1778–1859), que, segundo Boris Fausto (2002), foi fundamental para o fim do processo de parceria. Foi somente nos anos 1870 que a imigração se estabeleceu como uma polí- tica de estado para a substituição da mão de obra escravizada. As mudanças, nesse caso, eram profundas. As discussões acerca da abolição se tornaram frequentes, e a pressão externa para que o tráfico acabasse aumentava. Nesse sentido, aprovou-se em 1831 uma lei proibitiva, mas ela nunca foi aplicada de fato. Os maiores interessados nessa mudança eram os ingleses, que pressio- navam. No entanto, o número de negros sequestrados e deslocados para o Brasil continuava crescendo, acompanhando o ritmo de surgimento das fazendas de café. Então, em 1845, o Parlamento Britânico assinou o Slave Trade Suppression Act — que conhecemos como Lei Bill Aberdeen —, que autorizava a interferência direta em navios negreiros não apenas em mar aberto, mas também em águas brasileiras. A medida dos ingleses impactou diretamente o Brasil, que, mesmo contestando tal decisão, mudou a própria legislação. Em 1850, foram assinadas a Lei de Terras e a Lei Eusébio de Queirós, que atingiram a política trabalhista brasileira. A última regulava o fim do tráfico, e, dessa vez, com um sistema punitivo que ajudou na queda vertiginosa do número de africanos trazidos compulsoriamente. Já a primeira regimentava a questão da posse de terras, dificultando o acesso da população brasileira à terra, o que provocou uma maior concentração fundiária. Esse cenário impulsionou a decisão dos fazendeiros de aprovarem a vinda de mão de obra estrangeira livre. Imigração subvencionada Em 1871, foi aprovada a Lei do Ventre Livre, que promulgava a liberdade a todos os filhos de escravos nascidos depois do dia 28 de setembro. Houve uma generosa indenização aos proprietários escravistas que alforriaram as crianças, os quais, além disso, poderiam, por lei, utilizá-las como mão de obra até os seus 21 anos. Dessa forma, havia dinheiro para que os latifundiários pudessem financiar parcialmente os imigrantes. No mesmo ano, São Paulo aprovou a vinda de estrangeiros com verba provincial e federal. O estado providenciava o deslocamento até as fazendas Classe trabalhadora brasileira4 de café, e os contratantes eram responsáveis pela burocracia e por qualquer treinamento necessário. Ainda em 1871, foi criada em São Paulo a Associação Auxiliadora da Colonização, um órgão que mediava a relação entre os fazen- deiros e o Governo. Tendo sido uma das primeiras, essa associação abriu espaço para muitas outras do tipo. No caso paulista, hospedarias foram criadas para receber os europeus, que passavam por exames e, se preciso, eram encaminhados para algum tipo de quarentena. Em 1884, o valor dos escravos subiu — pois havia diminuído a quantidade de mão de obra disponível —, causando mais interesse por parte da elite. Desse momento em diante, a política imigratória se estabeleceu (LIMA, 2017). É importante destacar que, assim como outras medidas implementadas no Brasil, não houve homogeneidade na imigração. A esse respeito, Sílvia Lara (1998, p. 28–29), recorrendo a citações de Almada (1984), diz: Tão importante quanto a cristalização dos termos constituintes da “teoria da substituição” foi o fato de que os estudos empíricos a este respeito incidiram quase sempre sobre São Paulo, acarretando que a assim entendida “experiência paulista das fazendas de café” se configurasse como um paradigma explicativo de todo o processo,em todo o Brasil. vários estudos regionais já demonstraram claramente como, em outras regiões, a questão se colocava de modo diverso, com o aproveitamento do “elemento nacional”. [...] na Zona da Mata mineira, por exem- plo, os fazendeiros preferiram realizar contratos de parceria com trabalhadores residentes, recorrendo ao assalariamento temporário de migrantes sazonais vindos de outras regiões do Estado. No Espírito Santo, somente os fazendeiros mais ricos recorreram à imigração. A maioria acabou optando por “‘contratados’ por um ano, por ‘camaradas’ pagos por mês, ou, mais ainda, por ‘jornaleiros’, pagos por dia”. Ou seja, não se pode perder de vista que a experiência imigratória foi diversa, assim como o processo de abolição. É por isso que se tornam im- portantes estudos regionais que agreguem mais informações acerca dos eventos localizados. Grupos imigratórios O Brasil recebeu pessoas de muitas nacionalidades desde a colonização. Espanhóis, portugueses, holandeses, franceses circulavam pela colônia muito antes da chegada da Família Real. Mesmo com as políticas de imigração, esses grupos mantiveram o deslocamento para a América; porém, eles deixaram de ser os únicos. No século XIX, o maior contingente de imigrantes era da Itália; depois, da Alemanha; e, depois, da Síria e do Líbano. Foram esses os princi- pais beneficiados com o programa de busca de trabalhadores assalariados e Classe trabalhadora brasileira 5 livres. Já no período republicano, em 1908, os japoneses aportaram no Brasil, formando a maior comunidade nipônica fora do Japão. Outros grupos, como chineses, sul-americanos (bolivianos e venezuelanos) e haitianos também se estabeleceram no País, mas em condições diferentes das dos citados anteriormente. Em 1930, após a tomada de poder por parte da Aliança Liberal, Getúlio Vargas (1882–1854) assinou o Decreto nº 19.482, que limitava indiretamente a entrada de estrangeiros no País. Segundo Endrica Geraldo (2009), a medida restringia também a contratação de mão de obra estrangeira por parte dos empregadores, que eram obrigados a ter pelo menos 2/3 das vagas preen- chidas por brasileiros. É a partir desse momento que ocorre uma mudança significativa na formação da classe trabalhadora do Brasil, que passa a ob- servar e enfatizar os domiciliados e natos no País, devido ao fim da entrada incessante de imigrantes. Alemães e italianos Tanto a Alemanha quanto a Itália só se tornaram países em 1871. Até então, havia disputas de poder entre o Império Austro-Húngaro e a Prússia, no caso dos alemães, e entre diversos governos que ocupavam a Península Itálica. Isso demonstra que ambos passaram por profunda instabilidade política e econômica, inclusive após a unificação. No caso da imigração alemã, os primeiros grupos rumaram para o Brasil ainda na década de 1820. Nessa época, a expansão napoleônica e o cresci- mento da influência comercial e industrial inglesa pressionavam sobretudo a Prússia, maior reino da região. Os alemães buscavam, além disso, o desen- volvimento econômico e a modernização do estado, sendo que a participação na colonização da África e da Ásia era uma meta dentro desse processo. A maioria dos imigrantes alemães que vieram para o Brasil se estabeleceu no Sul, que manteve os incentivos mesmo com a Lei do Orçamento de 1830. Segundo Magalhães (1993, p. 14): Para contornar a oposição que lhe faziam as elites brasileiras, o governo imperial transferiu, por meio de um Ato Adicional em 1824, aos poderes provinciais a inicia- tiva de fomentar a imigração por conta própria. Nas décadas que se sucederiam, Santa Catarina e Rio Grande do Sul passariam a contar com um conjunto de leis que favoreciam a vinda de trabalhadores estrangeiros para seus territórios, em caráter oficial. Classe trabalhadora brasileira6 A maioria das colônias dos 119.300 alemães que chegaram ao Brasil de 1820 a 1909 foi construída no atual Rio Grande do Sul (MAGALHÃES, 1993). Desse modo, a identidade sulista está intimamente conectada à chegada desses grupos, que tinham o objetivo de ocupar o espaço e consolidar a fronteira brasileira. Os índios e os brasileiros nativos não eram reconhecidos, assim, como parte do projeto de povoamento. Dentro dessa mentalidade cresce a ideia de uma política eugenista, que teve seu início marcado pela tentativa de “branqueamento” da população brasileira (SANTOS, 2017, p. 236). Os italianos, por sua vez, chegaram massivamente após 1870. Apesar de muitos terem partido para os Estados Unidos, a propaganda promovida pelo Império brasileiro, com a ajuda dos fazendeiros de café, chamou a atenção principalmente da população camponesa. Entre 1884 e 1923, cerca de 1.331.158 de italianos migraram para o Brasil, sendo Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo os estados que mais os receberam (IBGE, 2000). Na província paulista, o crescimento do número de italianos foi exponencial. A maioria deles se destinou à lavoura, mas as condições de trabalho não haviam mu- dado tanto em relação às primeiras experiências. Outros se instalaram em cidades maiores, como São Paulo, as quais ainda não tinham se modernizado e estruturado, causando, por exemplo, o surgimento de moradias precárias (COSTA, 1999). Em 1889, o governo italiano promoveu sanções temporárias para o projeto de imigração brasileiro por causa dos problemas nos trabalhos disponibi- lizados. A repreensão se tornou medida legislativa com o Decreto Prinetti, assinado em 1902, que proibia a imigração subsidiada. Segundo Hutter (1987, p. 63): O Decreto Prinetti, contrariamente ao que se diz, não foi uma medida tomada contra o Brasil, nem mesmo contra a emigração italiana para cá. Apenas proibia a vinda de emigrantes italianos com passagens gratuitas. Era livre a vinda de cidadãos que tivessem meios e se dispusessem a emigrar para o Brasil. O decreto não fazia mais do que determinar a suspensão de uma licença especial concedida a algumas companhias de navegação para transportar, gratuitamente, emigrantes italianos para o Brasil. Proibia, também, que gentes recrutassem, na Itália, emigrantes, destinando-os ao Brasil. Entre 1886 e 1888, o Brasil recebeu mais de 80 mil italianos, que esta- beleceram aqui suas identidades e particularidades sociais e, desse modo, exerceram influência sobre o desenvolvimento cultural tanto da região Sul quanto de São Paulo. É importante destacar que muitos dos imigrantes re- tornaram à sua terra natal: dos 1.895.000 que aportaram em Santos entre 1892 e 1930, cerca de 1.017.000 deixaram o Brasil. Contudo, o impacto desse Classe trabalhadora brasileira 7 deslocamento foi fundamental para se entender a construção da ideia de classe trabalhadora, que será discutida mais à frente. Japoneses e outros grupos Em 18 de junho de 1908, aportou em Santos o navio Kasato Maru, transpor- tando cerca de 781 japoneses, que se destinaram às lavouras de café paulistas (Figura 1). Porém, essa não foi a primeira vez que japoneses vieram para o Brasil. Desde meados do século XIX, um grande número de pessoas emigrou do Japão com a intenção de se estabelecer em locais como os Estados Unidos — principalmente no Havaí — e em outros países latino-americanos (SILVA, 2017). Essas iniciativas migrantes eram apoiadas pelo governo japonês, que, com isso, objetivava contornar os problemas econômicos enfrentados pelo país e o superpovoamento das ilhas. Foi, então, a partir de 1880 que políticos japoneses começaram a viajar ao Brasil para inspecionar as condições de trabalho oferecidas pelo País. Após concordarem com as medidas estabele- cidas aqui, a imigração foi liberada. De início, as tentativas individuais foram incentivadas, mas tiveram pouco impacto no cenário brasileiro. Apenas em 1908, com a revalorização do preço do café e a necessidade de suprir a falta de mão de obra italiana — decrescente desde o Decreto Prinetti —, a vinda dos japoneses se tornou parte da política subvencionada (SUZUKI, 1995). Classe trabalhadora brasileira8Figura 1. Primeira página da lista de passageiros do Kasato Maru. Fonte: Pacific Steam Navigation Company (1908, documento on-line). Classe trabalhadora brasileira 9 A imigração subvencionada foi a realidade brasileira até 1924, mas há um fator interessante nesse processo. O privilégio estava, sempre, com os europeus, isto é, enquanto italianos, alemães, suíços, etc. decidissem migrar para o Brasil, o subsídio iria para eles. No entanto, embora fosse reparável a xenofobia contra os orientais, a vinda de japoneses para o Brasil continuou. Entre a Primeira Guerra Mundial (1914–1918) e a Segunda Guerra Mundial (1939–1945), cerca de 130 mil japoneses se instalaram no País (IBGE, 2000), sobretudo no interior de São Paulo e no Paraná. No século XIX, a questão da eugenia se tornou parte da discussão — e da prática — intelectual brasileira e europeia. O “darwinismo social” e as intenções civilizatórias embasaram a vinda dos europeus, que foi justificada como parte da necessidade de “branquear a população”. Porém, os discursos nacionalistas também exerceram influência sobre as políticas proibitivas. Um exemplo disso foi Oliveira Vianna (1883–1951), jurista e sociólogo fluminense que influenciou diretamente na construção da legislação trabalhista, inclusive nos decretos e nas leis que barraram paulatinamente a imigração por motivos nacionalistas e xenofóbicos. Você pode encontrar mais detalhes sobre esse assunto na obra O charme da ciência e a sedução da objetividade: Oliveira Vianna entre intérpretes do Brasil (2005), de Maria Stella Martins Bresciani. Durante a Era Vargas, como visto, a subvenção foi cortada, tornando a imigração uma iniciativa individual e privada. Porém, a influência japonesa se manteve, sobretudo na questão tecnológica. Mesmo com a derrota sofrida na Segunda Guerra Mundial e os ataques nucleares às cidades de Hiroshima e Nagasaki, o Japão conseguiu se reorganizar economicamente e criou empresas de ponta, como a Panasonic, a Toyota, a Honda e a Nissan, que construíram sedes no Brasil a partir da década de 1950 (GÓES, ASSUMPÇÃO; SANCHEZ, 2020). Vale destacar que, a partir do período Vargas, notoriamente naciona- lista, as primeiras indústrias eletroeletrônicas e automobilísticas passaram a se instalar por aqui, mas foi apenas nos anos 1960 que as multinacionais receberam incentivos do Estado para escolherem o Brasil. Outros grupos, como os sírio-libaneses, imigraram para o Brasil na in- tenção de escapar da instabilidade política, que é contínua na região do Oriente Médio. A maioria desses grupos se manteve nas grandes cidades brasileiras, dando início a comércios locais, ou, com a mesma finalidade, viajaram como mascates para o interior. Embora São Paulo tenha recebido a maior parte desse contingente, estudos recentes tentam mapear e rastrear a sua interiorização, estabelecendo a sua importância cultural, social e po- Classe trabalhadora brasileira10 lítica em distintos locais. Diferentemente dos grupos anteriores a eles, os sírio-libaneses não foram subsidiados, pois outros tipos de relações foram instaurados. De acordo com Truzzi (2019, p. 3): O papel das redes migratórias formadas tanto por parentes quanto por conterrâneos foi muito importante. [...] Aos poucos, na terra de origem formou-se de certo modo uma cultura migratória, pelo menos em parte responsável por mobilizar contin- gentes expressivos em direção à “América”, onde quer que fosse compreendida. De fato, a acolhida por redes foi muito comum e bastante importante, pois, desse modo, o grosso dos imigrantes não chegava aqui sem nenhuma referência. Apesar da forte influência cultural no Brasil, a população sírio-libanesa imigrou de forma particular, sem incentivo estatal. Isso corrobora a ideia de predileção por imigrantes brancos e europeus para ocupar o território bra- sileiro. O negro, apesar de livre no século XX, sofria sanções sociais só pelo fato de ser descendente de escravos. A partir do momento em que o sistema escravista foi destituído formalmente, não houve um programa governa- mental que visasse à inserção dessas pessoas no mercado de trabalho mais qualificado. Eles continuaram a exercer funções mal remuneradas e tinham o acesso à educação dificultado pelas necessidades de sobrevivência. As taxas de analfabetismo eram altas e as condições de moradia não eram as ideais, causando um efeito bola de neve na constituição das classes econômicas brasileiras. Além disso, o próprio brasileiro nativo foi preterido pelo Estado quando se buscaram imigrantes para ocupar territórios com alto risco de invasão estrangeira. Esses pontos de vista foram desenvolvidos durante décadas pela his- toriografia, que só começou a discutir o papel dos pobres, dos negros e de outras minorias a partir da década de 1970. Até então, os grandes modelos explicativos privilegiavam as análises macro, silenciando as memórias de grupos inteiros. E isso não foi diferente com a análise da classe trabalhadora. As questões da classe trabalhadora A formação da classe trabalhadora é um dos temas mais debatidos na histo- riografia nacional. Uma das características apontadas por esta é que, durante muito tempo, se considerou “classe trabalhadora” aqueles que imigraram para o Brasil. Brasileiros, índios, negros escravizados (ou libertos) não eram conhecidos como parte da mão de obra que havia auxiliado na construção do País. Isso se dá porque se estabeleceu que o estudo sobre o trabalho estava Classe trabalhadora brasileira 11 relacionado ao operariado, e pouco se discutia as relações construídas na lavoura, por exemplo. Como diz Cláudio Batalha (2000, p. 7): A imagem mais corrente do operariado na Primeira República é a do italiano anarquista. Caricata, ela reúne dois componentes fundamentais: por um lado, a associação automática entre trabalhador e imigrante — este, por sua vez, reduzi- do ao italiano; por outro, a atribuição de um ideário único, o anarquismo, àquele movimento histórico. A experiência dos trabalhadores brasileiros é plural, e essa abordagem restritiva já foi contestada pelos historiadores. Ela surgiu a partir de ideali- zações acerca do que era o trabalhador, o imigrante e o cidadão. A história da historiografia brasileira analisa, entre várias temáticas, o surgimento da área de História Social do Trabalho, que aborda a macro perspectiva sobre o contexto das políticas relacionadas ao trabalho, assim como o ponto de vista micro, de trabalhadores que fizeram parte dessa construção. Para melhor compreender a complexidade desse campo de estudos, leia A Justiça do Trabalho e sua história (2013), livro organizado por Ângela de Castro Gomes e Fernando Teixeira da Silva, e A história do trabalho: um olhar sobre os anos 1990 (2002), de autoria de Claudio H. M. Batalha. Correntes ideológicas como o Anarquismo, o Socialismo e o Comunismo surgiram na Europa, durante o século XIX, a partir da crítica ao Capitalismo. Era um momento de crise social intensa, sobretudo por conta das modificações causadas pela Revolução Industrial, em 1760, e pelos seus desdobramen- tos no século seguinte. Pessoas como Saint-Simon (1760–1825) e Proudhon (1804–1865) discutiam a exploração do trabalho e criavam suas próprias respostas, teóricas e/ou práticas, para que a situação mudasse (BATALHA, 2000). Porém, o filósofo mais conhecido e influente desse período foi Karl Marx (1818–1883), que se aprofundou na análise sobre o Capitalismo e apre- sentou soluções para superá-lo. Essa tendência, que embasou movimentos revolucionários e trabalhistas na Europa, também viajou para o Brasil com os europeus. Segundo Batalha (2000, p. 37–38), a organização dos trabalhadores, independentemente da ideologia, estava relacionada aos maus tratos e à pouca regulamentação das atividades: Classe trabalhadora brasileira12 A República trouxe inicialmente esperança, que logo deu lugar à decepção, àqueles que buscavam obter a regulamentação do trabalho e a garantia de direitos políticose sociais através da organização dos trabalhadores. Mesmo a parca legislação aprovada visando à melhoria das condições de trabalho — como o decreto 1.313 de 1891 regulamentando o trabalho de menores nas fábricas do Distrito Federal — ficou só no papel, pela falta de vontade política e de uma estrutura de fiscalização para seu cumprimento. O que a historiografia fez foi marginalizar os trabalhadores brasileiros ao transformar as associações de imigrantes em protagonistas nas ações afirmativas e contestatórias sobre a realidade trabalhista. Autores da pri- meira metade do século XX pouco analisavam os eventos do seu presente, e um exemplo disso foi a greve geral de 1917, que só ganhou destaque após os anos 1970. A greve geral de 1917 aconteceu na cidade de São Paulo e é conhecida como uma das principais mobilizações sociais da Primeira República, tendo ocorrido no governo de Venceslau Brás (1914–1918). Nessa época, o trabalho no Brasil não era regulamentado, ou seja, eram os contratantes que estipulavam as regras. Então, devido à insalubridade e à falta de direitos básicos, operários do setor têxtil, entre os quais havia muitas mulheres e crianças, decidiram se organizar. O motim teve início no Cotonifício Crespi, no bairro da Mooca, após os em- presários terem se recusado a melhorar as condições de trabalho, imposto um terceiro turno de produção e não terem aumentado os salários. Em seguida, outras indústrias aderiram à greve — que havia começado com 400 pessoas se recusando a trabalhar —, causando um dos maiores movimentos organizados no Brasil até então. Para expandir o assunto, você pode ler o artigo “A greve geral de 1917 em São Paulo e a imigração italiana: novas perspectivas” (2009), de Luigi Biondi. Devido à falta de atenção aos movimentos dos trabalhadores, quem contou essa história, de início, foram os próprios militantes, que produziam análises e interpretações acerca das ações realizadas naquela época. Dessa forma, levantaram a sua voz face a uma produção historiográfica que privilegiava outras perspectivas. Contudo, foi apenas a partir da década de 1970 que ganharam espaço novas abordagens — que incluíram as minorias históricas. A população negra, por exemplo, era pouco citada até os anos 1930, quando estudos clássicos como os de Gilberto Freyre (1900–1987), Sérgio Buarque de Holanda (1902–1982) e Caio Prado Júnior (1907–1990) começaram a discutir a importância dessa população para a formação da sociedade brasileira. Mesmo assim, esses estudos tinham um viés macro, não apontando as par- Classe trabalhadora brasileira 13 ticularidades do processo de escravidão e das suas consequências para o presente. Freyre, aliás, ajudou a cunhar o conceito de democracia racial, que até hoje traz problemas para a compreensão do racismo estrutural brasileiro. A década de 1970 é um marco na historiografia, visto que muitas trans- formações importantes ocorreram na época. Enquanto a História Cultural era delineada a partir do desenvolvimento da Escola dos Annales, surgida em 1927, e da inserção de disciplinas como Antropologia e Linguística, a História do Trabalho sofria influência dos estudos sociais, da micro-história e do questionamento sobre o marxismo ortodoxo. Nos anos 1960, surgiu na Inglaterra a New Left Review, revista acadêmica que deu espaço a novas formas de pensamento para além da estrutura fixa criada a partir da teoria de Marx. Um dos principais representantes dessa mudança foi E. P. Thomp- son (1924–1993), que ajudou no estabelecimento da ideia “a história vista de baixo”, a qual destacava a memória do operário e da cultura de classe a que ele pertencia. O foco analítico mudou, e o autor consolidou esse campo de estudo em 1963 com a publicação de A formação da classe operária inglesa, que marcou os estudos do trabalho no Brasil. Por meio da leitura de processos judiciais e das memórias passadas, além da busca por evidências nos mais variados arquivos, os historiadores passaram a escrever sobre os trabalhadores e analisar as suas experiências. Foi a partir disso que se instituiu e compreendeu a amplitude da classe trabalhadora brasileira, que ia muito além da história imigrante. É importante apontar que trabalhadores e operários, apesar de serem usa- dos como sinônimos, conceitualmente são diferentes. Esse paradoxo reside no fato de que os operários são os trabalhadores que surgiram com a Revolução Industrial, tendo, portanto, qualificações e necessidades específicas. No caso do Brasil, essa mudança ocorreu no final do século XIX, pois, embora seja um país agrário-exportador por essência — e assim tenha permanecido por muito tempo ao longo do século XX —, houve a necessidade de diversificar a economia. A centralização econômica ocorreu no Sudeste, principalmente em São Paulo e Minas Gerais, região que, com o dinheiro do café, passou a se modernizar e industrializar. Alinhada a esse cenário, a classe operária se desenvolvia. Muitos imigrantes vieram nas décadas de 1910 e 1920 para suprir a necessidade de mão de obra. Contudo, houve muita migração interna, com a saída de brasileiros de várias regiões com destino a São Paulo, o que em 10 anos mudou a situação dos operários, com os europeus se tornando minorias. Ao longo de toda a sua história, o Brasil experienciou conflitos motivados pelos abusos no trabalho. Assim, outra ideia que se coloca é expandir o con- ceito de trabalhadores para o período colonial, pois boa parte da produção Classe trabalhadora brasileira14 historiográfica enfatizava os acontecimentos da Primeira República e da Era Vargas. As revoltas nativistas nos séculos XVII e XVIII, por exemplo, reivindica- vam melhores condições de trabalho para os colonos, que eram explorados e não possuíam poder ou representatividade política. Isso também ocorreu com as revoltas separatistas do século XVIII, que visavam à emancipação. Já no período independente, as revoltas regenciais buscavam a separação de algumas regiões, ou contestavam as políticas restritivas em relação ao uso de mão de obra, como na Cabanagem. Tanto a escravidão quanto o trabalho livre eram políticas de trabalho que se baseavam na exploração, e, até a aprovação da Legislação Trabalhista, em 1943, a situação pouco mudou. Referências BATALHA, C. H. M. O movimento operário na Primeira República. Rio de Janeiro: Zahar, 2000. COSTA, E. V. Da monarquia à república: momentos decisivos. São Paulo: Editora UNESP, 1999. FAUSTO, Boris. História do Brasil. 10. ed. São Paulo: EDUSP, 2002. GERALDO, E. 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Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. Classe trabalhadora brasileira 17 OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM > Descrever a política brasileira que estimulou a imigração de europeus. > Avaliar os efeitos dessa imigração sobre a política, a economia e a sociedade brasileira. > Identificar as mudanças sociais decorrentes da chegada de imigrantes no século XX. Introdução Entre os séculos XIX e XX, o Brasil recebeu um dos maiores fluxos imigratórios da história humana. Nesse período, imigrantes vindos de todos os continentes chegaram ao País e construíram suas vidas, formando a classe trabalhadora moderna brasileira. Contudo, esse processo não foi isento de contradições, já que, por um lado, a vinda dos imigrantes contribuiu para o desenvolvimento econômico e social do Brasil, mas, por outro, empurrou a população negra para uma marginalidade cada vez maior no pós-abolição. A presença dos imigrantes e a formação da classe trabalhadora no Brasil Eduardo Pacheco Freitas Estudar a história da imigração brasileira e da formação da força de traba- lho do País em um momento em que ele se industrializava é fundamental para compreender os aspectos do Brasil contemporâneo, tais como a influência das diversas culturas estrangeiras, as raízes da desigualdade social e a participação de descendentes de imigrantes na construção do Brasil da atualidade. Neste capítulo, você conhecerá a política brasileira em relação aos imigrantes nos séculos XIX e XX. Além disso, conhecerá os efeitos da imigração sobre elementos diversos da sociedade brasileira. Por fim, você verá quais transformações sociais ocorreram a partir da chegada dos imigrantes. A imigração europeia no Brasil A questão da imigração do Brasil remonta ao período colonial, tendo as suas origens em 1808, quando D. João VI, manifestando uma grande preocupação em ocupar o território brasileiro, permitiu que imigrantes de outros países que não Portugal pudessem vir e se estabelecer no Brasil (VIEIRA, 2007). Mais adiante, ainda no século XIX, dois discursos principais caracterizaram o debate sobre a imigração no Brasil. O primeiro deles girava em torno do suposto avanço civilizatório que o Brasil perceberia com a vinda dos imigrantes europeus para o País. É importante destacar que a escravidão africana ainda vigorava no País, porém as elites proprietárias já elaboravam ideias sobre a substituição da mão de obra escrava por trabalhadores livres. Desse modo, o imigrante europeu serviria a dois propósitos: ocupar, na cadeia produtiva, o espaço que era dos escravos; e promover o embranquecimento da população brasileira (MENEZES, 2014).