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FARMACOLOGIA III Insulinoterapia INTRODUÇÃO DIABETES MELLITUS TIPO 1 O diabetes tipo 1 (DM1) caracteriza-se basicamente pela destruição seletiva (auto-imune) das células beta pancreáticas com deficiência grave ou absoluta de insulina. Nos indivíduos com diabetes tipo 1, a terapia de reposição com insulina é necessária para manutenção da vida. A farmacologia da insulinoterapia no paciente DM1 visa abranger as diferentes preparações de insulina, suas características farmacocinéticas e farmacodinâmicas, bem como os seus possíveis efeitos adversos. DIABETES MELLITUS TIPO 2 O diabetes tipo 2 (DM2) caracteriza-se por resistência insulínica, com deficiência relativa na secreção do hormônio. A dieta (principalmente restrição de carboidratos) e atividade física são parte importante do tratamento do DM2, constituindo o que chamamos de mudança de estilo de vida (MEV). A farmacoterapia do DM2 aborda antidiabéticos orais e injetáveis, sua farmacocinética e farmacodinâmica, bem como a avaliação clínica para a indicação de cada fármaco deste grupo. PÂNCREAS O pâncreas é formado por duas porções: Porção exócrina: formada pelos ácinos, que secretam suco digestivo no duodeno Porção endócrina: formada pelas ilhotas pancreáticas, constituída por diversos tipos celulares, entre eles: ● Célula β (65%): produz insulina, um hormônio HIPOglicemiante, que sinaliza os tecidos alvos para os transportadores de glicose (GLUT), que carreiam glicose para o interior de células insulinodependentes; ● Célula α (20%): produz glucagon, hormônio HIPERglicemiante, que estimula a quebra de glicogênio hepático para obtenção de glicose nos momentos de jejum SECREÇÃO DE INSULINA Existem diversos fatores que alteram a secreção de insulina, seja estimulando-a ou inibindo-a. FATORES QUE ESTIMULAM SECREÇÃO DE INSULINA FATORES QUE INIBEM SECREÇÃO DE INSULINA Hiperglicemia (principal) Aminoácidos Ácidos graxos de cadeia longa Hormônios gastrointestinais (incretinas) Sulfoniluréias Alfa adrenérgicos Estresse Diuréticos Beta bloqueadores INCRETINAS Ao se alimentar, as células L do trato gastrointestinal liberam as incretinas, também chamadas de hormônios gastrointestinais: GLP1 e GIP. Estas incretinas vão no pâncreas, encontram receptores nas células beta e os ativam, fazendo com que a célula secrete insulina. Simultaneamente, as incretinas ativam receptores nas células alfa pancreáticas, reduzindo a liberação de glucagon. Estes hormônios têm meia vida curta (1 a 3 minutos), pois a enzima DPP-4 os degrada rapidamente. ➔ São chamados de incretinas pois eles incrementam a secreção de insulina. ➔ Pacientes diabéticos têm deficiência das incretinas. SISTEMA NERVOSO AUTÔNOMO SIMPÁTICO O pâncreas possui inervação do sistema nervoso autônomo, e o mais relevante é a inervação simpática. Há um receptor alfa 2, que toda vez que é ativado, reduz a secreção de insulina. E há um receptor beta 2, que toda vez que é ativado, aumenta a secreção de insulina. ➔ Betabloqueador (ex: propranolol) pode piorar o perfil glicêmico, pois ao bloquear o receptor beta2 na célula pancreática, reduz a secreção de insulina. Mesmo com essa ação, não é contraindicação usar betabloqueador em pacientes diabéticos. ➔ Medicamentos alfa-adrenérgicos podem piorar o perfil glicêmico pois ao ligar ao receptor alfa2, reduz a secreção de insulina. ESTRESSE Em situações de estresse (cirurgias, sepse, politraumas), há liberação de um hormônio contrarregulador, o qual realiza estimulação simpática por meio da noradrenalina, a qual ativa o receptor alfa 2, reduzindo a secreção de insulina. DIURÉTICOS Diuréticos tiazídicos e de alça são depletores de potássio, assim, fazem com que as células beta pancreáticas percam potássio, Assim, não haverá despolarização da membrana e abertura dos canais de Ca2+, reduzindo a secreção de insulina. ➔ Mesmo com esse efeito, diuréticos não são contraindicados em pacientes diabéticos. Sulfoniluréia: grupo de antidiabéticos orais que inibem canais de potássio,aumentando a secreção de insulina. Greicielle Ramos FISIOLOGIA DA SECREÇÃO DE INSULINA O principal estímulo para a secreção de insulina é o aumento da glicemia (hiperglicemia). A glicose é transportada para dentro da célula beta pancreática via GLUT, e é metabolizada por algumas enzimas, gerando ATP. O aumento dos níveis de ATP inibe os canais de potássio (K+) da membrana, aumentando o potássio intracelular e levando à despolarização da membrana. Isso abre canais de cálcio, aumentando o cálcio intracelular, o cálcio contrai o sistema de microtúbulos provocando exocitose e liberação de insulina na circulação sanguínea. MECANISMO DE AÇÃO A insulina ativa o receptor tipo tirosinocinase nos tecidos alvos: músculo, tecido adiposo e fígado. Ela liga na face externa do receptor, mudando a conformação do mesmo, causando sua fosforilação e gerando substrato intermediário que ativa proteínas intracelulares e vias que geram o efeito final: translocação dos receptores GLUT para a membrana celular, possibilitando a entrada de glicose na célula. ➔ Resistência à insulina: pode ocorrer por dificuldade de ligação ao receptor ou problema na via intrínseca. IMPORTÂNCIA DO EXERCÍCIO FÍSICO O exercício contribui para a perda de peso, melhorando a sensibilidade dos tecidos à insulina (reduzindo a resistência à insulina), e ativa vias intracelulares aumentando a exposição de GLUT na membrana e promovendo maior utilização da glicose, consequentemente reduzindo os níveis de glicose circulante. EFEITOS FISIOFARMACOLÓGICOS DA INSULINA Os efeitos fisiológicos ocorrem quando há liberação endógena de insulina, e os efeitos farmacológicos quando se está administrando insulina exógena no paciente. A insulina é o principal hormônio responsável pelo metabolismo de carboidratos, proteínas e lipídeos - ela sinaliza os tecidos para fazer anabolismo (síntese), e simultaneamente inibe o catabolismo (quebra). AÇÕES ANABÓLICAS As ações anabólicas são as de síntese e armazenamento. A insulina estimula: ● Incorporação (armazenamento) de glicose no músculo e no tecido adiposo ● Lipogênese (síntese de lipídeos) ● Glicogênese (síntese de glicogênio) ● Síntese de proteínas ● Incorporação de íons na célula (potássio e fosfato) INIBIÇÃO DE AÇÕES CATABÓLICAS A insulina inibe as ações catabólicas, ou seja, impede a quebra. Ela inibe os seguintes processos: ● Gliconeogênese - formação de glicose a partir de material não glicídico ● Glicogenólise ● Lipólise ● Cetogênese - formação de corpos cetônicos ● Proteólise No paciente diabético, há predomínio de ações catabólicas (quebra), e redução de ações anabólicas (síntese) - deixando de fazer reserva e está com catabolismo acelerado. CLASSIFICAÇÃO DAS INSULINAS (DROGA) As insulinas utilizadas atualmente são insulinas humanas sintéticas, tendo menos efeitos adversos que as utilizadas antigamente (provenientes de bois e suínos). No tratamento de manutenção, a via de administração é subcutânea, já na emergência é geralmente endovenosa. Existem diversas preparações de insulina, que são classificadas de acordo com sua cinética. Greicielle Ramos INSULINA DE AÇÃO ULTRA RÁPIDA (curva rosa) ● LISPRO ● ASPARTE/ASPARTATO ADMINISTRAÇÃO: via subcutânea, pré prandial (1 a 10 minutos antes da alimentação) É para terapia de manutenção, e a administração é pré prandial para controlar o pico glicêmico que ocorre após a refeição. ➔ São preparações mais novas e, portanto, de maior custo. INSULINA DE AÇÃO RÁPIDA (curva cinza) ● INSULINA REGULAR/SIMPLES) ADMINISTRAÇÃO: via subcutânea, pré prandial (30 a 45 minutos antes da alimentação) É para terapia de manutenção, e a administração é pré prandial para controlar o pico glicêmico que ocorre após a refeição. ➔ É uma preparação mais antiga, de menor custo, e bem utilizada no Brasil. ➔ Pode ser usada via EV pois é uma solução, diferentemente das outras preparações, que são suspensões. COMA HIPERGLICÊMICO OU CETOACIDOSE (emergências diabéticas) - deve ser revertido rapidamente com administração de insulina regularvia endovenosa. A insulina, neste caso, vai rapidamente inibir a produção hepática de glicose, inibindo a glicogenólise e gliconeogênese, mas principalmente a cetogênese, diminuindo a produção de corpos cetônicos corrigindo a cetoacidose apresentada pelo paciente. INSULINA DE AÇÃO INTERMEDIÁRIA (curva azul) ● NPH (neutra com protamina) ADMINISTRAÇÃO: via subcutânea, 1 a 2x ao dia (geralmente pela manhã e à noite) É para terapia de manutenção, e o modo de administração visa ‘imitar’ a liberação basal de insulina. Demora mais para ser absorvida, pois a protamina é uma proteína que retarda a absorção. ➔ Tem um custo baixo, e está disponível no SUS. INSULINA DE AÇÃO LONGA / PROLONGADA (curva vermelha) ● GLARGINA ADMINISTRAÇÃO: via subcutânea, 1x ao dia. É para terapia de manutenção, e o modo de administração visa ‘imitar’ a liberação basal de insulina. Este tipo de insulina não dá pico (diferente de todas as outras), pois é absorvida e mantém o nível plasmático efetivo sem variação (sem picos) durante todo o dia, havendo menor risco de hipoglicemia. ➔ É uma preparação mais nova (maior custo). ESQUEMA DE TRATAMENTO No perfil insulínico normal (fisiológico), há um nível basal de insulina, pois o pâncreas fica liberando uma certa quantidade constantemente, e, a partir do momento da alimentação, em que há uma alta carga de carboidrato, a glicemia sobe rapidamente, provocando um pico de liberação de insulina. Ela exerce seu efeito, vai sendo metabolizada e eliminada, retornando aos níveis basais. No paciente diabético que necessita de insulina exógena, deve-se tentar reproduzir o perfil insulínico ao máximo perto da fisiologia (diferente para cada paciente). Pode-se associar 2 preparações diferentes: ● Uma para manter os níveis basais: insulina de ação intermediária ou longa ● Uma para conter o pico glicêmico: insulina de ação ultra rápida ou rápida - administradas no momento pré prandial (antes de se alimentar) Nem todo paciente vai usar uma associação: tem paciente que tem hiperglicemia persistente pós carga (após refeições), mas no jejum está boa. Há outro, que mesmo no jejum, a glicemia está alta. Os dispositivos existentes para aplicação da insulina são: seringa, canetas (reutilizáveis, descartáveis), bomba de infusão. INDICAÇÕES A insulinoterapia é indicada nos seguintes casos: ● DM tipo I ● DM tipo II ● Diabetes gestacional ● Cetoacidose diabética ● Coma hiperglicêmico ● Controle perioperatório Greicielle Ramos O que é mais seguro para tratar diabetes na gestação é a insulina. Se tomava antidiabético oral, interrompe e introduz a insulina. Uma das únicas drogas que pode ser mantida (se a paciente já for diabética e já utilizar droga via oral), junto com a insulina, é a metformina (usar se não for possível usar somente insulina). REAÇÕES ADVERSAS HIPOGLICEMIA (principal efeito adverso, comum) - ocorre por: dose além da necessidade, atraso de refeição, atividade física exagerada ou não habitual. O paciente em hipoglicemia apresenta confusão mental e rebaixamento de consciência. Tratamento da hipoglicemia: ● Paciente consciente e deglutindo → fornecer qualquer alimento contendo açúcar ● Paciente inconsciente → administrar glicose via endovenosa ALERGIA E RESISTÊNCIA - Atualmente é difícil ocorrer alergia, pois as preparações são com insulina humana sintética (antigamente era proveniente do porco e do boi). Se ocorrer, trocar a preparação. LIPODISTROFIA - pois a insulina faz reserva no tecido adiposo, podendo formar nódulos de gordura no tecido adiposo subcutâneo devido à injeção repetida no mesmo local. Por isso é importante fazer rodízio dos locais de administração. INDICAÇÕES DO USO DE INSULINA NO DM2 O uso de insulina é indicado no tratamento do diabetes tipo 2 (resistente à insulina), nos seguintes casos: ● Descompensação cetótica e não cetótica ● Hiperglicemia apesar do tratamento oral combinado ● Gravidez - insulina é o tratamento mais seguro neste caso ● Glicemia de jejum ≥ 250 mg/dL - neste caso, a meta de redução não consegue ser atingida somente com o uso de drogas antidiabéticas, sendo necessário insulinoterapia Greicielle Ramos FARMACOLOGIA III Hipoglicemiantes DIABETES TIPO 2 No diabetes tipo 2, o principal mecanismo é a resistência periférica à insulina, devido a vários mecanismos. Mas essa insulino-resistência a também pode vir acompanhada de insulinodeficiencia, conforme ocorre o declínio / exaustão das células beta pancreáticas. ANTIDIABÉTICOS ORAIS SULFONILURÉIAS MECANISMO DE AÇÃO: se ligam aos canais de potássio na célula beta pancreática, mantendo-os fechados e impedindo a saída de potássio;assim ocorre despolarização, com abertura de canais de cálcio, e conforme o cálcio adentra a célula vai provocando a secreção de insulina. São medicamentos considerados secretagogos, pois estimulam a secreção de insulina. 1ª GERAÇÃO - uso está sendo abandonado, visto que possui mais efeitos colaterais. ● CLORPROPAMIDA 2ª GERAÇÃO ● GLIBENCLAMIDA 2ª GERAÇÃO MELHORADA - dar preferência à esta geração, pois as drogas são mais seguras e o risco de hipoglicemia é menor ● GLICLAZIDA ● GLIMEPIRIDA REAÇÕES ADVERSAS Hipoglicemia - risco menor com as drogas mais novas, e maior com as mais antigas. Ganho de peso (até 7% do peso corporal) - não é a melhor opção para pacientes diabéticos que já são obesos. Provoca esse ganho por estimular a secreção de insulina, que é um hormônio de ‘reserva’ / anabolismo. Intolerância ao álcool - pois tem efeito dissulfiram (acumula acetaldeído). Recomendar ao paciente que não beba! CONTRAINDICAÇÕES ● Gestação - tem efeito teratogênico e provoca hipoglicemia fetal ● Insuficiência hepática e renal - não é contraindicação absoluta, mas tem que ter cautela (acompanhar laboratorialmente). Pois o metabolismo da droga é reduzido, e a droga fica mais tempo ativa, podendo causar hipoglicemia. ○ TFGde GLUT) - tanto no tecido adiposo quanto no músculo. É agonista de PPAR-gama (droga que mexe com transcrição gênica) - demora de 6 a 12 semanas para ter efeito máximo. Esta droga está sendo usada também para tratar esteatose hepática (doença hepática gordurosa) e síndrome metabólica. AÇÕES ● Aumento da captação de glicose ● Melhora do perfil lipídico REAÇÕES ADVERSAS Aumento na volemia - Favorece reabsorção de sódio nos túbulos renais, reabsorvendo água e aumentando a volemia Edema Aumento de peso - Pelo aumento da captação de glicose. Hepatotoxicidade CONTRAINDICAÇÕES ● Insuficiência cardíaca congestiva III e IV - contraindicação absoluta, pois a droga aumenta a volemia e descompensa a ICC ● Insuficiência hepática - monitorar função hepática de 6 em 6 meses ● Gestação INIBIDORES DAS ALFA GLICOSIDASES INTESTINAIS Reduzem a absorção intestinal de carboidratos. ● ACARBOSE (Glucobay) MECANISMO DE AÇÃO: inibição da alfa glicosidase, reduzindo a absorção de carboidratos (polissacarídeo não é quebrado, e não consegue ser absorvido). Este bloqueio não é de 100%, e é efetivo apenas quando a pessoa se alimenta, sendo um antidiabético de uso pré prandial, para controle da glicemia de pico. As glicosidases (maltase, sacarase, amilase) são enzimas presentes na borda intestinal em escova, que fazem digestão de polissacarídeos (carboidratos complexos: maltose, sacarose, amido), os quais não podem ser absorvidos inteiros, devido ao seu tamanho. REAÇÕES ADVERSAS: flatulência, diarreia, distensão abdominal - ocorrem devido ao acúmulo de polissacarídeos no trato gastrointestinal. CONTRAINDICAÇÕES: gravidez. NOVOS ANTIDIABÉTICOS INIBIDORES DO SGLT2 (GLIFLOZINAS) ● DAPAGLIFLOZINA ● CANAGLIFLOZINA ● EMPAGLIFLOZINA MECANISMO DE AÇÃO: inibem a reabsorção renal de glicose. Nos túbulos renais, há o cotransportador SGLT2, que é responsável por reabsorver mais de 90% da glicose filtrada. Este transportador pega a glicose e joga de volta para a corrente sanguínea, o que contribui para manter o quadro de hiperglicemia. - diabéticos têm uma maior expressão de SGLT2. A droga bloqueia o SGLT2, reduzindo a reabsorção de glicose nos túbulos renais, e permitindo sua excreção na urina (glicosúria), reduzindo a glicemia. Greicielle Ramos AÇÕES ● Ao bloquear o SGLT2, causa glicosúria e natriurese (excreção de sódio na urina). ● Redução discreta de peso e pressão arterial sistêmica (pois excreta sódio também) ● Reduz a progressão da doença renal crônica e insuficiência cardíaca congestiva ● Redução da mortalidade É uma classe padrão ouro para o tratamento de ICC. REAÇÃO ADVERSA: aumento discreto de infecções de trato urinário. CONTRAINDICAÇÕES: Clearance