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SUBSTÂNCIAS QUÍMICAS E SEUS IMPACTOS 2 SUMÁRIO Qualidade do Solo ................................................................................. 7 Gerenciamento de Áreas Contaminadas ............................................. 12 Destinação no Ambiente ...................................................................... 17 3.1.1 Retenção .......................................................................................... 22 3.1.2 Transformação ................................................................................. 22 3.1.3 Transporte ........................................................................................ 22 Agrotóxicos e Meio Ambiente .............................................................. 23 Impacto sobre a Saúde Humana ......................................................... 25 3 NOSSA HISTÓRIA A nossa história inicia-se com a ideia visionária e da realização do sonho de um grupo de empresários na busca de atender à crescente demanda de cursos de Graduação e Pós-Graduação. E assim foi criado o Instituto, como uma entidade capaz de oferecer serviços educacionais em nível superior. O Instituto tem como objetivo formar cidadão nas diferentes áreas de conhecimento, aptos para a inserção em diversos setores profissionais e para a participação no desenvolvimento da sociedade brasileira, e assim, colaborar na sua formação continuada. Também promover a divulgação de conhecimentos científicos, técnicos e culturais, que constituem patrimônio da humanidade, transmitindo e propagando os saberes através do ensino, utilizando-se de publicações e/ou outras normas de comunicação. Tem como missão oferecer qualidade de ensino, conhecimento e cultura, de forma confiável e eficiente, para que o aluno tenha oportunidade de construir uma base profissional e ética, primando sempre pela inovação tecnológica, excelência no atendimento e valor do serviço oferecido. E dessa forma, conquistar o espaço de uma das instituições modelo no país na oferta de cursos de qualidade. 4 INTRODUÇÃO De acordo com o Ministério do Meio Ambiente entende-se por área contaminada como sendo uma área, terreno, local, instalação, edificação ou benfeitoria que contenha quantidades ou concentrações de quaisquer substâncias ou resíduos em condições que causem ou possam causar danos à saúde humana, ao meio ambiente ou a outro bem a proteger, que nela tenham sido depositados, acumulados, armazenados, enterrados ou infiltrados de forma planejada, acidental ou até mesmo natural. Nessa área, os poluentes ou contaminantes podem concentrar-se em subsuperfície nos diferentes compartimentos do ambiente, como por exemplo: No solo; Nos sedimentos; Nas rochas; Nos materiais utilizados para aterros; Nas águas subterrâneas; Nas zonas não saturada e saturada. Além de poderem concentrar-se nas paredes, nos pisos e nas estruturas das construções. Os contaminantes podem ser transportados a partir desses meios, propagando-se por diferentes vias, como: O ar O solo As águas subterrâneas e superficiais Podendo alterar suas características naturais de qualidade e determinando impactos e/ou riscos sobre os bens a proteger, localizados na própria área ou em seus arredores. As vias de contaminação podem ser por: Lixiviação do solo para a água subterrânea; Absorção e adsorção dos contaminantes nas raízes de plantas, verduras e legumes; 5 Escoamento superficial para a água superficial; Inalação de vapores; Contato pela pele com o solo; Ingestão por seres humanos e animais. Figura 1 – Absorção e Adsorção pelas raízes em solo contaminado Fonte: Tutida e Fogaça, 2010. Absorção x Adsorção Na absorção, a substância absorvida é embebida pela substância absorvente, como exemplo imagine uma esponja absorvendo a água. Na adsorção, a substância fica apenas retida na superfície adsorvente, sem ser incorporada ao volume da outra. Portal Tratamento de Água, 2016 Contaminação Presença de substância(s) química(s) no ar, água ou solo, decorrentes de atividades antrópicas, em concentrações tais que restrinjam a utilização desse recurso ambiental para os usos atual ou pretendido, definidas com base em avaliação de risco à saúde humana, assim como aos bens a proteger, em cenário de exposição padronizado ou específico. Resolução CONAMA nº 420, 2009 6 A Resolução CONAMA nº 420 (2009) dispõe sobre critérios e valores orientadores de qualidade do solo quanto à presença de substâncias químicas. Considerando que a existência de áreas contaminadas pode configurar sério risco à saúde pública e ao meio ambiente, tem-se a necessidade de prevenir a contaminação do subsolo e das águas subterrâneas, estabelecendo critérios para definição de valores orientadores para a prevenção da contaminação dos solos e definindo diretrizes para o gerenciamento de áreas contaminadas. 7 SOLOS De acordo com artigo 3º da resolução CONAMA nº 420 (2009), a proteção do solo deve ser realizada de maneira: Preventiva: A fim de garantir a manutenção da sua funcionalidade; Corretiva: Visando restaurar sua qualidade ou recuperá-la de forma compatível com os usos previstos. São funções principais do solo: I. Servir como meio básico para a sustentação da vida e de habitat para pessoas, animais, plantas e outros organismos vivos; II. Manter o ciclo da água e dos nutrientes; III. Servir como meio para a produção de alimentos e outros bens primários de consumo; IV. Agir como filtro natural, tampão e meio de adsorção, degradação e transformação de substâncias químicas e organismos; V. Proteger as águas superficiais e subterrâneas; VI. Servir como fonte de informação quanto ao patrimônio natural, histórico e cultural; VII. Constituir fonte de recursos minerais; VIII. Servir como meio básico para a ocupação territorial, práticas recreacionais e propiciar outros usos públicos e econômicos. Qualidade do Solo Em seu artigo 7º, a resolução CONAMA nº 420 (2009) aponta que a avaliação da qualidade de solo, quanto à presença de substâncias químicas, deve ser efetuada com base em Valores Orientadores de Referência de Qualidade, de Prevenção e de Investigação, definidos como: Valores Orientadores: Concentrações de substâncias químicas que fornecem orientação sobre a qualidade e as alterações do solo e da água subterrânea: Valor de Referência de Qualidade – VRQ: Concentração de determinada substância que define a qualidade natural do solo, sendo 8 determinado com base em interpretação estatística de análises físico- químicas de amostras de diversos tipos de solos. Valor de Prevenção - VP: Concentração de valor limite de determinada substância no solo, tal que ele seja capaz de sustentar as suas funções principais. Valor de Investigação – VI: Concentração de determinada substância no solo ou na água subterrânea acima da qual existem riscos potenciais, diretos ou indiretos, à saúde humana, considerando um cenário de exposição padronizado. Segundo o artigo 8º, os Valores de Referência de Qualidade (VRQs) do solo para substâncias químicas naturalmente presentes serão estabelecidos pelos órgãos ambientais competentes dos Estados e do Distrito Federal. Segundo o artigo 9º e 10: Valores de Prevenção (VPs): Estabelecidoscom base em ensaios de fito toxicidade ou em avaliação de risco ecológico; Valores de Investigação (VIs): Derivados com base em avaliação de risco à saúde humana, em função de cenários de exposição padronizados para diferentes usos e ocupação do solo. São adotados conforme valores apresentados na Tabela 1. 9 Tabela 1 – Lista de valores orientadores para solos e para águas subterrâneas 10 11 Fonte: CONAMA, 2009. O artigo 13 estabelece as seguintes classes de qualidade dos solos, segundo a concentração de substâncias químicas: Classe 1: Solos que apresentam concentrações de substâncias químicas menores ou iguais ao VRQ; Classe 2: Solos que apresentam concentrações de pelo menos uma substância química maior do que o VRQ e menor ou igual ao VP; Classe 3: Solos que apresentam concentrações de pelo menos uma substância química maior que o VP e menor ou igual ao VI; Classe 4: Solos que apresentam concentrações de pelo menos uma substância química maior que o VI. 12 De acordo com o artigo 14. os empreendimentos que desenvolvem atividades com potencial de contaminação dos solos e águas subterrâneas, visando a prevenção e controle da qualidade do solo, deverão: I. Implantar programa de monitoramento de qualidade do solo e das águas subterrâneas na área do empreendimento e, quando necessário, na sua área de influência direta e nas águas superficiais; II. Apresentar relatório técnico conclusivo sobre a qualidade do solo e das águas subterrâneas, a cada solicitação de renovação de licença e previamente ao encerramento das atividades. Gerenciamento de Áreas Contaminadas Segundo o artigo 22 da resolução CONAMA nº 420 (2009), o gerenciamento de áreas contaminadas deverá conter procedimentos e ações voltadas ao atendimento dos seguintes objetivos: I. Eliminar o perigo ou reduzir o risco à saúde humana; II. Eliminar ou minimizar os riscos ao meio ambiente; III. Evitar danos aos demais bens a proteger; IV. Evitar danos ao bem estar público durante a execução de ações para reabilitação; V. Possibilitar o uso declarado ou futuro da área, observando o planejamento de uso e ocupação do solo. Define-se como: Área Suspeita de Contaminação – AS: Aquela em que, após a realização de uma avaliação preliminar, forem observados indícios da presença de contaminação ou identificadas condições que possam representar perigo. Área Contaminada sob Investigação – AI: Aquela em que comprovadamente for constatada, mediante investigação confirmatória, a contaminação com concentrações de substâncias no solo ou nas águas subterrâneas acima dos valores de investigação. Área Contaminada sob Intervenção – ACI: Aquela em que for constatada a presença de substâncias químicas em fase livre ou for comprovada, após 13 investigação detalhada e avaliação de risco, a existência de risco à saúde humana. Área em Processo de Monitoramento para Reabilitação - AMR: Aquela em que o risco for considerado tolerável, após a execução de avaliação de risco. Os responsáveis pela contaminação da área, em consonância com o artigo 34, devem submeter ao órgão ambiental competente proposta para a ação de intervenção a ser executada sob sua responsabilidade, devendo a mesma, obrigatoriamente, considerar: I. O controle ou eliminação das fontes de contaminação; II. O uso atual e futuro do solo da área objeto e sua circunvizinhança; III. A avaliação de risco à saúde humana; IV. As alternativas de intervenção consideradas técnica e economicamente viáveis e suas consequências; V. O programa de monitoramento da eficácia das ações executadas; VI. Os custos e os prazos envolvidos na implementação das alternativas de intervenção propostas para atingir as metas estabelecidas. As alternativas de intervenção para reabilitação de áreas contaminadas poderão contemplar, de forma não excludente, as seguintes ações: I. Eliminação de perigo ou redução a níveis toleráveis dos riscos à segurança pública, à saúde humana e ao meio ambiente; II. Zoneamento e restrição dos usos e ocupação do solo e das águas superficiais e subterrâneas; III. Aplicação de técnicas de remediação; IV. Monitoramento. 14 AGROTÓXICOS Segundo Ribas e Matsumura (2009) os agrotóxicos são produtos químicos capazes de controlar pragas (animais e vegetais) e doenças em plantas. Suas propriedades físico-químicas, bem como a frequência de uso, modo de aplicação, características bióticas e abióticas do ambiente e condições climáticas podem determinar o seu destino no ambiente. Essas características definem o espectro de impactos no meio ambiente e na saúde humana causados pelos agrotóxicos. Os impactos na saúde humana são agudos ou crônicos, principalmente nos processos neurológicos, reprodutivos e respiratórios. No meio ambiente, os agrotóxicos têm trazido uma série de transtornos e modificações, atingindo a biota, água, solo entre outros ecossistemas. Agrotóxicos; Defensivos químicos Pesticidas Praguicidas Remédios de planta Venenos São algumas das inúmeras denominações relacionadas a um grupo de substâncias químicas utilizadas no controle de pragas e doenças de plantas e aplicadas em florestas (nativas e plantadas), nos ambientes hídricos, urbanos e industriais e, em larga escala, na agricultura e pastagens para a pecuária. Podem ser classificadas como: Inseticidas: Controle de insetos; Fungicidas: Controle de fungos; Herbicidas: Controle de plantas invasoras; Desfolhantes: Controle de folhas indesejadas; Fumigantes: Controle de bactérias do solo; Rodenticidas ou raticidas: Controle de roedores/ratos; Nematicidas: Controle de nematóides; Acaricidas: Controle de ácaros. 15 A avaliação e a classificação do potencial de periculosidade ambiental de um agrotóxico são baseadas em estudos físico-químicos, toxicológicos e ecotoxicológicos. Dessa forma um agrotóxico pode ser classificado quanto à periculosidade ambiental, em classes que variam de I a IV: Classe I: Produtos altamente perigosos ao meio ambiente. Ex.: Maioria dos organoclorados. Segundo Braibante e Zappe (2012) o DDT é classificado como um organoclorado, composto por átomos de carbono (C), hidrogênio (H) e cloro (Cl). As principais características dos organoclorados são: Insolubilidade em água; Solubilidade em líquidos apolares como éter, clorofórmio e, consequentemente, em óleos e gorduras, o que ocasiona o acúmulo do DDT no tecido adiposo dos organismos vivos; Alta estabilidade, pois demora muitos anos para ser degradado na natureza devido à baixa reatividade das ligações químicas presentes no composto em condições normais. Figura 2 - Fórmula estrutural do DDT. Fonte: Braibante e Zappe, 2012. Classe II: Produtos muito perigosos ao meio ambiente. Ex.: Malathion. 16 Figura 3 - Estrutura química do Malathion. Fonte: Kanapik, 2018. Casse III: Produtos perigosos ao meio ambiente. Ex.: Carbaril e o glifosato. Figura 4 - Fórmula química do Carbaril Fonte: Anastasio, 2016. Classe IV: Produtos pouco perigosos ao meio ambiente. Ex.: Derivados de óleos minerais. Braibante e Zappe (2012) complementa que essa classificação está de acordo com o resultado dos testes e estudos feitos em laboratórios, que objetivam estabelecer a dosagem letal 50% (DL50), que é a quantidade de substância necessária paramatar 50% dos animais testados nas condições experimentais utilizadas. Considerando que a capacidade de determinada substância causar morte ou algum efeito sobre os animais depende da sua concentração no corpo do indivíduo, a dose letal é expressa em miligrama da substância por quilograma da massa corporal. 17 A toxicidade de uma substância também pode variar de acordo com o modo de administração e os rótulos dos produtos são identificados por meio de faixas coloridas, conforme Tabela 2. Tabela 2 - Classificação toxicológica dos agrotóxicos Fonte: Braibante e Zappe, 2012. No Quadro 1, são apresentados dois exemplos dos principais princípios ativos de dois agrotóxicos, glifosato e deltametrina, nomenclatura, funções orgânicas, as culturas onde estes podem ser utilizados e sua toxicidade. Quadro 1 - Ingredientes ativos de agrotóxicos Fonte: Braibante e Zappe, 2012. Mais extensa do que a lista das denominações e classificações que os agrotóxicos recebem é a lista dos impactos gerados por eles na saúde humana e no meio ambiente. Destinação no Ambiente De acordo com Ribas e Matsumura (2009) as propriedades físico-químicas dos agrotóxicos, bem como a quantidade e a frequência de uso, métodos de aplicação, características bióticas e abióticas do ambiente e as condições meteorológicas determinam o destino dos pesticidas no ambiente. 18 Essas condições variam de acordo com o produto e com os fatores relacionados à sua aplicação, por isso não é possível prever um modelo para o comportamento destes pesticidas nem sua interação com o ambiente. Entretanto, alguns processos são conhecidos e descritos para diferentes produtos, tais como retenção, transformação e transporte. Esses processos podem predizer como o produto se comportará interagindo com as partículas do solo e com outros componentes, com sua velocidade de evaporação, solubilidade em água e bioacumulação (Figura 5). Esses processos também podem ser analisados no Quadro 2, relacionando os processos de transferência e degradação que controlam a dinâmica e o destino de pesticidas no meio ambiente. 19 Figura 5 - Modelo conceitual de fatores e processos que governam o destino de pesticidas no solo e como o destino desses pesticidas afeta a sua eficácia e o impacto ambiental Fonte: Ribas e Matsumura, 2009. Quadro 2 - Dinâmica/destino de agrotóxicos no ambiente Fonte: Ribas e Matsumura, 2009. 20 A persistência de pesticidas no solo depende da eficiência dos processos físicos de transformação citados, sabe-se que alguns fungicidas inorgânicos, como os cúpricos, podem persistir no ambiente por décadas. No entanto, a maioria dos fungicidas orgânicos tem meia-vida curta, apesar de os produtos de sua decomposição poderem persistir por longo tempo. Por exemplo, o tiofanato metílico é convertido em carbendazim no solo, mas o último persiste por meses. Os hidrocarbonetos aromáticos, como PCNB (pentacloronitrobenzeno), podem persistir no solo por vários anos. Santos (2017) complementa que após a aplicação de um agrotóxico, seu comportamento no meio ambiente é governado por processos físicos, químicos, físico- químicos e biológicos (Figura 6) como: Retenção - Sorção; Transformação - Degradação biológica, fotodegradação e decomposição química; Transporte - Deriva, volatilização, lixiviação e carreamento superficial. Além destes processos: Condições meteorológicas; Composição das populações de microrganismos no solo; Presença ou ausência de plantas; Localização do solo na topografia; Práticas de manejo dos solos; Também podem afetar o destino de agrotóxicos no ambiente. 21 Figura 6 - Dinâmica dos agrotóxicos no meio ambiente Fonte: Santos, 2017. Figura 7 - Dinâmica dos agrotóxicos no meio ambiente Fonte: Steffen et al., 2011. 22 3.1.1 Retenção A sorção é um processo físico-químico em que moléculas de agrotóxicos são retidas a uma superfície sólida (por exemplo, matéria orgânica do solo) por meio de mecanismos que envolvem ligações covalentes, ligação iônica, ligações de hidrogênio, forças de Van Der Waals e interações hidrofóbicas. Assim, a Matéria Orgânica do Solo (MOS) pode atuar como adsorvente com elevado potencial de mitigação da lixiviação de um agrotóxico, sobretudo em solos arenosos. Alguns estudos evidenciam correlação positiva entre a MOS e a sorção de agrotóxicos. 3.1.2 Transformação De acordo com Spadotto (2006) a degradação biológica, fotodegradação e decomposição química são processos pelos quais os agrotóxicos são transformados em outros compostos, podendo essa transformação ser completa ou não. Assim, por meio dos processos de transformação, os 40 agrotóxicos podem resultar em compostos com persistência e toxicidade maiores ou menores que a molécula original. 3.1.3 Transporte A deriva é um dos principais motivos de perdas de agrotóxicos e consequente contaminação ambiental, é tudo aquilo que não atinge o alvo durante a aplicação, ou seja, parte da pulverização agrícola que é carregada para fora da área-alvo, pela ação do vento. No entanto, Spadotto (2006), afirma que a ausência de vento pode também ser prejudicial, pois as gotas muito finas podem ficar suspensas no ar devido à estabilidade atmosférica, dispersando-se até vários quilômetros do local de aplicação, sendo, muitas vezes, somente removidas da atmosfera pela ação da chuva. O fenômeno da volatilização, representa uma importante fonte de perda de agrotóxicos para o ambiente, e se baseia em um processo físico-químico pelo qual um composto é transferido da solução do solo e/ou da superfície do solo e plantas para a fase gasosa. Esse processo é fundamentalmente dependente das propriedades físico-químicas do composto como sua estrutura e peso molecular, pressão de vapor e também das condições climáticas locais. 23 A lixiviação dos agrotóxicos através do solo tende a resultar em contaminação das águas subterrâneas devido ao carreamento de substâncias químicas em solução juntamente com a água. A extensão da contaminação desses ambientes aquáticos depende: Das propriedades dos agrotóxicos; Das características do solo Da velocidade de drenagem Da profundidade do lençol freático. O uso do solo, as condições hidrogeológicas do local e o grupo geológico do solo são outros fatores que também podem afetar a concentração dos agrotóxicos nas águas subterrâneas. O carreamento superficial corresponde ao movimento do agrotóxico pela água de enxurrada na superfície do solo, podendo chegar à superfície dos rios, lagos, córregos, açudes e terrenos com declividade baixa. Esse fenômeno é uma importante rota de deslocamento dos agrotóxicos, pois em seus momentos iniciais após a aplicação o composto pode ser carreado para fora da área em solução na água de escoamento ou, ainda pode ser adsorvido fortemente às argilas e à matéria orgânica sendo transportado pelo arraste das partículas do solo. Agrotóxicos e Meio Ambiente O aumento considerável no volume de agrotóxicos aplicados tem trazido uma série de transtornos e modificações para o ambiente, tanto pela contaminação das comunidades de seres vivos que o compõe, quanto pela sua acumulação nos segmentos bióticos e abióticos do ecossistema (biota, água, ar, solo, etc.). Um dos efeitos indesejáveis provocado pelos agrotóxicos é a contaminação de espécies não-alvo, ou seja, espécies que não interferem no processo de produção. A Tabela 3 apresenta o grau de toxicidadee persistência (variando de 1 a 5) nos principais grupos de animais atingidos pela contaminação ambiental por agrotóxicos, exceto humanos. 24 Tabela 3 - Toxicidade e persistência ambiental de alguns agrotóxicos (escala 1 a 5) Fonte: Ribas e Matsumura, 2009. Segundo Ribeiro et al. (2007), os recursos hídricos agem como integradores de todos os processos biogeoquímicos em qualquer região, assim, superficiais ou subterrâneos, são os principais destinos de pesticidas, principalmente quando aplicados na agricultura. A preocupação com a contaminação de recursos hídricos com pesticidas aumentou a partir do ano de 1979, quando os primeiros traços de contaminação foram detectados nos EUA. A água subterrânea faz parte de um processo dinâmico e interativo do ciclo hidrológico, pelo qual a água circula do oceano para a atmosfera e dessa para os continentes, de onde retorna, superficial e subterraneamente, ao oceano. A Figura 5 apresenta as inter-relações da água subterrânea com os vários sistemas existentes. Mesmo em concentrações baixas, são encontrados resíduos de pesticidas em amostras de água subterrânea em países como Grã-Bretanha, Alemanha, Estados Unidos, Grécia, Bulgária, Espanha, Portugal e Brasil. De maneira geral, a contaminação dos ambientes aquáticos no Brasil por resíduos de agrotóxicos pode ser considerada como moderada, salvo exceções em áreas altamente poluídas e é, comparativamente, menor que a presente nos países do hemisfério norte. 25 Figura 8 – Ciclo hidrológico e as inter-relações entre os vários sistemas Fonte: Ribeiro et al. , 2007. No solo, a preocupação com a contaminação é referente à interferência desses princípios ativos em processos biológicos responsáveis pela oferta de nutrientes. São consideráveis as alterações sofridas na degradação da matéria orgânica, através da inativação e morte de microrganismos e invertebrados que se desenvolvem no solo. A ciclagem de nutrientes pode ser afetada quando, por exemplo, o princípio ativo persistente no solo interfere no desenvolvimento de bactérias fixadoras de nitrogênio, responsáveis pela disponibilização desse mineral às plantas. A respiração do solo é um parâmetro utilizado para se observar a atividade geral dos microrganismos e pode ser utilizada como ferramenta para verificar a os efeitos dos agrotóxicos sobre diferentes populações de microrganismos. Impacto sobre a Saúde Humana Conforme Ribas e Matsumura (2009) os agrotóxicos são produzidos a partir de diferentes substâncias químicas, desenvolvidos para matar, exterminar, combater ou impedir o desenvolvimento (já que alguns atuam sobre processos específicos) de diferentes organismos considerados prejudiciais às culturas implantadas no sistema 26 agrícola mundial. Assim, por sua forma de ação, por atuarem sobre processos vitais, esses produtos têm ação sobre a constituição física e saúde do ser humano. Os efeitos sobre a saúde podem ser de dois tipos: Efeitos agudos: Aqueles que resultam da exposição a concentrações de um ou mais agentes tóxicos, capazes de causar dano efetivo aparente em um período de 24 horas; Efeitos crônicos: Aqueles que resultam de uma exposição continuada a doses relativamente baixas de um ou mais produtos. No Quadro 3, apresenta-se um sumário dos principais efeitos agudos e crônicos causados pela exposição aos principais agrotóxicos disponíveis de acordo com a praga que controlam e ao grupo químico a que pertencem. Quadro 3 - Efeitos da exposição aos agrotóxicos Fonte: Ribas e Matsumura, 2009. 27 Dentre todos os casos de impactos sobre organismos específicos, os seres humanos são os mais afetados, pois a contaminação de águas e solo, bem como o impacto direto na biodiversidade interferem diretamente na qualidade de vida humana. Também existem resíduos presentes nos alimentos e na água potável, fatores que podem tornar-se carcinogênicos. Existem diversos relatos de doenças e óbitos causados por pesticidas, cerca de 20 mil mortes/ano. No Brasil, a segunda principal causa de intoxicação é por agrotóxicos, depois de medicamentos, entretanto, a morte dos intoxicados ocorre com maior incidência entre os que tiveram contato com agrotóxicos. Produtores e aplicadores também estão diretamente expostos à contaminação por pesticidas. A exposição acidental a esses químicos é muito comum, e o número de casos é bem maior do que o relatado, já que muitos acidentes não são notificados. Casos de desastres em grandes proporções são relatados como o de Bhopal, na Índia, onde ouve entre 2000 a 5000 mortes e 50 mil feridos devido à exposição ao isocianato. Na Itália ocorreu um acidente com TCDD (tetraclorodibenzo-dioxina), 32 mil pessoas foram afetadas e 459 pessoas morreram. Ainda há o registro de 6070 casos de doença causados pela ingestão de grãos contaminados com pesticidas. Um exemplo da contaminação de aplicadores que, normalmente, não têm nenhuma informação sobre o uso de equipamentos de proteção individual é relatado por Araújo, Nogueira e Augusto (2000) na cultura de tomate de mesa, na região de Vale do São Francisco e no município de Camocim de São Felix, localizados no agreste de Pernambuco. Muitos aplicadores de pesticidas dessas regiões apresentaram sintomas esperados para o grupo de risco e pouquíssimos (apenas três no Vale do São Francisco) realizavam exames periódicos de saúde. No município de Camocim de São Félix 13,2% dos trabalhadores já sofreram algum tipo de intoxicação, e dos 159 entrevistados, 45 sentem-se mal durante a aplicação do produto. Entre as mulheres entrevistadas, 70,6% relatou a perda de fetos e 39,4% revelou ter perdido filhos com menos de um ano de vida. Também relacionado à produção de tomates, Ferreira et al. (2006) demonstraram que 58,6% das amostras provenientes da produção de tomate de mesa 28 do município de Paty do Alferes, RJ estavam impróprias para o consumo, contendo resíduos de inseticidas organofosforados metamidofós e a presença ilegal do organoclorado endosulfan, violando os valores estabelecidos para resíduos na legislação brasileira de resíduos tóxicos. Belchior et al. (2014) completa que, diante do exposto sobre os efeitos de agrotóxicos sobre o meio ambiente, o ser humano acaba por ser afetado, visto que é dependente dos recursos do meio para sobrevivência (água, terra, ar, alimento). No tocante à exposição humana aos agrotóxicos, a alimentação é um dos principais problemas. Um estudo realizado em 2012, pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), em 2.488 amostras de alimentos (cereais, frutas e verduras) nas capitais brasileiras, demonstrou amostras insatisfatórias, ou seja, com limite residual acima do permitido, conforme o observado na Figura 6. Figura 9 - Resíduos de agrotóxicos em alimentos Fonte: Belchior et al., 2014. A utilização dos agrotóxicos no meio rural brasileiro tem trazido uma série de consequências, que são agravadas por uma série de determinantes de ordens cultural, social e econômica. Mesmo que alguns dos ingredientes ativos dos agrotóxicos possam ser classificados como medianamente ou pouco tóxicos, pelos seus efeitos agudos, não se pode deixar de considerar os efeitos crônicos, que podem 29 ocorrer meses, anos ou até décadas após a exposição, manifestando-se em várias doenças. A comunidade científica tem detectado a presença de agrotóxicos diversos em amostras de sangue humano, urina e leite materno. Desse modo, são elevadas as possibilidades de ocorrência de anomalias congênitas, câncer,disfunções na reprodução humana, bem como distúrbios endócrinos, neurológicos e mentais. Segundo Moreira et al. (2002), os principais meios de contaminação humana por agrotóxicos são: O ambiental O ocupacional O alimentar Figura 10 - Esquema dos principais meios de contaminação humana por agrotóxicos Fonte: Moreira et al., 2002. Nesse contexto, um estudo realizado por Palma et al. (2014) na cidade de Lucas do Rio Verde, no estado de Mato Grosso, corrobora Moreira et al. (2002). O referido trabalho revelou que de 62 amostras de leite materno de mães em fase de amamentação, todas apresentaram, pelo menos, um tipo de pesticida. Para os 30 autores, os resultados podem ser oriundos da exposição ocupacional, ambiental e alimentar do processo produtivo da agricultura. Demonstram que a população que vive em municípios rodeados por grandes cultivos, os chamados polos agrícolas, está exposta aos efeitos deletérios dos variados agrotóxicos. Segundo Braibante e Zappe (2012), para minimizar a possibilidade de qualquer tipo de acidente, todo agrotóxico, independente da classe a que pertence, deve ser utilizado com cuidado, seguindo-se sempre as recomendações dos fornecedores e de pessoas especializadas, com o uso de equipamentos de proteção individual (EPI) pelos aplicadores. Os EPI utilizados são jaleco, calça, botas, avental, respirador, viseira, touca árabe e luvas. Figura 11 - Instruções para a utilização de Equipamentos de Proteção Individual Fonte: Braibante e Zappe, 2012. SAIBA MAIS! Assista ao seminário promovido pela inciativa Brasil Saúde Amanhã no contexto da Estratégia Fiocruz para Agenda 2030, que teve como tema: “Mortalidade e doenças por produtos químicos perigosos, contaminação e poluição do ar e água do solo” Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=pQxBNxYxE-g&feature=emb_logo https://www.youtube.com/watch?v=pQxBNxYxE-g&feature=emb_logo 31 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANASTACIO, Helena Targa Dias. Efeito dos pesticidas Carbaril e Glifosato em linhagem de macrófagos raw 264.7. Dissertação. Curitiba, 2016. ARAÚJO, A.C.P.; NOGUEIRA, D.P.; AUGUSTO, L.G.S. Impactos dos praguicidas na saúde: estudo da cultura do tomate. Revista de Saúde Pública, São Paulo, SP, v. 34, n. 3, p. 309-313, 2000. BRAIBANTE, Mara Elisa Fortes; ZAPPE, Janessa Aline. A química dos agrotóxicos. Química nova na escola. Vol. 34, N° 1, p. 10-15. 2012. BRASIL. 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