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ISBN 978850262385-9 Távora, Fabiano Direito internacional público / Fabiano Távora. - São Paulo : Saraiva, 2016. - (Coleção diplomata / coordenador Fabiano Távora) 1. Direito internacional público 2. Direito internacional público - Concursos I. Távora, Fabiano. II. Título. III. Série. 14-13085 CDU-341.076 Índices para catálogo sistemático: 1. Direito internacional público : Concursos 341.076 Diretor editorial Luiz Roberto Curia Gerente editorial Thaís de Camargo Rodrigues Gerência de concursos Roberto Navarro Editoria de conteúdo Iris Ferrão Assistente editorial Thiago Fraga | Verônica Pivisan Reis Coordenação geral Clarissa Boraschi Maria Preparação de originais Maria Izabel Barreiros Bitencourt Bressan e Ana Cristina Garcia (coords.) | Carolina Massanhi | Luciana Cordeiro Shirakawa Projeto gráfico Isabela Teles Veras Arte e diagramação Know-how editorial Revisão de provas Amélia Kassis Ward e Ana Beatriz Fraga Moreira (coords.) | Auriana Malaquias Conversão para E-pub Guilherme Henrique Martins Salvador Serviços editoriais Elaine Cristina da Silva | Kelli Priscila Pinto | Tiago Dela Rosa Capa Aero Comunicação / Danilo Zanott Data de fechamento da edição: 6-11-2015 Dúvidas? Acesse www.editorasaraiva.com.br/direito Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem a prévia autorização da Editora Saraiva. A violação dos direitos autorais é crime estabelecido na Lei n. 9.610/98 e punido pelo artigo 184 do Código Penal. http://www.editorasaraiva.com.br/direito Sumário PREFÁCIO APRESENTAÇÃO EVOLUÇÃO DAS QUESTÕES POR ANO 1. Caráter Jurídico do DIP 1.1. FUNDAMENTO DE VALIDADE DA NORMA JURÍDICA INTERNACIONAL 1.2. DIP E DIREITO INTERNO 1.3. DIP E DIREITO INTERNACIONAL PRIVADO 2. Fontes do DIP 2.1. A CORTE INTERNACIONAL DE JUSTIÇA E O art. 38 DO SEU ESTATUTO 2.1.1. Costumes internacionais 2.1.2. Princípios Gerais do Direito 2.1.3. Tratados Internacionais 2.1.4. Jurisprudência e Doutrina 2.1.5. Equidade 2.2. ATOS UNILATERAIS DO ESTADO 2.3. DECISÕES DE ORGANIZAÇÕES INTERNACIONAIS 2.4. NORMAS IMPERATIVAS (jus cogens) 3. Sujeitos do DIP 3.1. ESTADOS 3.2. TERRITÓRIOS 3.3. POPULAÇÃO 3.4. GOVERNO E A CAPACIDADE DE ENTRAR EM RELAÇÕES COM OS DEMAIS ESTADOS 3.5. DEPORTAÇÃO, EXPULSÃO E EXTRADIÇÃO 3.6. SURGIMENTO E RECONHECIMENTO (DE ESTADO E DE GOVERNO) 3.7. RESPONSABILIDADE INTERNACIONAL 3.8. SUCESSÃO 3.9. JURISDIÇÃO 3.10. DIPLOMATAS E CÔNSULES 3.11. ORGANIZAÇÕES INTERNACIONAIS 3.12. ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU) 3.13. SANTA SÉ E ESTADO DA CIDADE DO VATICANO 3.14. INDIVÍDUO 3.15. CASO PRÁTICO 4. Solução Pacífica de Controvérsias Internacionais 4.1. MEIOS DIPLOMÁTICOS 4.1.1. Sistema de consultas ou bons ofícios 4.1.2. Inquérito 4.1.3. Mediação e conciliação 4.1.4. Arbitragem 4.2. MEIOS POLÍTICOS 4.3. MEIOS JURISDICIONAIS 5. Direito Internacional dos Direitos Humanos 5.1. PROTEÇÃO (ÂMBITO INTERNACIONAL E REGIONAL) 5.2. TRIBUNAIS INTERNACIONAIS 5.3. DIREITO INTERNACIONAL HUMANITÁRIO 5.4. DIREITO DO REFUGIADO 6. Direito da Integração 6.1. UNIÃO EUROPEIA 6.2. MERCOSUL 6.3. G7 e G20 6.4. BRIC 7. Direito do Comércio Internacional 7.1. ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DO COMÉRCIO (OMC) 7.2. GATT E A Solução de controvérsias 7.3. A RODADA DE DOHA E A ELEIÇÃO DO DIPLOMATA ROBERTO AZEVEDO 7.4. DIREITO MARÍTIMO E A ORGANIZAÇÃO MARÍTIMA INTERNACIONAL 7.5. UNIDROIT 7.6. OCDE 7.7. UNCITRAL 7.8. CÂMARA DE COMÉRCIO INTERNACIONAL 8. Cooperação Jurídica Internacional em Matéria Penal102 8.1. COOPERAÇÃO JURÍDICA INTERNACIONAL em matÉria penal 8.2. JURISDIÇÃO No cÓdigo DE PROCESSO civil de 2015 8.3. COOPERAÇÃO JURÍDICA INTERNACIONAL No cÓdigo DE PROCESSO civil de 2015 8.3.1. Auxílio direto 8.3.2. Autoridade central 8.3.3. Carta rogatória 8.3.4. Homologação de sentença estrangeira 8.4. REDES DE COOPERAÇÃO JURíDICA INTERNACIONAL 8.4.1. OEA (penal) 8.4.2. OEA (família e infância) 8.4.3. CPLP 8.4.4. IberRede 8.5. FOROS INTERNACIONAIS 8.5.1. Organização das Nações Unidas (ONU) 8.5.2. Organização dos Estados Americanos (OEA) 8.5.3. Mercado Comum do Sul (Mercosul) 8.5.4. Cúpula Ibero-americana de Presidentes de Cortes Supremas e Tribunais Supremos de Justiça 8.5.5. Grupo de Ação Financeira (GAFI) 8.5.6. Grupo de Ação Financeira da América do Sul (GAFISUD) 8.5.7. Conferência de Direito Internacional Privado da Haia (HCCH) Referências Bibliográficas 1. CARÁTER JURÍDICO DO DIP 2. FONTES DO DIP 3. SUJEITOS DO DIP 4. SOLUÇÃO PACÍFICA DE CONTROVÉRSIAS INTERNACIONAIS 5. DIREITO INTERNACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS 6. DIREITO DA INTEGRAÇÃO 7. DIREITO DO COMÉRCIO INTERNACIONAL 8. COOPERAÇÃO JURÍDICA INTERNACIONAL EM MATÉRIA PENAL Direito tributário internacional Questões do IRBr 1. CARÁTER JURÍDICO DO DIP 2. FONTES DO DIP 3. SUJEITOS DO DIP 4. SOLUÇÃO PACÍFICA DE CONTROVÉRSIAS INTERNACIONAIS 5. DIREITO INTERNACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS 6. DIREITO DA INTEGRAÇÃO 7. DIREITO DO COMÉRCIO INTERNACIONAL 8. COOPERAÇÃO JURÍDICA INTERNACIONAL EM MATÉRIA PENAL Autor e Coordenador Fabiano Távora Graduado em Direito pela Universidade Federal do Ceará (UFC) - Turma do Centenário - 2003. Especialista em Gestão Empresarial pela Fundação Getulio Vargas (FGV) - 2005. Mestre em Direito dos Negócios pelo Ilustre Colégio de Advogados de Madri (ICAM) e pela Universidade Francisco de Vitória (UFV) - 2008. Mestre em Direito Constitucional aplicado às Relações Econômicas pela Universidade de Fortaleza (UNIFOR) - 2012. Advogado. Diretor-geral do Curso Diplomata - Fortaleza/CE. Foi Coordenador do único curso de graduação em Relações Internacionais do Estado do Ceará, pertencente à Faculdade Stella Maris. Professor de Direito Internacional para o Concurso de Admissão à Carreira Diplomática. Professor de Direito Internacional Público, Direito Internacional Privado, Direito do Comércio Exterior e Direito Constitucional em cursos de graduação e pós-graduação. PREFÁCIO* Dez anos atrás, recebi a notícia de que havia sido aprovado no concurso do Instituto Rio Branco para a carreira diplomática. Era difícil acreditar que meu nome estava na lista de aprovados, que o meu antigo sonho tornara-se realidade. Aquele momento deu-me a impressão de ser um divisor de águas, o primeiro passo da carreira que por tantos anos me fascinara. Hoje, percebo que o primeiro passo para a carreira diplomática havia sido dado em um momento anterior, quando comecei meus estudos de preparação para o concurso. A preparação para a carreira diplomática exige o desenvolvimento da capacidade de analisar politicamente a combinação de diferentes fatores da sociedade. Essa capacidade pode ser adquirida pela leitura atenta de diferentes pensadores e exposição a diferentes manifestações artísticas, o que requer uma caminhada de constantes descobertas. Essa caminhada é feita em direção às mais profundas e fundamentais características da sociedade brasileira, percorrendo a longa estrada que lentamente mostra as cores que delineiam o multifacetado cenário que é o Brasil. A preparação para a carreira diplomática requer este (re)encontro com o Brasil, este momento em que o futuro diplomata reflete sobre seu país e sobre seu povo. Eu diria que o processo de preparação é uma caminhada para dentro. Ao caminhar em direção às profundezas do Brasil, o futuro diplomata se defrontará com perspectivas históricas, geopolíticas, econômicas e jurídicas da realidade brasileira que lhe proporcionarão o arcabouço intelectual para sua contínua defesa dos interesses do Brasil e do povo brasileiro no exterior. Essa observação de quem somos como povo e como país é fundamental para o trabalho cotidiano dos diplomatas brasileiros, principalmente porque também pressupõe as relações do Brasil com outros países. Ao compreender a história política externa brasileira, o candidato poderá perceber características do Brasil que explicam como o país percebe sua inserção no mundo. É interessante notar que essa caminhada para dentro é o início de uma carreira feita para fora, em contato com o mundo. Os diplomatas são os emissários que também contam para o mundo o que é o Brasilpor muitos anos, foi competência do STF (Supremo Tribunal Federal). O § 7º, a nosso ver, não foi recepcionado pela Constituição Federal de 1988. Afirmo isso porque neste diploma legal, além do desuso da figura de chefe de família, não se permite distinção entre homens e mulheres que não esteja expressa na própria Carta Magna. Homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, o que não justifica o domicílio do homem prevalecer para se escolher o domicílio do casal. Já o § 8º trata da substituição do domicílio pela residência como local competente para qualquer ato civil quando é de difícil identificação o domicílio da parte. Assim, evita-se que alguém possa utilizar a questão do domicílio como subterfúgio para esquivar-se de responsabilidades legais, seja ele brasileiro ou estrangeiro. Art. 8º Para qualificar os bens e regular as relações a eles concernentes, aplicar-se-á a lei do país em que estiverem situados. § 1º Aplicar-se-á a lei do país em que for domiciliado o proprietário, quanto aos bens móveis que ele trouxer ou se destinarem a transporte para outros lugares. § 2º O penhor regula-se pela lei do domicílio que tiver a pessoa, em cuja posse se encontre a coisa apenhada. O art. 8º trata dos direitos reais e determina que se o bem estiver no Brasil será regido por nossa legislação, exceto os bens móveis de estrangeiro não domiciliado em nosso país e os penhorados. A aplicação típica do primeiro caso é para os turistas e transeuntes internacionais. Importante destacar que, na esfera privada, bem é tudo que pode ser propriedade de alguém ou que é apto a constituir o seu patrimônio. E, conforme o art. 1.228 do Código Civil, a propriedade dá ao proprietário (pleonasmo para um melhor entendimento) a faculdade de usar, gozar e dispor da coisa. Assim, tem o proprietário a liberdade de fazer o que quiser com seu bem. Quanto ao penhor, destacamos que é um direito real que consiste na tradição (mudança de pessoa) de uma coisa móvel ou mobilizável, suscetível de alienação, realizada pelo devedor ou por terceiro ao credor, a fim de garantir o pagamento do débito existente entre as partes envolvidas. Art. 9º Para qualificar e reger as obrigações, aplicar-se-á a lei do país em que se constituírem. § 1º Destinando-se a obrigação a ser executada no Brasil e dependendo de forma essencial, será esta observada, admitidas as peculiaridades da lei estrangeira quanto aos requisitos extrínsecos do ato. § 2º A obrigação resultante do contrato reputa-se constituída no lugar em que residir o proponente. O art. 9º, que trata dos Direitos Obrigacionais, consagra o princípio locus regit actum, que quer dizer que o ato será regido pelo local onde se deu o fato. Portanto, sendo a obrigação constituída no Brasil, aqui deve ser paga; e, sendo ela constituída no estrangeiro, mas para ser executada aqui, será aplicada a legislação estrangeira somente quanto aos elementos do contrato. Obrigação é a relação jurídica transitória entre credor e devedor cujo objeto consiste numa prestação pessoal e econômica, positiva ou negativa, que tem como garantia do adimplemento o patrimônio do devedor. As obrigações são extintas pelo adimplemento. Também podem ser extintas nos casos de remissão (perdão da dívida), renúncia, prescrição, impossibilidade de execução por caso fortuito ou força maior e implemento de condição ou termo extintivo. As obrigações são constituídas de elementos subjetivos e objetivos e de um vínculo jurídico. O elemento subjetivo é formado pelos envolvidos: credor e devedor. O elemento objetivo é formado pelo objeto da obrigação: a prestação a ser cumprida. O vínculo jurídico: é a determinação que sujeita o devedor a cumprir determinada prestação em favor do credor e devedor. Diante da possibilidade de as partes envolvidas em um contrato serem de países distintos, sendo que um é o Brasil, será eleito foro competente o local de residência, não importando domicílio, do proponente do negócio. Art. 10. A sucessão por morte ou por ausência obedece à lei do país em que domiciliado o defunto ou o desaparecido, qualquer que seja a natureza e a situação dos bens. § 1º A sucessão de bens de estrangeiros, situados no País, será regulada pela lei brasileira em benefício do cônjuge ou dos filhos brasileiros, ou de quem os represente, sempre que não lhes seja mais favorável a lei pessoal do de cujus. (Redação dada pela Lei n. 9.047, de 18-5-1995) § 2º A lei do domicílio do herdeiro ou legatário regula a capacidade para suceder. Segundo o Princípio da Saisine, a sucessão se dá no momento exato da morte. No Brasil, respeita-se a extraterritorialidade quando se trata de Direito Sucessório e sendo o estrangeiro não residente em nosso país. Portanto, na partilha dos bens de estrangeiro no país, havendo herdeiro brasileiro, é permitida a adoção da lei estrangeira por nossos nacionais, desde que essa seja mais benéfica do que a nossa. Essa vantagem ajuda muito ao nacional, que pode, sim, ser menos favorecido por nossa legislação. O art. 1.798 do Código Civil determina que são legítimos a suceder as pessoas nascidas ou já concebidas no momento da abertura da sucessão. Esse dispositivo protege claramente os direitos sucessórios do nascituro, o que também interfere em garantir direito a uma pessoa que ainda não nasceu, portanto, que ainda não possui personalidade jurídica. O ex-Ministro Cesar Asfor Rocha, no REsp 61434-SP, publicado em 8-9- 1997, posicionou-se claramente sobre a condição de herdeiro, e, passado quase duas décadas, seu voto ainda é referência. Vejamos: Direito Internacional Privado. Condição de Herdeiro. Capacidade de Suceder. Lei Aplicável. Capacidade para suceder não se confunde com qualidade de herdeiro. Esta tem a ver com a Ordem da Vocação hereditária que consiste no fato de pertencer a pessoa que se apresenta como herdeira a uma das categorias que, de um modo geral, são chamadas pela lei a sucessão, por isso haverá de ser aferida pela mesma lei competente para http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L9047.htm reger a sucessão do morto que, no Brasil, “obedece a Lei do país em que era domiciliado o defunto” (art. 10, caput, da LICC). Resolvida a questão prejudicial de que determinada pessoa, segundo o domicílio que tinha o de cujus, é herdeira, cabe examinar se a pessoa indicada é capaz ou incapaz para receber a herança, solução que é fornecida pela lei do domicílio do herdeiro (art. 10, § 2º, da LICC). Art. 11. As organizações destinadas a fins de interesse coletivo, como as sociedades e as fundações, obedecem à lei do Estado em que se constituírem. § 1º Não poderão, entretanto, ter no Brasil filiais, agências ou estabelecimentos antes de serem os atos constitutivos aprovados pelo Governo brasileiro, ficando sujeitas à lei brasileira. § 2º Os Governos estrangeiros, bem como as organizações de qualquer natureza, que eles tenham constituído, dirijam ou hajam investido de funções públicas, não poderão adquirir no Brasil bens imóveis ou susceptíveis de desapropriação. § 3º Os Governos estrangeiros podem adquirir a propriedade dos prédios necessários à sede dos representantes diplomáticos ou dos agentes consulares. O mestre Silvio Rodrigues, em sábias palavras, já dizia que o substrato da pessoa natural é o homem; das pessoas jurídicas, uma união de pessoas ou um patrimônio, voltados a um fim. Em outras palavras: tendo em vista sua estrutura, as pessoas jurídicas podem ser divididas em dois grupos: as que têm como elemento subjacente o homem, isto é, as que se compõem pela reunião de pessoas, tais como as associações - universitas personarum; e as que se constituem em torno de um patrimônio destinado a um fim, isto é, as fundações - universitas bonorum. Esse importante esclarecimento do doutrinador Silvio Rodrigues é muito oportuno para o art. 11, da LINDB, porque este rege o reconhecimento da pessoa jurídica de direito estrangeiro no Brasil, trata expressamente de sociedades e fundações estrangeiras e a aquisição de bens imóveis por essas. E mais, somente permite sua atuação noBrasil após autorização do Governo, e proíbe expressamente a aquisição de bens imóveis, salvo se para representação consular ou diplomática. Qualquer sociedade, fundação, empresa, estabelecimento comercial etc. que se estabeleça em território brasileiro, mesmo que tenha sede em outro país, deverá se submeter às leis brasileiras. No Direito do Trabalho, por exemplo, os funcionários de multinacionais que tenham sua sede em território estrangeiro, mas trabalhem em território brasileiro se submeterão à lei pátria. Os artigos que tratam do conceito de bens imóveis no Código Civil preceituam que são bens imóveis, principalmente, o solo e tudo quanto se lhe incorporar natural ou artificialmente (art. 79) e que também se consideram imóveis para os efeitos legais os direitos reais sobre imóveis e as ações que os asseguram e o direito à sucessão aberta (art. 80). A desapropriação, esclarecemos aqui para um melhor entendimento do § 2º, é o “procedimento pelo qual o Poder Público, compulsoriamente, transfere para si a propriedade de bem móvel ou imóvel pertencente a terceiro, para atender interesse social, utilidade pública ou necessidade pública, em regra, mediante pagamento de justa e prévia indenização. Dessa forma, expropriar ou desapropriar pode ser entendido como o ato de transferir bens privados para o domínio público. Na desapropriação há aquisição originária da propriedade, por meio de uma transferência forçada, não importando que o terceiro tenha o justo título e a boa-fé do bem expropriado. A desapropriação pode ser feita em favor das pessoas de direito público ou de pessoas de direito privado delegadas ou concessionárias de serviço público. Excepcionalmente, pode ser realizada por pessoas de direito privado que desempenhem atividade de interesse público. Pode ser expropriado tudo aquilo que é objeto de desapropriação, ou seja, bens móveis e imóveis, corpóreos e incorpóreos, inclusive os direitos. Os bens públicos também são passíveis de desapropriação. A União pode desapropriar bens dos Estados e Municípios; e os Estados poderão desapropriar bens de Município. Dessa forma, ratificamos, podem os governos estrangeiros adquirir somente a propriedade dos locais onde estabelecem suas embaixadas e representações consulares. Não se deve, por isso, ter aquele local como território estrangeiro. Está dentro do país, portanto é território brasileiro e se submete às leis brasileiras, mas, diante de convenções internacionais, este imóvel é inviolável. Art. 12. É competente a autoridade judiciária brasileira, quando for o réu domiciliado no Brasil ou aqui tiver de ser cumprida a obrigação. § 1º Só à autoridade judiciária brasileira compete conhecer das ações, relativas a imóveis situados no Brasil. § 2º A autoridade judiciária brasileira cumprirá, concedido o exequatur e segundo a forma estabelecida pele lei brasileira, as diligências deprecadas por autoridade estrangeira competente, observando a lei desta, quanto ao objeto das diligências. O art. 12 trata da competência internacional do juiz brasileiro para os casos que envolverem um réu domiciliado no Brasil ou que em nosso país a obrigação deverá ser efetivada. Como já dito anteriormente, toda obrigação que se realizar em território pátrio, bem como os julgamentos aqui ocorridos, devem ser regidos pela lei nacional, principalmente no que diz respeito a imóvel, pois não poderá juiz alienígena tratar de imóveis situados em território brasileiro. Quanto ao cumprimento das cartas rogatórias, aqui no Brasil, depende de exequatur a ser obtido em procedimento regulado pelo Regimento Interno do Superior Tribunal de Justiça. Exequatur é a autorização dada pelo Presidente do STJ para que possam, validamente, ser executadas, na jurisdição do juiz competente, as diligências ou atos processuais requisitados por autoridade judiciária estrangeira. Quando de sua presidência do STJ, o ilustre magistrado cearense César Rocha, no Agravo Regimental na Carta Rogatória 2009/0043157-8, publicado no DJe 4-2-2010, disse que a tramitação da carta rogatória pela via diplomática confere autenticidade aos documentos e à tradução feita no exterior. A questão referente à ausência de documento que comprove a existência do débito objeto de cobrança deverá ser apresentada à Justiça estrangeira, pois, na concessão do exequatur, esta Corte exerce juízo meramente delibatório e não examina o mérito da causa ajuizada no exterior. Concedido o exequatur, a rogatória será remetida ao juiz federal do Estado em que deva ser cumprida (CF, art. 102, I, h). Praticado o ato, a rogatória é devolvida ao STJ, que a remeterá de volta ao país de origem. Art. 13. A prova dos fatos ocorridos em país estrangeiro rege-se pela lei que nele vigorar, quanto ao ônus e aos meios de produzir-se, não admitindo os tribunais brasileiros provas que a lei brasileira desconheça. Trata-se de mais uma aplicação do princípio locus regit actum, ou seja, o que determinará a lei aplicável será o local do fato ocorrido. Porém, nesse caso, há uma nítida posição influenciada pela corrente monista nacionalista, pois as provas obtidas no estrangeiro não podem ser desconhecidas pela legislação brasileira, que determinará sua validade. Objetivando um melhor entendimento, podemos citar uma questão muito comum, que é o caso de uma gravação sem autorização judicial. No Brasil, esse tipo de prova não é aceito no processo, porém, pode ser que em algum outro país essa prova seja lícita. Havendo então o envio desse tipo de prova, não seria aceita pelo nosso ordenamento jurídico. Art. 14. Não conhecendo a lei estrangeira, poderá o juiz exigir de quem a invoca prova do texto e da vigência. A aplicação e prova do direito estrangeiro perante os tribunais nacionais depende fundamentalmente de quem a invoca. Nossa legislação diz que o Juiz não é obrigado a conhecer a lei estrangeira, e compete ao interessado demonstrar sua existência e vigência. Art. 15. Será executada no Brasil a sentença proferida no estrangeiro, que reúna os seguintes requisitos: a) haver sido proferida por juiz competente; b) terem sido as partes citadas ou haver-se legalmente verificado à revelia; c) ter passado em julgado e estar revestida das formalidades necessárias para a execução no lugar em que, foi proferida; d) estar traduzida por intérprete autorizado; e) ter sido homologada pelo Supremo Tribunal Federal. Os requisitos elencados pelo art. 15 têm por objetivo dar uma maior segurança jurídica às sentenças provenientes de outros países. O reconhecimento e a execução de sentenças estrangeiras no Brasil devem respeitar não só a esse dispositivo, mas todo o nosso ordenamento. Quando se determina que a sentença deva ser proferida por juiz competente, quer se ater a competência do magistrado, significando precipuamente a faculdade que a lei concede a funcionário para decidir determinadas questões. Dessa maneira, juiz competente é aquele que tem o poder concedido pelo seu Estado para julgar determinada causa. A Constituição assegura o princípio da ampla defesa e do contraditório, que garante que todos podem se defender, e por meio de todas as provas em direito admitidas. Portanto a citação é indispensável e, caso não ocorra, é erro formal que contamina todos os atos processuais. A sentença transitada em julgado é aquela a que não cabe mais recurso, portanto, não pode mais ser alterada. Assim, consubstancia maior segurança as decisões alienígenas que somente serão cumpridas aqui no Brasil se não puderem mais ser alteradas. Todos os atos processuais no direito brasileiro devem ser escritos na língua pátria, ou seja, português. Quando assim não estiverem deverão ser traduzidos por tradutor juramentado. Assim, as sentenças estrangeiras para que possam ter validade no Brasil, precisam cumprir esse mesmo requisito. Diz o art. 483 do CPC que a sentença proferida por tribunal estrangeiro não terá eficácia no Brasil senão depois de homologada pelo Supremo Tribunal Federal. A homologação é a aprovação dada por autoridade judicial ou administrativa acertos atos particulares para que produzam os efeitos jurídicos que lhes são próprios. O parágrafo único desse artigo diz que as sentenças meramente declaratórias, que buscam conferir certeza à existência ou inexistência de uma relação jurídica do estado das pessoas, não dependem de homologação. Art. 16. Quando, nos termos dos artigos precedentes, se houver de aplicar a lei estrangeira, ter-se-á em vista a disposição desta, sem considerar-se qualquer remissão por ela feita a outra lei. Nesse dispositivo temos um impedimento simples de utilização da legislação estrangeira. Quando esta é utilizada, o magistrado deve se ater a ela unicamente, não sendo legal qualquer remissão ou indicação que a lei alienígena faça a uma outra lei. A título de exemplo, podemos citar o caso de uma lei alienígena que trate sobre o casamento entre seu nacional e um estrangeiro e, em seu texto, haja inúmeras remessas ao Código Civil daquele país. No Brasil, caso essa lei seja invocada para um caso concreto, não poderá o juiz também utilizar o Código Civil estrangeiro se assim não foi impulsionado pela parte interessada. Art. 17. As leis, atos e sentenças de outro país, bem como quaisquer declarações de vontade, não terão eficácia no Brasil, quando ofenderem a soberania nacional, a ordem pública e os bons costumes. Soberania é a capacidade de um Estado ser independente para a comunidade internacional. Ordem pública é a manutenção do Estado dentro de um quadro de bem social. E bons costumes são aqueles que não venham a ferir o que o senso comum entende como correto. Esses três pilares são o alicerce para que uma norma alienígena possa ser apreciada pelo Brasil. Esse artigo é uma questão de soberania. Antes de qualquer ponto, as normas jurídicas de outro Estado não podem ofender no que quer que seja a ordem jurídica brasileira. O Ministro Luiz Fux, quando ainda estava no STJ, em decisão publicada em 25-9-2006, julgando um caso concreto que envolvia validade de citação para pessoa residente em país diverso e ordem pública, assim se posicionou brilhantemente quanto a essas questões: [...] 4. A homologação de sentença estrangeira reclama prova de citação válida da parte requerida, seja no território prolator da decisão homologada, seja no Brasil, mediante carta rogatória, consoante a ratio essendi do art. 217, II, do RISTJ. 5. Deveras, é assente na Suprema Corte que: “A citação de pessoa domiciliada no Brasil há de fazer-se mediante carta rogatória, não prevalecendo, ante o princípio direcionado ao real conhecimento da ação proposta, intimação realizada no estrangeiro. Inexistente a citação, descabe homologar a sentença. [...]” (SEC 7696/HL, Relator Ministro Marco Aurélio, DJ de 12-11-2004) 6. Precedentes jurisprudenciais do STF: SEC 6684/EU, Relator Ministro Sepúlveda Pertence, DJ de 19-8-2004; SEC 7570/EU, Relatora Ministra Ellen Gracie, DJ de 30-4-2004 e SEC 7459/PT, Relator Ministro Nelson Jobim, DJ de 30-4-2004. 7. In casu, consoante destacado pelo Procurador-Geral da República às fls. 496/499, “a própria requerente na peça inicial informa que a citação da requerida fora “efetivada através do serviço postal dos Estados Unidos da América, após haver a C.T. Corporation” informado por carta, “que ela não havia sido contratada pela requerida para prestar este serviço de recepção de citações judiciais” (fls. 5)”. Ademais, nem mesmo a requerida compareceu, voluntariamente, ao juízo processante. Domiciliada em território brasileiro, a requerida deveria ser citada por carta rogatória e não à luz das formas processuais anglo- americanas. Assim, não houve citação da empresa brasileira, nem esta compareceu ao tribunal estrangeiro, razão por que não há como emprestar validade à decretação da revelia. 8. Outrossim, o acordo cujo descumprimento fundou a condenação, não restou firmado por signatário habilitado, sendo certo que a requerente não esclareceu quem detinha poderes, na época da assinatura do contrato, para em nome do grupo de Empresas Seguradoras Brasileiras, comprometer a participação da empresa requerida no referido contrato, nem trouxe aos autos qualquer comprovante que autorizasse tal gestão, muito embora instado a fazê-lo por determinação advinda de cota do Parquet Federal. 9. Deveras, a legitimação para firmar o contrato não restou suprida por administradora do consórcio, porquanto, à luz do negócio, restou hígida a individualidade e personalidade jurídica das empresas, e que contaminou o compromisso e, a fortiori, a competência eleita. Precedentes do STF: SEC6753/UK - Reino Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda do Norte, Relator Ministro Maurício Corrêa, DJ de 4-10-2002, por isso que a ação deveria ter sido proposta no foro do domicílio do réu. 10. Destarte, posto matéria de ordem pública, conhecível de ofício, vislumbra-se nítida nulidade, ante a ausência de motivação da decisão homologanda, em afronta ao art. 216, RISTF e 17 da LICC que assim dispõe: “As leis, atos e sentenças de outro país, bem como quaisquer declarações de vontade, não terão eficácia no Brasil, quando ofenderem a soberania nacional, a ordem pública e os bons costumes”. Nesse sentido são uníssonas a doutrina e a jurisprudência: (SEC 2521, relator Ministro Antônio Neder). 11. Homologação indeferida (arts. 217, I e II, e 216 da RISTF c/c 17 da LICC). Art. 18. Tratando-se de brasileiros, são competentes as autoridades consulares brasileiras para lhes celebrar o casamento e os mais atos de Registro Civil e de tabelionato, inclusive o registro de nascimento e de óbito dos filhos de brasileiro ou brasileira nascido no país da sede do Consulado. (Redação dada pela Lei n. 3.238, de 1º-8-1957) O Brasil adota o critério jus solis para determinar seus nacionais, ou seja, para ser brasileiro nato é necessário nascer no território brasileiro. O outro critério para determinar a nacionalidade seria o jus sanguinis, que estabelece não importar o local de nascimento, mas a origem dos genitores. Esse modelo é adotado em grande parte dos países europeus, região típica de emigração. No caso desse dispositivo, excepcionalmente, o brasileiro residente em outro país pode registrar o nascimento do seu filho em autoridade consular competente. E, essa criança, que poderia nascer em um país que adotasse o jus sanguinis e, consequentemente, ser um apátrida, será brasileira. Quanto ao casamento, registro de óbito e demais atos da vida civil, conforme preceitua o próprio artigo, o brasileiro pode praticá-los na sede do consulado em país estrangeiro. Assim, quando de seu retorno para o Brasil, ficará mais fácil o trâmite dessa documentação. Art. 19. Reputam-se válidos todos os atos indicados no artigo anterior e celebrados pelos cônsules brasileiros na vigência do Decreto-lei n. 4.657, de 4 de setembro de 1942, desde que satisfaçam todos os requisitos legais. (Incluído pela Lei n. 3.238, de 1º-8-1957) Parágrafo único. No caso em que a celebração desses atos tiver sido recusada pelas autoridades consulares, com fundamento no artigo 18 do mesmo Decreto-lei, ao interessado é facultado renovar o pedido dentro em 90 (noventa) dias contados da data da publicação desta lei. (Incluído pela Lei n. 3.238, de 1º-8-1957) Esse dispositivo trata da validade dos atos civis previstos no artigo anterior enquanto a LINDB estiver vigente em nosso ordenamento. Remete, mesmo que implicitamente, aos ditames previstos no Código Civil brasileiro que regulam o casamento, a personalidade jurídica, dentre outros atos que podem ser celebrados por autoridades consulares brasileiras no estrangeiro. E mais, havendo algum impedimento legal que impossibilite temporariamente o interessado de praticar o ato, este pode, superado o empecilho, fazer a solicitação no prazo de 90 dias. Fontes do DIP A palavra “fonte” vem do latim, significa nascente, e pode ser entendida como a origem de algo ou causa de onde provêm efeitos. No Direito, fonte é aquilo que o produz, os motivos que levam ao aparecimento da norma jurídica e podem ser materiais ou formais. As fontes materiais para o DireitoInternacional Público são os acontecimentos que provocam alterações jurídicas anteriormente não pensadas ou que não possuíam a força política necessária para acontecerem. A título de exemplo, poder-se-ia citar a Guerra dos Trinta Anos ou a II Guerra Mundial, grandes acontecimentos que provocaram mudanças nos preceitos jurídicos quando de seu encerramento. As fontes formais são o modo pelo qual se revela a norma jurídica, é a sua exteriorização. A título de exemplo, poder-se-ia citar o Tratado de Westfália e a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Portanto, as fontes do DIP são os elementos básicos do regime jurídico internacional dos quais emanam os direitos e os deveres das pessoas internacionais. E, para esta obra, quando se falar de fonte, o leitor deve entender justamente que se está falando exclusivamente de fonte formal, pois, a fonte material, deve ser estudada por outras áreas. 2.1. A CORTE INTERNACIONAL DE JUSTIÇA E O art. 38 DO SEU ESTATUTO A Corte Internacional de Justiça (CIJ) é o mais importante Tribunal Judiciário da Comunidade Internacional, é órgão da ONU, tem sede na cidade de Haia, na Holanda, e sucedeu a Corte Permanente de Justiça Internacional (CPJI), órgão jurisdicional da Liga das Nações (1920). O Estatuto da Corte Internacional de Justiça (CIJ) traz em seu art. 38 uma relação de fontes que podem ser utilizadas por essa Corte em seus julgamentos e é considerada a lista de fontes jurídicas internacionais mais utilizada no mundo e, para muitos estudiosos, seria até taxativa. A doutrina moderna e majoritária entende que não é taxativa, porém, será essa lista o alicerce de nossos comentários. Destacar-se-ia: Art. 38 (Corte Internacional de Justiça) 1. A Corte, cuja função é decidir de acordo com o Direito Internacional as controvérsias que lhe forem submetidas, aplicará: a) As convenções internacionais, quer gerais, quer especiais, que estabeleçam regras expressamente reconhecidas pelos Estados litigantes; b) O costume internacional, como prova de uma prática geral aceita como sendo o Direito; c) Os princípios gerais do Direito, reconhecidos pelas nações civilizadas; d) Sob ressalva da disposição do art. 59, as decisões judiciárias e a doutrina dos juristas mais qualificados das diferentes nações, como meio auxiliar para a determinação das regras de Direito. 2. A presente disposição não prejudicará a faculdade da Corte de decidir uma questão ex aequo et bono, se as partes com isto concordarem. O artigo supra não estabelece hierarquia entre as fontes e assim entende a doutrina internacional. Portanto, convenções, costumes, princípios, decisões judiciais e doutrina estão, para a Corte e para os estudiosos, no mesmo patamar de importância. Entretanto, os costumes, os princípios gerais e os tratados são considerados as fontes primárias do DIP. Os mais diversos tribunais internacionais utilizam essas fontes, escritas ou não, conforme previsto no Estatuto do Tribunal Internacional de Justiça, para alicerçarem suas decisões. Objetivando uma abordagem mais didática, começaremos nossos trabalhos pelo segundo item, os costumes internacionais, a fonte de DIP mais antiga e berço de todas as outras, e, terminaremos com as convenções internacionais, diante de sua complexidade e importância. 2.1.1. Costumes internacionais Os costumes internacionais são o conjunto de normas consagradas pela prática reiterada, repetitiva, nas relações internacionais, que, para o senso geral, são obrigatórios. Apesar da moderna tendência de codificação dos costumes e normas internacionais, essa fonte é de grande relevância para o Direito Internacional porque não existe ainda um centro integrado de produção de normas jurídicas que atue em nível mundial e por estabelecer um corpo de regras universalmente aplicáveis. No conceito de costume, dois elementos se distinguem: o objetivo (material), representado pela prática reiterada dos atos em si só, e o subjetivo (psicológico), representado pela certeza que aquela maneira de agir é obrigatória por ser legal. O direito internacional consuetudinário não exige um prazo mínimo para se consolidar, ser exigido, apesar de ter em sua própria definição a prática reiterada no tempo. E, tampouco, uma amplitude geográfica mundial; podendo ser esse costume de uma região ou pequeno grupo de países (número não determinado), não podendo, é obvio, ser de um único país. O melhor exemplo da tendência de codificação dos costumes internacionais são as Convenções de Viena que ocorreram após a Segunda Guerra Mundial, na década de 1960. Essas, apesar de inovarem em alguns aspectos quanto às relações diplomáticas, consulares e sobre os tratados, ratificaram por escrito costumes já reconhecidos por uma ampla parte da sociedade internacional. E mais, a Convenção de Viena de 1969 ainda bem destacou que, diante da impossibilidade jurídica de codificar todos os costumes, “as regras do Direito Internacional consuetudinário continuarão a reger as questões não reguladas pelas disposições da presente Convenção”23. Embora haja a tendência da codificação, não podemos dizer que há alguma hierarquia entre normas consuetudinárias e escritas, como bem destacou o brilhante jurista Francisco Rezek, um dos maiores internacionalistas do Mundo: O Estatuto da Corte da Haia não tencionou ser hierarquizante ao mencionar os tratados antes do costume. É sabido que aqueles primam grandemente sobre este em matéria de operacionalidade: todo tratado oferece alto grau de segurança no que concerne à apuração de sua existência, de seu termo inicial de vigência, das partes obrigadas, e do exato teor da norma - expressa articuladamente em linguagem jurídica24. Segundo o professor Paulo Portela, o costume extingue-se: a) pelo desuso, quando determinada prática deixa de ser reiterada, generalizada e uniforme dentro de um determinado grupo social após certo lapso temporal, ou quando se perde a convicção acerca de sua obrigatoriedade; b) pelo aparecimento e pela afirmação de um novo costume que substitua costume anterior, o que ocorre quando a dinâmica internacional impõe novas práticas mais consentâneas com a realidade; e c) pela substituição do costume por tratado internacional que incorpore as normas costumeiras, dentro de um processo conhecido como “codificação do Direito Internacional”25. 2.1.2. Princípios Gerais do Direito Os Princípios Gerais do Direito, reconhecidos pelas nações civilizadas, são fontes do DIP obrigatórias para todos os Estados. Princípios gerais são conceitos, entendimentos, pressupostos jurídicos (codificados) que alicerçam as normas de convivência entre os Estados e as organizações internacionais. Esses princípios também são adotados no âmbito interno, ou seja, também regulam as relações entre os cidadãos e norteiam o ordenamento jurídico de cada país. Os Princípios Gerais do Direito são normas internacionais imperativas nos termos do art. 53 da Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados (1969). Esse diploma legal relaciona os princípios estabelecidos internacionalmente e de adoção obrigatória pelos Estados: 1) Não agressão; 2) Solução pacífica dos litígios entre Estados; 3) Autodeterminação dos povos; 4) Boa-fé no cumprimento das obrigações internacionais; 5) Não intervenção nos assuntos internos dos Estados; 6) Cooperação internacional; e 7) Pacta Sunt Servanda. 1) Não agressão - Todos os Estados têm a obrigação de respeitar os demais Estados soberanos, não podendo valer-se da força para impor condições e/ou interesses; 2) Solução pacífica dos litígios entre Estados - A Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados, além de garantir a não agressão como um princípio, determinou que todos os conflitos, prioritariamente, devem ser resolvidos através de soluções pacíficas. A guerra é a última hipótese que um Estado deve procurar; 3) Autodeterminação dos povos - Uma nação tem o direito de ser independente e poder se autogovernar. Esse princípio contrapõe a exploração colonial europeia que vigeu por muitos séculos na América, na África e na Ásia e foi o alicercelegal para as antigas colônias se transformarem em países independentes; 4) Boa-fé - Nas obrigações internacionais o que é negociado deve ser igual ao que a parte tem a intenção e pode cumprir. Havendo intencional diferença entre o que se pensa e o que se quer fazer, com o nítido interesse de se locupletar, configurada está a má-fé. Portanto, a boa-fé é condição imprescindível para a segurança jurídica e para o desenvolver das relações internacionais; 5) Não intervenção - O respeito à soberania de um Estado não diz respeito somente às questões militares, por exemplo, a não agressão, mas a todas as esferas de poder. Um Estado soberano deve resolver seus problemas internos sem a interferência de um outro, ratificando assim a sua autodeterminação; 6) Cooperação internacional - Um Estado deve prestar ajuda a um outro quando esse necessitar, diante de uma impossibilidade ou limitação para se solucionar determinado problema. Esse princípio não fere a soberania, fortalece a união entre os Estados e pode minimizar problemas de catástrofes naturais, miséria, educação, dentre outros; 7) Pacta Sunt Servanda - É lei entre as partes que por elas foi pactuada, livremente negociada. Um Estado tem a obrigação de cumprir o que firmou com outro Estado ou organização internacional. A infeliz expressão “reconhecidos pelas nações civilizadas” foi escrita sob influência eurocêntrica, porém, além de não encontrar subsídios para sua mantença na dinâmica atual, sendo muito criticada pelos internacionalistas, foi justificada como uma referência aos Estados que possuíam uma ordem jurídica, excluindo assim as sociedades primitivas - não civilizadas. Porém, melhor seria apenas retirar essa expressão que em nada contribui e ainda coloca em dúvida a igualdade entre os Estados. Os princípios acima elencados não são taxativos, e outros diplomas legais os repetem ou incluem outros princípios de direito internacional. A Convenção de Viena sobre Direito dos Tratados, por exemplo, que também codificou alguns princípios internacionais, em seu preâmbulo assim se posiciona quanto aos princípios: [...] Constatando que os princípios do livre consentimento e da boa-fé e a regra pacta sunt servanda são universalmente reconhecidos, [...] Conscientes dos princípios de Direito Internacional incorporados na Carta das Nações Unidas, tais como os princípios da igualdade de direitos e da autodeterminação dos povos, da igualdade soberana e da independência de todos os Estados, da não intervenção nos assuntos internos dos Estados, da proibição da ameaça ou do emprego da força e do respeito universal e observância dos direitos humanos e das liberdades fundamentais para todos26. Dois ou mais Princípios Gerais do Direito podem colidir, o que ocorre, por exemplo, quando algo é proibido de acordo com um dos princípios e, de acordo com o outro, permitido - um dos princípios terá que ceder. Isso não significa, contudo, que o princípio cedente deva ser declarado inválido, nem que nele deverá ser introduzida uma cláusula de exceção. Na verdade, o que ocorre é que, naquele momento, e isso não significa que não possa ocorrer a situação inversa, um dos princípios tem precedência em face do outro sob determinadas condições27. 2.1.3. Tratados Internacionais A Convenção Internacional é um acordo formal, um contrato, firmado entre pessoas jurídicas de Direito Internacional Público. Possui inúmeras terminologias sinônimas, conforme veremos no quadro esquemático abaixo, porém, utilizaremos aqui somente convenção ou tratado. Art. 2º 1. Para os fins da presente Convenção: a)“tratado” significa um acordo internacional concluído por escrito entre Estados e regido pelo Direito Internacional, quer conste de um instrumento único, quer de dois ou mais instrumentos conexos, qualquer que seja sua denominação específica; b)“ratificação”, “aceitação”, “aprovação” e “adesão” significam, conforme o caso, o ato internacional assim denominado pelo qual um Estado estabelece no plano internacional o seu consentimento em obrigar-se por um tratado28; As Convenções Internacionais têm seu primeiro registro datado do ano aproximado de 1280 a.C., quando um tratado pôs fim à guerra entre egípcios e hititas em terras sírias e ainda estabeleceu alianças contra inimigos comuns, comércio, migrações e extradições29. Porém, até o século passado, os Tratados Internacionais não se apresentavam como uma fonte habitual do DIP, como sempre foram os costumes e os princípios. Nesse interregno temos importantes convenções que ganharam grande importância histórica e jurídica no DIP, tais como os Tratados de Paz de Westfália (1648) e o Congresso de Viena (1815). Entretanto, foi no século XX, diante do fortalecimento da figura dos Chefes de Estados, que personalizavam os Estados no cenário internacional e obedeciam aos ditames constitucionais no âmbito interno de seu país, da criação das Organizações Internacionais, que impulsionaram as relações multilaterais, e da codificação dos Direitos dos Tratados, que teve suas regras determinadas por juristas e estudiosos de 110 Estados na Convenção de Viena, de 23 de maio de 1969, que as Convenções Internacionais ganharam o seu protagonismo no DIP. Valério Mazzuoli, um dos maiores especialistas da área no Brasil, assim escreveu: A conclusão da Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados representou o passo mais relevante de codificação do Direito Internacional contemporâneo, especialmente pela importância da matéria versada, que atinge (desde a entrada em vigor da Convenção, em 27 de janeiro de 1980) todo e qualquer tratado. Ademais, numa época em que a regência da sociedade internacional é determinada quase que exclusivamente pela conclusão de tratados, a vigência da Convenção de 1969 traduz-se num porto seguro para os atores internacionais no que tange aos inúmeros temas que se discutem na arena internacional em nossos dias. No caso do Brasil, a ratificação da Convenção (em 25 de setembro de 2009) assinala a entrada definitiva do país (ainda que tardia, é certo) nessa nova era por que passa a sociedade internacional, devendo a doutrina pátria acompanhar todas essas mudanças30. Indubitavelmente, os Tratados Internacionais são hoje a principal fonte do DIP, pois garantem segurança e estabilidade às relações jurídicas internacionais. São acordos internacionais que registram em um documento ou mais a vontade dos Estados sobre determinado assunto específico, quando são especiais, ou sobre temas mais abrangentes, quando são gerais. A Convenção de Havana de 1928, em seu art. 2º, já determinava que os tratados obrigatoriamente seriam escritos: “É condição essencial nos tratados a forma escrita. A confirmação, prorrogação, renovação ou recondução serão igualmente feitas por escrito, salvo estipulação em contrário”. A Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados (1969), também conhecida por sua sigla CVDT, objetivou codificar o Direito dos Tratados, embora reconhecesse que nunca o cobriria completamente. Dentre outros pontos, a CVDT ratificou a obrigatoriedade quanto à forma escrita quando, em seu art. 2º, I, a (acima transcrito), determinou que tratado é um acordo internacional concluído por escrito entre Estados e regido pelo Direito Internacional. A Convenção regula desde questões pré-negociais (capacidade para concluir tratados e plenos poderes) até o processo de formação dos tratados (adoção, assinatura, ratificação, adesão, reservas etc.), sua entrada em vigor, a aplicação provisória, a observância e a interpretação, bem assim a nulidade, a extinção e a suspensão de sua execução. Entre as regras basilares de Direito das Gentes reconhecidas pela Convenção, cabe destacar a norma pacta sunt servanda (art. 26) e o seu corolário, segundo o qual o Direito Interno não pode legitimar a inexecução de um tratado (art. 27); recorda-se, ainda, o reconhecimento da cláusula rebus sic stantibus, que permite a extinção ou a retirada de um tratado quando passa a existir uma mudança fundamental nas circunstâncias relativamente àquelas existentesao tempo da estipulação do acordo (art. 62), entre outras31. Essa Convenção de Viena, no que pese ter destacada importância para todos os Estados, somente entrou em vigor em 27 de janeiro de 1980, quando foi atingido o quórum mínimo de 35 Estados-partes (art. 84, CVDT). O Brasil, por meio do Poder Executivo, enviou o texto da Convenção de Viena de 1969 para o Congresso Nacional, para a necessária aprovação, em 1992. Em 2009, houve a aprovação pelo Congresso e, no mesmo ano, em 25 de setembro, data, então, da ratificação do tratado, o Brasil enviou seu posicionamento oficial à ONU, e, posteriormente, o Presidente da República sancionou o texto da Convenção de Viena sobre Direito dos Tratados, que entrou em nosso ordenamento com o Decreto n. 7.030, assinado em 14 de dezembro de 2009. IMPORTANTE: No final desta obra, anexamos o Decreto n. 7.030, de 14- 12-2009, leitura obrigatória, assim como as Convenções de Viena de 1961 e 1963, para os candidatos à seleção do Instituto Rio Branco. Em 2015, até o mês de agosto, 115 países já haviam aderido a CVDT. Alguns países ricos e muito importantes para o Direito Internacional Público, como Estados Unidos e França, ainda hoje não o fizeram32. De toda sorte, os internacionalistas consideram que a CVDT atinge a todos os países, signatários ou não, pois se refere às regras gerais de como devem ser formalizados esses documentos. A CVDT trata exclusivamente da relação entre Estados. Porém, em 21 de março de 1986, houve uma outra Convenção de Viena para abordar os tratados assinados entre Estados e Organizações Internacionais e somente entre Organizações Internacionais. Essa Convenção de Viena de 1986, também conhecida por sua sigla em inglês VCLTIO (Vienna Convention on the Law of Treaties between States and International Organizations or Between International Organizations), estabeleceu que as Organizações Internacionais também poderiam assinar tratados. Embora, na prática, seja pacífico o entendimento de que as Organizações Intergovernamentais podem celebrar tratados, a Convenção de Viena de 1986 ainda não entrou em vigor por não ter atingido o quórum mínimo. Todos os tratados internacionais serão regidos pelo DIP e as partes são necessariamente pessoas de Direito Internacional (Estados ou Organizações Internacionais). Os tratados podem materializar-se em uma ou mais peças distintas e podem envolver duas partes (bilateral) ou mais (multilateral). Embora, conforme já destacamos, o nome tratado possua mais de vinte sinônimos, alguns são utilizados em casos específicos e distingui-los é bastante importante:33 NOMENCLATURA DOS TRATADOS CONVENÇÃO A doutrina e os legisladores pátrios utilizam esta expressão como sinônimo de tratado, porém, mais correto seria a sua utilização para denominar um tratado solene e multilateral em que as partes envolvidas possuem posições convergentes. Ex.: Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas (1961). CARTA OU ATO CONSTITUTIVO Tratado assinado entre dois ou mais Estados para criação de uma Organização Internacional. Nesse tratado, os Estados integrantes estabelecem as regras da Assembleia Geral (órgão máximo deliberativo), a composição do secretariado (órgão executivo) e o funcionamento dessa nova Organização. Ex.: Carta das Nações Unidas ou Carta de São Francisco (1945). A expressão Carta ainda é utilizada para tratados solenes que estabeleçam direitos e deveres para os Estados-partes ou, até mesmo, para documentos que não são tratados, mas que foram assinados de forma solene e possuem relevante importância histórica ou política. CONVÊNIO Acordos de interesse político, cultural ou transporte, principalmente. Largamente utilizado na prática brasileira. Ex.: Convênio Cultural Brasil-Espanha (Decreto n. 7.842, de 12 de novembro de 2012 - Promulga o Acordo entre a República Federativa do Brasil e o Reino da Espanha, relativo ao Estabelecimento e Funcionamento de Centros Culturais, firmado em Madri, em 17 de setembro de 2007). ACORDO Em geral, são tratados de natureza econômica, financeira ou comercial estabelecido entre Estados. Ex.: GATT (Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio). ACORDO COMPLEMENTAR OU AJUSTE Compromisso de importância secundária que dá execução a atos anteriores já concluídos. Normalmente, os tratados principais são acordo- quadro e, por isso, precisam de outros atos para regulamentar a sua operacionalidade. Ex.: Ajuste Administrativo para a implantação do Acordo de Previdência Social entre a República Federativa do Brasil e o Japão, de 27 de dezembro de 2010, que regulou o Acordo de Previdência Social Brasil-Japão assinado em 29 de julho de 201011. ACORDO DE SEDE Tratado bilateral assinado entre um Estado e uma Organização Internacional. O objeto desse tratado é o regime jurídico da instalação física da organização no território daquele Estado, que pode ou não ser membro da Organização. E mais, uma Organização Internacional pode celebrar mais de um acordo de sede com o mesmo Estado ou com Estados diferentes. Ex.: Acordo de Sede da ONU assinado entre esta Organização e os EUA. PROTOCOLO Acordos de menor formalidade (não necessariamente de menor importância) e/ou complementares. Ex.: Protocolo de Ouro Preto de 1994, suplementar ao Tratado de Assunção (1990); Protocolo de Quioto (1997). A diplomacia brasileira costuma utilizar a expressão “protocolo de intenções” para designar o começo de um compromisso internacional. ESTATUTO Tratados que estabelecem normas para os tribunais de jurisdição internacional. Ex.: Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional (Decreto n. 4.388, de 25 de setembro de 2002). CONCORDATA Tratado bilateral assinado entre a Santa Sé e um Estado. O objeto desse tratado é de cunho religioso, diz respeito à relação entre a Igreja Católica local e o Estado pactuante. Qualquer outro tratado de cunho religioso que não envolva a Santa Sé não recebe o nome de concordata. Ex.: Concordata de 1801, assinada entre Napoleão e o Papa Pio VII. Concordata entre a Santa Sé e Portugal (2004). Concordata entre a Santa Sé e o Brasil (Decreto n. 7.107, de 11 de fevereiro de 2010, que promulga o Acordo entre o Governo da República Federativa do Brasil e a Santa Sé relativo ao Estatuto Jurídico da Igreja Católica no Brasil, firmado na Cidade do Vaticano, em 13 de novembro de 2008). COMPROMISSO Tratado bilateral assinado entre Estados em litígio que se comprometem reciprocamente a resolver um litígio por meio de Arbitragem Internacional. Possui a mesma função quando assinado entre particulares (pessoa física ou jurídica). Ex.: Compromisso Arbitral assinado entre EUA e Inglaterra no Caso Alabama (1872). Compromisso Arbitral assinado entre Israel e a ONU no Caso do Conde Bernadotte (1948). DECLARAÇÃO Documentos, não obrigatoriamente tratados, que estabelecem (codificam) regras, princípios jurídicos ou objetivos políticos entre os Estados envolvidos. Ex.: Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948) ou Declaração de Fortaleza, assinada na VI Cúpula dos BRICs, em 15 de julho de 2014. O estudioso do DIP não pode se confundir com outros termos habituais no contexto de negociações internacionais que não são tratados. Acreditamos que o melhor exemplo dessa confusão são os gentlemen’s agreement, acordos firmados entre estadistas, chefes de Estado, Chefes de Governo ou Ministros das Relações Exteriores, todos investidos de cargos de mando, fundados sobre a honra e condicionados à permanência de seus protagonistas no cargo. Não há aqui um compromisso de Estado, mas um posicionamento pessoal entre lideranças. Nos gentlemen’s agreement o compromisso é de pura índole moral, sem nenhum vínculo jurídico, alicerçada no contexto singular de determinado momento e condicionada a mantença no cargo dos senhores chefes que o firmaram. O melhor e mais utilizado exemplo de gentlemen’s agreement é o da Carta do Atlântico (Atlantic Charter), que foi declarada durante a Segunda Guerra Mundial entre o primeiro-ministro da Inglaterra, Sr. Winston Churchill, que já havia declarado guerra aos alemães, eo presidente dos Estados Unidos, o Sr. Franklin D. Roosevelt, que ainda não havia entrado no conflito bélico. A Carta do Atlântico assim declarava: DECLARAÇÃO DE PRINCÍPIOS, FEITA PELO PRESIDENTE DOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA E O PRIMEIRO MINISTRO DO REINO UNIDO, A 14 DE AGOSTO DE 1941, E RECONHECIDA POR CARTA DO ATLÂNTICO. Declaração conjunta do Presidente dos Estados Unidos da América, Sr. Roosevelt, e Primeiro Ministro, Senhor Churchill, representando o Governo de Sua Majestade do Reino Unido, os quais tendo se reunido, julgaram conveniente tornar conhecidos certos princípios comuns da política nacional dos seus respectivos países, nos quais se baseiam as suas esperanças de conseguir um porvir mais auspicioso para o mundo. Primeiro - Os seus respectivos países não procuram nenhum engrandecimento, nem territorial, nem de outra natureza. Segundo - Não desejam que se realizem modificações territoriais que não estejam de acordo com os desejos livremente expostos pelos povos atingidos. Terceiro - Respeitam o direito que assiste a todos os povos de escolherem a forma de governo sob a qual querem viver; e desejam que se restituam os direitos soberanos e a independência aos povos que deles foram despojados pela força. Quarto - Com o devido às suas obrigações já existentes, se empenharão para que todos os estados, grandes ou pequenos, vitoriosos ou vencidos, tenham acesso em igualdade de condições ao comércio e às matérias primas do mundo, de que precisem para a sua prosperidade econômica. Quinto - Desejam promover, no campo da economia, a mais ampla colaboração entre todas as nações, com o fim de conseguir, para todos, melhores condições de trabalho, prosperidade econômica e segurança social. Sexto - Depois da destruição completa da tirania nazista, esperam que se estabeleça uma paz que proporcione a todas as nações os meios de viver em segurança dentro de suas próprias fronteiras, e aos homens em todas as terras a garantia de existências livres de temor e de privações. Sétimo - Essa paz deverá permitir a todos os homens cruzar livremente os mares e oceanos. Oitavo - Acreditam que todas as nações do mundo, por motivos realistas assim como espirituais, deverão abandonar todo o emprego da força. Em razão de ser impossível qualquer paz futura permanente, enquanto nações que ameaçam de agressão fora de suas fronteiras - ou podem ameaçar -, dispõem de armamentos de terra, mar e ar, acreditam que é impossível que se desarmem tais nações, até que se estabeleça um sistema mais amplo e duradouro de segurança geral. Eles igualmente prestarão todo auxílio e apoio a medidas práticas, tendente a aliviar o peso esmagador dos armamentos sobre povos pacíficos. Observem que a Carta do Atlântico é um gentlemen’s agreements, no que pese ter recebido o nome de “carta”. Torna-se, assim, além de um exemplo de Acordo entre Cavalheiros, um exemplo de flexibilidade e ausência de rigor terminológico dos nomes dados aos atos internacionais. O Brasil aderiu, embora não fosse um tratado, aos princípios desse gentlemen’s agreement em 6 de fevereiro de 1943. Percebe-se que a carta firmada entre os dois estadistas relatava uma preocupação com a situação dos países após o fim do conflito bélico, daí ter sido recepcionada por outros países. Em tempos modernos, são normais encontros bilaterais entre estadistas ou ministros de Relações Exteriores e, pela ocasião, ser assinado um comunicado comum das partes. Essa declaração, quando o documento possui uma substância política, é uma espécie de gentlemen’s agreement. Não possui a relevância de um tratado, não há um vínculo jurídico, mas encontra-se mais robusta do que uma simples carta para registrar o encontro ou algo do tipo, escrita sem substrato. A simples troca de comunicação entre Estadistas, Ministros de Relações Exteriores ou até mesmo Chefes de Estado ou Governo não pode ser considerada um tratado ou um gentlemen’s agreement. Pode sim, quando há nítidas convergências para se firmar um acordo, um caráter subjetivo irrefutável, sendo essa troca um meio de comunicação ou até mesmo um método negocial, receber esse procedimento o nome de Troca de Notas. Não é um ato solene, mas na Troca de Notas as partes têm o interesse declarado de criarem um vínculo jurídico, que pode chegar a ser um tratado. Outra situação que pode trazer alguma confusão referente a terminologia é o caso do Acordo Executivo, já destacado. Esses são os tratados firmados exclusivamente pelo Chefe do Poder Executivo e sem o parecer ou a autorização do Poder Legislativo, como é o padrão. Essa expressão foi criada nos Estados Unidos e acontece quando não é necessário ratificar o tratado. O Poder Legislativo não participa em nada, seja previamente, com uma autorização, ou depois, com um consentimento. Há ainda que se destacar que o Acordo Executivo não necessariamente seguirá o mesmo trâmite para as partes envolvidas, podendo ser um mesmo documento um Acordo Executivo para um país, que não o submeteu a apreciação do Poder Legislativo, e um tratado normal para outro, que teve que submetê-lo ao Poder Legislativo. Esse tipo de tratado tem servido, principalmente, para a conclusão de acordos bilaterais com importância limitada e, diante de sua simplicidade, quem o tem realizado são os Ministros das Relações Exteriores em detrimento da figura maior do Chefe de Estado, que se atém a tratados de maior envergadura. Essa nova “engenharia normativa”, que tem por objetivo estabelecer mecanismos que assegurem negociações continuadas e a adoção de novos padrões, muito se desenvolveu com a Segunda Guerra Mundial e com a nova dinâmica da Sociedade Internacional. José Cretella Neto, no Curso de direito internacional do meio ambiente, tece importantes comentários sobre o assunto: Quando as matérias são urgentes, utilizam-se outras técnicas, como os executive agreement cuja entrada em vigor não exige ratificação por parte dos Estados. Usam-se, ainda, os gentlemen’s agreements, e os non-binding agreements, que consistem em entendimentos, firmados ao final de conferências diplomáticas, “congelando” as negociações no ponto em que se encontram, para retomada futura. Não são atos jurídicos acabados, como um tratado, mas representam um avanço nos entendimentos, e têm validade moral, ex.: acordos firmados durante a Conferência do Rio - 92, de iniciais negociações, em conferência diplomática visando a concluir um acordo sobre desertificação34. Ainda segundo o autor, esses atos compõem o que se denomina soft law (droit mou), modo de formação bastante frequente no Direito Internacional do Meio Ambiente, e que leva, não raro, à conclusão de instrumentos solenes como o Código de Boas Práticas sobre o Movimento Internacional Transfronteiriço de Rejeitos Radioativos, aprovado em Viena, em 27-6- 1990, e a Declaração sobre a Proteção do Meio Ambiente Ártico, aprovada em Rovaniemi, em 14-6-1991. NEGOCIAÇÕES INTERNACIONAIS QUE GERAM ALGUM TIPO DE COMPROMISSO GENTLEMEN’S AGREEMENTS Acordos firmados entre os Chefes do Poder Executivo, regulados pela moral e cujo respeito repousa sobre a honra. Diante da ausência de caráter jurídico, não são considerados tratados e não se submetem ao controle do Poder Legislativo. Fica condicionada a permanência no poder do Chefe de Governo ou de Estado que assumiu o compromisso. Ex.: Acordo Root Takahira (1907), quando o Japão assumiu o compromisso de desencorajar a imigração de seus nacionais para os EUA. Esse acordo perdurou até 1924. ACORDO DO EXECUTIVO (EXECUTIVE AGREEMENT) As negociações são concluídas pelo Poder Executivo sem a participação/aprovação do Poder Legislativo. Possuem forma simplificada, são encerradas, na maioria dos casos, por trocas de notas diplomáticas (item a seguir) e a conclusão é imediata (negociação e assinatura). Por não passar pelo Poder Legislativo, não é necessária a ratificação do Chefe de Estado, mas é um Tratado e, portanto, possui suas consequências jurídicas. Ex.: Estados Unidos (sistema denominado de fast track). TROCA DE NOTAS Geralmente utilizado paratratar de assuntos administrativos, é realizado pelo corpo diplomático. A troca de notas diplomáticas tem por objetivo o amadurecimento de um acordo entre as partes envolvidas. Até então, não há um vínculo jurídico propriamente dito, mas apenas uma negociação. Não é considerado um tratado. MODUS VIVENDI Acordo temporário realizado para aguardar ser alcançado um objetivo comum. As partes encontram-se em negociação para mudar a situação atual, porém, esta já está garantida em um tratado denominado Modus Vivendi. Ex.: A Colômbia capturou integrantes das FARC em território equatoriano. Houve um problema diplomático neste caso por uma suposta invasão de jurisdição, desrespeito à soberania do Equador. Os Estados assinaram um acordo Modus Vivendi para manter a situação atual até que o fato fosse investigado e se apurasse, caso assim fossem as conclusões do trabalho, as responsabilidades. SOFT LAW Todas as regras cujo valor normativo é menos constringente do que os das normas jurídicas tradicionais. Ex.: Regras colocadas nos foros diplomáticos e “Agendas” assumidas pelos Estados em futuros encontros sobre a mesma matéria (muito comum na área Ambiental - Agenda 21, adotada na Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento - Rio de Janeiro, 1992). Um tratado pode criar uma situação jurídica estática ou dinâmica. A primeira espécie, também conhecida como objetiva ou definitiva, é a dos tratados que estabelecem a transferência definitiva de bens de qualquer ordem. O exemplo clássico é o do tratado de limites, quando dois ou mais Estados negociam as fronteiras de seus territórios. A França e os Estados Unidos assinaram em 1803 um tratado de limites para a compra da Louisiana, assim como os estadunidenses firmaram com a Rússia, em 1867, a compra do Alaska. A segunda espécie diz respeito a tratados cuja execução (e não somente os efeitos) se estende durante o tempo. É o típico caso de um tratado de cooperação militar ou de livre comércio. E mais, ainda existem casos de tratados que misturam as duas espécies, obrigações jurídicas dinâmicas e estáticas, como foi o firmado entre o Brasil e a Bolívia para a compra do Acre em 1903. Nesse tratado, não houve a venda de um território já delimitado, mas de um que ainda seria demarcado; e ainda houve o parcelamento da dívida e o compromisso de uma contraprestação objetivando uma compensação extrapecuniária ao valor firmado ao estado boliviano. Todos os Estados soberanos e Organizações intergovernamentais possuem capacidade para celebrar tratados, pois, conforme já dito, são pessoas jurídicas de DIP. Os representantes dessas pessoas jurídicas, quando das negociações, são determinados pelo Direito Internacional, codificado na Convenção de Viena de 1969. Os Chefes de Estado são, em regra, a voz externa de qualquer Estado, sendo ele então o representante legal para assinar um tratado. Independentemente da forma de Estado, unitário ou federado, cabe à União representar o País no cenário internacional. Nas formas clássicas de monarquia e de república, esta representada hoje pelo sistema presidencialista, o Chefe de Estado exerce o Poder Executivo e há uma separação nítida e equilibrada com o Poder Legislativo, portanto, uma única pessoa exerce as funções administrativas do Estado e não há dúvida de quem represente o país: o chefe do Poder Executivo. Esse é o sistema adotado pelo Brasil e pelos Estados Unidos. No Sistema de Governo Parlamentarista, seja na forma monárquica ou republicana, o Poder Legislativo é hipertrofiado em detrimento do Poder Executivo e cria-se a figura do Chefe de Governo. Esse parlamentar, que recebe o nome de Primeiro Ministro, exerce as funções típicas do Poder Executivo e esvazia a função de Chefe de Estado, passando este a ser uma figura simbólica para o Direito Interno. Mas, para o Direito dos Tratados, a representatividade do Chefe de Estado não sofre desgaste com o sistema parlamentarista e continua sendo o Chefe do Poder Executivo o representante do país no exterior. Esse é o sistema adotado pela Espanha, pela França e por vários países europeus. Importante destacar que, na prática internacional, quando as figuras do Chefe de Estado e Chefe de Governo são distintas internamente, reconhece- se também no Chefe de Governo a representatividade do Estado. A Inglaterra seria um bom exemplo dessa prática, quando, geralmente, quem participa das negociações e visitas internacionais é o Primeiro Ministro e não a rainha ou o rei da Inglaterra. Os Ministros das Relações Exteriores, em qualquer sistema, também possuem a qualidade representativa ampla do Estado, como os Chefes de Estado e de Governo. Entretanto, enquanto para estes a representatividade é originária, para o Ministro é derivada, pois é investida naquela função específica pelo Chefe de Estado ou de Governo. Fala-se assim que o Ministro das Relações Exteriores é um plenipotenciário, pois é um mandatário que gozará dessa condição enquanto exercer o cargo, não necessitando de procuração específica ou prova documental que comprove seus poderes. No Brasil, nos EUA e na América Latina, o Ministro das Relações Exteriores recebe o nome especial de Chanceler, porém, em outros países, o nome Chanceler pode designar o nome do presidente da Câmara dos Lordes (Inglaterra), Ministro da Justiça (França) ou simplesmente não está associado à função de Ministro das Relações Exteriores. O Chefe de Missão Diplomática - Embaixador ou o encarregado de negócios - também prescinde da apresentação da carta de plenos poderes quando se encontra em negociações bilaterais. A Convenção de Viena estabelece que os poderes dos Chefes de Missão Diplomática persistem até a adoção do texto do compromisso, mas, na prática, esses diplomatas negociam e assinam os tratados bilaterais, com os Estados de exercício funcional. Os demais plenipotenciários, demais Ministros de Estado, outros Diplomatas, Funcionários Públicos ou algum profissional privado recrutado pelo Estado devem sempre apresentar a Carta de Plenos Poderes, que é expedida pelo Chefe de Estado, destinada ao governo copactuante e contém quais poderes tem o credenciado para a negociação. A negociação pode ser bilateral ou coletiva. A negociação bilateral geralmente se desenvolve no território de uma das partes, objetivando diminuição de custos e otimização de tempo, e o tratado é redigido no idioma que traga maior comodidade às partes, seja o adotado em seu país, seja um terceiro idioma não adotado por nenhum dos negociadores. O tratado é lavrado, atualmente, em duas ou mais versões autênticas (quantidade de idiomas envolvidos), mas com privilégio assegurado a uma única, para efeito de interpretação. A negociação termina no consenso, quando as duas partes concordarem com todos os termos do tratado. A negociação coletiva exige a convocação de uma conferência diplomática internacional, conforme as Convenções de Viena de 1961 e 1963, ou uma pauta de discussão. A iniciativa da Conferência é assumida por um Estado, por um grupo de Estado ou por uma Organização Internacional, que, normalmente, capitania os trabalhos, estabelece o regulamento interno da conferência (que deve ser aprovado em plenário pelos outros Estados) e sedia os encontros. As partes envolvidas escolhem o idioma negocial e os idiomas em que pretendem lavrar as versões autênticas do texto final, e esses não são obrigatoriamente os mesmos. A Carta das Nações Unidas foi produzida em cinco idiomas - inglês, chinês, francês, russo e espanhol - que deram origem a várias versões oficiais, como o texto traduzido para o português lavrada no Brasil. Nas negociações bilaterais, o texto final é fruto de um consenso após a análise detalhada de palavra por palavra. Por outro lado, diante de uma maior complexidade, nas negociações multilaterais, há, normalmente, uma divisão em grupos de trabalho para produzir um projeto inicial a ser submetido a todos os Estados envolvidos. Como em situações mais complexas, o consenso é muito difícil, a Convenção de Viena, em seu art. 9º, estabeleceuo princípio dos dois terços para se chegar a uma posição final. Portanto, ausente o consenso, atingindo-se esse quórum, ficam as partes obrigadas para com o seu texto aprovado, mesmo a minoria vencida ou aquele Estado que participou da negociação mas não assinou o texto final. O tratado, bilateral ou coletivo, possui sempre um preâmbulo e uma parte dispositiva. Semelhante ao que ocorre nas Constituições dos Estados, o preâmbulo norteia a interpretação do texto do tratado, pois relaciona as partes envolvidas e os motivos do ato convencional. A parte dispositiva é o corpo propriamente do tratado e vem em linguagem jurídica, numerada por artigos. A dimensão é bastante variada, pois não há uma regra, como existe no Tratado de Versalhes, com 440 artigos; pode existir um contrato com menos de uma dezena. Ainda quanto à estrutura dos tratados, deve-se destacar os anexos, que, assim como a parte dispositiva e contrariamente ao preâmbulo, é composto de um teor comprometedor entre as partes. Não há uma obrigatoriedade de o anexo ter uma linguagem jurídica, até porque este pode trazer figuras, gráficos ou outros dados importantes para o tratado que não sejam textos. A assinatura do tratado incontestavelmente põe fim à negociação e exterioriza em definitivo o consentimento das partes. A exigibilidade do tratado é imediata, mas, se em seu texto houver disposição em contrário, pode haver um lapso entre a assinatura e a entrada em vigor do contrato, o que os juristas chamam de vacatio legis. A ratificação do tratado não diz respeito a sua aceitação pelo ordenamento jurídico pátrio, mas a um ato unilateral que exprime definitivamente a vontade de obrigar-se no plano internacional. É um ato unilateral, discricionário, irretratável, com prazo indeterminado (exceto com disposição expressa em contrário) e expresso (escrito ou oral) de uma pessoa jurídica de DIP. O Brasil, por exemplo, não ratificou a Convenção sanitária que firmou em 1873 com a Argentina e o Uruguai ou somente ratificou a Convenção de Viena sobre Direito dos Tratados (CVDT), por escrito, em 2009. Neste último exemplo, o Brasil depositou a sua ratificação na ONU, pois estamos falando de um tratado coletivo, porém, sendo um tratado bilateral, normal seria a troca de documentos entre os Chefes de Estado. Após as conclusões dos trabalhos, o Chefe de Estado possui livre discricionariedade para dar continuidade ou não ao processo de consentimento do tratado, que passa pela aprovação do Poder Legislativo. Então, o Chefe de Estado pode mandar arquivar o processo, quando entender que o produto das negociações foi insatisfatório; solicitar mais estudos no âmbito ainda do Poder Executivo; e, quando melhor lhe convier, submeter o texto a apreciação do Congresso Nacional. No Brasil, em atenção à Constituição Federal, até mesmo nos tratados mais simples, entende-se obrigatório a aprovação do texto pelo Congresso Nacional. Portanto, embora possível na teoria, não existe acordo executivo no Brasil. Art. 49, CF/88. É da competência exclusiva do Congresso Nacional: I - resolver definitivamente sobre tratados, acordos ou atos internacionais que acarretem encargos ou compromissos gravosos ao patrimônio nacional; O abono do Congresso Nacional não obriga o presidente a ratificar o tratado, assim como não pode o Chefe de Estado ratificar o tratado sem a aprovação prévia do Poder Legislativo. Isso significa dizer que a vontade nacional quanto à participação em um acordo externo é alicerçada na aprovação de dois poderes. O Presidente da República envia ao Congresso Nacional o texto final do tratado por mensagem, acompanhado da exposição de motivos feita anteriormente pelo Ministro das Relações Exteriores para o próprio Chefe do Executivo. O tratado começa a ser discutido e votado na Câmara dos Deputados e depois segue para o Senado Federal. Ambas as casas possuem comissões especializadas cujos estudos e pareceres precedem a votação em plenário. Em regra, as comissões envolvidas são as de Relações Exteriores e de Constituição e Justiça, porém, caso o tratado possua alguma matéria específica que interfira em outra área, por exemplo, indústria e comércio ou finanças, essas comissões também emitirão pareceres sobre o projeto compromissado. A votação em plenário, quando o tratado não diz respeito a direitos humanos, requer um quórum comum de maioria absoluta dos integrantes da casa e, quando da votação, a maioria absoluta dos que se fazem presente. Quando o tema é de direitos humanos, a votação do tratado exige o quórum qualificado de Emenda Constitucional, conforme o art. 5º, § 3º, da Constituição Federal, introduzido em nosso ordenamento pátrio pela Emenda Constitucional n. 45, de 2004. Art. 5º, § 3º Os tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos que forem aprovados, em cada Casa do Congresso Nacional, em dois turnos, por três quintos dos votos dos respectivos membros, serão equivalentes às emendas constitucionais. Diante dessa importante alteração trazida pela Emenda Constitucional n. 45, de 2004, os tratados sobre direitos humanos, após a aprovação pelo Congresso Nacional, passam a ter o patamar de uma Emenda Constitucional, ou seja, a compor a Constituição Federal. Teríamos então, com a aprovação de convenções sobre direitos humanos, documentos materialmente constitucionais no Brasil, que sempre adotou a classificação formal para o conceito de Constituição. O Congresso Nacional, por meio do Senado Federal, publica em Diário Oficial um decreto legislativo formalizando a decisão quando esta é aprovada. A rigor, é a partir dessa publicação que o tratado passa a compor o ordenamento jurídico brasileiro, habilitando-se ao cumprimento por nacionais, estrangeiros, órgãos públicos e privados. Caso contrário, embora raro em nossa história, a desaprovação pelo Congresso é comunicada ao Presidente da República por mensagem e não há publicação de decreto legislativo. A aprovação do tratado, mesmo depois de publicada, é retratável pelo Congresso até a sua ratificação. Depois, não há embasamento legal e, a nosso ver, caducaria qualquer direito de o Congresso Nacional fazer alguma alteração. O Estado, na figura do seu chefe, mesmo tendo participado de todas as negociações, pode fazer ressalvas sobre certos pontos do tratado para poder entrar no seu domínio jurídico. Essas reservas são atos discricionários de cada Estado soberano definido e permitido pela própria Convenção de Viena de 1969, que, provando sua afirmativa, foi aprovada em nosso ordenamento jurídico com reserva. Assim, nos é apresentado no próprio dispositivo legal o Decreto 7.030, de 14 de dezembro de 2009: “promulgada a Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados, concluída em 23 de maio de 1969, com reserva aos artigos 25 e 66”. As reservas somente cabem nos tratados coletivos, frutos de negociações com muitos Estados e que muitas vezes não chegam a um texto completo comum. Justamente para evitar que um Estado fique marginalizado por causa de algum ponto discordante, permite-se a reserva. Quanto aos tratados bilaterais, qualquer pretensa reserva quer dizer, em verdade, uma recusa ao texto até então aprovado e um convite a renegociação. Realmente, não haveria sentido em um Estado fazer reserva se existem somente dois Estados negociando. O tratado pode ainda conter os limites de reserva que um Estado pode fazer, restringindo-a a certos artigos, ou até mesmo proibir esse artifício, como é o caso das convenções internacionais sobre o trabalho. Terminado todo esse trâmite, não sendo mais aceito no direito internacional cláusulas secretas ou tratados sigilosos desde a época do sistema da Sociedade das Nações, todo o tratado deve ser registrado na ONU, conforme coloca o art. 102 da Carta de São Francisco: 1. Todo tratado e todo acordo internacional, concluídos por qualquer membro das Nações Unidas depois da entrada em vigor da presente Carta, deverão, dentro do mais breve prazo possível, ser registrado e publicado pela Secretaria. 2. Nenhuma parte em qualquer tratado ou acordointernacional que não tenha sido registrado de conformidade com as disposições do parágrafo 1 deste artigo poderá invocar tal tratado ou acordo perante qualquer órgão das Nações Unidas. O sistema de registro da ONU é de amplitude irrestrita, mas coexiste com outros sistemas de organizações intergovernamentais regionais (OEA, Liga dos Estados Árabes...) ou especializados (OMC, OIT...). O Brasil segue o sistema de registro da ONU, e, como prova, o Governo brasileiro depositou o instrumento de ratificação da Convenção de Viena de 1969 junto ao Secretário-Geral das Nações Unidas em 25 de setembro de 2009, logo após a provação dessa referida convenção pelo Congresso Nacional em 17 de julho de 2009. Todos os tratados, no Brasil, são promulgados por decreto do Presidente da República após a aprovação no Congresso Nacional. Depois de entrar em nosso ordenamento, assume o tratado a estatura hierárquica de uma lei ordinária, quando de assuntos diversos, e de emenda constitucional, quando de direitos humanos e aprovados por um quórum diferenciado. Assim explica o jurista Francisco Rezek a entrada do tratado no ordenamento jurídico nacional: No Brasil se promulgam, por decreto do presidente da República, todos os tratados que tenham feito objeto de aprovação congressional. Publicam-se apenas, no Diário Oficial da União, os que hajam prescindido do assentimento parlamentar e da intervenção confirmatória do chefe de Estado. No primeiro caso, o decreto de promulgação não constitui reclamo constitucional: ele é produto de uma praxe tão antiga quanto a Independência e os primeiros exercícios convencionais do Império. Cuida- se de um decreto, unicamente porque os atos do chefe de Estado costumam ter esse nome. Por nada mais. Vale aquele como ato de publicidade da existência do tratado, norma jurídica de vigência atual ou iminente. Publica- os, pois, o órgão oficial, para que o tratado - cujo texto completo vai em anexo - se introduza na ordem legal, e opere desde o momento próprio. A simples publicação no Diário Oficial, autorizada pelo ministro das Relações Exteriores e efetivada pela Divisão de Atos Internacionais do Itamaraty, garante a introdução no ordenamento jurídico nacional dos acordos celebrados no molde “executivo” - sem manifestação tópica do Congresso ou intervenção formal, a qualquer título, do presidente da República35. Os efeitos dos tratados, após adentrarem no ordenamento jurídico nacional e serem ratificados, podem ser inúmeros, pois modificam situações jurídicas objetivas. O internacionalista Francisco Rezek classifica os efeitos do tratado da seguinte forma: a) Efeito difuso: é assim caracterizado o tratado que possui efeitos amplos, ultrapassando os limites dos Estados pactuantes. Um bom exemplo é quando dois Estados, que possuem águas fluviais em comum, determinam a livre navegação civil de todas as bandeiras nesse rio. Nesse contexto, mesmo um terceiro Estado que não firmou o tratado é alcançado pelos efeitos do tratado, pois pode usufruir dessa liberdade que os Estados pactuantes concederam a todos os outros. b) Efeito aparente: ocorre quando um Estado “X” assina um tratado com um Estado “Y” nos mesmos moldes de um tratado anterior firmado com o Estado “Z”, mas com melhores condições. Entretanto, o tratado com o Estado “Z” possui uma cláusula, na doutrina internacional é o que se chama de cláusula de nação mais favorecida, estabelecendo que, se o Estado “X” firmar acordo mais favorável do que aquele com outro Estado, os efeitos desse novo acordo se estendem ao Estado “Z”. Portanto, os efeitos do tratado firmado entre “X” e “Y” teriam efeitos sobre “Z”, que não participou da negociação. Torna-se importante destacar que esse efeito aparente somente ocorre quando há a cláusula de nação mais favorecida - geralmente acordos bilaterais -, pois, caso contrário, os Estados teriam sua liberdade de negociação muito restringida. Tomemos por exemplo, um acordo comercial: um Estado não é obrigado a conceder as mesmas benesses a todos os Estados de igual maneira. c) Previsão convencional de direitos para terceiros: A Convenção de Viena de 1969 estabeleceu, em seu art. 36, que quando um tratado criar direito direto para um Estado que não faz parte desse acordo, este deve consentir. Nesse caso, a convenção ainda aceita o silêncio como um consentimento tácito. d) Previsão convencional de obrigações para terceiros: A Convenção de Viena de 1969 estabeleceu em seu art. 3536. Tratados Terminologias Tratado, convenção, declaração, ato, pacto, estatuto, protocolo, acordo, concordata, compromisso, carta, convênio. Meios alternativos de instrumentos formais internacionais: Gentlemens Agreement, MOU (memotandum of understanding), pactum de contrabendo, pactum de negotiando. Condições de validade • Agente capaz • Objeto lícito e possível • Consentimento mútuo Classificações possíveis • Quanto ao número de partes: bilateral e multilateral • Quanto à matéria: tratado normativo e tratado comercial • Quanto ao ingresso de novos signatários: fechado ou sem cláusula de adesão e aberto ou com cláusula de adesão • Quanto aos efeitos: restritos às partes signatárias e extensivos a terceiros Efeitos • Efeitos no espaço: território interno dos Estados signatários e suas representações diplomáticas localizadas no território de outros Estados • Efeitos no tempo: vontade dos signatários, cumprimento do objetivo, prazo determinado, descumprimento, suspensão temporária de seus efeitos (guerra, impossibilidade de execução) Divisões • Preâmbulo • Parte dispositiva • Anexos (se houver) Espaço Em todo o território do Estado, salvo disposição expressa no próprio tratado. Idioma Livremente escolhido pelas partes signatárias. Versão original e autêntica • Versão original: a primeira versão, que será utilizada para fins de interpretação em caso de controvérsia. • Versão autêntica: as demais versões, escritas nos idiomas dos signatários. Ratificação (art. 49, I, da CF/88) Procedimento pelo qual se submete o tratado à apreciação do Congresso nacional e posteriormente à sanção do Presidente da república para que possa ter vigência no Brasil. Registro Procedimento por meio do qual o tratado, depois de concluído, é encaminhado pelos signatários à Secretaria- Geral da ONU, que se encarregará de registrá-lo em seus arquivos, bem como de informar os demais membros da Organização de sua existência. Cláusula da nação mais favorecida Cláusula que garante ao Estado signatário tratamento diferenciado por parte de outro, ainda que este firme tratado com outro Estado em condições mais vantajosas; ou seja, as condições mais vantajosas serão automaticamente aplicadas ao Estado que assinou tratado com cláusula da nação mais favorecida. Reservas Por meio das quais um Estado se exime de cumprir certas obrigações impostas pelo tratado. Emendas e revisões • Emenda: pequena modificação, relativa à matéria não essencial ao tratado • Revisão: ampla modificação, relativa à matéria essencial ao tratado Execução Os Estados cumprem os tratados pautados na ética e na boa- fé para gozar de credibilidade no cenário internacional. Interpretação Para interpretar um tratado é necessário ater-se ao seu objeto, aos fins buscados pelo signatário quando de sua elaboração, conciliando esses requisitos com o texto. A extinção do tratado é o ato pelo qual o acordo deixa permanentemente de gerar efeitos jurídicos na comunidade internacional. Pode ocorrer a qualquer momento pelo consentimento das partes envolvidas (ab-rogação superveniente), e também pode prever a sua extinção no seu próprio texto quando o documento é assinado já com o tempo de sua vigência (termo certo), findando em uma data específica (ab-rogação predeterminada), ou por uma condição resolutiva (evento futuro e incerto). A denúncia (art. 56, CVDT) é ato unilateral de uma das partes manifestando o interesse de rescindir o pacto firmado e, embora não presente no art. 54 da CVDT, é considerado uma forma de extinção do tratado. Esse procedimento, em regra,e o que é ser brasileiro. A aprovação no concurso do Instituto Rio Branco não é, portanto, o primeiro passo da carreira. É o momento em que a caminhada para dentro do Brasil se completou e passa a ser uma viagem para fora, para relatar ao mundo o que nós somos e o que pensamos. Devo confessar que a minha caminhada foi bem difícil. Quando comecei a me preparar para o concurso, poucas cidades brasileiras tinham estruturas que guiassem os estudos dos candidatos para o concurso. Apesar de ter certeza de que nunca nenhuma leitura é inútil, estou certo de que a imensidão de pensadores e artistas que conformam o pensamento brasileiro é difícil de ser abordada no momento de preparação para o concurso. Lembro-me de que sempre busquei obras que me guiassem os estudos, mas não tive a sorte de naquele momento haver publicações neste sentido. Foi com muita alegria que recebi o convite para escrever sobre minha experiência pessoal como jovem diplomata brasileiro em uma coleção que ajudará na caminhada preparatória dos futuros diplomatas. Esta coleção ajudará meus futuros colegas a seguir por caminhos mais rápidos e seguros para encontrar o sentido da brasilidade e a essência do Brasil. Congratulo- me com a Editora Saraiva, com os autores e com o organizador da coleção, Fabiano Távora, pela brilhante iniciativa e pelo excelente trabalho. Aos meus futuros colegas diplomatas, desejo boa sorte nessa caminhada. Espero que se aventurem a descobrir cada sabor deste vasto banquete que é a brasilidade e que se permitam vivenciar cada nota da sinfonia que é o Brasil. Espero também que possamos um dia sentar para tomar um café e conversar sobre o que vimos e, juntos, contar aos nossos amigos de outros países o que é o Brasil. Pequim, novembro de 2014. Romero Maia. APRESENTAÇÃO** Indubitavelmente, o concurso para o Instituto Rio Branco, uma das escolas de formação de Diplomatas mais respeitadas do mundo, é o mais tradicional e difícil do Brasil. Todos os anos, milhares de candidatos, muito bem preparados, disputam as poucas vagas que são disponibilizadas. Passar nessa seleção não é só uma questão de quem estuda mais, envolve muitos outros fatores. Depois de muito observar essa seleção, nasceu a ideia de desenvolver um projeto ímpar, pioneiro, que possibilitasse aos candidatos o acesso a uma ferramenta que os ajudasse a entender melhor a banca examinadora, o histórico dos exames, o contexto das provas, o grau de dificuldade e aprofundamento teórico das disciplinas, de forma mais prática. Um grupo de professores com bastante experiência no concurso do IRBr formataria uma coleção para atender a esse objetivo. Os livros foram escritos com base nos editais e nas questões dos últimos 13 anos. Uma análise quantitativa e qualitativa do que foi abordado em prova foi realizada detalhadamente. Cada autor tinha a missão de construir uma obra que o aluno pudesse ler, estudar e ter como alicerce de sua preparação. Sabemos, e somos claros, que nenhum livro consegue abordar todo o conteúdo programático do IRBr, mas, nesta coleção, o candidato encontrará a melhor base disponível e pública para os seus estudos. A Coleção Diplomata é composta dos seguintes volumes: Direito internacional público; Direito interno I - Constituição, organização e responsabilidade do Estado brasileiro; Direito interno II - Estado, poder e direitos e garantias fundamentais (no prelo); Economia internacional e brasileira (no prelo); Espanhol (no prelo); Francês (no prelo); Geografia I - Epistemologia, política e meio ambiente; Geografia II - Geografia econômica; História do Brasil I - O tempo das Monarquias; História do Brasil II - O tempo das Repúblicas; História geral; Inglês; Macroeconomia; Microeconomia; Política internacional I - A política externa brasileira e os novos padrões de inserção no sistema internacional do século XXI; Política internacional II - Relações do Brasil com as economias emergentes e o diálogo com os países desenvolvidos; Português. Todos os livros, excetuando os de língua portuguesa e inglesa, são separados por capítulos de acordo com o edital do concurso. Todos os itens do edital foram abordados, fundamentados numa doutrina ampla e atualizada, de acordo com as indicações do IRBr. Os doutrinadores que mais influenciam a banca do exame foram utilizados como base de cada obra. Juntem-se a isso a vivência e a sensibilidade de cada autor, que acumula experiências em sala de aula de vários locais (Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza, Curitiba, Belo Horizonte, Recife, Salvador, Teresina...). Cada livro, antes da parte teórica, apresenta os estudos qualitativos e quantitativos das provas de seleção de 2003 até 2015. Por meio de gráficos, os candidatos têm acesso fácil aos temas mais e menos cobrados para o concurso de Diplomata. Acreditamos que esse instrumento é uma maneira inteligente de entender a banca examinadora, composta por doutrinadores renomados, bastante conceituados em suas áreas. No final de cada livro, os autores apresentam uma bibliografia completa e separada por assuntos. Assim, o candidato pode ampliar seus conhecimentos com a segurança de que parte de uma boa base e sem o percalço de ler textos ou obras que são de menor importância para o concurso. As questões são separadas por assunto, tudo em conformidade com o edital. Se desejar, o aluno pode fazer todas as questões dos últimos anos, de determinado assunto, logo após estudar a respectiva matéria. Dessa forma, poderá mensurar seu aprendizado. Portanto, apresentamos aos candidatos do IRBr, além de uma coleção que apresenta um conteúdo teórico muito rico, bastante pesquisado, uma verdadeira e forte estratégia para enfrentar o concurso mais difícil do Brasil. Seguindo esses passos, acreditamos, seguramente, que você poderá ser um DIPLOMATA. Fortaleza, 29 de julho de 2015. Fabiano Távora EVOLUÇÃO DAS QUESTÕES POR ANO*** Caráter Jurídico do DIP Os Estados Unidos e o Irã anunciaram um histórico acordo internacional em 14 de julho de 2015, segundo o jornal britânico BBC1. Depois de complicadas negociações em Viena, na Áustria, o Irã aceitou um acordo para limitar sua atividade nuclear em troca da suspensão de sanções econômicas internacionais. As negociações entre o Irã e seis potências mundiais - Estados Unidos, Reino Unido, França, China, Rússia e Alemanha - começaram em 2006 e o grupo denominado P5+1 buscava garantias de que o Irã reduzisse significativamente sua atividade nuclear por temer que o país pudesse construir uma arma atômica. Em um discurso na televisão, Obama afirmou que o acordo tornará o mundo “mais seguro” ao permitir que as instalações nucleares iranianas possam ser rigorosamente inspecionadas. O presidente iraniano, Hassan Rouhani, afirmou que deu início a um “novo capítulo” nas relações do país com o mundo. O acordo internacional obrigará o Irã a: remover dois terços das centrífugas instaladas e armazená-las sob supervisão internacional; livrar-se de 98% do urânio enriquecido que possui; aceitar que as sanções podem ser rapidamente aplicadas de novo caso o acordo seja violado; dar à Agência Internacional de Energia Atômica (IAEA, na sigla em inglês) acesso “quando e onde for necessário”. Na prática, o acordo nuclear celebrado demonstra o caráter jurídico do Direito Internacional na sociedade contemporânea. Estados Soberanos negociando acordos interestatais, com livre consentimento, para alcançarem seus objetivos. Sem a convergência de vontade dos contratantes, por conseguinte, não há acordo internacionalmente válido2. O caráter jurídico do DIP somente pode ser compreendido quando se entende toda a sua evolução, desde tempos muito longínquos. Esta disciplina não é fruto da conquista de uma única nação ou de uma evolução sistemática no tempo, mas de contextos jurídicos, econômicos e históricos diversos que formaram o conceito contemporâneo. Atualmente, o que se construiu no DIP é o resultado de conquistas de muitos séculos. Andrew Clapham, professor de Direito Internacional Público no Instituto de Pós-Graduaçãotambém é determinado no texto do tratado. E, a não ser que o tratado disponha diversamente, um tratado multilateral não se extingue pelo simples fato de que o número de partes ficou aquém do número necessário para sua entrada em vigor, conforme art. 55, CVDT. TIPOS DE EXTINÇÃO DE TRATADOS AB-ROGAÇÃO Revogação do tratado é total. Os exemplos presentes no art. 54 da CVDT são de extinção total do acordo firmado entre as partes. Esta pode ser predeterminada, quando o próprio tratado já prevê a sua extinção, ou superveniente, quando o motivo que causou a extinção do tratado não está previsto em seu texto. DERROGAÇÃO Revogação parcial de um tratado e, por isso, exceção à extinção total do acordo. Situação estabelecida entre os Estados envolvidos para que parte do tratado não tenha mais validade. Desta forma, havendo acordo nesse sentido, não há necessidade de revogar totalmente o tratado. DENÚNCIA Revogação unilateral de um tratado. O Estado não quer mais participar do tratado, mas este continuará tendo efeitos para os outros Estados que o assinaram. No caso dos tratados bilaterais, a denúncia também é a extinção total do contrato. A CVDT, objetivando preservar o instrumento, permitiu a possibilidade de suspensão do tratado (art. 57 e s.). A extinção é a medida mais gravosa que as partes podem tomar e, para evitar esse passo definitivo, podem elas suspender o tratado por tempo determinado até que possam chegar à conclusão mais certa, se este voltará a ter efeitos jurídicos ou será mesmo extinto. A suspensão do tratado tem de ser integral referente à sua totalidade, exceto se o próprio tratado dispuser em contrário. Portanto, a suspensão do tratado é o ato pelo qual o acordo internacional deixa, parcialmente ou integralmente, de gerar efeitos por um período determinado. A Convenção de Viena sobre Direito dos Tratados (Decreto n. 7.030, de 14 de dezembro de 2009), na Seção 3, nos arts. 54 a 64, prevê as maneiras de extinção e suspensão da execução de tratados. Quando a parte rejeita o tratado não o sancionando ou viola uma disposição essencial para a consecução do objeto ou da finalidade do tratado, ocorre uma violação substancial, que autoriza a outra parte a suspender ou extinguir o acordo nos termos do art. 60, CVDT. No Tratado Bilateral, a violação substancial autoriza a outra parte a invocar a violação como causa de extinção ou suspensão da execução de tratado, no todo ou em parte. No Tratado Multilateral, as partes prejudicadas pela violação substancial podem, por consentimento unânime, suspender a execução do tratado, no todo ou em parte, ou extingui-lo. Essa extinção, segundo a CVDT, pode ocorrer nas relações entre os Estados prejudicados e o Estado faltoso ou entre todas as partes. Valério Mazzuoli faz importantes considerações sobre o tema: a Convenção de Viena de 1969 disciplina a matéria no seu art. 60, que versa sobre o princípio da reciprocidade nos tratados internacionais. Trata-se da aplicação da doutrina da exceptio non adimpleti contractus (exceção do contrato não cumprido) à teoria dos tratados, que autoriza uma parte no acordo a invocar tal inadimplemento como causa de extinção ou suspensão de sua execução, no todo ou em parte. Destaque-se a preocupação da Convenção de Viena em inserir no art. 60 uma série de requisitos tendentes a evitar que uma parte rescinda arbitrariamente o compromisso internacional, por se entender “prejudicada” para com a pretensa violação do acordo pelo outro Estado37. Segundo o art. 61, CVDT, uma parte pode invocar a impossibilidade de cumprir um tratado como causa para extinguir o tratado ou dele retirar-se se essa possibilidade resultar da destruição ou do desaparecimento definitivo de um objeto indispensável ao cumprimento do tratado. Se a impossibilidade for temporária, pode ser invocada somente como causa para suspender a execução do tratado. Questão que pode gerar dúvida é a que envolve o rompimento de relações diplomáticas ou consulares entre partes. Nesse caso, o problema diplomático entre os Estados não afetará as relações jurídicas estabelecidas pelo tratado, salvo se a existência de relações diplomáticas ou consulares for indispensável à aplicação do tratado. Portanto, o tratado internacional continuará vigendo mesmo depois do rompimento das relações diplomáticas e consulares, segundo a CVDT. 2.1.4. Jurisprudência e Doutrina A Jurisprudência e a Doutrina, segundo o art. 38 do Estatuto da Corte de Haia, acima destacado, são utilizadas como meios auxiliares para fundamentar as determinações das regras de Direito. Segundo próprio entendimento do ilustre magistrado e doutrinador Francisco Rezek, não seriam as decisões judiciárias e a doutrina fontes de Direito Internacional, mas instrumentos úteis ao seu correto entendimento e aplicação. As decisões judiciárias a que o artigo se refere são as que formam a jurisprudência internacional, ou seja, são as decisões judiciárias ou arbitrais, emanadas de tribunais reconhecidos pela comunidade internacional, que já foram proferidas em casos de controvérsias envolvendo Estados. Não se tem por base as decisões proferidas no contexto nacional de qualquer país, pois essas pertencem ao ordenamento pátrio respectivo. A doutrina é utilizada subsidiariamente quando escrita por jurista qualificado, leia-se, reconhecido internacionalmente por seus pares e pelos Estados. Não importa a nacionalidade do escritor, mas sim sua reputação quanto ao Direito Internacional. Dessa forma, evita-se a utilização de escritos casuais que, em verdade, somente poderiam defender interesses incompatíveis com o contexto universal ou escusos. A tendência natural, quando de um reconhecimento da doutrina de um internacionalista, é que esse jurista já tenha passado por inúmeros embates intelectuais e já consolidado seu nome como profissional da área, sendo, portanto, uma referência segura para a solução do conflito. 2.1.5. Equidade Quando, no inc. II, o art. 38 destaca que a Corte tem a faculdade de decidir uma questão ex aequo et bono, se as partes com isto concordarem, significa dizer que uma causa pode ser resolvida por equidade se assim as partes desejarem. A equidade pode ser usada quando uma norma jurídica é insuficiente para resolver o caso concreto de modo satisfatório à luz do Direito ou quando não existe norma que se aplique ao litígio em pauta. Portanto, equidade é decidir um conflito à luz de outras normas, principalmente princípios, que preencham o vazio eventual da completude legislativa internacional. Imperioso destacar que mesmo o juiz ou árbitro internacional querendo aplicar a equidade, essa ferramenta de completude do ordenamento jurídico somente pode ser utilizada com a aceitação das partes. O estudante ainda poderia pensar na analogia, que é a aplicação de uma norma elaborada para atuar em um caso semelhante ao litígio, muito utilizada no ordenamento interno, como meio de completude do ordenamento internacional. Porém, a analogia não foi relacionada no art. 38 da Corte e é um meio quase nunca utilizado pelos Estados. 2.2. ATOS UNILATERAIS DO ESTADO Os atos unilaterais dos Estados não estão relacionados no art. 38 do Estatuto da Corte de Haia como fonte do Direito Internacional. Entretanto, atualmente, diante da possibilidade de um Estado invocar uma norma do ordenamento pátrio de outro para defender interesses na seara internacional, os juristas vêm considerando esses atos proferidos por país soberano, em casos particulares, fonte do DIP. Os ordenamentos jurídicos modernos produzem inúmeros diplomas legais diuturnamente. Em sua grande maioria, esses atos normativos unilaterais não interessam ao DIP, pois dizem respeito exclusivamente às questões internas do país. Porém, existe a possibilidade de o objeto de alguma dessas normas produzidas por uma única soberania voltar-se a alguma questão de interesse também de outro país e, consequentemente, habilitar-se a fonte do Direito Internacional. Nesse contexto, o país estrangeiro poderia alicerçar a legalidade de um procedimento ou reivindicar umdireito na lei desse outro país. No Brasil, podemos citar como exemplo de ato unilateral que interessa ao Direito Internacional o Decreto Imperial n. 3.749, de 7 de dezembro de 1866, que franqueou as águas do rio Amazonas à navegação comercial de todas as bandeiras, instaurando um regime até hoje subsistente. Um Estado outro que tivesse uma embarcação sua molestada por autoridades brasileiras haveria de fundamentar sua defesa na legislação brasileira que assegura o livre acesso ao rio Amazonas38. Decreto n. 3.749, de 7 de Dezembro de 1866 Abrindo os rios Amazonas, Tocantins, Tapajós, Madeira, Negro e S. Francisco á navegação dos navios mercantes de todas as nações. No intuito de promover o engrandecimento do Imperio, facilitando cada vez mais as suas relações internacionaes, e animando a navegação e o commercio do rio Amazonas e seus affluentes, dos rios Tocantins e S. Francisco, ouvido o Meu Conselho de Estado, Hei por bem Decretar o seguinte: Art. 1º Ficará aberta, desde o dia 7 de Setembro de 1867, aos navios mercantes de todas as nações, a navegação do rio Amazonas até á fronteira do Brasil, do rio Tocantins até Cametá, do Tapajós até Santarem, do Madeira até Borba, e do rio Negro até Manáos. Art. 2º Na mesma data fixada no art. 1º ficará igualmente aberta a navegação do rio S. Francisco até á Cidade do Penedo. (...) Com a Rubrica de Sua Magestade o Imperador. 2.3. DECISÕES DE ORGANIZAÇÕES INTERNACIONAIS O art. 38 da Corte Internacional de Justiça também não traz as decisões das organizações internacionais como fonte. Esse fato é diretamente ligado à redação do Estatuto da Corte ter ocorrido em 1920, para a Corte Permanente Internacional de Justiça, época em que as tais organizações ainda eram embrionárias. Entretanto, não se pode negar, tampouco omitir, a importância das normas das organizações internacionais, e, modernamente, suas decisões normativas são consideradas fontes do DIP. Basicamente, nas decisões organizacionais, existem dois tipos de normas: procedimentais (administrativas) e não procedimentais. As primeiras tornam-se obrigatórias mesmo que não alcancem a unanimidade em plenário ou mesmo que não sejam destinadas a todos os membros (nesse caso, para os demais não existe a obrigação), ou que sejam determinadas pelo Secretário Geral, por exemplo. O segundo tipo de decisão aborda temas de maior importância para a organização internacional e exige, mesmo nas organizações mais avançadas juridicamente, aprovação por unanimidade de seus membros. Segundo leciona o Doutor Valério Mazuolli em sua obra “Curso de Direito Internacional Público”, o Conselho de Segurança da ONU é o único órgão com poder de tomar decisões efetivamente mandatórias, as quais os membros das Nações Unidas têm que acatar e fielmente executar, nos termos do art. 25 da Carta da ONU (“Os membros das Nações Unidas concordam em aceitar e executar as decisões do Conselho de Segurança, de acordo com a presente Carta”). Todas as decisões organizacionais são atos unilaterais, pois são da própria organização. Mesmo nos casos em que há uma votação, o que se observa é que não há assinatura do que fora decidido e que tal norma é proferida pela organização, pessoa jurídica distinta de qualquer Estado membro. 2.4. NORMAS IMPERATIVAS (jus cogens) O direito “que obriga”, o direito “imperativo”, foi tema originalmente teorizado nesta área por juristas de expressão alemã, destacando-se Alfred Verdross e Friedrich Von Heydte, nos anos que precederam a segunda grande guerra. Seria ele o conjunto de normas que, no plano do direito das gentes, impõem-se objetivamente aos Estados, a exemplo das normas de ordem pública que em todo sistema de direito interno limitam a liberdade contratual das pessoas. Rousseau enfatiza a diversidade entre a ordem estatal doméstica e a ordem internacional na crítica que faz à teoria do jus cogens: no primeiro caso existe subordinação irrecusável, de sorte que o Estado define as normas de ordem pública e com elas limita, por sua autoridade, a liberdade dos particulares para contratar. Não se sabe quem pode legitimamente definir o suposto direito internacional imperativo. Além disso, não há como nivelar a estatura do tratado, em direito internacional público, à do contrato em direito interno. A doutrina diverge, por último, quanto à natureza e ao conteúdo do jus cogens. A Convenção sobre o Direito dos Tratados (1969), ao aceitar a noção de jus cogens em seus arts. 53 e 64, deu outra demonstração de aceitação dos preceitos derivados do direito natural. Com efeito, o art. 53 declara nulo “o tratado que no momento de sua conclusão conflite com uma norma imperativa de Direito Internacional geral”. O art. 53 define jus cogens como “norma aceita e reconhecida pela comunidade internacional dos Estados no seu conjunto, como uma norma da qual nenhuma derrogação é permitida e que só pode ser modificada por uma norma de Direito Internacional geral da mesma natureza”39. A matéria é substancialmente versada em dois pontos distintos da Convenção de Viena: Art. 53. Tratado em conflito com uma norma imperativa de direito internacional geral (jus cogens). É nulo o tratado que, no momento de sua conclusão, conflite com uma norma imperativa de direito internacional geral. Para os fins da presente Convenção, uma norma imperativa de direito internacional geral é uma norma aceita e reconhecida pela comunidade internacional dos Estados no seu conjunto, como uma norma da qual nenhuma derrogação é permitida e que só pode ser modificada por uma norma de direito internacional geral da mesma natureza. [...] Art. 64. Superveniência de uma nova norma imperativa de direito internacional geral (jus cogens). Se sobrevier uma nova norma imperativa de direito internacional geral, qualquer tratado existente em conflito com essa norma torna-se nulo e extingue-se. Esses dispositivos contribuíram para que diversos países - entre eles o Brasil e a França - tenham de início evitado ratificar a Convenção de Viena, embora subordinados à maior parte de quanto nela se estampa, a título costumeiro. No Brasil, a Convenção foi enviada pelo governo ao Congresso, para exame e eventual aprovação, em abril de 1992. A teoria do jus cogens, tal como aplicada pela Convenção de Viena sobre o direito dos tratados, é francamente hostil à ideia do consentimento como base necessária do direito internacional. Ali se pretende que, tal qual no domínio centralizado e hierárquico de uma ordem jurídica interna, regras imperativas - geradas por voto majoritário ou consenso de assembleias, ou deduzidas em cenário ainda menos representativo do interesse geral - frustrem a liberdade convencional dos países não aquiescentes, numa época em que o esquema de poder reinante na cena internacional desaconselha o Estado, cioso de sua individualidade e de seus interesses, de arriscar parte expressiva dos atributos da soberania num jogo cujas regras ainda se encontram em processo de formação. As quatro fontes do Direito Internacional PÚblico - art. 38 do ECIJ Convenções internacionais Tratados internacionais Usos e costumes internacionais A reiterada prática e aceitação de certos atos pela comunidade internacional faz com que os usos e costumes sejam vistos como normas de Direito Internacional, imbuídos de obrigatoriedade. Podem vir a se tornar tratados. Princípios gerais de Direito Internacional Valores fundamentais que a comunidade internacional, mediante consenso, decide proteger e preservar para garantir sua própria existência. Ex.: repúdio ao terrorismo. Doutrina Doutrina: consiste na interpretação e aplicação prática e real das normas jurídicas internacionais e no estabelecimento de conceitos dados pelos pensadores. Jurisprudência Jurisprudência: decisões pelos tribunais internacionais e pelos tribunais internos que decidem sobre matérias de interesse internacional. Sujeitos do DIP São sujeitos do Direito Internacional Público, na visão clássica, toda pessoa jurídica que possa gozar de direitos e obrigações no cenário internacional. Portanto,por essa própria definição, já se deduz, inicialmente, que nem todas as pessoas jurídicas são sujeitos de DIP e que as pessoas físicas não são sujeitos em hipótese alguma. Essa posição é tradicional e adotada por grandes juristas, como Francisco Rezek. Por outro lado, é crescente a corrente oposta, mais ampla e moderna, em que, no Brasil, se destacam Valério Mazzuoli e Paulo Henrique Portela. Os Estados são sujeitos incontestes e sua personalidade jurídica no DIP é considerada originária, seja por sua precedência histórica, seja por serem eles uma realidade física, geográfica, um espaço territorial sobre o qual vive uma população. A personalidade jurídica das organizações intergovernamentais é considerada derivada, pois são criações modernas, principalmente do século XX (no que pese as iniciativas do século XIX), decorrente da vontade de alguns Estados e sem espaço geográfico e população. Partindo do Tratado de Westfália (1648), diploma legal que tradicionalmente é considerado o início do Direito Internacional moderno, por quase três séculos os Estados foram os únicos sujeitos do DIP. No Congresso de Viena (1815), outro importante marco para o DIP, somente os Estados se reuniram para tratar de temas importantes para a Europa pós- Napoleão. Naquela época, os únicos atores internacionais eram os Estados. Ainda em 1815, foi criada uma comissão fluvial internacional para tratar da administração conjunta da navegação no Rio Reno. Em 1856, diante da bem-sucedida experiência, criou-se a comissão fluvial internacional do Rio Danúbio. Essa composição entre países avançou para outras áreas de interesses comuns e criou a União Telegráfica (1865), a União Postal Universal (1874), a União para a Proteção da Propriedade Intelectual (1883) e a União das Ferrovias (1890). Esses mecanismos institucionalizados facilitavam a cooperação técnica entre as potências europeias da época e são os primeiros esboços do que entendemos hoje do que seja uma organização internacional. Entretanto, no século XIX, não possuíam personalidade jurídica internacional, como os Estados que as compunham. O grande jurista brasileiro Hildebrando Accioly, em seu Manual de direito internacional público, assim destaca a evolução da personalidade jurídica do DIP nesse interregno: Durante uns trezentos anos, o DIP se ocupava exclusivamente dos Estados. A primeira dúvida séria surgiu com a extinção dos Estados Pontifícios e sua incorporação ao Reino da Itália em 1870 e com a constatação de que os Estados continuavam a reconhecer o direito de legação do Papa, ou seja, continuavam a manter os seus representantes junto a ele e a receber os seus núncios. Em outras palavras, verificou-se que até então o Sumo Pontífice reunia em si duas entidades: Chefe dos Estados Pontifícios e Chefe da Igreja Católica. Em consequência, a prática internacional, endossada pela doutrina, passou a lhe reconhecer a qualidade de sujeito do direito internacional40. No século XX, iniciando com a OIT (Organização Internacional do Trabalho) e a Liga das Nações e consolidando-se com a criação e atuação da ONU (Organização das Nações Unidas), as organizações internacionais passaram a ser consideradas pessoas jurídicas de DIP. Essa posição hoje é quase uníssona (a exceção são os doutrinadores russos e alguns poucos de outros países) e foi exposta pela primeira vez no próprio regimento da OIT, e, anos depois, ratificada pela Corte Internacional de Justiça (CIJ), em 11 de março de 1949, em um parecer consultivo sobre danos sofridos por representantes da ONU em missão oficial. O doutrinador Hildebrando Accioly, em sábias palavras, descreve que nem sempre houve esse entendimento majoritário como encontramos hoje sobre a personalidade jurídica no DIP das Organizações Internacionais. Destacar- se-ia: Atualmente, a personalidade internacional das Nações Unidas e de determinadas organizações internacionais não é contestada, mas quando da criação da Liga das Nações (LdN) a doutrina relutou em lhe reconhecer a qualidade de pessoa internacional, tanto assim que Siotto Pintor reagiu com ceticismo à iniciativa brasileira de nomear, em 1924, um representante permanente junto à organização. Paul Fauchille, contudo, ponderou que, embora a LdN não fosse um superestado, era com efeito um sujeito do direito internacional41. Essa posição que se consolidou no século passado nos faz ter a certeza que, embora, atualmente, sejam consideradas pessoas jurídicas de DIP somente os Estados e as Organizações Internacionais, nada obsta que esse conceito possa mudar, evoluir ou regredir. Os indivíduos propriamente constituem uma grande divergência doutrinária, longe de um entendimento pacífico sobre possuírem ou não personalidade jurídica internacional. O doutrinador argentino Julio Barboza bem definiu esta dinâmica do Direito Internacional: Actúan en el plan internacional, aunque carentes de personalidad hasta el presente, una serie de entidades a las que se designa con la sigla ONG (organismos no gubernamentales), que son corporaciones o grupos transnacionales ad hoc, esto es, para propósitos determinados. Su importancia en el mundo de las relaciones internacionales es decididamente grande: piénsese si no en la influencia que ejercen corporaciones de defesa del medio ambiente, como la Union Internacional para la conservación de la naturaleza (UICN), o Greenpeace International, o en el campo de los derechos humanos, Amnesty International, Human Rights Watch, etc. Según el Yearbook of International Organizations (Anuario de organizaciones internacionales) del año 2000, existían en el mundo 922 organizaciones internacionales y 9988 ONGs. Si a estas últimas se le suman otras entidades asociadas con acuerdos multilaterales, organizaciones bigubernamentales (como las comisiones mixtas del tipo de la de Santo Grande, por ejemplo) y otras organizaciones orientadas internacionalmente, se llegaría a la sorprendente cantidad de alrededor de 30.000 entidades. Es probable que, con el andar del tiempo, algunas de estas organizaciones adquieran alguna forma de personalidad internacional42. Detalharemos esse assunto, um dos mais importantes de qualquer concurso que exija direito internacional, nos tópicos a seguir. 3.1. ESTADOS Quando do feudalismo, na Idade Média, havia uma grande concentração de poder na Igreja Católica Apostólica Romana, no Sacro Império Romano- Germânico e nos senhores feudais. Essa estrutura sociopolítica não favorecia os interesses dos monarcas e da classe econômica em ascensão, comerciantes que habitavam ao redor dos Burgos. Diante da insatisfação crescente, os reis e os burgueses uniram-se para fortalecer uma estrutura de interesse comum: o Estado. Inúmeros fatores favoreceram esse contexto: questionamento da postura e dos excessos da Igreja, surgimento de novos pensamentos políticos, religiosos e culturais, ampliação da economia, desenvolvimento comercial, comunicação crescente com outros povos. A Reforma Protestante e o Iluminismo impuseram duras derrotas à Igreja, que viu seu poder diminuir vertiginosamente. A terra, que era a riqueza do senhor feudal, dava lugar a outras riquezas, tais como moedas, pedras preciosas e mercadorias, que eram a riqueza dos burgueses. O francês Jean Bodin (1530-1596), no livro Os seis livros da república, sustentava que a monarquia era de origem hereditária; o rei não estaria sujeito a condições postas pelo povo; todo o poder do Estado pertenceria ao rei e não poderia ser partilhado com mais ninguém (clero, nobreza ou povo). Essa teoria justificava o poder ilimitado do rei, o soberano, e embasava a unificação dos Estados nacionais em torno de sua pessoa. Os Estados europeus foram então se formando em torno de suas coroas, e logo surgiu a primeira grande potência, que foi a Espanha. No que pese Portugal ter tido uma unificação muito precoce, em 1139, e ter sido pioneiro nas grandes navegações, foi a Espanha, que se unificou em 1492, quem mais desenvolveu o Capitalismo na sua fase embrionária, o Metalismo, e dominou a economia do velho continenteno século XVI. No início século XVII, a Europa continental vivia um período de grande instabilidade. A Holanda estava em guerra contra a Espanha, objetivando a sua independência. Essa guerra, conhecida por Guerra dos Oitenta Anos (1568-1648), trouxe grande desenvolvimento à Holanda, que muito ampliou seu poderio militar e naval e passou a ser considerada uma potência. Na Europa continental, outro grande conflito grassava, a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), quando o Sacro Império Romano-Germânico lutava internamente, guerras entre os príncipes alemães, com o incentivo determinante da França. Em 30 de janeiro de 1648, na cidade germânica de Münster, foi assinado o tratado de paz hispânico-holandês colocando um fim à guerra e resultando na independência da Holanda. Em 24 de outubro desse mesmo ano, foi assinado outro tratado de paz, na cidade germânica de Osnabrück, findando os conflitos que envolviam o Sacro Império Romano-Germânico. Esses dois tratados que pacificaram a Europa receberam o nome de Tratados de Westfália e entraram para a história por terem inaugurado o Direito Internacional moderno. Os Tratados de Westfália (também conhecidos como Tratados de Münster e Osnabrück) estabeleciam claramente as noções de soberania, de Estado e da importância da paz para todos os envolvidos nos conflitos. Surgia também a ideia de igualdade jurídica e equilíbrio entre os Estados. Politicamente, ainda foi um grande marco porque colocou os Estados como únicos protagonistas no cenário internacional, isolando definitivamente o poder da forte, porém decadente, Igreja Católica Apostólica Romana, e decretando o fim do Sacro Império Romano-Germânico. Os Estados ficaram mais fortes e os reis, por mais de um século, governaram de forma absoluta, como verdadeiros enviados de Deus. Os ideais presentes no Tratado de Westfália permitiram que a Europa passasse muitos anos sem guerra; os reis permaneceram fortes mesmo com os questionamentos constantes do Absolutismo, caracterizado pelos exageros da monarquia, e caros demais para a sociedade. No século XVIII, Jean-Jacques Rousseau transfere o conceito de soberania da pessoa do rei para todo o povo (ou cidadãos). A soberania deveria ser inalienável e indivisível e exercida pela vontade geral (soberania popular). A monarquia absolutista cai, mas o conceito de Estado formado em Westfália foi consolidado pelo Congresso de Viena (1815), quando os países europeus se uniram para restabelecer as fronteiras após a derrota do francês Napoleão Bonaparte e, depois, no Tratado de Versalhes (1919), que pôs fim a Primeira Guerra Mundial. A partir do século XIX, o conceito jurídico de soberania muda e passa a ser uma característica não pertencente a nenhuma autoridade particular, mas ao Estado como pessoa jurídica. A noção jurídica de soberania orientaria as relações entre Estados, que herdaram as características de soberania atribuídos por Jean Bodin aos monarcas, e enfatizaria a necessidade de legitimação do poder político pela lei. O jurista Dalmo de Abreu Dalari conceitua Estado como “ordem jurídica soberana que tem por fim o bem comum de um povo situado em determinado território”. O conceito de Estado encontra-se intrinsecamente ligado aos seus requisitos, pois nada mais é do que a união desses: Território, Povo e Governo. Para um tanto de doutrinadores, existiria outro elemento, como a soberania, mas a grande parte dos estudiosos conceitua Estado como “um território, um povo, um governo”, e algum outro elemento nada mais seria do que uma subdivisão de um desses mencionados. Seria o Estado um agrupamento humano, estabelecido em um território determinado e sob um governo independente. Entretanto, momentaneamente, esses ingredientes podem até sofrer algumas alterações e, por certo tempo, dois deles podem até deixar de existir (território e governo). O povo é o único elemento que não pode deixar de existir, pois um Estado suporta a ausência de Governo e uma supressão territorial, mas acaba juntamente com seu povo. Em 1933, em Montevidéu (Uruguai), a Convenção Interamericana sobre os Direitos e Deveres dos Estados indicou quatro requisitos para a constituição do Estado: 1) População permanente; 2) Território determinado; 3) Governo; 4) Capacidade de entrar em relação com os demais Estados. Essa posição de ter quatro elementos estaria certa se fundamentada na Convenção Interamericana, mas somente a destacamos para o conhecimento do aluno e ratificamos os três elementos acima. Podem-se considerar os dois últimos elementos da Convenção como um único: Governo soberano. Por fim, nos resta destacar que, em inglês, a expressão Estado é sinônima de Nação, daí termos Organização das Nações Unidas. Em português, Estado não é sinônimo de Nação, que representa um conjunto de pessoas unidas pela consciência de que possuem a mesma origem, tradições, costumes e idioma. 3.2. TERRITÓRIOS Território é a superfície terrestre, o espaço aéreo e as águas territoriais onde se encontra o Estado. É o espaço físico sobre o qual o Estado exerce seu poder ilimitado, a soberania, e determina a sua gestão administrativa, financeira e política, além de criar o seu próprio ordenamento jurídico. O Estado, para o DIP, possui jurisdição geral e exclusiva sobre o seu território, portanto, cabe a ele, de acordo com o seu ordenamento jurídico, estabelecer as normas jurídicas que incidirão naquele espaço físico e nenhum outro Estado pode interferir. Portanto, cada Estado tem a sua jurisdição. Internamente, há uma divisão das competências de ordem legislativa, administrativa e jurisdicional e o monopólio do uso legítimo da força pública. O território não necessariamente precisa estar totalmente definido, delimitado, embora alguns poucos doutrinadores ainda defendam esse ponto de vista. No segundo pós-guerra, essa situação de não definição plena do território permitiu que muitos países africanos conseguissem o reconhecimento da comunidade internacional. A delimitação territorial, normalmente, é estabelecida em tratados bilaterais que têm por objetivo determinar o exato contorno das fronteiras daqueles Estados. Assim ocorreu com o Brasil e a Colômbia, que assinaram o Tratado de Bogotá, em 1907, intermediado pelo Barão do Rio Branco, determinando os limites entre os dois países. Excepcionalmente, os limites entre dois Estados podem ser estabelecidos por decisão arbitral, como ocorreu com as fronteiras do Brasil na região do Amapá, causa ganha em uma arbitragem internacional, que tramitou na Suíça, em 1900, contra a França, proprietária da Guiana Francesa. Nesse processo, o Brasil disputava com a França territórios limítrofes entre os dois países. Outra importante decisão arbitral ganha pelo Barão do Rio Branco, nomeado pelo então presidente Floriano Peixoto em 1893, foi a conhecida Questão de Palmas (ou Questão das Missões), entre 1890 e 1895, processo contra a Argentina. Em 25 de janeiro de 1890, logo após a proclamação da República, através do Ministro das Relações Exteriores Quintino Bocaiuva, foi assinado o Tratado de Montevidéu, quando o Brasil cedia boa parte das terras em conflito para a Argentina. O Congresso Nacional, entendendo que o Ministro havia extrapolado seus poderes e assinado um documento prejudicial ao país, rejeitou o tratado e o submeteu à arbitragem internacional. Esta, por sua vez, decidiu que boa parte dos territórios do Paraná e de Santa Catarina em disputa pertenciam mesmo ao Brasil. A arbitragem foi intermediada pelo então presidente dos EUA, Glover Cliveland, a solução somente ocorreu quando o Ministro das Relações Exteriores era o General Dionísio Cerqueira, e o processo contou com a decisiva colaboração do diplomata brasileiro Domingos Olímpio, que passou a residir em Washington DC. Quando da delimitação, os Estados vizinhos podem determinar linhas naturais ou artificiais para demarcarem suas fronteiras. Na Europa, na Ásia e na América do Sul predominam os limites naturais, na África e América do Norte, os artificiais. Os limites naturais mais utilizados são os riose as montanhas. Nos rios, a fronteira quase nunca fica em uma das margens, o que daria o total domínio de navegação para o Estado vizinho. O que quase sempre acontece quando um rio separa dois Estados é a adoção de uma linha equidistante das margens ou o talvegue, que considera o leito do rio e passa uma linha pelos pontos mais profundos desse, daí também esse sistema ser conhecido como linha de maior profundidade. O Brasil adota o sistema da linha equidistante nos rios Guaporé, Mamoré e Madeira, que estão na fronteira com a Bolívia. Porém, como nos rios navegáveis o talvegue é mais comum, o Brasil adota esse sistema na fronteira com a Argentina, nos rios Uruguai e Iguaçu; com o Peru, no rio Purus; e com Colômbia, nos rios Iquiare e Taraíra. Quando se utilizam as montanhas para demarcar as fronteiras, a linha limítrofe pode ficar na base da cadeia montanhosa, nas cumeeiras (uma linha imaginária que liga pontos de altitude expressiva) ou pelo divortium aquarum (linha imaginária onde se repartem as águas da chuva). Esse último critério é o utilizado nas fronteiras montanhosas da Argentina com o Chile, na cordilheira dos Andes, e nas fronteiras do Brasil com Venezuela, Colômbia e Peru. Os tratados de limite, mesmo quando escolhem acidentes naturais, devem trazer detalhados todos os pontos que possam gerar algum tipo de dúvida entre os Estados vizinhos. A título de exemplo, quando existe uma ilha fluvial ou algum outro acidente no percurso do rio, deve ser este descrito no tratado para que não haja dúvida ou fique algum motivo para posterior embate. Quando os Estados escolhem linhas limítrofes artificiais essas são chamadas de geodésicas, pois utilizam os paralelos ou meridianos para fazerem as fronteiras. A fronteira entre o Canadá e os Estados Unidos é delimitada por um paralelo em maior parte de sua extensão. A África também muito se utilizou dessas fronteiras artificiais para estabelecer os limites entre seus territórios. A extensão do território é outro fator que não interfere no reconhecimento do Estado, pois, a diversidade em nosso mundo é muito grande e existem Estados com vasta extensão territorial, tais como Rússia, Canadá e China, e outros com uma extensão muito pequena, tais como Mônaco, Andorra e Liechtenstein. O território de qualquer Estado pode também sofrer alterações no seu tamanho, com aquisições ou perdas de espaço físico. Essas alterações não interferem na soberania do Estado, que pode continuar existindo ou dar origem a outra pessoa jurídica de DIP. Nos séculos passados, principalmente durante as grandes navegações, era comum a aquisição de territórios por Estados europeus por meio de descobertas marítimas e posterior colonização. A fundamentação jurídica, diante do não respeito às normas indígenas ou quando o território era realmente desabitado, era o da terra de ninguém - terra nullius. O nosso melhor exemplo é o do próprio “descobrimento” do Brasil por Portugal em 1500. A imensidão de territórios que surgiu para os europeus com as navegações resultou ainda de outro processo de aquisição que era o da terra abandonada - terra derelicta. O mundo dividido entre portugueses e espanhóis pelo Tratado de Tordesilhas fez com que esses países não conseguissem dar conta de todos os territórios e não dessem a atenção devida àqueles, inicialmente, menos produtivos. A Espanha abandonou, por exemplo, as ilhas de Palmas, Carolina e as Malvinas, posteriormente ocupadas por Holanda, Alemanha e Inglaterra, respectivamente. Ainda nesse período de descobertas navais, o princípio da contiguidade foi fundamental para determinar até onde poderia ir o descobridor de terra nullius ou de terra derelicta, pois o povo descobridor avançava território adentro até encontrar a resistência de outro povo descobridor. A imensidão do Brasil deve-se muito à falta de obstáculos encontrada pelos portugueses em nosso território, que somente tiveram resistência espanhola muito além da linha imaginária inicial do Tratado de Tordesilhas. Essa resistência acima mencionada é bem diferente da encontrada, por exemplo, pelos espanhóis nos Impérios Inca, na América do Sul, e Asteca e Maia, na América Central e no México. Nesse contexto, a aquisição de território ocorreu pelo triunfo em campos de batalhas, inclusive, em alguns casos, com o aniquilamento dos ocupantes nativos da região. A doutrina denomina aquisição de território por conquista. Após o período das colonizações, o processo mais comum de aquisição e perda de territórios é o de compra e venda, ou seja, cessão onerosa. Os Estados Unidos compraram da França o território da Louisiana, em 1803, e da Rússia o Alaska, em 1867. O Brasil comprou da Bolívia o território que hoje corresponde ao Acre, em 1903, por dois milhões de libras esterlinas e a prestação de serviços compensatórios. Embora exista em alguns tratados e seja mencionada por alguns doutrinadores, como bem explica Francisco Rezek, não existe a cessão gratuita de território. Assim, o grande jurista comenta: A história registra casos de cessão gratuita - um evidente eufemismo, visto que mal se compreende por que um Estado soberano faria a doação de parte do seu território, a menos que não tivesse escolha. A cessão gratuita foi um ornamento típico dos tratados de paz, aqueles em que, finda a guerra, defrontavam-se na mesa de negociação vencedores e vencidos, estes à mercê daqueles. Mediante cessão gratuita a França, derrotada na guerra bilateral, cedeu a Alsácia-Lorena à Alemanha em 1871. Quase meio século mais tarde, ao termo da primeira grande guerra, a Alemanha está vencida e a França perfila entre os vitoriosos: nova cessão gratuita, em sentido inverso, restitui a Alsácia-Lorena à soberania francesa, consignando-se no texto do Tratado de Versalhes (1919)43. Quanto ao território, por ser um elemento fundamental do Estado, o que não pode ocorrer é a sua não existência. Se não houver território, embora tenhamos os outros elementos, não se reconhece o Estado. Isso é o que acontece com entidades soberanas como a Autoridade Nacional Palestina (ANP) e a Ordem Soberana dos Cavaleiros de Malta, ou, ainda, nação sem território, cujo melhor exemplo é o dos ciganos. A Palestina, por ser um caso bem particular e muito debatido, merece muita atenção. Em data de 3 de dezembro de 2010, o Brasil reconheceu a existência do Estado da Palestina com as fronteiras de 4 de junho de 1967, data anterior ao dia de início da Guerra dos Seis Dias, quando Israel dominou o território da Cisjordânia e outros pontos estratégicos (península do Sinai, já devolvida ao Egito, as colinas do Golan e a parte leste de Jerusalém), além de impor uma dura derrota ao mundo árabe. Portanto, por ter uma base territorial, o Brasil pode reconhecer o Estado Palestino. De toda sorte, essa base territorial reconhecida pelo Brasil não é reconhecida por vários outros países e nesse ponto encontramos a grande divergência daquela região. O Brasil, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva atendeu ao pedido do presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Mahmud Abbas, ainda reconheceu a Organização para Libertação da Palestina (OLP) como legítima representante do povo palestino desde 1975. Essa posição foi seguida pela Argentina (6-12-2010), Bolívia (22-12-2010) e Chile (7-1- 2011), e países como Uruguai e Espanha assumiram o compromisso público de fazer o reconhecimento em 2011. Outros países do mundo já haviam realizado esse reconhecimento, dentre os quais todos os países árabes, grande parte dos países dos continentes africano e asiático e do leste europeu. Os Estados Unidos e a Europa Ocidental ainda não reconhecem o Estado da Palestina. A ONU, embora ainda não reconheça a Palestina como um Estado, aprovou em 1967 a Resolução 242 que determinava a retirada de Israel dos territórios ocupados após a Guerra dos Seis Dias. Porém, Israel desobedeceu à resolução alegando que somente negociaria a desocupação dos territórios quando os Estados árabes o reconhecessem como Estado. Por sua vez, os líderes árabes não reconhecem o Estadode Israel e defendem que a desocupação é um anseio da sociedade internacional. O impasse perdura até nossos tempos e, embora seja muito citada em inúmeros documentos diplomáticos e sempre adotada como ponto de partida para a paz entre israelenses e árabes, a Resolução 242 da ONU nunca foi plenamente respeitada. A Assembleia Geral da ONU, órgão máximo, já adotou inúmeras resoluções críticas para com a posição de Israel, que defende uma interpretação particular, desde a publicação da Resolução 242. Os documentos da Assembleia, por não terem força coercitiva, pois não são vinculantes, são sempre ignorados por Israel, que possui o apoio irrestrito dos EUA. Prova dessa relação umbilical são os 32 vetos dos Estados Unidos no Conselho de Segurança da ONU para proteger Israel das resoluções vinculantes deste órgão. Em 1974, a ONU, por meio da Resolução 3.237, aprovada pela Assembleia Geral, concedeu o patamar de observador ao Estado Palestino. Em 1998, foram concedidos mais direitos à Palestina pela Assembleia Geral, dentre os quais o direito de coautoria de resoluções e de levantar pontos de ordem sobre questões diretas de seu interesse. Outro caso que merece grande atenção dos candidatos é o do Estado Islâmico (EI), ou Estado Islâmico do Iraque e da Síria (EIIS; em inglês: Islamic State in Iraq and Syria - ISIS), ou Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL; em inglês: Islamic State of Iraq and the Levant - ISIL), que pode induzir a erro. No que pese ter em sua denominação a palavra Estado e já terem se autoproclamado um Califado declarando autoridade religiosa sobre todos os muçulmanos, o Estado Islâmico é um grupo jihadista, classificado pelo Ocidente como terrorista, assim como a Al-Qaeda, responsável pelo atentado de 11 de setembro de 2001 às Torres Gêmeas em Nova Iorque, e não é um Estado na concepção do Direito Internacional. O http://pt.wikipedia.org/wiki/L%C3%ADngua_inglesa http://pt.wikipedia.org/wiki/L%C3%ADngua_inglesa EI não possui território, pois seu suposto espaço físico pertence, na verdade, a outros Estados, como Iraque, Jordânia, Palestina, Israel, Líbano e Síria. O EI não tem população, e sim integrantes que seguem seus líderes. Portanto, inquestionavelmente, o ISIS não é um Estado para o DIP. 3.3. POPULAÇÃO O estudo deste tópico exige o conhecimento de vários conceitos que se somam ou subtraem, mas todos de fundamental importância para entender o elemento humano do Estado. Quando nos referimos apenas às pessoas que possuem a mesma origem, falam o mesmo idioma, têm iguais costumes, religião, hábitos e tradições e formam uma base socioeconômica semelhante, estamos falando de nação, palavra que vem do latim natio, de natus (nascido). Também pela origem da palavra temos a determinação de nacional para o sujeito natural do Estado. Existem dois sistemas para definir originalmente um nacional: jus solis e jus sanguinis. O jus solis determina que é nacional todo aquele que nasce no território do Estado, independentemente da nacionalidade de qualquer um dos seus pais. Esse é o sistema adotado no Brasil e no restante do continente Americano, Estados que historicamente receberam muitos imigrantes. O jus sanguinis determina que o fundamental para ser nacional não é o local do nascimento, mas a origem de pelo menos um dos pais. Esse é o sistema adotado pelos países europeus, tais como França, Itália e Espanha. Exemplificando, em regra, é brasileira a pessoa que nasce no território nacional, pois o Brasil adota o jus solis. Nesse caso, não importa se os pais são ou não brasileiros. Por outro lado, será francês o filho de pai ou mãe francês, independentemente do local de seu nascimento. Nesse caso, não importa ter nascido em território francês, mas a ascendência do nascituro. O cidadão é o nacional no gozo dos direitos políticos, por exemplo, apto a votar e a ser votado. Estrangeiro é definido por exclusão, ou seja, todo aquele que não é nacional. População é o conjunto de pessoas domiciliadas em determinado Estado, sejam nacionais, sejam estrangeiros. Esses habitantes se subordinam a organização legislativa, jurídica e administrativa do Estado, independentemente de terem ou não nascido em seu território. O internacionalista Francisco Rezek diferencia em sua obra os termos população e comunidade nacional e coloca esse termo como o mais apropriado para ser o elemento humano do Estado, e assim explica: População do Estado soberano é o conjunto das pessoas instaladas em caráter permanente sobre seu território: uma vasta maioria de súditos locais, e um contingente minoritário - em número proporcional variável, conforme o país - de estrangeiros residentes. Importante lembrar que a dimensão pessoal do Estado soberano (seu elemento constitutivo, ao lado do território e do governo) não é a respectiva população, mas a comunidade nacional, ou seja, o conjunto de seus súditos, incluindo aqueles, minoritários, que se tenham estabelecido no exterior. Sobre os estrangeiros residentes o Estado exerce inúmeras competências inerentes à sua jurisdição territorial. Sobre seus súditos distantes o Estado exerce jurisdição pessoal, fundada no vínculo de nacionalidade, e independente do território onde se encontrem44. O jurista Hildebrando Accioly não compactua com o Dr. Francisco Rezek, embora a definição de população seja igual para ambos, e, em sua obra, defende ser a população o elemento humano do Estado: Por população entendemos a massa de indivíduos, nacionais e estrangeiros, que habitam o território em determinado momento histórico; é a expressão demográfica, um conceito aritmético, quantitativo. Não deve ser confundida com a palavra povo, que tem um sentido sobretudo social, ou seja, povo em oposição a governo, ou uma parte da coletividade determinada pelo aspecto social45. Inquestionável é que o elemento humano é o único que não pode acabar, deixar de existir. Os outros dois elementos podem sofrer algum tipo de restrição temporária, como um sistema de anarquia (ausência de governo) ou supressões territoriais, e depois ser retomado o patamar de Estado. Entretanto, acabado o elemento humano, acaba a possibilidade de criar um Estado. Importante ainda destacar que alguns países possuem problemas envolvendo as definições de nacionalidade e nação. Na Espanha, por exemplo, a região que se denomina País Basco, norte da península Ibérica, e a Comunidade Autônoma da Catalunha, nordeste da mesma península, possuem movimentos separatistas que têm por objetivo a independência dessa região alicerçada na ideia de nação. Entretanto, alguns podem até não aceitar, mas todos possuem a mesma nacionalidade: espanhóis. Não existem movimentos separatistas de expressão no Brasil, que, no que pese sua grande extensão territorial e riqueza cultural, possui uma sólida unidade política. O país recebeu diversos imigrantes durante sua história, destacadamente portugueses, italianos, japoneses, espanhóis e alemães, nos séculos XIX e XX. No entanto, hoje, no que pese a mantença da cultura desses países em terras sul-americanas, não há risco algum de secessão no país. A título de curiosidade, existe na Europa uma região que compreende o norte da Alemanha e da Polônia denominada Pomerânia. Milhares de habitantes dessa região, que nunca foi um Estado independente com governo próprio, migraram para o Brasil e outros países logo após a fragmentação do Sacro Império Romano-Germânico, no início do século XIX. Atualmente, em Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Espírito Santo, existem cerca de 500 mil descendentes vivendo no Brasil, que lutam para preservar a cultura e o idioma pomerano, mais falado em terras nacionais do que na Europa. Esses descendentes fazem parte da população brasileira e, conforme já exposto, por terem nascido em território nacional, são brasileiros. A Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 determina como se adquire a nacionalidade brasileira e os demais assuntos correlatos no capítulo III - da Nacionalidade - do Título II - dos Direitos e Garantias Fundamentais. Toda a legislaçãopátria deve então seguir esse artigo, que segue abaixo com os respectivos comentários. Art. 12. São brasileiros: I - natos: a) os nascidos na República Federativa do Brasil, ainda que de pais estrangeiros, desde que estes não estejam a serviço de seu país; A Constituição Federal adotou como regra geral o sistema jus solis para determinar quem seria brasileiro nato, ou seja, brasileiro desde o seu nascimento (nacionalidade primária). Ratificando o que acima já mencionamos, nesse sistema não importa a origem dos pais da criança e sim se ela nasceu em território brasileiro. O presente artigo ainda faz a ressalva de que, se os pais forem estrangeiros e estiverem aqui no Brasil a serviço de seu país de origem, a criança não será considerada brasileira. Portanto, a obrigatoriedade de ambos os pais serem estrangeiros deve ser observada, pois pode ser um brasileiro a serviço de outro país no Brasil ou um deles ser brasileiro, e a obrigatoriedade de o estrangeiro encontrar-se a serviço, e este estar representando o seu país. Então, não pode ser considerado, a rigor, um estrangeiro de um país Y representando um país Z nesse artigo. b) os nascidos no estrangeiro, de pai brasileiro ou mãe brasileira, desde que qualquer deles esteja a serviço da República Federativa do Brasil; Esta alínea é uma necessária ressalva ao critério jus solis adotado no Brasil. O Brasil adotou então o sistema jus sanguinis, de forma excepcional, quando um brasileiro estiver a serviço do nosso país no estrangeiro e lá tiver um filho. Essa exceção é demasiadamente justa com a diplomacia brasileira, que poderia encontrar alguns problemas com o registro do seu filho quando do regresso ao país. Importante ainda destacar que basta um dos pais ser brasileiro e estar a serviço do Brasil no exterior, o que facilita muito o registro do filho de acordo com nossas leis. c) os nascidos no estrangeiro de pai brasileiro ou de mãe brasileira, desde que sejam registrados em repartição brasileira competente ou venham a residir na República Federativa do Brasil e optem, em qualquer tempo, depois de atingida a maioridade, pela nacionalidade brasileira; (Redação dada pela Emenda Constitucional n. 54, de 2007) A redação desse artigo já foi alterada duas outras vezes desde a promulgação desta Constituição. Ele atende aos filhos de brasileiros que nascem no estrangeiro, mas que não estão a serviço do Brasil. Em muitos casos, o brasileiro encontra-se em país que adota o sistema jus sanguinis. Portanto, seu filho seria um apátrida, uma pessoa sem nacionalidade. O apátrida é justamente fruto de um conflito negativo de legislações que não permite à criança ser brasileira porque não nasceu em território brasileiro, e não permite ter uma outra nacionalidade porque é filha de brasileiros e reside em outro país, que adota o sistema jus sanguinis. Os brasileiros residentes no estrangeiro podem registrar seus filhos nas embaixadas ou consulados brasileiros. Esse registro em repartição competente faz com que o filho de brasileiro possa, assim que regressar ao país, independentemente de sua idade, solicitar a nacionalidade brasileira. Caso não haja esse registro, somente com a maioridade o filho de brasileiro poderá fazer a opção de solicitar sua nacionalidade brasileira. Em ambas as situações, verificamos uma adoção do sistema jus sanguinis em que o filho de brasileiro nascido no estrangeiro será considerado brasileiro nato. Nas redações anteriores dessa alínea, ou se exigia que a criança residisse no Brasil antes da maioridade ou se excluía o registro em repartição competente. II - naturalizados: a) os que, na forma da lei, adquiram a nacionalidade brasileira, exigidas aos originários de países de língua portuguesa apenas residência por um ano ininterrupto e idoneidade moral; A naturalização é o processo pelo qual o estrangeiro ou apátrida solicita a aquisição da nacionalidade brasileira. A doutrina classifica como aquisição derivada ou secundária de nacionalidade, e o solicitante tem que atender aos requisitos legais determinados, que, em termos gerais, são: I - Vontade recíproca do indivíduo e do Estado, mas, principalmente, do primeiro que solicita o procedimento de naturalização voluntariamente; II - Ruptura da Nacionalidade anterior, pois, para o ordenamento pátrio, o solicitante deixará sua nacionalidade para ser brasileiro; III - Boa conduta, posse de alguns bens e tempo de residência habitual, para evitar o casualismo com procedimento tão importante; IV - Capacidade do solicitante de acordo com a legislação brasileira. A concessão da nacionalidade derivada brasileira é um ato discricionário do Chefe do Poder Executivo, e, portanto, mesmo que o interessado tenha preenchido todos os requisitos legais não existe obrigatoriedade por quem aprecia a solicitação. A legislação pátria concede tratamento diferenciado a todos os estrangeiros provenientes originariamente de países de língua portuguesa (Portugal, Cabo Verde, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe), quando determina que após somente um ano de residência ininterrupta no Brasil, os lusófonos podem solicitar a sua naturalização. b) os estrangeiros de qualquer nacionalidade, residentes na República Federativa do Brasil há mais de quinze anos ininterruptos e sem condenação penal, desde que requeiram a nacionalidade brasileira. (Redação dada pela Emenda Constitucional de Revisão n. 3, de 1994) Os estrangeiros que não são de países que falam o português devem passar quinze anos residindo em nosso país para, somente depois de cumprir esse prazo, poder solicitar a sua naturalização. A alínea b fala em condenação penal, ou seja, estamos falando de um processo judicial com sentença condenatória. Não há precisão de essa sentença dever ter transitado em julgado ou não, mas, como a concessão da naturalização é ato discricionário, o simples fato de ter um processo penal já pode comprometer o pedido do estrangeiro. A naturalização expressa caracteriza-se pela manifestação de vontade do estrangeiro ou apátrida no sentido de querer adquirir a nacionalidade brasileira. A naturalização expressa possui seus requisitos infraconstitucionais determinados no Estatuto do Estrangeiro - Lei Federal n. 6.815, de 19 de agosto de 1980, em seu art. 112: I - capacidade civil segundo a lei brasileira; II - ser registrado como permanente no Brasil (visto permanente); III - residência contínua pelo prazo de quatro anos; IV - ler e escrever em português; V - boa conduta e boa saúde; VI - exercício de profissão ou posse de bens suficientes à sua manutenção própria e da família; VII - bom procedimento; VIII - inexistência de denúncia, pronúncia ou condenação no Brasil ou no exterior por crime doloso a que seja cominada pena mínima de prisão, abstratamente considerada superior a um ano. Após a decisão do Poder Executivo a respeito da aquisição da naturalização, esta é efetivada com a entrega do certificado ao estrangeiro, como previsto no art. 119 do Estatuto do Estrangeiro. § 1º Aos portugueses com residência permanente no País, se houver reciprocidade em favor de brasileiros, serão atribuídos os direitos inerentes ao brasileiro, salvo os casos previstos nesta Constituição. (Redação dada pela Emenda Constitucional de Revisão n. 3, de 1994) O § 1º ainda foi mais generoso com os portugueses do que a alínea a já havia sido com os demais lusófonos. Esse dispositivo traz a possibilidade de os portugueses terem os mesmos direitos que os brasileiros naturalizados sem perder a sua nacionalidade de origem. Porém, é condição imprescindível que haja reciprocidade, ou seja, os brasileiros devem receber o mesmo tratamento em Portugal, para os portugueses no Brasil serem tratados e terem os direitos iguais aos dos brasileiros naturalizados. De toda sorte, ratificamos que a alínea a pode também ser utilizado pelos portugueses, que passariam a ter a nacionalidade brasileira e perderiam a originária. É diferente da equivalência prevista neste parágrafo, na qual os portugueses adquirem direitosde cidadãos brasileiros sem perder a nacionalidade originária. § 2º A lei não poderá estabelecer distinção entre brasileiros natos e naturalizados, salvo nos casos previstos nesta Constituição. Quando se fala em brasileiro, inicialmente, essa expressão compreende os natos e naturalizados. Excetuando as distinções previstas em nossa Constituição, qualquer outra diferença entre brasileiros natos e naturalizados é ilegal. § 3º São privativos de brasileiro nato os cargos: I - de Presidente e Vice-Presidente da República; O cargo de Presidente da República é o mais importante cargo público do País. É o Chefe do Poder Executivo o responsável pela administração do Estado e, consequentemente, quem guarda os interesses de grande importância para o Brasil. Portanto, a imposição de restringir o cargo de Presidente da República a brasileiros natos é uma questão, acima de tudo, de segurança nacional. O Vice-Presidente também é um cargo privativo por ser ele o sucessor natural do Presidente em caso de impedimento, ou até mesmo quem responde pela presidência quando da ausência do titular do cargo. II - de Presidente da Câmara dos Deputados; O Presidente da Câmara dos Deputados é o único cargo de Deputado Federal na Câmara dos Deputados privativo de brasileiro nato por estar na linha de sucessão presidencial. Havendo o afastamento do Presidente da República e uma impossibilidade de o Vice-Presidente assumir o cargo, ascende ao posto o Presidente da Câmara, Casa que é composta pelos representantes do povo. III - de Presidente do Senado Federal; O Presidente do Senado Federal é o terceiro cargo na linha sucessória do Presidente da República, logo atrás do Vice-Presidente e do Presidente da Câmara dos Deputados. Dessa forma, não poderia também esse cargo ser ocupado por estrangeiro ou brasileiro naturalizado. IV - de Ministro do Supremo Tribunal Federal; A mais alta corte do Brasil é composta por 11 ministros. O cargo de Ministro do Supremo Tribunal é privativo de brasileiro nato por ser a presidência dessa corte um cargo rotativo, pelo qual todos os ministros passam. Portanto, além da importância estratégica do cargo, assim como os demais presidentes citados, todos os ministros devem ser brasileiros natos porque, indubitavelmente, cada um ocupará a presidência do Tribunal e, consequentemente, entrará na linha sucessória brasileira. V - da carreira diplomática; O diplomata, em termos gerais, é o representante do Brasil no exterior. Sua função é estratégica e repleta de informações confidenciais de Estado. Reservar esse cargo público a brasileiro nato também é uma questão de segurança nacional. VI - de oficial das Forças Armadas. As Forças Armadas são responsáveis pela proteção militar de nosso território. Em tempo de guerra, os interesses do Brasil serão defendidos pelos militares, e, logicamente, como não se sabe com quem o Brasil poderá ter um conflito, é mais seguro restringir as funções de comando das Forças Armadas brasileiras aos brasileiros natos. Destacamos que são oficiais das Forças Armadas os postos militares de tenente acima. Portanto, é possível brasileiros naturalizados nas Forças Armadas, mas estes não poderão assumir patentes de oficiais. VII - de Ministro de Estado da Defesa (Incluído pela Emenda Constitucional n. 23, de 1999) Em 1999, houve uma unificação dos antigos Ministérios da Aeronáutica, do Exército e da Marinha em um único Ministério da Defesa. Esse posto, por comandar todas as Forças Armadas brasileiras é obrigatoriamente ocupado por brasileiros natos. § 4º Será declarada a perda da nacionalidade do brasileiro que: I - tiver cancelada sua naturalização, por sentença judicial, em virtude de atividade nociva ao interesse nacional; A aquisição da nacionalidade derivada não é um processo irreversível e pode ser cancelada. A perda da nacionalidade é matéria exclusivamente constitucional, não podendo lei infraconstitucional criar regras diferentes das estabelecidas na Constituição Federal. Após a naturalização, o estrangeiro ou apátrida que adquiriu a nacionalidade derivada somente a perde por sentença judicial transitada em julgado, pois não caberá mais recurso. É a chamada perda-punição. Essa ação é proposta pelo Ministério Público Federal e julgada pelo Poder Judiciário. A expressão “atividade nociva ao interesse nacional” deverá ser interpretada pelo magistrado que, de acordo com o caso concreto, poderá ou não cancelar a naturalização do estrangeiro. Um exemplo comum é o tráfico de drogas, pois se o naturalizado for pego traficando entorpecentes terá cancelada a sua naturalização e poderá sofrer outras consequências. II - adquirir outra nacionalidade, salvo nos casos: (Redação dada pela Emenda Constitucional de Revisão n. 3, de 1994) Antes de destacarmos as ressalvas presentes neste inciso, torna-se necessário falar que a naturalização voluntária também é motivo de perda da nacionalidade brasileira para os naturalizados e configura-se o único caso possível de um brasileiro nato perder a sua nacionalidade. É chamado pela doutrina de perda-mudança. O solicitante tem que possuir plena capacidade civil, seu ato ser voluntário e incondicionado a nenhuma imposição. Se a naturalização ocorrer por alguma imposição da norma estrangeira, assim como veremos, o brasileiro nato ou naturalizado não perde a nacionalidade brasileira. a) de reconhecimento de nacionalidade originária pela lei estrangeira; (Incluído pela Emenda Constitucional de Revisão n. 3, de 1994) Essa situação ocorre quando há o choque de legislações e a pessoa pode possuir mais de uma nacionalidade (dupla ou multiplanacionalidade). Um exemplo comum seria o de nacional de um país que adotasse o jus sanguinis que tivesse um filho em um país adepto do jus solis e nenhum dos pais estivesse em missão oficial. O filho desse casal teria duas nacionalidades originárias. Todos os estrangeiros provenientes de Estados que adotam o sistema jus sanguinis que estão no Brasil passam por situação semelhante. Caso não estejam a serviço oficial do seu país, seu filho nascido em nosso território terá dupla nacionalidade. b) de imposição de naturalização, pela norma estrangeira, ao brasileiro residente em estado estrangeiro, como condição para permanência em seu território ou para o exercício de direitos civis; (Incluído pela Emenda Constitucional de Revisão n. 3, de 1994) Existem alguns países no mundo que colocam condições para os estrangeiros e, em muitos casos, os obrigam a se naturalizarem. Se um brasileiro se encontrar nessa situação para não sair do país ou para ter melhores condições civis, não perderá a nacionalidade brasileira. Caso essa naturalização não seja forçada, o brasileiro que solicitar outra nacionalidade perde a brasileira, conforme nossa legislação. A legislação brasileira já previu outras formas de naturalização, como podíamos ver na Constituição de 1891, no art. 69, § 4º, que determinava: “cidadãos brasileiros os estrangeiros que, achando-se no Brasil aos 15 de novembro de 1889, não declararem, dentro de seis meses depois de entrar em vigor a Constituição, o ânimo de conservar a nacionalidade de origem”. Essa era a chamada naturalização tácita, que também foi prevista nas Constituições brasileiras seguintes, mas foi suprimida da Constituição de 1988. BRASILEIRO NATO (nacionalidade adquirida quando do nascimento ou em razão deste) Critério Jus Solis ou Critério Territorial (art. 12, I, a, CF) Os nascidos na República Federativa do Brasil, ainda que de pais estrangeiros, desde que estes não estejam a serviço de seu país. Critério Funcional (art. 12, I, b, CF) Os nascidos no estrangeiro, de pai brasileiro ou mãe brasileira, desde que qualquer deles esteja a serviço da República Federativa do Brasil. Critério Jus Sanguinis ou Critério Sanguíneo (art. 12, I, c, CF) Os nascidos no estrangeiro de pai brasileiro ou de mãe brasileira, desde que sejam registrados em repartição brasileira competente ou venham a residir na República Federativa do Brasil e optem, em qualquer tempo, depois deatingida a maioridade, pela nacionalidade brasileira. NATURALIZADO Naturalização Os que, na forma da lei, adquiram a (nacionalidade adquirida por vontade própria) Ordinária (art. 12, II, a, CF) nacionalidade brasileira, exigidas aos originários de países de língua portuguesa apenas residência por um ano ininterrupto e idoneidade moral. Naturalização Extraordinária (art. 12, II, b, CF) Os estrangeiros de qualquer nacionalidade, residentes na República Federativa do Brasil há mais de 15 anos ininterruptos e sem condenação penal, desde que requeiram a nacionalidade brasileira. NATURALIZADO (nacionalidade adquirida por vontade própria) Naturalização Especial Destina-se ao estrangeiro casado com diplomata brasileiro há mais de cinco anos, ou ao estrangeiro que conte com mais de dez anos de serviços ininterruptos empregado em Missão diplomática ou em Repartição consular brasileira46. Naturalização Provisória (Estatuto do Estrangeiro) Caso o estrangeiro tenha ingressado no Brasil durante os primeiros cinco anos de vida, e tenha se estabelecido definitivamente no território nacional, poderá requerer, junto ao Departamento de Polícia Federal ou ao protocolo geral do Ministério da Justiça, enquanto menor, por intermédio de seu representante legal47. 3.4. GOVERNO E A CAPACIDADE DE ENTRAR EM RELAÇÕES COM OS DEMAIS ESTADOS O terceiro elemento de formação do Estado é o Governo Soberano. Alguns doutrinadores querem dividir esse elemento em dois, ou acrescentar a capacidade de entrar em relação com os demais Estados e o reconhecimento deste como um quarto e até um quinto elemento, porém, estes podem ser tratados como um adjetivo do terceiro elemento, pois significaria, conforme colocamos, governo soberano. Adotaremos aqui a posição de três elementos (Território + População + Governo Soberano = Estado). Da mesma forma que não se devem acrescentar elementos à formação do Estado, falar que o terceiro elemento é simplesmente ter governo, qualquer governo, não basta para explicar a formação do Estado. Se assim fosse, qualquer cidade (Fortaleza, Salvador, Porto Alegre...) seria um Estado, pois possui território, população e governo (administração municipal). Porém, há a formação de uma pessoa jurídica originária de direito internacional, diferentemente do que ocorre com as cidades, quando o governo dessa pessoa jurídica não se encontra subordinado a nenhum outro poder, ou seja, é soberano. Ser soberano é poder se auto administrar definindo quais e como exercer suas competências, diante dos seus súditos (população), em seu território, com exclusividade, sem ter que consultar nenhum outro poder. Por outro lado, no âmbito interno do Estado, se uma pessoa jurídica tem o poder de se autoadministrar, mas tem que obedecer aos limites impostos por outro poder, por exemplo, os preceitos presentes na Constituição Federal, a pessoa jurídica é de Direito Interno e possui autonomia, não soberania. A soberania ainda implica a possibilidade de estabelecer relações com outros Governos Soberanos, alicerçada no princípio da igualdade entre Estados, e assumir compromissos no âmbito internacional. Características que quem detém somente autonomia não possui. A ideia de soberania nasceu para teoricamente embasar o poder dos monarcas absolutistas, que não precisavam justificar nenhuma de suas decisões; foi codificada e levada para o âmbito do Estado quando do Tratado de Wesfália, consolidando assim a separação entre o Estado e a Igreja Católica; e, atualmente, é uma garantia do DIP para todos os Estados, quando a ONU, outras organizações intergovernamentais e os tribunais internacionais garantem, independentemente do tamanho físico ou potencial econômico, o princípio da igualdade soberana entre todos os Estados. Tomemos por exemplo quatro Estados que possuem iguais direitos e obrigações, em termos gerais, no cenário internacional: República Popular da China (9.596.960 km² e população de 1.330.044.605 hab.); Estados Unidos (9.372.610 km² e população de 304. 228.257 hab.); Nauru (21 km² e população de 13.248 hab.); e Mônaco (1,95 km² e população de 32.409 hab.). Países bastante diferentes entre si, em continentes distintos, com regimes de governos e potencial econômico diferentes, mas que possuem população, território e governo soberano, portanto, todos são, para o DIP, Estados. O conceito clássico de soberania do Estado pode ser relativizado quando verificamos a realidade fática dos Estados hipossuficientes, que, diante da falta de contingente populacional, pequena extensão territorial ou por fatores econômicos, se socorrem à estrutura de outro Estado para suprir suas necessidades. Os microestados europeus são bons e os mais conhecidos exemplos dessa hipossuficiência, pois há uma dependência, principalmente, monetária e bélica do Estado vizinho maior: Mônaco depende da França; San Marino depende da Itália; e Liechtenstein depende da Suíça. Essa colaboração entre os Estados é estabelecida por tratados bilaterais. Incontestável hoje a personalidade jurídica desses microestados, porém, diante da sua dependência de outro Estado, admitir a sua participação em fóruns internacionais é o mesmo que conceder dois votos a um único país, pois o Estado abastecido seguiria sempre o voto do Estado abastecedor. Essa é a crítica que por muitos anos fez com que esses Estados não tivessem sua personalidade internacional reconhecida e sua participação em organizações internacionais questionada. Atualmente, esses microestados são aceitos em todas as organizações internacionais, inclusive na ONU. 3.5. DEPORTAÇÃO, EXPULSÃO E EXTRADIÇÃO O Estado é quem determina, com exclusividade, se um indivíduo será seu nacional. Esta ação é um ato soberano de cada país normalmente estabelecido na Constituição ou em lei específica. Portanto, a definição de estrangeiro se dá por exclusão, sendo assim classificados todos aqueles que se encontram no território do Estado, mas que não são considerados nacionais. Os fluxos migratórios ocorrem desde os primórdios da humanidade e, conforme já visto, são estudado pelo Direito Internacional desde a Escola Espanhola. Na atualidade, com a grande facilidade que existe em realizar viagens e a crescente integração econômica entre os países, muitas, inclusive, por meio de Blocos Econômicos, que os aproximam ainda mais, estabelecer quem é nacional ou estrangeiro é de grande importância. Por outro lado, diante da universalização dos Direitos Humanos, que estabelecem a igualdade de direito entre todos os indivíduos, cada vez é menor a diferença entre os nacionais e os não nacionais. E uma tendência moderna é a dos Estados que mantêm uma maior relação comercial diminuírem entre si as exigências para os nacionais do país parceiro entrarem e permanecerem em seu território, assim como fazem com bastante sucesso os países europeus. No Brasil, a situação jurídica do estrangeiro é abordada na Constituição Federal, destacadamente nos arts. 5º e 12, e no Estatuto do Estrangeiro (Lei n. 6.815, de 19 de agosto de 1980). Esta lei definiu a situação jurídica do estrangeiro no Brasil e criou o Conselho Nacional de Imigração: Art. 1º Em tempo de paz, qualquer estrangeiro poderá, satisfeitas as condições desta Lei, entrar e permanecer no Brasil e dele sair, resguardados os interesses nacionais. TÍTULO I Da Aplicação Art. 2º Na aplicação desta Lei atender-se-á precipuamente à segurança nacional, à organização institucional, aos interesses políticos, socioeconômicos e culturais do Brasil, bem assim à defesa do trabalhador nacional. Art. 3º A concessão do visto, a sua prorrogação ou transformação ficarão sempre condicionadas aos interesses nacionais. TÍTULO II Da Admissão, Entrada e Impedimento CAPÍTULO I Da Admissão Art. 4º Ao estrangeiro que pretenda entrar no território nacional poderá ser concedido visto: I - de trânsito; II - de turista; III - temporário; IV - permanente; V - de cortesia; VI - oficial; e VII - diplomático. Parágrafo único. O visto é individual e sua concessão poderá estender-se a dependenteslegais, observado o disposto no artigo 7º. Art. 5º Serão fixados em regulamento os requisitos para a obtenção dos vistos de entrada previstos nesta Lei. O Estatuto do Estrangeiro foi alterado, principalmente, pela Lei n. 6.984, de 9 de dezembro de 1981, pela Lei n. 12.878, de 4 de novembro de 2013, e pela Lei n. 12.968, de 6 de maio de 2014. Ele é a lei mais importante do país que rege a relação entre o Estado e os não nacionais. No Brasil, pelo que a legislação determina, três procedimentos típicos e discricionários da relação entre o Estado e um estrangeiro que esteja em seu território devem ser diferenciados pelos internacionalistas para que a utilização de sua terminologia não seja confundida, utilizada inapropriadamente. A deportação, a expulsão e a extradição são procedimentos que atingem diretamente os estrangeiros e são estabelecidos por questões de segurança nacional, para controlar os fluxos migratórios nas fronteiras e o comportamento do estrangeiro em território nacional. É o Estatuto do Estrangeiro, alicerçado nos preceitos de nacionalidade estabelecidos no art. 12 da Constituição Federal, que regerá todos os procedimentos de deportação, expulsão e extradição no Brasil. A deportação é a forma mais simples de exclusão de um estrangeiro de um Estado. Esse fato ocorre quando o alienígena encontra-se irregular no território de um Estado do qual não é nacional, seja por ter tido seu visto vencido (excesso de prazo), seja porque já entrou de forma irregular (clandestino), ou seja pelo exercício de trabalho remunerado (turista). O Estatuto do Estrangeiro assim preceitua: TÍTULO VII Da Deportação Art. 57. Nos casos de entrada ou estada irregular de estrangeiro, se este não se retirar voluntariamente do território nacional no prazo fixado em Regulamento, será promovida sua deportação. [...] Art. 58. A deportação consistirá na saída compulsória do estrangeiro. Parágrafo único. A deportação far-se-á para o país da nacionalidade ou de procedência do estrangeiro, ou para outro que consinta em recebê-lo48. No Brasil, o responsável pela deportação é a Polícia Federal, órgão ligado ao Ministério da Justiça, na pessoa de uma autoridade local, que tem a competência para decidir se fará a exclusão do estrangeiro ou, sendo possível, regulamentará sua documentação. E, sendo o estrangeiro deportado, por essa não ser uma medida punitiva, mas administrativa, suprida a deficiência, pode ele retornar ao país. Art. 64. O deportado só poderá reingressar no território nacional se ressarcir o Tesouro Nacional, com correção monetária, das despesas com a sua deportação e efetuar, se for o caso, o pagamento da multa devida à época, também corrigida49. Por ser uma medida administrativa, fundamentada em critérios legais objetivos, a deportação pouco é questionada no Poder Judiciário. No STF ou nos Tribunais Federais pátrios, poucos são os julgados e, quando existem, observa-se que há análise mais técnica do instituto do que do mérito propriamente dito, no que pese, em alguns casos, a situação fática da parte pode justificar a irregularidade do estrangeiro. HC 59407/DF - Distrito Federal. Relator(a): Min. Cunha Peixoto. Julgamento: 25/11/1981. Órgão Julgador: Tribunal Pleno. Publicação: DJ 18-12-1981 PP-12939. Ement Vol-01239-02 PP-00381. RTJ Vol-00104-03 PP-01011. Parte(s) Pte.: Jong Dallee. Impte.: Theophilo Antonio Miguel. Coator: Exmo. Sr. Ministro da Justiça. Ementa: “Habeas Corpus” - Prisão de alienígena para efeito de deportação - Ato do Ministro da Justiça - Incompetência do S.T.F. para conhecer originariamente da matéria. Pedido de “Habeas Corpus” não conhecido. Penal. Habeas Corpus. Estrangeiro. Permanência no Brasil. Regularização. Concessão de prazo razoável. Possibilidade. Unidade familiar. Preservação. Salvo-conduto. Expedição. 1. Nos termos dos arts. 49 e 51 da Lei n. 6.815/80, “o estrangeiro registrado como permanente, que se ausentar do Brasil, poderá regressar independentemente de visto se o fizer dentro de dois anos”, do contrário, terá o seu registro cancelado. 2. Hipótese em que o paciente, de origem italiana, ingressou no Brasil com o seu núcleo familiar, na condição de estrangeiro permanente e dependente de titular de visto de investidor (seu genitor), vindo a perder tal status por ter se ausentado do território nacional por mais de dois anos consecutivos. 3. A despeito da sua estada ilegal em solo brasileiro, eis que ultrapassado o prazo assinalado pela Polícia Federal para que deixasse o país (8 dias a partir da sua notificação), bem como de estar sujeito à prisão e à deportação (arts. 57 e 61 do Estatuto do Estrangeiro), impõe-se a aplicação do princípio da proteção da unidade familiar, já que ele ainda depende financeiramente dos seus pais, que aqui se encontram de forma regular. 4. Possibilidade de expedição de salvo conduto em favor do paciente, preservando-se a sua liberdade de locomoção e impedindo-se qualquer procedimento tendente à sua deportação, durante o prazo razoável de 180 (cento e oitenta) dias, a contar da sentença, durante o qual deve regularizar a sua permanência no Brasil perante as autoridades competentes. 5. Remessa oficial desprovida. A expulsão, semelhante ao caso da deportação, também é um caso de exclusão do estrangeiro, é um ato discricionário da administração. Por outro lado, a expulsão diferencia-se da deportação por ser alicerçada em ato mais grave do estrangeiro, procedimento que seja considerado nocivo à convivência e aos interesses nacionais, conforme o Estatuto do Estrangeiro (Lei n. 6.815/80), ou sentença penal transitada em julgado condenando o estrangeiro, baseada no Código Penal e demais leis da área presentes em nosso ordenamento. Art. 65. É passível de expulsão o estrangeiro que, de qualquer forma, atentar contra a segurança nacional, a ordem política ou social, a tranquilidade ou moralidade pública e a economia popular, ou cujo procedimento o torne nocivo à conveniência e aos interesses nacionais. Parágrafo único. É passível, também, de expulsão o estrangeiro que: a) praticar fraude a fim de obter a sua entrada ou permanência no Brasil; b) havendo entrado no território nacional com infração à lei, dele não se retirar no prazo que lhe for determinado para fazê-lo, não sendo aconselhável a deportação; c) entregar-se à vadiagem ou à mendicância; ou d) desrespeitar proibição especialmente prevista em lei para estrangeiro50. Havendo uma condenação do estrangeiro por crime doloso ou de qualquer crime contra a segurança nacional, a ordem política ou social, a economia popular, a moralidade ou a saúde pública (art. 65, do Estatuto do Estrangeiro), o Ministério Público, obrigatoriamente, remeterá cópia da sentença para o Ministro da Justiça, que determinará, de ofício ou acolhendo solicitação fundamentada, a instauração do inquérito para a expulsão do estrangeiro. No Inquérito da expulsão, que é obrigatório e forma um ritual mais apurado do que na deportação, o estrangeiro tem direito a ampla defesa e contraditório. E, somente uma portaria futura, expressamente revogando a portaria de expulsão, é que permite ao estrangeiro expulso voltar ao país. Conforme o art. 66 do Estatuto do Estrangeiro, caberá exclusivamente ao Presidente da República resolver sobre a conveniência e a oportunidade da expulsão ou de sua revogação. Quando da expulsão, o estrangeiro pode ser enviado para qualquer outro Estado, pois não possui destino certo, porém, o único que é obrigado a recebê-lo é o seu Estado de origem. Depois de expulso, o estrangeiro não pode retornar mais ao país. O Poder Judiciário somente pode interferir no Inquérito de expulsão quando o estrangeiro assim requerer por meio de petição inicial e para verificar se o Poder Executivo, por meio do Ministro da Justiça, atuou dentro da legalidade e não agiu com arbitrariedade. STF. HC 82893/SP - São Paulo. Habeas Corpus. Relator(a): Min. Cezar Peluso. Julgamento: 17-12-2004. Órgão Julgador: Tribunal Pleno. Publicação: DJ 08-04-2005 PP-00007. Ement Vol-02186-01 PP-00171. LEXSTF v. 27,de Estudos Internacionais e de Desenvolvimento de Genebra e Diretor da Academia de Direito Internacional Humanitário e Direitos Humanos de Genebra, bem destacou, em sua obra, que as regras de Direito Internacional podem ser encontradas desde a Idade Antiga. No Egito houve Acordos de Paz entre reinos distintos. Os Fenícios estabeleceram a Lex Mercatoria, regras alicerçadas somente em costumes, para a navegação e o comércio no Mar Mediterrâneo, adotadas em várias cidades-Estados. Na Grécia, existiam instituições como a arbitragem, a inviolabilidade dos mensageiros, a neutralização de certos lugares, a necessidade de se fazer a Declaração de Guerra e o resgate e a troca de prisioneiros. Em Roma, só existia para eles um único Império e os nascidos neste eram denominados de civilizados e detinham direitos que as populações fora de seus limites, os denominados bárbaros, não possuíam. Ever since human beings began to organize their common life in political communities they have felt the need of some system of rules, however rudimentary, to regulate their intercommunity relations. Rules which may be described as rules of international law are to be found in the history of the ancient and medieval worlds. But as a definite branch of jurisprudence, the system now know as international law is relatively modern. It dates only from the sixteenth centuries. Its especial character was determined by that of the modern European state system, which was itself shaped in the ferment of the Renaissance and the Reformation. Some understanding of the main features of this European state system is therefore necessary for an understating of the nature of international law3. O sistema moderno do Direito Internacional teve início no século XVI, com as Escolas Espanholas e outros estudos pela Europa. Houve uma grande evolução com o desenvolvimento dos Estados Nacionais, desde a unificação precoce do Reino de Portugal (1139), passando pela importante consolidação do Reino da Espanha, em 1492, até a divisão do mundo por essas duas potências marítimas com o Tratado de Tordesilhas (7 de julho de 1494). Infelizmente, esses feitos são ignorados pelos países europeus de origem não latina, e os de origens latinas, incluindo os europeus, preferem seguir os ensinamentos clássicos, influenciados por ingleses, holandeses e alemães, e começam seus estudos a partir da Paz de Westfália. Francisco de Vitória (1486-1546/Espanha) foi o primeiro a estudar cientificamente os fluxos migratórios, ou seja, qual seria o porquê de o homem sair de sua terra natal para enfrentar adversidades culturais, econômicas, geográficas e políticas, entre outras, em outro território. O Direito de Imigração (jus communications) é o estudo mais famoso deste espanhol, que ainda definiu a ideia de soberania limitada do Estado, questionou a legitimidade jurídica da conquista da América, salvaguardando a necessidade de evangelização da Igreja Católica, a intervenção humanitária (quando um Estado intervém em outro para proteção dos direitos do homem) e o que convencionou chamar de guerra justa. Ao questionar a escravidão dos índios na América, Francisco de Vitória assim escreveu: Falta responder aos argumentos para a posição contrária, onde era argumentado que esses [índios] parecem servos por natureza, porque pouco têm uso da razão para governar sequer a si mesmos. A isso respondo que certamente Aristóteles não entendeu que esses, que têm pouco engenho, sejam por natureza alheios do direito e não tenham domínio tanto de si como de outras coisas. Esta, pois, é a servidão civil e legítima, pela qual ninguém é servo por natureza. Nem tampouco quer dizer o Filósofo que, se alguns são por natureza pouco dotados de engenho [mente], seja lícito ocupar os seus bens e patrimônios, reduzi-los à escravidão e torná-los mercadorias de venda. O que quer ensinar é que há neles uma necessidade por causa da qual precisam ser regidos e governados por outros. E é-lhes muito bom o estar submetidos a outros, assim como os filhos precisam estar submetidos aos pais antes da idade adulta, e a mulher ao marido. E que essa seja a intenção do Filósofo, isso é claro, porque do mesmo modo diz que há alguns que por natureza são senhores, a saber, os que têm grande poder de entendimento. Certo é, porém, que não entende que esses tais possam, pela alegação de que são mais sábios, arrogar-se o comando dos outros, senão que têm por natureza faculdades para que possam comandar e governar. E assim, ainda que pressuposto que esses bárbaros sejam mesmo tão ineptos e grossos, como se diz, não por isso se deve negar que têm verdadeiro domínio, nem devem ser tidos no número de servos civis4. Francisco Suárez (1548-1617/Espanha) estudou Direito e Filosofia na Universidade de Salamanca e escreveu sobre a necessidade de regular a sociedade internacional, diante de sua diversidade. Por essa posição é considerado também um precursor do Pacto Social de Thomas Hobbes. Ampliou ainda o conceito vigente de Soberania, considerando-a uma atribuição divina, mas atribuindo-a a toda a comunidade política. Ensinou nas Universidades de Alcalá de Henares (Espanha), Salamanca (Espanha) e Coimbra (Portugal) e suas principais obras são De legibus (Coimbra, 1612) e em Defensio fidei catholicae (Coimbra, 1613). Francisco de Vitória e Francisco Suárez muito contribuíram com o desenvolvimento do Direito Internacional, em um período em que Madri era o centro econômico da Europa e da contrarreforma, e lideraram a Escola Espanhola de Direito Internacional. Entretanto, a importância dos seus estudos foi ignorada por séculos, muito em razão da influência das escolas anglo-saxônica e alemã, que não valorizaram os escritos ibéricos, conforme acima mencionamos. O britânico Clapham destaca: Theological writers especially were concerned with the perplexing ethical problems to which the practice of warfare gives rise, and a series of great Spanish Churchmen of the fifteenth and sixteenth centuries made important contributions to the progress of thought on these matters. Perhaps the greatest of these was Francisco de Vitoria, Professor of Theology at Salamanca from 1526 to 1546, whose Relectiones theologicae, published after his death, contained, in two courses of lectures, the Relectiones De Indis and De jure belli Hispanorum in Barbaros, an examination of the title of the Spaniards to exercise domination over the inhabitants of the New Word. The work is remarkable for its courageous defence of the rights of the indigenous people being conquered. In this, Vitoria’s teaching marks an important step in the expansion of international law into a word system; for it meant that a law which had its rise among the few princes of European Christendom was not to limited to them, or to their relations with one another, but was universally valid, founded as it was on natural law applying equally to all men everywhere. The work of these early Spanish writers has been unfairly neglected, especially in Protestant countries, but, interest in them has been revived, and their importance is now properly appreciated5. Na Itália, Alberico Gentile (1552/1608), na obra O Direito de Guerra, defendeu que a base do direito internacional seria o princípio de solidariedade e interdependência entre os Estados. Portanto, segundo ele, na comunidade internacional são necessárias regras e limitações comuns. Essa posição foi seguida por vários juristas importantes, como Hugo Grotius, e poderia ser apontada como precursora da proposta de “Paz Perpetua” desenvolvida pelos filósofos do Iluminismo, tais como Immanuel Kant. Alberico Gentili, no Capítulo XVIII (“Amizade e alianças”) de sua obra, elencou vários pontos que deveriam ser observados pelos Estados, em tempos de paz e de guerra, e por sua população: 1. Deve-se prestar auxílio àquele que não é somente amigo, mas também súdito, sem levar em consideração o tempo; 2. O auxílio deve ser prestado a um só, quando ao contrário não for igual à condição dos confederados; 3. O confederado deverá ter sempre presenten. 318, 2005, p. 345-353. RTJ Vol-00193-02 PP-00598. Parte(s): Pacte.(s): John Nwolisa. Impte.(s): Dolores Rodrigues Pinto. Coator(a/s)(es): Ministro da Justiça. Ementa: 1. Expulsão. Estrangeiro condenado por tráfico de entorpecentes. Filha brasileira. Reconhecimento ulterior à expedição do Decreto de expulsão. Inexistência, ademais, dos requisitos simultâneos da guarda e da dependência econômica. Não ocorrência de causa impeditiva. HC denegado. Interpretação do art. 75, caput, inc. II, letra b, e § 1º, da Lei n. 6.815/90. A existência de filha brasileira só constitui causa impeditiva da expulsão de estrangeiro, quando sempre a teve sob sua guarda e dependência econômica, mas desde que a tenha reconhecido antes do fato que haja motivado a expedição do decreto expulsório. 2. Expulsão. Estrangeiro condenado por tráfico de entorpecentes. Decreto presidencial. Existência de causa legal. Conveniência e oportunidade. Ato discricionário do Presidente da República. Sujeição a controle jurisdicional exclusivo da legalidade e constitucionalidade. É discricionário do Presidente da República, que lhe avalia a conveniência e oportunidade, o ato de expulsão, o qual, devendo ter causa legal, só está sujeito a controle jurisdicional da legalidade e constitucionalidade. O Estatuto do Estrangeiro, em seu art. 75, ainda proibiu a expulsão do estrangeiro quando esta tiver feições de extradição inadmitida pela lei brasileira. A legislação, objetivando proteger o núcleo familiar, ainda proibiu a expulsão de estrangeiro que tiver cônjuge brasileiro há mais de cinco anos ou que tenha filho brasileiro e este esteja sob sua guarda e dele dependa economicamente. Entretanto, não constituem impedimento à expulsão, a adoção ou o reconhecimento de filho brasileiro supervenientes ao fato que motivou a expulsão e, verificando-se o divórcio ou a separação de fato ou de direito, assim como o abandono do filho, a expulsão poderá ocorrer a qualquer tempo. STF. HC 94896/RJ - Rio de Janeiro. Habeas Corpus. Relator(a): Min. Cezar Peluso. Julgamento: 18-11-2008. Órgão Julgador: Segunda Turma. Publicação: DJe-232. Divulg 04-12-2008. Public 05-12-2008. Ement Vol- 02344-02. PP-00265. RTJ Vol-00208-01 PP-00328. RSJADV mar., 2009, p. 58-61. RT v. 98, n. 882, 2009, p. 509-514. Parte(s): Pacte.(s): Anibal Merced Duprat Duran. Impte.(s): Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro. Coator(a/s) (es): Superior Tribunal de Justiça. Ementa: Expulsão. Estrangeiro. Existência de filha brasileira. Descendente que nunca viveu sob a guarda e dependência econômica do pai. Não ocorrência de causa impeditiva do ato. Risco de constrangimento ilegal inexistente. HC denegado. Precedentes. Inteligência do art. 75, caput, inc. II, b, da Lei n. 6.815/80. Não lhe obsta à expulsão o fato de o estrangeiro ter filho brasileiro que nunca viveu sob sua guarda nem dependência econômica. Extradição é a entrega de uma pessoa por um Estado motivada pelo pedido de outro Estado, alicerçada na ideia de justiça penal, pois no Estado solicitante o indivíduo responderá a processo penal ou, caso já tenha sido condenado, cumprirá a pena dos seus crimes. O indivíduo condenado não precisa ser necessariamente nacional do Estado solicitante, assim como, embora haja exceção, a maior parte dos Estados não aceita o pedido de extradição de um nacional seu por outro Estado. E mais, o crime tem que ser de natureza penal, pois crimes civis, sejam eles quais forem, não são abarcados pelo instituto da extradição, e o processo judicial não necessariamente precisa ter findado, podendo ainda encontrar- se em trâmite ante a Justiça do Estado solicitante. • CURIOSIDADE: A Colômbia permite a extradição de seus nacionais envolvidos com o narcotráfico desde a década de 1980. Existe um tratado assinado com os EUA que garante que o colombiano, mesmo que nunca tenha pisado em território estadunidense, pode ser extraditado da Colômbia para os EUA caso esteja envolvido com o tráfico internacional de drogas. Um caso bastante conhecido é o do traficante Carlos Lehder Rivas, que trabalhava com Pablo Escobar. Carlos Lehder foi preso em 1987 e julgado e condenado nos EUA à prisão perpétua e mais 135 anos de prisão. Uma boa referência para essa história é a série Narcos, da Netflix, lançada em agosto de 2015. O Estado solicitante tem a fundamentação jurídica do seu pedido de extradição baseada em um tratado estabelecido com o Estado de refúgio, acordo comum entre os Estados soberanos. Esse tratado estabelece os requisitos da extradição e, na sua ausência, somente ocorre à extradição se o Estado de refúgio for receptivo ao procedimento, autorizado pela legislação nacional e motivado por uma promessa de reciprocidade. No Brasil, essa promessa de reciprocidade pode ser acolhida ou rejeitada sem fundamentação pelo governo brasileiro, e, em âmbito interno, também não é necessária a aprovação do Congresso Nacional. O Poder Judiciário, quando não ocorre a recusa sumária do Poder Executivo, a quem é feito o pedido inicial de extradição, analisará o caso e se posicionará favorável ou não ao pedido do país solicitante. STF. Ext 1284/DF - Distrito Federal. Extradição. Relator(a): Min. Marco Aurélio. Julgamento: 9-9-2014. Órgão Julgador: Primeira Turma. Publicação: Acórdão Eletrônico. DJe-189. Divulg 26-09-2014. Public 29- 09-2014. Parte(s): Reqte.(s): Governo dos Estados Unidos da América. Extdo.(a/s): William Salvador Hidalgo-Leonor ou Benedict Rivas. Adv. (a/s): Pierpaolo Cruz Bottini. Adv.(a/s): Igor Sant’anna Tamasauskas. Ementa: Extradição - Requisitos. Uma vez atendidos requisitos legais sob o ângulo da existência de ordem de prisão ou de título condenatório criminal, da dupla tipologia e da ausência de prescrição, respeitando os documentos anexados ao processo a forma prevista em lei, cumpre reconhecer a possibilidade de implementar a extradição, cabendo o ato definidor ao Chefe do Poder Executivo Nacional. Ext 1260/DF - Distrito Federal. Extradição. Relator(a): Min. Roberto Barroso. Julgamento: 12-11-2013. Órgão Julgador: Primeira Turma. Publicação: Acórdão Eletrônico. DJe-248. Divulg 13-12-2013. Public 16- 12-2013. Parte(s): Reqte.(s): Governo do Uruguai. Extdo.(a/s): Carlos Alberto Etchechuri de Los Santos. Adv.(a/s): Luis Eduardo de La Rosa D’Avila. Ementa: Extradição instrutória. Regularidade formal. Presença dos pressupostos autorizativos. Deferimento. 1. O requerimento da Extradição formulado pelo Governo do Uruguai em face de seu nacional preenche os requisitos formais da Lei n. 6.815/80 e do Decreto n. 4.975/04. 2. Estão presentes os pressupostos materiais: a dupla tipificação de crime comum praticado por estrangeiro e a falta de jurisdição brasileira sobre o fato. 3. No exame de delibação próprio do julgamento de Extradição, somente é analisada a legalidade externa no pedido. Não se ingressa, portanto, nos pressupostos e na motivação da decisão proferida pela Justiça do Estado requerente sobre a prisão instrutória. 3. Não ocorrência de prescrição da pretensão punitiva. 4. A circunstância de ser o extraditando casado com brasileira e ter filho brasileiro não impede o atendimento do pedido. Precedentes. 5. Extradição deferida. Segundo a Constituição Federal, é de competência do Supremo Tribunal Federal (STF) a análise do processo de extradição para abalizá-lo de acordo com o nosso ordenamento jurídico, pois nossa lei maior também garante os direitos fundamentais, dentre os quais a liberdade aos estrangeiros residentes aqui no Brasil. Existindo algum tratado bilateral entre o Brasil e o Estado solicitante, o STF ainda analisa o caso de acordo com esse documento. O presidente do STF é quem recebe do Poder Executivo brasileiro o pedido de extradição e os documentos do caso. Havendo necessidade de mais documentos, solicita-se diligência ao Estado interessado, que não é o promovente dessa ação. É importante observar que, junto à corte Suprema, a parte promovente não é o Estado interessado, mas o próprio Estado de refúgio, o Brasil. O pedido de extradição deve, obrigatoriamente, atenderaos requisitos da lei brasileira, assim como elencou Francisco Rezek, ex-ministro do STF: a) O fato, narrado em todas as suas circunstâncias, deve ser considerado crime por ambas as leis em confronto. Pouco importam as variações terminológicas, e irreleva, até mesmo, a eventualidade de que no Estado requerente o classifiquem na categoria intermediária dos “delitos”. José Frederico Marques ensina que “a dupla incriminação, na sistemática de nosso direito penal interno, se reflete e focaliza não apenas sobre a tipicidade, mas também sobre o jus puniendi. O tribunal denegaria, por exemplo, a extradição do menor de dezoito anos reclamado, por homicídio, pela Argentina ou pelos Estados Unidos da América. Os três sistemas penais igualmente tipificam o fato de “matar alguém”. Instruída, porém, pela minuciosa narrativa que a lei lhe manda submeter, saberá a corte que aquele ato concreto carece, entre nós, do requisito da punibilidade. b) A extradição pressupõe crime comum, não se prestando à entrega forçada do delinquente político. Ao tribunal incumbe, à luz do critério da preponderância qualificar os casos fronteiriços, e isso dá ensejo, eventualmente, à divisão de vozes. Assim, a extradição de Eduardo Firmenich à Argentina, em 1984, foi concedida por matorta, após cerrado debate (Extr. 417, RTJ 111/13). c) Um mínimo de gravidade deve revestir o fato imputado ao extraditando, e esse se apura à base única da lei brasileira. Frustra-se a extradição quando nossa lei penal não lhe imponha pena privativa de liberdade, ou quando esta comporte um máximo abstrato igual ou inferior a um ano. d) O fato delituoso determinante do pedido há de estar sujeito à jurisdição penal do Estado requerente, que pode, acaso, sofrer a concorrência de outra jurisdição, desde que não a brasileira. Nesta última hipótese o acervo informativo servirá para instruir o processo que aqui deva ter curso no foro criminal. Faz alguns anos, entretanto, que o Supremo Tribunal Federal vem abrandando o rigor da regra e preferindo conceder a extradição - notadamente a de traficantes de drogas quando não se tenha ainda instaurado no Brasil algum processo pelos mesmos fatos, ainda que lhes pareça aplicável, em princípio, nossa lei penal. e) Pressuposto final, dentre os relativos ao fato imputado ao extraditando, é que ele não tenha sua punibilidade extinta pelo decurso do tempo, quer segundo a lei do Estado requerente, quer conforme a lei brasileira. Havendo pedido vista dos autos da Extradição 267 (caso Bogev, RTJ 50/145), teve o ministro Thompson Flores ocasião de ponderar que a prescrição deve ser perquirida separadamente à luz de tinta ou de outra das leis em confronto, concluindo: “Viável não se torna formar um terceiro sistema, conjugando as duas leis que, em regra, obedecem a princípios diferentes, para adotar um híbrido e com ele solver a tese da prescrição”51. No decorrer do processo de extradição no STF, o extraditando obrigatoriamente fica preso, a pedido do Ministro relator, e não há exceção a esta regra. De toda sorte, são concedidos ao extraditando todos os direitos processuais existentes em nosso ordenamento, tais como ampla defesa, contraditório e manifestações no processo por advogado. Uma garantia de grande importância que o ordenamento pátrio concede ao extraditando é que esse não pode ser julgado no Estado solicitante por tribunal de exceção. Portanto, o Brasil não aceita que o extraditando, independentemente do crime que haja cometido, seja julgado por um juízo criado exclusivamente para determinado caso. Na prática, em 1977, tivemos a autorização pelo Supremo Tribunal Federal da extradição do advogado italiano Olívio Lefêhvre d’Ovidio que foi julgado por uma Corte Constitucional na Itália, ou seja, um tribunal de exceção. Assim pode ser considerado, por ser formado por políticos italianos, respeitando a proporcionalidade partidária do parlamento italiano, encontrar-se fora da estrutura do Poder Judiciário e seus integrantes serem nomeados ad hoc. O STF entendeu que mesmo diante dessas características, a Corte Constitucional italiana não seria de exceção por se destinar a julgar crimes políticos, delitos de responsabilidade (Extr. 347, RTJ 86/1). O STF, no decorrer dos anos, após a análise legal, passou a se manifestar de forma resolutória, ou seja, suprimindo praticamente a discricionariedade natural do Poder Executivo, na figura do Presidente da República, de seguir ou não sua orientação no caso de decisão favorável à extradição. O Caso Cesare Batisti, que mobilizou o Poder Judiciário, o Poder Executivo e a opinião pública do Brasil e da Itália, deixou muito evidente que o STF faz a análise legal do pedido de extradição e que a decisão final cabe exclusivamente ao chefe do Poder Executivo. No caso em tela, o Presidente da República, no dia 30 de dezembro de 2010, decidiu pela não extradição do italiano. E, no que pese o tamanho desta decisão ser grande, é de grande valia para o estudo da matéria a leitura em sua íntegra, que se encontra no final deste capítulo. O ato final da extradição, portanto, cabe ao Presidente da República. Se este negar o pedido de extradição, comunicará seu posicionamento ao Estado solicitante e libertará o extraditado. Por outro lado, sendo acatado o pedido de extradição, deve o Poder Executivo exigir ao outro Estado alguns compromissos: 1) diante do princípio da especialidade do pedido de extradição, não condenar o extraditando em outros crimes anteriores à extradição; 2) descontar da pena de condenação no Estado solicitante o tempo de prisão no Brasil; 3) transformar em pena privativa de liberdade uma possível pena de morte; não permitida no Brasil; 4) não entregar o extraditando a outro Estado sem autorização do Brasil; 5) não agravar a pena por motivos políticos. Após a formalização desses compromissos, o governo coloca o extraditando à disposição do Estado solicitante por intermédio do Itamaraty. Salvo disposição contrária em tratado bilateral, o Estado solicitante tem 60 dias para retirar o extraditando do país, pagando todas as custas desse trâmite, correndo o risco, caso assim não proceda, de ter o extraditando libertado e não poder mais refazer o pedido de extradição. 3.6. SURGIMENTO E RECONHECIMENTO (DE ESTADO E DE GOVERNO) O surgimento de um Estado, historicamente, ocorria ao mesmo tempo que um território ia sendo ocupado por uma nação, e, com o crescimento desta na região ocupada, ocorria uma consequente organização administrativa daquele território. Os melhores exemplos seriam a formação dos Estados europeus e a independência das colônias do continente americano. Esse processo parece-nos pertencer à História e não mais ocorrer nos tempos atuais. Atualmente, o surgimento de um Estado ocorre por mudanças políticas em Estados já existentes. A Carta da ONU, de 26 de junho de 1945, fala em autodeterminação dos povos, o que impulsionou a independência de vários Estados africanos no segundo pós-guerra; e a Carta da Organização dos Estados Americanos, embora de âmbito regional, fala que a existência do Estado é independente do reconhecimento internacional, conforme preceitua seu art. 13º: A existência política do Estado é independente do seu reconhecimento pelos outros Estados. Mesmo antes de ser reconhecido, o Estado tem o direito de defender a sua integridade e independência, de promover a sua conservação e prosperidade, e, por conseguinte, de se organizar como melhor entender, de legislar sobre os seus interesses, de administrar os seus serviços e de determinar a jurisdição e a competência dos seus tribunais. O exercício desses direitos não tem outros limites senão o do exercício dos direitos de outros Estados, conforme o direito internacional. Portanto, o surgimento de um Estado não depende em nada de fatores internacionais. Entretanto, assim não se pode deduzir do seu reconhecimento como Estado soberano. O reconhecimento de um Estado, por outro lado, é um ato unilateral e irreversível de uma pessoa jurídica de Direito Internacional que, por ser um ente soberano,reconhece em outro os elementos necessários para a formação de uma pessoa jurídica de DIP. O reconhecimento significa, trazendo o texto do art. 14 da Carta da OEA, que o Estado que o outorga aceita a personalidade do novo Estado com todos os direitos e deveres que, para um e outro, determina o direito internacional. O reconhecimento de Estado pode ser tácito ou expresso. Quando tácito, basta haver entre os dois Estados a assinatura de qualquer tratado ou documento oficial, mesmo que não haja nenhum artigo fazendo referência ao reconhecimento do outro como Estado. Quando expresso, o Estado já existente manifesta sua posição por comunicado ou assinatura de um tratado bilateral. A França reconheceu a República Popular da China por meio de um comunicado conjunto em 27 de janeiro de 1964, que estabelecia as relações diplomáticas entre os dois Estados, mas não falava nada sobre o reconhecimento pelo Estado francês. Em 1979, a celebração de acordos de paz entre Israel e Egito (acordos de Camp David) significou também, embora não escrito, o reconhecimento por este da soberania daquele. Em ambas as situações, o reconhecimento foi tácito. O Brasil teve seu reconhecimento por Portugal por meio de um tratado bilateral de paz assinado em 29 de agosto de 1825. Nosso país foi o primeiro da América Latina a reconhecer a Polônia como Estado soberano, fato que ocorreu em 15 de abril de 1919. O Presidente da República do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, enviou na data de 3 de dezembro de 2010 uma carta a Mahmoud Abbas, presidente da ANP (Autoridade Nacional Palestina), reconhecendo à Palestina como Estado soberano. Exemplificamos assim casos de reconhecimento expresso. Fato atípico ocorreu no século XIX, em 27 de agosto de 1828, quando o Império do Brasil assinou com as Províncias Unidas do Rio da Prata, hoje Argentina, um tratado bilateral de paz, e neste reconheceu expressamente a independência de um terceiro Estado, a província da Cisplatina, hoje Uruguai. Importante destacar que a assinatura de um tratado multilateral por um Estado não significa dizer, salvo quando expresso, o reconhecimento deste de todos os outros Estados pactuantes do documento. Portanto, pode Israel assinar vários tratados multilaterais com os países árabes no âmbito da ONU ou de alguma outra organização, e isso não significará o reconhecimento tácito do Estado hebreu pelos árabes. Quando nos referimos ao reconhecimento de Governo, partimos do pressuposto de que o Estado já existe e é reconhecido como tal pelos outros Estados. O que ocorre aqui é uma brusca alteração político-jurídica no Estado com o surgimento de uma nova estrutura de Poder. A mudança não segue os preceitos constitucionais anteriormente estabelecidos e tem por objetivo criar um novo ordenamento jurídico. No Brasil, um ótimo exemplo é o fim do regime monárquico e a ascensão dos republicanos ao Poder. Naquela oportunidade, em data de 15 de novembro de 1989, o Brasil passou a ter novo ordenamento jurídico-político. O reconhecimento de Governo, assim como ocorre com o reconhecimento de Estado, pode ser tácito ou expresso. Essas duas possibilidades, em âmbito doutrinário e político, já geraram muitos embates e foram marcadas por duas teorias latino-americanas (Doutrina Tobar e Doutrina Estrada). A primeira doutrina foi criada por Carlos Tobar, Ministro das Relações Exteriores do Equador que defendeu ser a única hipótese de dificultar os comuns golpes de Estados na América Latina à recusa da comunidade internacional em reconhecer esses novos governos até a aprovação da população daquele país para com o novo regime. A ideia era inibir os constantes golpes na região, fato que instabilizava a América Latina, provocava muitas mortes e prejudicava o desenvolvimento econômico. Atingidas as condições impostas pela doutrina, o reconhecimento deveria ser expresso e justificado. A Doutrina Tobar foi muito prestigiada na América Latina, teve repercussão na diplomacia estadunidense no governo de Woodrow Wilson e Franklin Roosevelt e foi seguida a risca pela Venezuela na década de 1960, quando chegou a cortar reações diplomáticas com o Brasil (1964) e com a Argentina (1966) por terem esses Estados sofridos golpes de Estado. Em contraposição à doutrina Tobar, desenvolve-se a partir do México, a Doutrina Estrada, que defendia a possibilidade de um Estado reconhecer um governo sem levar em consideração a legitimidade do novo governo e o apoio popular. Genaro Estrada, Ministro das Relações Exteriores do México, dizia que a Doutrina Tobar era uma interferência em questões internas do Estado e por isso não poderia vingar. Para que houvesse o reconhecimento de um governo, não haveria necessidade de um documento escrito, mas, simplesmente, a mantença do corpo diplomático no outro país. Assim, o Ministro comunicou ao mundo o posicionamento do México quanto ao reconhecimento de outros governos: Em razão de mudanças de regime ocorridas em alguns países da América do Sul, o governo do México teve uma vez mais que decidir sobre a teoria chamada do “reconhecimento” de governo. É fato sabido que o México sofreu como poucos países, há alguns anos, as consequências dessa doutrina que deixa ao arbítrio de governos estrangeiros opinar sobre a legitimidade ou ilegitimidade de outro regime, isto criando situações em que a capacidade legal ou a legitimidade nacional de governos e autoridades parecem submeter-se ao juízo exterior. A doutrina do chamado “reconhecimento” foi aplicada, desde a grande guerra, especialmente às nações de nossa área, sem que em casos conhecidos de mudança de regime na Europa tenha ela sido usada expressamente, o que mostra que o sistema se transforma em prática dirigida às repúblicas latino-americanas. Após atento estudo da matéria, o governo do México expediu instruções a seus representantes nos países afetados pelas crises políticas recentes, fazendo-lhes saber que o México não se pronuncia no sentido de outorgar reconhecimento, pois estima que essa prática desonrosa, além de ferir a soberania das nações, deixa-as em situação na qual seus assuntos internos podem qualificar-se em qualquer sentido por outros governos, que assumem de fato uma atitude crítica quando de sua decisão favorável ou desfavorável sobre a capacidade legal do regime. Por conseguinte, o governo do México limita-se a conservar ou retirar, quando crê necessário, seus agentes diplomáticos, e a continuar acolhendo, também quando entende necessário, os agentes diplomáticos que essas nações mantêm junto a si, sem qualificar, nem precipitadamente nem a posteriori, o direito que teriam as nações estrangeiras dc aceitar manter ou substituir seus governos ou suas autoridades52. Desta forma, o Ministro Estrada objetivava evitar juízos críticos de outros Estados, fato que muito prejudicou o México, alicerçado no princípio da não intervenção. A Doutrina Estrada não proibia que um Estado rompesse relações diplomáticas com outro, mas para sua mantença bastava manter o status quo ante. Caso contrário, o corpo diplomático sairia do Estado que tinha esse novo governo e somente voltaria quando as relações fossem reabilitadas. A Doutrina Tobar sofreu grande desgaste por ser considerada invasiva e por inúmeros exemplos de reconhecimentos que consideravam os novos democráticos, embora fossem governos déspotas, somente por questões econômicas. A suposta legitimidade deu lugar à efetividade: o novo regime cumpre os tratados internacionais? Mantém a ordem interna do Estado? A população, em sua maioria, aceitou a nova ordem? Nesse caso, o novo governo é efetivo e deve ser reconhecido. A Doutrina Estrada prevaleceu quanto à forma do reconhecimento, pois, em tempos modernos, a mantença ou a ruptura das relações diplomáticas prevalece em detrimento do pronunciamento expresso outorgando ou recusando o reconhecimento do novo governo. Infelizmente, essa prática também já foi utilizada para o reconhecimento de governos ditatoriais, como o fizeram o Brasil, os Estados Unidos e a França para com o violento golpe militardo Chile em 1973. Esses países mantiveram seus embaixadores no Chile mesmo após o golpe de Estado de Augusto Pinochet. 3.7. RESPONSABILIDADE INTERNACIONAL O Direito Internacional, no caso de dano, determina a responsabilidade de uma reparação adequada de um Estado para com outro. Essa responsabilidade internacional atinge também as organizações. Em 3 de dezembro de 1948, objetivando encerrar qualquer celeuma sobre responsabilidade internacional para as organizações intergovernamentais, a ONU, por meio de sua Assembleia Geral, solicitou um parecer consultivo à Corte Internacional de Justiça. Em linhas gerais, a ONU queria saber se caso um agente seu sofresse algum dano no exercício de suas atividades, teria ela qualidade para representar contra o Estado responsável. E, em sendo afirmativa a primeira pergunta, numa pergunta complementar, a ONU indagava como poderia conciliar seus direitos com o do Estado natal da vítima. Em data de 11 de abril de 1949, a Corte Internacional de Justiça emitiu parecer deixando muito evidente que a própria organização sofre um dano em seus serviços, e esse prejuízo não se confunde com aqueles sofridos pela vítima e seus sucessores. O parecer ainda esclarece que a organização pode também ser responsabilizada internacionalmente por algum ato ilícito segundo o DIP. Na responsabilidade internacional basta que o dano sofrido tenha sido decorrente de um ato que feriu alguma norma de Direito Internacional (princípios gerais, costumes internacionais, tratados). A culpa não é obrigatória, mas isso não caracteriza, em direito das gentes, ser a responsabilidade objetiva, como no Direito Interno. Existe a necessidade de enquadrar o ato ilícito afrontando uma norma do DIP, mesmo que este esteja em conformidade com o Direito Interno, que não poderá funcionar como subterfúgio. A praxe internacional ainda aponta que grande parte das normas afrontadas são princípios gerais e costumes internacionais e que os tratados oferecem maior segurança jurídica por estabelecerem de forma muito clara suas diretrizes. Em muitos casos, os princípios gerais e os costumes internacionais, por não serem escritos, precisam da doutrina e da jurisprudência para melhor interpretá-los, abrindo assim espaços para maiores exercícios hermenêuticos ou distorções puras de sua essência. A Responsabilidade Internacional Direta ocorre quando quem praticou o ato ilícito foi algum órgão do Estado, não importando sua natureza (Poder Executivo, Legislativo ou Judiciário) ou nível hierárquico. A responsabilidade quanto a ato ilícito do Poder Executivo (para o Brasil, a União) é muito evidente, pois este é o responsável pela administração do Estado, e alguma ação contra as normas internacionais que cause dano a outro Estado configura-se como responsabilidade internacional direta. A responsabilidade quanto a ato ilícito do Poder Legislativo ou Judiciário não ocorre pela simples aprovação de uma lei que não agrade a um estrangeiro ou por uma sentença que o condene, mas por situações mais complexas, que realmente afrontem uma norma internacional. Todo ato legislativo (lei, decreto, portaria...) conflitante com um tratado internacional, do qual o próprio Estado faz parte, configura um ato ilícito em âmbito internacional. É muito contraditório assumir um compromisso no cenário externo, alicerçado no princípio pacta sunt servanda, e no âmbito interno ter uma lei que afronte esse tratado. A Constituição Federal de 1988, em seu art. 5º, LXVII, e o art. 652 do Código Civil brasileiro de 2002 assim preceituam, respectivamente: LXVII - não haverá prisão civil por dívida, salvo a do responsável pelo inadimplemento voluntário e inescusável de obrigação alimentícia e a do depositário infiel (grifo nosso). Art. 652. Seja o depósito voluntário ou necessário, o depositário que não o restituir quando exigido será compelido a fazê-lo mediante prisão não excedente a um ano, e ressarcir os prejuízos. Portanto, a Constituição Federal e o Código Civil nacional permitem a prisão civil do depositário infiel. Porém, o Brasil é signatário do Pacto de San José da Costa Rica (1969) - conhecido também por Convenção Americana de Direitos Humanos - e do Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos (1966), e assumiu perante a comunidade internacional, conforme determinação desses dois tratados, que a única possibilidade de privação de liberdade civil seria por não pagamento de pensão alimentícia. O Pacto de San José da Costa Rica, ratificado pelo Brasil em 25 de setembro de 1992, no art. 7º, § 7º, assim determina: Art. 7º Direito à liberdade pessoal. [...] § 7º Ninguém deve ser detido por dívida. Este princípio não limita os mandados de autoridade judiciária competente expedidos em virtude de inadimplemento de obrigação alimentar. O Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos, por sua vez, assim dispõe: Art. 11. Ninguém poderá ser preso apenas por não poder cumprir com uma obrigação contratual. Os artigos da Constituição Federal e do Código Civil que se referem ao depositário infiel ainda não foram expressamente revogados, mas, diante do que preceituam as convenções internacionais de que o Brasil faz parte, eles configuram-se como atos ilícitos do Poder Legislativo diante do DIP. Alicerçada nesses tratados, a jurisprudência pátria caminhou para o desuso desses artigos contidos na legislação nacional, e, hoje, a prisão do depositário infiel não é praticada em nossos tribunais. O STF revogou a Súmula 619, que autorizava a decretação da prisão civil do depositário judicial no próprio processo em que se constituiu o encargo, independentemente do prévio ajuizamento da ação de depósito, e publicou a Súmula Vinculante 25 sobre a ilicitude da prisão do depositário infiel por ser contrária à Convenção Americana sobre Direitos Humanos e ao Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos. De acordo com o Ministro Celso de Mello, no Habeas Corpus 98.893, o STF firmou jurisprudência “no sentido de que não mais subsiste, em nosso ordenamento positivo, a prisão civil do depositário infiel”. Falta ainda ao Poder Legislativo suprir em definitivo essas ilicitudes internacionais presentes na Constituição Federal e no Código Civil revogando os artigos acima citados. No âmbito do Poder Judiciário, configura-se o ilícito nas hipóteses de denegação de justiça, assim arroladas por Clóvis Beviláqua em parecer de 23 de janeiro de 1911: 1. Quando o juiz, sem fundamento legal, repele a petição daquele que recorre a justiça do país para defender ou restaurar o seu direito; 2. Quando, postergando as fórmulas processuais, impede a prova do direito ou a sua defesa; 3. Quando a sentença é, evidentemente, contrária aos princípios universais do direito53. O Poder Judiciário falha quando não atende aos anseios dos cidadãos e da comunidade internacional no que diz respeito a prestar um bom serviço e a seguir as normas internacionais. A letargia no trâmite processual, assim como uma sentença não condizente com o DIP, fez com que uma vítima de violência doméstica procurasse a Comissão Interamericana de Direitos Humanos para denunciar o Brasil por ato ilícito para o direito das gentes do Poder Judiciário. A farmacêutica Maria da Penha, em 1983, sofreu duas tentativas de homicídio pelo ex-esposo. Na primeira oportunidade, ele simulou um assalto e atirou nas costas da esposa quando esta dormia. Em consequência do tiro, Maria da Penha ficou paraplégica. Retornando ao lar, sem saber ainda da verdade do primeiro episódio, a farmacêutica cearense sofreu outra tentativa de homicídio; o esposo tentou eletrocutá-la e afogá-la. O então esposo de Maria da Penha, o Sr. Marco Antônio Viveiros, foi condenado somente 19 anos depois e, pior, passou apenas dois anos em regime fechado. A Sra. Maria da Penha com o Centro pela Justiça pelo Direito Internacional e o Comitê Latino-Americano de Defesa dos Direitos da Mulher (Cladem) formalizaram uma denúncia à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA). O órgãointernacional considerou o caso como de violência doméstica, condenou o Brasil a pagar uma indenização à vítima e a aprimorar a legislação interna para coibir esse tipo de violência contra a mulher. Em 7 de agosto de 2006, foi promulgada a Lei n. 11.340, conhecida como Lei Maria da Penha, que, em sua introdução, se posiciona afirmando que “Cria mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher, nos termos do § 8º do art. 226 da Constituição Federal, da Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres e da Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher; dispõe sobre a criação dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher; altera o Código de Processo Penal, o Código Penal e a Lei de Execução Penal; e dá outras providências”. A Responsabilidade Internacional pode ser indireta quando o Estado responde pelo ilícito provocado por algum dependente seu, tal como ente federado ou associado. Conforme já exposto, somente o Estado tem soberania, portanto personalidade jurídica em DIP; um ente da federação possui autonomia, o que lhe confere personalidade jurídica de direito interno, mas não possui personalidade de DIP. Nesse contexto, o ilícito que tenha sido provocado será sempre imputável ao Estado soberano. Não caracteriza responsabilidade internacional indireta a ação de indivíduos particulares. A ação desses não compromete o Estado, desde que este não falte com os seus deveres de prevenção e repressão. Quando da Revolução Islâmica no Irã, mesmo após a mudança de regime, o Estado detinha total condição de prever e reprimir atos de indivíduos que pudessem ser ofensivos a comunidade internacional. Entretanto, a invasão da Embaixada Estadunidense no Irã foi um ato ilícito para o DIP, promovido por particulares, porém, mediante a inércia do Estado. Nesse caso do pessoal diplomático e consular dos Estados Unidos em Teerã (Recueil CIJ, 1980, p. 3 e s.), a Corte Internacional de Justiça considerou que, diante da posição das autoridades iranianas, “... a ocupação contínua da embaixada e a detenção persistente dos reféns assumiram o caráter de atos do Estado. Os militantes tornaram-se então agentes do Estado iraniano, cuja responsabilidade internacional está comprometida pelos respectivos atos’’. A Responsabilidade Internacional, além de exigir como personagens pessoas jurídicas de Direito Internacional, exige também que haja um dano, que não necessariamente será material. Somente o Estado ou a Organização Internacional que foi vítima de um dano tem como mensurá-lo quando invoca o Estado faltoso, portanto, não pode ser esse dano invocado por terceiro. O dano somente se configura indenizável quando o fato que o originou é considerado conduta ilícita para o direito das gentes. Essa caracterização, ratificamos, é independente de culpa, aspecto não apreciado no Direito Internacional. Quando ocorrer o dano e esse for considerado conduta ilícita, deve o Estado faltoso indenizar o Estado vítima com uma reparação correspondente ao dano, e que, mesmo que não seja ela paga em dinheiro, terá uma natureza compensatória. 3.8. SUCESSÃO O Estado é uma realidade fática formada por território determinado, população relativamente estável e governo soberano. O princípio da continuidade estabelece que essa realidade fática tende a se perdurar durante o tempo. Alterações políticas podem ocorrer em qualquer Estado e, a depender da intensidade dessas mudanças, podem surgir alterações substanciais no Estado, passando por sua ampliação até o seu fim por completo. A fusão entre Estados ocorre quando dois ou mais passam a constituir um único Estado. Aconteceu esse fenômeno quando da unificação da Itália no século XIX (Lombardia, Toscana, Veneto, Roma...), que anteriormente já contava com reinos independentes e soberanos; a unificação dos impérios germânicos sob o comando da Prússia, formando a atual Alemanha; e a união de vários países em torno da Rússia quando da criação da ex-URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) após a Revolução Russa. Importante destacar que as pessoas jurídicas de direito das gentes passam a não mais existir para dar origem a uma nova pessoa jurídica: o Estado resultado dessa agregação. O desmembramento de Estado é o fenômeno pelo qual um Estado divide-se em dois ou mais Estados. Não necessariamente o Estado primeiro deixará de existir, mas obrigatoriamente nasce outro ou outros Estados soberanos. Esse fenômeno ocorreu, muito claramente, quando do processo de descolonização das Américas, pois todas as colônias eram consideradas territórios da metrópole. Quando não temos essa relação entre colônia e metrópole e um Estado se desmembra e dá origem a vários, a doutrina comumente denomina o fenômeno secessão. Este fenômeno ocorreu quando da divisão da Federação Centro-Americana, em 1838, esta dividiu-se e deu origem a cinco novos Estados (Nicarágua, Costa Rica, El Salvador, Guatemala e Honduras); quando da divisão da Grã-Colômbia, que deu origem a Colômbia, Venezuela e Equador; e quando, mais recente, ocorreu a secessão da ex-URSS, em 1991, dando origem a 15 novos Estados. Os efeitos jurídicos do novo Estado originário da fusão serão determinados por este próprio alicerçado nos ordenamentos jurídicos anteriores, se for o caso, e, principalmente, no que se propõe a ser esse novo ordenamento. No caso dos Estados originários de desmembramento, existe um leque muito grande e não há codificação relacionada ao assunto, portanto, o normal é a assinatura de convenções entre as partes para tratar de bens públicos e dívidas, por exemplo. O outro personagem do Direito Internacional não guarda nenhuma relação com o princípio da continuidade que encontramos nos Estados. Portanto, não há obrigatoriedade de sucessão nas Organizações Internacionais, que não possuem substrato físico e podem desaparecer juridicamente pela simples vontade dos seus integrantes. De toda sorte, pode existir e é comum em nossos tempos a sucessão entre as organizações. Esse fenômeno ocorreu quando, em 18 de abril de 1946, votou-se a extinção da antiga SDN (Sociedade das Nações) e seu espólio foi todo integrado à ONU, que havia sido criada em 1945. Outro exemplo foi a sucessão da ALALC (Associação Latino Americana de Livre Comércio) pela ALADI (Associação Latino-Americana de Integração), em 12 de agosto de 1980. Importante observar que não houve sucessão do GATT pela OMC (Organização Mundial do Comércio), pois o primeiro nunca foi organização. E mais, é um tratado multilateral ainda vigente no âmbito da OMC. 3.9. JURISDIÇÃO O Estado, por possuir soberania, é a única pessoa jurídica de DIP que pode determinar, organizar e executar o funcionamento do seu ordenamento jurídico. Essa divisão internacional do poder exclusivo de julgar dentro de determinado território se chama jurisdição. O Estado exerce jurisdição exclusiva e geral sobre todo o seu território. Portanto, sobre seu território, o Estado não sofre a concorrência de nenhuma outra soberania, pois detém jurisdição exclusiva, o monopólio do uso legítimo da força pública. A generalidade da jurisdição quer dizer que o Estado exerce em seu território todas as competências de ordem legislativa, administrativa e executiva. Um Estado pode também não ter condições plenas de exercer o seu direito de jurisdição exclusiva e geral sobre seu território e solicitar a ajuda de um país vizinho. Esse fato já foi comentado anteriormente quando tratada a hipossuficiência de alguns micro-Estados. O próprio conceito de soberania sofre abalo nessas condições. Dentro do território em que o Estado exerce sua jurisdição torna-se necessária uma divisão interna do poder de julgar. Essa divisão é o que se chama de competência. A competência também trata do conflito de normas entre o Direito Interno e o Direito Internacional. O Código de Processo Civil de 1973, substituído pelo CPC/2015, em vigor a partir de março de 2016, traz dois tipos de competência internacional: relativa (art.88) e exclusiva (art. 89). Essa específica situação nos remete ao trágico acidente entre uma companhia aérea brasileira e uma empresa estadunidense, quando dois aviões se chocaram em pleno voo. Parentes das vítimas preferiram se socorrer a justiça estadunidense para pleitear as justas indenizações por ser o caso de competência relativa. E mais, querendo, poderiam também solicitar indenização, concomitantemente, aqui no Brasil pelo mesmo fato. 3.10. DIPLOMATAS E CÔNSULES Por muitos e muitos anos todos os procedimentos da Diplomacia mundial foram alicerçados em costumes. Os Estados estabeleciam suas relações baseadas em comportamentos repetidos e, como havia uma diversidade muito grande destes, um procedimento poderia mudar muito de um país para outro. No decorrer do Império Napoleônico, a Europa continental viu quase todos os seus monarcas depostos em detrimento de pessoas ligadas ao general francês. Depois da queda de Napoleão, fazia-se urgente o reordenamento dos Estados e, consequentemente, o restabelecimento das relações diplomáticas entre eles. Em Viena, entre 1º de outubro de 1814 e 9 de junho de 1815, Inglaterra, Prússia, Rússia e Áustria, as potências vencedoras, reuniram-se para redesenhar as fronteiras dos Estados europeus, definir o futuro da França e, se possível, equilibrar as forças do continente, no sentido de garantir a paz na Europa. Esse ambicioso congresso, a maior reunião diplomática até então, atingiu seus objetivos e marcou a história da diplomacia mundial, que teve muitas de suas regras definidas nesse encontro. Os costumes, em muitos casos, foram padronizados e tendiam a uma uniformidade. Depois de mais de 140 anos, na mesma cidade de Viena, diplomatas de todo o mundo se reuniram para codificar os costumes das relações entre Estados. A Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas (CVRD) foi um tratado adotado em 18 de abril de 1961 no âmbito da ONU. A CVRD resultou de um grande diploma legal para o Direito Internacional, pois codificou os direitos e os deveres dos Estados nas relações diplomáticas e estabeleceu de forma muito clara e uníssona os privilégios e imunidades dos funcionários das missões diplomáticas. Entrou em vigor em 24 de abril de 1964, nos termos do seu art. 51º. No Brasil, ela foi recepcionada por meio do Decreto n. 56.435, de 8 de junho de 1965. Portugal aderiu à Convenção por meio do Decreto-Lei n. 48.295, de 27 de março de 1968. Dentre os principais artigos que podemos destacar da CVRD, citamos e comentamos os que seguem: Artigo 2º O estabelecimento de relações diplomáticas entre Estados e o envio de missões diplomáticas permanente efetua-se por consentimento mútuo. [...] Artigo 4º 1. O Estado acreditante deverá certificar-se de que a pessoa que pretende nomear como Chefe da Missão perante o Estado acreditado obteve o Agrément do referido Estado. 2. O Estado acreditado não está obrigado a dar ao Estado acreditante as reações da negação do “agréement”. [...] Artigo 22 1. Os locais da Missão são invioláveis. Os agentes do Estado acreditado não poderão neles penetrar sem o consentimento do Chefe da Missão. 2. O Estado acreditado tem a obrigação especial de adotar todas as medidas apropriadas para proteger os locais da Missão contra qualquer instrução ou dano e evitar perturbações à tranquilidade da Missão ou ofensas à sua dignidade. 3. Os locais da Missão, seu mobiliário e demais bens neles situados, assim como os meios de transporte da Missão, não poderão ser objeto de busca, requisição, embargo ou medida de execução. [...] Artigo 23 1. O Estado acreditante e o Chefe da Missão estão isentos de todos os impostos e taxas, nacionais, regionais ou municipais, sobre os locais da Missão de que sejam proprietários ou inquilinos, excetuados os que representem o pagamento de serviços específicos que lhes sejam prestados. 2. A isenção fiscal a que se refere este artigo não se aplica aos impostos e taxas cujo pagamento, na conformidade da legislação do Estado acreditado, incumbir às pessoas que contratem com acreditante ou com o Chefe da Missão. Artigo 24 Os arquivos e documentos da Missão são invioláveis, em qualquer momento e onde quer que se encontrem. [...] Artigo 29 A pessoa do agente diplomático é inviolável. Não poderá ser objeto de nenhuma forma de detenção ou prisão. O Estado acreditado tratá-lo-á com o devido respeito e adotará todas as medidas adequadas para impedir qualquer ofensa à sua pessoa, liberdade ou dignidade. [...] Artigo 31 1. O agente diplomático gozará da imunidade de jurisdição penal do Estado acreditado. Gozará também da imunidade de jurisdição civil e administrativa, a não ser que se trate de: a) uma ação sobre imóvel privado situado no território do Estado acreditado, salvo se o agente diplomático o possuir por conta do Estado acreditante para os fins da missão; b) uma ação sucessória na qual o agente diplomático figure, a título privado e não em nome do Estado, como executor testamentário, administrador, herdeiro ou legatário; c) uma ação referente a qualquer profissão liberal ou atividade comercial exercida pelo agente diplomático no Estado acreditado fora de suas funções oficiais. 2. O agente diplomático não é obrigado a prestar depoimento como testemunha. 3. O agente diplomático não está sujeito a nenhuma medida de execução, a não ser nos casos previstos nas alíneas “a”, “b” e “c”, do parágrafo 1º deste artigo e desde que a execução possa realizar-se sem afetar a inviolabilidade de sua pessoa ou residência. 4. A imunidade de jurisdição de um agente diplomático no Estado acreditado não o isenta da jurisdição do Estado acreditante. [...] Artigo 34 O agente diplomático gozará de isenção de todos os impostos e taxas, pessoais ou reais, nacionais, regionais ou municipais, com as exceções seguintes: a) os impostos indiretos que estejam normalmente incluídos no preço das mercadorias ou dos serviços; b) os impostos e taxas sobre bens imóveis privados, situados no território do Estado acreditado, a não ser que o agente diplomático os possua em nome do Estado acreditante e para os fins da Missão; c) os direitos de sucessão percebidos pelo Estado acreditado salvo o disposto no parágrafo 4º do artigo 39; d) os impostos e taxas sobre rendimentos privados que tenham a sua origem no Estado acreditado e os impostos sobre o capital, referente a investimentos em empresas comerciais no Estado acreditado; e) os impostos e taxas cobrados por serviços específicos prestados; f) os direitos de registro, de hipoteca, custas judiciais e imposto de selo relativos a bens imóveis, salvo o disposto no artigo 23. [...] Artigo 42 O agente diplomático não exercerá no Estado acreditado nenhuma atividade profissional ou comercial em proveito próprio. [...] Artigo 51 1. A presente Convenção entrará em vigor no trigésimo dia que se seguir à data do depósito perante o Secretário-Geral das Nações Unidas do vigésimo segundo instrumento de ratificação ou adesão. 2. Para cada um dos Estados que ratificarem a Convenção ou a ela aderirem depois do depósito do vigésimo segundo instrumento de ratificação ou adesão, a Convenção entrará em vigor no trigésimo dia após o depósito, por esse Estado, do instrumento de ratificação ou adesão. Seguindo a mesma orientação da CVRD, foi celebrado em 24 de abril de 1963 a Convenção de Viena sobre Relações Consulares. Esse tratado codificou as práticas consulares que haviam se desenvolvido pelo direito internacional consuetudinário e entrou em vigor em 19 de março de 1967. Dentre os principais artigos que podemos destacar da Convenção de Viena sobre Relações Consulares, citamos e comentamos os que seguem: Artigo 2º Estabelecimento de Relações Consulares 1. O estabelecimento de relações consulares entre Estados far-se-á por consentimento mútuo. 2. O consentimento dado para o estabelecimento de relações diplomáticas entre dois Estados implicará, salvo indicação em contrário, o consentimento para o estabelecimento de relações consulares. 3. A ruptura das relações diplomáticasnão acarretará ipso facto a ruptura das relações consulares. [...] Artigo 5º Funções Consulares As funções consulares consistem em: a) proteger, no Estado receptor, os interesses do Estado que envia e de seus nacionais, pessoas físicas ou jurídicas, dentro dos limites permitidos pelo direito internacional; b) fomentar o desenvolvimento das relações comerciais, econômicas, culturais e científicas entre o Estado que envia e o Estado receptor e promover ainda relações amistosas entre eles, de conformidade com as disposições da presente Convenção; c) informar-se, por todos os meios lícitos, das condições e da evolução da vida comercial, econômica, cultural e científica do Estado receptor, informar a respeito o governo do Estado que envia e fornecer dados às pessoas interessadas; d) expedir passaportes e documentos de viagem aos nacionais do Estado que envia, bem como vistos e documentos apropriados às pessoas que desejarem viajar para o referido Estado; e) prestar ajuda e assistência aos nacionais, pessoas físicas ou jurídicas do Estado que envia; f) agir na qualidade de notário e oficial de registro civil, exercer funções similares, assim como outras de caráter administrativo, sempre que não contrariem as leis e regulamentos do Estado receptor; g) resguardar, de acordo com as leis e regulamentos do Estado receptor, os interesses dos nacionais do Estado que envia, pessoas físicas ou jurídicas, nos casos de sucessão por morte verificada no território do Estado receptor; h) resguardar, nos limites fixados pelas leis e regulamentos do Estado receptor, os interesses dos menores e dos incapazes, nacionais do país que envia, particularmente quando para eles for requerida a instituição de tutela ou curatela; i) representar os nacionais do país que envia e tomar as medidas convenientes para sua representação perante os tribunais e outras autoridades do Estado receptor, de conformidade com a prática e os procedimentos em vigor neste último, visando conseguir, de acordo com as leis e regulamentos do mesmo, a adoção de medidas provisórias para a salvaguarda dos direitos e interesses destes nacionais, quando, por estarem ausentes ou por qualquer outra causa, não possam os mesmos defendê-los em tempo útil; j) comunicar decisões judiciais e extrajudiciais e executar comissões rogatórias de conformidade com os acordos internacionais em vigor, ou, em sua falta, de qualquer outra maneira compatível com as leis e regulamentos do Estado receptor; k) exercer, de conformidade com as leis e regulamentos do Estado que envia, os direitos de controle e de inspeção sobre as embarcações que tenham a nacionalidade do Estado que envia, e sobre as aeronaves nele matriculadas, bem como sobre suas tripulações; l) prestar assistência às embarcações e aeronaves a que se refere a alínea “k” do presente artigo e também às tripulações: receber as declarações sobre as viagens dessas embarcações, examinar e visar os documentos de bordo e, sem prejuízo dos poderes das autoridades do Estado receptor, abrir inquéritos sobre os incidentes ocorridos durante a travessia e resolver todo tipo de litígio que possa surgir entre o capitão, os oficiais e os marinheiros, sempre que autorizado pelas leis e regulamentos do Estado que envia; m) exercer todas as demais funções confiadas à repartição consular pelo Estado que envia, as quais não sejam proibidas pelas leis e regulamentos do Estado receptor, ou às quais este não se oponha, ou ainda as que lhe sejam atribuídas pelos acordos internacionais em vigor entre o Estado que envia e o Estado receptor. [...] Artigo 12 Exequatur 1. O Chefe da repartição consular será admitido no exercício de suas funções por uma autorização do Estado receptor denominada exequatur, qualquer que seja a forma dessa autorização. 2. O Estado que negar a concessão de um exequatur não estará obrigado a comunicar ao Estado que envia os motivos dessa recusa. 3. Sem prejuízo das disposições dos artigos 13 e 15, o chefe da repartição consular não poderá iniciar suas funções antes de ter recebido o exequatur. [...] Artigo 31 Inviolabilidade dos Locais Consulares 1. Os locais consulares serão invioláveis na medida do previsto no presente artigo. 2. As autoridades do Estado receptor não poderão penetrar na parte dos locais consulares que a repartição consular utilizar exclusivamente para as necessidades de seu trabalho, a não ser com o consentimento do chefe da repartição consular, da pessoa por ele designada ou do chefe da missão diplomática do Estado que envia. Todavia, o consentimento do chefe da repartição consular poderá ser presumido em caso de incêndio ou outro sinistro que exija medidas de proteção imediata. 3. Sem prejuízo das disposições do parágrafo 2º do presente artigo, o Estado receptor terá a obrigação especial de tomar as medidas apropriadas para proteger os locais consulares contra qualquer invasão ou dano, bem como para impedir que se perturbe a tranquilidade da repartição consular ou se atente contra sua dignidade. 4. Os locais consulares, seus imóveis, os bens da repartição consular e seus meios de transporte não poderão ser objeto de qualquer forma de requisição para fins de defesa nacional ou de utilidade pública. Se, para tais fins, for necessária a desapropriação, tomar-se-ão as medidas apropriadas para que não se perturbe o exercício das funções consulares, e pagar-se-á ao Estado que envia uma indenização rápida, adequada e efetiva. [...] Artigo 36 Comunicação com os Nacionais do Estado que Envia 1. A fim de facilitar o exercício das funções consulares relativas aos nacionais do Estado que envia: a) os funcionários consulares terão liberdade de se comunicar com os nacionais do Estado que envia e visitá-los. Os nacionais do Estado que envia terão a mesma liberdade de se comunicarem com os funcionários consulares e de visitá-los; b) se o interessado lhes solicitar, as autoridades competentes do Estado receptor deverão, sem tardar, informar a repartição consular competente quando, em sua jurisdição, um nacional do Estado que envia for preso, encarcerado, posto em prisão preventiva ou detido de qualquer outra maneira. Qualquer comunicação endereçada à repartição consular pela pessoa detida, encarcerada ou presa preventivamente deve igualmente ser transmitida sem tardar pelas referidas autoridades. Estas deverão imediatamente informar o interessado de seus direitos nos termos do presente subparágrafo; c) os funcionários consulares terão direito de visitar o nacional do Estado que envia, o qual estiver detido, encarcerado ou preso preventivamente, conservar e corresponder-se com ele, e providenciar sua defesa perante os tribunais. Terão igualmente o direito de visitar qualquer nacional do Estado que envia encarcerado, preso ou detido em sua jurisdição em virtude de execução de uma sentença. Todavia, os funcionários consulares deverão abster-se de intervir em favor de um nacional encarcerado, preso ou detido preventivamente, sempre que o interessado a isso se opuser expressamente. 2. As prerrogativas a que se refere o parágrafo 1º do presente artigo serão exercidas de acordo com as leis e regulamentos do Estado receptor, devendo, contudo, entender-se que tais leis e regulamentos não poderão impedir o pleno efeito dos direitos reconhecidos pelo presente artigo. Em Viena, ainda foram codificados os costumes relativos ao Direito dos Tratados, em 1969. O Tratado dos Tratados, assim como é conhecido, entrou em vigor em 1980 e é hoje uma das principais fontes de Direto Internacional (vide capítulo 2 deste livro). Em 1986, a Convenção de Viena ampliou o Direito dos Tratados para as Organizações Internacionais, pois, inicialmente, somente quem poderia ser parte em um tratado eram os Estados. Após a Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados entre Estados e Organizações Internacionais ou entre Organizações Internacionais (conhecida por seu acrônimo em inglês VCLTIO - Vienna Convention on the Law of Treaties between States and International Organizations or Between InternationalOrganizations), tratado assinado em 21 de abril de 1986, as Organizações Intergovernamentais passaram a poder assinar tratados com Estados e entre si. O Brasil ainda não ratificou esse tratado. 3.11. ORGANIZAÇÕES INTERNACIONAIS Durante muitos séculos os únicos detentores de personalidade jurídica internacional foram os Estados. Daí receberem da doutrina especializada a classificação de pessoa jurídica internacional originária. De toda sorte, um grande movimento surgiu no século passado que ainda é muito recente, mas já consolidado o suficiente para se afirmar que não mais só os Estados têm personalidade jurídica para o direito das gentes, mas as organizações internacionais também assim são consideradas. São estas denominadas de pessoas jurídicas derivadas. O Estado, além da precedência histórica, é uma realidade física, um espaço territorial sobre o qual vive uma comunidade. Todos os Estados, por mais diferentes que sejam em sua composição e extensão territorial, possuem os mesmos objetivos: segurança, desenvolvimento, paz etc. As organizações internacionais carecem dessa dupla dimensão material, pois são produtos exclusivos de uma elaboração jurídica resultante da vontade conjugada dos Estados que se juntaram para criá-las ou que as compõem. Então, por ser uma criação jurídica nos termos acima mencionados, o ato constitutivo de uma organização internacional é mais importante para ela do que uma constituição para um Estado. Sem o ato constitutivo, que cria e estabelece as regras de associação e seu funcionamento, não existe a organização internacional, porém, sem a constituição, pode existir o Estado, pois o papel da Carta Magna é de organização do ordenamento jurídico pátrio e não de validação da existência do Estado. As organizações internacionais são associações voluntárias entre sujeitos de DIP, Estados ou mesmo outras organizações, que possuem objetivos comuns entre si. De toda sorte, são esses objetivos que diferenciam as organizações, pois, são eles infindáveis, e cada um pode dar origem a uma organização diferente. Importante observar que as organizações não governamentais, constituídas pela sociedade civil, embora possam ter atuação em mais de um Estado, não são consideradas organizações internacionais. Bons exemplos dessas são as organizações esportivas (FIFA, FIA, COI etc.), que possuem grande influência política nos tempos modernos, um número respeitável de associados, mas não são compostas por Estados. Todas as organizações internacionais são constituídas por meio de um tratado internacional (ato constitutivo), sem prazo de validade, ou seja, de caráter permanente, e com órgãos de direção próprios, independentes das pessoas de direito das gentes que a compõem ou de qualquer outra organização. Obrigatoriamente, o ato constitutivo de uma organização traz a secretaria geral, órgão administrativo, e a assembleia geral, órgão máximo de decisão. Depois de constituídas, as organizações podem adquirir obrigações e ter direitos de acordo com os seus atos constitutivos. Não se confunde a personalidade jurídica internacional de uma organização com nenhum Estado integrante, e elas possuem direito de legação ativo e passivo, exercido por observadores, podendo manter relações diplomáticas com outros Estados ou Organizações Internacionais. Além do ato constitutivo para criação da Organização Internacional, esta sempre assina um acordo de sede com um Estado para estabelecer suas instalações físicas. Uma organização internacional, a depender de sua atuação e necessidade, pode assinar mais de um acordo de sede com o mesmo Estado ou com Estados diferentes, assim como fez a ONU com os Estados Unidos, pois sua sede principal é em Nova York, e com a Suíça e a Holanda, respectivamente, sedes da unidade europeia e do órgão jurisdicional da organização. 3.12. ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU) Em janeiro de 1919, próximo de findar a Primeira Guerra Mundial, em Versalhes - França, as grandes potências da época, vencedoras do conflito bélico, idealizaram a criação de uma pessoa jurídica de caráter internacional, formada somente por Estados, alicerçada no princípio da igualdade soberana, e que teria por objetivo primeiro a paz mundial. Seria ela a Sociedade das Nações (SDN), uma organização internacional também chamada de Liga das Nações. O alicerce dessa organização foi a proposta de paz do presidente dos Estados Unidos, Woodrow Wilson, que havia sido enviada para o Congresso estadunidense em 8 de janeiro de 1918. Nessa mensagem, conhecida como os Quatorze Pontos, Woodrow Wilson estabelecia as bases para a reorganização das relações internacionais depois da Primeira Guerra Mundial: 1) Inaugurar pactos de paz, depois dos quais não deverá haver acordos diplomáticos secretos, mas sim diplomacia franca e sob os olhos públicos; 2) Liberdade absoluta de navegação nos mares e águas fora do território nacional, tanto na paz quanto na guerra, com exceção dos mares fechados completamente ou em parte por ação internacional em cumprimento de pactos internacionais; 3) Abolição, na medida do possível, de todas as barreiras econômicas entre os países e o estabelecimento de uma igualdade das condições de comércio entre todas as nações que consentem com a paz e com a associação multilateral; 4) Garantias adequadas da redução dos armamentos nacionais até o menor nível necessário para garantir a segurança nacional; 5) Um reajuste livre, aberto e absolutamente imparcial da política colonialista, baseado na observação estrita do princípio de que a soberania dos interesses das populações colonizadas deve ter o mesmo peso dos pedidos equiparáveis das nações colonizadoras; 6) Retirada dos Exércitos do território russo e solução de todas as questões envolvendo a Rússia, visando assegurar melhor cooperação com outras nações do mundo. O tratamento dispensado à Rússia por suas nações irmãs será o teste de sua boa vontade, da compreensão de suas necessidades como distintas de seus próprios interesses e de sua simpatia inteligente e altruísta; 7) Bélgica, o mundo inteiro concordará, precisa ser restaurada, sem qualquer tentativa de limitar sua soberania a qual ela tem direito assim como as outras nações livres; 8) Todo território francês deve ser libertado e as partes invadidas restauradas. O mal feito à França pela Prússia, em 1871, na questão da Alsácia e Lorena, deve ser desfeito para que a paz possa ser garantida mais uma vez, no interesse de todos; 9) Reajuste das fronteiras italianas, respeitando linhas reconhecidas de nacionalidade; 10) Reconhecimento do direito ao desenvolvimento autônomo dos povos da Áustria-Hungria, cujo lugar entre as nações queremos ver assegurado e salvaguardado; 11) Retirada das tropas estrangeiras da Romênia, da Sérvia e de Montenegro, restauração dos territórios invadidos e o direito de acesso ao mar para a Sérvia; 12) Reconhecimento da autonomia da parte da Turquia dentro do Império Otomano e a abertura permanente do estreito de Dardanelos como passagem livre aos navios e ao comércio de todas as nações, sob garantias internacionais; 13) Independência da Polônia, incluindo os territórios habitados por população polonesa, que devem ter acesso seguro e livre ao mar; 14) Criação de uma associação geral sobre pactos específicos para o propósito de fornecer garantias mútuas de independência política e integridade territorial dos grandes e pequenos Estados54. O presidente Woodrow Wilson (1856 - 1924) compareceu pessoalmente as tratativas de paz na França, no final de 1918, e, com seu prestígio, convenceu as potências europeias da importância da criação da Liga das Nações. Os 26 primeiros artigos do Tratado de Versalhes, que possuía a estrutura abaixo, correspondiam à criação da Liga das Nações. Parte I - Pacto da Sociedade das Nações (artigos 1 a 26 e anexo). Parte II - As Fronteiras da Alemanha (artigos 27 a 30). Parte III - Cláusulas para Europa (artigos 31 a 117 e anexos). Parte IV - Direitos e interesses alemães fora da Alemanha (artigos 118 a 158 e anexos). ParteV - Cláusulas militares, navais e aéreas (artigos 159 a 213). Parte VI - Prisioneiros de guerra e cemitérios (artigos 214 a 226). Parte VII - Sanções (artigos 227 a 230). Parte VIII - Reparações (artigos 231 a 247 e anexos). Parte IX - Cláusulas financeiras (artigos 248 a 263). Parte X - Cláusulas econômicas (artigos 264 a 312). Parte XI - Navegação aérea (artigos 313 a 320 e anexos). Parte XII - Portos, vias marítimas e vias férreas (artigos 321 a 386). Parte XIII - Organização Internacional do Trabalho (artigos 387 a 399). Procedimentos (artigos 400 a 427 e anexo). Parte XIV - Garantias (artigos 428 a 433). Parte XV - Previsões e diversos (artigos 434 a 440 e anexo). Paradoxalmente, mesmo diante do grande empenho do presidente estadunidense, o Congresso norte-americano se recusou a ratificar o Tratado de Versalhes e os Estados Unidos nunca fizeram parte da Sociedade das Nações. A Liga das Nações, embora não tenha conseguido o êxito desejado, seja pela ausência dos Estados Unidos, seja pelas duras penas impostas pelo Tratado de Versalhes à Alemanha que motivaram a ascensão nazista e a Segunda Guerra Mundial, foi o embrião da Organização das Nações Unidas (ONU). A primeira assembleia geral da Liga das Nações ocorreu em 15 de novembro de 1920, em Genebra, e a última ocorreu em 1946, já depois da criação da ONU, que foi fundada em 24 de outubro de 1945. A primeira reunião da ONU ocorreu em São Francisco - Estados Unidos - logo após o fim da Segunda Grande Guerra. Refletindo a hegemonia dos Estados Unidos, além de a fundação ter ocorrido nesse país, temos também a sede da ONU na cidade de Nova York, a primeira assembleia geral ocorreu em Londres, em 10 de janeiro de 1946, no Westminster Central Hall. O Ato constitutivo da ONU a divide em seis órgãos principais, que são: • 1. Assembleia Geral; • 2. Conselho de Segurança; • 3. Conselho Econômico e Social; • 4. Conselho de Tutela; • 5. Tribunal Internacional de Justiça; • 6. Secretariado. Cinco dos seis órgãos acima mencionados estão situados na sede da ONU, em Nova York, sendo a única exceção o Tribunal Internacional de Justiça (ou Corte Internacional de Justiça) que fica em Haia, na Holanda. A ONU assim é definida no seu sítio eletrônico oficial: A Organização das Nações Unidas é uma instituição internacional formada por 192 Estados soberanos, fundada após a 2ª Guerra Mundial para manter a paz e a segurança no mundo, fomentar relações cordiais entre as nações, promover progresso social, melhores padrões de vida e direitos humanos. Os membros são unidos em torno da Carta da ONU, um tratado internacional que enuncia os direitos e deveres dos membros da comunidade internacional. [...] Ligados à ONU há organismos especializados que trabalham em áreas tão diversas como saúde, agricultura, aviação civil, meteorologia e trabalho - por exemplo: OMS (Organização Mundial da Saúde), OIT (Organização Internacional do Trabalho), Banco Mundial e FMI (Fundo Monetário Internacional). Estes organismos especializados, juntamente com as Nações Unidas e outros programas e fundos (tais como o Fundo das Nações Unidas para a Infância, UNICEF), compõem o Sistema das Nações Unidas55. Durante toda sua existência, a ONU vem desenvolvendo importante papel em vários setores e seu desempenho hoje é fundamental na paz mundial e no desenvolvimento do Direito Internacional. Dentre seus principais feitos, além das importantes e fundamentais ações humanitárias em vários países do mundo, a ONU promulgou a Declaração Universal dos Direitos Humanos, em 1948; codificou os costumes relacionados às tratativas diplomáticas e consulares, além do direito dos tratados, nas Convenções de Viena da década de 1960; e intermediou vários conflitos bélicos, se não todos, entre Estados. 3.13. SANTA SÉ E ESTADO DA CIDADE DO VATICANO Em 20 de setembro de 1870, no processo de unificação do reino da Itália, as tropas do rei Vitor Emanuel II tomaram os territórios pontifícios. Até essa intervenção militar, o Papa exercia duas funções cumulativamente: Chefe da Igreja Católica e Chefe de Estado. Sem território, o Papa perdeu a condição de Chefe de Estado, embora tenha mantido a condição de Chefe da Igreja. Somente em data de em 11 de fevereiro de 1929, no governo de Vitor Emanuel III e sob o papado de Pio XI, quando o cargo de primeiro-ministro da Itália era ocupado por Benito Mussolini, foi assinado o Tratado de Latrão, pondo fim às celeumas existentes entre as partes. Esse acordo reconheceu a propriedade da Santa Sé em alguns imóveis na Itália e a soberania plena no território do Estado da Cidade do Vaticano, conforme denominação do próprio tratado. O Vaticano, ou a Santa Sé, como também é conhecido, também celebra tratados e, quando esses tem por objeto o funcionamento da Igreja Católica no outro Estado, recebe o nome especial de Concordata. Porém, a Santa Sé também assina outros tipos de tratados bilaterais - comerciais, por exemplo - que não recebem esse nome diferenciado. A Santa Sé também já formalizou inúmeros tratados multilaterais, como as Convenções de Viena sobre relações diplomáticas e consulares e a sobre direito dos tratados. Essa posição não poderia ser diferente pois estamos diante de uma pessoa jurídica de direito internacional. A Santa Sé possui claramente os três elementos constitutivos do Estado: um território, com 0,44 km²; uma população, com aproximadamente 1.000 habitantes e um governo soberano, independente da Itália ou de qualquer outro Estado. O cunho religioso inseparável do Estado faz com que se discuta a natureza jurídica exata. Os fins para os quais se orienta a Santa Sé, enquanto governo da Igreja, não são do molde dos objetivos padronizados de todo Estado soberano. Além disso, é importante lembrar que a Santa Sé não possui uma dimensão pessoal, não possui nacionais. Os integrantes de seu elemento demográfico preservam os laços patriais de origem, continuando a ser poloneses, italianos, suíços e outros tantos. O vínculo dessas pessoas com o Estado da Cidade do Vaticano - tal é seu nome oficial, hoje alternativo - não é, pois, a nacionalidade; e lembra em certa medida o vínculo funcional que existe entre as organizações internacionais e seu pessoal administrativo56. De toda sorte, encontra-se hoje um entendimento majoritário e quase uníssono que a Santa Sé possui, por legado histórico, personalidade jurídica de direito internacional. Embora não seja um Estado comum, temos na Santa Sé um caso único de Estado anômalo. 3.14. INDIVÍDUO Muito se discute no DIP se os indivíduos possuem personalidade jurídica de Direito Internacional. A doutrina clássica defende que não, pois os únicos protagonistas do Direito Internacional são os Estados e as Organizações Internacionais. Uma nova doutrina defende que os indivíduos são, sim, pessoas de direito das gentes porque muitas normas internacionais criam direitos e deveres para pessoas comuns. Dentre os que defendem que os indivíduos são pessoas jurídicas de DIP, destacamos o jurista Francisco Rezek, que assim argumenta: É preciso lembrar, entretanto, que indivíduos e empresas - diversamente dos Estados e das organizações - não se envolvem, a título próprio, na produção do acervo normativo internacional, nem guardam qualquer relação direta e imediata com essa ordem. Muitos são os textos internacionais voltados à proteção do indivíduo. A flora e a fauna também constituem objeto de proteção por normas de direito das gentes, sem que se lhes tenha pretendido, por isso, atribuir personalidade jurídica. É certo que indivíduos e empresas já gozam de personalidade em direito interno, e que essa virtude poderia repercutir no plano internacional na medida em que o direito das gentes não se teria limitado a protegê-los, mas teria chegado a atribuir-lhes a titularidade de direitos e deveres - o que é impensável no caso de coisas juridicamente protegidas, porém despersonalizadas, como as florestas e os cabos submarinos57. O indivíduo, para ter personalidade jurídica internacional, deveria ter ampla prerrogativade participar, de forma ativa ou passiva, nos foros internacionais. Porém, em verdade, até os foros internacionais acessíveis aos indivíduos o fazem mediante um compromisso estatal, e o indivíduo tem que ter uma ligação, subordinação, com esse Estado copatrocinador, o que normalmente é o vínculo jurídico da nacionalidade. O DIP também não impõe, segundo essa primeira corrente, nenhum dever, obrigação, diretamente ao indivíduo em que seu Estado de residência não esteja vinculado. Na visão da segunda doutrina, a que defende a personalidade jurídica internacional do indivíduo, um dos pontos mais fortes de sua argumentação são os Tribunais Internacionais que julgam indivíduos. Indubitavelmente, o primeiro exemplo que vem à cabeça de qualquer estudioso é o Tribunal de Nuremberg, que julgou os nazistas após a Segunda Guerra Mundial. Porém, embora tenha julgado indivíduos, diante de sua particularidade ímpar, pois foi motivado por uma grande comoção mundial, não serve de exemplo. Os Tribunais Penais Internacionais criados pelo Conselho de Segurança da ONU para julgar indivíduos que cometeram graves crimes do ponto de vista do Direito Humanitário Internacional na ex-Iugoslávia (Resolução 808, de 1993) e em Ruanda (Resolução 955, de 1994) são exemplos de Cortes Internacionais que julgam indivíduos. Portanto, diante dessa possibilidade, seriam eles pessoas jurídicas de DIP. Esses tribunais foram possíveis porque o Conselho de Segurança da ONU possuía legitimidade para criá-los e os crimes cometidos, mesmo no âmbito interno, eram considerados como crimes internacionais, pois os países haviam incorporado ao seu ordenamento interno as Convenções de Genebra. Portanto, não resta dúvida quanto à tipicidade penal dos fatos. Nesse contexto, uma jurisdição internacional ad hoc poderia fazer o julgamento dos crimes já que os Estados onde ocorreram os fatos não possuíam condições de conduzirem os processos. Porém, mesmo nessas condições, para ser legítima, a captura de um réu depende da autorização do Estado onde se encontra. O Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia, instalado em 1993, funciona em Haia e até o ano de 2004 já havia examinado mais de uma centena de processos e sentenciado cinquenta decisões, sendo 45 condenatórias. O Tribunal Penal Internacional para Ruanda funcionou em Arusha, na Tanzânia, e havia proferido 28 sentenças, condenatórias em grande parte, até o final de 2004. A Convenção de Roma, de 17 de julho de 1998, promulgada no Brasil em 25 de setembro de 2002 (Decreto n. 4.388), determinou a criação de um Tribunal Penal Internacional permanente, tido como uma organização internacional, portanto, dotado de personalidade jurídica de DIP. O Tribunal Penal Internacional julgará indivíduos, por crimes considerados pelo DIP de extrema gravidade, todos definidos no próprio tratado de Roma (genocídios, os crimes de guerra, os crimes contra a humanidade de que são exemplos o extermínio, a redução à escravatura, a deportação forçada, a tortura). Embora o TIP não possua limitação geográfica ou circunstancial, como nos Tribunais de Nuremberg, Iugoslávia e Ruanda, sua jurisdição é complementar, pois a jurisdição do Estado onde ocorreu o crime é preferencial e somente sua inércia ou posição condescendente alicerça a ação do foro internacional. O Tribunal Penal Internacional, como explica Rezek, fruto de estudos acurados e de exaustiva diplomacia, deverá poupar a sociedade internacional, no futuro, de todo o constrangimento que lhe tem imposto esse cenário de contornos mal definidos, onde um caprichoso jogo de acasos parece determinar ora a criação de instâncias ad hoc, ora o empenho avulso de alguma jurisdição nacional em ter diante de si determinado estrangeiro acusado de crime grave. Por outro lado seu estatuto, um documento da virada do século e de autoria global, confirma a falta de uma relação imediata entre o indivíduo e o direito das gentes: a jurisdição do tribunal pressupõe o consentimento (seja a condição de parte no Tratado de Roma, seja um consentimento ad hoc) do Estado territorial do crime ou do Estado patrial do réu, senão de ambos58. Portanto, essa divergência sobre a participação do indivíduo no Direito Internacional ainda será muito debatida na doutrina e na jurisprudência. A tendência natural é o individuo ganhar cada vez mais espaço no DIP e, algum dia, ser sujeito inconteste. 3.15. CASO PRÁTICO Diante da riqueza de detalhe e dos debates técnicos que foram travados neste processo no STF, colacionamos a seguir o julgado do Caso Cesare Battisti. Este caso, que teve ampla cobertura da mídia nacional e europeia, aborda vários tópicos estudados neste capítulo. Vejamos: SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL (STF) CASO CESARE BATTISTI Ext 1085 PET-AV/República Italiana. Petição avulsa na extradição. Relator(a): Min. Gilmar Mendes. Relator(a) p/ Acórdão: Min. Luiz Fux. Julgamento: 8-6-2011. Órgão Julgador: Tribunal Pleno. Publicação. DJe- 060 Divulg 2-4-2013 Public 3-4-2013. Ement Vol-02686-01 PP-00001. Parte(s): Relator: Min. Gilmar Mendes. Reqte.(s): Governo da Itália. Adv. (A/S): Antonio Nabor Areias Bulhões. Extdo.(a/s): Cesare Battisti. Adv. (a/s): Luiz Eduardo Greenhalgh e Outro(a/s). Adv.(a/s): Suzana Angélica Paim Figuerêdo. Adv.(a/s): Georghio Alessando Tomelin. Adv.(a/s): Rosa Maria Assef Gargiulo. Adv.(a/s): Luís Roberto Barroso. Adv.(a/s): Renata Saraiva. Ementa: Reclamação. Petição avulsa em extradição. Pedido de relaxamento de prisão. Negativa, pelo Presidente da República, de entrega do extraditando ao país requerente. Fundamento em cláusula do tratado que permite a recusa à extradição por crimes políticos. Decisão prévia do Supremo Tribunal Federal conferindo ao Presidente da República a prerrogativa de decidir pela remessa do extraditando, observados os termos do tratado, mediante ato vinculado. Preliminar de não cabimento da reclamação ante a insindicabilidade do ato do Presidente da República. Procedência. Ato de soberania nacional, exercida, no plano internacional, pelo chefe de Estado. Arts. 1º, 4º, I, e 84, VII, da Constituição da República. Ato de entrega do extraditando inserido na competência indeclinável do Presidente da República. Lide entre Estado brasileiro e Estado estrangeiro. Incompetência do Supremo Tribunal Federal. Descumprimento do tratado, acaso existente, que deve ser apreciado pelo Tribunal Internacional de Haia. Papel do pretório excelso no processo de extradição. Sistema “belga” ou da “contenciosidade limitada”. Limitação cognitiva no processo de extradição. Análise restrita apenas aos elementos formais. Decisão do Supremo Tribunal Federal que somente vincula o Presidente da República em caso de indeferimento da extradição. Ausência de executoriedade de eventual decisão que imponha ao chefe de Estado o dever de extraditar. Princípio da separação dos poderes (art. 2º CRFB). Extradição como ato de soberania. Identificação do crime como político traduzida em ato igualmente político. Interpretação da cláusula do diploma internacional que permite a negativa de extradição “se a parte requerida tiver razões ponderáveis para supor que a pessoa reclamada será submetida a atos de perseguição”. Capacidade institucional atribuída ao chefe de Estado para proceder à valoração da cláusula permissiva do diploma internacional. Vedação à intervenção do Judiciário na política externa brasileira. Art. 84, VII, da Constituição da República. Alegada vinculação do Presidente ao tratado. Graus de vinculação à juridicidade. Extradição como ato político-administrativo vinculado a conceitos jurídicos indeterminados. Non-refoulement. Respeito ao direito dos refugiados. Limitação humanística ao cumprimento do tratado de extradição (art. III, 1, f). Independência nacional (art. 4º, I, CRFB). Relação jurídica de direito internacional, não interno. Consequências jurídicas do descumprimento que se restringem ao âmbito internacional. Doutrina. Precedentes. Reclamação não conhecida. Manutenção da decisão do Presidente da República. Deferimento do pedido de soltura doà justiça, prestar ajuda àquele que está do lado da justiça e negar o auxílio ao injusto; 4. Em paridade de condições, na dúvida da justiça, entre dois requerentes, deve-se prestar auxílio àquele que se apresentou por primeiro; 5. Quando houver dúvida sobre qual dos dois ou mais requerentes tenha direito segundo os tratados, e todos o reclamam em seu favor, que nenhum deles se preste auxílio; 6. Quando se tome a defesa de um confederado contra a ofensa do outro, ao agir contra um amigo por causa do perigo de outro, nos lembremos sempre que aquele é um amigo. A salvação dos povos deve ser anteposta à fama e a qualquer outra coisa; 7. A nenhum dos dois federados em guerra entre si se deve prestar auxílio, não se devendo como aliado acrescentar fogo à guerra que arde entre aliados, nem tornar-se de certo modo fator de guerra civil; 8. Não podendo o confederado prestar auxílio ao mesmo tempo a um e outro e não havendo possibilidade de socorrer mais a um que a outro, não precisa prestar auxílio a nenhum dos dois. Neste caso, não há como escolher6. Essas posições foram seguidas pelos Estados durante muitos anos e muito contribuíram para o desenvolvimento do Direito Internacional. Hugo Grotius (1585-1645/Holanda) escreveu, em 1625, a obra De Jure Bellis ac Pacis (O Direito da Guerra e da Paz) inspirada na Guerra dos Trinta Anos (1618-1648) e participou ativamente, como Embaixador do Rei da Suécia, dos Tratados de Westfália. Grotius (alguns escritos trazem Grócio ou Groot) ganhou projeção em todo o mundo e passou a ser reconhecido, pela doutrina dos países protestantes, como o pai do Direito Internacional, no que pese o próprio Grotius sempre ter atribuído seus conhecimentos à literatura jurídica de São Tomás de Aquino, Francisco de Vitória, Domingo de Soto e Francisco Suárez (estes três últimos, autores da literatura ibérica da segunda escolástica). Grotius, entretanto, conduziu o DIP como ciência aos círculos cultos europeus e formulou a “hipótese impiíssima” de prescindir do papel constituinte de Deus na formação de um direito do gênero humano, que teria vigência “etiam si daremus Deum non esse” (mesmo que admitíssemos que Deus não existisse). Escreveu, principalmente, sobre o período de Guerra e defendeu que, mesmo nos tempos mais críticos, todos devem agir nos limites do direito, da justiça e da boa-fé. E assim concluiu: Estou convencido, pelas considerações que acabo de expor, que existe um direito comum a todos os povos e que serve para a guerra e na guerra. Por isso tive numerosas e graves razões para me determinar a escrever sobre o assunto. Via no universo cristão uma leviandade com relação a guerra que teria deixado envergonhadas as próprias nações bárbaras. Por causas fúteis ou mesmo sem motivo se corria às armas e, quando já com elas às mãos, não se observava mais respeito algum para com o direito divino nem para com o direito humano, como se, pela força de um edito, o furor tivesse sido desencadeado sobre todos os crimes7. De toda sorte, embora tenhamos destacado esses estudiosos, reconhecidamente como os maiores precursores desta disciplina, não podemos falar que há um marco preciso de quando começou o Direito Internacional, que é fruto de inúmeros fatores nos contextos interno e externo de um Estado e da sociedade internacional. Podemos, sim, afirmar ser este ramo do direito fruto do avanço das transações comerciais no sistema feudal (Idade Média) e da crescente necessidade de os Estados se relacionarem entre si. O Tratado de Westfália, assinado em 1648, envolvendo vários países europeus, delimitou muitas das fronteiras entre os Estados, fortaleceu a ideia de soberania, consolidou a necessidade de paz duradoura entre as potências e, por tudo isso, é considerado, por muitos estudiosos, o marco inicial do Direito Internacional moderno. Essa posição é amplamente adotada pela doutrina internacionalista e cobrada em concursos públicos, tais como o de ingresso para o Instituto Rio Branco. O Congresso de Viena, de 1815, realizado para redesenhar a Europa pós- Napoleão, e o Tratado de Versalhes, de 1919, assinado para marcar o fim da Primeira Grande Guerra, consolidaram os princípios presentes no Tratado de Westfália e muito contribuíram para o fortalecimento do caráter jurídico do Direito Internacional. São dois marcos de grande valia para o desenvolvimento dos estudos do DIP. Atualmente, não se questiona mais a força do DIP ou se este prejudica, interfere ou diminui a soberania dos Estados, mas a sua importância e necessidade para melhor organizar a sociedade internacional. O DIP, na visão da doutrina dominante, é um sistema jurídico autônomo, independente, do Direito Interno de qualquer Estado e o seu caráter jurídico é de natureza voluntária e contratual, conforme se verá nos tópicos seguintes. CARÁTER JURÍDICO DO DIP Principais precursores do DIP Francisco de Vitória - Espanha (1486-1546) Francisco Suárez - Espanha (1548-1617) Alberico Gentili - Itália (1552-1608) Hugo Grotius - Holanda (1585-1645) Principais marcos legais do DIP Tratado de Westfália (1648) - marcou o fim da Guerra dos Trinta Anos. Congresso de Viena (1815) - redesignou as fronteiras europeias após a queda do Império de Napoleão Bonaparte. Tratado de Versalhes (1919) - selou a paz entre os países beligerantes e pôs fim à Primeira Guerra Mundial. 1.1. FUNDAMENTO DE VALIDADE DA NORMA JURÍDICA INTERNACIONAL Ingo Wolfgang Sarlet afirma que a constituição (e suas normas) situa-se num contexto mais amplo, estando em contato com outras fontes de produção do direito, portanto, com outros sistemas normativos. Assim, embora a Constituição seja a fonte primária e referencial do direito na órbita interna dos Estados, a própria Constituição não representa uma ordem hermética e necessita dialogar (direta ou indiretamente) com outras ordens jurídicas. Nesse contexto, é comum que os Estados firmem compromissos internacionais e estejam, em maior ou menor medida, integrados ao sistema jurídico internacional, seja no plano universal (sistema da ONU), seja no plano regional, como é o caso da Organização dos Estados Americanos (OEA), do Mercosul ou da União Europeia, apenas para referir alguns exemplos. Da mesma forma, são relativamente frequentes as hipóteses nas quais se trata de aplicar direito estrangeiro a situações fáticas ocorridas em outro país8. Na perspectiva constitucional e internacional, a norma jurídica evoluiu muito do século XVI, início do estudo do Direito Internacional como ciência, para os nossos tempos. Nesse interregno, o agrupamento de regras e princípios jurídicos que tem por objetivo disciplinar as atividades entre Estados passou a ser chamado de Direito Internacional Público (DIP). Desde a Escola Espanhola se discute qual é o fundamento de validade da norma jurídica internacional. Esse debate procura esclarecer a origem da obrigatoriedade do DIP, pois se trata de seu alicerce. Saber qual o fundamento do Direito Internacional Público significa desvendar de onde vem a sua legitimidade e sua obrigatoriedade, ou os motivos que justificam e dão causa a essa legitimidade e obrigatoriedade. Significa perquirir de onde (de quais fatos ou valores) emana a imposição de respeito de suas normas e princípios. O que se busca saber aqui não são os motivos de fato, filosóficos, políticos, sociais, econômicos, históricos ou religiosos de sua observância, mas, sim, as razões jurídicas capazes de explicar o porquê da aceitação e da obrigatoriedade do Direito Internacional por parte de toda a sociedade internacional9. De todas as teses defendidas, inúmeras foram sepultadas com o tempo, mas, das que vingaram, para um melhor entendimento, podemos agrupá-las em duas correntes: VOLUNTARISTA e OBJETIVISTA. Os Voluntaristas fundamentam o DIP na livre e desimpedida manifestação de vontade do Estado, no exercício pleno de sua soberania. Portanto, qualquer Estado, desde que livre e soberano, somente se submete à ordem jurídica internacional quando assim desejar. Não é permitido, nesse caso, obrigar um país, p.ex.,extraditando. 1. Questão de Ordem na Extradição n. 1.085: “A decisão de deferimento da extradição não vincula o Presidente da República, nos termos dos votos proferidos pelos Senhores Ministros Cármen Lúcia, Joaquim Barbosa, Carlos Britto, Marco Aurélio e Eros Grau”. Do voto do Min. Eros Grau extrai-se que “O conceito de ato vinculado que o relator tomou como premissa [...] é, no entanto, excessivamente rigoroso. [...] o conceito que se adotou de ato vinculado, excessivamente rigoroso, exclui qualquer possibilidade de interpretação/aplicação, pelo Poder Executivo, da noção de fundado temor de perseguição”. 2. A prova emprestada utilizada sem o devido contraditório, encartada nos acórdãos que deram origem à condenação do extraditando na Itália, no afã de agravar a sua situação jurídica, é vedada pelo art. 5º, LV e LVI, da Constituição, na medida em que, além de estar a matéria abrangida pela preclusão, isto importaria verdadeira utilização de prova emprestada sem a observância do Contraditório, traduzindo-se em prova ilícita. 3. O Tratado de Extradição entre a República Federativa do Brasil e a República Italiana, no seu art. III, 1, f, permite a não entrega do cidadão da parte requerente quando “a parte requerida tiver razões ponderáveis para supor que a pessoa reclamada será submetida a atos de perseguição”. 4. O art. 560 do CPC, aplicável subsidiariamente ao rito da Reclamação, dispõe que “Qualquer questão preliminar suscitada no julgamento será decidida antes do mérito, deste não se conhecendo se incompatível com a decisão daquela”. 5. Deveras, antes de deliberar sobre a existência de poderes discricionários do Presidente da República em matéria de extradição, ou mesmo se essa autoridade se manteve nos lindes da decisão proferida pelo Colegiado anteriormente, é necessário definir se o ato do Chefe de Estado é sindicável pelo Judiciário, em abstrato. 6. O art. 1º da Constituição assenta como um dos Fundamentos do Estado Brasileiro a sua soberania - que significa o poder político supremo dentro do território, e, no plano internacional, no tocante às relações da República Federativa do Brasil com outros Estados Soberanos, nos termos do art. 4º, I, da Carta Magna. 7. A Soberania Nacional no plano transnacional funda-se no princípio da independência nacional, efetivada pelo Presidente da República, consoante suas atribuições previstas no art. 84, VII e VIII, da Lei Maior. 8. A soberania, dicotomizada em interna e externa, tem na primeira a exteriorização da vontade popular (art. 14 da CRFB) através dos representantes do povo no parlamento e no governo; na segunda, a sua expressão no plano internacional, por meio do Presidente da República. 9. No campo da soberania, relativamente à extradição, é assente que o ato de entrega do extraditando é exclusivo, da competência indeclinável do Presidente da República, conforme consagrado na Constituição, nas Leis, nos Tratados e na própria decisão do Egrégio Supremo Tribunal Federal na Extradição n. 1.085. 10. O descumprimento do Tratado, em tese, gera uma lide entre Estados soberanos, cuja resolução não compete ao Supremo Tribunal Federal, que não exerce soberania internacional, máxime para impor a vontade da República Italiana ao Chefe de Estado brasileiro, cogitando-se de mediação da Corte Internacional de Haia, nos termos do art. 92 da Carta das Nações Unidas de 1945. 11. O sistema “belga” ou “da contenciosidade limitada”, adotado pelo Brasil, investe o Supremo Tribunal Federal na categoria de órgão juridicamente existente apenas no âmbito do direito interno, devendo, portanto, adstringir-se a examinar a legalidade da extradição; é dizer, seus aspectos formais, nos termos do art. 83 da Lei 6.815/80 (“Nenhuma extradição será concedida sem prévio pronunciamento do Plenário do Supremo Tribunal Federal sobre sua legalidade e procedência, não cabendo recurso da decisão”). 12. O Presidente da República, no sistema vigente, resta vinculado à decisão do Supremo Tribunal Federal apenas quando reconhecida alguma irregularidade no processo extradicional, de modo a impedir a remessa do extraditando ao arrepio do ordenamento jurídico, nunca, contudo, para determinar semelhante remessa, porquanto, o Poder Judiciário deve ser o último guardião dos direitos fundamentais de um indivíduo, seja ele nacional ou estrangeiro, mas não dos interesses políticos de Estados alienígenas, os quais devem entabular entendimentos com o Chefe de Estado, vedada a pretensão de impor sua vontade através dos Tribunais internos. 13. In casu, ao julgar a extradição no sentido de ser possível a entrega do cidadão estrangeiro, por inexistirem óbices, o Pretório Excelso exaure a sua função, por isso que functus officio est - cumpre e acaba a sua função jurisdicional -, conforme entendeu esta Corte, por unanimidade, na Extradição n. 1.114, assentando, verbis: “O Supremo Tribunal limita-se a analisar a legalidade e a procedência do pedido de extradição (Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal, art. 207; Constituição da República, art. 102, inc. I, alínea g; e Lei n. 6.815/80, art. 83): indeferido o pedido, deixa-se de constituir o título jurídico sem o qual o Presidente da República não pode efetivar a extradição; se deferida, a entrega do súdito ao Estado requerente fica a critério discricionário do Presidente da República” (Ext 1114, Relator(a): Min. Cármen Lúcia, Tribunal Pleno, julgado em 12-6-2008). 14. A anulação, pelo Supremo Tribunal Federal, da decisão do Ministro da Justiça que concedeu refúgio político ao extraditando, não o autoriza, a posteriori, a substituir-se ao Chefe de Estado e determinar a remessa do extraditando às autoridades italianas. O descumprimento do Tratado de Extradição, ad argumentandum tantum, gera efeitos apenas no plano internacional, e não no plano interno, motivo pelo qual não pode o Judiciário compelir o Chefe de Estado a entregar o súdito estrangeiro. 15. O princípio da separação dos Poderes (art. 2º CRFB), indica não competir ao Supremo Tribunal Federal rever o mérito de decisão do Presidente da República, enquanto no exercício da soberania do país, tendo em vista que o texto constitucional conferiu ao chefe supremo da Nação a função de representação externa do país. 16. A decisão presidencial que negou a extradição, com efeito, é autêntico ato de soberania, definida por Marie-Joëlle Redor como o “poder que possui o Estado para impor sua vontade aos indivíduos que vivem sobre seu território” (De L’Etat Legal a L’Etat de Droit. L’Evolution des Conceptions de la Doctrine Publiciste Française. 1879-1914. Presses Universitaires d’Aix-Marseille, p. 61). 17. O ato de extraditar consiste em “ato de vontade soberana de um Estado que entrega à justiça repressiva de outro Estado um indivíduo, por este perseguido e reclamado, como acusado ou já condenado por determinado fato sujeito à aplicação da lei penal” (RODRIGUES, Manuel Coelho. A Extradição no Direito Brasileiro e na Legislação Comparada. Tomo I. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1930. p. 3). 18. A extradição não é ato de nenhum Poder do Estado, mas da República Federativa do Brasil, pessoa jurídica de direito público externo, representada na pessoa de seu Chefe de Estado, o Presidente da República. A Reclamação por descumprimento de decisão ou por usurpação de poder, no caso de extradição, deve considerar que a Constituição de 1988 estabelece que a soberania deve ser exercida, em âmbito interno, pelos três Poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário) e, no plano internacional, pelo Chefe de Estado, por isso que é insindicável o poder exercido pelo Presidente da República e, consequentemente, incabível a Reclamação, porquanto juridicamente impossível submeter o ato presidencial à apreciação do Pretório Excelso. 19. A impossibilidade de vincular o Presidente da República à decisão do Supremo Tribunal Federal se evidencia pelo fato de que inexiste um conceito rígido e absoluto de crime político. Na percuciente observação de Celso de Albuquerque Mello, “A conceituação de um crime como político é [...]um ato político em si mesmo, com toda a relatividade da política” (Extradição. Algumas observações. In: O Direito Internacional Contemporâneo. Org.: Carmen Tiburcio; Luís Roberto Barroso. Rio de Janeiro: Renovar, 2006. p. 222- 223). 20. Compete ao Presidente da República, dentro da liberdade interpretativa que decorre de suas atribuições de Chefe de Estado, para caracterizar a natureza dos delitos, apreciar o contexto político atual e as possíveis perseguições contra o extraditando relativas ao presente, na forma do permitido pelo texto do Tratado firmado (art. III, 1, f); por isso que, ao decidir sobre a extradição de um estrangeiro, o Presidente não age como Chefe do Poder Executivo Federal (art. 76 da CRFB), mas como representante da República Federativa do Brasil. 21. O juízo referente ao pedido extradicional é conferido ao “Presidente da República, com apoio em juízo discricionário, de caráter eminentemente político, fundado em razões de oportunidade, de conveniência e/ou de utilidade [...] na condição de Chefe de Estado” (Extradição n. 855, Ministro Relator Celso de Mello, DJ de 1º.7.2006). 22. O Chefe de Estado é a figura constitucionalmente capacitada para interpretar a cláusula do Tratado de Extradição, por lhe caber, de acordo com o art. 84, VII, da Carta Magna, “manter relações com Estados estrangeiros”. 23. O Judiciário não foi projetado pela Carta Constitucional para adotar decisões políticas na esfera internacional, competindo esse mister ao Presidente da República, eleito democraticamente e com legitimidade para defender os interesses do Estado no exterior; aplicável, in casu, a noção de capacidades institucionais, cunhada por Cass Sunstein e Adrian Vermeule (Interpretation and Institutions. U. Chicago Law & Economics, Olin Working Paper, n. 156, 2002; U. Chicago Public Law Research Paper n. 28). 24. É assente na jurisprudência da Corte que “a efetivação, pelo governo, da entrega do extraditando, autorizada pelo Supremo Tribunal Federal, depende do Direito Internacional Convencional” (Extradição n. 272. Relator(a): Min. Victor Nunes, Tribunal Pleno, julgado em 7-6-1967). 25. O Supremo Tribunal Federal, na Extradição n. 1.085, consagrou que o ato de extradição é ato vinculado aos termos do Tratado, sendo que a exegese da vinculação deve ser compreendida de acordo com a teoria dos graus de vinculação à juridicidade. 26. O pós-positivismo jurídico, conforme argutamente aponta Gustavo Binenbojm, “não mais permite falar, tecnicamente, numa autêntica dicotomia entre atos vinculados e discricionários, mas, isto sim, em diferentes graus de vinculação dos atos administrativos à juridicidade” (Uma Teoria do Direito Administrativo. 2. ed. Rio de Janeiro: Renovar, 2008. p. 208). 27. O ato político-administrativo de extradição é vinculado a conceitos jurídicos indeterminados, em especial, in casu, a cláusula do art. III, 1, f, do Tratado, permissiva da não entrega do extraditando. 28. A Cooperação Internacional em matéria Penal é limitada pela regra do non- refoulement (art. 33 da Convenção de Genebra de 1951), segundo a qual é vedada a entrega do solicitante de refúgio a um Estado quando houver ameaça de lesão aos direitos fundamentais do indivíduo. 29. O provimento jurisdicional que pretende a República Italiana é vedado pela Constituição, seja porque seu art. 4º, I e V, estabelece que a República Federativa do Brasil rege-se, nas suas relações internacionais, pelos princípios da independência nacional e da igualdade entre os Estados, seja pelo fato de, no supracitado art. 84, VII, conferir apenas ao Presidente da República a função de manter relações com Estados estrangeiros. 30. Reclamação não conhecida, mantendo-se a decisão da Presidência da República. Petição Avulsa provida para que se proceda à imediata liberação do extraditando, se por al [sic] não estiver preso. Solução Pacífica de Controvérsias Internacionais O processo judicial, infelizmente, ou melhor, naturalmente, não atende mais a todos os anseios dos seus suplicantes. De sua origem, passando pelo apogeu (no Estado de Direito), até o século XXI, houve uma grande massificação, que passou aos seus súditos uma sensação de solução generalizada dos conflitos. As pretensões privadas ficaram cada vez mais complexas e difíceis de serem solucionadas em locais que recebiam um grande volume de causas, com uma variedade igualmente distinta. Nesse contexto, aqueles que desejavam uma solução mais particularizada do seu conflito procuraram outros caminhos para solucioná-lo. Assim, com o passar dos anos, foram desenvolvidas ferramentas para soluções mais rápidas e individualizadas das pretensões das partes, hoje conhecidas como ADR (Alternative Dispute Resolution), ou, em uma tradução direta, Soluções Alternativas de Conflito. As técnicas alternativas de solução de conflitos são utilizadas em grande escala nos mercados estadunidense e asiático. Na Europa, houve um crescimento muito acentuado nas últimas décadas, principalmente depois do desenvolvimento de renomadas Cortes Internacionais de Arbitragem. Na América Latina, ainda é pouco explorado, enfrenta grande preconceito e desconfiança, apesar da “exigência” do cenário internacional. “Mesmo que por questões culturais ainda se mostre reservada a sociedade com relação a este instituto, o Brasil hoje já ocupa a liderança na utilização da arbitragem entre os países latino-americanos, situando-se em quarto lugar no ranking mundial, segundo dados da Câmara de Comércio Internacional. No âmbito das relações internas, embora verificado o crescimento vertiginoso no número de arbitragens domésticas realizadas em alguma das mais respeitadas Câmaras de São Paulo, ainda há muito a caminhar. Por cultura social e na ciência deste profícuo instituto”59. No que pese esse avanço da arbitragem e das outras soluções alternativas de conflito no Brasil nos últimos anos, destacadamente em São Paulo, que concentra grande parte das arbitragens internacionais, a resistência à sua implantação e ao seu desenvolvimento também encontra eco até entre juristas. Alegando que a aplicação da lex mercatoria traz insegurança jurídica, José Alexandre Tavares Guerreiro, em Fundamentos da Arbitragem no Comércio Internacional (Saraiva, 1993, p. 96), afirma que, considerando que não há um sistema legal internacional, e que também não existem normas uniformes aceitas universalmente, percebe-se que os árbitros que recebem poderes para julgar de conformidade com as regras de comércio internacional acabam tendo a possibilidade de julgar de acordo com o que consideram correto e justo, colocando-os em posição semelhante à dos amiable compositeurs. Em última análise, as partes, ao estabelecer que os árbitros julguem segundo as regras do comércio internacional, estão afastando a incidência de outra lei nacional (ou seja, estão desnacionalizando o contrato), o que permite aos julgadores decidir com a aplicação da lei que julgam adequada, ou então seguir pura e simplesmente a praxe internacional, decidindo segundo a experiência do comércio internacional e seus respectivos princípios gerais, o que acaba por permitir - diante da nebulosidade das regras a serem aplicadas - o julgamento por equidade, com a sua consequente incerteza e imprevisibilidade de resultados60. A posição de que as ADR trazem insegurança jurídica cada vez menos é utilizada, pois se percebe a sua grande importância e praticidade para a sociedade. A legislação brasileira muito evoluiu nas duas últimas décadas, o CPC/2015 valoriza as soluções alternativas de conflito e, pelos projetos de lei presentes no Congresso Nacional, a tendência será a sua consolidação na praxe brasileira. Da mesma forma que as ADR se desenvolveram para resolver os problemas entre os particulares, os litígios entre os Estados precisavam ser solucionados de forma pacífica, que evitasse a guerra, tão comum em toda a história. Necessário então se fazia desenvolver soluções pacíficas de controvérsias internacionais. Nesse sentido, um marco para o Direito Internacional foi o Tratado deJay (ou Tratado de Londres), de 1794, assinado entre Estados Unidos e Reino Unido, menos de 20 anos após a independência americana. Esse acordo internacional de amizade, comércio e navegação, celebrado entre os dois países, tinha por objetivo criar comissões formadas por estadunidenses e ingleses, em semelhante quantidade para expressar a igualdade entre as partes, para solucionar em definitivo e de modo pacífico questões que se mostrassem relevantes, mas que não houvessem sido concluídas nas negociações diretas entre os governos. Na Guerra da Secessão (ou Guerra Civil Americana), ocorrida entre os anos de 1861 e 1865, os Estados Unidos acusaram o Reino Unido de terem quebrado a sua neutralidade obrigatória e interferido no conflito, principalmente, quando construíram cinco navios de guerras para os sulistas, que haviam declarado a Confederação. Em 1871, as duas partes assinaram o Tratado de Washington com o objetivo de submeter a questão a uma Arbitragem Internacional, que ocorreria em Genebra (Suíça). Esse caso ficou mundialmente conhecido como Caso Alabama ou Arbitragem das Reivindicações do Alabama (1872). Estados Unidos e Inglaterra estabeleceram as regras que deveriam ser aplicadas pelo Tribunal Arbitral que julgaria o caso e que seria composto por cinco membros, sendo que cada país envolvido indicaria um árbitro (Alexander Cockburn, pelo Reino Unido e Charles Francis Adams, pelos EUA) e, os três demais, seriam indicados pelo Brasil (Marcos Antônio de Araújo), Suíça (Jakob Stampfli) e Itália (Frederico Sclopis). O laudo arbitral, que foi devidamente cumprido, condenou o Reino Unido a pagar uma indenização aos Estados Unidos, e o Caso Alabama tornou-se um exemplo de sucesso nas soluções pacíficas de controvérsias internacionais. Nos últimos anos daquele século para diante, a arbitragem internacional muito se desenvolveu por causa da repercussão do Caso Alabama. Os Estados passaram a estabelecer nos Tratados Internacionais cláusulas para resolver suas desavenças por meio da arbitragem internacional ou algum outro meio pacífico de solução de conflito, e surgiu, ainda, com bastante força na diplomacia mundial, a ideia de se criar um Tribunal Permanente de Arbitragem. Impulsionado pelo Caso Alabama, em 1899 houve a Primeira Conferência de Paz de Haia ou Primeira Convenção para a Solução Pacífica dos Conflitos (Convention for the Pacific Settlement of International Disputes). Países europeus (p. ex: Prússia, Áustria, Reino Unido, França, Rússia, Hungria, Itália, Holanda, Luxemburgo etc.), alguns países asiáticos (China, Japão, Persia), Estados Unidos e o México reuniram-se em Haia para discutir as possibilidades de resoluções de conflitos não bélicos, tais como a arbitragem, a mediação e os bons ofícios61. Esses países aderiram à Convenção de Haia em 4 de setembro de 1900. O Brasil, conforme documento oficial e o sítio eletrônico da instituição, no que pese alguns documentos na internet dizerem o contrário, não participou desta Conferência, mas aderiu a ela em 15 de junho de 1907. Na I Conferência de Paz de Haia, foi criada a Corte Permanente de Arbitragem (CPA), conforme o documento final da conferência determinou, cujo preâmbulo já trazia que as nações envolvidas estavam convencidas de que a instituição permanente de um tribunal de arbitragem, acessível a todos, no meio dos Poderes independentes, contribuiria efetivamente para a solução alternativa de conflitos internacionais: Article 20 With the object of facilitating an immediate recourse to arbitration for international differences, which it has not been possible to settle by diplomacy, the Signatory Powers undertake to organize a Permanent Court of Arbitration, accessible at all times and operating, unless otherwise stipulated by the parties, in accordance with the Rules of Procedure inserted in the present Convention62. Article 21 The Permanent Court shall be competent for all arbitration cases, unless the parties agree to institute a special Tribunal63. Article 22 An International Bureau, established at The Hague, serves as record office for the Court. This Bureau is the channel for communications relative to the meetings of the Court. It has the custody of the archives and conducts all the administrative business. The Signatory Powers undertake to communicate to the International Bureau at The Hague a duly certified copy of any conditions of arbitration arrived at between them, and of any award concerning them delivered by special Tribunals. They undertake also to communicate to the Bureau the Laws, Regulations, and documents eventually showing the execution of the Awards given by the Court64. Esse documento, conforme texto original, foi feito em Haia, em 29 de julho de 1899, num único exemplar, foi registrado nos arquivos do Governo dos Países Baixos, e cópia dele, devidamente autenticada, foi enviada através da via diplomática, às Potências Contratantes. Entre 15 de junho a 18 de outubro de 1907, convocados pelo Czar Nicolau II, da Rússia, e a Rainha Wilhelmina, da Holanda, houve a Segunda Convenção de Haia ou Convenção de Haia para a Resolução de Conflitos Internacionais (Convention for the Pacific Settlement of International Disputes). Nesta, além dos países presentes no encontro anterior, participaram vários outros países do continente americano, como Brasil, Argentina, Venezuela, Uruguai, Cuba, República Dominicana e Haiti. A II Convenção de Paz de Haia estabeleceu regras mais amplas e detalhadas sobre a resolução pacífica dos conflitos internacionais do que as que foram debatidas na anterior. O Brasil foi representado pelo jurista Rui Barbosa, que foi indicado pelo Ministro das Relações Exteriores, Barão do Rio Branco, do governo Afonso Pena. Sua atuação ganhou grande destaque na conferência, e, para muitos, o discurso inicial de Rui Barbosa foi o responsável para que as potências respeitassem o Princípio da Igualdade entre os países, independentemente de sua força econômica ou extensão territorial. Essas iniciativas não impediram a Primeira Guerra Mundial (1914-1919). Após este conflito bélico, novamente, as nações se voltaram para a tentativa de criar uma corte permanente que pudesse solucionar os litígios entre os Estados de forma pacífica. Criou-se então a Liga das Nações (ou Sociedade das Nações - SDN), e, compondo esta, uma Corte Permanente de Justiça Internacional (ou Tribunal Permanente Internacional de Justiça). Esta seria uma corte arbitral competente para decidir sobre qualquer disputa internacional que lhe fosse submetida pelos Estados em conflito e para proferir pareceres em qualquer litígio ou questões encaminhadas pelo Conselho ou pela Assembleia da própria SDN. A Corte Permanente Internacional de Justiça, em 1924, no caso Mavrommatis Palestine Concessions, definiu controvérsias internacionais como o desacordo sobre uma questão de direito ou de fato que apresenta oposição de interesses ou interpretações legais entre Estados ou organizações internacionais e soluções pacíficas como todas as alternativas para se resolver um conflito de formas não bélicas. Essas definições passaram a ser utilizadas de forma geral, sendo a base para qualquer conflito. A Corte Permanente Internacional de Justiça funcionou de 1922 até 1940 e encerrou suas atividades com a Segunda Guerra Mundial. Em 1946, esse tribunal foi substituído pela Corte Internacional de Justiça (Tribunal Internacional de Justiça), órgão jurisdicional da ONU (Organização das Nações Unidas), que já previa a criação desta na Carta de São Francisco. A ONU trata dos mecanismos de soluções de conflitos no Capítulo VI da sua Carta Constitutiva, parte essa denominada de Soluções Pacíficas de Controvérsias. São 6 artigos que detalham como os conflitos podem ser mediados e resolvidos pacificamente e, embora apresente uma relação importante (negociação, inquérito, mediação, conciliação, arbitragem, solução judicial, recurso a entidades ou acordos regionais), não é exaustiva, pois as partes envolvidas podem se socorrer de algum outro meio não relacionado.Destacamos: Artigo 33 1. As partes em uma controvérsia, que possa vir a constituir uma ameaça à paz e à segurança internacionais, procurarão, antes de tudo, chegar a uma solução por negociação, inquérito, mediação, conciliação, arbitragem, solução judicial, recurso a entidades ou acordos regionais, ou a qualquer outro meio pacífico à sua escolha. 2. O Conselho de Segurança convidará, quando julgar necessário, as referidas partes a resolver, por tais meios, suas controvérsias. Artigo 34 O Conselho de Segurança poderá investigar sobre qualquer controvérsia ou situação suscetível de provocar atritos entre as Nações ou dar origem a uma controvérsia, a fim de determinar se a continuação de tal controvérsia ou situação pode constituir ameaça à manutenção da paz e da segurança internacionais. Artigo 35 1. Qualquer Membro das Nações Unidas poderá solicitar a atenção do Conselho de Segurança ou da Assembleia Geral para qualquer controvérsia, ou qualquer situação, da natureza das que se acham previstas no Artigo 34. 2. Um Estado que não for Membro das Nações Unidas poderá solicitar a atenção do Conselho de Segurança ou da Assembleia Geral para qualquer controvérsia em que seja parte, uma vez que aceite, previamente, em relação a essa controvérsia, as obrigações de solução pacífica previstas na presente Carta. 3. Os atos da Assembleia Geral, a respeito dos assuntos submetidos à sua atenção, de acordo com este Artigo, serão sujeitos aos dispositivos dos Artigos 11 e 12. Artigo 36 1. O conselho de Segurança poderá, em qualquer fase de uma controvérsia da natureza a que se refere o Artigo 33, ou de uma situação de natureza semelhante, recomendar procedimentos ou métodos de solução apropriados. 2. O Conselho de Segurança deverá tomar em consideração quaisquer procedimentos para a solução de uma controvérsia que já tenham sido adotados pelas partes. 3. Ao fazer recomendações, de acordo com este Artigo, o Conselho de Segurança deverá tomar em consideração que as controvérsias de caráter jurídico devem, em regra geral, ser submetidas pelas partes à Corte Internacional de Justiça, de acordo com os dispositivos do Estatuto da Corte. Artigo 37 1. No caso em que as partes em controvérsia da natureza a que se refere o Artigo 33 não conseguirem resolvê-la pelos meios indicados no mesmo Artigo, deverão submetê-la ao Conselho de Segurança. 2. O Conselho de Segurança, caso julgue que a continuação dessa controvérsia poderá realmente constituir uma ameaça à manutenção da paz e da segurança internacionais, decidirá sobre a conveniência de agir de acordo com o Artigo 36 ou recomendar as condições que lhe parecerem apropriadas à sua solução. Artigo 38 Em prejuízo dos dispositivos dos Artigos 33 a 37, o Conselho de Segurança poderá, se todas as partes em uma controvérsia assim o solicitarem, fazer recomendações às partes, tendo em vista uma solução pacífica da controvérsia. A ONU deixa muito claro que os conflitos internacionais devem ser resolvidos, prioritariamente, por meios pacíficos, pois, a guerra, seria a última hipótese, que deve ser evitada a todo custo. Nos artigos transcritos da ONU verifica-se ainda uma grande relevância do Conselho de Segurança, pois encontra ativo em todas as possibilidades de soluções alternativas de conflitos e, quando a solução requer debate judicial, embora ainda esteja falando de solução pacífica, ela deve ser encaminhada para a Corte Internacional de Justiça (CIJ). Nesse contexto, no segundo pós-guerra, as soluções pacíficas de conflitos internacionais muito se desenvolveram e são presentes, hoje, em quase todos os Tratados e nas organizações internacionais. Tornou-se normal as divergências entre Estados serem resolvidas por mecanismos pacíficos, que utilizam essas ferramentas para solucionar suas diferenças. [...] o princípio da solução pacífica de controvérsias tem sido reafirmado em resoluções da Assembleia Geral, inclusive a Res. n. 2.627 (XXV), de 24 de outubro de 1970, a Res. n. 2.734 (XXV), de 16 de dezembro de 1970 e a Res. n. 40/9, de 8 de novembro de 1985. Ademais, o tema é tratado na “Declaration on Principles of International Law concerning Friendly Relations and Cooperation among States in accordance with the Charter of the United Nations” (“Declaração de Relações Amistosas”, anexa à Res. n. 2.625 (XXV), de 24 de outubro de 1970), na “Manila Declaration on the Peaceful Settlement of International Disputes” (“Declaração de Manila”, anexa à Res. n. 37/10, de 15 de novembro de 1982), na “Declaration on the Prevention and Removal of Disputes and Situations Which May Threaten International Peace and Security and on the Role of the United Nations in This Field” (“Declaração de 1988”, anexa à Res. n. 43/51, de 5 de dezembro de 1988), e na “Declaration on Fact-finding by the United Nations in the Field of the Maintenance of International Peace and Security” (“Declaração sobre Poderes Investigatórios”, anexa à Res. n. 46/59, de 9 de dezembro de 1991)65. A Declaração de Manila sobre a resolução pacífica de conflitos, aprovada pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 5 de novembro de 1982, determinou, no ponto I, parágrafo 3º que: “Os conflitos internacionais devem ser resolvidos na base da igualdade soberana dos Estados e de acordo com o princípio da livre escolha dos meios, de acordo com as obrigações resultantes da Carta das Nações Unidas e dos princípios da Justiça e do Direito Internacional”. Este foi um importante documento que comprova, como os outros mencionados, a grande importância que as soluções pacíficas de conflito ganharam com o passar dos anos. 4.1. MEIOS DIPLOMÁTICOS O art. 33 da Carta da ONU é considerado pela doutrina e pela jurisprudência do Direito Internacional, no que pese não ser taxativo, como a referência para relacionar os meios diplomáticos de solução de conflitos envolvendo interesses diversos entre Estados. As alternativas presentes neste artigo, de acordo com o seu grau de complexidade, são: 1) negociação; 2) inquérito; 3) mediação; 4) conciliação; 5) arbitragem; 6) solução judicial. Esses caminhos, que não são exaustivos, são meios amigáveis de solução de conflitos que estimulam a participação mais efetiva das partes, criam, inevitavelmente, um sentimento de responsabilidade, cooperação e cumprimento do acordo, e se adaptam melhor ao conflito e as suas expectativas de solução, pois cada parte discute a decisão. 4.1.1. Sistema de consultas ou bons ofícios Na negociação, as partes resolvem seus problemas por meio de técnicas profissionais, sem a intervenção de uma terceira pessoa. Somente os representantes dos Estados envolvidos participam dessa alternativa. Os envolvidos decidem qual a melhor solução para a divergência, e o efetivo cumprimento das decisões não é obrigatório, cabendo às partes cumpri-lo ou não, mais por um vínculo moral. O êxito da negociação dependerá da vontade dos envolvidos de respeitar o acordo e torná-lo efetivo. A negociação pode ser realizada de duas formas: sistema de consultas (direta) ou bons ofícios (intermediada). A negociação direta significa o entendimento sem intermediário algum das partes em litígio. É o mais simples meio diplomático de solução de controvérsias. Segundo Francisco Resek, nada mais temos no chamado sistema de consultas que a previsão - normalmente expressa em tratado - de encontros periódicos em que os Estados trarão à mesa suas reclamações mútuas, acumuladas durante o período, e buscarão solucionar, à base desse diálogo direto e programado, suas pendências. O sistema consultivo é de consagrado uso no quadro pan-americano, embora também experimentado alhures. França, Grã-Bretanha, Estados Unidos e Japão concluíram em Washington, em 1921, um tratado em que programaram consultas periódicas para solução de suas desavenças e harmonização de pontos de vista no domínio da política colonial das quatro potências no Pacífico66. Os bons ofícios ocorrem quando uma terceira parte, Estado ou Organização Internacional oferece sua colaboração para resolver uma lide internacional. Essaterceira parte limita-se a aproximar as partes em litígio e não emite opinião, por isso seu apoio é instrumental. Este terceiro, denominado de prestador de bons ofícios, normalmente oferece a sua ajuda, os seus préstimos, que podem ou não serem aceitos pelas partes. A história diplomática do Brasil registra uma série de casos de prestação de bons ofícios pelo Império, e mais tarde pelo governo republicano; como também de litígios em que o Brasil foi parte e recolheu o benefício da ação amistosa de terceiro Estado. Assim, Portugal foi, em 1864, o prestador de bons ofícios para que o Brasil e a Grã-Bretanha, rompidos desde o incidente Christie, restabelecessem seu relacionamento diplomático. Outro exemplo foi a ação do governo francês quando, em 1968, aproximou os Estados Unidos e o Vietnã - então em plena guerra no sudeste asiático -, oferecendo- lhes como campo neutro a cidade de Paris, onde negociaram até a conclusão, em 1973, dos acordos que conduziram ao fim da guerra. A Faculdade de Direito de Harvard, no conhecido Método Harvard, divulgado no livro Getting a yes (Recebendo um sim) de Roger Fisher, William Ury e Bruce Patton, defende que são necessários quatro elementos para o sucesso de uma negociação: 1) a separação das pessoas do problema; 2) a concentração nos interesses e não nas posições; 3) a criação de uma variedade de possibilidades antes da decisão padrão; 4) o objetivo que sustenta o resultado. Seguindo tais preceitos, a possibilidade de êxito neste procedimento é grande e pode ser estendida para os Estados. Em suma, a negociação exige muito profissionalismo, desprendimento e boa-fé. É o método de solução pacífica de conflito mais simples, mas, nem por isso, deve ser desprezado. Pelo contrário, havendo bons negociadores de ambos os lados, os ganhos podem ser enormes por sua rapidez e desburocratização. 4.1.2. Inquérito A sistemática deste modo de solução de conflito pode ser similar à mediação ou a arbitragem, pois seus efeitos, em geral, são não vinculativos, salvo se as partes assinarem um pacto de vinculação (Schiedsgutachten). A decisão tem uma natureza técnica e não jurídica emitida por um experto por meio de um processo de comprovação puramente técnico. A título de exemplo, o objetivo aqui é saber a qualidade de um material utilizado na construção de um hotel ou o rendimento de uma central de energia. O experto também pode assessorar a arbitragem ou o processo judicial, daí muitas vezes não ser citado como ADR. Porém, pode ser independente, quando assim entendido entre as partes, estabelecido na ata da missão documento fundamental para regular a função que o experto deve realizar, fixar o conteúdo da opinião e os honorários. 4.1.3. Mediação e conciliação A mediação e a conciliação entre particulares se desenvolveram bastante nos Estados Unidos no século XX e estavam alicerçadas no princípio cost benefit analysis, ou seja, o estudo do problema pelas partes diminui gastos. Este pensamento é bem refletido na célebre frase de Clive M. Schmitthoff, que assim defendia: “O mal acordo é melhor do que a melhor arbitragem, a pior arbitragem é melhor do que a melhor ação judicial”. A Mediação caracteriza-se pela intermediação de um terceiro, treinado para tal função, com o objetivo de ajudar as partes a chegarem ao consenso. A comunicação entre as partes e o mediador é predominantemente verbal, e este terceiro não emite opinião, não impõe uma solução. O mediador tem controle do processo, mas não do resultado, pois é passivo quanto ao mérito do conflito. Uma das mais importantes mediações de conflitos internacionais ocorreu em 1948, quando a ONU enviou um de seus agentes, Folke Bernadotte, para o Oriente Médio, objetivando solucionar o conflito existente entre Israel e os demais países da região. Infelizmente, o mediador foi morto por um extremista israelense em Jerusalém, que não aceitava a mediação. A ONU, então, solicitou um parecer à Corte Internacional de Justiça questionando se poderia ser indenizada por Israel por esse incidente. A Corte, no denominado Caso Folke Bernadotte, reconheceu a personalidade jurídica da ONU, equiparando-a aos Estados, e afirmou que a indenização era cabível. A Conciliação, por outro lado, apesar de o terceiro também utilizar técnicas de psicologia e de negociação, conforme a mediação, ele recebe as propostas de cada parte e tenta aproximá-las para uma solução amigável. O conciliador é mais ativo quanto à solução do mérito do que o mediador, pois emite sua sugestão, embora não seja obrigatório o seu cumprimento pelas partes. A Mediação e a Conciliação podem ser voluntárias ou contratuais. As voluntárias são pactuadas pelas partes, expressa ou tacitamente, após surgir o conflito. As contratuais encontram-se previstas no instrumento firmado entre os envolvidos, tornando-a obrigatória. A cláusula contratual que prevê essas soluções alternativas para conflito, para sua real eficiência, deve já prever o processo, o prazo máximo e as consequências se não alcançar o êxito. Nos processos de mediação e conciliação, as partes têm total liberdade, dentro dos limites da imparcialidade e justiça. O terceiro escolhido para a intermediação facilitará a transação, buscará interesses comuns, poderá reunir conjunta ou separadamente as partes e formará painéis para a apresentação do caso por cada parte. Alguns autores diferenciam os termos Mediação e Conciliação exclusivamente pela postura do terceiro interveniente, que nesta tem um papel mais ativo do que naquela. Essa é uma distinção técnica, mais utilizada pelos estudiosos deste ramo e bastante salutar para a separação das duas soluções pacíficas. Porém, existem autores que diferenciam os dois termos exclusivamente pela quantidade de terceiros envolvidos, sendo Mediação quando existe somente um e Conciliação quando existem dois ou mais. Na Mediação e Conciliação, chegando a um acordo, as partes assinam a transação ou, mais apropriadamente, o contrato de transação. Cada parte realiza alguma concessão, renunciando a um Direito (transação simples) ou prometendo algo (transação completa) para evitar a provocação de um pleito. Há a liberdade de pacto, alicerçada no Convênio de Roma (art. 3), portanto, sem necessidade de conexão com o Direito aplicável no país do conflito ou onde surgiu a disputa. O contrato de transação, obrigatoriamente, tem que ser escrito, e a renúncia a qualquer direito, expressa. As partes que assinam têm que ser capazes de acordo com o Direito próprio de cada parte e o contrato pode ser impugnado por erro, dolo, violência ou falsidade de documentos. Pode haver demanda apesar da transação por questões processuais ou Exceptio rei per transactionem finitae (Exceção transação final, que faz coisa julgada). No processo judicial pode também haver conciliação. O juiz interrompe o processo e designa um terceiro para fazê-la, que passa a ser obrigatória depois da determinação judicial, embora não haja obrigação quanto ao resultado. Situação de grande repercussão mundial envolvendo Mediação e Arbitragem foi o Caso Beagle. Em 1964, a Argentina decidiu levar para a Corte Internacional de Justiça o problema da limitação das suas fronteiras com o Chile (ilhas Lennox, Picton e Nueva), uma região estratégica para a navegação entre o Pacífico e o Atlântico e muito rica em recursos minerais. Os acordos firmados na Corte foram desrespeitados por ambas as partes. Em 1970, ainda objetivando uma solução pacífica, as partes nomearam a Rainha Elizabeth II como árbitra desse problema. O laudo foi proferido em 1977. O Chile aceitou a decisão, mas a Argentina não aceitou e ainda se organizou militarmente (Operação Soberania) para atacar o seu vizinho. A operação militar foi abortada momentos antes de ocorrer, porque a Argentina aceitou a mediação do conflito pela Santa Sé, por intermédio do Papa João Paulo II, há pouco tempo no trono. Em janeiro de 1979, em Montevidéu, Argentina e Chile assinaram uma ata (Acta de Puerto Montt) aceitando a mediação da Santa Sé. O papa começou a solucionar o conflitopor meio dos bons ofícios e, depois, avançou para a mediação. Em 29 de novembro de 1984, a Argentina aceitou o laudo mediado pelo papa e foi assinado o tratado de paz e amizade na Capela Paulina (Vaticano). 4.1.4. Arbitragem Última e mais importante das Soluções Alternativas de Conflito, a arbitragem internacional ainda encontra resistência e desconfiança em países em desenvolvimento, pois sua aceitação pressupõe a renúncia à imunidade de Jurisdição. Apesar disso, diante da dinâmica comercial e de suas vantagens, cresce a utilização da arbitragem em contratações e tratados internacionais com os países da América Latina e também por pessoas jurídicas públicas, ato reconhecido pelo próprio Superior Tribunal de Justiça no Brasil. O Brasil aprovou a Convenção do Panamá por meio do Decreto Legislativo n. 90, de 1995. O texto reconhece a Convenção Interamericana sobre Arbitragem Comercial Internacional, concluída em 30 de janeiro de 1975, na cidade do Panamá. Essa convenção já determinava que, na falta de acordo entre as Partes, a arbitragem seria efetuada de acordo com as normas de procedimento da Comissão Internacional de Arbitragem Comercial e que as sentenças ou laudos arbitrais não impugnáveis segundo a lei ou as normas processuais aplicáveis teriam força de sentença judicial definitiva. Em 23 de setembro de 1996, foi promulgada a Lei da Arbitragem (Lei n. 9.307/96). Essa lei foi recentemente alterada pela Lei n. 13.129, de 26 de maio de 2015, que ampliou o âmbito de aplicação da arbitragem e dispôs sobre a escolha dos árbitros quando as partes recorrem a órgão arbitral, a interrupção da prescrição pela instituição da arbitragem, a concessão de tutelas cautelares e de urgência nos casos de arbitragem, a carta arbitral e a sentença arbitral, e revoga dispositivos da Lei n. 9.307/96. A Convenção de Nova Iorque entrou no ordenamento jurídico brasileiro por meio do Decreto Legislativo n. 52, de 2002, que aprovou o texto da Convenção sobre o Reconhecimento e a Execução de Sentenças Arbitrais Estrangeiras, concluída em 10 de junho de 1958, na cidade de Nova Iorque, nos Estados Unidos. A lei brasileira não determina o que é uma arbitragem internacional, portanto, deve-se recorrer à legislação internacional. Dentre as definições existentes, as duas mais utilizadas são a da Convenção de Nova Iorque, de 1958, e da Lei-Modelo da Comissão das Nações Unidas para o Desenvolvimento do Comércio Internacional (UNCITRAL) sobre Arbitragem Comercial Internacional, de 1985 (Viena). As duas classificações para determinar se uma arbitragem é internacional assim preceituam: 1) A primeira classificação defende a ideia de partes submetidas a diferente jurisdição. Esta posição é encontrada na Convenção sobre o reconhecimento e a execução de sentenças arbitrais estrangeiras de Nova York, que já foi ratificada por mais de 130 países. Este diploma, O Convênio de Nova York, que entrou em nosso ordenamento jurídico pelo Decreto n. 4.311, de 23 de julho de 2001, assim determina: Artigo 1 1. A presente Convenção aplicar-se-á ao reconhecimento e à execução de sentenças arbitrais estrangeiras proferidas no território de um Estado que não o Estado em que se tencione o reconhecimento e a execução de tais sentenças, oriundas de divergências entre pessoas, sejam elas físicas ou jurídicas. A Convenção aplicar-se-á igualmente a sentenças arbitrais não consideradas como sentenças domésticas no Estado onde se tencione o seu reconhecimento e a sua execução. 2) A segunda classificação é determinada pela Lei Modelo da UNCITRAL, que é bem mais complexa, pois, determina, dentre outras coisas, regimes legais e práticas arbitrais radicalmente distintos, ou seja, abre margem para uma grande subjetividade, conforme se verifica em seu artigo terceiro: Artigo 3. Uma arbitragem é internacional se: a) As partes em uma convenção de arbitragem tiverem, no momento da sua conclusão, as suas sedes comerciais em diferentes Estados; ou b) Um dos lugares a seguir referidos estiver situado fora do Estado no qual as partes têm o seu estabelecimento; (i) O lugar da arbitragem, se estiver fixado na convenção de arbitragem ou for determinável de acordo com esta; (ii) Qualquer lugar onde deva ser executada uma parte substancial das obrigações resultantes da relação comercial ou o lugar com o qual o objeto da disputa tenha vínculos mais estreitos; ou c) As partes tiverem convencionado expressamente que o objeto da convenção de Arbitragem envolve mais de um país. Artigo 4. Para os fins do parágrafo 3º do presente artigo: (a) Se uma das partes tiver mais de uma sede, deve ser considerada a que tiver vínculos mais estreitos com a convenção de arbitragem; (b) Se uma das partes não tiver sede, a sua residência habitual deve ser considerada. Em regra a arbitragem é privada, porém, diante de Tratados Bilaterais e Multilaterais de Investimento (TBI) pode ser pública e criar direito ex lege para arbitrar certos conflitos entre investidores e Estado receptor. O Convênio de Washington rege o direito do investidor de demandar o Estado ou seu órgão, sem necessidade de anterior convênio, por violar as garantias do TBI. O objetivo do direito internacional dos investimentos é oferecer uma proteção jurídica aos investidores estrangeiros e a seus investimentos. Os investidores são juridicamente protegidos por acordos bilaterais ou multilaterais assinados pelo Estado de sua nacionalidade e pelo Estado receptor do investimento, os quais lhes garantem, por exemplo: compensação no caso de expropriação ilegal; tratamento justo e equitativo; proteção e segurança plena; e proteção contra a discriminação. Se um investidor considerar que o Estado que lhe acolhe viola a cláusula de um acordo aplicável, ele pode demandar essa responsabilidade perante um tribunal, normalmente arbitral67. A arbitragem tem natureza genuinamente contratual, não pode dispor de direitos indisponíveis, tais como consumeristas, laborais ou de família, e as partes tem que possuir capacidade jurídica segundo a sua lei nacional, para que não haja vício algum quando da manifestação de vontade inequívoca de se submeter à arbitragem. Por isso, requer revisar bem o âmbito de autorização dos representantes das pessoas jurídicas (a submissão à arbitragem não é um ato de administração ordinária) e da capacidade das pessoas físicas. A arbitragem tem três elementos: o convênio arbitral, o processo e o laudo. São estes a coluna dorsal do sistema, já bastante desenvolvido nos Estados Unidos, na Ásia Oriental e Europa e em expansão no Brasil. O Convênio Arbitral é o contrato para submeter uma questão litigiosa já surgida (“compromisso arbitral”) ou todos os litígios que surjam de uma relação contratual (“cláusula compromissória”). Historicamente, teve vigência a distinção entre a Cláusula Compromissória (pactum de compromittendo), que era o contrato preliminar de arbitragem, desprovido de especiais formalidades, de submissão de toda futura discrepância entre as partes à arbitragem (seria uma espécie de pré- contrato); e o Compromisso Arbitral, que era o acordo formal (com determinadas solenidades) de se submeter a um determinado árbitro uma disputa concreta surgida da relação entre as partes. Atualmente, essa diferença entre compromisso arbitral e cláusula compromissória perdeu força e se fala comumente de convênio arbitral para designar a opção da arbitragem, independentemente se foi antes ou depois do problema. O documento tem forma escrita em todo o mundo, exceto no Japão e na Indonésia, onde se admite o convênio arbitral oral. O convênio arbitral é um contrato assinado entre as partes, pelo qual submetem uma controvérsia presente ou futura a uma decisão vinculante de um terceiro (árbitro). Possui efeitos processuais, pois exclui a Jurisdição ordinária do conhecimento da controvérsia; provoca uma sentença desta controvérsia por um terceiro com os mesmos efeitos que uma sentença judicial. Fala-se de contrato processual. Quando o convênio tem defeito, fala-se de convênio patológico, que pode provocardesde sérias disfunções até a nulidade do pacto. Não é necessário documento público, nem especial formalidade, porém, é desejável detalhar em documento o objeto em disputa, o método de eleição do árbitro, a lei e o procedimento aplicáveis, o lugar e o idioma. A Convenção de Nova York (1958), a de Washington (1965) e a Lei Modelo UNCITRAL admitem a validez do convênio por correspondência ou telegramas. O processo arbitral é semelhante ao judicial, que possui essencialmente três pilares: a) Pretensões Contrapostas. As partes envolvidas possuem interesses distintos não anteriormente solucionáveis; b) Trâmite Confrontacional. Todo o processo tem por objetivo encontrar o caminho da suposta “justiça”, seja alicerçada na lei, seja com base em interpretações; c) Terceiro independente que decide. Há um juiz que, depois de analisar todos os argumentos e provas, adota um posicionamento devidamente justificado. Na arbitragem, as alegações devem ser apresentadas por escrito, preferencialmente por advogados, na fase probatória, a pretensão das partes tem que estar dentro do objeto do convênio arbitral, não ferir a ordem pública, e o direito deve ser arbitrável. A neutralidade dos árbitros é uma grande vantagem diante da parcialidade dos tribunais. O processo menos formal e mais breve diminui o risco de demora e da possibilidade de atuações irregulares. Os árbitros decidem sobre eles (Kompetenz- Kompetenz), sem prejuízo de um eventual recurso em via judicial. Situações de impasse nas negociações internacionais podem levar as partes a um compromisso a respeito da lei que será aplicada pelo árbitro na hipótese de litígio. Surgem comumente nessas hipóteses referências à lex mercatoria, usualmente definida como um conjunto de princípios gerais e regras geradas pelo costume do comércio internacional, sem referência a um sistema legal específico, ou, como prefere Fabio Bortolotti68 - depois de admitir que está lidando com uma definição ainda não consolidada -, um sistema jurídico supranacional, “distinto e autônomo em relação aos direitos estatais, aplicáveis diretamente aos contratos do comércio internacional em lugar das disposições dos direitos nacionais69. Admite a doutrina que a moderna lex mercatoria desenvolve-se a partir de três circunstâncias bem distintas: a afirmação crescente de práticas contratuais uniformes no comércio internacional, a consolidação de regras autônomas relativamente a legislação nacionais (o que ocorre especialmente nas relações especialmente nas relações entre empresas e Estado, pois este raramente aceita submeter-se à lei daquelas - e vice-versa - de tal sorte que os contratos acabam submetidos a princípios de direito internacional e a princípios gerais de direito) e a crescente conscientização dos operadores do comércio internacional da inadequação das leis nacionais para responder aos problemas decorrentes de contratos transnacionais. Como resultado, integram a lex mercatoria as práticas contratuais, os usos do comércio e os princípios gerais do direito, aos quais podem ser apresentadas as normas de direito material uniforme, os princípios de direito comuns aos ordenamentos das partes e as codificações privadas de princípios gerais em matéria de contratos (como os Princípios dos Contratos Comerciais Internacionais da Unidroit, ou como os Princípios da Lei Contratual Europeia da Comissão sobre a Lei Contratual Europeia, entre outros)70. Em suma, o Poder Judiciário realiza 6 atividades complementares e auxiliares à Arbitragem: I) Rechaça litígios se existe o compromisso (Protocolo Genebra 4). Portanto, mesmo que uma das partes recorra ao Poder Judiciário para solucionar o conflito, o juiz monocrático envia o processo para um Tribunal Arbitral; II) Designa subsidiariamente os árbitros (arts. 11.3 e 11.4, LU). Este fato ocorre quando não houve uma determinação prévia pelas partes; III) Adota medidas cautelares. A pedido dos árbitros, os juizes podem tomar medidas para garantir o bom andamento do processo arbitral; IV) Coopera na obtenção de provas. Quando a cooperação não é suficiente, pode o árbitro solicitar ajuda do Estado; V) Revisa o laudo, em geral por motivos determinados, sem entrar na fundamentação (art. 34.2, LU), unicamente quando solicitado por uma das partes e com fundamentação em vícios ou erros formais; VI) Executa laudos arbitrais (CNY). Esta seria talvez a mais importante, pois é a garantia maior de que a decisão do árbitro é amparada pelo Estado. O laudo é emitido por árbitros privados independentes ex contractu, no ex lege, ou seja, alicerçado principalmente no contrato e não propriamente na lei. Embora o laudo surja ex contractu, possui uma proteção superior às sentenças judiciais no cenário internacional, pois há limitações às causas de impugnação (art. 34 da Lei Uniforme) e é mais fácil de executar (Convênio de Nova York assinado por mais de 120 países). O laudo arbitral faz coisa julgada e é executável rápida e facilmente, sem possibilidade de recurso quanto às questões de fundo. Então, em 120 jurisdições, o laudo arbitral é executável com causas de oposição. Torna-se importante destacar, não para diminuir a arbitragem, mas para ratificar sua posição de meio alternativo de conflito, que somente é eficiente porque existe em última instância, um Poder Judiciário que aceita suas decisões, coopera quando solicitado pelo árbitro e executa o laudo quando há descumprimento. Por todo o exposto, verificamos a grande importância e praticidade das ADR e a necessidade de as empresas brasileiras utilizarem mais essas ferramentas para oferecerem aos parceiros internacionais modos de soluções de conflitos mais seguros e rápidos. 4.2. MEIOS POLÍTICOS Os meios políticos de solução de conflitos são muito parecidos com os meios diplomáticos, salvo pelo fato que ocorrem sempre no seio das Organizações Internacionais, principalmente a ONU, pelo Conselho de Segurança e pela Assembleia Geral. Importante ainda ressaltar que, diferentemente dos meios diplomáticos, a depender da situação concreta, a solução política pode ocorrer sem o consentimento de uma das partes. No desempenho de sua principal responsabilidade, o Conselho de Segurança pode, segundo o art. 34, “investigar qualquer conflito ou situação que possa levar a atritos internacionais ou dar origem a conflitos, para determinar se a continuação da disputa ou da situação pode pôr em perigo a manutenção da paz e da segurança internacionais”. Além desse poder de investigação, o Conselho de Segurança pode, quando considerar necessário, conclamar as partes a solucionarem sua disputa pelos meios discriminados no art. 33. Pode intervir, se o desejar, em qualquer estágio de uma disputa ou situação cuja permanência possa pôr em perigo a paz e a segurança internacionais, e, de acordo com o art. 36, I, pode recomendar métodos e procedimentos adequados para a sua solução. Mas, ao fazer tais recomendações, que não são vinculativas, deve levar em consideração o princípio geral de que as controvérsias jurídicas devem ser apresentadas pelas partes à Corte Internacional de Justiça71. 4.3. MEIOS JURISDICIONAIS Não tendo como resolver o problema por meios alternativos de conflitos, buscar-se-á resolvê-lo nos tribunais internacionais previamente constituídos ou criados para determinada situação, que são os tribunais de exceção. Esses tribunais muito evoluíram durante o século XX e, hodiernamente, tendem a ter jurisdição universal e a serem contínuos. O primeiro tribunal que merece destaque foi criado em decorrência da Liga das Nações: Corte Permanente de Justiça Internacional. Constituída em 1921, iniciou suas atividades no ano seguinte, tinha sua sede em Haia, na Holanda, funcionou até o ano de 1940, quando foi invadida pelos Nazistas, e teve suas atividades formalmente encerradas em 1946. Dos processos julgados pela Corte Permanente de Justiça Internacional, destaca-se o Caso do Barco Lotus. Em 2 de agosto de 1926, houve um abalroamento entre um navio francês e um navio turco. O navio turco afundou e, desse acidente, morreramoito marinheiros e tripulantes. O restante dos integrantes do navio turco foi resgatado pelo navio francês, que aportou em Istambul. Na Turquia, baseado no Código Penal daquele país, todos foram presos. Inconformada, a França protestou perante a Turquia e ambos os Estados resolveram submeter a lide à Corte Permanente de Justiça Internacional. A França alegou que a Turquia agiu ilicitamente, pois deveria ter tomado decisões baseadas no Direito Internacional, e não no Direito Interno. O Tribunal decidiu que “o que se passa a bordo de um navio em alto-mar deve ser considerado como se tivesse ocorrido no território do Estado, cuja bandeira o navio usa. Se, pois, um ato delituoso, cometido num navio, em alto-mar, produz seus efeitos sobre um navio que usa outra bandeira ou sobre um território estrangeiro, devem ser aplicados ao caso os mesmos princípios que se aplicariam se se tratasse de dois territórios de Estados diferentes e, portanto, deve concluir-se que nenhuma regra de direito internacional proíbe ao Estado, de que depende o navio, onde os efeitos do delito se manifestaram, considerar esse delito como se tivesse sido cometido no seu território e exercer a ação penal contra o delinqüente” (Lotus, arrêt. n. 9, 1927, CPJI, série A, n. 10, p. 25 e 28)72. A Corte Permanente de Justiça Internacional foi sucedida pela Corte Internacional de Justiça (CIJ) em 1945. A CIJ é o principal órgão jurisdicional da ONU e tem competência para julgar qualquer conflito de Direito Internacional entre os Estados. A CIJ é formada por 15 juízes, com mandatos de 9 (nove) anos, eleitos pela Assembleia-Geral e pelo Conselho de Segurança da ONU e com direito a reeleição. Não é permitido ter mais de um juiz da mesma nacionalidade e estes devem possuir notório conhecimento em Direito Internacional. A CIJ possui competência contenciosa e consultiva e somente os Estados podem ser parte nos processos de sua competência, segundo o próprio Estatuto (art. 34, § 1º). As consultas à Corte são realizadas de forma direta pelo Conselho de Segurança ou pela Assembleia-Geral, ou, de forma indireta, após autorização da Assembleia-Geral, por outros órgãos da ONU ou entidades especializadas. Os Estados não podem solicitar pareceres à Corte. Após a Segunda Guerra Mundial, foram criados o Tribunal de Nuremberg e o Tribunal de Tóquio para julgar os criminosos de guerra. O Tribunal de Nuremberg foi criado depois de um acordo entre as potências vencedoras (EUA, Inglaterra, URSS e França) para julgar nazistas. Entre os anos de 1945 e 1949, foram julgados 199 homens por crimes de guerra, sendo o mais conhecido Hermann Goering, comandante da Luftwaffe e Presidente do Reichstag. Inicialmente, foram julgados os 24 principais criminosos de guerra, por isso também recebeu o nome de Tribunal Militar Internacional. O Tribunal de Tóquio foi instituído pela “Carta do Tribunal Internacional Militar para o Extremo Oriente”, em 1946, pelo general Douglas MacArthur, e julgou por crime de guerra os líderes do Império do Japão e encerrou suas atividades em 1948. Direito Internacional dos Direitos Humanos No decorrer da história, vários documentos continham direitos que, de alguma forma, protegiam a dignidade da pessoa humana. O Código de Hamurabi (1690 a.C.) garantia a todos os indivíduos o direito à vida e à honra; os Dez Mandamentos determinavam “não matarás” (proteção à vida), “não roubarás” (proteção à propriedade), “não cometerás adultério” (proteção à família) e “não darás falso testemunho” (proteção à honra); e Lei das Doze Tábuas, no Império Romano, que garantia a propriedade aos cidadãos romanos73. Na Antiguidade e na Idade Média, esses valores foram difundidos pela doutrina cristã, que teve papel central na universalização desses direitos. Diante do advento do Iluminismo e do enfraquecimento dos Regimes Absolutistas, já no século XVIII, outros documentos de grande importância apareceram, pois os Direitos Humanos também são uma reação ao excesso de Poder do Estado. As revoluções burguesas (Revolução Francesa, Revolução Americana e Revolução Industrial) positivaram esses direitos de forma mais generalizada como políticas estatais, em seus Códigos Civis e Constituições. O mais importante documento do século XVIII para os Direitos Humanos foi a Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão, aprovada em 26 de agosto de 1789 pela Assembleia Nacional Constituinte da França. O preâmbulo desta declaração assim dizia: Os representantes do povo francês, reunidos em Assembleia Nacional, tendo em vista que a ignorância, o esquecimento ou o desprezo dos direitos do homem são as únicas causas dos males públicos e da corrupção dos Governos, resolveram declarar solenemente os direitos naturais, inalienáveis e sagrados do homem, a fim de que esta declaração, sempre presente em todos os membros do corpo social, lhes lembre permanentemente seus direitos e seus deveres; a fim de que os atos do Poder Legislativo e do Poder Executivo, podendo ser a qualquer momento comparados com a finalidade de toda a instituição política, sejam por isso mais respeitados; a fim de que as reivindicações dos cidadãos, doravante fundadas em princípios simples e incontestáveis, se dirijam sempre à conservação da Constituição e à felicidade geral74. A Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão trazia em seus dezessete artigos os ideais libertários e de igualdade presentes na Revolução Francesa. Sua importância foi tamanha que influenciou a Constituição Francesa de 1848, a própria Declaração Universal dos Direitos Humanos (10-12-1948) e quase a totalidade dos documentos sobre direitos humanos desde então. Assim era o texto original: Art. 1º Os homens nascem e são livres e iguais em direitos. As distinções sociais só podem fundamentar-se na utilidade comum. Art. 2º A finalidade de toda associação política é a conservação dos direitos naturais e imprescritíveis do homem. Esses direitos são a liberdade, a propriedade a segurança e a resistência à opressão. Art. 3º O princípio de toda a soberania reside, essencialmente, na nação. Nenhuma operação, nenhum indivíduo pode exercer autoridade que dela não emane expressamente. Art. 4º A liberdade consiste em poder fazer tudo que não prejudique o próximo. Assim, o exercício dos direitos naturais de cada homem não tem por limites senão aqueles que asseguram aos outros membros da sociedade o gozo dos mesmos direitos. Estes limites apenas podem ser determinados pela lei. Art. 5º A lei não proíbe senão as ações nocivas à sociedade. Tudo que não é vedado pela lei não pode ser obstado e ninguém pode ser constrangido a fazer o que ela não ordene. Art. 6º A lei é a expressão da vontade geral. Todos os cidadãos têm o direito de concorrer, pessoalmente ou através de mandatários, para a sua formação. Ela deve ser a mesma para todos, seja para proteger, seja para punir. Todos os cidadãos são iguais a seus olhos e igualmente admissíveis a todas as dignidades, lugares e empregos públicos, segundo a sua capacidade e sem outra distinção que não seja a das suas virtudes e dos seus talentos. Art. 7º Ninguém pode ser acusado, preso ou detido senão nos casos determinados pela lei e de acordo com as formas por esta prescritas. Os que solicitam, expedem, executam ou mandam executar ordens arbitrárias devem ser punidos; mas qualquer cidadão convocado ou detido em virtude da lei deve obedecer imediatamente, caso contrário torna-se culpado de resistência. Art. 8º A lei apenas deve estabelecer penas estrita e evidentemente necessárias e ninguém pode ser punido senão por força de uma lei estabelecida e promulgada antes do delito e legalmente aplicada. Art. 9º Todo acusado é considerado inocente até ser declarado culpado e, se julgar indispensável prendê-lo, todo o rigor desnecessário à guarda da sua pessoa deverá ser severamente reprimido pela lei. Art. 10º Ninguém pode ser molestado por suas opiniões, incluindo opiniões religiosas, desde que sua manifestação não perturbe a ordem pública estabelecida pela lei. Art. 11º A livre comunicaçãodas ideias e das opiniões é um dos mais preciosos direitos do homem. Todo cidadão pode, portanto, falar, escrever, imprimir livremente, respondendo, todavia, pelos abusos desta liberdade nos termos previstos na lei. Art. 12º A garantia dos direitos do homem e do cidadão necessita de uma força pública. Esta força é, pois, instituída para fruição por todos, e não para utilidade particular daqueles a quem é confiada. Art. 13º Para a manutenção da força pública e para as despesas de administração é indispensável uma contribuição comum que deve ser dividida entre os cidadãos de acordo com suas possibilidades. Art. 14º Todos os cidadãos têm direito de verificar, por si ou pelos seus representantes, da necessidade da contribuição pública, de consenti-la livremente, de observar o seu emprego e de lhe fixar a repartição, a coleta, a cobrança e a duração. Art. 15º A sociedade tem o direito de pedir contas a todo agente público pela sua administração. Art. 16º A sociedade em que não esteja assegurada a garantia dos direitos nem estabelecida a separação dos poderes não tem Constituição. Art. 17º Como a propriedade é um direito inviolável e sagrado, ninguém dela pode ser privado, a não ser quando a necessidade pública legalmente comprovada o exigir e sob condição de justa e prévia indenização. Entre a Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão, em 1789, e a II Guerra Mundial (1939 - 1945), os direitos humanos evoluíram e, com o fim deste conflito, que muito sensibilizou o mundo diante das atrocidades feitas nos campos de concentrações nazistas, ainda na Conferência de Yalta (1945), na Ucrânia, iniciou-se a construção do atual sistema de proteção internacional do homem e a base para a criação de uma organização multilateral que tivesse por objetivo maior a paz mundial. A proteção à dignidade da pessoa humana consolidou-se como o alicerce do Direito Internacional dos Direitos Humanos e passou a ser o centro de inúmeros debates nacionais e internacionais. Esta evolução é explicada por André de Carvalho Ramos com as seguintes palavras: Até meados do século XX, o Direito Internacional possuía apenas normas internacionais esparsas referentes a certos direitos essenciais, como se vê na temática do combate a escravidão no século XIX, ou ainda na criação da OIT (Organização Internacional do Trabalho, 1919), que desempenha papel importante até hoje na proteção dos direitos trabalhistas. Contudo, a criação do Direito Internacional dos Direitos Humanos está relacionada a nova organização da sociedade internacional no pós-Segunda Guerra Mundial75. A reação à barbárie nazista gerou a inserção da temática de direitos humanos na Carta da ONU, que possui várias passagens que usam expressamente o termo “direitos humanos”, com destaque ao artigo 55, alínea “c”, que determina que a Organização deve favorecer “o respeito universal e efetivo dos direitos humanos e das liberdades fundamentais para todos, sem distinção de raça, sexo, língua ou religião.” Já o artigo seguinte, o artigo 56, estabelece o compromisso de todos os Estados-membros de agir em cooperação com a Organização para consecução dos propósitos enumerados no artigo anterior76. Diante da ausência de um rol expresso de Direitos Humanos considerados essenciais na Carta da ONU, de 1945, a Organização decidiu aprovar, por meio de Resolução, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, em 10 de dezembro de 1948. Este documento, que também é conhecido como Declaração de Paris, continha 30 artigos que explicitavam os direitos humanos aceitos internacionalmente, mas, por ser uma Resolução, não era juridicamente obrigatório. A partir da sua aprovação e do contexto existente à época, começa a se desenvolver o Direito Internacional dos Direitos Humanos, que se robustece com a adoção de inúmeros tratados internacionais voltados à proteção de direitos fundamentais. O Direito Internacional dos Direitos Humanos ganhou grande projeção e foi absorvido pelos Estados, que passaram a expressá-los, de forma escrita, em suas Constituições. Segundo Flávia Piovesan, nas palavras de Richard B. Bilder, o movimento internacional dos direitos humanos é baseado na concepção de que toda a nação tem a obrigação de respeitar os direitos humanos de seus cidadãos e de que todas as nações e a comunidade internacional têm o direito e a responsabilidade de protestar, se um Estado não cumprir suas obrigações. O Direito Internacional dos Direitos Humanos consiste em um sistema de normas internacionais, procedimentos e instituições desenvolvidas para implementar esta concepção e promover o respeito dos direitos humanos em todos os países77. Dentre os inúmeros tratados e documentos que surgiram influenciados pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, destacam-se o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos e o Pacto Internacional sobre os Diretos Econômicos, Sociais e Culturais. Esses dois pactos foram aprovados pela Assembleia da ONU, em 16 de dezembro de 1966, e possuem força jurídica. Os três documentos juntos formam a Carta Internacional dos Direitos Humanos. Os direitos humanos representam valores essenciais, que são explicitamente ou implicitamente retratados nas Constituições ou nos tratados internacionais. A fundamentalidade dos direitos humanos pode ser formal, por meio da inscrição desses direitos no rol de direitos protegidos nas Constituições e nos tratados, ou pode ser material, sendo considerado parte integrante dos direitos humanos aquele que - mesmo não expresso - é indispensável para a promoção da dignidade humana. Apesar das diferenças em relação ao conteúdo, os direitos humanos têm em comum quatro ideias- chaves ou marcas distintivas: universalidade, essencialidade, superioridade normativa (preferencialidade) e reciprocidade78. No Brasil, no art. 5º da Constituição Federal, promulgada em 1988, percebe-se clara influência da Declaração Universal dos Direitos Humanos em seu texto. E a Emenda Constitucional n. 45, de 30 de dezembro de 2004, que acrescentou os §§ 3º e 4º, fortaleceu os tratados internacionais de Direitos Humanos em nosso ordenamento: § 1º As normas definidoras dos direitos e garantias fundamentais têm aplicação imediata. § 2º Os direitos e garantias expressos nesta Constituição não excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados, ou dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte. § 3º Os tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos que forem aprovados, em cada Casa do Congresso Nacional, em dois turnos, por três quintos dos votos dos respectivos membros, serão equivalentes às emendas constitucionais. § 4º O Brasil se submete à jurisdição de Tribunal Penal Internacional a cuja criação tenha manifestado adesão. O Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos, foi recepcionado no ordenamento brasileiro pelo Decreto n. 592, de 6 de julho de 1992. O preâmbulo deste documento demonstra a grande força que os Direitos Humanos ganharam depois da Segunda Guerra Mundial, pois afirmam que os Estados Partes do presente Pacto reconhecem que, em conformidade com os princípios proclamados na Carta das Nações Unidas, a dignidade é inerente a todos os membros da família humana e os direitos iguais e inalienáveis constituem o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo; reconhecem que esses direitos decorrem da dignidade inerente à pessoa humana; reconhecem que, em conformidade com a Declaração Universal dos Direitos do Homem, o ideal do ser humano livre, no gozo das liberdades civis e políticas e liberto do temor e da miséria, não pode ser realizado e menos que se criem condições que permitam a cada um gozar de seus direitos civis e políticos, assim como de seus direitos econômicos, sociais e culturais. O Pacto Internacional sobre os Diretos Econômicos, Sociais e Culturais foi recepcionado no ordenamento pátrio pelo Decreto n. 591, de 6 de julho de 1992. Na atualidade, segundo o especialista André de Carvalho Ramos, a proteção dos direitos essenciaisdo ser humano no plano internacional recai em três sub-ramos específicos do Direito Internacional Público: o Direito Internacional dos Direitos Humanos (DIDH), o Direito Internacional Humanitário (DIH) e o Direito Internacional dos Refugiados (DIR). Esses três sub-ramos têm um objetivo comum, a proteção do ser humano, embora, sem dúvida, o Direito Internacional dos Direitos Humanos (DIDH) seja o mais abrangente, e os dois outros atuem em áreas específicas. A inter- relação entre esses dois ramos é a seguinte: ao DIDH incumbe a proteção do ser humano em todos os aspectos, englobando direitos civis e políticos e também direitos sociais, econômicos e culturais; já o DIH foca na proteção do ser humano na situação específica dos conflitos armados (internacionais e não internacionais); finalmente, o DIR age na proteção do refugiado, desde a saída do seu local de residência, trânsito de um país a outro, concessão do refúgio no país de acolhimento e seu eventual término. 5.1. PROTEÇÃO (ÂMBITO INTERNACIONAL E REGIONAL) Indubitavelmente, a ONU desempenhou o papel central na conscientização sobre Direitos Humanos que a sociedade internacional carrega hoje. Antes de sua atuação, o que tínhamos eram normas esparsas e esporádicas, além de atuações isoladas, em alguns conflitos internos, sob o subterfúgio de intervenção humanitária dos Estados mais fortes militarmente. A Carta de São Francisco, em 1945, concedeu aos Direitos Humanos o patamar de matéria constitucional no âmbito do Direito Internacional, tamanha foi a importância dada no ato constitutivo da ONU. E, dando continuidade à sua empreitada, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou a Declaração Universal dos Direitos do Homem, em 10 de dezembro de 1948. Embora não seja um tratado, pois foi adotada pela Assembleia Geral da ONU como uma resolução (não obrigatória) de forma unânime, a Declaração Universal dos Direitos do Homem (DUDH) tornou-se referência para o DIP e para todos os tratados que a sucederam, pois serviu de fonte de princípios e normas internacionais sobre a matéria. A DUDH detalha de modo amplo os princípios de Direitos Humanos; são utilizadas apenas normas substantivas; e não institui nenhum órgão internacional para garantir a sua eficácia. Indiscutivelmente a proteção aos mais basilares direitos dos seres humanos é o objeto dessa Declaração. Rezek transcreve de forma minuciosa tais direitos quando diz [...] ali se estatui que todo homem tem direito à vida, à liberdade e à segurança; a não ser jamais submetido à escravidão, à servidão, à tortura e a penas cruéis ou degradantes; ao reconhecimento de sua personalidade jurídica e a um processo judicial idôneo; a não ser arbitrariamente detido, preso ou desterrado, e a gozar de presunção de inocência até que se prove culpado; a não sofrer intromissões arbitrárias na sua vida particular, na família, no domicílio e na correspondência; à livre circulação e à escolha de seu domicílio; ao asilo quando perseguido por delito político; a uma nacionalidade; ao casamento e à constituição de família; à propriedade singular e em condomínio; à liberdade de pensamento, convicção política, religião, opinião e expressão, reunião e associação pacíficas; a participar do governo de seu Estado patrial e a ter acesso, em condições igualitárias, à função pública79. Em 1966, sob forte influência da Declaração Universal dos Direitos Humanos, a ONU proclama o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos e o Pacto Internacional sobre os Diretos Econômicos, Sociais e Culturais. Esses atos são tratados e, em contraposição à DUDH, no que pese sua grande influência, possuem agora força normativa. Na obra Manual de Direito Internacional Público, escrita por Hildebrando Accioly, G.E. do Nascimento e Silva e Paulo Borba Casella, os doutrinadores assim se posicionam: Embora os dois Pactos sejam em certo sentido mais importantes do que a Declaração de 1948, por serem de cumprimento obrigatório para os países que os ratificarem, pode-se afirmar que a Declaração Universal tem mais peso, pois a maioria dos princípios que consagra são tidos como de direito internacional costumeiro. Passo adiante será dado ao serem reconhecidos como normas congentes de direito internacional geral. A Corte Internacional de Justiça, no caso do Pessoal Diplomático e Consular norte-americano de Teerã, decidiu expressamente pelo caráter de norma costumeira da Declaração Universal de Direitos do Homem, considerada como vetor de interpretação do termo “direitos humanos” inserido e diversos dispositivos da Carta da Organização das Nações Unidas. Neste julgamento, a Corte condenou o Irã, uma vez que a detenção dos reféns americanos, além de incompatível com a Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas, violava os “princípios fundamentais estabelecidos na Declaração Universal de Direitos do Homem”, então considerada norma internacional vinculante80. A doutrina mais moderna considera os direitos humanos como os melhores exemplos de normas jus cogens e coloca como sendo suas principais características a universalidade, inerência, transnacionalidade, indivisibilidade, imprescritibilidade e a inalienabilidade. O indivíduo, no âmbito internacional, com o avanço dos direitos humanos, passou a ter mais ferramentas contra possíveis abusos estatais. Os direitos acima apontados na citação de Francisco Rezek, por se relacionarem com a integridade física e psicológica do indivíduo, são conhecidos como direitos de primeira geração. A DUDH ainda colaciona outros direitos dos indivíduos, tais como o direito ao trabalho e à previdência social, à paridade salarial por igual trabalho, ao descanso e ao lazer, à saúde, à educação, aos benefícios da ciência, ao gozo das artes, à participação na vida cultural da comunidade (arts. 20 a 27 da DUDH). Esses direitos, mais voltados aos aspectos de dignidade do homem como indivíduo e cidadão - direitos sociais, econômicos e culturais -, são considerados direitos de segunda geração. E tem mais, os direitos de terceira geração, que se preocupam com o coletivo a que se insere o indivíduo, mais voltados à ideia de fraternidade. A teoria das gerações dos direitos humanos foi lançada pelo jurista francês de origem tcheca, Karel Vasak, que, em Conferência proferida no Instituto Internacional de Direitos Humanos de Estrasburgo (França), no ano de 1979, classificou os direitos humanos em três gerações, cada uma com características próprias. Cada geração foi associada a um dos componentes do dístico da Revolução Francesa: “liberté, egalité et fraternité” (liberdade, igualdade e fraternidade). Assim, a primeira geração seria composta por direitos referentes à “liberdade”, a segunda geração retrataria os direitos que apontam a “igualdade”; finalmente, a terceira geração seria composta por direitos atinentes à solidariedade social (“fraternidade”)81. TEORIA DAS GERAÇÕES OU DIMENSÕES DOS DIREITOS HUMANOS 1ª geração LIBERDADE Nascido na Revolução Francesa, esses direitos têm por objetivo primeiro proteger os indivíduos dos excessos do Estado. A corrente econômica Liberal (Adam Smith e outros) é a base desses direitos. Ex.: proteção à propriedade, segurança jurídica contratual etc. 2ª geração IGUALDADE Decorrentes das convulsões sociais do século XIX, os trabalhadores exigiam que o Estado não só fiscalizasse as leis, mas deveria garantir uma condição material mínima de sobrevivência a toda a população. A corrente econômica Socialista (Karl Marx e outros) é a base desses direitos. Ex.: saúde, educação, previdência social, habitação etc. 3ª geração FRATERNIDADE Surgido após a Segunda Guerra Mundial, os direitos humanos de terceira geração têm a comunidade como a sua titular a partir da ligação do homem ao planeta Terra e a sua fonte de riquezas naturais finitas. Ex.: paz, desenvolvimento, autodeterminação, meio ambiente equilibrado etc. O Brasil ratificou inúmeros Tratados Internacionais sobre Direitos Humanos que foram aprovados em âmbito mundial. São exemplos desses instrumentos (já incorporados ao Direitoa entrar em uma Organização Internacional, adotar um costume internacional ou assinar um Tratado de Livre Comércio. As diversas correntes da teoria voluntarista baseiam-se ora na ideia de uma vontade coletiva dos Estados, ora no consentimento mútuo deste. Dentre as teorias expostas, merece ser mencionada a da autolimitação, desenvolvida por Jellinek, segundo a qual o Direito Internacional funda-se na vontade metafísica do Estado, que estabelece limitações ao seu poder absoluto. Em outras palavras, o Estado obriga-se para consigo próprio. Essa teoria, que contou no Brasil com a aceitação de Clóvis Beviláqua, tem sido criticada, dada a possibilidade de o Estado, de momento a outro, modificar a sua posição10. Os maiores nomes da corrente Voluntarista são: Georg Jellinek, que defendeu a Teoria da Autolimitação da Vontade; Carl Heinrich Triepel, que defendeu a Teoria da Vontade Coletiva; e Max Wenzel, que defendeu a Teoria da Delegação do Direito Interno. No quadro abaixo, objetivando melhor entendimento dessas teorias, as esquematizamos e ainda agregamos a Teoria do Consentimento das Nações, desenvolvida por doutrinadores ingleses, que, juntamente com as três anteriormente citadas, formam as quatro teorias mais conhecidas da corrente voluntarista. Em todas, o Estado somente se submete a Ordem Jurídica Internacional por vontade própria. Teoria da Autolimitação da vontade O Estado, por ser soberano, pode se autodeterminar politicamente e se auto-obrigar juridicamente. Portanto, (GEORG JELLINEK - 1851/1911) sua submissão à comunidade internacional é ato particular de vontade que limita intencionalmente sua soberania. Teoria da Vontade Coletiva (CARL HEINRICH TRIEPEL - 1868/1946) O DIP se fundamenta na vontade coletiva e unânime dos Estados, que se manifesta por meio de tratados-lei (expressamente) ou costumes (tacitamente). Teoria da Delegação do Direito interno (MAX WENZEL - 1879/1946) A obrigatoriedade do DIP estaria na Constituição de cada Estado, ou seja, a submissão do Estado ao DIP teria como base sua própria legislação (Direito Interno). Esta teoria se apresenta como um reflexo da teoria da autolimitação e, basicamente, nega a existência do DIP. Teoria do Consentimento das Nações (HALL, LAWRENCE e OPPENHEIM) Um Estado respeita o DIP porque este é a vontade da maioria dos Estados. Um consentimento mútuo é revelado na vontade majoritária dos Estados. A Corrente Voluntarista sofreu muitas críticas daqueles que dizem que o Estado não pode desligar-se unilateralmente das normas jurídicas internacionais e que o DIP não pode ter a sua própria existência condicionada a vontade dos Estados. Nesse último caso, por exemplo, embora esdrúxulo, se todos os países decidissem não mais participar da sociedade internacional, pela Corrente Voluntarista, seria o fim do DIP. Os Voluntaristas também não explicam o fundamento do DIP que, sem depender da vontade dos Estados, existe e, em muitos casos, é contra essa vontade. Por essa corrente, tornar-se-ia muito frequente um país não aceitar punições ou rechaçar princípios e costumes de acordo com interesses internos. E, pior, a instabilidade jurídica seria tamanha que a posição de um Estado, de se submeter ou não a regras internacionais, poderia mudar com a alternância de governos. A título de exemplo, as sanções do Conselho de Segurança da ONU ou as normas de Direitos Humanos a que todos os países estão submetidos, independentemente do anseio de cada um, seriam aplicadas de acordo com a vontade de cada país. Em oposição à corrente voluntarista, que possui essência subjetiva e que foi incapaz de resolver o problema da fundamentação do DIP, nasceu, no final do século XIX, a objetivista, ou positivista. Esta corrente foi influenciada pelo embate acadêmico, na Europa continental, destacadamente na Alemanha, entre jusnaturalistas e juspositivistas. Os objetivistas passaram a defender que a obrigatoriedade do DIP encontra- se na superioridade das normas internacionais diante das normas dos ordenamentos jurídicos internos. A essência volitiva encontrada na corrente voluntarista é totalmente abandonada, e adota-se uma norma-base ou um conjunto de princípios internacionais superiores aos aspectos legais nacionais. Segundo os objetivistas, esses pilares são essenciais para a sobrevivência da sociedade internacional. Citando Pierre-Marie Dupuy e Charles Leben, Hildebrando Accioly, Paulo Borba Casella e G. E. do Nascimento e Silva destacam que, na altura do julgamento do Caso do Navio Lótus (1927)11, pela Corte Permanente de Justiça Internacional, o presidente desta era Dionisio Anzilotti, cuja visão do Direito Internacional teria influenciado diretamente a redação do acórdão: “o direito internacional rege as relações entre Estados independentes. As regras desse direito, vinculando os Estados, procedem, assim, da vontade destes, vontade essa manifestada por meio de convenções ou por meio de usos geralmente aceitos, como consagrando princípios de direito, estabelecidos visando regular a coexistência dessas comunidades independentes ou em vista da busca de objetivos comuns. Dionisio Anzilotti foi buscar no princípio pacta sunt servanda a norma fundamental do direito internacional”12. O fundamento de validade da norma jurídica internacional não é mais a vontade do Estado, como na Corrente Voluntarista, mas a realidade da comunidade internacional e as razões de ordem jurídica objetiva, como normas que regem essa realidade, que independem das decisões (da vontade) dos Estados. Portanto, no cenário internacional, os acordos têm de ser cumpridos (pacta sunt servanda), assim como os costumes (consuetudo est servanda), que tiveram sua obrigatoriedade consolidada na Convenção de Viena sobre Direito dos Tratados (1969) no último parágrafo do preâmbulo. No julgamento do Caso da delimitação da fronteira marítima na região do Golfo do Maine (1984)13, a Corte Internacional de Justiça, mais que apresentar conjunto de normas específicas, apontou: “esse direito compreende, na realidade, conjunto restrito de normas suscetíveis de assegurar a coexistência e a cooperação vital dos membros da comunidade internacional”, às quais cumpre acrescer uma série de normas consuetudinárias, “cuja presença na opinio juris dos Estados se prova por meio de indução, partindo da análise de prática suficientemente comprovada e convincente, e não por meio de dedução, partindo de ideias pré-constituídas a priori”14. Os maiores nomes da Corrente Objetivista são: Hans Kelsen (Teoria da Norma-Base) e Dionisio Anzilotti (Teoria da Norma Pacta Sunt Servanda). Ambas as teorias colocam a obrigatoriedade do DIP em aspectos objetivos, longe da vontade do Estado. Vejamos: Teoria da Norma-base (HANS KELSEN - 1881/1973) A ordem jurídica é uma superposição de normas, em que a validade de uma norma inferior deriva da que lhe é superior. A norma hipotética fundamental é a pedra angular (ápice) de todo o ordenamento jurídico. O DIP se fundamenta nessa norma também, pois não há distinção entre a norma jurídica interna e a externa. Teoria Sociológica (GEORGE SCELLE e LEÓN DUGUIT) O Direito não é um produto da vontade humana, mas uma necessidade advinda de fatores sociais, e tem como fundamento a solidariedade ou interdependência entre os homens. Teoria da Norma Pacta Sunt Servanda (DIONISIO ANZILOTTI) O DIP encontra-se alicerçado no princípio romano de pacta sunt servanda, que estabelece a obrigação de as partes respeitarem e cumprirem o que foi contratado. As Teorias da Norma-base e a Sociológica, da Corrente Objetivista, também sofreram críticas e se enfraqueceram durante o passar do tempo, por possuírem contradições em seu cerne. A Teoria da Norma-base, que defendia a estratificação do ordenamento jurídico e a fundamentação de uma norma em outra imediatamente superior, não conseguiu explicar a obrigatoriedade da Norma Hipotética Fundamental, ápice de sua pirâmide jurídica. Por outro lado, a Teoria Sociológica não conseguiu se desvencilhar o suficiente de critérios subjetivos, pois almejava alcançarbrasileiro) a Convenção para a Prevenção e a Repressão do Crime de Genocídio (1948), a Convenção Relativa ao Estatuto do Refugiado (1951), o Protocolo sobre o Estatuto dos Refugiados (1966), o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos (1966), o Protocolo Facultativo Relativo ao Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos (1966), o Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (1966), a Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial (1965), a Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher (1979), o Protocolo Facultativo à Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher (1999), a Convenção contra a Tortura e Outros Tratamentos ou Penas Cruéis, Desumanos ou Degradantes (1984), a Convenção sobre os Direitos da Criança (1989), o Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional (1998), o Protocolo Facultativo à Convenção sobre os Direitos da Criança Referentes à Venda de Crianças, à Prostituição Infantil e à Pornografia Infantil (2000) e a Convenção das Nações Unidas contra a Corrupção, conhecida como Convenção de Mérida (2003)82. No âmbito regional, no que pese as iniciativas na África e nos países árabes, os sistemas mais destacados são o interamericano e o europeu. A Corte Interameriacana de Direitos Humanos aplica a Convenção de 1969 (Convenção Americana de Direitos Humanos), tendo sua sede em São José da Costa Rica. A Corte Europeia dos Direitos Humanos aplica a Convenção de 1950, e sua sede fica em Estrasburgo. No interregno existente entre os dias 30 de março e 2 de maio de 1948, realizou-se a 9ª Conferência Interamericana, em Bogotá. Nesta, foram aprovadas a Carta da Organização dos Estados Americanos (OEA) e a Declaração Americana de Direito e Deveres do Homem. A Carta da OEA proclamou, de modo genérico, o dever de respeito aos direitos humanos por parte de todos os Estados-membros da organização. Já a Declaração Americana enumerou quais são os direitos fundamentais que deveriam ser observados e garantidos pelos Estados. E mais, a Declaração Americana, que é anterior a Declaração Universal de Direitos Humanos, expressamente reconheceu a universalidade dos direitos humanos, que derivavam de sua condição humana, e não, simplesmente, de sua nacionalidade83. A Convenção Americana sobre Direitos Humanos foi concluída em 22 de novembro de 1969 e também é conhecida como Pacto de San José da Costa Rica. Esse tratado, debatido na OEA (organização dos Estados Americanos), entrou em vigor em 9 de julho de 1978, após ter sido ratificado por 11 Estados. Esse documento trouxe mais forma à proteção dos direitos humanos na região porque ampliou as funções da Comissão Interamericana de Direitos Humanos e criou a Corte Interamericana de Direitos Humanos, sendo este o segundo órgão de supervisão do sistema regional. O Pacto de San José da Costa Rica segue as diretrizes do Pacto das Nações Unidas sobre Direitos Civis e Políticos, de 1966, e determina o respeito dos Estados aos direitos individuais, de primeira geração. Dentre outros, a Convenção Americana defende o direito à vida, à integridade pessoal, veda a submissão de qualquer pessoa à escravidão, estabelece que ninguém pode ser preso por dívida, exceto de natureza alimentar e respeito ao princípio da anterioridade, da não retroatividade penal (salvo exceções), da igualdade perante a lei. O Pacto de San José entrou no ordenamento jurídico pátrio por meio do Decreto n. 678, de 6 de novembro de 1992. A Corte Europeia dos Direitos Humanos aplica a Convenção Europeia para a Proteção dos Direitos Humanos e das Liberdades Fundamentais, adotada em Roma, em 1950, com o acréscimo da Carta Social Europeia de 1961. O sistema europeu conta com uma corte especializada, a Corte Europeia de Direitos Humanos, com sede em Estrasburgo, na França, que permite que todo e qualquer indivíduo que tenha sido vítima de violação de direitos humanos possa propor ações contra os Estados-membros do Conselho da Europa. 5.2. TRIBUNAIS INTERNACIONAIS O Tribunal Internacional de Justiça, também conhecido por Corte Internacional de Justiça ou Corte de Haia, é o mais importante órgão judiciário da ONU. Foi instituído no ano de 1945 pela própria Carta das Nações Unidas, em seu art. 92 e seguintes, que assim trazia: CAPÍTULO XIV A CORTE INTERNACIONAL DE JUSTIÇA Artigo 92. A Corte Internacional de Justiça será o principal órgão judiciário das Nações Unidas. Funcionará de acordo com o Estatuto anexo, que é baseado no Estatuto da Corte Permanente de Justiça Internacional e faz parte integrante da presente Carta. Artigo 93. 1. Todos os Membros das Nações Unidas são ipso facto partes do Estatuto da Corte Internacional de Justiça. 2. Um Estado que não for Membro das Nações Unidas poderá tornar-se parte no Estatuto da Corte Internacional de Justiça, em condições que serão determinadas, em cada caso, pela Assembleia Geral, mediante recomendação do Conselho de Segurança. Artigo 94. 1. Cada Membro das Nações Unidas se compromete a conformar-se com a decisão da Corte Internacional de Justiça em qualquer caso em que for parte. 2. Se uma das partes num caso deixar de cumprir as obrigações que lhe incumbem em virtude de sentença proferida pela Corte, a outra terá direito de recorrer ao Conselho de Segurança que poderá, se julgar necessário, fazer recomendações ou decidir sobre medidas a serem tomadas para o cumprimento da sentença. Artigo 95. Nada na presente Carta impedirá os Membros das Nações Unidas de confiarem a solução de suas divergências a outros tribunais, em virtude de acordos já vigentes ou que possam ser concluídos no futuro. Artigo 96. 1. A Assembleia Geral ou o Conselho de Segurança poderá solicitar parecer consultivo da Corte Internacional de Justiça, sobre qualquer questão de ordem jurídica. 2. Outros órgãos das Nações Unidas e entidades especializadas, que forem em qualquer época devidamente autorizados pela Assembleia Geral, poderão também solicitar pareceres consultivos da Corte sobre questões jurídicas surgidas dentro da esfera de suas atividades. Importante destacar que a Carta de São Francisco foi recepcionada pelo ordenamento pátrio pelo Decreto n. 19.841, de 22 de outubro de 1945. E o Estatuto da Corte Internacional de Justiça Internacional é parte integrante da Carta da ONU e determina que a sua sede encontrar-se-á em Haia, na Holanda, no Palácio da Paz, e que sua função primeira será a solução de conflitos jurídicos submetidos a sua apreciação. O Estatuto ainda define que somente quem pode ser parte nesse tribunal, de forma ativa ou passiva, são os Estados. A Corte Internacional de Justiça (CIJ) substituiu a Corte Permanente de Justiça Internacional que era vinculada à SDN (Sociedade das Nações), criada em 1919, e desempenhava as mesmas funções. Depois da Segunda Guerra Mundial, com o fim da SDN, findaram também as atividades da Corte Permanente, em 1946. Não pode haver confusão do Tribunal Internacional de Justiça, que julga litígios entre Estados, com o Tribunal Penal Internacional, que julga indivíduos. Ambos ficam em Haia, na Holanda, mas desempenham funções muito distintas, pois o primeiro julga problemas envolvendo exclusivamente Estados, e o segundo julga crimes praticados por indivíduos. O Tribunal Penal Internacional (TPI) ou Corte Penal Internacional (CPI), que passou a funcionar em 2002, conforme preceitua o Estatuto de Roma (art. 3º), é o primeiro Tribunal Penal Internacional Permanente a julgar indivíduos. Este Tribunal já era uma solicitação antiga da ONU, dede sua gênese, muito impulsionado pela comoção decorrente do holocausto na Segunda Guerra. Antes da implantação deste tribunal permanente, mesmo diante de sua grande particularidade, tivemos no Tribunal de Nuremberg, criado para julgar os crimes nazistas, o grande modelo de tribunal internacional. Outros dois exemplos muito ricos e mais recentes são os tribunais criados para julgar os crimes de direito humanitário internacionalideais como justiça e solidariedade. A Teoria da Norma Pacta Sunt Servanda, proveniente da Escola Italiana de Direito Internacional, é a que mais conquistou adeptos, foi consolidada em definitivo (positivada) em 1969, na Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados (CVDT), e hoje é o entendimento predominante na doutrina mundial. Os Estados se submeteriam ao DIP em virtude dos princípios da boa-fé e da Pacta Sunt Servanda, que são os pilares do DIP, conforme se destaca no próprio preâmbulo da CVDT: Os Estados Partes na presente Convenção, Considerando o papel fundamental dos tratados na história das relações internacionais, Reconhecendo a importância cada vez maior dos tratados como fonte do Direito Internacional e como meio de desenvolver a cooperação pacífica entre as nações, quaisquer que sejam seus sistemas constitucionais e sociais, Constatando que os princípios do livre consentimento e da boa-fé e a regra pacta sunt servanda são universalmente reconhecidos, Afirmando que as controvérsias relativas aos tratados, tais como outras controvérsias internacionais, devem ser solucionadas por meios pacíficos e de conformidade com os princípios da Justiça e do Direito Internacional, Recordando a determinação dos povos das Nações Unidas de criar condições necessárias à manutenção da Justiça e do respeito às obrigações decorrentes dos tratados, Conscientes dos princípios de Direito Internacional incorporados na Carta das Nações Unidas, tais como os princípios da igualdade de direitos e da autodeterminação dos povos, da igualdade soberana e da independência de todos os Estados, da não intervenção nos assuntos internos dos Estados, da proibição da ameaça ou do emprego da força e do respeito universal e observância dos direitos humanos e das liberdades fundamentais para todos, Acreditando que a codificação e o desenvolvimento progressivo do direito dos tratados alcançados na presente Convenção promoverão os propósitos das Nações Unidas enunciados na Carta, que são a manutenção da paz e da segurança internacionais, o desenvolvimento das relações amistosas e a consecução da cooperação entre as nações, Afirmando que as regras do Direito Internacional consuetudinário continuarão a reger as questões não reguladas pelas disposições da presente Convenção. A CVDT, concluída em 23 de maio de 1969, já foi recepcionada pelo ordenamento jurídico pátrio por meio do Decreto n. 7.030, de 14 de dezembro de 2009, que a promulgou, com reserva nos arts. 25, que trata da aplicação provisória dos Tratados, e 66, que dispõe sobre o processo de solução judicial, de arbitragem e de conciliação. 1.2. DIP E DIREITO INTERNO O conflito entre leis, princípios e costumes é uma problemática muito comum em qualquer ordenamento jurídico e não é diferente quando tratamos de normas internacionais. Quando nos referimos à aplicação de normas internacionais ou ao conflito existente entre o DIP e o Direito Interno, logo nos vem à cabeça: qual é o direito mais importante? Qual deve prevalecer? Há um único ordenamento jurídico ou não? A sociedade internacional diferencia-se da ordem jurídica interna tanto sob o aspecto formal quanto sob a ótica material. Sob o ponto de vista formal, a diferença da sociedade internacional para a ordem interna baseia-se na sua estrutura, pelo fato de ali não existir um território determinado, dentro do qual vive certa população, coordenada por um poder soberano. Se comparada a população de um Estado com os Estados pertencentes à sociedade internacional, ver-se-á que, enquanto aquele deve submeter-se aos ditames provenientes do poder central existente no Direito Interno (a Constituição estatal e as leis que o Estado adote), estes últimos não se submetem senão à própria coordenação dos seus interesses recíprocos, sem qualquer relação de verticalidade entre eles, o que não significa que não haja qualquer sanção para os Estados faltosos em cumprimento das normas do direito das gentes. Tanto é assim que o art. 41 da Carta das Nações Unidas prevê que o Conselho de Segurança poderá adotar medidas destinadas a tornar efetivas suas decisões, nelas podendo incluir-se “a interrupção completa ou parcial das relações econômicas, dos meios de comunicação ferroviários, marítimos, aéreos, postais, telegráficos, radiofônicos, ou de outra qualquer espécie, e o rompimento das relações diplomáticas”, completando o art. 42 da mesma Carta que, caso tais medidas sejam inadequadas, o Conselho de Segurança “poderá levar a efeito, por meio de forças aéreas, navais ou terrestres, a ação que julgar necessária para manter ou restabelecer a paz e a segurança internacionais”, podendo tais medidas compreender “demonstrações, bloqueios e outras operações, por parte das forças aéreas, navais ou terrestres dos membros das Nações Unidas”15. Mazzuoli ainda completa a ideia dizendo que, do ponto de vista material, a sociedade internacional jamais se igualará à sociedade de pessoas (ou, até, à comunidade destas) no Direito Interno, uma vez que as matérias que disciplinam provêm de um conjunto de Estados com poderes soberanos limitados (em razão da própria ideia de descentralização), e não de uma vontade única eleita pelos seus sujeitos para reger-lhes a conduta (ou até mesmo a eles imposta, como no caso dos governos ditatoriais). O Direito Internacional e o Direito Interno, conforme exposto, muito diferem quando analisamos as esferas de Poder, a estrutura organizacional e algumas características das normas jurídicas emanadas de cada um. Porém, para melhor desenvolvimento desse tópico, esquematizamos abaixo o que entendemos ser os pontos mais importantes do Direito Internacional e do Direito Interno. Direito Internacional Direito Interno Poder Descentralizado. Na teoria, não existe um Estado mais importante do que o outro, que coercitivamente imponha sua vontade. Centralizado. O poder é indivisível, uno, e todas as normas são provenientes de um único ente. Estrutura Horizontal. Na teoria, por haver uma igualdade entre os Estados, todos possuem o mesmo patamar hierárquico. Vertical. A organização do Estado é hierarquizada. Há uma imposição funcional do Estado para com os seus súditos. Normas Consentimento. Em regra, a participação de um Estado nas normas internacionais é voluntária. Imposição. Não cabe ao cidadão escolher a qual lei irá obedecer. Coordenação. Os Estados agem em consenso, em grupo, e as decisões são em colegiados. A ideia é que a norma seja o mais abrangente possível para atrair o maior número de Estados. Subordinação. A pirâmide kelseniana bem explica essa estrutura escalonada, pois existe uma lei maior (Constituição) em que todas as outras normas se fundamentam. Criada pelos destinatários. Os próprios Estados que serão partes são quem elaborarão as normas. Criada por representantes. O povo elege representantes para que estes elaborem as leis que regulam o Estado. Duas teorias se desenvolveram durante os anos para explicar a relação entre o Direito Internacional e o Direito Interno: DUALISMO e MONISMO. Paulo Portela acrescenta que a definição acerca da relação entre o Direito Internacional e o Interno geralmente é feita dentro da Constituição de cada Estado. Cabe destacar que a prática internacional demonstra que os Estados, ao decidirem a respeito do relacionamento entre o Direito Internacional e o Interno, optam por uma dessas teorias, escolhem elementos de ambas ou, ainda, afirmam não se vincular a nenhuma delas. O Dualismo defende que o Direito Internacional e o Direito Interno formam duas ordens jurídicas totalmente distintas e independentes. Não haveria intersecção alguma entre os dois sistemas e, consequentemente, não haveria conflito. O Direito Internacional cuidaria exclusivamente das relações entre Estados, e o Direito Interno se responsabilizaria por seus indivíduos. Diante dessa divisão de competência, um tratado nunca poderia regular uma questão interna sem antes ser incorporado ao ordenamento pátrio por um procedimento legislativo do Estado que o transformasse em lei nacional(act of parliament). Assim, quando um Estado assinasse um tratado, p. ex., estaria assumindo responsabilidade somente na esfera do Direito Internacional, e, para que esse Tratado tivesse validade para os seus cidadãos, deveria ser “internalizado” conforme as leis determinadas por esse mesmo Estado. Importante destacar que como se defende a existência de dois sistemas autônomos, os Dualistas argumentam que não existe hierarquia entre o DIP e o Direito Interno. Os maiores nomes dessa corrente são Carl Heinrich Triepel (Alemanha) e Dionisio Anzilotti (Itália). No Brasil, foi defendida por Amilcar de Castro. Paulo Portela acrescenta ainda que autores como Yepes Pereira, Nascimento e Silva e Hildebrando Accioly defendem a existência do DUALISMO MODERADO, segundo o qual não é necessário que o conteúdo das normas internacionais seja inserido em um projeto de lei interno, bastando apenas a incorporação dos tratados ao ordenamento interno por meio de procedimento específico, distinto do processo legislativo comum, que normalmente inclui apenas a aprovação do parlamento e, posteriormente, a ratificação do Chefe de Estado, bem como, no caso do Brasil, um decreto de promulgação do Presidente da República, que inclui o ato internacional na ordem jurídica nacional16. O Monismo defende a existência de um único ordenamento jurídico que engloba o Direito Interno e o Direito Internacional. Os autores monistas partem de uma inteligência diametralmente oposta à concepção dualista, vez que têm como ponto de partida não a dualidade, mas a unidade (ou unicidade) do conjunto das normas jurídicas, internas e internacionais. Para a corrente monista, então, o Direito Internacional e o Direito Interno são dois ramos do Direito dentro de um só sistema jurídico. Trata-se da teoria segundo a qual o Direito Internacional se aplica diretamente à ordem jurídica dos Estados, independentemente de qualquer “transformação”, uma vez que esses mesmos Estados, nas suas relações com outros sujeitos de direito das gentes, mantêm compromissos que se interpenetram e que somente se sustentam juridicamente por pertencerem a um sistema jurídico uno, baseado na identidade de sujeitos (os indivíduos que os compõem) e de fontes (sempre objetivas e não dependentes - como no voluntarismo - da vontade dos Estados). Sendo assim, tanto o Direito Interno com o Direito Internacional estariam aptos para reger as relações jurídicas dos indivíduos, sendo inútil qualquer processo de incorporação formal das normas internacionais no ordenamento jurídico interno17. Nesse contexto, pode haver conflito entre normas internacionais e nacionais, e, a depender das normas internas de cada Estado, o país pode dar preferência às suas normas ou às estrangeiras. Os monistas se dividem em duas correntes: internacionalistas e nacionalistas. Os Monistas Internacionalistas defendem a unicidade do ordenamento jurídico sob o primado do Direito Internacional. Nesse caso, que teve Hans Kelsen como seu maior nome, a ordem jurídica interna se ajustaria à internacional. Os Monistas Nacionalistas, apesar de também defenderem a unidade da ordem jurídica, argumentam que esta se encontra sob o primado do Direito Interno de cada Estado soberano. Essa corrente, que somente encontrou algumas reproduções mais acentuadas na ex-União Soviética, defendia então que a adoção dos preceitos do Direito Internacional seria uma faculdade discricionária de cada Estado. Embora somente os doutrinadores soviéticos e alguns pouquíssimos estudiosos europeus tenham defendido a corrente monista nacionalista, é importante registrar que, paradoxalmente, essa corrente norteia os tribunais nacionais em inúmeros países capitalistas, democráticos e ocidentais, incluindo o Brasil e os Estados Unidos, quando os magistrados se deparam com a necessidade de julgar conflitos entre normas de direito interno e estrangeiro. Os maiores nomes do Monismo, dentre outros, foram Hans Kelsen e Alfred Von Verdross. No Brasil, grande parte da doutrina segue essa corrente, dentre os quais destacamos os nomes de Hildebrando Accioly, Vicente Marotta Rangel e Celso D. Albuquerque Melo. Conflito entre o Direito Internacional e o Direito interno DUALISMO Existem duas ordens jurídicas que não possuem intersecção e não se comunicam. Os ordenamentos jurídicos são independentes e autônomos. Radical - a norma internacional necessita de uma lei nacional para produzir eficácia no âmbito interno. Moderado - a norma internacional deve ser analisada pelo Poder Legislativo e referendada pelo Chefe do Executivo. MONISMO Existe um único ordenamento jurídico. Defendem a unicidade entre os ordenamentos internacionais e interno. Internacionalista - há a supremacia do Direito Internacional sobre o interno. Nacionalistas - prevalece o Direito Interno em detrimento do Direito Internacional, somente aplicado quando da vontade do Estado soberano. Certo é que o Brasil ainda não firmou sua posição jurídica de forma clara, o que se verifica por meio das normas constitucionais, das leis e dos julgamentos dos tribunais, que ora revelam uma tendência ao monismo internacionalista, ora ao monismo nacionalista. Entretanto, o STF vem se posicionando no sentido de que, principalmente depois da EC 45/2004, os tratados, para serem exigidos no Brasil, devem ser incorporados ao nosso ordenamento requerendo um ato complexo, que termina com a promulgação do decreto presidencial. Segundo o STF, depois de entrar no ordenamento jurídico brasileiro, o tratado internacional terá um dos três patamares abaixo indicados: 1. Emenda Constitucional - quando tratar de Direitos Humanos e for internalizado de acordo com o art. 5º, § 3º, da CF (Os tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos que forem aprovados, em cada Casa do Congresso Nacional, em dois turnos, por três quintos dos votos dos respectivos membros, serão equivalentes às emendas constitucionais), que exige a aprovação nas duas casas, por maioria qualificada, em dois turnos de votação. Exemplo: Decreto n. 6.949, de 25 de agosto de 2009 (Promulga a Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo Facultativo, assinados em Nova York, em 30 de março de 2007). 2. Supralegalidade - quando tratar de Direitos Humanos e não for internalizado de acordo com o art. 5º, § 3º, da CF, ou foi recepcionado por nosso ordenamento antes da EC 45/2004. Exemplo: Decreto n. 678, de 6 de novembro de 1992 (Aprova o texto da Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Pacto de São José da Costa Rica), de 22 de novembro de 1969. 3. Lei Ordinária - quando o tratado internacional não tiver como objeto principal a matéria de Direitos Humanos. Exemplos: Decreto n. 7.030, de 14 de dezembro de 2009 (Promulga a Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados, concluída em 23 de maio de 1969, com reserva aos arts. 25 e 66); Decreto n. 3.468, de 17 de maio de 2000 (Promulga o Protocolo de Assistência Jurídica Mútua em Assuntos Penais, assinado em San Luis, República Argentina, em 25 de junho de 1996, entre os Governos da República Federativa do Brasil, da República Argentina, da República do Paraguai e da República Oriental do Uruguai). http://legislacao.planalto.gov.br/legisla/legislacao.nsf/Viw_Identificacao/DEC%203.468-2000?OpenDocument 1.3. DIP E DIREITO INTERNACIONAL PRIVADO O Direito Internacional Privado (DIPr) é uma disciplina autônoma do Direito Internacional Público e cada vez mais importante num país que ganha projeção internacional e atrai mais estrangeiros e negócios de outros países. O objeto do DIPr, segundo a concepção francesa, que é a mais aplicada no Brasil, abrange quatro matérias distintas, que são: a nacionalidade, a condição jurídica do estrangeiro, o conflito das leis e o conflito de jurisdições. Jacob Dolinger18 explica que a nacionalidade cuida da caracterização nacional de cada Estado, das formas originárias e derivadas de aquisição da nacionalidade, da sua perda e reaquisição, dos conflitos positivos e negativos, ocasionando, respectivamente,a dupla nacionalidade e a apatrídia, dos efeitos do casamento sobre nacionalidade da mulher e das eventuais restrições aos nacionais por naturalização. A condição jurídica do estrangeiro versa os direitos do estrangeiro de entrar e permanecer no país; uma vez domiciliado ou residente no território nacional, trata de seus direitos no plano econômico (civil, comercial); social (trabalhista, previdenciário); público (funcionalismo); político (eleitoral), incluindo restrições que sofre em determinadas áreas da atividade humana. O conflito de leis versa sobre as relações humanas ligadas a dois ou mais sistemas jurídicos cujas normas materiais não coincidem, cabendo determinar qual dos sistemas será aplicado. O conflito de jurisdições gira em torno da competência do Judiciário na solução de situações que envolvem pessoas, coisas ou interesses que extravasam os limites de uma soberania. À competência jurisdicional internacional está ligado o tema do reconhecimento e execução de sentenças proferidas no estrangeiro. Então, o Direito Internacional será Público quando tratar de direitos e deveres do próprio Estado e de alguns personagens modernamente aceitos em suas relações, e será Privado quando tratar da aplicação a particulares, a residentes ou a transeuntes de um Estado de leis emanadas de outro Estado. Esta seria a definição mais básica e estática do DIPr. Entretanto, além da definição do objeto, o DIPr precisa ter suas normas entendidas sobre uma dupla perspectiva, a que Erik Jayme denomina “double coding”19, pois o intérprete deve atentar à finalidade e aos outros pontos atingidos pela norma. Estas, nunca são neutras, pois trazem em si, além do objetivo precípuo, uma proteção de valores, principalmente os de direitos humanos. Florisbal de Souza Del’Olmo afirma que a norma de DIPr contém três partes: objeto, elemento e consequência jurídica. O objeto de conexão é a matéria a que se refere uma norma indicativa ou indireta de Direito Internacional Privado, ocupando-se de questões jurídicas vinculadas a fatos ou elementos de fatores sociais com conexão internacional - como capacidade jurídica, nome de uma pessoa ou pretensões jurídicas decorrentes, por exemplo, de acidente de carro. O elemento de conexão é a parte que torna possível a determinação do direito aplicável - nacionalidade, domicílio e lex fori. Por fim, a consequência jurídica, que nem sempre é escrita, podendo ser subentendida, é a aplicação de um direito material20. A doutrinadora e professora Nádia de Araújo, na obra Direito internacional privado - Teoria e pratica brasileira21, cita um ótimo exemplo sobre como deve ser a aplicação atual do DIPr, que é a Convenção de Haia sobre adoção: a proteção do menor não pode ser vista só do ponto econômico, mas também do de sua identidade cultural. E mais, a ilustre internacionalista, define com precisão este novo momento: O DIPr, reduzido a um direito apenas de regras conflituais, fruto de um excessivo formalismo (com a norma de conexão atuando por um jogo predeterminado e caprichoso), está sendo superado pelo novos topoi (lugares-comuns) criados, e pelas soluções substanciais e flexíveis, surgidos na jurisprudência e na doutrina americana, posteriormente adotados na Europa. Esta orientação metodológica está comprometida com uma jurisprudência de interesses e valores, em favor de decisões que, ao solucionar o conflito de leis, não ignorem as consequências do caminho encontrado. Não é fácil pôr em prática esta maneira de pensar, através de jurisprudência informada por valores, pois o intérprete deve orientar seu labor interpretativo baseando-se nos princípios constitucionais e materiais extraídos das fontes legais. Essa jurisprudência está se construindo da perspectiva de um sistema nacional tendo como vértice a Constituição, mas partindo da universalização dos direitos fundamentais. O papel do juiz, como intérprete do ordenamento jurídico, na aplicação do DIPr, está condicionado não só às leis internas especializadas sobre a matéria (LICC e CC, no Brasil), mas também aos direitos humanos22. Importante observar que a denominação DIPr é imprópria porque é um Direito Interno e Público, já que é o Estado que determina como irá aplicar o Direito Estrangeiro. Essa denominação foi formulada por Joseph Story, professor da Universidade de Harvard e membro da Suprema Corte americana, em 1834, nos Estados Unidos, e popularizada na obra Traité de Droit International Privé (Tratado de Direto Internacional Privado) de Jean Jacques Gaspar Foelix, advogado alemão radicado em Paris, em 1843, na França. Hoje, os anglo-americanos preferem a denominação Conflict of Laws, que parece mais adequada, porém, a denominação Direito Internacional Privado já está consagrada em todo o mundo. No Brasil, conforme bem ensina Maristela Basso, uma das internacionalistas mais renomadas do país, a promulgação da Introdução ao Código Civil, de 1º de janeiro de 1916, que entrou em vigor em 1917, deu lugar ao primeiro sistema legislativo do DIPr brasileiro. Esta lei foi resultado do projeto apresentado pelo renomado jurista Clóvis Beviláqua, em 1899. O sistema de 1916 foi suplantado em sua totalidade pela promulgação da nova Lei de Introdução ao Código Civil (Decreto-lei n. 4.657, de 4 de setembro de 1942), ainda hoje vigente e de fundamental importância para o estudo do Direito Internacional Privado no Brasil. Em 2010, houve a promulgação da Lei n. 12.376, que passou a chamar o decreto de Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro (LINDB). Embora presente no Edital do Instituto Rio Branco, a Lei de Introdução ao Código Civil (LICC), até o ano de 2015, nunca foi cobrada em prova para o IRBr. Porém, diante de sua importância e das alterações trazidas pelo CPC/2015, acreditamos que esta situação poderá mudar e, por isso, trouxemos todos os artigos relacionados com o Direito Internacional Privado. Torna-se imperioso destacar, conforme veremos nos artigos da LINDB, que o Brasil adotou a doutrina da territorialidade moderada, ou seja, ora o princípio da territorialidade será aplicado, ora o da extraterritorialidade. No primeiro caso, a norma se aplica apenas no território do Estado que a promulgou (arts. 8º e 9º, da LINDB). Pelo segundo princípio, o da extraterritorialidade, os Estados permitem que em seu território se apliquem, em determinadas hipóteses, normas estrangeiras (arts. 7º, 10, 12 e 17 da LINDB). A LINDB traz em seus seis primeiros artigos normas de Direito Intertemporal. Desses, o único que teria maior relevância nesse momento seria o parágrafo primeiro do primeiro artigo, que amplia o prazo de aplicação, de início da obrigatoriedade (vacation legis), de uma norma brasileira de 45 dias para três meses nos Estados estrangeiros, quando admitida, depois de oficialmente publicada. O legislador pode modificar esse prazo, caso assim entenda, porém, obrigatoriamente, deve a lei conter esse prazo diferenciado expresso em seu texto. As normas de aplicação do Direito Internacional Privado são detalhadas entre os arts. 7º e 19º da LINDB e englobam procedimentos civis e comerciais. Abaixo, transcrevemos em sua íntegra e comentamos artigo por artigo, além de colacionar alguns importantes julgamentos e comparar os dispositivos com outros diplomas legais brasileiros. Art. 7º A lei do país em que domiciliada a pessoa determina as regras sobre o começo e o fim da personalidade, o nome, a capacidade e os direitos de família. § 1º Realizando-se o casamento no Brasil, será aplicada a lei brasileira quanto aos impedimentos dirimentes e às formalidades da celebração. § 2º O casamento de estrangeiros poderá celebrar-se perante autoridades diplomáticas ou consulares do país de ambos os nubentes. (Redação dada pela Lei n. 3.238, de 1º-8-1957) § 3º Tendo os nubentes domicílio diverso, regerá os casos de invalidade do matrimônio a lei do primeiro domicílio conjugal. § 4º O regime de bens, legal ou convencional, obedece à lei do país em que tiverem os nubentes domicílio, e, se este for diverso, a do primeiro domicílio conjugal.§ 5º O estrangeiro casado, que se naturalizar brasileiro, pode, mediante expressa anuência de seu cônjuge, requerer ao juiz, no ato de entrega do decreto de naturalização, se apostile ao mesmo a adoção do regime de comunhão parcial de bens, respeitados os direitos de terceiros e dada esta adoção ao competente registro. (Redação dada pela Lei n. 6.515, de 26-12- 1977) § 6º O divórcio realizado no estrangeiro, se um ou ambos os cônjuges forem brasileiros, só será reconhecido no Brasil depois de 1 (um) ano da data da sentença, salvo se houver sido antecedida de separação judicial por igual prazo, caso em que a homologação produzirá efeito imediato, obedecidas as condições estabelecidas para a eficácia das sentenças estrangeiras no país. O Superior Tribunal de Justiça, na forma de seu regimento interno, poderá reexaminar, a requerimento do interessado, decisões já proferidas em pedidos de homologação de sentenças estrangeiras de divórcio de brasileiros, a fim de que passem a produzir todos os efeitos legais. (Redação dada pela Lei n. 12.036, de 1º-10-2009) § 7º Salvo o caso de abandono, o domicílio do chefe da família estende-se ao outro cônjuge e aos filhos não emancipados, e o do tutor ou curador aos incapazes sob sua guarda. § 8º Quando a pessoa não tiver domicílio, considerar-se-á domiciliada no lugar de sua residência ou naquele em que se encontre. O art. 7º da LICC expressamente aceita o princípio da extraterritorialidade, portanto, admite a aplicação de normas alienígenas no Brasil. O dispositivo trata de regras do começo e do fim da personalidade jurídica, do estado civil, da capacidade, do nome e de outros temas de direito de família que importam ao Direito Internacional Privado. Quanto à personalidade, no Brasil, conforme determina o art. 2º do Código Civil, que se aplica ao estrangeiro somente quando domiciliado, diz que a personalidade civil da pessoa começa no nascimento com vida. Porém, a lei também põe a salvo, desde a concepção, os direitos do nascituro. Essa lógica tem reflexos em diversos ramos do direito porque pode alterar, por exemplo, a linha sucessória de uma pessoa quando um filho foi gerado antes de sua morte, mas ainda não nasceu. De toda sorte, nos assuntos relacionados com a personalidade, nome, capacidade civil e direito de família, o Brasil segue a extraterritorialidade e poderá aplicar uma norma internacional quando o estrangeiro for domiciliado em outro país, conforme preceitua a LICC. Portanto, quanto aos pontos mencionados, os estrangeiros somente serão regidos pelo Código Civil brasileiro se em nossas terras forem domiciliados. O Superior Tribunal de Justiça (STJ), em julgamento do Ministro Hélio Quaglia Barbosa (REsp 325587/RJ - DJ 24-9-2007) teceu objetivo comentário sobre a aplicação desse artigo quando afirmou: “Cuida o artigo 7º da LICC dos chamados conflitos de leis (‘direito internacional privado’), isto é, tem por objetivo definir qual a norma de regência, se a nacional ou a alienígena; inservível, pois, para definir a competência, ou não, da Justiça brasileira”. Portanto, serve ele para solucionar um conflito entre normas estrangeiras, alienígenas (termo proveniente da doutrina inglesa), e brasileiras. O § 1º traz importante ressalva ao caput do art. 7º quando determina que se o casamento for realizado no Brasil, seguirá as regras daqui para os casos de impedimentos ou quanto aos aspectos formais. Por exemplo, um muçulmano, já casado em seu país, não importando a quantidade de mulheres, não pode contrair núpcias aqui no Brasil, pois nosso ordenamento jurídico não permite, concomitantemente, a existência de mais de um casamento. Associando ao § 1º do art. 7º, destacamos o art. 1.514 do Código Civil: “O casamento se realiza no momento em que o homem e a mulher manifestam, perante o juiz, a sua vontade de estabelecer vínculo conjugal, e o juiz os declara casados”. Portanto, quanto a impedimento ou aspectos formais, não é possível realizar em território brasileiro casamento que não se submeta a legislação pátria. Os §§ 2º e 3º permitem que o casamento de estrangeiro no Brasil seja realizado perante autoridade diplomática ou consular do seu país e que os casos de invalidade desses matrimônios sejam de acordo com a lei do primeiro domicilio do casal. Assim, é possível a existência de alguma invalidade ser aceita sem que exista em nosso ordenamento. Chamamos a atenção dos candidatos para não confundir os casos de impedimento, que só aceita a legislação brasileira, com os casos de invalidade, que permite a extraterritorialidade. Para efeitos jurídicos, o domicílio é o lugar de residência permanente da pessoa ou do casal, onde ela exerce seus direitos e cumpre suas obrigações. Difere o domicílio da residência por ser esta o lugar em que a pessoa habita. Se tiver várias residências, onde viva alternadamente, qualquer delas será considerada domicílio (CC, art. 71). Enquanto a essência do domicílio é puramente jurídica, a da residência é meramente fática. O regime de bens dos nubentes será determinado de acordo com a lei de domicílio deles ou, sendo eles de países diferentes, a do primeiro domicílio do casal. O art. 1.639 do Código Civil, que será aplicado para aqueles domiciliados no Brasil, determina que seja lícito estipular, anteriormente à celebração do casamento, o que aprouver aos cônjuges sobre os bens. Porém, como veremos, a legislação limita essa liberdade quando um dos cônjuges é estrangeiro, justamente para que não haja prejuízo para este que, teoricamente, pouco conhece nossa legislação. O STJ, no REsp 123633/SP, publicado em 30-3-2009, manifestando-se sobre um casamento contraído na Áustria sob o regime de separação total de bens, alicerçou seu posicionamento no art. 7º, § 4º, da LINDB. A ementa assim esclareceu: “I. Apesar de o casamento haver sido contraído pelo regime da separação de bens no exterior, os bens adquiridos na constância da vida comum, quase à totalidade transcorrida no Brasil, devem se comunicar, desde que resultantes do esforço comum. II. Exclusão, portanto, do patrimônio existente em nome da viúva, obtido pelo labor individual, doação ou herança, incorporando-se os demais ao espólio do cônjuge varão, para partilha e meação, a serem apurados em ação própria”. Ainda alicerçado no art. 7º, § 4º, da LINDB, o STJ assim se posicionou quanto ao regime de bens em Ação Judicial na qual o casal possuía bens fora do Brasil, mas aqui era domiciliado: “Recurso Especial. Civil e Processo Civil. Direito Internacional Privado. Ação de Divórcio. Partilha de bens adquiridos na constância da união e, após, o casamento. Bens localizados no Exterior. Competência da Justiça Brasileira para a definição dos direitos e obrigações relativos ao desfazimento da instituição da união e do casamento. Observância da Legislação pátria quanto à partilha igualitária de bens sob pena de divisão injusta e contrária às regras de Direito de Família do Brasil. Reconhecimento da possibilidade de Equalização dos bens. Precedente. Dissídio Jurisprudencial. Ausência de similitude. Recurso Especial a que se nega provimento” (REsp 1410958/RS, Rel. Min. Paulo de Tarso Sanseverino, 3ª Turma, julgado em 22-4-2014, DJe 27-5-2014). O § 5º traz importantes considerações sobre a possibilidade de um estrangeiro já casado alterar o regime do casamento para o de comunhão parcial de bens. Observe que se torna necessário o ato de naturalização, pois a legislação terá sempre por objetivo dificultar golpes ou artimanhas que possam prejudicar a terceiros, mesmo que não nacional. Dessa forma, parte do pressuposto de que o estrangeiro que vai se naturalizar já tem razoável conhecimento do nosso país. No § 6º, o legislador tomou cuidado com a autenticidade dos divórcios realizados no exterior. O art. 1.571, do Código Civil, estabelece que o divórcio finda a sociedade conjugal, ou seja, existem muitas implicações com esse ato (por exemplo, mudança de estado civil e alteração na linha sucessória). Esse novo procedimento é todo feito no STJ (Superior Tribunal de Justiça), porém,