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Um caso de Reencarnação - Eu e Roberto de Canallejas 1. Início 2. À Guisa de Apresentação 3. Um Caso de Reencarnação Direitos autorais cedidos à Associação Editora Espírita F. V. Lorenz Spiritisma Eldona Associo F. V. Lorenz ISBN 978-65-990035-1-6 1. Reencarnação – Estudo de casos. 2. Espiritismo. À Guisa de Apresentação O presente volume enfeixa um relato que apareceu no órgão oficial da Federação Espírita Brasileira, Reformador, nos meses de setembro a dezembro de 1979. Sua autora foi uma das mais respeitáveis médiuns do Movimento Espírita Brasileiro – Yvonne do Amaral Pereira, cujas excelentes faculdades, cultivadas à luz do Espiritismo Cristão sob a assistência de Espíritos assaz venerados em nossos círculos, produziram uma leitura que não somente honra, sob todos os aspectos, a celeste Doutrina que a inspira, mas, principalmente, tem atingido o sagrado objetivo de seus autores espirituais, qual seja, o de instruir, edificar, moralizar, consolar, atrair os homens para a observância da Lei de Deus. Sobre o comovente relato que aqui reaparece em forma de livro nada precisamos dizer, pois é eloquente por si mesmo para convencer-nos das grandes verdades do Consolador prometido pelo Divino Mestre Jesus, dentre as quais avulta a reencarnação, como expressão da infinita misericórdia de Deus para conosco, as almas da Terra, invariavelmente curvadas sob o peso de infrações aos Códigos Divinos e, por isso mesmo, obrigadas aos testemunhos das inevitáveis reparações. Apraz-nos, também, nesta despretensiosa apresentação, chamar a atenção do querido leitor sobre o fato de que por intermédio de Yvonne A. Pereira, como aliás de todos os grandes médiuns no Brasil, os Espíritos Superiores, que conduzem o movimento espírita em nossa terra, consagraram a íntima, estreita ligação entre os ideais do Evangelho, do Espiritismo e do Esperanto, apontando-os como as colunas sustentadoras das construções do futuro, quando as sociedades ingressarão na Nova Era da vida universalista. A propósito dessa luminosa trilogia, recordemos o que sobre ela sentenciou o Espírito Abel Gomes, em comunicação ditada a Francisco Cândido Xavier em 30.08.1948, publicada em Reformador de novembro do mesmo ano e reimpressa naquele mensário em fevereiro de 1989: "A nossa senha aos companheiros ainda não sofreu alteração. Evangelho, Esperanto e Espiritismo constituem para nós outros, agora, uma trilogia bendita de trabalho para diversas encarnações. Com o Evangelho acenderemos nova luz na consciência coletiva, cooperando na missão redentora de que o Brasil se acha investido na revivescência do Cristianismo restaurado; com o Esperanto, abrimos novo caminho de fraternidade real entre almas e povos, para que o pensamento cristão consolide as suas diretrizes salvadoras nos mais variados setores do mundo, preparando o futuro milênio em bases mais justas de compreensão e solidariedade efetivas; com o Espiritismo descerraremos novos horizontes à visão geral, para que entendimento sadio prevaleça na mentalidade terrestre, em todas as fases evolutivas, inclinando as criaturas à dignidade humana e ao reconhecimento substancial da justiça que determina seja concedido a cada um de acordo com as suas obras. Segundo observamos, o programa é vastíssimo e requisita não somente entusiasmo do neófito, mas a coragem e a abnegação do apóstolo". Quarenta anos mais tarde, durante reunião do Conselho Federativo Nacional da FEB no ano de 1987, em Brasília (DF), os Espíritos acionam a vidência mediúnica de Divaldo Pereira Franco para exibir-lhe belo, sugestivo quadro a respeito dessa mesma trilogia, como noticiou o Reformador de fevereiro de 1989: “Divaldo presenciou também um quadro em que os Espíritos Ismael Gomes Braga, Francisco Valdomiro Lorenz, Estevina Magalhães, Abel Gomes e Porto Carreiro Neto apresentam uma faixa luminosa, na qual estavam na forma de um triângulo os três E – Espiritismo, Evangelho, Esperanto – agradecendo à FEB pela oportunidade de haver desfraldado a bandeira do Espiritismo Cristão, do Evangelho e do Esperanto, no último Congresso Universal (72o), evocativo do Centenário da mensagem de Zamenhof”. Agora, para finalizar, algumas palavras sobre a instituição que patrocina a edição deste livro, pequeno na forma, mas de amplíssimo alcance por seu conteúdo, como a confirmar o dito popular segundo o qual os melhores perfumes se encerram em pequenos frascos. A Spiritisma Eldona Asocio F. V. Lorenz (Associação Editora Espírita F. V. Lorenz), organização de esperantistas-espíritas devotados ao tríplice ideal EEE, foi fundada em 15 de dezembro de 1975 para divulgar o Esperanto entre os espíritas e o Espiritismo no seio da coletividade esperantista. Entre outras atividades, ela incluiu a edição de livros doutrinários em português para financiar suas edições em Esperanto e sustentar a distribuição gratuita a seus sócios do mundo inteiro, das obras espíritas vertidas ou produzidas originalmente na Língua Internacional Neutra. Os frutos têm sido compensadores, e dentre eles não podemos deixar de mencionar o surgimento de um ativo núcleo de divulgação do Espiritismo na Polônia. O volume que agora é dado a público cumpre essa finalidade. Além de reapresentar um substancioso texto de Yvonne A. Pereira, cujos direitos autorais foram gentilmente cedidos pela Federação Espírita Brasileira, ele certamente estará alegrando o Espírito da saudosa médium, cujo carinho pelo Esperanto pudemos testemunhar ao longo dos 20 anos de um convívio quase diário, pois revelará o poderoso efeito que o idioma e seus ideais exercem na tarefa, essencialmente evangélica e por isso mesmo espírita, de aproximar os corações humanos por sobre quaisquer diferenças, materiais ou espirituais. O leitor também poderá, hoje, desfrutar de um permanente contato com a fiel intermediária do Alto, lendo as obras Recordações da Mediunidade e Devassando o invisível, ambas editadas pela Federação Espírita Brasileira. Não temos dúvida de que, após o conhecimento dessas obras, o leitor estará irresistivelmente atraído para os demais livros de sua produção. Affonso Soares Um Caso de Reencarnação Nenhum outro interesse, a não ser o desejo de servir à Doutrina do Consolador enviado por Jesus, sob cuja proteção venho operando a minha reabilitação moral-espiritual, me impeliu a publicar estas páginas. Meu desejo único é testemunhar a veracidade da Doutrina dos Espíritos e – quem sabe? – consolar e reanimar corações que se viram colocados em situações dolorosas como as que me atingiram, transmitir-lhes a segurança, a fé e a esperança com que fui socorrida pela misericórdia de Deus e a proteção dos bons Espíritos, e dizer-lhes da realidade da mensagem que o alto concedeu à Humanidade através da Terceira Revelação – o Espiritismo. Estas páginas encerram, portanto, um testemunho, talvez o último que me foi necessário dar à lei de Deus nesta existência que tive, tão fértil em testemunhos de gêneros diferentes. Que o leitor me compreenda e jamais me acuse de vaidade por escrever este relatório. Em verdade, nesta minha vida, tão longa e atribulada, apenas fortalecida e consolada pela Doutrina Espírita, não tive tempo nem razões para alimentar vaidades de qualquer espécie. * * * Quem leu os livros mediúnicos que, mercê de Deus, eu recebi, ditados por nobres entidades do mundo espiritual, minhas protetoras, entre elas Adolfo Bezerra de Menezes, Charles e até mesmo Camilo Castelo Branco, certamente estará lembrando de uma personagem espiritual denominada Roberto de Canallejas. Vemo-la em Memórias de um suicida, citada pelo grande Camilo, convalescendo dos traumas perispirituais consequentes de um suicídio. Vemo-la em Dramas da obsessão, referida por Adolfo Bezerra de Menezes, de quem foi assistente auxiliar no mais belo trabalho de desobsessão de que me foi dado coparticipar até hoje. Vemo-la, principalmente, em Recordações da mediunidade, trabalho que traz o meu nome como autora, mas que, em verdade, foi redigido e orientado por Bezerra de Menezes e Charles, atravésse tratasse de uma outra dimensão, aquele local luminoso, se assim me posso expressar. Novo lapso de tempo sobreveio (não posso precisar se um ou dois meses), até ser favorecida com mais outra visita ao mesmo local luminoso, onde e quando me detinha na parte tempestuosa. Vi Z. P., sereno e satisfeito, sentado num banco de jardim, ou de parque, de estilo muito antigo, como de mármore, evocando o século XVIII. A menina saltitava pelo banco, a seu lado, e, por vezes, subia em suas pernas, abraçava-se ao seu pescoço, brincando alegremente, o que o fazia igualmente alegre. O quadro encantou-me, ao mesmo tempo em que me senti humilhada, ao passo que, na oportunidade, me perguntava se não seria preferível ignorarmos o que se passa em Além-Túmulo com os nossos seres amados... Dessa vez, porém, Z. P. não me viu, nem me saudou. Ambos – pai e filha –, certo, evocavam os dias felizes do passado, na Espanha, quando, nas horas de lazer, Roberto de Canallejas divertia os filhos. Eu, porém, não podia, não devia compartilhar dessas doces recordações, tão felizes, revendo o passado com eles. Traíra lar, compromisso conjugal, filhos... E agora seria necessário sorver o fel das consequências do meu crime até a última gota, sem queixas nem revoltas, apoiando-me na resignação, na paciência e na esperança que o Consolador enviado pelo Cristo de Deus me favorece. Pude sentir, como nunca, o paraíso que perdi com as ações más praticadas, e, contemplando aquele quadro, do qual não podia participar, pude orar agradecendo ao Pai o favor daquela visita, dura lição para mim, lembrando a terrível sentença do Evangelho: “Porque o Filho do homem há de vir na glória de seu Pai, com os seus anjos, e então retribuirá a cada um conforme as suas obras”. (Mateus, 16:27). A partir dessa data não mais visitei Z.P. nem mais o encontrei nessa região do Invisível. Sabia-o estar, no entanto, no meu local de trabalho, quando das preces iniciais. Senti-lhe a presença e a pressão das mãos sobre a minha cabeça e o meu rosto, por várias vezes, sem, contudo, lograr vê-lo, tal como acontece em sessões de contato. Pressenti-o ainda a meu lado, na escrivaninha, no dia em que iniciei a preparação do presente relatório. Ao que parece, estas páginas muito lhe interessam, pois, se não o tenho visto mais, entretanto, percebo-lhe as irradiações frequentemente, durante as orações e o trabalho espiritual, que faço diariamente. As visitas em corpo astral foram-lhe feitas no primeiro ano de sua desencarnação. No momento, tenho certeza de que esse Espírito amigo já não se encontra em ambientes terrenos, gravitou, por certo, para plano mais consolador, visto que lhe é necessário serenidade a fim de se refazer das provações sofridas e procurar progredir. E por isso ser-me-á mais difícil visitá-lo. De qualquer forma, sinto-me edificada com a misericórdia que o Alto me concedeu, a qual me veio consolar do muito que minha alma tem chorado sobre aquele passado tenebroso em que infringi um dos mais sagrados dispositivos da lei de Deus. É evidente que essas visitações feitas a Z. P. tiveram o beneplácito da lei que dispõe sobre o intercâmbio das relações entre as almas encarnadas e desencarnadas, excluindo, no caso, a ideia de privilégio. Não sou a única individualidade agraciada com esse favor. Como disse, trata-se de uma lei, e O Livro dos Espíritos no-la expõe com segurança. Somos, portanto, informados pelos livros doutrinários que, quando do sono do corpo, visitamos os entes amados falecidos e com eles confabulamos, desde que nos mantenhamos respeitosos e resignados ante a provação de, aparentemente, perdê-los, embora nem sempre nos recordemos dos fatos ao despertar. Ainda assim é o que nos encoraja a continuar a luta pelo existir, não obstante a mesma provação. O que é raro, difícil mesmo, é lembrar os encontros com a precisão e a certeza com que os lembro. Mas isso é uma particularidade mediúnica que tenho a ventura de possuir pela misericórdia de Deus, talvez para melhor me ajudar a vencer o calvário dos meus pecados. É igualmente evidente que tudo o que aqui é relatado foi preparado e assistido pelo Espírito Charles, pois sua presença nunca me faltou nessas ocasiões. Como meu pai que foi, ainda ontem, compassivo e caridoso, proporcionou-nos, a mim e a Z. P., esse refrigério, em vista do muito que já sofremos. Tenho certeza de que o meu pecado do século passado contra o lar e a família está resgatado. Custou-me, porém, um século e meio de trabalhos e sofrimentos morais. Creio, sim, nos ensinamentos doutrinários que nos asseveram que o amor é imortal e resiste aos séculos, à separação, às reencarnações, às impossibilidades, às dores, ao desespero, sublimando- se depois para o prosseguimento na Eternidade. O elo espiritual que me liga a Roberto de Canallejas, temperado por todas essas lutas seculares, fez-se sublimado agora com o comovente episódio da sua nova personalidade terrena como Z. P. * * * Vale aqui abordar um detalhe, para finalizar estas páginas, que, estou certa, muito interessarão aos pais e adolescentes. Muitos deles, senão todos, tristemente colocados em tão dolorosa provação – porquanto a morte carnal, na terra, ainda constitui provação e até expiação – muitos desses pais quereriam a certeza de que, no Além, após a própria desencarnação, encontrariam os filhos tais como os tiveram na vida terrena, isto é, pequenos, na idade com que desencarnaram. Ora, estou autorizada a declarar-lhes, por experiência própria, pela vivência que desde a infância tenho com fatos espirituais e Espíritos, e, ainda, com as declarações dos livros clássicos da Doutrina Espírita, que podem e devem alimentar essa certeza: os filhos, prematuramente desaparecidos da face da Terra, lhes aparecerão, no Além, tais como foram, pelo tempo que for necessário ou que quiserem, pois do contrário não se identificariam nem proporcionariam aos pais a recompensa pelo muito que sofreram. Logicamente, o Espírito não é infantil e as dimensões naturais do perispírito não são as de uma criança. No entanto, o poder e a liberdade de conservar a aparência perispiritual que desejar e que lhe for necessário, depende de sua vontade e de sua força mental, que têm grande poder sobre a estrutura maleável do corpo fluídico. E tal poder é lei, é condição do ser desencarnado, pois vemos que Espíritos de inferior categoria moral-mental- espiritual tomam formas por vezes assustadoras, repulsivas com que prejudicam e até obsidiam não só os seus irmãos encarnados, mais até mesmo os desencarnados. Essa liberdade é, pois, condicionada ao livre- arbítrio. O Espírito viveu numerosas vezes como homem ou mulher, progrediu, aprendeu e muitas vezes poderá ser mais amadurecido espiritualmente do que os próprios pais. É, portanto, adulto. Sabemos ainda que uma das particularidades magníficas desse corpo quintessenciado, cuja composição, segundo os clássicos do Espiritismo, participa de modificações sublimadas do fluido cósmico universal, do fluido magnético e do fluido elétrico, consiste em ter sua natureza expansível e restringível, ou seja, sobre modo maleável, alongando-se ou contraindo-se segundo a vontade e a força mental do princípio inteligente (Ver Allan Kardec – O Livro dos Espíritos e O Livro dos Médiuns; Léon Denis – O problema do ser, do destino e da dor; Gabriel Delanne – O Espiritismo perante a Ciência – e demais obras). Ora, em minha passada existência, sei que possuí uma filha pequenina, a quem muitas vezes ouvi que chamavam “Lelita”. Eu a vi por toda a minha adolescência e mocidade, e vários familiares meus igualmente a viam, em nossa casa. No ano de 1943, pedi a esse amado Espírito que não me aparecesse mais e fui atendida. Sua presença, assim constante, acarretava reminiscências dolorosas de um passado espiritual terrível, que muito me faziam sofrer. Nos dias atuais, no entanto – mais de um século após sua desencarnação e também a minha, da passada existência – revejo-a, agora no mundo espiritual, em companhia do “pai”, sempre a mesma, com os seus cinco anos, idade em que desencarnou.É evidente, visível, então, que – para que eu a identificasse e sentisse que sou por ela consolada pelo muito que sofri; que, caso típico de Espírito familiar, vem me ajudando na reabilitação da minha honra espiritual, teria que se apresentar com a forma que teve quando foi minha filha. Se se apresentasse adulta ou “crescida” segundo julgam alguns que acontece, deixar-me-ia, certamente, indiferente, ao passo que recebo a dádiva de revê- la tal qual era há mais de um século, valendo por benção tranquilizadora de que, efetivamente, resgatei o mau passado que vivi. E como na lei Deus não existem privilégios, os pais que viram partir os filhos pequeninos certamente também terão a ventura de encontrá-los tais quais foram quando seus filhos... pois, conquanto o Espírito não seja infantil, Deus o dotou com propriedades que o permitem tomar a forma que mais desejar, para consolo dos pais, até que o tempo passe e estes, integrados na lei, compreendam que, infantis ou adultos, o que realmente importa e edifica é o amor imortal que os unirá para sempre sob a face de Deus... 1. No livro Recordações da mediunidade existe esta mesma notícia, como se tendo passado em 1932. Trata-se, porém, de um lapso de datilografia. O ano em que tal acontecimento se passou foi, com efeito, 1931, como consta nos manuscritos ainda existentes.↩ 2. Nota do Editor: ataque, acometimento súbito.↩ Início À Guisa de Apresentação Um Caso de Reencarnaçãode intuições. Vemos o mesmo Espírito, mencionado por Charles, no livro Nas voragens do pecado, em existência anterior, sob o nome de Luís de Narbonne. Vemo-lo, depois, em O cavaleiro de Numiers, em encarnação posterior àquela, com o nome de Henri Numiers. Vemo-lo ainda no pungente caso O drama da Bretanha, sob o nome de Arthur de Guzman d’Evreux. E, finalmente, em meados do século XIX, com o nome de Roberto de Canallejas. Em verdade, não sei se este último nome seria, com efeito, a verdadeira identidade desse Espírito que foi o meu constante companheiro de lutas amorosas e quedas dramáticas através do tempo. Os Espíritos nem sempre revelam seus verdadeiros nomes e parece que, muitas vezes, ocultam mesmo a própria identidade, principalmente se, quando encarnados, foram conhecidos ou populares na sociedade em que viveram e ficaram marcados pela História. Desconfio, portanto, que esse nome – Roberto de Canallejas – nada mais é do que um pseudônimo que encobre uma personalidade ligada à literatura europeia, do século passado, e à medicina, pois como Espírito sempre fez literatura mediúnica comigo; só não ditou versos porque não possuo a especialidade mediúnica de versejar, e confessava haver sido médico em sua última existência. Concedia receitas, por meu intermédio e por mais dois médiuns receitistas, no antigo Centro Espírita de Lavras (hoje Centro Espírita Augusto da Silva), tanto homeopatas como alopatas, sempre com excelentes resultados; e, certa vez, ainda em Lavras, recuperou, em apenas alguns dias, a saúde de minha mãe, desenganada por quatro médicos, que lhe não puderam levantar o diagnóstico, receitando-lhe 12 cápsulas, de cuja composição não me recordo mais. Ao que parece, porém, sua especialidade era pediatria, pois foram notáveis as curas feitas por ele em crianças, com o tratamento homeopata. Não sei se já existia a pediatria em meados do século passado. O que sei é que esse amado Espírito era exímio em tratamento de criança e que foi médico espanhol abnegado, que perdeu a saúde no sacerdócio da medicina, porquanto foi também um dos pesquisadores do bacilo da tuberculose, o qual, por esse tempo, não fora ainda descoberto. (O micróbio da tuberculose – bacilo de Koch – foi descoberto em 1882 pelo médico alemão Robert Koch). Por grandes desgostos domésticos, Roberto, adquirindo a tuberculose durante esse humanitário serviço, deixou-se morrer sem procurar tratar-se, precipitou mesmo o próprio desenlace com visível desrespeito a si mesmo, o que o fez entrar em Além-Túmulo como reincidente no suicídio, visto que, como Henri Numiers, no século XVII, cometera essa terrível infração à lei de Deus. Ora, o Espírito Roberto de Canallejas exerceu poderosa influência em minha presente vida, e estou bem certa de que em minhas vidas anteriores também. Foi ele o meu esposo incompreendido e desprezado de minhas passadas existências. Eu o via diariamente, por assim dizer, desde os meus quatro anos de idade, como citado na obra Recordações da mediunidade, conhecida por grande número de leitores. Influiu de tal forma em minha vida, durante a minha juventude, que, dos quatorze aos dezesseis anos de idade, chegou a obsediar-me, demonstrando sempre excessiva ternura, muito humana para um Espírito desencarnado havia tanto tempo. Retirava- me do corpo frequentemente, mesmo durante o dia, permanecendo eu em transe, por assim dizer, cataléptico, durante várias horas. Nunca me foi permitido recordar o que se passava nessas fugas que me impunha. Tudo isso, porém, afetou profundamente o meu estado de saúde física e psíquica. Foi então que, a pedido de minha mãe, houve a interferência providencial de Zico Horta, antigo presidente da Associação Espírita Bittencourt Sampaio, de Barra Mansa, Estado do Rio de Janeiro, falecido no ano de 1947. Roberto foi, assim, fraternalmente aconselhado a se deter no seu assédio amoroso junto a mim, conformando-se , então, com a separação, que seria necessária ao equilíbrio espiritual dele próprio e à recuperação dos meus erros contra ele. Sempre bondoso e paciente, dizia que me perdoara tudo, desde muitos anos antes, e não havia necessidade de que eu sofresse punições pelo que lhe fizera. Finalmente, concordou em afastar-se de mim, em meu próprio benefício, e durante alguns anos não o vi nem o pressenti ao meu lado. Embora não fosse uma entidade propriamente adiantada, iluminada, por muito presa ao passado, que lhe fora caro até certa época, era, contudo, um caráter liberal, prestimoso, honesto, escravo daquilo que entendesse por dever, além de amoroso e apaixonado. Fora, porém, suicida, levado pelos grandes desgostos domésticos, a morte de uma filha de cinco anos de idade, a quem muito amava e a quem comunicara a tuberculose, por ele adquirida durante as pesquisas para a descoberta do micróbio da terrível doença, pesquisas que apaixonaram os médicos do mundo inteiro, no século passado. Passei, então, algum tempo, sem a menor notícia desse querido companheiro de vidas passadas. Cheguei mesmo a sentir saudades dele e tudo me fazia lembrá-lo, como se o tivesse perdido na véspera, pois se outrora eu o ofendera com uma traição, agora sentia que o meu arrependimento era profundo e que o amava muito, e me dispunha a tudo sofrer a fim de expiar o deplorável pecado, merecer de Deus o perdão e recuperá-lo para o meu amor. Mas nunca pedi notícias do seu Espírito a nenhum médium, a nenhum Guia Espiritual e nem mesmo ao Criador, compreendendo que nada merecia e que ele necessitava serenidade e paz a fim de progredir. Apenas orava, aconselhada por Zico Horta, e chorava, pedindo o perdão do Pai. Em tais condições, sofrendo conscientemente pelo erro cometido em vida anterior, erro que eu conhecia, pois Charles, o meu amado pai da mesma época, e o próprio Roberto não mo deixavam esquecer – dediquei-me à Doutrina Espírita na primeira juventude, ansiosa por conhecê-la quanto possível e fortalecer-me para as provações, os testemunhos que, eu sabia, viriam com intensidade. Não me atemorizei diante de tais perspectivas, por isso que desde a infância vinha recebendo noções preciosas da Doutrina Espírita. Meu pai – o atual, Sr. Manoel José Pereira – ministrava aos filhos ensinamentos evangélicos e espíritas duas vezes por semana, uma espécie de culto do Evangelho no lar, baseando-se em O Evangelho segundo o Espiritismo e O Livro dos Espíritos , de Allan Kardec, o que muito beneficiou a todos nós, pois abraçamos tais ensinamentos para sempre, com respeito e fervor. Os protetores espirituais, entre outros Bittencourt Sampaio, Bezerra de Menezes e Charles, ao que parece, iniciaram a minha reeducação à base do Evangelho e Doutrina Espírita, porquanto, apesar de reincidente em erros muito graves, diziam que, se perseverasse na fé e me conservasse sensível à sua direção, venceria, por ser eu, já, um espírito profundamente arrependido, disposto à emenda. Então, submeti-me a tudo. Foi Bittencourt Sampaio o primeiro a predizer-me que jamais contrairia matrimônio. Que viera ao mundo apenas para testemunhos de reabilitação e trabalhos doutrinários. Mas, como toda jovem, desejei casar-me, não obstante o respeito devido aos conselhos dos Guias e à memória de Roberto de Canallejas. Mas foram infrutíferas todas as tentativas, as quais muito afligiam a Charles e ao próprio Roberto. Sofri, então, e fiz sofrer a outrem, mas, se sofri, de mim mesma foi a responsabilidade, pois fora avisada de que não tentasse o matrimônio: eu não o merecia. * * * Como todos sabem, eu via o Espírito Roberto e com ele falava desde a primeira infância. Nunca me foi dado lembrar do que tratavam as nossas frequentes conversas, não obstante as mesmas ocorrerem durante a vigília. Lembrava-me somente da imensa bondade e ternura com que me falava, o que me fazia bem, e por isso me aquietava, pois fui criança infeliz e sofredora, justamente por me recordar dos seres amados da vida anterior, agora ausentes de minha presente vida. Ao atingir os doze anos, essa entidade amiga fazia-me escrever longamente, mas não assinava. Produzi entãopequenas crônicas de fundo moral e contos muito objetivos, trabalhos impossíveis de serem produzidos por uma criança dessa idade. Assim prossegui até aos dezesseis anos. Algumas dessas produções, devidamente corrigidas, foram publicadas em jornais do interior e em uma antiga revista feminina do Rio de Janeiro, com o meu próprio nome. Mas eu sabia que não eram de minha autoria, pois via Roberto frequentemente a meu lado fazendo-me escrever; não pensava nem meditava para esse fim, apenas escrevia sofregamente. Mais tarde explicou ele que me preparava para futuros desempenhos no campo de literatura espírita. O receituário, porém, verificou-se muito mais tarde, depois que assumi responsabilidade no antigo Centro Espírita de Lavras, o primeiro em que trabalhei como médium, autorizada pelos Guias Espirituais: Bittencourt Sampaio, Bezerra de Menezes e Augusto José da Silva, este último, patrono do Espiritismo em Lavras e em toda a sua imensa região, os quais ainda hoje me dirigem e protegem, ao lado de Charles e outros amados amigos da Espiritualidade. Conto, pois, agora, em 1978, 52 anos de mediunidade ativa e responsável, mas, como se vê, muito antes eu já escrevia mediunizada por esse Roberto de Canallejas, sem responsabilidade e sem mesmo haver passado por sessões de desenvolvimento mediúnico, às quais nunca assisti. Uma vez afastado de mim pela ação de Zico Horta, em minha adolescência, deixei de ver Roberto. Passado algum tempo, no entanto, o destino levou-me para Lavras, onde vivi seis anos, com meus pais e irmãos. Na primeira semana que ali passei (período de 1924/25), sem conhecer ninguém, fui convidada por uns vizinhos, também espíritas, para uma sessão de materializações de Espíritos desencarnados, na residência da médium Zulmira Custódia Teixeira da Silva, excelente médium que fazia da caridade o esteio protetor da sua faculdade. Nessa noite tive, então, a surpresa de rever ali, na penumbra da pequena sala, a materialização do amado amigo de tantos séculos, tal como o via durante a infância e na adolescência. Era o mesmo, apenas um pouco mais sereno e resignado, triste como outrora, pois sempre foi um Espírito triste, com aparência “física perispiritual” um tanto doentia, conservando, assim, as impressões da antiga tuberculose que sofrera ou operando em si mesmo a chamada “regressão da memória” a fim de melhor identificar-se. Falou-me com a costumeira ternura, dizendo-me que era e seria o “amigo de sempre”, e convidou-me a trabalhar com ele mediunicamente, pois desejava escrever, por meu intermédio, trechos de algumas de nossas vidas passadas. Ao desfazer a materialização, transfigurou os meus próprios braços nos dele, de forma que me vi, em plena assistência, com braços de homem, tão intensamente luminosos que clareou a pequena sala, a todos surpreendendo. A médium Zumira trabalhava como a célebre médium Elizabeth d’Espérance, isto é, fora da cabina, de forma que a assistência, sempre diminuta, podia presenciar até mesmo o ectoplasma desprender-se dela e modelar a materialização. Ela apenas vestia-se de um roupão negro e velava o rosto com um pano igualmente negro. A partir dessa data, Roberto de Canallejas entrou a trabalhar comigo persistentemente. Concedia mensagens sobre suicídio, trazia Espíritos de suicidas não só às sessões do Centro Espírita de Lavras, como às de quaisquer outros, públicas e particulares, onde eu trabalhasse, a fim de se comunicarem comigo ou com outros médiuns presentes, e avisou-me de que eu receberia um tratado clássico sobre o suicídio, ditado do Além, coisa a que não dei muito crédito. Por esse tempo, pouco se falava em suicidas e nem mesmo preces eram proferidas em intenção dos mesmos. Roberto pedia essa caridade para tais infelizes, os maiores sofredores do Além- Túmulo, em sua opinião. Defendia a causa deles e, um dia, disse-me numa comovente mensagem psicográfica a mim dirigida: “Eu, que fui um desses, valho-me de ti, que tanto amei, para pedir por eles e ajudá-los...” Aquiesci a tudo e observava as suas recomendações com humildade, respeito e muito amor. E de outra vez escreveu, tão humanamente amoroso, que me confundiu: “Era assim que eu queria ver-te outrora: Submissa a mim, passiva, obediente, amorosa, cooperando nos trabalhos que realizei. Mas infelizmente não quiseste...” Quando realizamos, em Lavras, a memorável sessão de desobsessão, descrita em Dramas da obsessão por Bezerra de Menezes, então espiritualmente dirigida por Bittencourt Sampaio, coadjuvado pelo próprio Bezerra e Augusto Silva, este, diretor espiritual do Centro, Roberto teve tal desempenho em torno do acontecimento, inclusive confortando e orientando, mais tarde a família do suicida “Leonel”, que subiu de posto na hierarquia espiritual, se assim me posso expressar, obtendo, só então, autorização para receitar, como médico que fora em sua última existência, na Espanha. Desde então intensificou-se o nosso trabalho e ele se confessou satisfeito. Portava-se como dedicado médico, que em tudo pensava, prescrevendo até mesmo a alimentação do doente. Iniciou, então, o ditado de dois livros, começando pelo último para atingir o primeiro, dizendo tratar-se de duas existências assaz dramáticas que tivemos juntos, como sempre. Esses livros foram: O drama da Bretanha e O cavaleiro de Numiers, ambos sequência do livro ditado por Charles muito mais tarde – Nas voragens do pecado –, que é, pela ordem, o primeiro dessa trilogia dramática, todos publicados pelo Departamento Editorial da FEB. Mas, ao ditar esses dois primeiros livros, o Espírito Roberto afligia-se muito, sofria mesmo, porquanto seria necessário extrair da própria consciência cenas excessivamente dolorosas para ele, vivê-las novamente, padecer trechos cruéis do próprio passado, o que era penosíssimo para nós ambos, visto ele comunicar a mim as impressões revividas e eu as sofrer com ele, além de sofrer as minhas próprias, que igualmente se agitavam e intensificavam ao seu contato. Creio mesmo que Roberto não possuía condições psicológicas para tal trabalho, apesar de ser um intelectual. Não havia obrigatoriedade, por lei, para que ele o fizesse. Tratava-se apenas de um ato voluntário dele, o desejo de reviver em mim as consequências funestas dos meus erros então praticados, favorecendo-me o arrependimento. No entanto, ele deveria preparar-se para a reencarnação e não terminou a obra porque viera ordem superior, trazida por Bezerra de Menezes, para que se detivesse nesse labor. Os referidos livros estiveram, portanto, inacabados durante quarenta anos, e só depois que concluí a minha tarefa, ou o meu compromisso, relativamente aos livros, foi que Charles apresentou-se a fim de terminá-los, dando-lhes nova direção, sendo publicados em seguida. Faltava, no entanto, o último volume da série, que seria a nossa existência na Espanha, no segundo quartel do século passado, essa dramática existência de reincidências nos mesmos erros, que me havia de marcar a consciência, e cuja lembrança infelicitou a minha infância, decidindo-me, de então por diante, à emenda através da reeducação favorecida pela Doutrina do Consolador. Roberto acabara por afirmar não sentir forças bastantes a fim de escrevê-la; encontrava-se ainda moralmente contundido por aquelas amargas recordações e Charles predispôs-se a fazê-lo; possuía fortaleza moral suficiente para realizar o feito, mesmo porque desejava que eu não a esquecesse totalmente, com vistas à minha recuperação moral. Mas Bezerra de Menezes, caridosamente, interferiu e não consentiu, declarando que não havia necessidade de mais esse volume e que nem seria preciso que eu sofresse mais essa humilhação: já me encontrava decidida à emenda e ao Consolador faria o de que mais necessitasse. E os episódios da Espanha não foram escritos. Charles obedeceu. Apenas alguns dados foram liberados pelo próprio Bezerra a fim de serem descritos em Recordações da mediunidade, como contribuição para instrução doutrinária. Durante sete anos assim trabalhei com o amado Espírito, companheiro dos séculos passados,que progredira muito, e participava comigo de trabalhos variados, sob a direção de entidades mais evoluídas do que ele, dentre os quais Bittencourt Sampaio, Bezerra de Menezes, Augusto Silva, Padre Vitor, Eurípedes Barsanulfo, Charles e ainda outros, e tanto atendia ao receituário como à desobsessão, a ditados conselheirais, psicografados, como à assistência a suicidas e aos moribundos, a quem, junto a mim, ajudava na hora extrema. Era visto pelos videntes, que mo descreviam tal como eu mesma o via em minha infância. Era, enfim, em minha casa paterna, o Espírito familiar, por todos querido, qual uma pessoa da família. * * * Entrementes ele continuava com o velho hábito de retirar-me do corpo, provocando como que o sono hipnótico, e levava-me em sua companhia para o Além-Túmulo. A última vez que tal fato se verificou foi em novembro de 1929. A noite toda mantive-me vencida pelo sono hipnótico, como que em estado cataléptico. Ao regressar, porém, pelo amanhecer, acompanhada por ele não pude retomar o corpo. Uma debilidade extrema impedia-me de fazê-lo. Faltavam-me forças. Por sua vez, Roberto não conseguia habilidades ou virtudes magnéticas necessárias a fim de me auxiliar na difícil situação, que me poderia levar ao desprendimento total, isto é, à morte do corpo, pois bem certo era que ansiosa por isso estava eu. Por várias horas contemplando o meu corpo estirado sobre o leito, frio, enrijecido, como morto, vi os esforços por ele tentados a fim de me reviver. Aflito, perturbava-se, sem nada conseguir. Finalmente, vi-o orar com veemência, suplicando o socorro do Alto com as mãos entrelaçadas em prece e a fronte erguida para o Além. Quase imediatamente apresentou-se Bezerra de Menezes revelando preocupação, quase contrariedade. Fez, então, uma como advertência, uma repreensão significativa a Roberto, sem que me fosse possível apreender o fraseado por ele usado, erguendo a mão direita, com o indicador em riste, como admoestando-o. Em seguida, o nobre servo do Senhor, verdadeiro nome tutelar de todos nós, esse apóstolo do Bem, espalmou a mão esquerda sobre a cabeça do meu corpo espiritual, que se mantinha à beira do leito, e a direita sobre a cabeça do meu corpo físico adormecido. Imediatamente deu-se a ligação, e eu recobrei a consciência já na posse do corpo – exatamente como fazemos nos trabalhos de desobsessão, quando transferimos o obsessor do obsediado para o médium a fim de ser esclarecido. Mas, despertei por fases, lentamente, recuperando-me do sono hipnótico que Roberto provocara. No dia seguinte, sentindo-me adoentada, não pude comparecer ao Centro para cumprir as tarefas mediúnicas, e precisei de algum tempo a fim de me recuperar completamente. Nunca mais Roberto ousou provocar esse sono perigoso, com o intuito de me levar em visita à nossa região do mundo espiritual. Em janeiro de 1930, transferi minha residência para Barra do Piraí, pequena cidade do Estado do Rio de Janeiro, e, até hoje (julho de 1978), não voltei mais a Lavras. Eu vivia embalada por uma felicidade íntima, espiritual, muito grande, estudando devotadamente a Doutrina, trabalhando em vários setores mediúnicos e doutrinários, bondosamente assistida pelos Guias e os irmãos de crença da cidade, certa do amor e do perdão daquele magnânimo Roberto, que me dava todos os testemunhos possíveis de dedicação espiritual. Mas havia uma nuvem de apreensão a incomodar-me: ele preparava a própria reencarnação, que não mais poderia ser protelada. Ansiava – dizia ele – dar os testemunhos que precisava dar, no plano terreno, a fim de conseguir paz e serenidade para trabalhos decisivos. Por essa época, trouxe-me o Espírito da filha que tanto amara, nossa filha, na existência anterior. Comecei então, a vê-la frequentemente, tal como outras pessoas da casa. É possível que Roberto assim agisse para meu consolo, depois de sua reencarnação, pois certamente saberia também que a morte dessa criança fora o móvel principal do meu suicídio, em Portugal, porquanto meus erros, naquele passado, precipitaram o desaparecimento da filha querida. Tratava-se de uma linda criança de cinco anos de idade, e que se deixava ver tal como fora em sua época. Eu ouvia que a chamavam “Lelita”, talvez um diminutivo do prenome Leila. Mas um outro médium, portador da qualidade de captar nomes de entidades desencarnadas desconhecidas, com autenticidade, o que não é fácil para a grande maioria dos médiuns, garantiu-me que o diminutivo seria antes “Lalita”, pois ouvira-o do próprio Charles, quando este mandara-me um recado dando-me notícias da mesma entidade. A presença desse gentil Espírito se, por um lado, muito me edificava, por outro, afligia-me bastante, pois eu experimentava sentimento de culpa diante dela e, arrependida do que praticara, compreendia o paraíso que perdera menosprezando, outrora, aquele esposo ideal e aquela filha angelical pelas ilusões do mundo. Durante doze anos essa entidade deixou-se ver em nossa casa, qual se fora uma pessoa da família recentemente desencarnada. E, como se tratava de um lar espírita, chamavam-na de “minha filha”. Eu sentia, intimamente, que, efetivamente, era minha filha por laços espirituais, um poderoso elo moral-espiritual entre mim e Roberto, pois desde muito antes os lances desse drama, revelados por ele próprio e Charles, quando dos meus desprendimentos espirituais, ou seja, “regressão da memória”, por eles próprios provocada, durante a qual eu revia as cenas por mim mesma vividas, como mais tarde reviveria as dos romances recebidos do Além. Os meus livros Amor e ódio e Nas telas do infinito, escritos no Colégio Ismael, dependência do Grêmio Espírita de Beneficência, de Barra do Piraí, tiveram essa criança como assídua assistente espiritual. Frequentemente eu a via à cabeceira da escrivaninha onde escrevia: o queixo encostado à mesa do móvel, em atitude discreta e humilde, juntamente com Charles ou Camilo, autores espirituais daqueles volumes, respectivamente. Isso martirizava-me, ao mesmo tempo que me consolava e exaltava o coração, pois não me era possível abraçá-la, beijá-la, tomá-la nos braços como do meu desejo. Talvez também eu até mesmo me envergonhasse em sua presença, ou de sua presença. E quantas reminiscências daquele passado dramático desbordavam da minha subconsciência, como intuições, quem sabe se provocadas por suas vibrações?! Ao fim de doze anos, estando Roberto já reencarnado, isto é, pelo ano de 1943, não aguentei mais. Orei fervorosamente e pedi a ela, em lágrimas, que não me aparecesse mais, enquanto agradecia a caridade que me fora dispensada. Era uma situação anormal viver assim em dois mundos, entre o presente e o passado, que se conflitavam em minha alma e me afligiam o coração, pelo menos assim o pensei e senti. A partir desse dia não mais a vi... a não ser agora, 1978, tantos anos depois, quando a revejo da mesma forma, infantil, não tão condensada, como antes, mas durante os “passeios” em Além-Túmulo, nos transes de desdobramento em corpo astral, que vagas lembranças deixam. * * * No dia 10 de março de 1931, em Barra do Piraí, à noite, eu terminava o expediente de receituário e atendimento aos sofredores, em minha residência, e revia trechos ditados, desde Lavras, pelo Espírito Roberto de Canallejas do livro O cavaleiro de Numiers, o qual, então, trazia como título A tragédia da Quinta Numiers, mais tarde substituído, por Charles, por aquele primeiro título. Roberto deixava-se ver, como de hábito, triste, amargurado. Terminado o receituário, continuou visível enquanto fiz a prece de encerramento. Então perguntei, vendo-o um tanto indeciso: – O que mais há, meu amigo? E ele respondeu, um tanto perturbado: – Venho despedir-me1. Não poderei me comunicar mais... Preciso reencarnar, conforme venho declarando; não posso protelar por mais tempo esse dever. Desejei reencarnar em tua família, mas não obtive permissão... Irei então para muito longe... Mas na primeira oportunidade que tiver te darei um sinal. Ora por mim. Adeus! Despediu-se também no Centro Espírita de Lavras, onde tantotrabalhara e fora tão amado, e pediu preces. A sua outra médium, daquela cidade, pela época jovem de vinte e dois anos de idade, ainda vive e por ela oro até hoje. Como é fácil compreender, essa despedida feriu-me como se, realmente, eu tivesse perdido para sempre o amigo amado, cuja dedicação, como Espírito, tanto consolara e beneficiara a minha vida e meu trabalho mediúnico. Sofri e chorei, considerando a reencarnação fato mais doloroso do que a desencarnação. Tive a sensação de que o perdera para sempre e que aquele amor tão santo, tão antigo, desfazia-se sem deixar esperanças. Restavam-me, porém, o sempre bem-amado Bezerra de Menezes, o não menos amado Charles e a menina – Lelita, ou Lalita – a filha que ele me trouxera e a qual eu veria a meu lado até o ano de 1943. * * * A partir daquela data, porém, da reencarnação de Roberto, modificou-se tudo em minha vida. Embora continuasse realizando minhas tarefas mediúnicas em vários setores doutrinários, fui chamada aos testemunhos e comecei a sofrer mais, muito mais do que até ali sofrera. Dificuldades de toda espécie, decepções, desilusões mesmo no círculo familiar, humilhações que me abatiam sem tréguas nem piedade, tudo investia contra mim, até mesmo tentações mundanas – causa da minha perda no passado. Transferi- me para o Rio de Janeiro em novembro de 1943, onde a avalancha de sofrimentos recrudesceu, pois eu vivia, por assim dizer, só; com meus pais já desencarnados, não mais me era possível, pela ocasião, viver sob o teto de outros familiares. Meu consolo, a força para tudo suportar e vencer, era compreender que tantas lutas eram resgates do meu mau passado, e o amparo fornecido pela amada Doutrina Espírita, no seio da qual eu me criara e educara. Nunca me senti desfalecer de desânimo ou desesperança. Via, frequentemente, pela madrugada, às vezes à beira do meu leito, os Espíritos de minha mãe e de Charles, os quais diziam: – Resiste, resiste, minha filha! Tudo isso é testemunho que precisas apresentar à lei de Deus, a fim de reaver tua honra espiritual, é resgate de um passado de erros. Estaremos contigo, confia em Deus! Não obstante tão árduas lutas, continuei obtendo livros ditados do Além. Léon Denis apresentou-se a fim de rever e melhorar, doutrinariamente, o Memórias de um suicida – o tratado clássico anunciado por Roberto, quando mais intensos e humilhantes eram os meus sofrimentos. Não desejo aqui relatar as peripécias por que passei durante esse longo período de provações – seria fugir ao tema destas páginas. Mas meus padecimentos teriam-me levado ao desespero, não fora a proteção da Doutrina Espírita, que sempre veio em meu socorro e reconforto. Em novembro de 1955 começaram a sair os meus livros, publicados pela editora FEB. A proporção que saíam, meus sofrimentos diminuíam e os testemunhos deixavam de ser tão rigorosos. Senti-me, pois, mais aliviada a partir da publicação dos primeiros livros. O convívio fraterno e carinhoso que recebi da FEB foi o amparo celeste que me acolheu e realizou, a tal ponto que passei a considerá-la a “minha casa paterna”. Eu já não pensava em Roberto de Canallejas. Creio que nem mesmo orava mais por ele. Às vezes, lembrava-me da época em que com ele trabalhava mediunicamente. Mas era apenas uma saudade despertada pelas citações a seu respeito, feitas em alguns livros pelos amados Protetores, ditados por meu intermédio. As lutas sofridas, os trabalhos da vida e os serviços espirituais; a presença de novos amigos do Além, tais como Fred. Chopin, Camilo Castelo Branco, Léon Tolstoi, e outros, que sofriam e me solicitavam auxílio em nome de Jesus, empanaram a antiga emoção suscitada pela atuação de Roberto. * * * Em 1962-63 Léon Tolstoi ditou-me o seu livro Ressurreição e vida. Quatro, dentre os contos que formariam esse volume, não puderam ser incluídos no mesmo, a fim de não tornar a obra demasiadamente extensa. Foram, então, postos de quarentena, até que pudessem ser aproveitados para o volume Sublimação. Justamente o segundo capítulo desse livro – Amor Imortal – narra um drama de amor onde se destacava o idioma universal Esperanto como o elo de reaproximação de duas almas separadas por uma reencarnação punitiva. Já Bezerra de Menezes, em 1956, me havia ditado A tragédia de Santa Maria, onde igualmente aparece o Esperanto como elo de aproximação de duas criaturas que se haviam amado em existência anterior, mas agora, no século XX, se encontravam reencarnadas em países diferentes. Mais tarde, graças à sequência dos acontecimentos em minha vida, meus familiares me advertiram de que esses dois livros seriam uma profecia, um aviso com que os meus amigos espirituais, gentil ou caridosamente, me quiseram favorecer, pois que, efetivamente, todos os acontecimentos importantes de minha vida me foram prenunciados. Mas, então, nenhuma intuição fez estremecer meu coração. Fiquei indiferente diante desses livros, apenas reconfortada por ambos terem sido bem recebidos pelo público. Não obstante, algum tempo depois da reencarnação de Roberto de Canallejas, comecei a sentir acentuado interesse pela Polônia, país longínquo, situado no outro extremo do mundo. Como Fred. Chopin começou a me aparecer exatamente no ano de 1931, supus que meus pensamentos se voltavam para aquele país motivados por esse encantador Espírito, cuja nacionalidade terrena fora, realmente, polonesa. Assim pensei durante vários anos, sem que quaisquer intuições me viessem surpreender. Arrasada, massacrada durante a última guerra mundial, recrudesceu o meu interesse por essa pátria sofredora – a Polônia – e, como todos os corações que sentem, sofri e orei pelos mártires poloneses. Pois bem, no dia 20 de novembro de 1964, fui surpreendida com o recebimento de um belo postal provindo de Varsóvia, a velha capital da Polônia, escrito em Esperanto, datado de 12 do mesmo mês, convidando-me a uma correspondência amistosa, como é comum entre esperantistas. Assinava-o um Sr. Z. P. O leitor perdoar-me-á não revelar nestas páginas a sua identidade completa. Esta, porém, com todas as indicações precisas, encontra-se em poder da FEB, com o meu pedido para somente ser revelada, se necessário, depois de minha morte. Não sei que emoção violenta me surpreendeu a alma ao ver aquela caligrafia perfeita, magnética, cujo autor me honrava com tal convite do outro extremo do mundo. Como, porém, esse Sr. Z. P., que completara 33 anos de idade a 18 de outubro daquele mesmo ano, descobriu o meu humilde endereço num subúrbio do Rio de Janeiro, na longínqua América do Sul? É voz corrente que o acaso não existe. Às vezes, defrontamo-nos com um “acaso” tão sutil e tão inteligente, que se diria provocado pela lei moral de atração, como tão bem nos informa O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec. Eu recebera, em julho daquele mesmo ano de 1964, cinco circulares de uma “corrente fraterna” para o intercâmbio de cartões postais. Tratava-se de um movimento de juventude. Eu, porém, já não era jovem, não devia imiscuir-me nesse passatempo. No entanto, em atenção aos amigos que me endereçaram as circulares, atendi ao convite e fiz as mesmas, endereçando- as a outros tantos amigos, assinando meu nome e endereço no fim da lista de nomes a serem contemplados com um postal. Mas assinei-me com o prenome atual, usando, no entanto, o sobrenome que teria sido o meu em minha passada existência: “de Guzman”. Essas cartas, caindo em mãos de esperantistas, incorrigíveis idealistas, foram traduzidas para o encantador idioma do Dr. Zamenhof e enviadas para a Europa Central e do Norte, isto é, a chamada “Cortina de Ferro”, onde se aglomeram excelentes esperantistas. Uma delas foi ter às mãos de Z. P., cedida por um amigo que não se interessou pelo movimento. Mais tarde declarou-me o próprio Z. P. que meu nome, nessa circular, encontrava-se no meio da lista, e não no início, mas que preferira escrever-me mesmo assim porque “simpatizara com o meu nome e sentira algo indefinível dentro de si próprio”. Seria necessário, porém, corresponder à gentileza do esperantista de Varsóvia.Entre esperantistas não é correto deixar sem resposta carta ou postal de um coidealista. Mas eu, que fazia propaganda do Esperanto desde muitos anos antes, e que amava mesmo esse fraterno idioma e tinha obtido do Além dois livros e uma bela narração, que o proclamavam como idioma ideal para confraternização dos povos, ainda não o aprendera. Foi-me então necessário recorrer a um amigo, espírita-esperantista, o Sr. A. S., pedindo- lhe que lesse o postal para mim. Fiz a resposta em português e o mesmo A. S. verteu-ma para o Esperanto. Era dezembro, fim de ano, e escrevi pequena carta ao Sr. Z. P. cumprimentando-o pela passagem do Ano Novo de 1965. Procurei então estudar o idioma com imenso amor, o coração emocionado, sem bem saber a razão por que me emocionava tanto. Meu tempo, no entanto, era escasso para me dedicar a esse estudo como seria devido, meus compromissos com a Doutrina Espírita eram imensos e urgentes, e não poderia arredá-los para segundo plano. Frequentemente, então, me socorria de A. S. para que as respostas às cartas de Varsóvia não sofressem delongas. Assim se estabeleceu assídua correspondência, em tom veemente e gradativamente caracterizada por expansões cada vez maiores; de semanal, no início, fora necessário passá-la a quinzenal, porque a assiduidade nos confundia e já não sabíamos de que carta recebíamos resposta. No fim de alguns meses, essas missivas já não eram amistosas ou fraternas tão somente, mas declaradamente amorosas, que, enchendo-nos a alma de inefáveis emoções, transformavam a nossa vida, consolavam as nossas amarguras, realizavam os sonhos do coração. Eram, com efeito, duas almas que se encontravam e se amavam com estranho fervor, com sentimento sublimado e inexplicável, que encantava, alegrava, satisfazia, embora também trouxesse a amargura da saudade, da impossibilidade. As cartas de Z. P. eram belíssimas, suaves, apaixonadas, escritas em Esperanto castiço, que dominava tão bem quanto a própria língua materna – o Esperanto de Zamenhof. Z. P., muito culto, era engenheiro mecânico, professor da sua especialidade, falando e escrevendo sete idiomas. Eu me sentia humilhada compreendendo-o muito acima de mim em cultura, porque - pobre de mim! – singela médium, agora nele pensando dia e noite, e por ele orando com ternuras, por assim dizer maternais, sofria dolorosas provações para me reabilitar diante de Deus. Às vezes, escrevia-me, em cativantes cartas, coisas assim, muito parecidas com as antigas mensagens do já olvidado Roberto de Canallejas: “Suas cartas e seu amor transformaram a minha vida, trouxeram-me forças morais para viver. Hoje, sinto-me amparado porque sei que, no Brasil, existe um coração que me ama e me protege. Quando as recebo tudo revive em mim, vejo alegria por toda parte, até as pedras das ruas por onde transito me parecem belas e felizes.” E eu, que o amava espiritualmente, porque esse sentimento não poderia, de forma alguma, ser humano, respondia ciosa de fornecer-lhe alento e forças para bem suportar as suas amarguras, pois confessava-se sofredor e doente do coração. Mas nunca supus, nunca tive sequer a intuição de que Z. P., o autor daquelas tão doces cartas, de Varsóvia, era, na realidade, a reencarnação de Roberto de Canallejas, o qual, ao reencarnar, em 1931, prometera dar-me um sinal na primeira oportunidade que se lhe oferecesse. * * * No entanto, a verdade é que o conhecia pessoalmente. Com a facilidade que tenho de deixar parcialmente o corpo, graças à faculdade mediúnica de desdobramento em corpo astral, muitas vezes visitei-o, por esse meio, na capital polonesa. Conhecia-lhe as roupas, acompanhei-lhe, algumas vezes, os passos pelas vias públicas da cidade, de mãos dadas com ele; assistia, de quando em vez, ao seu almoço, pois, se esse fenômeno acontecia aqui, no Rio de Janeiro, às 8 horas da manhã, em Varsóvia seriam 12, em vista da diferença de fusos horários de um país para outro. Vi-o, por várias vezes, sentado à escrivaninha, no escritório da firma onde trabalhava, e até nos cafés da cidade, se o desdobramento acontecia no decorrer do dia, o que frequentemente se verificava, porque, prolongando-se o meu trabalho mediúnico até às duas horas da madrugada, tinha necessidade de repousar durante o dia. Até mesmo a fumaça das iguarias (comumente, três pratos), postas à mesa, eu distinguia, bem como as vidraças, descidas no inverno. Mas nunca ouvi o que falava, não compreenderia mesmo, porque não conheço o idioma polonês. Foi por essa forma que soube ser ele casado, uma vez que ainda não me revelara certas particularidades da sua vida, o que absolutamente não me perturbou, porquanto não nutria esperanças humanas a seu respeito. E tínhamos os mesmos sonhos na mesma noite, os quais sempre se referiam a nós mesmos, quando nossas cartas, narrando-os, se cruzavam pelos ares. Enfim, perfeito intercâmbio de almas afins, encarnadas. Por sua vez, Z. P. descrevia com precisão locais do Rio de Janeiro, onde, declarava, passeávamos no curso do sono. Em janeiro de 1975, Z. P. transferiu as atividades profissionais para grande empresa de Varsóvia, à qual serviria ainda como engenheiro, seu representante. E era necessário viajar a fim de colocar-lhe os produtos em países estrangeiros, inclusive nos ocidentais. Manifestei-lhe as minhas preocupações, porquanto, sofrendo males do coração, com insulto2, já, por duas vezes, de “enfarte”, que o levou a internações em sanatórios dessa especialidade; ao demais, sabendo-o necessitado de repouso, entendi que uma atividade assim intensa ser-lhe-ia prejudicial à saúde. Respondeu-me que seus médicos garantiam que as viagens lhe seriam propícias à saúde; e, fora do lar, onde não desfrutava de tranquilidade, ante desgostos e contrariedades conjugais intoleráveis, quase diários, sentir-se-ia melhor, talvez logrando paz. Nada pude fazer a fim de impedi-lo de aceitar o compromisso, mas meus pressentimentos eram sombrios e mantinham-me preocupada. Viajou então por toda a Europa, e de cada país e cidade que visitava escrevia-me com a costumeira assiduidade e ternura. Em janeiro de 1976, escreveu-me que visitaria o Brasil em maio desse mesmo ano e tencionava encontrar-me, conhecer-me pessoalmente. Eu, porém, não nutria o menor desejo de encontrá-lo ou vê-lo. Entendi que seria ridículo semelhante acontecimento e deliberei evitá-lo. Com efeito! Em princípios de abril avisou-me que chegaria ao Rio de Janeiro no dia 12 de maio. Respondi-lhe que assumira compromisso inadiável em Cuiabá, e não me seria possível estar no Rio naquela data, o que não era verdade. Pedia-lhe desculpas. Na verdade, não podia nem queria vê-lo; o melhor para nós ambos seria jamais nos encontrarmos. Nosso caso era espiritual e não nos caberia mudar-lhe a feição, com a qual deveríamos transpô-lo ao Além-Túmulo. No dia 2 de maio, porém, já alta noite, quando eu terminava o trabalho mediúnico de receituário e atendimento aos sofredores, através de mensagens consoladoras e orientadoras, percebi, de chofre, surpreendida, a presença de Bezerra de Menezes, de Charles e de Inácio Bittencourt, e ouvi, com nitidez, a voz de Charles, que me dizia: – Ele é o Roberto! Compreendi que se tratava de Z. P., pois acabava de orar também por ele, como fazia diariamente, desde que recebera o primeiro postal. Impossível descrever o choque que tal revelação produziu em meu ser. Jamais tivera sequer desconfiança, qualquer intuição ou mesmo mero pressentimento de que Z. P. pudesse ser a reencarnação daquele Roberto, que tanto dominara a minha vida, a ponto de quase obsediar-me. Apenas atribuíra a correspondência à fraternidade cultivada por todo bom esperantista. Mantive-me então aturdida pela surpresa, traumatizada, imóvel na cadeira, a vista escura, o coração como que paralisado de susto, e o lápis na mão, sem nada mais poder escrever, e assim chocada me senti por dias seguidos. Chegava ele ao Rio, pois bem, no dia 12 de maio, às 7 horas da manhã, procedente de Frankfurt. Mas eu, para todos os efeitos, me ausentara da cidade, certa de que o dedicado amigode Varsóvia não suportaria essa displicência minha, e romperia, decerto, relações comigo. Não creio que existam palavras capazes de descrever o sofrimento, a tortura que ambos sofremos durante os 18 dias que passou no Rio de Janeiro. Senti então, mais do que nunca, o peso punitivo do meu erro passado, tendo, na oportunidade, próximo de mim aquele ser, companheiro de lutas passadas, que tanto me amara, a quem outrora ferira tão profundamente e por quem, dado muito amá-lo agora, seria capaz de todos os sacrifícios no presente. E não poder sequer abraçá-lo, nem mesmo vê-lo ao menos um instante, por não ser prudente nem justo que tal acontecesse!... O amigo A. S., testemunha ocular desse drama, recebeu-o em meu lugar, consolou-o e ouviu as suas confidências. Falando-lhe a meu respeito, garantiu-lhe a firmeza e a dignidade do meu procedimento por cartas. Narrou-lhe, então, ainda, a profunda ligação espiritual existente entre nossos espíritos. E, talvez bafejado por sopro inspiracional do Além, contou-lhe que, em existência anterior, pelos meados do século XIX, fôramos esposos na Espanha; disse-lhe do drama que destruiu nossa felicidade; do meu suicídio levado pelo arrependimento de o ter ferido com uma traição; da filha tão amada por ele, vista por mim frequentemente, agora como Espírito; da minha atual vida, inteiramente devotada à crença em Deus, aos princípios e conselhos da Doutrina Espírita e à sua pessoa, pois que meu sentimento de amor por ele acompanhara-me ao reencarnar na presente vida, e eu o amava desde a infância como Espírito desencarnado que fora e continuava amando-o, presentemente, na condição de encarnado, tão certa estava de que Z. P. e Roberto de Canallejas eram a mesma individualidade. E pediu-lhe que não me condenasse por ocultar-me a seus olhos: é que nossa ligação espiritual, os elos de nossa união eram fortes demais e não resisti- ríamos ao impacto emocional de um encontro, que somente poderia acontecer no Além, na pátria espiritual. Não sendo espírita, nem mesmo possuindo religião definida, admitindo apenas a ideia de Deus, Z. P., com lágrimas nos olhos, aceitou tudo quanto o amigo A. S. lhe narrou, depois do que exclamou, no auge da emoção: – Há muito tempo que eu a sabia esposa espiritual minha... – Essa mesma confissão ela própria já ma fizera em várias cartas que me escrevera. Ansiosa, sofrendo o pesar indescritível de sabê-lo tão perto e não poder vê-lo, um dia não pude resistir: telefonei para o hotel onde se hospedava. Queria ao menos ouvir-lhe a voz, e por três vezes falamo-nos em Esperanto. Mas ele nunca soube que falara comigo; na ocasião, identifiquei-me como sendo uma tia que transmitia um recado meu, de Cuiabá. Ao ouvir-me a voz, notei-lhe a emoção, o nervosismo que o assaltou; perguntou-me, de imediato, se era eu quem falava. Nesse recado, transmitido pela “tia”, pedia-lhe que me perdoasse por não tê-lo recebido: eu não teria coragem de vê-lo. Respondeu que compreendia tudo e absolutamente não se sentia agastado, embora sofresse e lamentasse a minha ausência; era e seria o mesmo amanto (aquele que ama, em Esperanto) de sempre, que não me afligisse nem chorasse, e confiasse nele. Z. P. visitou ainda as melhores capitais brasileiras, servindo à firma comercial que representava. De retorno ao Rio, A. S. ofereceu-lhe um almoço de amizade; quando pôde notar a indisfarçável e constante preocupação dele por minha pessoa, o carinho com que a cada instante se referia a mim, o desejo de conhecer, ao menos, o bairro e a rua onde resido. E regressou à sua pátria no dia 30 do mesmo mês de maio. Uma vez em Varsóvia endereçou-me uma das mais belas e afetuosas cartas que escrevera até então. Consolava-me, pedia-me que não sofresse, não chorasse, e se eu não o quisesse ver, quando voltasse ao Brasil, no ano seguinte, não me participaria a sua vinda, a fim de que eu não fizesse o sacrifício de viajar para tão longe. Era o mesmo Z. P. de sempre, e seu amor seria pulcro como sempre o fora. Quando o amigo A. S. contava-me as extensas conversações que teve com Z. P., afirmou, convictamente: – Observei profundamente Z. P. por todos os ângulos. É homem educadíssimo, tem grande coração e é culto, sério, discreto. Confessou-me não ser pessoa realizada na parte sentimental, embora o seja financeiramente. O que possui é a certeza do seu amor, que lhe dá vida e alento, uma espécie de realização sentimental através das cartas. É um homem triste, curvado sobre o sofrimento, que procurou no trabalho o refúgio para os próprios padecimentos. Ele é, enfim, o que os livros dizem sobre Roberto de Canallejas. * * * Onze meses se passaram após a visita de Z. P. ao Brasil. Nosso relacionamento por cartas prosseguiu com a mesma ternura espiritual, o mesmo devotamento a um amor sublimado, que não era deste mundo. Suas viagens continuaram, seguidas e trabalhosas, pelos quatro cantos da Europa, mas, em cada carta ou postal que me escrevia, confessava-se fatigado. O trabalho era rude, intenso, e a doença do coração frequentemente o perturbava com ameaças inquietadoras. Já agora eu via em sua pessoa, além de Z. P., aquele Espírito Roberto que me acompanhara a vida toda, desde a infância, dominando, por assim dizer, a minha existência. A inesperada revelação que eu recebera a respeito da reencarnação deste naquele; a dedicação invulgar de Z. P. por mim, que ele sequer conhecia pessoalmente; o seu estranho sentimento de amor, que não esmorecera nem mesmo ante a decepção da minha fuga à sua presença, quando da visita ao Rio, antes parecendo tê-lo aumentado consideravelmente; a comoção sentida após as confidências de A. S., tudo indicava que só mesmo Roberto de Canallejas me poderia considerar e amar por forma tão perfeita. Uma correspondência, só por si, não poderia, certamente, vincular tanto, assim, dois corações e transfigurar duas vidas, a dele, principalmente, que nem mesmo possuía, como eu, o apoio da crença espírita. Somente um reencontro espiritual seria capaz de produzir e explicar o efeito que ambos sentíamos revolver-nos os refolhos d’alma. E se frequentemente reencontramos terríveis inimigos do passado espiritual, reconhecendo-os até mesmo no seio de nossas famílias, por que não poderíamos reencontrar seres amados, embora erros cometidos anteriormente impeçam a reaproximação integral para o efeito de dolorosa punição? Em janeiro de 1977, Z. P. escreveu-me participando que as viagens para o ano todo estavam já programadas e que voltaria ao Brasil pelo mês de maio, tal como em 1976. Mas decidira não participar sua chegada a fim de me não fazer sofrer, pois sabia continuar eu desencorajada de me encontrar com ele. Escreveu-me, portanto, seguidamente, da Alemanha, da Tchecoslováquia, da Iugoslávia, da Inglaterra, da Irlanda, da França, da Itália. Queixava-se de cansaço e exaustão. Em março escreveu-me de Lagos, capital da Nigéria, na África Central, e, em 26 do mesmo mês, do interior desse país, dizendo que voltara a sentir o coração e que o calor excessivo daquela região perturbava-o profundamente. Acrescentava que passaria a Páscoa em Varsóvia e de lá escreveria novamente. Recebi esse postal em 31 de março. Não lhe respondi, pois esperavam-no naquela capital duas cartas minhas. Fiquei à espera de novas notícias. Mas passou a Páscoa, passou todo mês de abril e nada recebi. Pacientemente, deduzi que as intensas ocupações, ou alguma crise do coração manteria o amado amigo hospitalizado, como já acontecera duas vezes, embora tivesse escrito postais dando-me notícias. Na primeira quinzena de maio, no entanto, ainda sem qualquer notícia, vi-me, certa madrugada, exteriorizada do corpo físico pelo amado Espírito Charles, e o meu paternal guia de todas as horas. Encontrei-me, então, em silencioso recinto, com amplas janelas, através das quais distinguia-se amena paisagem tipicamente terrena, isto é, extenso horizonte levemente recoberto por névoas esbranquiçadas, meio azuladas, e o salão dir-se-ia suspenso no ar, dado eu distinguir o cume de montes muito afastados. Mas tudo isso eu enxergavanaturalmente, sem esforço nem insistência. Era um panorama que se impunha à minha revelia. Diante de mim, mas separado por algo, que me pareceu mesa ou balcão, estava Z. P., muito sério, fitando- me vivamente, como que aturdido e atordoado; ao meu lado, um pouco afastado, Charles, que me disse: – Conversa com ele, pois ainda não sabe... Comecei, então, a falar com Z. P. qualquer coisa, da qual não me pude recordar ao retornar ao organismo físico, pois, conforme declarei acima, sou médium semiconsciente e essa propriedade se manifesta em todas as minhas operosidades mediúnicas. No entanto, Z. P. parecia prestar muita atenção ao que eu dizia e depois falou, entre nervoso e comovido: – Eu sei... já estou no túmulo, não é?..., mas falou em Esperanto, pelo menos eu assim o entendi: “Mi scias... Mi jam estas en la tombo, ĉu ne?...” Sacudi a cabeça afirmativamente, muito serena, e Charles voltou a orientar: – Procura abraçá-lo, confortá-lo, pois vai chorar... e deixa-o deitar a cabeça em teu ombro para dormir... Assim fiz, acheguei-me a ele, abraçamo-nos fortemente, pôs-se a chorar e eu disse-lhe muitas coisas, como se esclarecesse um Espírito recém- desencarnado, mas recordo-me do seguinte: – Ora, meu amado... (eu o tratava assim, nas cartas que lhe escrevia). Foi melhor assim... Você sofria muito, não tinha mesmo possibilidade de ser feliz... Agora você encontrará os seres amados de outros tempos, terá paz, terá descanso, “conhecerá as maravilhas do infinito...” Chorando e abraçado a mim, Z. P. descansou a cabeça no meu ombro e, pouco depois, adormeceu. O que se passou em seguida não me foi dado recordar para poder descrever. Charles acompanhou-me de regresso à Terra e percebi que deslizávamos por entre atmosfera levemente azul e luminosa. Despertei muito lentamente, como é habitual, e, quando recobrava a lucidez, já no organismo físico, ouvi que Charles afirmava: – É Z. P. ... Despertei completamente e senti-me serena e resignada, certa de que o meu generoso amigo de Varsóvia havia desencarnado. * * * No entanto, nada estava perdido. A morte não existe, sabemos todos dessa consoladora verdade. Aprendi nas lições do Consolador enviado pelo Cristo de Deus a crer a e a esperar. Eu desejava, porém, a confirmação material daquela transposição espiritual. Todo médium tende a desconfiar das manifestações mediúnicas que recebe. A exemplo dos outros, também isso acontece comigo, pois acho-as, às vezes, grandiosas demais para minha pobreza moral. Em verdade, não tinha dúvidas de que o meu bom amigo polonês desencarnara e fora por essa razão que não mais recebera notícias suas. Mas desejava uma comprovação, queria conhecer alguns detalhes, pelo menos. Assim foi que, em 27 de maio, escrevi uma carta a ele próprio, embora sabendo-o já fora deste mundo, e enviei-a ao endereço costumeiro. Meu fito era provocar sua devolução, com a confirmação do acontecimento, o que não aconteceu. Em meados de junho, enviei nova carta, com o mesmo fito. Nada ainda recebendo como resposta, pedi ao amigo A. S. que escrevesse ao esperantista daquela capital, incumbido de fornecer informações de algo ou alguém, solicitadas pelos coidealistas estrangeiros (delegados), pedindo notícias de Z. P., pois sua última missiva, datada de 26 de março, da Nigéria, informava que sua saúde não era satisfatória. Demorou um pouco a resposta, dado que era verão na Europa, tempo de férias entre os europeus, e o destinatário viajara, em descanso anual. Em agosto, no entanto, quatro meses depois da desencarnação de Z. P., o amigo A. S. recebeu a resposta ao seu pedido de notícias. Gentilmente, com a distinção e a afabilidade próprias de um esperantista, o missivista declarava que fora amigo de Z. P. e que, infelizmente, este falecera em abril. Outra carta chegara às mãos de A. S. com os detalhes necessários. O jovem S. P, filho de Z. P., informado por aquele delegado, escrevera com distinção idêntica à do amigo de seu país, esclarecendo que Z. P. chegara a Varsóvia, provindo da Nigéria, em 3 de abril (1977), Domingo de Ramos, e falecera em 8, Sexta-feira da Paixão, às 7 horas da noite (no Brasil, 3 da tarde, momento em que eu orava em homenagem ao Senhor, pelo dia da Sua Paixão). Nessa noite (em Varsóvia seria o entardecer), Z. P. guiava o seu carro pelas ruas da cidade, em companhia do filho. Parou em um sinal vermelho e, sentindo-se mal, desceu a fim de procurar recursos em farmácia próxima. Deu apenas dois passos, mas retornou ao carro e caiu sobre o volante, fulminado por um enfarte, o terceiro que sofrera. O jovem S. P. acrescentava que o sepultamento foi realizado a 14 do mesmo mês, no jazigo da família; enviou um recorte de jornal com o convite para o enterro e pedia a A. S. para me comunicar o acontecimento. Contava o meu amado amigo 45 anos e meio de idade, pois reencarnara em 18 de outubro de 1931. E eu, que o vi reencarnar, agora via também a sua desencarnação. Quando a carta do jovem S. P. foi lida, duas lágrimas se me desprenderam dos olhos. Parece que sofri. Mas habituei-me ao sofrimento e não lamentei. Eu não choro pelos mortos. Considero a morte uma das melhores coisas ainda existentes neste mundo. Z. P. dera o testemunho terreno com muita dignidade e heroísmo, suportando bem as consequências do seu desespero na existência anterior, e regressou à pátria espiritual liberto do erro praticado, amparado pelos amigos espirituais. Não chorei, portanto. Bendisse, sim, a Deus pela graça de o ter encontrado reencarnado e sentido a grandeza do seu amor, ao qual eu me habituara através de existências seculares. Alguns dias depois da recepção daquela carta, Charles levou-me a visitá- lo em Além-Túmulo. É curioso que eu, diariamente trabalho em psicografia, até hoje (6 de setembro de 1978), e não recebi uma só mensagem escrita por Z. P. ou de algum amigo espiritual dando-me notícias dele. São outros os meios de comunicação que os protetores espirituais me permitem com ele. Nessa visita proporcionada por Charles, em corpo espiritual, vi-me passeando de mãos dadas com Z. P. Encontrávamo-nos em um parque, algum tanto denso, o qual tudo indicava ser ainda região terrena, ou muito condensada, dado que fosse região espiritual, pois via com nitidez as árvores postas em alamedas e, às vezes, desviava-me delas e desviava Z. P., como se o guiasse. Este mostrava-se bastante atordoado, lento de movimentos. Não me lembro de que ele falasse enquanto passeávamos, ao passo que eu dizia-lhe muitas coisas, satisfeita e sorridente. Mas não me recordo do que lhe dizia. Ele mantinha as mãos crispadas, fechadas, enquanto eu abarcava com a minha a sua mão direita, sentindo-a endurecida. Compreendia que se ressentia ainda da impressão do choque da hora extrema, quando, decerto, fechara as mãos sob o efeito da dor causada pelo enfarte sofrido. Vi-o tal qual realmente fora como encarnado, embora não o conhecesse pessoalmente: triste, cabeça baixa, o torso meio curvado para frente, aspecto modesto e sofredor, o que o amigo A. S. confirmou quando lhe relatei o que vira. Vi, ainda, à nossa frente, um seu irmão desencarnado, morto durante a última guerra mundial, aos dezenove anos de idade, o qual se mostrava curioso com a minha presença. Depreendi que fora esse Espírito quem o recebera no Além e, certamente, fazia-lhe companhia, reconfortando-o. Assim passeando, em dado momento aproximou-se de nós a figura de uma senhora de meia idade, muito simpática, risonha e humanizada, a qual se dirigiu a mim, exclamando: – Está tudo bem... Fique sossegada... Este lugar pertence ao Dr. Bezerra de Menezes... Concluí, então, que Z. P. era protegido desse caridoso apóstolo do Bem, com o qual, antes de reencarnar, tanto trabalhara sob o nome de Roberto de Canallejas. Entendi também que a visita estava terminada. Z. P. afastava-se, meio atordoado, dirigindo-se para o lado do irmão, e eu voltava ao corpo, nada mais percebendo. Passados mais alguns dias (infelizmente, minha costumeira displicência não me permitiu assinalar as datas em que tais fatos se verificaram),vi-me novamente levada por Charles a uma localidade, não sei se terrena ou espiritual, pois essas paisagens por vezes se confundem, tão parecidas são. Era um local bastante penumbroso, parecendo o quarteirão de pequena cidade mal iluminada, talvez um tipo de “umbral moderado”, se assim me posso expressar. Encontrei-me ao lado de Z. P., agora já bastante melhorado, e estávamos de mãos dadas. Charles deixava-se ver discretamente, de lado, no interior de certa habitação que se me afigurou uma casa comercial. Em dado momento dirigi-me a ele, chamando-o de pai (pela primeira vez, durante esses transes, tratava-o assim), e perguntei-lhe: – Papai, podemos passear aqui, na calçada, até a esquina? E o meu antigo pai respondeu: – Sim... Pode... Então, de mãos dadas, começamos a caminhar lentamente. Ao chegar à esquina, quis prosseguir o passeio a fim de ingressar noutra rua. Mas Z. P., sempre mais ajuizado do que eu, deteve-me, puxando-me pela mão e dizendo: – Não temos licença para passar daqui... E voltamos ao ponto de partida. Z. P. estava muito sério, enquanto eu, risonha e satisfeita, falava-lhe muitas coisas, das quais, ao despertar, não pude recordar-me. Como vemos, há locais do Invisível que muito se parecem com os da Terra, a ponto de confundir-nos, porquanto realmente não sei se estive com Z. P. e Charles em ambiente extraterreno ou propriamente em qualquer local da crosta planetária. Prefiro crer, porém, ou sou intuída, de que estive num plano de transição, aquela espécie de “umbral moderado” em relação ao que já conhecemos sobre umbrais. Detalhe curioso: Na esquina que eu desejei ultrapassar, dois homens (Espíritos) conversavam. Ouvi-lhes a voz, mas não entendi o que diziam. Alguns dias depois, talvez um mês, fui surpreendida com mais uma interessante visita ao bem querido amigo. Tudo indica que Charles desejava recompensar-nos dos sofrimentos que muito antes vínhamos experimentando, ou ajudar a nossa definitiva reconciliação, pois não esqueçamos de que entre mim e Roberto – (agora Z. P.) existiu vasta rede de traições de minha parte, das quais eu deveria expungir-me, procurando amá-lo o melhor possível; ou, ainda, participando-lhe da situação, na vida espiritual, e da continuidade da nossa ligação em Além-Túmulo, o que poderia servir de consolo e esperança para outras personalidades nas nossas mesmas condições. O fato é que, dessa vez, eu me vi sentada como que num muro, balcão, ou terraço – não sei bem – parecendo-me tudo muito terreno. A meu lado esquerdo, senti a presença de Z. P., igualmente sentado e tão próximo, que o sentia encostado a mim, apesar de não o distinguir bem. Estava muito risonho, diferente, portanto, das primeiras visitas que lhe fizera. À esquerda estava Charles, de forma que Z. P. ficava no meio, entre mim e Charles, este também sentado no balcão e igualmente risonho, mas eu apenas o percebia, sem vê-lo francamente. No Além estas coisas todas são muitos naturais. Quando encontramos qualquer ser amado, absolutamente não nos surpreendemos nem nos entregamos em demasia a expansões. Parece que estas se manifestam antes pela troca de vibrações amorosas sublimadas, mais intensas ou perfeitas do que as sentimos na Terra, o que nos torna imensamente felizes. É, pois, como se fosse um acontecimento natural, comum, o que indica estarmos habituados à convivência com o ente querido durante o sono do nosso corpo, não obstante estarmos encarnados e ele desencarnado. Em dado momento, rindo-se, bem-humorado, Z. P. ofereceu-me um cartão-postal de tamanho comum. Senti o contato de suas mãos nas minhas e ouvi o que me dizia, oferecendo-me a dádiva, mas não o vi, exatamente como acontece em sessões de “contato e voz direta”, quando sentimos até o beijo que os Espíritos nos dão e a umidade dos seus lábios, e ouvimos-lhes a voz, mas não os vemos. Ele tinha o hábito de presentear-me com cartões-postais (e eu lhos retribuía), não só da Polônia como de todos os países que visitasse. Fiquei contentíssima com o presente e revirei-o nas mãos a fim de admirá-lo. Tratava-se de vista bucólica do seu país. Mas, subitamente, o postal dilatou- se, tomando as proporções de uma paisagem viva, completa, ou seja, de dimensões naturais. Assustei-me e eles se riram de mim, enquanto eu exclamava: – Meu Deus! Uma paisagem campestre, e é da Polônia! Que beleza!... Dois jovens pastores... as cabras... a casa de campo, tão linda e pitoresca... E de repente tudo mudou, movimentou-se. Agora a neve caía e cobria a chaminé, o peitoril das janelas, os degraus da porta, a casa toda... Só aí pude compreender o fenômeno em si, pois, nas cartas que me dirigia, Z. P. participava-me – sempre em novembro – que caíam as primeiras neves, e eu lhe respondia que me não era possível sequer conceber esse quadro da natureza do seu país natal, uma vez que residia em zona tropical e nunca viajara para regiões frias. Mas eis que, agora, apreciava pequena tempestade de neve em lugar belíssimo, para, em seguida, a cena modificar-se novamente e mostrar as cobras saltitando no prado verde, o Sol delicado dourando tudo, e os dois pastores, muitos brancos e louros, indo e vindo, atentos aos seus deveres. Com as minhas exclamações, notava que Z. P. e Charles se riam... e o conforto que me banhava o coração deixava-me fundo traço de alegria moral-espiritual indescritível, pois me sentia feliz juntos aos dois Espíritos mais amados pelo meu coração durante as minhas tristes peregrinações pela Terra, não obstante o muito que os tenho feito sofrer. * * * Depois dessa visita somente mais duas se verificaram até hoje (6 de setembro de 1978), com um espaço de tempo mais prolongado entre uma e outra do que o das precedentes. Assim foi que a primeira vez, nesta segunda fase, visitei-o ainda no “bosque” já mencionado, isto é, o lugar pertencente ao Dr. Bezerra de Menezes, para me servir da expressão usada pela amável dama citada nas páginas anteriores. Vi-o muito melhorado, já lucilante, pois não esqueçamos de que a luz é patrimônio do ser espiritual, que o perispírito é luminoso por natureza, e que só se conserva embaçado e escurecido, e até mesmo completamente enegrecido, quando somos criminosos, quando alimentamos pensamentos e desejos pecaminosos, quando somos sensualistas e desonestos e avessos ao Bem. Passeava ele, muito satisfeito e risonho, pelo dito bosque, dando a mão à menina já mencionada aqui, Lalita –, a filha que tanto amou em anterior existência, e cuja morte levou-o ao desespero, precipitando a sua própria. Compreendi, assim, a misericórdia do Alto: tendo expiado essa falta, na presente vida, como Z. P., agora recompensava-o, pelo muito que sofrera, com a proteção e assistência desse encantador Espírito, pois era visível que essa entidade constituía-se em seu assistente espiritual, ou em um deles, na fase nova de vida que enfrentava. Z. P. viu-me, acenou-me com gesto afetuoso de saudação e disse-me algo, mostrando a criança. Mas não entendi ou não me pude lembrar, ao despertar, do que dissera. Aliás, entre mim e Z. P. existia uma linha de demarcação bem visível aos olhos. Eu não poderia chegar até ele, como das vezes antecedentes, e ele, certamente, não poderia chegar até mim. O lado em que pai e filha se achavam mostrava-se luminoso, com claridade diferente daquilo que nos habituamos a considerar como tal, possivelmente a luz própria do mundo invisível, ou espiritual; o lado em que me achava era penumbroso, como se grande tempestade ameaçasse desabar. Confesso que grande pesar, quase angústia, me invadiu o coração. Mas não desejei tornar-me ingrata para com o Pai que tantas concessões já me fizera, mesmo durante essa fase de minha existência, e por isso de nada me queixei, resignei-me compreendendo que aquela demarcação nada mais era do que a consequência das minhas próprias faltas, escassez de méritos para me aproximar francamente dos dois seres amados. No entanto, é também possível que o meu estado de encarnação me impedisse melhor penetração naquela região tão diferente do lugar onde me via. Talvez até mesmo