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série Formar O livro Didática e Docência: aprendendo a profissão integra a e Docência Série Formar, cuja finalidade é contribuir para a disseminação de conhecimentos necessários à formação aprendendo a profissão de profissionais de educação e de outras áreas das humanidades. As autoras partem da premissa de que fazer docente é uma atividade situada, não neutra e distante do improviso. Inclui reflexões sobre ensino, seus pressupostos, determinantes sociais e modos de concretização. A escolha das temáticas nele abordadas se apoiou no inventário das pautas recorrentes ou ausentes nas publicações em circulação sobre assunto, bem como na intenção de assegurar conhecimentos pedagógicos básicos Isabel Maria Sabino de Farias que fortalecessem trabalho docente Josete de Oliveira Castelo Branco Sales numa abordagem crítica e Maria Margarete Sampaio de Carvalho Braga contextualizada. Maria do Socorro Lima Marques França ISBN 978-85-98843-75-9 ivro 788598 84375Capítulo 1 Fundamentos da prática docente: elementos quase invisíveis estudo dos fundamentos da Didática ou das teorias que estão na base do fazer profissional do professor cons- titui o objetivo desta seção. Estes elementos nos possibi- litarão compreender os determinantes históricos do fazer docente, proceder uma leitura crítica de nossa prática e redimensioná-la em função das concepções que construí- mos acerca da sociedade, da educação, da escola e do papel docente no processo de ensino e de aprendizagem. De início, é importante apreender que o projeto de educação, a forma de organização e de funcionamento da escola, bem como a ação didática dos professores, assumem diferentes formas no decorrer do tempo. Por vezes, apresentam mudanças substanciais, noutras, ape- nas superficiais. São enfoques, movimentos, formatos, tendências, correntes, abordagens diferenciadas sobre a educação e a prática pedagógica, segundo um aporte teórico hegemônico em cada momento e lugar. E o que estamos chamando de aporte teórico? Refe- rimo-nos a um conjunto de idéias, valores, conceitos de homem e de sociedade que ancoram formas de interpre- tação e de definição de rumos para o processo educativo. Estas proposições têm concebido diferentes tendências, isto é, "orientações gerais à luz das quais e no seio das 31Farias, I. M. S; Sales, J. B; Braga, M. M. S. C; França, M. S. L. M. Didática e docência quais se desenvolvem determinadas orientações espe- Dermeval Saviani, por sua vez, toma a categoria "mar- (SAVIANI, 1985, p. 19). No campo educacional, ginalidade" como referência para compreender a educação estas são denominadas de tendências pedagógicas. como instrumento de sua superação (equalização social) Não é demais lembrar que, sendo a educação uma ou de sua reprodução (discriminação social). Este ângulo prática social histórica e dinâmica, as tendências peda- de análise o leva a situar as tendências pedagógicas no es- gógicas não se apresentam de forma estanque e seqüen- copo das teorias não-críticas, crítico-reprodutivistas e ciada por uma cronologia linear. despontar de uma ticas. Nesta direção também se encontram os estudos de não significa, necessariamente, o silenciar de outras. A José Carlos Libâneo que, buscando compreender a escola possibilidade da presença de várias orientações em um no contexto da sociedade capitalista, classifica as tendên- mesmo período histórico evidencia a contradição, o con- cias educacionais em liberais e progressistas. As formula- flito e o confronto entre diferentes, e até antagônicos, ções dos três autores evidenciam que a prática educativa projetos educacionais e sociais. não se dá no vazio, mas têm por base, necessariamente, Os fundamentos do fazer docente permeiam as re- uma concepção de homem, de sociedade e de escola que flexões realizadas no campo da Inúmeros auto- sustentam e dirigem o fazer docente. res deles têm se ocupado. Dentre as produções existen- Estas contribuições foram consideradas no seu con- tes destacam-se as formulações de Bogdan Suchodolski junto, mas neste texto tomamos como principal fonte a em A Pedagogia e as Grandes Correntes Filosóficas (1992), de sistematização de Dermeval Saviani e José Carlos Libâneo, Dermeval Saviani em Escola e Democracia (1985) e de José conforme pode ser verificado nos dois itens que compõem Carlos Libâneo no livro Democratização da escola pública: a esta seção, quais sejam: as teorias que dão sustentação às pedagogia crítico-social dos conteúdos (1986). Estes autores práticas educativas e a caracterização metodológica das são considerados referências na compreensão do tendências pedagógicas reformistas e transformadoras. meno educativo nas perspectivas filosófica, sociológica e pedagógica. 1.1. Teorias que dão sustentação às práticas educativas Bogdan Suchodolski (1992) apresenta uma pe- Grosso modo, quando estão em pauta os projetos dagogia baseada na essência do homem e outra na sua maiores de sociedade, as concepções mais gerais sobre existência. A primeira se "assenta numa concepção ideal o que é, o que pode e o que deva ser o mundo e a reali- do homem, racionalista em Platão, em São Tomás dade, recorremos a diferentes interpretações de Aquino" (ibid., p.18). A segunda, já em cas. Este é o caminho pelo qual também enveredamos ao Rousseau e seguidamente em Kierkegaard, toma o ho- tomarmos como ponto de partida as teorias positivista, mem tal como é e não como deveria ser" (ibid., p. 19). crítico-reprodutivistas e a histórico-crítica ou dialética educador polonês reconhece as limitações de cada uma para classificar as tendências pedagógicas em reformis- dessas pedagogias. Nesse sentido, sem advogar uma fu- tas e transformadoras. são entre essência e existência, assinala a necessidade de Iniciemos nossa discussão procurando nos familia- síntese entre estas duas tendências, depositando, numa rizar com as principais idéias de cada uma das teorias perspectiva socialista da educação, sua esperança. que estão na base do fazer docente. 32 33Farias, M. S; Sales, Braga, França, M. S. L. M. Didática e docência A Teoria Positivista processos sociais, é que terá o poder de readmiti-los no A perspectiva positivista concebe a sociedade como sistema social (SAVIANI, 1985). uma grande máquina, um corpo vivo, em que cada uma Com o suporte dessa linha de pensamento quatro de suas peças ou órgãos os indivíduos tem um lugar tendências pedagógicas apresentam explicações parti- e uma função que lhe é própria. Para os positivistas este culares para o fenômeno da marginalidade, prescreven- corpo funciona como um todo e perfeito, e, do medidas pedagógicas também diferenciadas para sua pela sua perfeição, não apresenta necessidade de mu- superação, quais sejam: tendência pedagógica tradicio- dança. Falar em mudança significa, pois, falar de risco, nal, herança tendência pedagógica renovada de morte, de comprometimento do que está posto. progressivista, herança do pragmatismo de Dewey; ten- de disfunções, desvios, indivíduos "à margem" dência pedagógica renovada não-diretiva, legado da psi- das benesses produzidas por este sistema supostamente cologização do ensino; tendência pedagógica tecnicista, perfeito, este fenômeno passa a ser caracterizado como um transposição dos princípios fabris para o chão da escola fenômeno ocasional, acidental e individual. Compreende- (taylorismo e fordismo). Para a Tendência Pedagógica Tradicional, nomen- se que foram os indivíduos peças desta grande máquina clatura utilizada por Saviani (1985) e Libâneo (1986), se os que deixaram de cumprir a contento os papéis que lhes indivíduos estão na condição de excluídos é porque lhes foram designados. Estes, por serem criaturas com ritmos, faltam conhecimentos. Por este motivo, a escola se propõe talentos, e capacidades próprias, é que se colocam a transmitir o produto final do saber científico e universal. à margem ou no centro do processo social. A Tendência Pedagógica Renovada Progressivis- E como recuperar estas "peças" que, porventura e ta, denominação cunhada por Libâneo (1986), explica o acidentalmente, estão à margem do sistema? De acordo fenômeno da marginalidade pelo fato de os indivíduos com a perspectiva positivista, utilizando-nos do único e não terem desenvolvido, até então, as estruturas cogni- legítimo instrumento de equalização social a educação, tivas necessárias à construção do saber. Nesta condição, entendida como mecanismo que supera as diferenças e estes indivíduos ficam à mercê da produção intelectual as desigualdades. É importante lembrar que a origem de alheia e, por tornam-se meros consumido- tais diferenças e desigualdades foi considerada, em um res do acervo científico e cultural produzido por outros. primeiro momento, como divina (explicação humanis- A Tendência Pedagógica Renovada ta-católica) e, a posteriori, como natural ou genética (ex- tiva, assim identificada por Libâneo (1986), aposta na plicação humanista-iluminista), mas nunca forjada pela formação da personalidade, no autoconhecimento, na lógica da organização e do funcionamento da sociedade realização pessoal. Saudáveis relações interpessoais são capitalista. Essa perspectiva, que comunga da idéia de percebidas como a estratégia de superação do fosso exis- que os homens são diferentes em sua essência, tem uma tente entre aqueles que se encontram à margem e os que visão redentora, compensatória e entusiástica da educa- se encontram no centro do sistema. ção. Nesse sentido, entende que só a escola, por ser con- A Tendência Pedagógica Tecnicista, terminologia siderada uma instituição "neutra" e "autônoma" face aos utilizada por Saviani (1985) e Libâneo (1986), defende 34 35Farias, M. S; Sales, Braga, M. França, Didática e docência que a superação dos processos de exclusão passa pelo por negarem a harmonia e a perfeição do modelo social caminho da formação para o mercado de trabalho, trei- capitalista e por denunciarem a natureza degenerativa nando mão-de-obra acrítica sob a lógica da produção em deste tipo de sociedade. Para eles a sociedade capitalista massa e padronizada. é conflituosa e classista, sendo a desigualdade e a exclu- Para as tendências pedagógicas acima, o indivi- são não só produtos inerentes a sua estrutura, mas con- duo sempre tomado de modo isolado e não como clas- dição para sua manutenção. se social é que precisará aprender a conhecer, a ser, a Ao mesmo tempo, por perceberem o movimento, a conviver e a fazer. Considerando as formulações de Su- transformação em todas as coisas, defendem a necessida- chodolski (1992) é possível dizer que estas orientações de e a possibilidade de mudança e de criação de uma nova pedagógicas se assentam numa concepção essencialis- ordem social. Mas como efetivar mudanças? Que espaços ta do homem. Partindo dessa premissa, tais correntes ocupar para este fim? A escola seria um destes espaços? pedagógicas foram classificadas por Dermeval Saviani Para os teóricos crítico-reprodutivistas a mudança (1985) como "não-críticas" e por José Carlos Libâneo social é necessária e possível, contudo, não realizável nos (1986) como Não-críticas, por não questiona- aparelhos ideológicos do Estado (AIE), dado o seu com- rem o modelo social que gera desigualdades, pela forma prometimento com os interesses da classe social detentora como organiza a produção da vida material; liberais, por dos meios de produção e, por conseguinte, do poder reforçarem as teses do liberalismo econômico - teoria CO. Para estes, a escola como um dos AIE é, tão-somente, de sustentação do modo de produção capitalista. Nós, instrumento que mantém, conserva e reproduz o status quo. no presente texto, as identificamos como tendências Um espaço de dominação, alienação e, pedagógicas reformistas pelo fato de não abalarem as de morte dos desejos de mudança (SAVIANI, 1985). vigas que sustentam a sociedade capitalista, ou seja, por Em decorrência dessas proposições, entende-se ser corroborarem com a manutenção de seu status quo. impossível encontrar propostas pedagógicas para serem Mesmo que a perspectiva positivista ainda predo- efetivadas no interior e a partir dos sistemas formais de mine como corrente de pensamento, não podemos afir- ensino. Neste caso, a luta por mudanças na estrutura da mar a sua unanimidade. Há os que acreditam e lutam por sociedade se trava nos movimentos sociais livres da do- mudanças radicais, profundas, estruturais. Um exemplo minação ideológica do estado burguês. disso são os teóricos crítico-reprodutivistas que chegam Dentre as principais concepções teóricas crítico- e desmontam as certezas "positivas" acerca das possibi- reprodutivistas temos a Teoria da Violência lidades de organização da sociedade e do papel exercido pela escola. apresentada por Bourdieu e Passeron; a Teoria da Esco- la enquanto Aparelho Ideológico de Estado, formulada As Teorias Critico-Reprodutivistas por Althusser; e, a Teoria da Escola Dualista, de autoria de Baudelot e Establet. Os que sistematizaram a perspectiva crítico-repro- Qual a tese defendida por cada uma das teorias dutivista se de modo radical, aos positivis- crítico-reprodutivistas? Você é capaz de lançar algumas tas. Assim o fazem por perceberem os conflitos sociais, hipóteses a este respeito? Vamos pensar um pouco e de- 36 37Farias, M. S; Sales, Braga, S. C; França, M. M. Didática e docência pois confrontar nossas prováveis respostas com a expli- A Teoria ou Dialética cação dada por Saviani (1985). Sobre a Teoria da Felizmente, novos elementos são incorporados cia Simbólica este autor diz: à nossa capacidade de ler o mundo. Entram no debate Toda e qualquer sociedade estrutura-se com uma teóricos que percebem as contradições e a resistência base de relações de força material (dominação em todos os espaços sociais, inclusive nos AIE, e que as econômica) e simbólica (dominação cultural). As toma como propulsoras do movimento, da ruptura, da relações de dominação cultural ou de violência transformação de velhas em novas estruturas. Vamos se manifestam, dentre tantas formas, através da ação pedagógica institucionalizada, aprender com Gramsci (1978) e Giroux (1983) que a es- ou seja, através do sistema escolar. (1985, p. 22). cola, mesmo na condição de AIE, é também um espaço [Grifos nossos]. de luta possível, tanto quanto os movimentos sociais e classistas organizados pelos trabalhadores. Este argumento denota a prática educativa escolar Apoiadas neste raciocínio, três proposições edu- como uma ação não neutra, cujo processo for- cativas compõem o bloco das Tendências Pedagógicas mativo é permeado por relações de dominação via impo- Progressistas, ou seja, as que compartilham da teoria sição arbitrária da cultura dominante. crítica da sociedade e da concepção dialética da edu- A noção de ideologia ocupa lugar importante na cação. E quais são elas? Como explicam o fenômeno da Teoria da Escola como Aparelho Ideológico do Estado, marginalidade? Quais os desafios por elas apresentados? a qual possui uma "existência material" que, segundo Nossa reflexão busca apontar alguns elementos que aju- Saviani (ibid., p. 26), "toma forma em rituais e institui- dam a compreender tais questões. ções criadas e mantidas pelo próprio estado". Tais ins- Para as tendências pedagógicas progressistas tituições ou aparelhos tanto podem assumir um caráter o papel da escola é o de contribuir com o processo de repressivo quanto ideológico. No primeiro caso "quan- construção e consolidação de outro modelo social. Uma do fazem uso da força para manutenção da ordem"; no sociedade não mais pautada nos princípios do individu- segundo, "quando funcionam massivamente através da alismo, da competição e da propriedade só para alguns, ideologia e secundariamente da repressão". mas fundada na igualdade de direitos e oportunidades, Por sua vez, a Teoria da Escola Dualista entende na cooperação e na justiça social. Cabe à escola instru- que, mesmo possuindo "aparência unitária e unificado- mentalizar as classes trabalhadoras com elementos ra" (ibid., p. 29), a escola encontra-se dividida em duas: uma para a burguesia e outra para o proletariado. Esta ricos e práticos essenciais à transformação da realidade. dualidade reproduz, assim, a divisão social existente en- Aqui reside a diferença basilar entre as tendências tre capital e trabalho, dominantes e dominados, opres- pedagógicas progressistas e as progressivistas. As pri- sores e oprimidos. meiras se empenham na defesa de mudanças sociais pro- fundas, ao passo que as segundas acreditam na possibi- lidade de empreender reformas que aperfeiçoem o atual modelo social. Ilustra esta tese as proposições de Dewey 38 39Farias, M. S; Braga, M. M. S. C; França, M. Didática e docência que sustentou a bandeira da democratização da socieda- portanto, estão fundamentadas numa concepção exis- de e da escola, mesmo sob a lógica do capitalismo. tencialista do homem (SUCHODOLSKI, 1992). A Tendência Pedagógica Libertadora, uma das ver- Compartilhando destes pressupostos, identifica- tentes do bloco das tendências pedagógicas progressistas, mos estas tendências como transformadoras pelo fato propõe o desafio da promoção de situações educativas que de advogarem mudanças substantivas na estrutura so- gerem a capacidade de desvelamento dos véus que enco- cial capitalista, visando à constituição de uma sociedade brem a realidade. Esta atitude visa a fomentar uma consci- pautada na ética do bem-comum. As Tendências Peda- ência política e, por desalienar os oprimidos gógicas Transformadoras acreditam que a educação, em e explorados, conforme nos ensina Paulo Freire (1983). conjunto com os movimentos sociais livres da tutela do A Tendência Pedagógica Libertária considera que Estado, serão cimento desta obra, cabendo-lhes dar con- conseguir alcançar os propósitos progressistas não pode sistência e sustentação a um novo projeto de sociedade. prescindir da contribuição das experiências coletivas e Examinadas as teorias que alicerçam as práticas democráticas de organização grupal e de autogestão pe- educativas reformistas e transformadoras, passemos a dagógica. Acredita ser este o primeiro passo para a gestão sua caracterização metodológica. coletiva e democrática da nova sociedade a ser erguida. Para a Tendência Pedagógica Histórico-crítica, 1.2. Caracterização metodológica das tendências peda- assim denominada por Saviani (1991) e identificada por gógicas reformistas e transformadoras Libâneo (1986) como Crítico-social dos Conteúdos, o Em princípio, não é demais lembrar que a ação di- compromisso fundamental da educação escolar é o de dática é uma prática social que acontece em um deter- assegurar aos dominados a apropriação crítica do saber minado contexto e orientada por ideais de escola e de e universal. Este se constitui em instrumento sociedade. É fruto de certos pressupostos e propósitos, de luta, por excelência, para a elaboração de um novo deixando transparecer a cada ato, fala ou o que projeto social, papel secundarizado pelas tendências somos, acreditamos e defendemos. pedagógicas libertadora e libertária, ao privilegiarem a A compreensão de que as práticas metodológicas re- consciência e as experiências democráticas e co- sultam das nossas opções teóricas, portanto, políticas, le- letivas de organização social, respectivamente. va-nos a discutir a didática predominante nas Tendências As Tendências Pedagógicas Críticas (SAVIANI, Pedagógicas Reformistas e Façamos 1985), também identificadas como progressistas juntos o exercício de estabelecer os nexos entre o como, o NEO, 1986), ao contrário das Tendências Pedagógicas porquê e o para quê nessas diferentes concepções. Reformistas, abordam o fenômeno da marginalidade como uma decorrência do modo de produção capita- A didática nos projetos políticos e educativos reformistas lista. Nesse sentido, situam o indivíduo no contexto de sua classe social e creditam a origem das diferenças e A Pedagogia e o Sistema de Instrução desigualdades sociais, em última instância, às condições Formal proposto por Johann Friedrich Herbart caracte- materiais da existência. Estas tendências pedagógicas, rizaram a abordagem tradicional e acrítica da educação 40 41Farias, I. M. S; Sales, J. O. C. B; Braga, M. M. S. C: França, M. S. L. M. Didática e docência e da escola. Estas propostas fincaram os pilares de uma experimentos, a resolução de situações-problemas e os didática do dar aulas pelo uso da exposição verbal e uni- projetos são expressões dessa abordagem metodológica, lateral do professor e do tomar o ponto, pelos exercícios na qual o ato de aprender é associado à capacidade de de cópia e fixação por parte dos alunos. descobrir e de construir respostas para a vida cotidiana. Aprende-se ouvindo e prova-se que aprendeu por As situações desafiadoras da aprendizagem têm meio da devolução das informações que foram deposita- lugar privilegiado na didática renovada progressivista. das, pelo professor, na cabeça vazia dos alunos, por isso a Outras formulações também nesta dire- expressão "educação bancária", cunhada por Paulo Freire ção, a exemplo dos estudos do Jean Piaget. for- (1983). Associa-se a aprendizagem à capacidade de re- mulador da epistemologia genética vai chamar a aten- ter, guardar, memorizar, armazenar de forma mecânica, ção para o fato de que o ser humano apresenta, ao longo passiva e receptiva um considerável acervo cultural. Vale de seu desenvolvimento, ritmos e estruturas mentais salientar que estamos nos referindo ao acervo cultural de próprias, fruto das interações que ele estabelece com o outros, à cultura do colonizador, do dominador, imposta mundo empírico para produzir conhecimento, mediante como dogma de fé e tratada à revelia da realidade social diferentes estágios (GOULART, 2005). de quem aprende e das estruturas cognitivas construídas Tal entendimento aponta para a necessidade de o pelo aluno. A relação professor-aluno é vertical e autori- professor conhecer os estágios de desenvolvimento cog- tária, pois se acredita que o medo, a distância, a ordem rí- nitivo pelos quais passa a criança visando à organização gida e preestabelecida, o ambiente austero e o silêncio são das experiências escolares, de acordo com seus interesses, condições para que a aprendizagem ocorra. ritmos e condições de raciocínio. Cabe-lhe, ainda, propor- Para a Tendência Pedagógica Renovada Progres- cionar um ambiente rico em situações e materiais, arquite- sivista, mais importante do que a aquisição mecânica do tando, desse modo, "situações desequilibradoras" (ibid.). produto final do saber elaborado pela humanidade é a Para os construtivistas este é o caminho pelo qual ocorre descoberta dos mecanismos e dos processos de constru- nos sujeitos a passagem das estruturas mentais mais sim- ção deste saber. Eclode a idéia do aprender a aprender e a ples para as mais complexas, condição sine qua non para o tese segundo a qual só se aprende a fazer ciência/conhe- processo de construção do conhecimento. cimento, fazendo. Esta foi a proposta didática oriunda Esta compreensão da aprendizagem altera a relação do pragmatismo de John Dewey para uma nova escola, professor-aluno, uma vez que este último, agora reco- cujos referenciais foram dispostos pela pedagogia cien- nhecido como sujeito capaz de construir conhecimento, tífica e pelo movimento ocupa o centro do processo de formação. O professor, Com esta tendência emerge uma didática da or- concebido como facilitador e orientador do processo de ganização de situações desafiadoras da aprendizagem, ensino e de aprendizagem, assume uma postura mais geradoras de novos esquemas mentais. Estas situações, respeitosa diante das diferenças individuais. que colocam o aluno no centro do processo de ensino e A Tendência Pedagógica Renovada Não-diretiva de aprendizagem, derivam dos métodos ativos, que re- acrescentou mais um elemento, a afetividade. Por enten- correm às etapas do método As pesquisas, os der a aprendizagem como um ato individual, interno e 42 43Farias, M. S; Sales, Braga, M. França, M. Didática e docência intransferível, possível só a partir do momento em que autoritários. Estes encontraram na Tendência nossas percepções, motivações e emoções são tocadas, os gica Tecnicista o suporte necessário para viabilizar seu não-diretivistas advogaram uma didática liberta de todo e projeto econômico e o incremento da industria- qualquer direcionamento prévio e rígido. Defendia-se uma lização e a imposição do regime antidemocrático. Tal didática capaz de gerar um clima propício e facilitador da corrente pedagógica, por sua vez, buscou fundamenta- comunicação do aluno com ele mesmo e com os outros. ção na psicologia comportamentalista e behaviorista. Desta feita, os conteúdos escolares passaram a ser Nesse momento, a didática se reveste de estratégias selecionados pelos alunos, de acordo com o grau de signi- de controle e diretivismo, adotando a tecnologia educa- ficação pessoal e em consonância com suas motivações. cional como forma de repaginar antigos métodos, muitos Os cantinhos da sala e os centros de interesse represen- dos quais advindos da tendência pedagógica tradicional. taram, por muito tempo, essa liberdade de escolha. Fo- A individualização do ensino ganha As técnicas e ram incluídas, no elenco das atividades curriculares, as dinâmicas de grupo, quando realizadas, movimentam a técnicas de sensibilização, expressão e de comunicação sala de aula, mas silenciam as discussões. aluno volta a interpessoal com o propósito de promover o desenvolvi- receber e fixar as informações, desta vez recorrendo a uma mento do eu do aluno, do seu autoconceito positivo e de maior diversidade de recursos e técnicas instrucionais. sua realização pessoal. Esta proposta tem como pressuposto, conforme registra Carl Rogers destaca-se como principal referência Saviani (1985, p. 23), "a neutralidade científica inspirada na constituição dessa linha de pensamento, pois acredi- nos princípios da racionalidade, da eficiência e produtivi- tava que a efetivação do binômio inteligência-afetividade dade", visando a tornar o ensino "objetivo e operacional". (ação-emoção) seria condição para uma aprendizagem Que papel é reservado ao professor nesta proposta? sólida. Tal associação é por ele percebida como exigên- Este assume posição secundária com relação aos fins, cia para a formação de indivíduos capazes de se adap- reduzindo seu fazer à execução do processo de ensino tarem ao sistema social vigente, sem grandes traumas e concebido e controlado por especialistas. Sua prática Este entendimento situa a afetividade no é marcada pelo emprego da skinneriana es- centro da relação professor-aluno. tímulo - resposta - reforço, caracterizando o ensino Até aqui não ouvimos falar em criticidade, muito como um "arranjo e planejamento de contingência de menos nos mecanismos de resistência coletiva aos pro- reforço" (MIZUKAMI, 1986, p. 30). Tem como tarefa cessos de aculturação e de acomodação ao modelo social treinar, moldar, condicionar, prever e controlar resulta- capitalista. Mas não podemos negar que a autonomia dos com o intuito de instalar nos indivíduos as respos- intelectual e emocional propagada pelas tendências tas previstas pelo sistema social capitalista. Tudo isto pedagógicas renovadas progressivista e não-diretiva porque, à luz dos experimentos de Pavlov, Skinner e fomentaram nos indivíduos a iniciativa, a curiosidade, a Watson a aprendizagem é concebida como mudança do comunicação e o sentimento de auto-confiança. comportamento em função de uma conduta ou desem- Estas concepções pedagógicas passaram a ser per- penho esperado e o ensino como processo de condicio- cebidas como um risco à ordem instituída pelos governos namento humano. 44 45Farias, M. S; Sales, O. C. Braga, M. C; França, M. L. M. Didática e docência Nesta tendência pedagógica os conteúdos que ga- um ato de "desvendamento da realidade" e de superação nham espaço nos currículos são aqueles tidos como obje- gradual da "consciência defende como procedi- tivos e neutros, organizados, apriori, pelos técnicos e espe- mento metodológico básico a "problematização da prática cialistas educacionais e expostos em manchetes nos livros social" nos de cultura" (FREIRE, 1983). Coerente com esta orientação, a relação profes- As temáticas, objeto de debate nos grupos de dis- sor-aluno ganha maior distanciamento sob o argumento cussão, são extraídas da prática cotidiana dos alunos, da objetividade, do profissionalismo e da impessoalidade. uma vez que o importante é o conhecimento que resulta Observa-se nas tendências pedagógicas tradicio- da experiência e que tem possibilidade de uso na luta nal, renovada progressivista e não-diretiva, bem como na de classe. As "palavras geradoras" são selecionadas do tendência pedagógica tecnicista, distinções de natureza "universo vocabular" dos que estão imersos no processo metodológica que não alteram o sentido político do ato de formação política, pois todo e qualquer saber pré-se- educativo escolar. Com efeito, tais propostas metodoló- lecionado é considerado uma "invasão cultural" (ibid.). gicas contribuem para fortalecer o modo de produção ca- Como o pressuposto da pedagogia freiriana é "ninguém pitalista que, por diferentes vias, busca legitimar as desi- ensina ninguém, os homens aprendem em comunhão", gualdades sociais como fenômeno natural. Por esta razão, os sujeitos do ato educativo ensinam e aprendem numa acreditamos não ser demais lembrar que elas compõem o relação dialógica e horizontal. Neste convívio, cabe ao bloco das tendências pedagógicas professor introduzir as questões que suscitarão a pro- A didática nos projetos políticos e educativos trans- blematização da prática social e mediar o diálogo entre formadores os sujeitos fazedores da história e do conhecimento. A Tendência Libertária, por sua vez, embora corro- Apoiadas na crença da possibilidade de reverter a do- bore com os fins pedagógicos libertadores - quando estes minação ideológica e a opressão protagonizada advogam que o papel da educação é conscientizar para pela ditadura do capital, assim como na tese de que a escola transformar a realidade adverte para os caminhos que não pode tudo, mas pode muito, as tendências nos levam à consciência crítica e a uma prática transfor- cas críticas e progressistas atribuem à educação o papel madora. Para os libertários, como Célestin Freinet e Mau- de contribuir com o processo de transformação social. Para rício Tragtemberg, a consciência resulta dos embates, da tanto, estas orientações postulam a necessidade da cons- experiência de luta e de organização social e não apenas cientização política, do exercício de práticas organizativas do debate e do diálogo entre pares 1986). e da apropriação crítica do saber e universal. É por este motivo que entram em cena experiências Considerando esta intencionalidade, qual didática de auto-gestão pedagógica como ensaio para a autogestão é sistematizada por cada uma das propostas que com- política e social. São instituídas as assembléias, os con- o bloco das tendências transformadoras? gressos, os conselhos, os grêmios estudantis, as eleições na Comecemos pela Tendência Pedagógica Libertado- escola, dentre outras. Afinal, aprender é, sobretudo, dar as ra, que tem em Paulo Freire seu principal expoente. Este respostas coletivas e organizadas que o projeto social de- educador nordestino por entender a aprendizagem como mocrático exige. Coordenar, orientar o grupo, sem impor 46 47Farias, M. Sales, J. B; Braga, M. M. S. França, M. S. L. M. Didática e docência suas idéias e é tarefa atribuída ao professor que Catarse: sistematização e expressão dos ins- comunga dos ideais Tal como os libertadores, trumentos culturais incorporados para en- os libertários condenam as relações que têm por base o tendimento mais profundo da prática social. cumprimento de obrigações e ameaças, defendendo a de- Síntese: compreensão da realidade sob uma mocracia como princípio da convivência humana. nova perspectiva e assunção de posiciona- mentos e de atitudes de forma consciente. A Tendência Pedagógica Histórico-Critica agre- ga outro instrumento de luta ao propósito de contribuir para a transformação da realidade: a apropriação crítica, A proposição metodológica da Tendência pelos excluídos, dos conhecimentos historicamente pro- gica Histórico-Critica pressupõe a superação das con- duzidos pela humanidade. Representam essa orientação: cepções inatista e empirista da aprendizagem. A primeira, Manacorda, Makarenco, Suchodolski, Charlot, Snyders, parte do princípio de que nascemos com estruturas men- Libâneo e Saviani. Para estes pensadores, o saber é uma tais e capacidade de desenvolvimento e de aprendizagem potente arma de luta contra os processos de alienação predefinidas, considerando os fatores internos (aqueles e dominação. Nesse sentido, entende-se que tão impor- próprios do sujeito) definidores do processo de aquisição do conhecimento. A segunda entende que os elementos tante quanto a consciência política e as práticas organi- zativas é a apropriação do saber que o dominador detém, externos, presentes no ambiente em que vivemos, pre- ou seja, o saber que precisa ser "tornado próprio", "tor- ponderam sobre o desenvolvimento e a aprendizagem hu- nado seu" pelos dominados (SALES, 2007). mana processos estes, tomados como idênticos. É importante assinalar que a idéia de apropriação Os teóricos que vêm dando prosseguimento às for- assume, na proposta histórico-crítica, uma conotação mulações da pedagogia histórico-crítica de pertencimento possibilitado pelo seu caráter crítico, a estas perspectivas da aprendizagem. Nesse sentido, cuja via de efetivação encontra suporte na teoria dialéti- merecem registro as formulações de Gasparin (2002) ca do Com base nesse substrato teórico que se apóia na concepção interacionista da aprendi- Saviani (1985, p. 73 76) propõe uma metodologia de zagem, de forma específica na vertente sociocultural de Semienovitch Vygotsky. ensino que vai da síncrese à síntese, pela mediação da sociointeracionismo, que tem por base as formu- análise, contemplando cinco passos: lações desse russo, compreende que a aprendi- mobilização do aluno para a cons- zagem não é uma de estruturas cognitivas trução do conhecimento mediante uma pri- prévias, mas condição para que novas funções intelectu- meira leitura da prática social. ais sejam construídas. Entende-se que a aprendizagem Problematização: identificação das questões que precisam ser resolvidas no âmbito da fomenta processos de desenvolvimento que, em situações prática social e dos conhecimentos de interação recíproca entre os sujeitos e entre estes e o rios ao seu equacionamento. meio, mediadas pela história e pela cultura, possibilitam Instrumentalização: apropriação pelas ca- novas aprendizagens. Aqui, o meio deixa de ser somen- madas populares das ferramentas culturais te espaço físico e material para ser "campo no necessárias à luta social. qual tudo e todos estão assentados (REGO, 1995). 48 49Farias, M. S; Sales, J. B; Braga, M. M. S. C; França, M. S. L. M. Didática e docência Aprender, nessa perspectiva, é entendido como a tos de direitos e a didática como mecanismo importante capacidade de processar as informações, de apropriar-se para a concretização do projeto de emancipação humana do saber, de construir conhecimento consistente sobre o elemento comum às pedagogias real. Ensinar, por sua vez, significa aproximar o que se é e Refletir sobre os processos históricos de organização o que se sabe daquilo que se pode vir-a-ser e a conhecer. da educação e da escola não se encerra nas proposições ex- Para usar a terminologia vygotskyana, ensinar é mediar, plicitadas até aqui. Em cada momento histórico, emergem é criar condições para fomentar a zona de desenvolvi- propostas e contra-propostas. A cada iniciativa em favor mento proximal, diminuindo a distância entre a zona de de mudanças estruturais, um movimento de cooptação e desenvolvimento real e a zona de desenvolvimento po- distorção das mesmas. Nesse sentido, é necessário ficarmos tencial do aluno (ibid.). Tarefa esta que coincide com o atentos, por exemplo, às orientações do neopragmatismo, do desafio apresentado pelo método dialético o de fazer o pensamento complexo e da pedagogia das competências. aluno ascender do conhecimento imediato e nebuloso da Estas linhas de pensamento vêm reconceptualizando realidade (sincrese) para uma visão cada vez mais elabo- o discurso da profissionalização do magistério, com vistas rada do mundo à formação de um trabalhador flexível, criativo, Na prática educativa, como o professor concretiza equilibrado emocionalmente e empreendedor; um pro- este processo? Por meio de uma didática colaborativa, fissional com competências e habilidades para lidar com dialógica e problematizadora. Uma didática que pro- situações cada vez mais complexas e de risco. Assim, as- mova interações com os muitos universos culturais dos sumir uma atitude questionadora sobre os sentidos das diferentes sujeitos aprendizes; que exercite a linguagem formulações orientadas pelas demandas do neoliberalismo nas suas múltiplas manifestações; e que fortaleça a ação e da pós-modernidade expressa nosso compromisso com e o pensamento crítico e autônomo. Cabe ressaltar que um projeto e educativo emancipatório. uma didática fundada na premissa da construção do co- Desse modo, acreditamos ser importante nos in- nhecimento não deve suscitar posturas de acomodação, terrogarmos continuamente sobre: Que tipo de humano e abandono do aluno à própria sorte. pretendemos formar? Qual educação, escola e fazer di- Para evitar este a Tendência Pedagógica dático serão capazes de contribuir para a formação deste Histórico-critica reafirma o papel do professor como homem? Que tipo de sociedade esperamos que este ho- insubstituível na relação do aluno com o conhecimento mem seja capaz de edificar? Que professor(a) sou e pre- (SAVIANI, 1985; 1986). Faz-se necessário, ciso me tornar para ajudar na consolidação deste projeto assim, que o professor exerça sua autoridade educativa político e pedagógico? fundada em saberes cientificos, pedagógicos e de vida, sem os quais não poderá contribuir com a aprendizagem de outros. Embora estas formulações não sejam recentes, Síntese do Capítulo elas precisam ser melhor apropriadas pelo coletivo dos educadores, sobretudo por aqueles que concebem a edu- Este texto apresenta os fundamentos da Didática. cação como ato a escola como espaço de sujei- Descreve as teorias que embasam as práticas educativas 50 51Farias, M. Sales, J. Braga, M. M. S. C; França, M. S. L. M. Didática e docência sob as perspectivas de Saviani (1985), que as classifica Pedagogia Detalhe e confronte es- como não-críticas, crítico-reprodutivistas e críticas; e de tes momentos metodológicos. Para tanto, recorra ao Libâneo (1986), que as nomeia de liberais e progressistas. texto "Para além dos métodos novos e tradicionais", Com esteio nessas as autoras escrito por Dermeval Saviani em sua clássica obra Es- nas como tendências pedagógicas reformistas e trans- cold e Democracia. formadoras, apresentando sua caracterização metodo- lógica. Refletem sobre a Didática nos projetos políticos Herbart Dewey Saviani Preparação Atividade Prática Social e educativos, com fins à transformação da sociedade e à Apresentação Problema Problematização emancipação humana. Assimilação Coleta de dados Instrumentalização Generalização Hipótese Catarse Aplicação Experimentação Prática Social Atividades 3. Paulo Freire é considerado um dos maiores educado- res do século XX. Um divisor de águas entre as teorias educacionais reformistas e as transformadoras. Mes- 1. A formação contínua e em serviço de grande par- mo assim, sabemos muito pouco sobre ele e sua con- te dos professores tem focado o construtivismo e o tribuição para o pensamento pedagógico mundial. sociointeracionismo como as abordagens teóricas Nesse sentido, faça uma pesquisa intitulada "Vida e metodológicas mais adequadas ao nosso tempo. e obra de Paulo Freire", destacando sua experiência Procure identificar colegas professores que tenham profissional e assim como as categorias e a participado de cursos, seminários, palestras, debates proposta pedagógica por ele desenvolvida. acerca destas temáticas e os entreviste. Extraia dos depoimentos o que foi compreendido sobre: a) que é construtivismo? Bibliografia Comentada b) que é sociointeracionismo? c) Quais as aproximações e divergências entre o cons- SAVIANI, Dermeval. Escola e democracia: teorias da trutivismo piagetiano e o construtivismo sociointe- educação, curvatura da vara, onze teses sobre educação racionista de Vygotsky em relação ao projeto de ho- e política. edição. São Paulo: Cortez, 1985. livro dis- mem e de sociedade, a concepção de aprendizagem e corre sobre as teorias da educação, em diferentes contex- o papel do professor? tos e momentos históricos brasileiros. Analisa as teorias d) Que atividades/experiencias proporcionar para que a educacionais não-críticas, crítico-reprodutivistas, além aprendizagem ocorra no construtivismo piagetiano e da Teoria da Curvatura da Vara. Reflete sobre política, no construtivismo sociointeracionista de Vygotsky? democracia e sociedade de forma crítica e contextualiza- 2. Observe o quadro abaixo. Ele apresenta os passos da. Essa é uma discussão necessária no âmbito da Edu- básicos do método preconizado pela Escola Tradi- cação e da escola local em que atuam os professores, cional, pela Escola Renovada Progressivista e pela agentes do processo de formação de homens e mulheres 52 53Farias, M. S; Sales, J. O. C. B; Braga, M.M.S.C; França, M. S. L. M. críticos, conscientes e participantes de seus tempos his- tóricos e espaços sociais. SUCHODOLSKI, Bogdan. A pedagogia e as grandes correntes a pedagogia da essência e a peda- gogia da existência. edição. Lisboa: Livros Horizonte, Capítulo 2 1992 (Coleção Biblioteca do Educador). livro trata de duas tendências da Pedagogia: a essencialista e a exis- Identidade e fazer docente: tencialista. A Pedagogia da Essência, mais antiga, se as- aprendendo a ser e estar na profissão senta numa concepção ideal do homem racionalista em Platão, em São de Aquino. A Pedagogia da Existência, mais tardia, em Rousseau e em autor acompanha o desenvolvimento Concordando com Carlos Rodrigues Brandão (1981), destas concepções pedagógicas e o seu conflito, até a segundo o qual "tão grande como tudo o que é humano é a época contemporânea. educação" e com Paulo Freire ao defender que a educação, em seus mais diferentes matizes, deve se constituir sempre numa possibilidade de humanização, é que concebemos o professor como um profissional que está sempre se fazen- do. Apoiado nesses pressupostos, este capítulo busca ex- plicitar os elementos da identidade docente, cuja compreensão não se desvincula dos projetos sociopo- líticos vigentes, dos processos de socialização experimen- tados pelo professor, dos saberes e práticas que permeiam seu trabalho. À primeira vista a inclusão do tema identidade pro- fissional docente em um livro de Didática pode causar estranheza. Com efeito, não seria um situar esta pauta entre aquelas emergentes neste campo de es- tudo pedagógico, interesse temático legítimo, posto que o professor é o profissional responsável pela concretiza- ção do processo de ensino. Ademais, este sujeito nunca foi alvo de críticas como agora. São inúmeras as expecta- tivas de mudança projetadas sobre seu modo de ser e de estar na profissão, exigência muitas vezes feita como se isso implicasse alterações de ordem meramente técnica. 54 55