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Apostila Clínica Apostila Clínica Prof. Élcio Daleffe Prof. Fábio Carmona Tirintan Sumário Abertura coronária 03 Preparo biomecânico 15 Irrigação 33 Medicação intracanal 40 Obturação 53 Retratamento endodôntico 61 Capítulo I - Abertura Coronária CAPÍTULO I ABERTURA CORONÁRIA Definição A abertura coronária é a fase inicial do tratamento endodôntico, também chamada de fase de acesso, cirurgia de acesso, preparação da cavidade endodôntica e preparo intracoronário. Seu objetivo é permitir o acesso ao interior da cavidade pulpar, por meio da remoção do teto da câmara pulpar e desgastes em regiões especificas, a fim de realizarmos um correto preparo biomecânico e obturação dos canais radiculares. Observações e Cuidados na Abertura Coronária Uma abertura coronária adequada para as posteriores fases do tratamento endodôntico deve considerar alguns aspectos inerentes ao próprio paciente e ao dente em questão: · Posição e inclinação dos dentes no arco (no sentido vestíbulo-lingual e mésio-distal) · Número e posição das raízes. · Conhecimento da anatomia interna dos dentes. Instrumental Instrumentos para o exame clínico: espelho, pinça clínica pediátrica, sonda exploradora n. 5 e sonda endodôntica, 01 Kit de lima tipo K de 1ª série (15-40)21 mm, Tamboréu, além de instrumental para a irrigação da câmara pulpar. Também utilizamos uma variedade de brocas: · brocas diamantadas para alta rotação: 1012, 1014 e 1016; 3080, 3081 e 3082. · Brocas para contra-ângulo: CP Drill; Gates – Glidden e LN (ref. 205). Broca CP Drill GATES-GLIDDEN Princípios Básicos da Abertura Coronária A abertura coronária deve ser realizada observando-se os seguintes princípios: · Acesso direto ao canal radicular por meio de linha reta. Facilita a ação livre dos instrumentos manuais e rotatórios para que estes trabalhem sem tensão, minimizando os riscos de acidente durante o tratamento. · Remoção completa do teto e cornos pulpares. Evita áreas de retenção de detritos e restos de material necrótico que levarão ao escurecimento da coroa dental. · Respeito à parede cervical a ao assoalho da câmara pulpar. As embocaduras dos canais radiculares são cônicas e o assoalho da cavidade pulpar em dentes multirradiculados é liso e polido, facilitando a exploração das entradas dos canais. Caso ocorra algum desgaste ou formação de degrau neste assoalho, teremos maiores dificuldades para acessar os canais. Etapas da Abertura Coronária A realização da abertura coronária constitui-se de etapas, as quais devem ser seguidas seqüencialmente para direcionar o ato operatório. As fases a serem obedecidas são as seguintes: · Zona de eleição · Direção de trepanação · Forma de contorno · Forma de conveniência ou desgaste compensatório. Etapas da abertura coronária nos respectivos grupos dentais Incisivos superiores e inferiores · Zona de eleição: Neste grupo dental a zona de eleição é na face palatina ou lingual próximo a região do cíngulo. Para facilitar a localização, divide-se esta face em terços no sentido mésio-distal e cérvico-incisal, sendo o ponto de eleição na subdivisão mais central. Incisivo Central Incisivo Lateral Incisivos Inferiores · Direção de trepanação: 1° Movimento: Penetra-se com ponta diamantadas esférica de diâmetro compatível à área da subdivisão em questão, perpendicular a face do dente, perfurando apenas o esmalte. 2° Movimento: Muda-se a direção da broca esférica para paralelo ao longo eixo do dente até encontra a câmara pulpar. Em dentes com a câmara pulpar normal teremos a sensação de “cair no vazio”. · Forma de contorno: Com as pontas diamantadas 3080, 3081 ou 3082, removendo-se todo o teto da câmara pulpar. Nesse grupo dental desgasta-se primeiramente para palatina ou lingual, depois em direção aos cornos mesial e distal nesta ordem, e, por último, une-se todos os desgastes concretizando a remoção de todo o teto com movimento de impulsão e retração, obtendo a forma de contorno final, que nestes dentes é triangular com base para incisal, sendo mais achatada no sentido mésio-distal para os incisivos inferiores. Lembrando-se que não devemos desgastar para incisal além da altura dos cornos. Caninos superiores e inferiores · Zona de eleição: Seguem-se as mesmas orientações dos incisivos, ou seja, na face palatina próximo à região do cíngulo, empregando a ponta diamantada em alta rotação, compatível com o tamanho da câmara pulpar. Canino superior Canino Inferior · Direção de trepanação: 1° Movimento: Penetra-se com ponta diamantada esférica de diâmetro compatível à área da subdivisão em questão, perpendicular a face do dente, perfurando apenas o esmalte. 2° Movimento: Muda-se a direção da broca esférica para paralelo ao longo eixo do dente até encontra a câmara pulpar. Em dentes com a câmara pulpar normal teremos a sensação de “cair no vazio”. · Forma de contorno: Com as pontas diamantadas 3080, 3081 ou 3082, removendo-se todo o teto da câmara pulpar. Nesse grupo dental desgasta-se primeiramente para palatina ou lingual, e posteriormente em direção à ponta de cúspide. Por fim, unem-se os desgastes removendo todo o teto e dando a forma de contorno, que neste grupo dental é losangular. · Desgaste compensatório: Consiste na remoção da projeção de dentina, ou área de embolsamento da parede palatina com broca CP Drill, com a finalidade de facilitar a ação dos instrumentos. Pré-molares superiores e inferiores · Zona de eleição: Situa-se no centro da face oclusal, com exceção do primeiro pré-molar inferior, que deve ter sua abertura ligeiramente deslocada para mesial, devido à presença da ponte de esmalte. Pré-molares Superiores Pré-molares inferiores · Direção de trepanação: Empregam-se pontas diamantadas esféricas compatíveis com o tamanho da câmara pulpar, removendo-se o esmalte e a dentina, no sentido Vestíbulo-Palatino ou Vestíbulo-Lingual, em movimentos circulares, até atingir o corno pulpar mais saliente. Ponto de trepanação Trepanação Remoção de todo o teto · Forma de contorno: Com as pontas diamantadas 3080, 3081 ou 3082, desgasta-se primeiro em direção à lingual e posteriormente para vestibular, respeitando-se as cúspides, até remover todo o teto da câmara pulpar. Os desgastes laterais são mínimos, e ao final teremos uma forma elíptica para os pré-molares superiores e ovalada para os inferiores. · Desgaste compensatório: Consiste na remoção da projeção de dentina, ou área de ombro lingual da parede palatina com broca CP Drill, com a finalidade de facilitar a ação dos instrumentos. Molares superiores e inferiores · Zona de eleição: Nos molares superiores, o ponto de eleição é próximo à fóssula mesial, ligeiramente deslocado para distal, enquanto nos inferiores é próximo ao centro da face oclusal com ligeiro deslocamento para mesial. 1 Molar superior 2 Molar superior Molar inferior · Direção de trepanação: Empregam-se pontas diamantadas esféricas compatíveis com o tamanho da câmara pulpar, removendo-se o esmalte e a dentina, em movimentos triangular com base para a vestibular, em molares superiores, e a base para a mesial, em molares inferiores até atingir o corno pulpar mais saliente. Ponto de trepanação Trepanação Remoção de todo o teto Ponto de trepanação Trepanação Remoção de todo o teto · Forma de contorno: Uma vez atingida a câmara pulpar, com a broca diamantada de ponta inativa 3080, 3081 ou 3082, remove-se todo o teto da câmara pulpar. O primeiro desgaste será para palatino nos molares superiores e para distal nos inferiores, o segundo dá-se no sentido da cúspide mésio-vestibular, tanto nos superiores quanto nos inferiores, o terceiro desgaste será, nomolar superior no sentido disto-vestibular, porém respeitando-se a ponte de esmalte, enquanto nos inferiores será para mésio-lingual, porém mais próximo ao sulco central; por fim unem-se todos os desgastes, regularizando as paredes e obtendo assim a forma de contorno final, que será triangular com base para vestibular nos superiores e para mesial nos inferiores. Tanto para molares superiores quanto para molares inferiores a abertura apresenta-se levemente deslocada para mesial. · Desgaste compensatório: Neste grupo dental o desgaste é realizado na parede mesial dos molares inferiores, na parede mesial do canal mesio-vestibular dos molares superiores e na parede distal do canal disto-vestibular dos molares superiores, desde a embocadura dos canais removendo a projeção de dentina que impede o livre acesso dos instrumentos, sendo estes realizados com as limas e a broca CP Drill. Área em verde nas figuras abaixo. Molar Superior Molar Inferior Esquema da forma de conveniência final nos dentes superiores e infeiores: Capítulo II – Preparo Biomecânico dos Canais Radiculares CAPÍTULO II PREPARO BIOMECÂNICO DOS CANAIS RADICULARES Definição: A instrumentação dos canais radiculares compreende a etapa do tratamento endodôntico radical que visa preparar a cavidade pulpar, removendo seu conteúdo séptico ou asséptico, oferecendo-lhe uma conformação adequada para que seja preenchida completamente por um material biológica e fisicamente compatível. Didaticamente, a instrumentação propriamente dita está diretamente associada à irrigação, sendo assim, diversos autores denominam esta fase de preparo biomecânico, pois esta interação exige que este processo esteja baseado em certos princípios biológicos, considerando que existe tanto a extensão de penetração de instrumentos e soluções irrigadoras nos canais, quanto à remoção de materiais ali existentes. Objetivos: Os objetivos da instrumentação dos canais radiculares são: · promover uma conformação cônica de apical para cervical; · criar o batente apical; · manter o forame apical em sua posição e forma original; · eliminar todo o substrato do interior dos canais radiculares; · favorecer a obturação dos canais radiculares. Materiais empregados no preparo dos canais radiculares: Existe uma quantidade enorme de materiais e instrumentos específicos para o preparo biomecânico dos canais, representando um conjunto de grande importância, pois com eles vamos intervir diretamente no interior dos canais e prepará-los convenientemente de acordo com a indicação de cada caso. Descreveremos neste capítulo somente o instrumental empregado nas técnicas que se adequam à nossa filosofia de trabalho. Basicamente empregamos instrumentos que abrangem dois grupos: Instrumentos Manuais: · limas tipo Kerr · limas tipo K-Flexofile Instrumentos Rotatórios: · broca CP Drill · brocas de Gates Glidden Limas tipo Kerr É um instrumento multifuncional, pois possui uma excelente capacidade exploratória (movimento de cateterismo) e um poder de corte em tração e rotação, o que indica seu emprego no preparo biomecânico dos canais radiculares. As limas tipo Kerr são confeccionadas a partir de hastes metálicas triangulares ou retangulares que sofrem uma torção sobre seu longo eixo, onde o ângulo formado pelas arestas em relação a este é de 45o. Sua extremidade geralmente termina em ponta aguda e cortante, possuindo, portanto guia de penetração ativa. Existem limas tipo Kerr de diversos diâmetros e tamanhos: · n. 15 ao n. 40 (1a série) nos comprimentos de 21, 25 e 31 mm. · n. 45 ao n. 80 (2a série) nos comprimentos de 21, 25 e 31 mm. · n. 90 ao n. 140 (3a série) nos comprimentos de 21, 25 e 31 mm. · n.06, 08 e 10 (extra série) nos comprimentos de 21, 25 e 31mm. Limas tipo Hedströen As limas tipo Hedströen são confeccionadas por meio da usinagem de uma haste cilíndrica, cuja parte ativa se caracteriza por uma espiral sob a forma de pequenos cones superpostos e ligeiramente inclinados, com angulação de 60o, de maneira que a parte cortante fique na base dos cones. Estas limas possuem excelente capacidade de corte em tração e guia de penetração ativa. As limas tipo hedströen são disponíveis nos seguintes formatos: · n.15 ao n. 40 (1a série) nos comprimentos de 21, 25 e 31 mm. · n. 45 ao n. 80(2a série) nos comprimentos de 21, 25 e 31 mm. · nº 10 (extra série) nos comprimentos de 21, 25 e 31 mm. Broca CP Drill Possui um formato cilíndrico, São empregadas na realização de desgastes compensatórios, facilitando assim a ação livre dos instrumentos, podendo inclusive proporcionar, em função do diâmetro do canal, o preparo do terço cervical. Brocas de Gates Glidden Sua parte ativa assemelha-se ao formato de chama, com guia de penetração inativa. Apresenta-se nas numerações de 01 a 06 em função do diâmetro, como descrito na tabela abaixo: Gates Glidden 1 2 3 4 5 6 Lima 50 70 90 110 130 150 Quanto à extensão, podemos encontrar brocas de Gates Glidden com comprimentos de 28 e 32 mm, sendo que a parte ativa pode alcançar até 16 mm em profundidade, proporcionando o preparo dos terços cervical e médio, facilitando sobremaneira a instrumentação do terço apical e a fase de obturação. Fases da instrumentação Didaticamente, dividimos a instrumentação em fases, para facilitar a compreensão, dando uma seqüência lógica dos passos que compõem esta etapa. No entanto, esta seqüência não é estática, variando conforme a técnica empregada e as condições anátomo-patológicas inerentes a cada situação clínica. Vale ressaltar que todas as etapas da instrumentação estão associadas ao agente irrigador, isto é, uma irrigação adequada é imprescindível para que esta fase seja bem conduzida. Exploração inicial do canal radicular Após a análise da radiografia de diagnóstico, verificamos se o dente em questão é possuidor de uma ou mais raízes, o seu comprimento, o número de canais, direção, calibre e relações anatômicas existentes; preenchemos a câmara pulpar com agente irrigador, selecionamos uma lima tipo Kerr de diâmetro e comprimento compatíveis com a imagem radiográfica inicial, normalmente de nº 10 ou 15 e com movimento de cateterismo, que consiste em girar o instrumento 45o no sentido horário e 45o no anti-horário com ligeira pressão apical, procurando verificar se o canal em questão é passível de ser preparado. Odontometria A odontometria é a fase com a qual se determina o comprimento total do dente e, por conseguinte, a extensão real de trabalho, que define o limite apical de instrumentação. Inúmeros métodos foram e estão sendo preconizados e estudados com o objetivo de tornar mais precisa a determinação desta medida, entre os quais, os métodos eletrônicos vêm se desenvolvendo e já apresentam um certo grau de confiabilidade. Porém, a radiografia constitui-se ainda como o método mais empregado e confiável para esta finalidade, destacando-se o método de Ingle, o qual será descrito posteriormente. Limite apical de instrumentação Este limite consiste na porção mais apical a ser preparada pela instrumentação, e dependendo das condições biológicas deve estar situado a 1,0mm do ápice radiográfico, que corresponde à região próxima ao limite CDC (cemento-dentina-canal), onde normalmente se encontra o local de maior constrição, e divide o canal dentinário, que abriga a polpa, do canal cementário, que contém tecidos periodontais. Nos casos de biopulpectomia, se aceita que o batente apical seja realizado a 1,0mm do ápice radiográfico, uma vez que o canal cementário estará preenchido por tecido vivo e funcional, sendo extremamente interessante à manutenção do mesmo. Desta forma, devemos procurar preservar sua integridade evitando afetá-lo mecanicamente. Tal raciocínio é válido também para os casos de necrose pulpar sem lesão periapical aparente (necro I). Em necropulpectomia com lesão radiográfica aparente (necro II), o limite de instrumentação deverá situar-se a 1,0mm aquém do ápice radiográfico. Nestes casosé de fundamental importância à realização da limpeza de todo o canal dentinário, bem como do canal cementário quando presente, objetivando reduzir o contingente bacteriano, promovendo condições biológicas favoráveis ao processo de reparo. O ato de se instrumentar levemente o canal cementário, denominado desbridamento apical ou patência apical, deve ser realizado com o instrumento apical foraminal (IAF), uma lima tipo Kerr de pequeno calibre (nº 10 ou 15) trabalhando no comprimento total do dente, mantendo o canal preenchido com solução de hipoclorito de sódio a 2,5%. Para a fase laboratorial adotar-se-á a medida de 1,0mm aquém do ápice radiográfico. Método de odontometria de Ingle É um método que emprega a radiografia para determinar o comprimento do dente, desenvolvido por JONH IDE INGLE, e obedece aos seguintes procedimentos: 1. medir o dente na radiografia inicial, a qual deve estar bem processada e sem apresentar distorções, 2. subtrair 2 a 3 mm do comprimento obtido no item 1, 3. adaptar o cursor à lima na medida determinada no item 2, 4. inserir o instrumento no interior do canal e realizar a tomada radiográfica, 5. medir na radiografia a diferença entre o fim do instrumento e o ápice radicular, acrescentando-se ou diminuindo-se este valor do comprimento do instrumento, obtendo o comprimento real do dente. Quando realizar nova tomada radiográfica em odontometria Nesta etapa, alguns fatores podem ocorrer que vão exigir a realização de uma nova tomada radiográfica: · não aparecer o ápice na película radiográfica (cortar o ápice), · não ser possível visualizar o ápice na radiografia (imagem confusa), · a radiografia estiver alongada ou encurtada em demasia, · a distância da lima-ápice for maior que 3 mm. Dilatação dos canais radiculares Uma vez dimensionada a medida do canal a ser preparada no sentido longitudinal, isto é, seu comprimento de trabalho, deve determinar o quanto dilatá-lo no sentido transversal. Esta ampliação depende de fatores anatômicos e patológicos, mas basicamente devemos ampliar o canal três instrumentos a partir do primeiro que atinge o comprimento de trabalho ajustado às paredes do canal (Instrumento apical inicial - IAI) também chamado de "diâmetro anatômico". Por exemplo: DA = LK 15 [ (Instrumentação) LK 15 LK20 LK 25 LK 30 ] Lima memória será LK 30 O último instrumento que atua no comprimento de trabalho é denominado de "instrumento de memória", e determina o batente apical. Idealmente o canal radicular deve ser dilatado no mínimo até o instrumento de nº 25, para que se possa realizar ume obturação com maior hermeticidade. Técnicas de instrumentação: Apesar da grande importância do preparo biomecânico dos canais radiculares, foi recentemente que se começou a desenvolver novos métodos procurando conciliar o fator biológico aos princípios técnicos. Mesmo com a enorme gama de técnicas desenvolvida, devemos nos ater a alguns princípios que são imprescindíveis para o sucesso do tratamento endodôntico. A realização do escalonamento constitui-se numa dessas manobras que favorecem sobremaneira o tratamento endodôntico, podendo ser empregada em canais retos e curvos, promovendo maior limpeza em relação à remoção de tecido e restos necróticos do interior destes, além do que, favorece um preparo mais cônico, facilitando a irrigação e o momento da obturação. Dentre as técnicas existentes, descreveremos a escalonada regressiva programada e a de OREGON modificada, as quais consideramos essenciais para a prática endodôntica de rotina. Técnica escalonada regressiva programada Esta técnica tem por objetivo promover um preparo com uma conicidade adequada ao canal radicular, com o intuito de favorecer a anti-sepsia e a obturação hermética da cavidade pulpar. Como todos os procedimentos da terapia endodôntica, esta técnica também possui etapas, as quais devem ser seguidas corretamente para sua execução mais adequada. Estas etapas estão descritas sucintamente abaixo: 1. determinação do comprimento real de trabalho com o método odontométrico, 2. obtenção do instrumento apical inicial (IAI), que consiste no primeiro instrumento a atingir a extensão real de trabalho ajustado às paredes do canal, 3. instrumentar 3 limas acima do IAI, na extensão real de trabalho com movimentos de limagem, confeccionando assim o batente apical e obtendo o instrumento de memória, 4. confeccionado o batente apical, complementa-se a instrumentação com o uso de brocas Gates Glidden, previamente à realização do escalonamento regressivo, 5. realização do escalonamento regressivo reduzindo 1mm na extensão do canal a cada instrumento mais calibroso empregado, sempre retornando ao instrumento de memória a cada troca de limas. Abaixo temos um exemplo para melhor compreensão da técnica, em um dente com comprimento real de trabalho de 22mm e diâmetro anatômico (IAI) correspondente à lima 25. IAI = lima K 25 CRT = 22mm Instrumento - comprimento lima 25 - 22mm lima 30 - 22mm lima 35 - 22mm lima 40 - 22mm* Lima 40 corresponde ao instrumento de memória Gates Glidden 2 lima 40 - 22mm* Gates Glidden 3 lima 40 - 22mm* lima 45 - 21mm lima 40 - 22mm* lima 50 - 20mm lima 40 - 22mm* lima 55 - 19mm lima 40 - 22mm* lima 60 - 18mm lima 40 - 22mm* lima 70 - 17mm lima 40 - 22mm* Técnica de Oregon Modificada 1 - A partir da radiografia pré-operatória, calcular o comprimento do dente e subtrair dois milímetros, o que corresponde ao comprimento de trabalho provisório, 2 - Selecionar uma lima compatível com o diâmetro do canal apresentado na radiografia inicial e verificar se a mesma penetra uma pequena extensão além da embocadura. Para canais amplos normalmente iniciar com a lima tipo Kerr 80, para canais medianos a lima tipo Kerr 50 e para canais atrésicos a lima tipo Kerr 40, 3- Introduzir passivamente a lima selecionada em direção apical até seu ajuste no canal, girá-lo no sentido horário sem qualquer pressão apical até perceber um início de travamento, então traciona-se (movimento coroa-ápice sem pressão apical). Repetir estes procedimentos com as limas seqüencialmente de menor calibre que vão progredindo a penetração do canal respeitando-se o item abaixo, 4 - suspender a seqüência quando uma lima atingir 16mm ou quando a extensão pré odontométrica for alcançada (no caso dela ser menor do que 16mm), 5 - Após o item 4, empregar as brocas de Gates Glidden (GG), para canais amplos brocas GG n. 3 e 4 e para os atresiados ns. 1, 2 e 3, sempre respeitando a espessura das paredes dentinárias. A as brocas de Gates Glidden devem ser empregadas girando no sentido horário com ligeira pressão para apical e trabalhar somente no longo eixo do dente, sem movimentos de lateralidade e apenas na porção reta do canal. Quando sentir que a broca não penetra mais, removê-la do canal sempre girando. 6 - Retornar às limas tipo Kerr, a partir da última empregada antes da GG, seguindo as orientações do item 3, em seqüência progressiva de penetração e regressiva de numeração, utilizando os limitadores (tope de borracha), regulados no comprimento de trabalho provisório já calculado no item 1. Atingida esta extensão, realiza-se uma tomada radiográfica determinando o comprimento de trabalho (odontometria). 7 - Prossegue-se preparando o canal progressivamente, objetivando atingir a extensão de instrumentação, o instrumento que atingí-la corresponde ao instrumento apical inicial (IAI). 8 - Realiza-se então o batente apical e a modelagem das paredes do canal, seguindo os princípios da técnica escalonada regressiva, já descrita anteriormente. Exemplo de um caso clínico: · Obter o comprimento radicular na radiografia inicial = 21mm · Determinar o comprimento de trabalho (CPT) =19mm · Lima 40 (penetração passiva / movimento coroaápice) · Lima 35 (penetração passiva / movimento coroa ápice) · Lima 30 (penetração passiva / movimento coroa ápice) · Lima 25 (penetração passiva / movimento coroa ápice) · Gates Glidden ns. 1 e 2 · Lima 20 - 15 - 10 - 08 (movimento coroa-ápice até atingir o CPT) · Radiografia de odontometria · Neste exemplo o IAI = lima 15 e comprimento de trabalho = 20mm · Lima 15 - 20mm (movimento de limagem) · Lima 20 - 20mm (movimento de limagem) · Lima 25 - 20mm (movimento de limagem) · Lima 30 - 20mm (movimento de limagem)* · Lima 35 - 19mm (movimento de limagem) · Lima 30 - 20mm (movimento de limagem)* · Lima 40 - 18mm (movimento de limagem) · Lima 30 - 20mm (movimento de limagem)* · Lima 45 - 17mm (movimento de limagem) · Lima 30 - 20mm (movimento de limagem)* * Instrumento memória Capítulo III - Irrigação Dos Canais Radiculares CAPÍTULO III IRRIGAÇÃO DOS CANAIS RADICULARES Definição A etapa de irrigação está intimamente associada à de instrumentação das cavidades pulpares, a união destas duas etapas é denominada preparo biomecânico dos canais radiculares. A irrigação consiste no ato de, através de agentes líquidos (soluções de hipoclorito de sódio, clorexidina entre outras), promover a limpeza do campo operatório, deslocando as partículas indesejadas e removendo-as do interior dos canais. Objetivos da irrigação Como foi anteriormente citado, o ato da irrigação deve estar sempre associado à instrumentação, objetivando: 1. Movimentar as partículas: com o uso dos instrumentos endodônticos nas paredes dentinárias do canal, partículas de dentina vão sendo liberadas para a luz do mesmo, onde seja pelo uso errôneo destes instrumentos ou pelas próprias leis da física elas poderão ser impactadas no terço apical radicular, observamos, portanto que a irrigação abundante tende a diminuir tal incidente, por isso sugere-se que no mínimo, a cada troca de instrumento o conteúdo irrigante seja renovado. 2. Lubrificar as paredes dentinárias: o emprego de substâncias irrigadoras tende a lubrificar e hidratar as paredes dentinárias, facilitando a ação dos instrumentos endodônticos. 3. Dispersar e/ou solubilizar conteúdos do canal radicular: isoladamente, a instrumentação não é capaz de remover todo o conteúdo do canal radicular, principalmente resíduos pulpares e/ou bacterianos. O emprego de determinadas substâncias coadjuvantes, além de exercerem funções mecânicas atuam quimicamente, dispersando e/ou solubilizando esse materiais. 4. Propiciar ação anti-séptica: a atuação mecânica tende a diminuir o número de microorganismos de cavidade pulpar, entretanto se usa substâncias que atuam sobre as bactérias, estas também exercem função anti-séptica. Soluções Irrigadoras As soluções irrigadoras são dividas em classes que são: · Compostos halogenados · Dakin · Milton · Labarraque · Clorexidina · Quelantes · EDTA Os compostos halogenados devem apresentar como propriedades que são; · Baixa tensão superficial · Neutraliza parcialmente os produtos tóxicos · Bactericida · Favorece a instrumentação · pH Alcalino · Dissolvente · Desidrata e solubiliza as substâncias protéicas · Ação rápida · Dupla ação detergente · Não irritante quando empregada à necrose pulpar e lesão periapical crônica. As soluções a base de hipoclorito de sódio e devem apresentar as seguintes concentrações de cloro ativo: · Dakin 0,5% · Soluções de Milton 1,0% · Licor de Labarraque 2,5% E entre as soluções a base hipoclorito de sódio apresenta a seguinte biocompatibilidade da maior para a menor. · Dakin................................................................mais biocompativél · Soluções de Milton · Licor de Labarraque · Soda clorada................................................... menos biocompativél Clorexidina. Solução de clorexidina vem sendo usada em diferentes concentrações na forma · Bochechos · Irrigação sub-gengival · Géis · Dentifrícios ou chicletes Efeitos adversos do uso prolongado: · Manchamento dentes, língua e restaurações · Perda do paladar · Descamação mucosa oral · Sensação de queimadura Clorexidina apresenta como espectro de ação: · Gran positivos · Gran negativos · Anaeróbios e aeróbios facultativos · Leveduras e fungos A Chx 0,12% foi tão efetiva quanto NaOCl 5,25% “in vitro” contra: · Streptococcus mutans · Peptostreptococcus micros · Prevotella intermedia · Porphyromonas gingivalis “Avaliação in vivo da atividade antimicrobiana da Chx 2% e seu efeito residual como solução irrigadora de canais radiculares em dentes com necrose pulpar e reação periapical crônica.” Baseados nos presentes resultados “in vivo” · Chx apresenta ação antimicrobiana · Quando usada como solução irrigadora · Chx apresenta ação residual (subs.) por 48 hs após sua utilização Conclusão: Deve ser usada principalmente como coadjuvante no preparo biomecânico como complementar ao uso da solução de hipoclorito de sódio. Momento da irrigação Deduz-se que o ato de irrigação deva ser executado, no caso do tratamento endodôntico radical, a cada troca de instrumento, impedindo-se a manutenção de raspas de dentina no interior da cavidade pulpar. Salienta-se, sempre que o ambiente endodôntico deverá estar repleto de substância irrigadora, impedindo o acúmulo de detritos, que poderão tanto abrigar microorganismos como impactar-se no terço apical radicular. Técnica de irrigação Tendo em vista que o objetivo deste manual seja auxiliar o aluno no período laboratorial, exporemos somente o recurso adotado pelo Laboratório de Odontologia da Faculdade Unic Tangará Sul. Para a realização da irrigação simples torna-se necessário o emprego de dispositivo gerador de pressão, cânula irrigadora e substância irrigante. a) dispositivo gerador de pressão: Inúmeros dispositivos têm sido propostos para esta finalidade, entretanto o emprego de seringas plásticas autoclaváveis de 10ml mostram-se prático e eficaz. b) cânula irrigadora: As cânulas irrigadoras deveram ser agulhas adotadas pela equipe de Endodontia. c) substância irrigadora: Neste momento, não serão descritas as substâncias irrigadoras que deverão ser utilizadas para cada caso, visto que este manual é apenas para a fase laboratorial, entretanto, nesta etapa emprega-se a água destilada como líquido irrigador. Métodos de irrigação - Completa-se a seringa com ao menos 5ml; - Fazer a irrigação após cada troca de instrumento, na proporção de 1ml a cada 10 segundos, com movimentos de vai-e-vem da cânula, chegando a pelo menos 3mm aquém do limite apical de instrumentação; - Se ocorrer percepção de excesso de resíduos na solução, independentemente da troca de instrumento, promover nova irrigação; - Concluída a instrumentação dos canais radiculares, executar o Toillete final da cavidade pulpar irrigando-se abundantemente; - Propiciar aspiração intensa da solução que permaneceu dentro dos canais, com cânulas de aspiração adaptadas a sugadores odontológicos; - Levar EDTA trissódico ao interior dos canais radiculares e aguardar 5 minutos, intercalando agitação e repouso. Esta atitude tem por fundamento a remoção dos resíduos oriundos da istrumentação que ficam aderidos às paredes dentinárias; · Novamente irrigar abundantemente a cavidade pulpar e executar aspiração intensa. Ombro dentinário lingual Embolsamento Ombro lingual Constrição na entrada do canal Corte seccional das limas tipo K Diâmetro Anatômico Gates Glidden 2 e 3 LM -4mm LM -3mm LM -2mm LM -1mm Lima Memória [DA + 3 instrumentos] M V D P M V D P M V D L M V D P M V D P D M D M _2147483647.unknown _2147483646.unknown