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News — JANEIRO/FEVEREIRO 2025 — JULGADOS EM DESTAQUE DIREITO CONSTITUCIONAL O STJ cancelou as teses do IAC 14 sobre competência para julgamento de demandas que envolvam medicamentos não incorporados ao SUS, por colidirem com o que o STF decidiu no Tema 1.234 Estão revogadas as teses em abstrato definidas no IAC 14 do STJ, por contrariarem o entendimento firmado pelo STF no julgamento do RE n. 1.366.243/RG, submetido à repercussão geral (Tema n. 1.234). O IAC 14 do STJ estava em sentido contrário ao Tema 1.234 do STF em dois aspectos principais: • Competência: o IAC 14 estabeleceu que a competência seria definida conforme os entes escolhidos pelo autor da ação. O STF, porém, definiu critérios objetivos, determinando que as ações sobre medicamentos não incorporados ao SUS tramitem na Justiça Federal quando o tratamento anual for igual ou acima de 210 salários mínimos. • Alteração do polo passivo: o IAC 14 vedava aos magistrados alterarem o polo passivo com base nas regras do SUS. O STF determinou o oposto: autorizou os juízes a incluírem outros entes quando necessário para efetivar a decisão, estabelecendo ainda regras específicas de ressarcimento entre União, Estados e Municípios. STJ. 1ª Seção. CC 187.276-RS, CC 187.533-SC e CC 188.002-SC, Rel. Min. Gurgel de Faria, julgados em 27/11/2024 (IAC 14) (Info 22 - Edição Extraordinária). É constitucional Resolução do Ministério Público estadual que disponha sobre a estrutura administrativa e as atribuições de Gaeco São formalmente constitucionais — e não usurpam competência privativa da União para legislar sobre direito penal ou processual penal (art. 22, I, CF/88) — atos normativos dos Ministérios Públicos estaduais que dispõem sobre a estrutura administrativa e as atribuições de Grupo de Atuação Especial contra o Crime Organizado (Gaeco). É igualmente constitucional decreto do Poder Executivo estadual que estabelece diretrizes de sua cooperação institucional com o Parquet local, dentro do Gaeco. STF. Plenário. ADI 7.175/MG e ADI 7.176/PR, Rel. Min. Edson Fachin, julgado em 16/12/2024 (Info 1163). JULGADOS EM DESTAQUE 2 Não se admite a intervenção como amicus curiae de instituição de caráter abrangente, composta exclusivamente por advogados, cujo interesse subjetivo guarda relação apenas com o julgamento favorável a uma das partes Caso hipotético: em 2011, João, paciente esquizofrênico, fugiu do Hospital Municipal e faleceu após ser atropelado na saída do estabelecimento. Foi instaurado inquérito policial para investigar possível crime de abandono de incapaz por parte dos profissionais do hospital, sendo arquivado em 2015 por falta de indícios. Em 2018, a mãe de João ajuizou ação de indenização por danos morais contra o Município, que foi julgada procedente. O juiz afastou a prescrição quinquenal com base no art. 200 do Código Civil, considerando que o prazo prescricional só começou a correr após o arquivamento do inquérito policial em 2015. Contudo, o Tribunal de Justiça reformou a sentença, reconhecendo a prescrição, o que levou a autora a interpor recurso especial ao STJ. O Lawfare Institute requereu sua intervenção como amicus curiae no processo, argumentando ter como missão a defesa dos direitos fundamentais e alegando que o art. 200 do Código Civil estaria sendo interpretado de forma restritiva. O STJ, contudo, não admitiu a intervenção, estabelecendo que não se permite a participação como amicus curiae de instituição de caráter abrangente, formada apenas por advogados, cujo interesse subjetivo está relacionado apenas ao resultado favorável a uma das partes. STJ. 1ª Turma. REsp 2.099.872-SP, Rel. Min. Regina Helena Costa, julgado em 24/9/2024 (Info 22 - Edição Extraordinária). É inconstitucional lei estadual que obriga as instituições financeiras a efetivarem a prova de vida de seus clientes, para fins de cadastramento e/ou recebimento de benefícios previdenciários É formalmente inconstitucional legislação editada por estado-membro que atribua a instituições financeiras a responsabilidade pela realização de prova de vida de beneficiários do Regime Geral de Previdência Social, por violação do art. 22, inciso XXIII, da Constituição da República. A Constituição Federal estabelece que compete privativamente à União legislar sobre seguridade social. A Lei nº 9.078/2020 do Estado do Rio de Janeiro, ao impor às instituições financeiras a obrigação de efetuar a prova de vida de beneficiários do Regime Geral de Previdência Social, invadiu essa competência. Assim, a norma estadual foi declarada inconstitucional por violação ao art. 22, inciso XXIII, da Constituição Federal. STF. Plenário. ADI 7.010/RJ, Rel. Min. Dias Toffoli, julgado em 16/12/2024 (Info 1163). JULGADOS EM DESTAQUE 3 É constitucional norma estadual que preveja votação secreta para que a ALE escolha os indicados para o TCE; por outro lado, é inconstitucional a fixação de prazo para o Governador nomear os indicados A Constituição do Estado de Sergipe, alterada por uma emenda constitucional, previu: 1) a necessidade de aprovação por voto secreto pela Assembleia Legislativa dos Conselheiros do Tribunal de Contas indicados; e 2) a fixação de prazo de 20 dias para o Governador nomear os Conselheiros após a publicação do ato de escolha. É constitucional a norma estadual que estabelece a necessidade de a Assembleia Legislativa aprovar, mediante voto secreto, a escolha dos conselheiros do Tribunal de Contas local por ela indicados. Este procedimento segue o modelo federal previsto no art. 52, III, “b”, da Constituição Federal. Por outro lado, o STF declarou inconstitucional a fixação do prazo de vinte dias para o Governador nomear os conselheiros do Tribunal de Contas. Isso porque a Constituição Federal não estabelece prazo para nomeação dos indicados para o Tribunal de Contas da União, e os estados devem seguir esse modelo, conforme o art. 75 da Constituição, respeitando o princípio da simetria. STF. Plenário. ADI 4.964/SE, Rel. Min. Nunes Marques, julgado em 16/12/2024 (Info 1163). O plano Pena Justa, que busca enfrentar as violações sistemáticas de direitos fundamentais nas prisões do País, foi homologado pelo STF com algumas ressalvas que visam ao seu aprimoramento O STF homologou o plano Pena Justa para enfrentar a crise do sistema prisional, após reconhecer a existência de um estado de coisas inconstitucional. O plano foi considerado adequado por conter diagnóstico, metas, cronogramas, matriz de responsabilidade, previsão orçamentária e mecanismos de monitoramento. A homologação ocorreu com ressalvas e acréscimos. A partir da homologação, Estados e Distrito Federal devem apresentar, em até seis meses, seus próprios planos alinhados ao modelo nacional, considerando as especificidades regionais. O monitoramento do cumprimento será realizado pelo DMF/CNJ, com envio de relatórios semestrais ao STF. STF. Plenário. ADPF 347 HomologProcEstrutural/DF, Rel. Min. Luís Roberto Barroso, julgado em 19/12/2024 (Info 1164). JULGADOS EM DESTAQUE 4 Lei municipal que proíbe o uso da linguagem neutra em instituições de ensino usurpa competência legislativa da União e viola a liberdade de expressão É formalmente inconstitucional lei municipal que legisla sobre diretrizes e bases da educação nacional, proibindo o uso da linguagem neutra na grade curricular e no material didático de instituições de ensino públicas ou privadas, pois essa matéria é de competência privativa da União (art. 22, XXIV, da CF/88). A proibição do uso da linguagem neutra ofende a garantia da liberdade de expressão, manifestada pela proibição da censura, a promoção do bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação e o princípio da isonomia. STF. Plenário. ADPF 1.165/MG, Rel. Min. Cármen Lúcia, julgado em 04/02/2025 (Info 1164). Os entes estaduais são partes legítimas para figurar no polo passivo de ação que busca garantir o fornecimento regular de água potável e saneamento53. É competente o foro: I - para a ação de divórcio, separação, anulação de casamento e reconhecimento ou dissolução de união estável: b) do último domicílio do casal, caso não haja filho incapaz; STJ. 3ª Turma. REsp 1.909.279-SP, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, julgado em 3/12/2024 (Info 23 - Edição Extraordinária). JULGADOS EM DESTAQUE 29 O foro competente para julgar ação de indenização por danos morais e materiais decorrente de suposta falha de serviço notarial por Tabelião é o da sede da serventia notarial ou do registro Caso hipotético: João, morador de Caxias do Sul/RS, foi vítima de fraude ao tentar comprar um imóvel. Pedro, apresentando-se como procurador do proprietário com uma procuração pública falsa lavrada em Florianópolis/SC, recebeu parte do pagamento de João. Ao descobrir a fraude, João decidiu processar tanto Pedro quanto o tabelião responsável pelo cartório. Surgiu dúvida sobre a competência para julgar o caso: se seria em Caxias do Sul/RS (domicílio do autor, conforme o art. 101, I, do CDC) ou em Florianópolis/SC (sede do tabelionato). O STJ decidiu pela competência do foro de Florianópolis/SC, com base no art. 53, III, “f” do CPC/2015. Art. 53. É competente o foro: (...) III - do lugar: (...) f) da sede da serventia notarial ou de registro, para a ação de reparação de dano por ato praticado em razão do ofício; A decisão baseou-se no princípio da especialidade e na cronologia legislativa, já que o CPC/2015 é norma específica e mais recente que o CDC. STJ. 4ª Turma. REsp 2.011.651-RS, Rel. Min. Antonio Carlos Ferreira, julgado em 26/11/2024 (Info 23 - Edição Extraordinária). Se a ação cautelar preparatória for extinta sem declarar a extinção, inexistência ou redução da dívida, e sem impedir a futura cobrança do débito, os honorários advocatícios devem ser fixados por equidade (art. 85, § 8º, do CPC/2015) Caso hipotético: Alfa Indústria Ltda. firmou contrato de locação de galpão industrial com a Beta. Havia uma cláusula compromissória arbitral no contrato. Antes do término do pacto, a Beta fez a rescisão antecipada do contrato. Insatisfeita, a Alfa ajuizou ação cautelar na Justiça Estadual. O juízo de primeiro grau concedeu a liminar, mas condicionada à prestação de uma caução milionária por parte da autora. A Alfa interpôs agravo de instrumento. O Tribunal de Justiça extinguiu a ação cautelar sem resolução do mérito em razão da existência da cláusula arbitral. O STJ decidiu que os honorários advocatícios neste caso deveriam ser fixados por apreciação equitativa, conforme o art. 85, § 8º, do CPC/2015. Isso porque a extinção da cautelar não declarou extinção de dívida, não impediu discussões futuras na arbitragem e não teve correlação direta com o valor da causa, tornando o proveito econômico inestimável. No caso de extinção de ação cautelar preparatória sem a declaração de extinção, inexistência ou redução da dívida, e sem inviabilizar a cobrança futura do débito, os honorários advocatícios devem ser arbitrados por apreciação equitativa, nos termos do art. 85, § 8º, do CPC/2015. STJ. 4ª Turma. AREsp 1.191.535-MG, Rel. Min. Raul Araújo, julgado em 3/12/2024 (Info 23 - Edição Extraordinária). JULGADOS EM DESTAQUE 30 São devidos honorários advocatícios sucumbenciais pelo exequente, quando os embargos à execução são extintos por perda do objeto, ante a extinção da execução originária pelo reconhecimento da ilegitimidade dos executados Situação hipotética: Alfa Tecidos ingressou com execução contra João e Regina, sócios da Beta Tecidos, alegando que eles seriam responsáveis pelo pagamento de uma dívida contratual. Os executados apresentaram embargos à execução. O juiz, de ofício, reconheceu de ofício a ilegitimidade passiva dos executados, pois a empresa Beta Tecidos Ltda. possui personalidade jurídica própria e não havia justificativa para a desconsideração dessa personalidade. Diante disso, o magistrado extinguiu a execução. O juiz, como consequência, extinguiu também os embargos à execução opostos pelos executados, por perda de objeto. Com base no princípio da causalidade, a responsabilidade pelo pagamento das custas processuais e honorários advocatícios recai sobre a parte exequente, Alfa Tecidos, que deu causa ao processo ao mover a execução contra partes ilegítimas. STJ. 4ª Turma. AgInt no AREsp 2.586.064-SC, Rel. Min. Raul Araújo, julgado em 9/9/2024 (Info 23 - Edição Extraordinária). Nas execuções fiscais, o prazo para oposição de embargos à execução deve iniciar-se após a intimação do executado acerca do aceite do seguro garantia pelo Juiz Caso hipotético: a Fazenda Pública ingressou com execução fiscal contra a Telefônica. Em 25/05, a empresa ofereceu seguro garantia nos autos. Em 24/09, o juiz o juiz proferiu decisão aceitando formalmente a garantia (decisão de aceite do seguro garantia). Em 15/10, ou seja, dentro do prazo de 30 dias contados da decisão de aceite, a empresa apresentou embargos à execução. O juiz, contudo, afirmou que os embargos eram intempestivos porque o prazo teria começado desde a apresentação da garantia nos autos (24/09) e não da decisão de aceite (24/09). O STJ não concordou com o entendimento do magistrado. Nas execuções fiscais, o prazo para oposição de embargos só deve começar após a intimação do executado sobre o aceite do seguro garantia pelo juiz. Este entendimento se alinha aos princípios da segurança jurídica e do devido processo legal, pois garante que a validade da garantia seja confirmada antes do início do prazo para embargar, evitando situações em que embargos poderiam ser opostos sem uma garantia efetivamente aceita. STJ. 1ª Turma. REsp 2.185.262-RJ, Rel. Min. Paulo Sérgio Domingues, julgado em 17/12/2024 (Info 838). JULGADOS EM DESTAQUE 31 As matérias de ordem pública, embora passíveis de conhecimento pelo juiz de ofício, são insuscetíveis de nova deliberação judicial, ante a preclusão pro judicato, que é espécie de preclusão consumativa Caso hipotético: o Banco Econômico foi condenado a pagar R$ 500 mil em honorários advocatícios a João. O advogado ingressou com cumprimento de sentença. O Banco Econômico entrou em recuperação extrajudicial e João pediu a substituição do polo passivo para a inclusão do Banco Primavera, alegando que este havia adquirido o Banco Econômico. O Banco Primavera apresentou exceção de pré-executividade, argumentando que a compra foi parcial e que mantinha personalidade jurídica distinta, mas o juiz e o Tribunal de Justiça reconheceram sua legitimidade passiva, decisão que foi mantida após recurso. Posteriormente, o Banco Primavera apresentou impugnação ao cumprimento de sentença, reiterando os mesmos argumentos de ilegitimidade passiva. Isso não é possível. Embora o juiz possa conhecer de ofício matérias de ordem pública a qualquer tempo, a preclusão consumativa impede sua rediscussão após decisão judicial. Isso visa preservar a segurança jurídica e a ordem pública, evitando retrocessos no processo. Portanto, as matérias de ordem pública, uma vez decididas, não podem ser reexaminadas, caracterizando a preclusão pro judicato. A preclusão também se aplica ao juiz, impossibilitando nova análise de questão de ordem pública que já tenha sido decidida anteriormente. No caso, a legitimidade passiva do banco sucessor foi reconhecida em decisão anterior, tornando inviável sua rediscussão em impugnação ao cumprimento de sentença. A preclusão pro judicato impede nova deliberação judicial mesmo sobre matéria de ordem pública já decidida. STJ. 2ª Seção. EREsp 1.488.048-MT, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado em 13/11/2024 (Info 23 - Edição Extraordinária). A impugnação ao valor da causa é questão processual preliminar, cuja análise deve preceder a extinção do processo sem julgamento do mérito Caso hipotético: a empresa Alfa firmou um contrato de distribuição com a Beta S.A., contendo uma cláusula de arbitragem. Anos depois, Alfa processou Beta na Justiça Estadual por quebra de exclusividade, atribuindoum valor de causa de R$ 50 mil, muito inferior ao contrato de R$ 10 milhões. Beta contestou a ação, alegando a incompetência da Justiça comum e pedindo a correção do valor da causa. O juiz reconheceu a incompetência e extinguiu o processo sem analisar a impugnação ao valor da causa, condenando Alfa às custas e honorários sobre o valor original. Beta recorreu sustentando que a correção do valor da causa é um requisito processual essencial e deveria ter sido analisado mesmo antes do exame da alegação de incompetência. O STJ concordou. A impugnação ao valor da causa é questão processual preliminar, cuja análise deve preceder a extinção do processo sem julgamento do mérito STJ. 4ª Turma. REsp 2.169.414-GO, Rel. Min. Antonio Carlos Ferreira, julgado em 17/12/2024 (Info 23 - Edição Extraordinária). JULGADOS EM DESTAQUE 32 Não se admite como paradigma, em sede de embargos de divergência, os julgados proferidos em ações com natureza jurídica de garantia constitucional (habeas corpus, habeas data, mandado de segurança e mandado de injunção) Os embargos de divergência têm como objetivo exclusivo uniformizar a interpretação da legislação federal examinada no recurso especial, pacificando a jurisprudência do Tribunal. Não é possível utilizar como paradigma, para demonstrar divergência jurisprudencial em embargos de divergência, acórdãos proferidos em ações constitucionais, uma vez que estas possuem grau de cognição diferente do recurso especial. STJ. Corte Especial. AgInt nos EAREsp 2.143.376-SP, Rel. Min. Raul Araújo, Rel. para acórdão Min. Maria Thereza de Assis Moura, julgado em 6/11/2024 (Info 23 - Edição Extraordinária). A pretensão de adjudicação dos imóveis não se mostra a medida mais adequada de recebimento do crédito diante do depósito em conta judicial de valor monetário que supera o crédito exequendo Caso hipotético: João ingressou com execução contra Pedro para cobrar uma dívida de R$ 500 mil. Houve a penhora de um galpão do devedor, avaliado em R$ 650 mil. Pedro encontrou um comprador, Ricardo, que concordou em pagar R$ 600 mil pelo imóvel e depositou esse valor em juízo, solicitando a liberação da penhora. João se opôs ao pedido alegando que queria fazer a adjudicação do imóvel. Afirmou que, somente se ele não quisesse fazer a adjudicação, é que o bem poderia ser vendido a outra pessoa. O STJ, no entanto, rejeitou os argumentos de João, fundamentando-se no art. 826 do CPC, que garante ao executado o direito de remir a execução mediante o pagamento da dívida. Como o depósito em juízo superava o valor devido, a dívida foi quitada, tornando desnecessária a adjudicação do imóvel. Além disso, a execução deve ser conduzida da forma menos gravosa para o devedor, e a substituição da penhora por dinheiro é permitida pelo art. 848, I, do CPC, que prioriza a liquidação em espécie. A adjudicação não era o meio mais adequado para a satisfação do crédito do exequente, considerando que o depósito judicial realizado seria suficiente para o pagamento integral da dívida. Não houve alienação irregular, uma vez que a venda do imóvel ainda dependia do levantamento da penhora e da formalização da transferência. Assim, o pagamento em dinheiro foi considerado mais efetivo e suficiente para extinguir a execução. STJ. 3ª Turma. REsp 2.123.788-MG, Rel. Min. Humberto Martins, julgado em 24/9/2024 (Info 23 - Edição Extraordinária). JULGADOS EM DESTAQUE 33 Em ações coletivas de associações que defendem interesses individuais e exclusivos de seus filiados, sem impacto na defesa do consumidor, é essencial autorização ou procuração específica dos associados, ou aprovação da Assembleia Geral, além da lista nominal dos representados Caso adaptado: a Associação dos Beneficiários do Plano Casbeg (ASBEC) ajuizou ação revisional coletiva contra a Fundação Saúde Itaú (FSI), alegando descumprimento de um acordo firmado para assistência médica aos funcionários do Banco do Estado de Goiás. O juiz extinguiu a ação sem resolução do mérito por entender que a ASBEC estava atuando como representante processual dos associados e, portanto, necessitava de autorização específica. O Tribunal de Justiça de Goiás manteve a decisão, e a ASBEC recorreu ao STJ, sustentando que a ação envolvia interesses coletivos da categoria, dispensando a necessidade de autorização individual ou assemblear. O STJ não aceitou os argumentos da ASBEC e reafirmou a distinção entre ações coletivas representativas, que exigem autorização específica dos associados, e ações coletivas substitutivas, nas quais a associação pode atuar independentemente dessa autorização. No caso concreto, tratava-se de uma ação coletiva representativa, pois envolvia interesses individuais e exclusivos dos filiados, sem repercussão no interesse público ou na defesa do consumidor. Assim, aplicou-se o entendimento do STF no RE 573.232/SC, que exige a comprovação de autorização expressa para esse tipo de demanda. Na hipótese de ação coletiva proposta por associação em defesa dos interesses individuais e exclusivos de seus filiados, sem reflexos no interesse público de defesa do consumidor, é imprescindível a autorização ou procuração específica dos associados, ou concedida pela Assembleia Geral, bem como a lista nominal dos associados representados. STJ. 4ª Turma. AgInt no AREsp 1.404.482-GO, Rel. Min. Marco Buzzi, Rel. para acórdão Min. Raul Araújo, julgado em 3/12/2024 (Info 23 - Edição Extraordinária). Compete à Justiça comum, e não à Justiça do Trabalho, julgar demanda ajuizada por motorista de aplicativo em face da empresa gestora de plataforma digital, tendo em vista a relação de natureza civil existente entre as partes A relação entre o motorista e a plataforma digital (ex: Uber) é de natureza civil. Isso porque não estão presentes os requisitos caracterizadores da relação de emprego, dentre eles a não eventualidade e a subordinação. A plataforma digital atua apenas como intermediadora da contratação entre motorista e consumidor, configurando prestação de serviço autônomo no contexto da gig economy e da economia compartilhada. No caso concreto, o autor (ex-motorista da Uber) ingressou com ação de indenização por ter sido excluído da plataforma. Neste caso, a competência para julgamento da demanda é da Justiça Comum estadual considerando que a pretensão possui natureza eminentemente civil, conforme o pedido e a causa de pedir. STJ. 3ª Turma. REsp 2.144.902-MG, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, julgado em 3/12/2024 (Info 838). JULGADOS EM DESTAQUE 34 Na hipótese de execução singular frustrada, é desnecessária a prévia desistência do processo de execução, bastando que fique suspenso até a prolação de sentença definitiva na ação de insolvência civil Caso hipotético: o banco ajuizou execução individual (execução singular) contra João. Não foram encontrados bens penhoráveis. Diante disso, o banco moveu uma ação de insolvência civil contra João, procedimento similar à falência, mas aplicável a devedores não empresários, regulada temporariamente pelo CPC/1973 até a criação de legislação específica. João alegou que o banco deveria desistir da execução singular antes de ingressar com a ação de insolvência. O STJ rejeitou esse argumento. O processo de insolvência civil tem duas fases: a primeira, de natureza cognitiva, verifica a existência da insolvência; a segunda, se confirmada, inicia a execução coletiva. A vedação de múltiplas vias só ocorre após a declaração de insolvência. Assim, a melhor solução é suspender a execução individual até a decisão da insolvência. Se reconhecida, os autos da execução serão remetidos ao juízo universal da insolvência para correta administração dos bens. STJ. 4ª Turma. AgInt no REsp 2.034.944-RS, Rel. Min. Marco Buzzi, julgado em 12/11/2024 (Info 838). É possível que a parte executada apresente exceção de pré-executividade após os embargos à execução fiscal que ela havia ingressado terem sido rejeitados? É possível que a parte executada apresenteexceção de pré-executividade após os embargos à execução fiscal que ela havia ingressado terem sido rejeitados? 1ª Turma do STJ: NÃO, mesmo que sejam alegados novos argumentos de ordem pública. Após a propositura e o julgamento de improcedência dos embargos à execução fiscal, está configurada a preclusão consumativa, não sendo mais cabível a apresentação de exceção de pré- executividade mesmo sob o fundamento de matérias suscetíveis de conhecimento de ofício, ou de quaisquer nulidades do título. A preclusão consumativa impede que a parte executada complemente sua defesa após a improcedência definitiva dos embargos à execução fiscal. Matérias que poderiam ter sido alegadas nos embargos não podem ser suscitadas posteriormente por meio de exceção de pré-executividade. Além disso, a retroação de lei mais benéfica para redução de multa moratória não se enquadra como matéria de ordem pública e está sujeita à preclusão. O art. 106, II, do CTN veda a retroação para alcançar crédito cuja validade já foi definitivamente reconhecida. STJ. 1ª Turma. REsp 2.130.489-RJ, Rel. Min. Paulo Sérgio Domingues, julgado em 17/12/2024 (Info 838). JULGADOS EM DESTAQUE 35 2ª Turma do STJ: SIM, desde que não se trate de reiteração de matérias já decididas em embargos à execução. A exceção de pré-executividade pode ser admitida antes do trânsito em julgado dos embargos à execução, desde que trate de matéria não arguida nem decidida na via autônoma de impugnação (embargos à execução). A eficácia preclusiva da coisa julgada não se aplica quando a exceção de pré-executividade é apresentada antes do trânsito em julgado dos embargos à execução. Desde que não haja reiteração de matéria já decidida e sejam atendidos os requisitos de cabimento, a apresentação da exceção de pré-executividade é possível mesmo após o ajuizamento dos embargos. STJ. 2ª Turma. REsp 2.045.492/RJ, Rel. Min. Teodoro Silva Santos, julgado em 10/12/2024. Decisões interlocutórias proferidas em ações do microssistema de tutela coletiva podem ser impugnadas por agravo de instrumento, independentemente do rol do art. 1.015 do CPC/2015 No microssistema de tutela coletiva, aplica-se a norma específica que prevê a impugnação de decisões interlocutórias mediante agravo de instrumento (art. 19 da Lei n. 4.717/65), não sendo afastada pelo rol taxativo do art. 1.015 do CPC/2015, uma vez que o inciso XIII deste dispositivo contempla o cabimento do recurso em outros casos expressamente referidos em lei. STJ. 1ª Turma. AREsp 2.159.586-RJ, Rel. Min. Gurgel de Faria, julgado em 3/12/2024 (Info 838). Para interrupção do prazo da prescrição intercorrente, é suficiente que os resultados das diligências da Fazenda Pública sejam positivos, independente da modalidade de constrição judicial de bens utilizada A efetiva constrição patrimonial, incluindo bloqueio de ativos pelo SISBAJUD ou indisponibilidade de bens pela CNIB, interrompe a prescrição intercorrente, retroagindo à data do pedido da medida. O entendimento visa garantir a efetividade da execução fiscal, sem restringir a interrupção da prescrição apenas à penhora ou arresto definitivos. STJ. 2ª Turma. REsp 2.174.870-MG, Rel. Min. Francisco Falcão, julgado em 4/2/2025 (Info 839). Na execução fiscal, a citação ocorre via Correios com AR; o AR não precisa ser assinado pelo próprio executado Na citação realizada via Correios com aviso de recebimento (AR) na execução fiscal, não é exigida a pessoalidade da citação, tampouco a assinatura do próprio executado no AR, sendo suficiente a comprovação inequívoca de que a correspondência foi entregue no endereço do executado. STJ. 2ª Turma. REsp 2.174.870-MG, Rel. Ministro Francisco Falcão, julgado em 4/2/2025 (Info 839). JULGADOS EM DESTAQUE 36 O pedido de desistência do recurso pode ser indeferido quando houver indício de uso de estratagema processual para evitar a criação ou a formação de jurisprudência contrária ao interesse da parte desistente Em um caso hipotético, uma adolescente de 15 anos teve suas fotos íntimas, tiradas durante relacionamento com um homem de 18 anos, divulgadas por ele em grupos de WhatsApp após o término do namoro. A jovem processou o ex-namorado e a Meta (responsável pelo WhatsApp), solicitando remoção das imagens, identificação dos usuários que as compartilharam e indenização por danos morais. Apesar da ordem judicial para remoção do conteúdo, o WhatsApp alegou impossibilidade técnica devido à criptografia de ponta a ponta, não oferecendo soluções alternativas como banimento da conta do infrator. O Tribunal de Justiça reconheceu a responsabilidade solidária do WhatsApp e condenou a empresa a pagar, juntamente com o homem, indenização à vítima. A Meta interpôs recurso especial. No entanto, um mês depois de distribuído o processo, pediu a desistência. O STJ, em questão de ordem, indeferiu o pedido de desistência. É possível indeferir pedido de desistência recursal, veiculado anteriormente ao julgamento, desde que a negativa de desistência seja avaliada pelo colegiado em questão de ordem, levando-se em consideração: (i) se tratar de tema nunca enfrentado no STJ (“leading case”), (ii) haver indícios de estratagema a evitar jurisprudência em pedidos de desistência homologados anteriormente envolvendo o mesmo desistente, (iii) o sorteio de relatoria preceder a apresentação do pedido de desistência e (iv) haver forte interesse público no enfrentamento do objeto recursal a recomendar orientação jurisprudencial nacional. STJ. 3ª Turma. REsp 2.172.296-RJ, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 4/2/2025 (Info 839). Uma vez cumprida a obrigação de fazer pelo Ente Estadual, o Ministério Público possui legitimidade para, concorrentemente ao Estado, promover a execução de obrigação de pagar relativa à tutela de direitos difusos Caso adaptado: o INOCOOP possuía um terreno onde planejava construir habitações populares. O imóvel foi declarado como área de preservação permanente, impedindo a construção. Diante disso, a INOCOOP ingressou com a ação contra o Estado de São Paulo, alegando desapropriação indireta e pedindo indenização. O pedido foi julgado procedente. O Estado deveria ter feito a desocupação da área e a recuperação ambiental, mas não fez. Nesse cenário, o Ministério Público ajuizou ação civil pública para obrigar o Estado a desocupar e restaurar a área e para que o INOCOOP arcasse com os custos disso. O pedido foi julgado procedente. JULGADOS EM DESTAQUE 37 O MP requereu o cumprimento da decisão, mas a INOCOOP impugnou, argumentando que apenas o Estado poderia exigir o ressarcimento. O juiz aceitou a impugnação, decisão mantida pelo TJSP. O MP interpôs recurso especial defendendo sua legitimidade para executar a sentença, já que atuava na defesa do meio ambiente e de interesses difusos. O STJ reconheceu a legitimidade do MP para promover a execução da sentença, pois o caso envolve direitos difusos, como a proteção ambiental. A inércia do Estado em cumprir suas obrigações reforça o interesse do MP na execução da decisão. No entanto, o MP só poderá exigir da INOCOOP o cumprimento da obrigação de pagar após a efetivação da obrigação de fazer pelo Estado. Assim, foi garantida a continuidade da atuação do MP no cumprimento da sentença. STJ. 2ª Turma. AREsp 2.072.862-SP, Rel. Min. Francisco Falcão, julgado em 4/2/2025 (Info 839). DIREITO PENAL O delito de corrupção ativa é crime formal e unissubsistente, ou seja, exaure-se com o mero conhecimento da oferta ou promessa de vantagem indevida, independentemente do seu pagamento posterior, ainda que em parcelas Caso hipotético: João, sócio da empresa Alfa, ofereceu R$ 54.000,00 em propina a Pedro, supervisor técnico de um órgão público, para manter contratos emergenciais com o governo do Estado X. O pagamento foi realizado em 6 parcelas entre 2005 e 2006. Quando o esquema foi descoberto, o Ministério Público denunciou Pedro por corrupção passiva (art. 317 do CP) e João por corrupção ativa (art. 333 do CP).O MP sustentou que João deveria ser condenado 6 vezes por corrupção ativa considerando que cada pagamento constituiria um crime diferente, caracterizando crime continuado (6 crimes em continuidade delitiva). O STJ rejeitou a tese do MP, estabelecendo que o crime de corrupção ativa é formal e unissubsistente, consumando-se com a mera oferta ou promessa de vantagem indevida, independentemente do pagamento posterior. Os pagamentos parcelados foram considerados apenas como exaurimento da conduta criminosa, podendo influenciar na dosimetria da pena, mas não caracterizando continuidade delitiva. STJ. 6ª Turma. AREsp 920.664-DF, Rel. Min. Antonio Saldanha Palheiro, julgado em 17/12/2024 (Info 24 - Edição Extraordinária). JULGADOS EM DESTAQUE 38 A decisão médica em contexto de urgência, como a do parto, deve ser respeitada, dentro dos limites da responsabilidade civil, especialmente quando o procedimento adotado se revelar necessário para a segurança da parturiente e do recém-nascido Caso adaptado: uma gestante que desejava parto natural expressou claramente não querer realizar episeotomia (corte cirúrgico para facilitar a saída do bebê). Durante o parto, diante de possíveis complicações, o médico realizou uma manobra de Kristeller, técnica consistente em aplicar pressão na região superior do útero, com o objetivo de facilitar a saída do bebê. Adicionalmente, o médico forçou a abertura da vagina da parturiente, com as mãos, também para facilitar a saída da criança. Além disso, durante o procedimento, o médico, muito alterado, proferiu uma série de palavras de baixo calão e, inclusive, ofendeu a parturiente. O bebê nasceu saudável. A mãe, depois do procedimento, constatou que havia ficado com lesões (laceração perineal). O Ministério Público denunciou o médico por lesão corporal qualificada e violência psicológica contra a mulher. A perícia realizada durante a instrução constatou que as lesões eram compatíveis com a passagem natural do feto, sem evidências de que as manobras realizadas tenham contribuído para a laceração. O STJ entendeu que não houve crime de lesão corporal nem de violência psicológica. Não houve provas de negligência, imprudência ou imperícia médica, já que as lesões eram compatíveis com o parto normal. A paciente recusou a episeotomia, que poderia ter facilitado o parto em situações de urgência o médico precisa tomar decisões rápidas, não podendo ser responsabilizado penalmente quando age dentro dos padrões técnicos adequados. STJ. 5ª Turma. AREsp 2.587.582-SP, Rel. Min. Ribeiro Dantas, Rel. para acórdão Min. Joel Ilan Paciornik, julgado em 27/8/2024 (Info 24 - Edição Extraordinária). Não há injúria racial quando uma pessoa negra ofende uma pessoa branca por causa da cor de sua pele (não existe racismo reverso) 1. A injúria racial não se configura em ofensas dirigidas a pessoas brancas exclusivamente por esta condição. 2. O racismo é um fenômeno estrutural que visa proteger grupos minoritários historicamente discriminados. STJ. 6ª Turma. HC 929.002-AL, Rel. Min. Og Fernandes, julgado em 4/2/2025 (Info 839). JULGADOS EM DESTAQUE 39 O parcelamento de crédito tributário realizado após o recebimento da denúncia não suspende a ação penal de sonegação tributária, conforme o art. 83, § 2º, da Lei 9.430/1996, com a redação dada pelo art. 6º da Lei 12.382/2011 De acordo com a redação originária do art. 83 da Lei nº 9.430/1996, se o contribuinte aderisse ao parcelamento, mesmo após o recebimento da denúncia, ficava suspensa a pretensão punitiva do Estado e o prazo prescricional. Ocorre que a Lei nº 12.382/2011, trouxe um regramento mais rigoroso. Essa lei incluiu o § 2º no art. 83 da Lei nº 9.430/1996 prevendo que o parcelamento somente irá suspender a ação penal se for formalizado antes do recebimento da denúncia. Em suma: o parcelamento do crédito tributário precisa ser antes do recebimento da denúncia? • Créditos tributários constituídos antes da Lei nº 12.382/2011: NÃO. O parcelamento podia ser feito após o recebimento da denúncia. • Créditos tributários constituídos após a Lei nº 12.382/2011: SIM. O parcelamento do crédito tributário, realizado após o recebimento da denúncia, não extingue a punibilidade do ilícito penal. STJ. 6ª Turma. AgRg no RHC 200.315-SP, Rel. Min. Og Fernandes, julgado em 4/11/2024 (Info 24 - Edição Extraordinária). Quantidade reduzida de droga e ausência de elementos concretos de traficância justificam a desclassificação do crime de tráfico para posse para consumo próprio Caso adaptado: durante uma revista em um presídio, policiais encontraram 37g de maconha escondidas em pedaços de carne dentro da marmita levada por Ananda para seu pai, João, que cumpria pena. Ananda afirmou que recebeu a marmita de um mototaxista e não sabia da presença da droga. João foi denunciado e condenado por tráfico de drogas (art. 33 da Lei nº 11.343/2006), com a sentença mantida pelo Tribunal de Justiça. A defesa impetrou habeas corpus no STJ argumentando que a quantidade da droga era pequena e que não havia provas de sua destinação mercantil. O STJ concedeu o habeas corpus e desclassificou a conduta para posse de drogas para consumo próprio (art. 28 da Lei nº 11.343/2006), determinando que o processo voltasse à primeira instância para aplicação de sanções administrativas. A distinção entre os crimes (art. 28 ou art. 33) depende da finalidade da posse da droga, sendo necessário avaliar fatores como a quantidade apreendida, as circunstâncias do flagrante e o perfil do acusado. No caso concreto, não havia prova suficiente para sustentar a acusação de tráfico. Dessa forma, o STJ aplicou o princípio do in dubio pro reo, concluindo que a quantidade apreendida não justificava a condenação por tráfico. Na ausência de provas claras sobre a intenção de venda, deve prevalecer a presunção de posse para uso pessoal, especialmente em casos envolvendo pequenas quantidades. STJ. 5ª Turma. HC 888.877-MS, Rel. Min. Daniela Teixeira, julgado em 22/10/2024 (Info 24 - Edição Extraordinária). JULGADOS EM DESTAQUE 40 O consentimento da vítima não afasta a tipicidade do crime de descumprimento de medida protetiva (art. 24-A da Lei Maria da Penha) se o agente gera intimidação na vítima e, assim, consegue esse consentimento Caso hipotético: Gustavo empurrou e ameaçou matar sua mãe, Regina, uma idosa de 82 anos. A Justiça determinou medidas protetivas proibindo Gustavo de se aproximar ou manter contato com a mãe. No entanto, quatro dias depois, ele apareceu na casa de Regina sob a alegação de ter perdido as chaves e pediu para passar a noite. Temendo represálias, ela permitiu sua permanência. Na manhã seguinte, Gustavo voltou a insultá-la e tentou agredi-la, levando Regina a buscar ajuda policial novamente. Como resultado, ele foi denunciado e condenado pelo crime de descumprimento de medidas protetivas, conforme o art. 24-A da Lei Maria da Penha. A defesa argumentou que Gustavo esteve na residência com o consentimento da mãe, sustentando que isso afastaria a tipicidade do crime. Em regra, o STJ entende que o consentimento da vítima afasta a tipicidade do crime do art. 24-A da Lei nº 11.340/2006. No entanto, para que isso ocorra, a autorização da vítima deve ser livre e espontânea. No caso concreto, o STJ entendeu que Regina não o convidou e que seu consentimento estava viciado pelo medo e pela intimidação sofridos, o que tornava inválida sua autorização. STJ. 5ª Turma. AgRg no HC 860.073-SC, Rel. Min. Ribeiro Dantas, julgado em 13/11/2024 (Info 24 - Edição Extraordinária). O histórico infracional é suficiente para afastar a causa de diminuição prevista no art. 33, § 4º, da Lei 11.343/2006? O histórico infracional é suficiente para afastar a causa de diminuição prevista no art. 33, § 4º, da Lei 11.343/2006? A jurisprudência está dividida: 1ª corrente: SIM. É a posição do STJ: O histórico de ato infracional pode ser considerado para afastar a minorante do art. 33, § 4.º, da Lei nº 11.343/2006,por meio de fundamentação idônea que aponte a existência de circunstâncias excepcionais, nas quais se verifique a gravidade de atos pretéritos, devidamente documentados nos autos, bem como a razoável proximidade temporal com o crime em apuração. STJ. 3ª Turma. EREsp 1.916.596-SP, Rel. Min. Joel Ilan Paciornik, Rel. Acd. Min. Laurita Vaz, julgado em 08/09/2021 (Info 712). 2ª corrente: NÃO. É a posição do STF: O registro pretérito de atos infracionais não constitui fundamento idôneo para afastar a causa de diminuição de pena relativa ao tráfico privilegiado de drogas (art. 33, § 4º, Lei nº 11.343/2006). STF. 1ª Turma. HC 214089 AgR/SP, Rel. Min. Rosa Weber, julgado em 6/6/2022. STF. 2ª Turma. HC 249.506/SP, Rel. Min. Edson Fachin, julgado em 10/12/2024 (Info 1163). JULGADOS EM DESTAQUE 41 A proteção pública e notória da Amazônia Legal afasta a alegação de inépcia da denúncia por ausência de indicação da norma complementar para a tipificação do crime ambiental previsto no art. 50-A da Lei 9.605/1998 Caso hipotético: João adquiriu um sítio dentro de um projeto de assentamento localizado em terra pública na Amazônia Legal. Ele desmatou a floresta nativa sem autorização dos órgãos ambientais. O IBAMA detectou o desmatamento, lavrou um auto de infração, e o Ministério Público Federal ofereceu denúncia contra João pelo crime ambiental tipificado no art. 50-A da Lei nº 9.605/1998: Art. 50-A. Desmatar, explorar economicamente ou degradar floresta, plantada ou nativa, em terras de domínio público ou devolutas, sem autorização do órgão competente: Pena - reclusão de 2 (dois) a 4 (quatro) anos e multa. A defesa de João argumentou que a denúncia era inepta porque o art. 50-A da Lei nº 9.605/1998 é uma norma penal em branco que necessita de complementação por outra norma jurídica, e a denúncia não especificou qual norma define e protege a Amazônia Legal. O STJ não acolheu a tese. Embora a norma complementar não tenha sido expressamente citada, a referência à localização do crime (“floresta nativa da região da Amazônia Legal, em terras de domínio público”) permitiu identificar a legislação aplicável. A proteção da Amazônia Legal é fato público e notório, dispensando prova específica. Teses de julgamento: 1. A denúncia que descreve a conduta delituosa em área da Amazônia Legal atende aos requisitos do art. 41 do CPP, não sendo inepta. 2. A norma complementar ao art. 50-A da Lei nº 9.605/98 é a Lei nº 12.651/2012, que regula a Amazônia Legal. 3. A defesa se dá em relação aos fatos, permitindo a ampla defesa e o contraditório. STJ. 5ª Turma. AgRg no AREsp 2.710.097-RR, Rel. Min. Ribeiro Dantas, julgado em 4/2/2025 (Info 839). DIREITO PROCESSUAL PENAL A Justiça Federal é competente para julgar crimes ambientais contra espécies ameaçadas de extinção A competência da Justiça Federal para julgar crimes ambientais é atraída quando a conduta envolve espécies constantes na Lista Nacional de Espécies Ameaçadas de Extinção, configurando interesse da União. STJ. 3ª Seção. AgRg no CC 208.449-SC, Rel. Min. Messod Azulay Neto, julgado em 11/12/2024 (Info 24 - Edição Extraordinária). JULGADOS EM DESTAQUE 42 Nos crimes contra a honra de servidor público, a legitimidade para a ação penal é concorrente, mas a representação do ofendido ao MP preclui a possibilidade de ajuizar ação penal privada, mesmo que o ofendido discorde do enquadramento legal dado pelo órgão ministerial 1. A ação penal privada subsidiária da pública é incabível na ausência de inércia do Ministério Público. 2. A discordância do querelante quanto à tipificação dos fatos dada pelo Ministério Público não autoriza a propositura de queixa-crime. 3. Nos crimes contra a honra de servidor público, a representação ao Ministério Público preclui a via da ação penal privada. STJ. Corte Especial. QC 13-DF, Rel. Min. Antonio Carlos Ferreira, julgado em 4/12/2024 (Info 24 - Edição Extraordinária). Compete à Justiça Federal julgar o crime de discriminação contra pessoa com deficiência, previsto no art. 88 da Lei 13.146/2015, quando praticado mediante publicação de conteúdo em rede social aberta, em face da presunção de transnacionalidade do delito Caso adaptado: em um show de stand-up, um comediante fez piadas discriminatórias contra pessoas com deficiência. O vídeo com uma dessas piadas foi divulgado pelo humorista em seu Instagram. O Ministério Público instaurou procedimento investigatório para apurar a eventual prática do crime previsto no art. 88 da Lei nº 13.146/2015 (Estatuto da Pessoa com Deficiência). De quem é a competência para julgar o delito? Justiça Federal. Compete à Justiça Federal processar e julgar o crime de discriminação contra pessoa com deficiência, previsto no art. 88 da Lei nº 13.146/2015, quando praticado mediante publicação de conteúdo em rede social aberta, em face da presunção de transnacionalidade do delito. STJ. 3ª Seção. CC 205.569-SP, Rel. Min. Messod Azulay Neto, julgado em 13/11/2024 (Info 24 - Edição Extraordinária). A presença de intérprete é suficiente para garantir o direito de defesa de indígenas no processo penal, sendo desnecessária a tradução da denúncia para a língua indígena quando não há comprovação de hipossuficiência linguística 1. A presença de intérprete é suficiente para garantir o direito de defesa de indígenas no processo penal. 2. A tradução da denúncia para a língua indígena é desnecessária quando não há comprovação de hipossuficiência linguística dos acusados. 3. A assistência de advogados constitui garantia adicional ao exercício do direito de defesa. STJ. 5ª Turma. RHC 201.851-DF, Rel. Min. Ribeiro Dantas, julgado em 17/12/2024 (Info 24 - Edição Extraordinária). JULGADOS EM DESTAQUE 43 A ação penal deve ser trancada quando fundada exclusivamente em provas obtidas por violação do sigilo médico O sigilo profissional médico é protegido por norma de ordem pública, sendo inadmissível sua quebra para denunciar crimes praticados pelo próprio paciente, salvo exceções legais específicas. No caso concreto, o médico que atendeu a paciente comunicou à polícia que ela poderia ter realizado um aborto, o que foi detectado durante o atendimento. Isso caracteriza-se como violação indevida do sigilo, tornando ilícitas as provas obtidas a partir dessa informação. Nos termos do art. 207 do CPP, médicos são proibidos de depor sobre fatos relacionados ao exercício de sua profissão sem autorização expressa do paciente. Diante da ilicitude das provas, a ação penal deve ser trancada. STJ. 6ª Turma. HC 783.927/MG, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em 14/3/2023 (Info 767). STJ. 5ª Turma. AgRg no RHC 181.907/MG, Rel. Min. Daniela Teixeira, julgado em 4/12/2024 (Info 24 - Edição Extraordinária). O trancamento da ação penal com base na teoria da perda da chance probatória exige que se demonstre concretamente como a prova perdida seria relevante para a defesa e poderia influenciar significativamente o resultado do processo Caso hipotético: João, servidor público, foi investigado por suposta participação em esquema de tráfico de medicamentos controlados. Após seu afastamento das funções, seu e-mail funcional foi desativado e, seguindo procedimento padrão da Microsoft, o conteúdo foi permanentemente excluído após 30 dias. A defesa impetrou habeas corpus no STJ alegando que a exclusão dos e-mails prejudicou irreparavelmente seu direito de defesa, baseando-se na teoria da perda de uma chance probatória. A teoria da perda de uma chance, quando aplicada ao processo penal, estabelece que compete ao autor da ação penal produzir todas as provas necessárias à formação da convicção do julgador, não podendo transferir esse ônus à defesa. Quando a acusação não se desincumbe desse ônus, é cabível a absolvição do acusado, desde que demonstrada a omissão probatória por parte do Estado. No caso concreto, o STJ não acolheu o pedido da defesa, pois esta não demonstrou de maneira concreta a relevância da prova supostamente perdida (e-mailsfuncionais) para a construção da tese de inocência do réu. Para o trancamento da ação penal com base na teoria da perda de uma chance probatória, é essencial que a parte demonstre claramente como a prova específica poderia impactar substancialmente o resultado do julgamento, o que não ocorreu neste caso. Para fins de trancamento da ação penal pela aplicação da teoria da perda de uma chance probatória, é essencial que a parte demonstre, de maneira concreta, a relevância da prova em questão para a defesa e para o esclarecimento da verdade real dos fatos, apontando com clareza como essa prova específica poderia impactar substancialmente o resultado do julgamento. STJ. 6ª Turma. HC 908.010-SC, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em 17/9/2024 (Info 24 - Edição Extraordinária). JULGADOS EM DESTAQUE 44 Não há ilegalidade na busca domiciliar nos casos em que o acusado, o qual estava consumindo e divulgando o material ilícito através de uma transmissão ao vivo (live), empreende fuga após visualizar a viatura policial Caso hipotético: em uma transmissão ao vivo no Instagram, Lucas foi filmado consumindo maconha e exibindo substâncias que aparentavam ser droga, além de dinheiro em espécie, sugerindo a venda de entorpecentes. Após denúncia anônima, policiais foram até sua residência, onde o encontraram com um saco plástico preto, tendo ele tentado fugir ao avistar a viatura. Os policiais realizaram busca domiciliar sem mandado judicial e encontraram drogas no local, resultando na prisão em flagrante de Lucas. A defesa impetrou habeas corpus alegando violação de domicílio. O STJ, contudo, não reconheceu ilegalidade na ação policial, considerando que havia elementos objetivos que justificavam as diligências, como a transmissão ao vivo do material ilícito e a tentativa de fuga do suspeito. STJ. 6ª Turma. AgRg no HC 886.071-AL, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em 2/9/2024 (Info 24 - Edição Extraordinária). Cabe ao juiz externar fundamentação, ainda que sucinta, baseada na situação concreta do momento em que proferida a decisão de prorrogação das medidas cautelares de interceptação telefônica, não sendo suficiente a mera referência à decisão inicial que deferiu a medida A renovação de interceptação telefônica é lícita quando presentes os requisitos do art. 2º da Lei n. 9.296/1996, desde que a decisão judicial inicial e as prorrogações sejam fundamentadas de forma legítima, ainda que sucinta, com base na necessidade da medida e na complexidade da investigação. Embora o magistrado possa remeter-se a fundamentos apresentados pela autoridade policial e pelo Ministério Público, é indispensável que exponha, com base na situação concreta, os motivos das decisões. No caso concreto, embora a decisão inicial estivesse devidamente fundamentada, as subsequentes prorrogações não seguiram o mesmo rigor, limitando-se à repetição de trechos da decisão original, sem análise específica da situação fática de cada pedido, caracterizando fundamentação genérica e indevida. O juiz deve fundamentar cada prorrogação com base na realidade do momento decisório, especialmente quando deferir novas interceptações, não sendo suficiente mera referência à decisão inaugural. STJ. 6ª Turma. AgRg no HC 910.860-PB, Rel. Min. Antonio Saldanha Palheiros, Rel. para acórdão Min. Otávio de Almeida Toledo (Desembargador convocado do TJSP), julgado em 12/11/2024 (Info 24 - Edição Extraordinária). JULGADOS EM DESTAQUE 45 Não havendo provas de simulação da relação advogado-cliente, prevalece a impossibilidade de o advogado firmar acordo de colaboração premiada para delatar fatos contra o cliente, sob pena de se fragilizar o direito de defesa Caso hipotético: A Polícia Federal e o Ministério Público Federal investigaram advogados e policiais por suposta venda de facilidades a empresários presos. No decorrer das investigações, o advogado Lucas, apontado como operador do esquema, firmou um acordo de colaboração premiada, delatando seu ex-cliente, o empresário Ricardo. A defesa de Ricardo impetrou habeas corpus alegando violação ao sigilo profissional, mas o TRF negou o pedido, sustentando que, embora a delação de um advogado contra seu cliente fosse vedada, essa proibição não se aplicaria caso o advogado estivesse envolvido na organização criminosa como um participante ativo, e não apenas como defensor técnico. O STJ discordou do TRF e acolheu o pedido de anulação do acordo. No caso concreto, a relação entre advogado e cliente foi comprovada, pois Lucas efetivamente acompanhou Ricardo juridicamente e recebeu honorários regularmente documentados. Assim, não havia indícios concretos de que a relação fosse simulada para encobrir atividades criminosas. Diante disso, prevaleceu o entendimento de que a delação de Lucas contra Ricardo violava o sigilo profissional e, portanto, era ilícita. Como consequência, tanto o acordo de colaboração premiada na parte relativa a Ricardo quanto as provas derivadas dessa delação foram anuladas, garantindo a proteção ao direito de defesa e à confiança essencial na relação advogado-cliente. STJ. 5ª Turma. AgRg no RHC 203.874-RJ, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, julgado em 27/11/2024 (Info 24 - Edição Extraordinária). A ausência de degravação completa da sentença não prejudica o contraditório ou a segurança do registro nos autos, do mesmo modo que igualmente ocorre com a prova oral A ausência de transcrição integral da sentença oral não configura ilegalidade, pois o registro audiovisual tem o mesmo valor probatório da sentença escrita, não prejudicando o contraditório nem a segurança do processo. STJ. 3ª Seção. HC 462.253-SC, Rel. Min. Nefi Cordeiro, julgado em 28/11/2018 (Info 641). STJ. 6ª Turma. AgRg no HC 902.892-PI, Rel. Min. Antonio Saldanha Palheiro, julgado em 3/9/2024 (Info 24 - Edição Extraordinária). A mudança repentina de direção ao avistar a viatura policial pode configurar fundada suspeita e justificar a busca pessoal sem ordem judicial A conduta da pessoa que, na via pública, ao avistar a aproximação de viatura policial, muda repentinamente de direção na tentativa de fugir do local, pode configurar a fundada suspeita (arts. 240 a 244, CPP) e justificar, objetivamente, a realização da busca pessoal sem ordem judicial. STF. 2ª Turma. HC 249.506/SP, Rel. Min. Edson Fachin, julgado em 10/12/2024 (Info 1163). JULGADOS EM DESTAQUE 46 A fundamentação per relationem é válida quando a manifestação processual referenciada contém fundamentação suficiente e acessível às partes Caso hipotético: a polícia, após diversas diligências de investigação, pediu a busca e apreensão na residência do suspeito de tráfico de drogas. A juíza deferiu o pedido utilizando a fundamentação per relationem, ou seja, referindo-se diretamente ao relatório policial sem apresentar fundamentação própria detalhada. No cumprimento do mandado, foram encontradas drogas e balança de precisão, levando à prisão de Marcos. A defesa alegou a nulidade da decisão por falta de fundamentação individualizada, mas o Tribunal de Justiça e o STJ rejeitaram o argumento. A fundamentação per relationem consiste na motivação de uma decisão por remissão a alegações ou manifestações anteriores nos autos do processo. O STJ tem entendimento consolidado de que essa técnica é válida, desde que a decisão referenciada contenha fundamentação suficiente e acessível às partes. No caso, a magistrada embasou sua decisão no relatório policial detalhado, o que foi considerado suficiente para justificar a medida de busca e apreensão. Assim, a jurisprudência reconhece que a fundamentação por remissão não configura vício de fundamentação, desde que permita compreender os motivos da decisão e seja passível de controle pelas partes. No caso em análise, a decisão judicial, ainda que sucinta, foi considerada legítima e compatível com os parâmetros estabelecidos pelo STJ, afastando a alegação de nulidade. STJ. 5ª Turma. AgRg no HC 876.612-SP, Rel. Min. Daniela Teixeira,Rel. para acórdão Min. Joel Ilan Paciornik, julgado em 8/10/2024 (Info 24 - Edição Extraordinária). Configura constrangimento ilegal a decisão que indefere genericamente o pedido de utilização de roupas civis pelo réu durante seu julgamento pelo Tribunal do Júri O réu tem o direito de comparecer ao júri trajando roupas civis, salvo se houver fundamentação concreta para o indeferimento do pedido. O juiz presidente do júri pode indeferir requerimentos probatórios que sejam irrelevantes, impertinentes ou protelatórios, desde que apresente motivação adequada. A negativa de uso de vestes civis com base em justificativas genéricas, como segurança e reconhecimento do réu, não é suficiente para impedir o direito de o acusado comparecer ao julgamento trajando roupas civis. Obs: quando se fala em roupas civis, no contexto do julgado, estamos falando de roupas comuns, do dia a dia, que qualquer cidadão usaria, em oposição ao uniforme padronizado do sistema prisional. STJ. 5ª Turma. HC 778.503-MG, Rel. Min. Daniela Teixeira, julgado em 12/3/2024 (Info 804). STJ. 6ª Turma. HC 945.012-SP, Rel. Min. Og Fernandes, julgado em 15/10/2024 (Info 24 - Edição Extraordinária). JULGADOS EM DESTAQUE 47 O uso pela defesa de apenas fração do tempo disponível nos debates no plenário do Júri, somado à inércia em sustentar a principal tese absolutória presente nos autos configuram defesa deficiente, ensejando a nulidade do julgamento Caso adaptado: Rodrigo foi vítima de uma tentativa de homicídio e identificou Leonardo como um dos autores do crime. Durante todo o processo, Leonardo negou envolvimento, mas, no julgamento pelo Tribunal do Júri, seu advogado mudou a estratégia e não sustentou a tese de negativa de autoria, além de orientar o réu a permanecer em silêncio. A defesa foi insuficiente, limitando-se a pedir a exclusão de uma qualificadora e utilizando apenas 15 dos 90 minutos disponíveis para sustentação oral. Como resultado, Leonardo foi condenado. Após o trânsito em julgado, uma nova advogada impetrou habeas corpus alegando que a defesa no plenário foi deficiente, prejudicando Leonardo. O STJ concordou destacando que a plenitude de defesa exige um defensor combativo e tecnicamente capacitado. A ausência de uma tese absolutória, que era a principal linha defensiva desde o início do processo, configurou um prejuízo evidente ao réu. A defesa não pode ser apenas formal, mas deve garantir um julgamento justo. No caso concreto, a atuação do advogado não apenas comprometeu a defesa técnica, mas também cerceou a autodefesa do réu. Assim, diante da falha na defesa e do prejuízo concreto ao acusado, o tribunal determinou a anulação da sessão plenária e a realização de um novo julgamento. STJ. 6ª Turma. HC 947.076-MG, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, julgado em 3/12/2024 (Info 24 - Edição Extraordinária). É possível que fique caracterizado o conflito de competência se os dois juízos se declaram incompetentes mesmo que ainda não tenha sido oferecida denúncia Caso hipotético: Lucas, de 19 anos, teria ameaçado verbalmente um adolescente de 16 anos em um shopping de Aracaju, levando os pais da vítima a registrarem um boletim de ocorrência. O caso foi encaminhado ao Juizado Especial Criminal por se tratar de uma infração de menor potencial ofensivo, mas o Promotor de Justiça do Juizado entendeu que a competência era da 6ª Vara Criminal, especializada em crimes contra crianças e adolescentes. O Juiz do Juizado concordou e remeteu os autos à Vara Criminal, mas, ao chegar lá, o Promotor de Justiça dessa Vara alegou que o caso deveria permanecer no Juizado Especial, já que a infração tinha pena máxima inferior a dois anos. O Juiz da 6ª Vara acolheu esse entendimento e devolveu o processo ao Juizado. Diante da divergência, o Ministério Público suscitou conflito de competência no Tribunal de Justiça, que decidiu não conhecer do conflito, argumentando que se tratava de um conflito de atribuições do MP já que não havia ainda denúncia. O STJ discordou do TJ. Houve conflito de competência, mesmo sem denúncia formal, pois a discordância entre os juízos sobre a atribuição para conduzir a investigação é suficiente para caracterizar conflito de competência, na forma do art. 114, I, do CPP. STJ. 5ª Turma. REsp 2.162.562-SE, Rel. Min. Daniela Teixeira, julgado em 3/12/2024 (Info 838). JULGADOS EM DESTAQUE 48 A alteração legislativa promovida pela Lei 14.843/2024, ao tornar obrigatório o exame criminológico para fins de progressão de regime, não pode ser aplicada retroativamente para atingir fatos praticados sob a égide da legislação anterior Caso hipotético: Pedro, condenado em 2023 e cumprindo pena em regime fechado, pediu a progressão para o semiaberto em 2024, após cumprir os requisitos necessários. O Tribunal de Justiça afirmou que Pedro somente poderia progredir se realizasse o exame criminológico obrigatório previsto na Lei nº 14.843/2024, que entrou em vigor desde abril de 2024. O STJ não concordou com a interpretação do TJ. A exigência do exame criminológico para progressão de regime imposta pela Lei nº 14.843/2024 configura novatio legis in pejus, tornando mais difícil a obtenção de regime menos gravoso. A aplicação retroativa dessa norma é inconstitucional, por violar o princípio da irretroatividade da lei penal mais gravosa (art. 5º, XL, da CF) e ilegal, conforme o art. 2º do Código Penal. No caso concreto, a condenação do apenado ocorreu antes da vigência da nova lei, impossibilitando sua aplicação retroativa. O exame criminológico não pode ser exigido apenas com base na gravidade abstrata do delito, na longa pena a cumprir ou na reincidência, pois tais elementos já foram considerados na fixação da pena. Além disso, o apenado não possui faltas disciplinares registradas, e o Tribunal não apresentou fundamentos concretos que justificassem a necessidade da realização do exame. STJ. 5ª Turma. AgRg no HC 954.277-SP, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, julgado em 4/12/2024 (Info 24 - Edição Extraordinária). Assegurados o contraditório e a ampla defesa, com acesso integral às mídias da interceptação telefônica, não há cerceamento de defesa pelo indeferimento de cópia, especialmente porque os autos são digitais Caso hipotético: João, empresário, foi investigado por suspeita de corrupção e lavagem de dinheiro. O juiz autorizou a interceptação das ligações telefônicas de João, que revelaram possíveis transações ilícitas. Ele foi denunciado pelo Ministério Público. Durante o processo, a defesa solicitou não apenas acesso aos áudios capturados, mas também cópias físicas das gravações. O juiz concedeu o acesso digital integral, mas negou a entrega de cópias externas, o que levou a defesa a impetrar habeas corpus alegando cerceamento de defesa. O STJ negou o pedido da defesa, argumentando que a legislação não exige a transcrição integral das interceptações, bastando que as partes tenham acesso ao conteúdo. Não há nulidade nem cerceamento de defesa quando os dados interceptados são disponibilizados nos autos. Além disso, a nulidade processual só se configura se houver comprovação de prejuízo para a parte, o que não ocorreu no caso, já que a defesa teve acesso total ao material digital. STJ. 6ª Turma. RHC 203.219-SP, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em 4/2/2025 (Info 839). JULGADOS EM DESTAQUE 49 É possível o cumprimento simultâneo de medida restritiva de direito consistente em prestação pecuniária, mesmo diante nova condenação a reprimenda de reclusão no regime semiaberto Caso hipotético: João foi condenado a um ano de prisão. Essa pena privativa de liberdade foi substituída por pena restritiva de direitos (prestação pecuniária, a ser paga em 12 parcelas mensais). No terceiro mês, João foi novamente condenado por um segundo delito, recebendo pena privativa de liberdade de 2 anos em regime semiaberto. A Vara de Execuções determinou a reconversão da prestação pecuniária em pena privativa de liberdade e sua unificação com a segundasentença, baseando-se no Tema 1106 do STJ. A defesa impetrou habeas corpus no STJ, argumentando que, conforme o art. 44, §5º do CP, a conversão não deveria ser automática, sendo possível, no caso, o cumprimento simultâneo da prestação pecuniária com a pena privativa de liberdade. O STJ concordou com a defesa. A pena restritiva de direitos consistente em prestação pecuniária é compatível com o cumprimento de pena privativa de liberdade em regime semiaberto, sendo vedada sua reconversão automática quando há unificação das penas. Somente certas penas restritivas de direitos (prestação pecuniária e perda de bens) e a pena de multa são compatíveis com os regimes semiaberto e fechado. STJ. 6ª Turma. AgRg no HC 914.911-DF, Rel. Min. Otávio de Almeida Toledo (Desembargador convocado do TJSP), julgado em 30/9/2024 (Info 24 - Edição Extraordinária). Quando a única defesa é a negativa de autoria e os jurados reconhecem a autoria e a materialidade (votando positivamente nos dois primeiros quesitos), a absolvição no terceiro quesito não deve prevalecer, pois há contradição com a rejeição da tese defensiva Em situações nas quais a negativa de autoria é a única proposição defensiva, a absolvição do agente no terceiro quesito não deve subsistir quando houve votação positiva dos dois primeiros, ocasião em que os jurados rejeitaram a tese da defesa, porquanto afirmaram ser o acusado o autor do delito. STJ. 6ª Turma. AgRg no AREsp 2.756.710-SP, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, julgado em 17/12/2024 (Info 839). JULGADOS EM DESTAQUE 50 A corrupção de parte dos arquivos compromete a integralidade da prova, inviabilizando sua utilização Caso adaptado: João e Pedro, sócios de uma empresa, foram investigados por supostos crimes financeiros, resultando na apreensão de dados digitais por meio de um HD externo da SEFAZ. Os arquivos copiados foram armazenados sob custódia do Ministério Público, mas a defesa só obteve acesso ao material em 2022, constatando que parte significativa dos dados estava corrompida e inacessível. A defesa solicitou a entrega do HD original e esclarecimentos sobre a falha, mas os pedidos foram negados sob o argumento de que a corrupção afetava ambas as partes igualmente, sem prejuízo à defesa. A defesa recorreu ao STJ, alegando que a perda dos arquivos inviabilizava a verificação da integridade das provas, comprometia a paridade de armas e tornava impossível saber se o Ministério Público acessou os dados antes da corrupção. O STJ acatou os argumentos e declarou inadmissíveis as provas digitais obtidas na busca e apreensão, bem como todas as provas delas derivadas, com base no art. 157, § 1º, do CPP. O Estado foi responsável pela perda da informação e que não se pode presumir a validade das provas restantes sem comprovação da cadeia de custódia. O STJ determinou que o juízo de origem identifique e exclua todas as provas derivadas das provas invalidadas e avalie se, mesmo após essa exclusão, ainda existem elementos suficientes para manter a denúncia. Foram fixadas duas teses: 1. A prova digital deve ser completa e íntegra para ser admitida em juízo. 2. A corrupção de parte dos arquivos compromete a integralidade da prova, inviabilizando sua utilização. STJ. 5ª Turma. AgRg no RHC 184.003-SP, Rel. Min. Daniela Teixeira, Rel. para acórdão Min. Ribeiro Dantas, julgado em 10/12/2024 (Info 838). O inadimplemento da multa compensatória prevista no acordo de colaboração premiada, por comprovada hipossuficiência financeira, não impede a progressão de regime acordado Caso hipotético: João, acusado de corrupção ativa e lavagem de dinheiro, firmou um acordo de colaboração premiada com o Ministério Público Federal, que previa dois anos de regime fechado, seguidos de progressão para regime aberto domiciliar, prestação de serviços comunitários e pagamento de uma multa compensatória de R$ 20 milhões. Após cumprir integralmente o período em regime fechado, João solicitou a progressão, mas o MPF se opôs, argumentando que ele não havia pagado a multa acordada. João alegou dificuldades financeiras e afirmou que impedir sua progressão configuraria prisão por dívida. JULGADOS EM DESTAQUE 51 O STJ concordou com a defesa e autorizou a progressão. O Superior Tribunal de Justiça (STJ) analisou o caso à luz da sua jurisprudência, que estabelece: Em regra, o não pagamento da multa impede a progressão de regime, a menos que haja prova inequívoca da incapacidade financeira do condenado. Eventuais descumprimentos contratuais devem ser tratados por meio das medidas legais cabíveis, mas não podem ser utilizados para impor ao colaborador uma consequência não prevista no acordo. Dessa forma, o inadimplemento da multa, diante da comprovação de hipossuficiência, não impede a progressão de regime. STJ. 5ª Turma. REsp 1.989.703-PR, Rel. Min. Daniela Teixeira, julgado em 4/2/2025 (Info 839). DIREITO TRIBUTÁRIO O regime de cálculo em separado do Imposto sobre a Renda incidente sobre rendimentos recebidos acumuladamente (RRA), prevista no art. 12-A da Lei 7.713/88, na redação dada pela Lei 12.350/2010, não se aplica a fatos geradores ocorridos antes de sua entrada em vigor Caso hipotético: em 1994, um erro na conversão da moeda causou uma perda salarial de 11,98% para servidores públicos, incluindo Pedro, que ajuizou ação para corrigir o valor e receber os atrasados. Ao final, a sentença foi favorável à Pedro que teve o direito de receber R$ 200 mil de atrasados. Em 2009, ao executar a sentença, surgiu a controvérsia sobre como calcular o Imposto de Renda sobre esse valor, com três posições: 1) cobrar o imposto de uma vez em 2009 com alíquota máxima; 2) dividir o valor pelos meses devidos e somar aos rendimentos mensais para calcular o imposto progressivo; e 3) calcular o imposto sobre as parcelas mensais isoladamente, sem somar ao salário, com base no art. 12-A da Lei nº 7.713/1988, que permite a tributação em separado. Art. 12-A. Os rendimentos recebidos acumuladamente e submetidos à incidência do imposto sobre a renda com base na tabela progressiva, quando correspondentes a anos-calendário anteriores ao do recebimento, serão tributados exclusivamente na fonte, no mês do recebimento ou crédito, em separado dos demais rendimentos recebidos no mês. O STJ acolheu a segunda posição, pois o caso ocorreu antes da vigência do art. 12-A (inserido em 2010), que não pode ser aplicado retroativamente, e a tributação em separado equivaleria a um benefício fiscal não autorizado, violando os princípios da legalidade, isonomia e capacidade contributiva. Assim, o cálculo do imposto deve considerar a soma dos rendimentos mensais, conforme previsto na legislação vigente à época. STJ. 1ª Turma. AREsp 1.286.096-RS, Rel. Min. Paulo Sérgio Domingues, Rel. para acórdão Min. Regina Helena Costa, julgado em 12/11/2024 (Info 22 - Edição Extraordinária). JULGADOS EM DESTAQUE 52 Na hipótese em que, de forma autônoma, ocorre a prestação de serviço de habilitação de linhas telefônicas para outras sociedades empresárias, e não o serviço de telecomunicação, há incidência do ISSQN Caso hipotético: a empresa Alfa atua no mercado de telecomunicações prestando serviços de habilitação de linhas telefônicas para outras empresas, como a TIM, sem fornecer diretamente serviços de telefonia. O Município entendeu que esses serviços estavam sujeitos ao ISSQN, mas a Alfa questionou, alegando que se tratava de uma atividade-meio e, portanto, não tributável. O STJ rejeitou o argumento da Alfa, entendendo que a habilitação de linhas é um serviço autônomo e técnico, enquadrado no item 14.02 da lista anexa à LC 116/2003, que prevê a incidência do ISSQN sobre serviços de suporte técnico e assistência. Mesmo sendo acessório ou preparatório, o serviço não se confunde com a atividade-fim das operadoras de telecomunicação e, por isso, é tributável. O serviço de habilitação de linhas telefônicas é independente e com finalidade própria, não se enquadrando como atividade-meio essencialdas operadoras de telecomunicação. STJ. 1ª Turma. AgInt no REsp 2.129.142-SE, Rel. Min. Benedito Gonçalves, julgado em 30/9/2024 (Info 22 - Edição Extraordinária). Os valores repassados pelas operadoras de telefonia a outras empresas, a título de interconexão e roaming, não compõem a base de cálculo do PIS e da COFINS por não configurarem receita ou faturamento Os valores referentes à interconexão e ao roaming (a serem repassados a outras operadoras pelos serviços prestados), arrecadados de seus usuários pelas operadoras de telefonia, por não integrarem o patrimônio da contribuinte, não configuram receita ou faturamento e, portanto, não compõem as bases de cálculo das contribuições para o PIS e a COFINS. STJ. 1ª Seção. EREsp 1.599.065-DF, Rel. Min. Teodoro Silva Santos, julgado em 11/9/2024 (Info 22 - Edição Extraordinária). Incide ICMS na transferência de mercadorias entre estabelecimentos da mesma pessoa jurídica nas hipóteses não ressalvadas na modulação de efeitos (atribuição de eficácia prospectiva) da declaração de inconstitucionalidade da LC 87/1996 na ADC 49/RN A não incidência de ICMS no deslocamento de bens de um estabelecimento para outro do mesmo contribuinte localizados em estados distintos, estabelecida no Tema 1.099/RG e na ADC 49, tem efeitos a partir do exercício financeiro de 2024, ressalvados os processos administrativos e judiciais pendentes de conclusão até a data de publicação da ata de julgamento da decisão de mérito da ADC 49 (29.04.2021). STF. Plenário. RE 1.490.708/SP, Rel. Min. Luís Roberto Barroso, julgado em 04/02/2025 (Repercussão Geral – Tema 1.367) (Info 1164). JULGADOS EM DESTAQUE 53 É inconstitucional norma estadual que estabelece critérios de cálculo do valor adicionado para fins de partilha do produto arrecadado nas operações relativas à circulação de mercadorias e nas prestações de serviços realizadas em seus territórios Caso concreto: o art. 158, IV, a, da CF/88 determina que 25% da arrecadação do ICMS deve ser repassada aos municípios. Desses recursos, 65% são distribuídos proporcionalmente ao valor adicionado (VA) das operações locais, enquanto até 35% podem ser repartidos conforme critérios estaduais, respeitando um mínimo de 10% para indicadores educacionais. A LC federal 63/1990 regula o cálculo do VA, definindo-o como a diferença entre saídas e entradas de mercadorias, com exceção de casos simplificados, nos quais se aplica 32% da receita bruta. No Pará, a Lei Estadual nº 10.310/2023 alterou a forma de cálculo do VA, estendendo a regra dos 32% para empresas de mineração, alegando simplificação e combate à sonegação fiscal. O STF decidiu que essa lei estadual é formalmente inconstitucional porque usurpou competência da União. O art. 161 da CF/88 reserva à lei complementar federal essa definição. A LC 63/1990 já estabelece critérios para o VA e limita a aplicação do percentual de 32% a casos específicos. Logo, a legislação estadual inovou indevidamente. STF. Plenário. ADI 7.685/PA, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgado em 16/12/2024 (Info 1163). Não incide ITCMD sobre valores de VGBL e PGBL repassados aos beneficiários em razão da morte do titular do plano Diante da natureza securitária e previdenciária complementar dos contratos de seguros de pessoas, é inconstitucional a cobrança do Imposto sobre Transmissão Causa Mortis e Doação - ITCMD (art. 155, I, CF/88) sobre os valores e direitos transferidos aos beneficiários dos planos Vida Gerador de Benefício Livre (VGBL) e Plano Gerador de Benefício Livre (PGBL) em caso de falecimento de seu titular. É constitucional o diferimento do pagamento do ITCMD em casos de doação com reserva de usufruto. Tese fixada pelo STF: “É inconstitucional a incidência do imposto sobre transmissão causa mortis e doação (ITCMD) sobre o repasse aos beneficiários de valores e direitos relativos ao plano vida gerador de benefício livre (VGBL) ou ao plano gerador de benefício livre (PGBL) na hipótese de morte do titular do plano.” STF. Plenário. RE 1.363.013/RJ, Rel. Min. Dias Toffoli, julgado em 16/12/2024 (Repercussão Geral – Tema 1.214) (Info 1163). JULGADOS EM DESTAQUE 54 Incide PIS e COFINS sobre os rendimentos obtidos em aplicações financeiras das entidades fechadas de previdência complementar, excluindo-se as receitas oriundas de contribuições de participantes e patrocinadores, as quais possuem regramento específico Caso hipotético: a Receita Federal cobrou PIS e COFINS sobre os rendimentos de aplicações financeiras da PREVI, entidade fechada de previdência complementar dos funcionários do Banco do Brasil. A PREVI impetrou mandado de segurança argumentando que não deveria pagar estes tributos por não ter faturamento tradicional, não ter fins lucrativos e por considerar que os rendimentos financeiros são apenas resultado da gestão dos recursos dos participantes. O STF entendeu que a cobrança é legítima. Os rendimentos obtidos através de aplicações financeiras são caracterizados como atividades empresariais típicas dessas entidades, mesmo sem fins lucrativos. A Corte destacou que estas aplicações são uma das principais fontes de receita das entidades de previdência complementar, sendo essenciais para seu desenvolvimento e cumprimento de sua atividade-fim, justificando assim a incidência de PIS e COFINS sobre tais receitas. Tese fixada pelo STF: É constitucional a incidência de PIS e COFINS em relação a rendimentos auferidos em aplicações financeiras das entidades fechadas de previdência complementar (EFPC). STF. Plenário. RE 722.528/RJ, Rel. Min. Dias Toffoli, redator do acórdão Min. Gilmar Mendes, julgado em 16/12/2024 (Repercussão Geral – Tema 1.280) (Info 1163). Os gases ventados constituem perdas inerentes a qualquer processo produtivo e, ainda que não comercializados, não afastam o direito ao crédito de ICMS, visto que a energia elétrica foi consumida no processo de industrialização Caso adaptado: a empresa White Martins, que produz gases industriais, utilizava créditos de ICMS referentes à energia elétrica consumida no processo de industrialização, incluindo a produção de gases que não atendiam aos padrões de qualidade e eram descartados na atmosfera (“gases ventados”). O Estado de Minas Gerais exigiu o estorno desses créditos, argumentando que a energia elétrica usada na produção dos gases não comercializados não deveria gerar direito ao crédito de ICMS, conforme o art. 21, II, da LC 87/1996 (Lei Kandir). A empresa, por sua vez, sustentou que a energia foi essencial ao processo industrial e que a legislação não condiciona o direito ao crédito à comercialização do produto final. O STJ decidiu em favor da empresa, entendendo que os gases ventados são refugos naturais do processo produtivo e que a energia elétrica utilizada na industrialização permite a apropriação dos créditos de ICMS, conforme previsto no art. 33, II, b, da Lei Kandir. STJ. 1ª Turma. REsp 1.854.143-MG, Rel. Min. Paulo Sérgio Domingues, julgado em 10/12/2024 (Info 838). Atenção. Existe decisão da 2ª Turma do STJ em sentido contrário: STJ. 2ª Turma. AREsp 2.439.507/ MG, Rel. Min. Francisco Falcão, julgado em 12/11/2024. JULGADOS EM DESTAQUE 55 A aplicação das alíquotas integrais do AFRMM, a partir da revogação do Decreto 11.321/2022 pelo Decreto 11.374/2023, não está submetida à anterioridade tributária Caso concreto: em 30 de dezembro de 2022, o então Presidente editou o Decreto nº 11.321/2022, reduzindo pela metade as alíquotas do Adicional ao Frete para Renovação da Marinha Mercante (AFRMM), com vigência a partir de 1º de janeiro de 2023. Contudo, em 1º de janeiro de 2023, o recém-empossado Presidente revogou esse decreto por meio do Decreto nº 11.374/2023, restabelecendo as alíquotas integrais do AFRMM. Diante dessa revogação, foram ajuizadas ações buscando o direito de recolher o AFRMM com base nas alíquotas reduzidas, argumentando que o retorno às alíquotas integrais deveria observar o princípio da anterioridade tributária, tanto anual quantononagesimal. No entanto, o STF decidiu que o Decreto nº 11.374/2023 não instituiu ou majorou tributo, pois as alíquotas anteriores já eram conhecidas pelos contribuintes e o decreto que as reduziu foi revogado no mesmo dia em que entrou em vigor. Assim, concluiu-se pela inaplicabilidade da anterioridade e pela ausência de violação aos princípios da segurança jurídica e da não surpresa. O Decreto nº 11.374/2023 não instituiu, restabeleceu ou majorou tributo, não atraindo, portanto, o princípio da anterioridade nonagesimal. Tese fixada pelo STF: A aplicação das alíquotas integrais do AFRMM, a partir da revogação do Decreto nº 11.321/2022 pelo Decreto nº 11.374/2023, não está submetida à anterioridade tributária (exercício e nonagesimal). STF. Plenário. ARE 1.527.985/ES, Rel. Min. Luís Roberto Barroso, julgado em 04/02/2025 (Repercussão Geral – Tema 1.368) (Info 1164). DIREITO PREVIDENCIÁRIO Para que o período de auxílio-doença seja computado como tempo de contribuição, ele deve estar intercalado com períodos de efetiva atividade laborativa, não sendo suficiente apenas uma contribuição isolada como segurado facultativo O cômputo dos salários-de-benefício como salários-de-contribuição somente será admissível se, no período básico de cálculo - PBC, houver afastamento intercalado com atividade laborativa, em que há recolhimento da contribuição previdenciária. STJ. 2ª Turma. AgInt no REsp 2.113.564-RS, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, julgado em 15/8/2024 (Info 22 - Edição Extraordinária). JULGADOS EM DESTAQUE 56 Configurada a ilicitude da terceirização, a empresa tomadora passa a ser responsável pelo adimplemento do débito das contribuições previdenciárias, em virtude da formação de vínculo empregatício direto com os empregados fictamente contratados pelas empresas interpostas Caso adaptado: a ALFA S.A., uma indústria de vestuário, foi autuada em R$ 10 milhões por sonegação de contribuições previdenciárias após a Administração Tributária descobrir um esquema de terceirização fictícia. A empresa contratava serviços das empresas Beta, Ômega e Delta, cujos sócios majoritários eram, na verdade, dirigentes da própria ALFA, que recebiam a maior parte de seus salários como distribuição antecipada de lucros. O STJ manteve a autuação, fundamentando que a fiscalização previdenciária tem legitimidade para identificar relações de emprego disfarçadas e cobrar os tributos devidos, conforme previsto no art. 33, § 3º, da Lei nº 8.212/1991. Ficou constada a existência de confusão patrimonial entre as empresas e identificou os elementos característicos de vínculo empregatício direto: subordinação, onerosidade, pessoalidade e habitualidade. Embora o STF tenha decidido pela licitude da terceirização em geral (ADPF 324 e RE 958.252), o caso da ALFA se diferencia por envolver fraude comprovada, já que as empresas terceirizadas não possuíam autonomia real e eram meras fachadas. Assim, o STJ determinou que a empresa tomadora é responsável pelo pagamento das contribuições previdenciárias devido à formação de vínculo empregatício direto com os empregados fictamente contratados pelas empresas interpostas. STJ. 2ª Turma. REsp 1.652.347-SC, Rel. Min. Francisco Falcão, julgado em 13/8/2024 (Info 22 - Edição Extraordinária). É inconstitucional lei estadual que obriga as instituições financeiras a efetivarem a prova de vida de seus clientes, para fins de cadastramento e/ou recebimento de benefícios previdenciários É formalmente inconstitucional legislação editada por estado-membro que atribua a instituições financeiras a responsabilidade pela realização de prova de vida de beneficiários do Regime Geral de Previdência Social, por violação do art. 22, inciso XXIII, da Constituição da República. A Constituição Federal estabelece que compete privativamente à União legislar sobre seguridade social. A Lei nº 9.078/2020 do Estado do Rio de Janeiro, ao impor às instituições financeiras a obrigação de efetuar a prova de vida de beneficiários do Regime Geral de Previdência Social, invadiu essa competência. Assim, a norma estadual foi declarada inconstitucional por violação ao art. 22, inciso XXIII, da Constituição Federal. STF. Plenário. ADI 7.010/RJ, Rel. Min. Dias Toffoli, julgado em 16/12/2024 (Info 1163). JULGADOS EM DESTAQUE 57 O pedido de recálculo do salário de participação na previdência complementar, decorrente do reconhecimento judicial de verbas trabalhistas, prescreve em 10 anos (art. 205 do CC) Aplica-se o prazo prescricional geral de 10 anos à pretensão de recálculo do salário de participação ou contribuição de um participante/assistido que, no âmbito da previdência complementar, ainda na ativa, obtém o reconhecimento de verbas trabalhistas e realiza do referido pedido junto à entidade de previdência. Somente na hipótese de parcelas não pagas e nem reclamadas na época própria, ocorre a prescrição quinquenal prevista no art. 75 da LC 109/2001, que regula a previdência complementar. Se a pretensão não se refere a benefício, mas sim ao cálculo do salário de participação de participante/assistido que, ainda na ativa, obteve reconhecimento de verbas trabalhistas na Justiça do Trabalho, o prazo prescricional é de 10 anos. O termo inicial da prescrição para o recálculo do salário de participação é a data em que deveria ter ocorrido o recolhimento das contribuições patronal e empregatícia. Quando há reconhecimento de direitos na Justiça do Trabalho que alterem o cálculo do salário de participação, a prescrição começa a contar do trânsito em julgado da ação de conhecimento, aplicando-se o princípio da actio nata. STJ. 4ª Turma. AgInt no AREsp 2.099.043-DF, Rel. Min. João Otávio de Noronha, julgado em 23/9/2024 (Info 23 - Edição Extraordinária). DIREITO DO TRABALHO São constitucionais os dispositivos da Reforma Trabalhista (Lei nº 13.467/2017) que instituíram o contrato de trabalho intermitente A regulamentação do contrato intermitente, nos termos estabelecidos pelas normas questionadas, encontra fundamento de validade nos arts. 1º, IV, e 170, caput, da Constituição Federal, os quais consagram a livre iniciativa e o valor social do trabalho. A flexibilização promovida pela Reforma Trabalhista visa à ampliação do mercado de trabalho, sem prejuízo das garantias mínimas asseguradas pela ordem constitucional trabalhista. Uma vez que a contratação intermitente observa critérios específicos para remuneração e direitos trabalhistas, respeitando a autonomia privada e os limites da intervenção estatal, não se mostra configurada ofensa à dignidade do trabalhador ou aos princípios da isonomia e da proporcionalidade. STF. Plenário. ADI 5.826/DF, ADI 5.829/DF, ADI 6.154/DF, Rel. Min. Edson Fachin, redator do acórdão Min. Nunes Marques, julgado em 16/12/2024 (Info 1163). 58DIZER O DIREITO NEWS www.dizerodireito.com.br www.buscadordizerodireito.com.br contato@buscadordizerodireito.com.br Direção criativa: Carla Piaggio|Projeto gráfico e diagramação: Keille Lorainne Dourado Silva O boletim Dizer o Direito News é uma publicação mensal do Buscador Dizer o Direito, a única ferramenta de pesquisa da jurisprudência do STF/STJ com julgados comentados, coordenada por Márcio André Lopes Cavalcante. SOBRE O IDEALIZADOR Márcio André Lopes Cavalcante é o idealizador e editor do Buscador Dizer o Direito. Atua como Juiz Federal (TRF da 1ª Região). Antes disso, foi Defensor Público, Promotor de Justiça e Procurador do Estado. Possui grande experiência em concursos públicos, tendo sido aprovado em inúmeros outros certames, como Técnico e Analista Judiciário, Procurador do Município, Procurador de Contas e Juiz de Direito. É autor de 8 livros e dedica-se intensamente ao estudo e análise da jurisprudência por acreditar que se trata, atualimente, de uma das fontes do Direito, sendo, aliás, a mais dinâmica delas. Atua como "professor virtual" de milhares de alunos das mais diversas partes do país por meio do site "Dizer o Direito" (www.dizerodireito.com.br)básico a terra indígena Caso concreto: o Ministério Público Federal ajuizou ação civil pública contra o Estado do Paraná, a SANEPAR, a União e a FUNAI, visando a implementação de serviços de saneamento básico e indenização por danos morais coletivos para a comunidade indígena Tekoha Tatury, em Guaíra- PR, que vivia em condições precárias sem acesso adequado a água potável e saneamento básico. O Estado do Paraná arguiu sua legitimidade passiva, alegando que a responsabilidade pelo saneamento em terras indígenas seria exclusivamente da União. O STJ decidiu que o Estado-membro é parte legítima para figurar no polo passivo da ação. Isso porque o caso não se trata apenas de fornecimento de saneamento básico, mas da prestação desse serviço como meio indispensável à manutenção da saúde indígena. A decisão baseou-se no artigo 19-E da Lei nº 8.080/90, que prevê a possibilidade de Estados atuarem complementarmente no custeio e execução das ações de saúde indígena. A Lei nº 11.445/2007 também não exclui a responsabilidade do Estado, pois o caso não trata da competência para estabelecer o Plano Nacional de Saneamento Básico (exclusiva da União), mas sim da obrigação de prestar serviços locais e regionais de saneamento, cuja execução ocorre de forma articulada com os Estados, reforçando assim a legitimidade passiva do ente estadual. STJ. 1ª Turma. AREsp 2.381.292-PR, Rel. Min. Gurgel de Faria, julgado em 10/12/2024 (Info 838). DOD CAST Ouça os informativos comentados pelo professor Márcio Cavalcante, do Dizer o Direito. Clique aqui e acesse os programas já postados. https://www.buscadordizerodireito.com.br/podcast JULGADOS EM DESTAQUE 5 DIREITO ADMINISTRATIVO Não é lícita a cobrança pela concessionária de tarifa por esgoto não coletado ou despejado in natura nas galerias pluviais, sem qualquer tratamento Não é legítima a cobrança de tarifa de esgoto quando há o despejo de esgoto in natura em galerias pluviais, configurando poluição ambiental. O uso de galerias pluviais para esgotamento sanitário só se justifica quando os efluentes nelas lançados estão devidamente tratados, sendo etapa essencial do saneamento básico. Não foi intuito do Recurso Repetitivo (REsp 1.339.313/RJ – Tema 565) transformar o inadmissível ato antissanitário e antiambiental em ilícito impune e, pior, remunerado, pois, de fato e de direito, não se equivalem, de um lado, uso das galerias pluviais para escoamento de esgoto tratado e, do outro, poluição das galerias pluviais, dos rios e do mar com efluentes sem qualquer forma de tratamento, nem mesmo primário. STJ. 2ª Turma. AgInt no REsp 2.115.320-RJ, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, julgado em 14/10/2024 (Info 22 - Edição Extraordinária). A ação de cobrança ajuizada em desfavor da Fazenda Pública, seja por conta de dívida tributária ou não tributária, está sujeita ao prazo prescricional de 5 anos, previsto no Decreto 20.910/1932 A cobrança de tarifas de água e esgoto em desfavor da Fazenda Pública sujeita-se ao prazo prescricional quinquenal, previsto no Decreto 20.910/1932, devido à aplicação da norma específica para dívidas passivas da Fazenda Pública, independentemente de sua natureza tributária ou não. Esse entendimento prevalece sobre o regime geral do Código Civil, pois o Decreto foi recepcionado como lei especial. STJ. 2ª Turma. AgInt no REsp 2.138.876-SP, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, julgado em 14/10/2024 (Info 22 - Edição Extraordinária). Enfermeiras obstétricas podem realizar parto domiciliar sem distocias independentemente da presença ou assistência direta de profissional médico Os enfermeiros estão autorizados, nos termos do art. 11, II, da Lei nº 7.498/1986, a realizar partos sem distocia mesmo sem a presença ou assistência direta de médico. A identificação da distocia não é privativa dos médicos, conforme interpretação da Lei nº 12.842/2013 (Lei do Ato Médico), sendo que, ao identificar a distocia, cabe à enfermeira obstétrica encaminhar a paciente ao médico, que terá competência exclusiva para diagnosticar eventual doença. A Portaria nº 353/2017 do Ministério da Saúde reforça que o parto normal de baixo risco pode ser realizado tanto por médico obstetra quanto por enfermeira obstétrica e obstetriz. STJ. 1ª Turma. REsp 2.099.736-RJ, Rel. Min. Gurgel de Faria, julgado em 20/8/2024 (Info 22 - Edição Extraordinária). JULGADOS EM DESTAQUE 6 O réu foi condenado com fundamento no caput do art. 11 da LIA; a Lei 14.230/2021 eliminou a possibilidade de condenação com base no caput; ainda assim, a condenação poderá ser mantida caso a conduta esteja prevista em algum dos incisos do art. 11 Caso adaptado: Regina, prefeita de um município do interior, e seu marido João, secretário de finanças e proprietário do supermercado Alfa, foram acusados de improbidade administrativa após a administração municipal contratar diretamente o açougue Delta, uma empresa de fachada vinculada ao supermercado Alfa, para fornecer merenda escolar. A fraude consistia no fornecimento dos produtos pelo supermercado Alfa, com repasses financeiros realizados por meio da empresa de fachada. Apesar da ausência de superfaturamento ou falta de entrega, a contratação direta violou os princípios da moralidade e impessoalidade. O Ministério Público ajuizou ação de improbidade, e os réus foram condenados em primeira instância com base no caput do art. 11 da Lei de Improbidade Administrativa. Após a entrada em vigor da Lei nº 14.230/2021, que alterou a Lei nº 8.429/92, os réus recorreram alegando que a nova legislação deveria ser aplicada ao caso, já que o art. 11 da antiga lei havia sido alterado, tornando o caput taxativo e não mais exemplificativo. Eles argumentaram que sua conduta deixou de ser ato de improbidade administrativa, pois não poderia mais ser enquadrada no caput do art. 11. No entanto, o Tribunal de Justiça manteve a condenação, e o recurso especial ao STJ também não foi acolhido. O STJ reconheceu a aplicação imediata da Lei nº 14.230/2021 a processos em curso sem trânsito em julgado, mas concluiu que não houve abolição da tipicidade da conduta, pois a prática permaneceu proibida no inciso V do art. 11 da LIA. Assim, a continuidade típico-normativa garantiu a manutenção da condenação dos réus, que não foram absolvidos. Não há abolição da tipicidade da conduta de improbidade administrativa, reconhecida antes das alterações dadas pela Lei 14.230/2021, quando os fatos analisados evidenciarem a concretização das novas hipóteses de condutas previstas nos incisos do art. 11 da Lei de Improbidade Administrativa (LIA), em razão do princípio da continuidade típico-normativa. STJ. 1ª Turma. REsp 2.061.719-TO, Rel. Min. Paulo Sérgio Domingues, julgado em 27/8/2024 (Info 22 - Edição Extraordinária). É constitucional a lei estadual que regulamenta serviços voluntários de policiais militares para guarda de imóveis e quartéis, desde que respeite os limites estabelecidos pela legislação federal É constitucional lei estadual que regula, na respectiva polícia militar, a prestação voluntária de serviços de guarda de imóveis locais e de guarda de quartéis da corporação, desde que respeitadas as balizas dispostas na lei federal de regência. Essa lei não usurpa a competência legislativa privativa da União (art. 22, XXI, CF/88) nem atribui competências típicas das polícias militares. STF. Plenário. ADI 4.059/PA, Rel. Min. Nunes Marques, redator do acórdão Min. Flávio Dino, julgado em 04/02/2025 (Info 1164). JULGADOS EM DESTAQUE 7 O pagamento de prêmio por desempenho fiscal (uma espécie de gratificação) a servidores ativos é constitucional, pois se enquadra na exceção do art. 167, IV, da CF/88, mas sua extensão a aposentados e pensionistas é inconstitucional Caso adaptado: o Estado do Ceará editou lei criando o Prêmio por Desempenho Fiscal (PDF) para servidores da arrecadação tributária. Essa gratificação seria baseada no desempenho da arrecadação tributária. O ponto controvertido foi que a lei estendeu esse benefíciodo qual é fundador. E lançou o Buscador "Dizer o Direito" para expandir ainda mais a sua distribuição de conhecimento. https://www.buscadordizerodireito.com.br/assinatura/novidades_legislativasaos inativos e pensionistas. O PGR ajuizou ADI contra essa previsão. O principal argumento foi o de que a lei violava o art. 167, IV, da Constituição, que proíbe a vinculação de receita de impostos a órgão, fundo ou despesa. Embora exista uma exceção para atividades da administração tributária, o PGR argumentou que aposentados e pensionistas não exercem mais essa função. O STF acolheu os argumentos do PGR, declarando constitucional o pagamento do PDF apenas para servidores ativos, mas inconstitucional para inativos e pensionistas. A decisão fundamentou-se em dois pontos: 1) a violação ao princípio da não vinculação de receitas, já que inativos não exercem atividades tributárias; 2) a ausência de contribuição previdenciária sobre a verba para incorporação aos proventos, o que viola os princípios previdenciários do art. 40 da Constituição. STF. Plenário. ADI 3.516/CE, Rel. Min. Edson Fachin, julgado em 16/12/2024 (Info 1163). São inconstitucionais o conjunto de decisões judiciais que concederam estabilidade a empregados da OAB/RJ originalmente contratados sob o regime celetista A estabilidade de servidores da OAB/RJ, prevista no art. 79, § 1º, da Lei nº 8.906/1994, somente se aplica aos empregados originariamente contratados sob o regime estatutário, optantes pela permanência no quadro em extinção ou pela migração para o regime trabalhista, no prazo de 90 dias da entrada em vigor do Regimento Interno da OAB/RJ atualmente em vigor (2004). Art. 79. Aos servidores da OAB, aplica-se o regime trabalhista. § 1º Aos servidores da OAB, sujeitos ao regime da Lei nº 8.112, de 11 de dezembro de 1990, é concedido o direito de opção pelo regime trabalhista, no prazo de noventa dias a partir da vigência desta lei, sendo assegurado aos optantes o pagamento de indenização, quando da aposentadoria, correspondente a cinco vezes o valor da última remuneração. (...) O reconhecimento da estabilidade a funcionários da OAB contratados sob o regime trabalhista em desacordo com as normas aplicáveis viola a autonomia constitucional da OAB, a segurança jurídica e o art. 19 do ADCT, pois permite a criação indevida de hipótese extensiva de estabilidade por meio de interpretação de norma regimental local. STF. Plenário. ADPF 862/RJ, Rel. Min. Luiz Fux, julgado em 16/12/2024 (Info 1163). JULGADOS EM DESTAQUE 8 São constitucionais os arts. 7º e 9º da Lei 9.717/98, que estabelecem sanções para os entes que descumprirem os critérios de equilíbrio atuarial dos regimes próprios de previdência social 1. É constitucional a previsão, em lei federal, de medidas sancionatórias ao ente federativo que descumprir os critérios e exigências aplicáveis aos regimes próprios de previdência social. 2. Admite-se o controle judicial das exigências feitas pela União no exercício da fiscalização desses regimes. Nesse caso, o ente fiscalizado deverá demonstrar, de forma técnica: (i) a inexistência do déficit atuarial apontado; ou, (ii) caso reconheça o desequilíbrio, a impertinência das medidas impostas pela União e a existência de plano alternativo capaz de assegurar, de maneira equivalente, a sustentabilidade do regime. STF. Plenário. RE 1.007.271/PE, Rel. Min. Edson Fachin, redator do acórdão Min. Flávio Dino, julgado em 19/12/2024 (Repercussão Geral – Tema 968) (Info 1163). A Lei das Estatais (Lei nº 13.303/2016) não incide às empresas supranacionais, condição da Itaipu Binacional A Itaipu Binacional é uma empresa supranacional criada pelo tratado internacional firmado entre Brasil e Paraguai em 1973, com a finalidade de construir e operar a Usina Hidrelétrica de Itaipu. A Itaipu não é considerada uma empresa pública nem uma sociedade de economia mista, mas sim um organismo internacional. No caso concreto, um cidadão brasileiro ingressou com ação popular contra a nomeação de Carlos como conselheiro da Itaipu, alegando que ele não atendia aos requisitos da Lei das Estatais (Lei nº 13.303/2016). O pedido foi julgado improcedente. A Itaipu Binacional, por não ser uma empresa pública ou sociedade de economia mista, não está submetida à Lei das Estatais. A Constituição Federal reconhece a existência de empresas supranacionais e estabelece que o controle externo sobre elas deve ocorrer nos termos do tratado constitutivo. Dessa forma, a nomeação de Carlos para o conselho da Itaipu não poderia ser questionada com base na Lei das Estatais. STJ. 2ª Turma. RO 275-PR, Rel. Min. Afrânio Vilela, julgado em 4/2/2025 (Info 839). DOD PÉDIA A DOD Pédia é a enciclopédia colaborativa da comunidade Dizer o Direito. Clique aqui e colabore incluindo novas definições ou melhorando os comentários que já existem https://www.buscadordizerodireito.com.br/assinatura/dodpedia JULGADOS EM DESTAQUE 9 DIREITO AMBIENTAL O Ibama possui o dever-poder de fiscalizar e exercer poder de polícia diante de qualquer atividade que ponha em risco o meio ambiente, ainda que a competência para o licenciamento seja de outro órgão público O IBAMA possui o dever-poder de fiscalizar e exercer poder de polícia sobre qualquer atividade que coloque em risco o meio ambiente, mesmo que a competência para o licenciamento ambiental seja de outro órgão público. A competência para licenciar não se confunde com a competência para fiscalizar. A atuação supletiva de um ente federal é permitida, desde que comprovada omissão ou insuficiência na fiscalização pelo ente originalmente competente para o licenciamento ou autorização ambiental, conforme interpretação do art. 17, § 3º, da LC 140/2011 pelo STF na ADI 4.757/DF. STJ. 1ª Turma. AgInt no AREsp 1.624.736-MS, Rel. Min. Sérgio Kukina, julgado em 2/12/2024 (Info 22 - Edição Extraordinária). O rancho de pesca de uso privado, construído irregularmente em APP, não se enquadra nas exceções previstas no art. 61-A do Código Florestal (não é turismo rural / ecoturismo) Caso adaptado: João construiu um rancho de pesca em uma Área de Preservação Permanente (APP), sem autorização ambiental e suprimindo vegetação nativa, o que é proibido por lei. O Ministério Público ingressou com ação civil pública, pedindo a demolição do imóvel, a recuperação da área degradada e indenização pelos danos ambientais. João alegou que o rancho era para lazer privado e se enquadrava nas exceções do art. 61-A do Código Florestal, que permite atividades de turismo rural e ecoturismo em APPs. O STJ, contudo, rejeitou os argumentos de João, afirmando que o rancho de uso privado não pode ser considerado turismo rural ou ecoturismo considerando que as atividades turísticas, para serem assim consideradas, “devem gerar movimentação econômica, trabalho, emprego, renda e receitas públicas, constituindo-se instrumento de desenvolvimento econômico e social, promoção e diversidade cultural e preservação da biodiversidade” (art. 2º, parágrafo único, da Lei nº 11.771/2008). STJ. 2ª Turma. AgInt no REsp 1.884.722-MS, Rel. Min. Afrânio Vilela, julgado em 26/8/2024 (Info 22 - Edição Extraordinária). https://www.buscadordizerodireito.com.br/assinatura/dodpedia JULGADOS EM DESTAQUE 10 O sítio eletrônico pode ser responsabilizado por infração ambiental relacionada à venda de animais silvestres quando atuar como provedor que intermedia negócios, e não apenas na busca de informações Caso adaptado: uma empresa que administrava um site de classificados online foi autuada pelo IBAMA por permitir a divulgação de anúncios de venda de animais silvestres ameaçados de extinção. A empresa ajuizou ação anulatória contra o IBAMA alegando ausência de responsabilidade direta e fundamentando-se no Marco Civil da Internet, que prevê responsabilidade subjetiva e subsidiária para provedores de serviços. O STJ manteve a autuação, considerando que a empresa, ao intermediar negócios, deveria adotar medidas para impedir a venda ilegal de animais silvestres. O Marco Civil da Internet não poderia ser aplicado retroativamente, pois o auto de infração foi lavrado antes da vigência da lei. Dessa forma, a penalidade impostapelo IBAMA foi considerada válida e legal. STJ. 2ª Turma. AREsp 2.151.722-SP, Rel. Min. Francisco Falcão, julgado em 4/2/2025 (Info 839). DIREITO NOTARIAL E REGISTRAL A legislação brasileira preserva a nomeação do notário ou oficial de registros para o cargo, mas não garante que o nomeado seja mantido no mesmo cartório, podendo haver mudanças em sua lotação, por meio da anexação, desanexação ou desmembramento Caso adaptado: João foi aprovado em concurso público e assumiu a titularidade de um cartório que acumulava múltiplas serventias, incluindo Tabelionato de Protesto de Títulos, Registro de Imóveis, Registro Civil das Pessoas Naturais, Registro Civil das Pessoas Jurídicas e Registro de Títulos e Documentos. Anos depois, a Lei estadual determinou a desanexação do Tabelionato de Protesto de Títulos, transferindo-o para o Tabelionato de Notas do mesmo município. Insatisfeito com a situação, João impetrou mandado de segurança alegando violação de seu direito líquido e certo à titularidade do cartório em sua configuração original. Ao analisar um recurso contra o acórdão do TJ, o STJ negou o pedido de João, baseando-se em uma interpretação transversa da Súmula 46 do STF, para concluir que o desmembramento de serventia não viola o princípio da vitaliciedade. A decisão fundamentou-se na Lei nº 8.935/94, que proíbe a cumulação de serviços notariais e de registros públicos, exceto em municípios que não comportem mais de um serviço, bem como na Constituição Federal, que prevê o exercício dos serviços notariais em caráter privado por delegação do Poder Público. Assim, embora seja preservada a nomeação do notário para o cargo, não há garantia de manutenção no mesmo cartório, sendo possível a alteração de sua lotação através de anexação, desanexação ou desmembramento. STJ. 2ª Turma. AgInt no RMS 71.477-RS, Rel. Min. Francisco Falcão, julgado em 13/8/2024 (Info 22 - Edição Extraordinária). JULGADOS EM DESTAQUE 11 DIREITO CIVIL É impenhorável o imóvel residencial caracterizado como bem de família em sua integralidade, impedindo sua alienação em hasta pública, salvo se se tratar de imóvel suscetível de divisão Caso hipotético: João e Regina eram casados e possuíam um imóvel residencial como único bem, que foi parcialmente herdado pelos filhos Pedro, Ana e Carla após a morte de Regina em 2010. Com o falecimento de João em 2016, que deixou dívidas tributárias, o Estado penhorou o imóvel no processo de inventário. Os herdeiros argumentaram que o imóvel era bem de família, protegido pela Lei nº 8.009/90, mas o TJ reconheceu a impenhorabilidade apenas para a fração de Carla, que ainda residia no imóvel, permitindo a penhora das partes de Pedro e Ana, que não mais viviam lá. Os herdeiros recorreram ao STJ, alegando que o imóvel, por ser indivisível e o único bem da família, deveria ser protegido integralmente pela impenhorabilidade, incluindo a parte herdada de Regina. O STJ acolheu os argumentos, afirmando que, conforme a Lei nº 8.009/90 e o art. 843 do CPC/2015, a proteção da impenhorabilidade abrange o bem como um todo, independentemente da residência dos coproprietários, assegurando o direito de moradia e impedindo a alienação do imóvel em hasta pública, salvo se este for divisível. O imóvel residencial caracterizado como bem de família é impenhorável em sua integralidade, mesmo que uma parte pertença ao executado. STJ. 1ª Turma. REsp 1.861.107-RS, Rel. Min. Paulo Sérgio Domingues, julgado em 10/12/2024 (Info 22 - Edição Extraordinária). A propositura da ação revisional pelo devedor interrompe o prazo prescricional para o ajuizamento de execução pelo credor A interrupção da prescrição ocorre não apenas com a ação executiva, mas também com qualquer manifestação que demonstre a defesa do crédito representado pelo título executivo. Dessa forma, a atuação do credor, mesmo que de forma defensiva em ações impugnativas promovidas pelo devedor, afasta sua inércia na busca pelo recebimento do crédito. Aplica-se a interrupção do prazo prescricional, nos termos do art. 202, I, do Código Civil, ainda que a judicialização da relação jurídica tenha sido provocada pelo devedor. Art. 202. A interrupção da prescrição, que somente poderá ocorrer uma vez, dar-se-á: I - por despacho do juiz, mesmo incompetente, que ordenar a citação, se o interessado a promover no prazo e na forma da lei processual; STJ. 3ª Turma. REsp 1956817-MS, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, julgado em 14/06/2022 (Info 743). STJ. 4ª Turma. AgInt no AREsp 2.396.880-SP, Rel. Min. Marco Buzzi, julgado em 18/11/2024 (Info 23 - Edição Extraordinária). JULGADOS EM DESTAQUE 12 O termo inicial da prescrição da pretensão de reparação de danos causados por liminar concedida e posteriormente revogada é a data do trânsito em julgado da correspondente ação de conhecimento Caso hipotético: João construiu um segundo piso em sua casa. Pedro, seu vizinho, ingressou com ação de nunciação de obra nova, alegando que as janelas da construção violavam sua privacidade. O juiz concedeu liminar determinando a paralisação da obra e a remoção das janelas, causando prejuízos a João. Em 2010, a sentença confirmou a liminar, mas João recorreu, e o Tribunal de Justiça reformou a decisão em 2012, permitindo a retomada da obra. Pedro recorreu ao STJ, mas seu recurso não foi aceito, com o trânsito em julgado em 2015. Em 2017, João ingressou com ação de indenização pelos danos sofridos devido à paralisação da obra. O juiz entendeu que o pedido estava prescrito, pois o prazo de três anos teria começado em 2012, quando a obra foi retomada. O STJ, contudo, não concordou com esse raciocínio. Par o STJ, o prazo prescricional se iniciou apenas com o trânsito em julgado da ação que concedeu e depois revogou a liminar, ou seja, em 2015. Assim, a pretensão de João ainda estaria dentro do prazo prescricional. STJ. 4ª Turma. AgInt no AREsp 1.725.366-SP, Rel. Min. João Otávio de Noronha, julgado em 23/9/2024 (Info 23 - Edição Extraordinária). O reconhecimento da proteção do bem de família em relação à meação da esposa, que sequer é devedora na ação principal, se estende à totalidade do bem, visto que objetiva resguardar a família contra o desabrigo e não apenas prevenir o perdimento de bens da meeira Caso hipotético: João e Regina, casados e com dois filhos, moravam em sua única casa quando. Em 2022, João contraiu uma dívida com Paulo e não pagou. O credor ajuizou ação de cobrança. Após ser citado, João doou a casa para os filhos, mantendo o usufruto. Paulo descobriu a doação, alegou fraude à execução e conseguiu penhorar a parte do imóvel pertencente a João (50%). Regina, que não era devedora, ingressou com embargos de terceiro alegando que o imóvel era impenhorável por ser bem de família e pediu a desconstituição da penhora, argumentando que a doação com reserva de usufruto não configurou má-fé, pois manteve a destinação do bem como moradia familiar. Os argumentos de Regina foram acolhidos pelo STJ, que entendeu que a proteção do bem de família se estende à totalidade do imóvel, mesmo havendo fraude à execução, desde que continue sendo utilizado como residência familiar. O tribunal fundamentou que a alienação de bem de família só pode ser considerada fraudulenta se houver alteração em sua destinação original ou desvio do proveito econômico em prejuízo do credor, o que não ocorreu no caso, já que o imóvel permaneceu como moradia da família. STJ. 3ª Turma. EDcl no AgInt no AREsp 2.244.832-SP, Rel. Min. Humberto Martins, julgado em 23/9/2024 (Info 23 - Edição Extraordinária). JULGADOS EM DESTAQUE 13 O fato de o imóvel não ter sido financiado pelo SFH não impede a aplicação da Súmula 308 do STJ O fato de o compromisso de compra e venda de imóvel residencial não ser regulado pelas normas do Sistema Financeiro da Habitação (SFH) não afasta a incidência da Súmula 308 do STJ. Súmula 308 do STJ: A hipoteca firmada entre a construtora e o agente financeiro, anterior ou posterior à celebraçãoda promessa de compra e venda, não tem eficácia perante os adquirentes do imóvel. STJ. 3ª Turma. AgInt nos EDcl no REsp 1.992.417-AL, Rel. Min. Humberto Martins, julgado em 21/10/2024 (Info 23 - Edição Extraordinária). A taxa de administração a ser deduzida do valor que será devolvido ao consorciado desistente incide sobre as parcelas efetivamente pagas, e não sobre o valor total do contrato A taxa de administração a ser deduzida do valor que será devolvido ao consorciado desistente incide sobre as parcelas efetivamente pagas, e não sobre o valor total do contrato. Caso hipotético: Carlos aderiu a um consórcio administrado pela empresa ALFA para aquisição de um veículo no valor de R$ 50.000,00, com pagamento parcelado em 50 vezes de R$ 1.000,00. Após quitar 10 parcelas (R$ 10.000,00), desistiu do consórcio por dificuldades financeiras. A administradora aplicou uma taxa de administração de 15% e uma multa de 10% sobre o valor total do contrato (R$ 50.000,00), totalizando R$ 12.500,00, alegando que Carlos ainda devia R$ 2.500,00. Inconformado, Carlos ajuizou ação contra a administrador alegando que as deduções deveriam incidir apenas sobre os valores pagos. O STJ deu razão a Carlos. A taxa de administração e a multa devem ser calculadas apenas sobre as parcelas efetivamente quitadas, evitando enriquecimento sem causa da administradora. STJ. 4ª Turma. AgInt no AREsp 2.267.326-PR, Rel. Min. João Otávio de Noronha, julgado em 4/12/2024 (Info 23 - Edição Extraordinária). As Convenções de Varsóvia e Montreal são aplicadas às hipóteses de danos materiais decorrentes de contrato de transporte aéreo internacional de cargas e mercadorias Tese fixada pelo STF: 1. A pretensão indenizatória por danos materiais em transporte aéreo internacional está sujeita aos limites previstos em normas e tratados internacionais firmados pelo Brasil, em especial as Convenções de Varsóvia e de Montreal; 2. É infraconstitucional e fática a controvérsia sobre o afastamento da limitação à pretensão indenizatória quando a transportadora tem conhecimento do valor da carga ou age com dolo ou culpa grave. STF. Plenário. RE 1.520.841/SP, Rel. Min. Luís Roberto Barroso, julgado em 04/02/2025 (Repercussão Geral – Tema 1.366) (Info 1164). JULGADOS EM DESTAQUE 14 Quando um contrato de cessão de direitos autorais foi celebrado antes da vigência da Lei 9.610/1998, a limitação estabelecida em seu art. 49, V - que restringe a cessão apenas às modalidades de utilização existentes à data do contrato - não pode ser aplicada retroativamente Caso adaptado: Roberto Carlos e Erasmo Carlos, ícones da música brasileira, assinaram contratos entre 1964 e 1987 com uma editora musical, fazendo a cessão dos direitos patrimoniais de suas composições. Em 2020, a editora musical começou a explorar comercialmente essas músicas cedidas em plataformas de streaming (ex: Spotify). Os compositores ingressaram com ação contra a editora, alegando, dentre outros argumentos, que, segundo o art. 49, V, da Lei nº 9.610/1998 (Lei de Direitos Autorais), a cessão de direitos só se aplica às modalidades de utilização existentes na data do contrato, e como o streaming não existia na época, seria necessária uma nova autorização: Art. 49. (...) V - a cessão só se operará para modalidades de utilização já existentes à data do contrato; O STJ, porém, julgou o pedido improcedente porque entendeu que o art. 49, V, da Lei nº 9.610/1998 não poderia ser aplicado no caso concreto. De acordo com a atual Lei de direitos autorais (Lei nº 9.610/1998), para a utilização das obras musicais via internet (tecnologia streaming) é necessária autorização específica do titular dos direitos de autor. Ocorre que essa proteção específica conferida aos autores (art. 49, V) não estava presente no ordenamento jurídico anteriormente à edição da Lei nº 9.610/1998. Antes da Lei nº 9.610/1998 se o compositor de uma música assinasse um contrato de cessão de direitos autorais, essa cessão abrangia também as modalidades de utilização que viessem a surgir após a data do contrato. O art. 49, V, da Lei nº 9.610/1998 somente pode ser aplicado para contratos celebrados depois de sua vigência. Como no momento da celebração dos contratos, não existia, no ordenamento jurídico, um dispositivo semelhante ao art. 49, V, da Lei nº 9.610/1998, entende-se que os autores, ao cederem seus direitos autorais, autorizaram que a editora explorasse essas obras em outras tecnologias que viriam a surgir depois, como é o caso do streaming. STJ. 3ª Turma. REsp 2.029.976-SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 12/11/2024 (Info 23 - Edição Extraordinária). JULGADOS EM DESTAQUE 15 A dívida oriunda do FIES possui natureza personalíssima e não deve ser objeto de partilha por ocasião da dissolução do vínculo conjugal ou convivencial Caso hipotético: João e Regina mantiveram uma união estável. Neste período, João contratou um financiamento estudantil (FIES) para custear seus estudos. Tempos depois, Regina ajuizou ação para dissolução da união e partilha de bens. João pediu que o financiamento contraído durante a união estável também fosse partilhado, ou seja, que Regina tivesse que pagar metade do saldo devedor. O STJ não concordou com os argumentos de João. A dívida do FIES possui natureza personalíssima, pois o benefício do financiamento é direcionado exclusivamente ao cônjuge que realizou o curso. O conhecimento adquirido não é um bem partilhável, pois não gera um retorno direto e concreto para a entidade familiar, mas apenas uma expectativa de benefício futuro e incerto. Assim, a dívida oriunda do FIES não deve ser incluída na partilha em casos de divórcio ou dissolução de união estável, pois se trata de um investimento individual, cujo retorno profissional e pessoal beneficia exclusivamente quem contraiu o financiamento. STJ. 3ª Turma. REsp 2.062.166-RS, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 5/11/2024 (Info 23 - Edição Extraordinária). A pretensão relacionada à partilha de bens em situação de violência doméstica e familiar exclui-se da competência dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a mulher Caso hipotético: João e Regina se divorciaram em 2015 sem definir a partilha de bens. Em 2018, João ingressou com ação na Vara de Família para dividir os bens adquiridos no casamento. Durante o processo, Regina registrou um boletim de ocorrência contra João por ameaças para que ela abrisse mão de alguns bens. A juíza da Vara de Violência Doméstica deferiu medidas protetivas em favor de Regina. Ao tomar conhecimento dessas medidas, o juiz da Vara de Família declinou a competência para julgar a ação de partilha para a Vara de Violência Doméstica. O STJ afirmou que essa decisão declinatória não foi correta. De acordo com o art. 14-A da Lei Maria da Penha, a vítima pode optar por ajuizar ação de divórcio ou dissolução de união estável na Vara de Violência Doméstica, mas a partilha de bens deve obrigatoriamente ser decidida pela Vara de Família, conforme prevê expressamente o § 1º desse artigo. Assim, a competência para julgar a divisão dos bens continua sendo da Vara de Família. STJ. 4ª Turma. REsp 2.106.115-BA, Rel. Min. Maria Isabel Gallotti, julgado em 10/12/2024 (Info 23 - Edição Extraordinária). JULGADOS EM DESTAQUE 16 Se o pedido de divórcio não for apreciado e a parte autora falecer durante o processo, o reconhecimento da dissolução do vínculo poderá ser realizado postumamente Caso hipotético: João e Regina se casaram em 2016 e se separaram de fato em 2018. Em 2020, João, diagnosticado com câncer em estágio avançado, ingressou com ação de divórcio. O juiz negou o pedido de divórcio liminar que havia sido formulado pelo autor. Ele interpôs agravo de instrumento e o Desembargador Relator deferiu a antecipação da tutela recursal em agosto de 2020 para decretar o divórcio provisoriamente. João, no entanto, faleceu antes do julgamento definitivo do agravo de instrumento. Diante disso, o TJ revogou a decisãoliminar que havia concedido o divórcio e extinguiu o processo sem resolução do mérito, sob o argumento de que o divórcio é um direito personalíssimo e, portanto, a ação não poderia prosseguir após a morte do autor. O STJ, ao analisar o caso, divergiu do entendimento do Tribunal de Justiça. A decisão baseou-se na EC 66/2010, que transformou o divórcio em um direito potestativo, dispensando qualquer requisito prévio para o fim do casamento, bastando apenas a vontade de um dos cônjuges. A manifestação de vontade é suficiente para produzir efeitos, independentemente do falecimento posterior de uma das partes. STJ. 3ª Turma. REsp 2.154.062-RJ, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, julgado em 27/8/2024 (Info 23 - Edição Extraordinária). Compete à Justiça comum, e não à Justiça do Trabalho, julgar demanda ajuizada por motorista de aplicativo em face da empresa gestora de plataforma digital, tendo em vista a relação de natureza civil existente entre as partes A relação entre o motorista e a plataforma digital (ex: Uber) é de natureza civil. Isso porque não estão presentes os requisitos caracterizadores da relação de emprego, dentre eles a não eventualidade e a subordinação. A plataforma digital atua apenas como intermediadora da contratação entre motorista e consumidor, configurando prestação de serviço autônomo no contexto da gig economy e da economia compartilhada. No caso concreto, o autor (ex-motorista da Uber) ingressou com ação de indenização por ter sido excluído da plataforma. Neste caso, a competência para julgamento da demanda é da Justiça Comum estadual considerando que a pretensão possui natureza eminentemente civil, conforme o pedido e a causa de pedir. STJ. 3ª Turma. REsp 2.144.902-MG, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, julgado em 3/12/2024 (Info 838). JULGADOS EM DESTAQUE 17 Se um estrangeiro sem domicílio no Brasil ingressa com investigação de paternidade: a justiça brasileira não tem competência; mas se esse mesmo estrangeiro ajuíza petição de herança: a justiça brasileira pode julgar e, ao fazer isso, pode analisar a paternidade como fundamento O pedido de investigação de paternidade feito por estrangeiro não domiciliado no Brasil encontra-se fora dos limites da jurisdição nacional. Contudo é possível o julgamento de petição de herança pela autoridade judiciária brasileira, discutindo-se, na causa de pedir, a efetiva paternidade do falecido e a violação do direito hereditário. 1) Para o pedido de investigação de paternidade: a justiça brasileira não é competente. O art. 7º da LINDB estabelece que a lei do país do domicílio da pessoa determina as regras sobre direitos de família. O caput do art. 12 da LINDB, por sua vez, diz que a justiça brasileira é competente quando o réu é domiciliado no Brasil. 2) Para o pedido de petição de herança: a justiça brasileira é competente, mas apenas para os bens localizados no Brasil. O art. 23, II, do CPC/2015 estabelece competência exclusiva da autoridade brasileira para inventário e partilha de bens situados no Brasil. Vale ressaltar que, mesmo não tendo competência para julgar a investigação de paternidade, a Justiça brasileira pode analisar a questão da paternidade como causa de pedir dentro do processo de petição de herança dos bens localizados no Brasil. STJ. 3ª Turma. REsp 2.030.897-DF, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado em 20/8/2024 (Info 23 - Edição Extraordinária). O valor nominal, constante de escritura pública, não é suficiente, por si só, para quantificar o valor do bem herdado, no caso de transferência de título de crédito por sucessão Caso hipotético: João vendeu mercadorias para a empresa Alfa e recebeu como pagamento uma nota promissória de R$ 600.000,00. Após seu falecimento, seus filhos Pedro e Letícia herdaram o título em partes iguais através de inventário extrajudicial. O Banco Delta, credor de João no valor de R$ 400.000,00, executou os herdeiros e conseguiu a penhora de suas contas bancárias, baseando-se no valor registrado no inventário. Os herdeiros recorreram da decisão argumentando que, embora a nota promissória tivesse valor nominal de R$ 600.000,00, seu valor real era muito inferior, pois a empresa Alfa havia pedido falência e as chances de recebimento eram mínimas. Alegaram que a penhora de suas contas bancárias os forçaria a pagar a dívida do pai com seu patrimônio pessoal. O STJ concordou com os herdeiros e decidiu que, embora a nota promissória integre a herança como bem móvel, seu valor nominal registrado na escritura pública não é suficiente para quantificar o valor real do bem herdado. Diante disso, o STJ determinou que a penhora deve respeitar o valor real de mercado do título e depender da liquidação do crédito no processo falimentar, evitando que a responsabilidade dos herdeiros ultrapasse os limites da herança. STJ. 3ª Turma. REsp 2.168.268-SC, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, julgado em 3/12/2024 (Info 838). JULGADOS EM DESTAQUE 18 A lei brasileira não tem aplicação em relação à sucessão dos bens no exterior, inclusive para fins de eventual compensação de legítimas Caso hipotético: João, empresário brasileiro falecido em 2020, deixou patrimônio no Brasil (R$ 300 milhões) e nas Ilhas Virgens Britânicas (empresa offshore). Dois de seus filhos exigiram que Regina, a viúva e inventariante, apresentasse documentos relacionados aos bens no exterior para garantir seus direitos à legítima, pedido que foi negado pelo juiz e mantido pelo Tribunal de Justiça. O caso chegou ao STJ, que manteve as decisões anteriores, reafirmando o princípio da pluralidade dos juízos sucessórios. Este princípio estabelece que cada país tem competência exclusiva para processar a sucessão dos bens situados em seu território, conforme previsto no CPC/2015 e na LINDB. A lei brasileira não tem aplicação em relação à sucessão dos bens no exterior, nem mesmo para fins de compensação de legítimas. Esta posição respeita a soberania dos países e reconhece que a manutenção de patrimônio em outros países pode fazer parte de um planejamento sucessório válido, sendo uma manifestação da autonomia privada sobre a administração dos bens. A competência da jurisdição brasileira limita-se ao inventário e partilha de bens localizados no Brasil, ainda que o autor da herança seja estrangeiro ou domiciliado no exterior. Em relação a bens situados fora do país, aplica-se a lex rei sitae, devendo a sucessão ser regida pela legislação do local onde os bens estão situados. Dessa forma, não cabe ao juízo brasileiro determinar a compensação de legítimas com base em bens no exterior. STJ. 3ª Turma. REsp 2.080.842-SP, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado em 27/8/2024 (Info 23 - Edição Extraordinária). Mesmo em caso de vazamento de dados pessoais não sensíveis decorrentes de ataque hacker, o agente de tratamento de dados permanece sujeito às obrigações previstas no art. 19, II, da LGPD A empresa enquadrada como agente de tratamento de dados tem o dever legal de adotar todas as medidas de segurança necessárias para proteger as informações dos titulares, garantindo conformidade com a LGPD, boas práticas e governança. O tratamento de dados é considerado irregular quando não atende à expectativa de legítima proteção do titular, levando em conta as técnicas disponíveis à época do tratamento. A excludente de responsabilidade prevista no art. 43, III, da LGPD não se aplica quando o agente de tratamento não comprova que o vazamento decorreu exclusivamente de incidente de segurança causado por terceiro. Diante da falha na proteção dos dados, é cabível a condenação do agente de tratamento na obrigação de fornecer informações completas ao titular sobre o uso, origem, finalidade e compartilhamento de seus dados. É passível a imputação das obrigações previstas no art. 19, II, da Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD), ao agente de tratamento de dados, na ocasião de vazamento de dados pessoais não sensíveis do titular, decorrente de atividade alegadamenteilícita (ataque hacker). STJ. 3ª Turma. REsp 2.147.374-SP, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, julgado em 3/12/2024 (Info 838). JULGADOS EM DESTAQUE 19 O WhatsApp responde solidariamente quando, instado a cumprir ordem de remoção de conteúdo relacionado a imagens íntimas compartilhadas sem autorização (pornografia de vingança), não toma providências para mitigar o dano O provedor de aplicativos de internet responde solidariamente por conteúdo gerado por terceiros quando, mesmo instado a adotar medidas de eliminação ou mitigação do dano, permanece inerte. No âmbito da mensageria privada (ex: WhatsApp), a proteção das vítimas de pornografia de vingança deve ser compatibilizada com a ordem de remoção de conteúdo prevista no Marco Civil da Internet. A alegação de impossibilidade técnica para cumprimento da ordem judicial deve ser analisada com ceticismo quando não houver exame pericial que ateste a inviabilidade da remoção do conteúdo. A adoção de medidas técnicas equivalentes para mitigar o dano, como a suspensão ou banimento cautelar das contas dos infratores identificados, é possível e necessária quando o provedor alega impossibilidade de remoção direta do conteúdo. Não é razoável deixar vítimas de pornografia de vingança (especialmente se menores de idade) à mercê do “paradoxo da segurança digital” - quanto mais segura for a técnica de compartilhamento de conteúdo infrator, mais inseguras estão as vítimas dos abusos perpetrados por usuários que utilizam a robustez do sistema de mensageria privada para fins ilícitos. STJ. 3ª Turma. REsp 2.172.296-RJ, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 4/2/2025 (Info 839). DIREITO DO CONSUMIDOR A falta de peças de reposição de veículo adquirido 0km, lançado há pouco tempo no mercado nacional, caracteriza vício do produto, ensejando para o consumidor a possibilidade de restituição da quantia paga Nos termos do art. 18 do CDC, há vício do produto quando há desconformidade de qualidade ou quantidade que o torne impróprio ou inadequado para o uso. O consumidor que adquire um veículo novo tem a legítima expectativa de encontrar peças de reposição para garantir seu conserto em caso de avaria. A falta dessas peças compromete o uso do veículo e configura vício do produto, permitindo ao consumidor optar pela: • substituição do bem; • restituição do valor pago; ou • abatimento proporcional do preço, nos termos do art. 18, § 1º, do CDC. STJ. 3ª Turma. REsp 2.149.058-SP, Rel. Min. Moura Ribeiro, julgado em 10/12/2024 (Info 23 - Edição Extraordinária). JULGADOS EM DESTAQUE 20 Admite-se a revisão da taxa de juros remuneratórios excepcionalmente, quando ficar caracterizada a relação de consumo e a abusividade for devidamente demonstrada diante das peculiaridades do caso concreto Para a revisão das taxas de juros remuneratórios, é necessário que: a) fique caracterizada a relação de consumo; b) a abusividade da taxa pactuada seja demonstrada e capaz de colocar o consumidor em desvantagem exagerada; e c) a análise considere as peculiaridades do caso concreto, como a situação econômica da época da contratação, o custo da captação dos recursos, os riscos envolvidos na operação e as garantias oferecidas. A taxa de juros pactuada acima da média de mercado, por si só, não caracteriza abusividade. Para sua limitação, devem ser considerados fatores como custo de captação de recursos, spread da operação, análise de risco do contratante, além da existência de desvantagem excessiva ao consumidor. O reconhecimento da ilegalidade das taxas de juros pactuadas deve levar em conta não apenas a diferença em relação à taxa média de mercado (superior a 50%), mas também as particularidades do caso analisado. STJ. 4ª Turma. AgInt no AREsp 2.608.935-RS, Rel. Min. Marco Buzzi, julgado em 4/11/2024 (Info 23 - Edição Extraordinária). A anotação irregular em cadastro de proteção ao crédito que antecede a inscrição legítima caracteriza dano moral in re ipsa Em regra, a inscrição indevida do consumidor em cadastro de inadimplentes gera dano moral in re ipsa (com prejuízo presumido; não exige prova do dano moral). No entanto, existe uma exceção importante: a Súmula 385 do STJ estabelece que não cabe indenização quando o consumidor foi inscrito indevidamente no cadastro, mas antes disso já existe uma outra inscrição legítima. Súmula 385-STJ: Da anotação irregular em cadastro de proteção ao crédito, não cabe indenização por dano moral, quando preexistente legítima inscrição, ressalvado o direito ao cancelamento. E quando existe uma inscrição legítima posterior à inscrição indevida? O consumidor teria direito à indenização? Sim. Situação 1: João tem uma inscrição legítima em janeiro (deve realmente uma dívida) e sofre uma inscrição indevida em março: ele não terá direito a danos morais, pois sua reputação já estava abalada quando a inscrição indevida ocorreu (aplicação da Súmula 385 do STJ). Situação 2: Regina sofreu uma inscrição indevida em janeiro (não devia nada) e depois, em março, teve seu nome inscrito legitimamente por uma dívida real: ela tem direito à indenização pela inscrição indevida de janeiro, pois no momento em que esta ocorreu sua reputação estava hígida. O que aconteceu depois não tem o poder de apagar o dano moral já configurado. STJ. 3ª Turma. REsp 2.160.941-SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 5/11/2024 (Info 23 - Edição Extraordinária). JULGADOS EM DESTAQUE 21 Considera-se abusiva a negativa, pela operadora de plano de saúde, de cobertura de medicamento antineoplásico oral indicado para o tratamento contra o câncer Caso hipotético: Regina, beneficiária de um plano de saúde, foi diagnosticada com câncer de mama e teve prescrito pelo seu médico o medicamento Abemaciclibe 150mg, um antineoplásico oral registrado na Anvisa, além da quimioterapia. No entanto, a operadora do plano de saúde negou a cobertura do medicamento, alegando que ele só seria indicado para câncer metastático como tratamento paliativo, enquanto autorizou a quimioterapia. A negativa da operadora foi considerada abusiva, pois, segundo o STJ, os planos de saúde não podem recusar a cobertura de tratamentos essenciais para o câncer, especialmente quando registrados na Anvisa e prescritos pelo médico responsável. Além disso, a função social dos contratos de planos de saúde deve garantir a assistência médica necessária, afastando interpretações que restrinjam o direito do consumidor. Independentemente de a ANS considerar seu rol de procedimentos taxativo ou não, os planos de saúde não podem recusar a cobertura de medicamentos oncológicos indispensáveis. STJ. 2ª Seção. AgInt nos EREsp 2.117.477-SP, Rel. Min. Marco Buzzi, julgado em 11/12/2024 (Info 23 - Edição Extraordinária). A bomba de insulina é um dispositivo médico (não é um medicamento); ela não pode ser excluída da cobertura dos planos de saúde, mesmo não estando no rol da ANS, desde que observados os parâmetros estabelecidos pela jurisprudência e pela Lei 14.454/2022 O sistema de infusão contínua de insulina é classificado como dispositivo médico e não pode ser excluído da cobertura dos planos de saúde. A cobertura do tratamento é obrigatória, mesmo não estando no rol da ANS, desde que observados os parâmetros estabelecidos pela jurisprudência e pela Lei nº 14.454/2022. STJ. 4ª Turma. REsp 2.162.963-RJ, Rel. Min. Antonio Carlos Ferreira, julgado em 17/12/2024 (Info 23 - Edição Extraordinária). A operadora do plano de saúde só pode cancelar o contrato por falta de pagamento se houver um atraso de mais de 60 dias; além disso, ela deve avisar o beneficiário até o 50º dia de atraso antes de encerrar o contrato A operadora de plano de saúde somente poderá suspender ou encerrar unilateralmente o vínculo contratual por inadimplência após o sexagésimo dia de atraso, e desde que tenha previamente notificado o beneficiário até o quinquagésimo dia da mora. STJ. 4ª Turma. AgInt no AREsp 2.477.912-SE, Rel. Min. Maria Isabel Gallotti, julgado em 9/9/2024 (Info 23- Edição Extraordinária). JULGADOS EM DESTAQUE 22 Em se tratando de cirurgia plástica estética não reparadora, caso o resultado seja desarmonioso, segundo o senso comum, presume-se a culpa do profissional e o dever de indenizar, ainda que não tenha sido verificada imperícia, negligência ou imprudência Em cirurgia plástica estética não reparadora, existe consenso na jurisprudência e na doutrina de que se trata de obrigação de resultado. A responsabilidade dos cirurgiões plásticos estéticos é subjetiva, havendo presunção de culpa, com inversão do ônus da prova. A inversão do ônus da prova autoriza que o médico faça prova de que o resultado alcançado foi satisfatório, segundo o senso comum, e não segundo critérios subjetivos de cada paciente. Em cirurgia plástica estética não reparadora, quando não verificada imperícia, negligência ou imprudência do médico, mas o resultado não agradar o paciente, somente se pode presumir a culpa do profissional se o resultado for desarmonioso, segundo o senso comum. STJ. 4ª Turma. REsp 2.173.636-MT, Rel. Min. Maria Isabel Gallotti, julgado em 10/12/2024 (Info 838). No contrato de compra e venda de imóvel é válida a cláusula contratual que transfere ao comprador os custos de instalações e ligações definitivas de serviços públicos, desde que tenha sido redigida com destaque Caso hipotético: João e Regina adquiriram um apartamento na planta da construtora Alfa. No contrato de compra e venda, havia uma cláusula que estabelecia que eles teriam que pagar pelas instalações e ligações definitivas dos serviços públicos (água, luz, esgoto etc.) quando o imóvel estivesse pronto. Essa cláusula, por ter sido redigida com destaque, foi considerada válida. É válida a cláusula contratual que transfere ao promitente comprador a obrigação de pagar pelos custos de instalações e ligações definitivas de serviços públicos em contratos de incorporação imobiliária, desde que redigida com destaque, ainda que sem quantificação exata do valor. A cobrança de valores desproporcionais pode ser questionada judicialmente caso ultrapasse o razoavelmente esperado na relação contratual. STJ. 3ª Turma. REsp 2.041.654-RS, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 10/12/2024 (Info 838). JULGADOS EM DESTAQUE 23 DIREITO EMPRESARIAL O sócio-administrador está impedido de votar em questões que o afetem diretamente, e suas cotas não contam para o quórum em deliberações sobre sua gestão ou permanência no cargo O sócio que está na condição de mandatário não pode votar matéria que lhe diga respeito diretamente, de modo que sua cota do capital social não deve ser incluída para fins de quórum de deliberação que envolva a sua administração, inclusive quando em discussão a sua permanência ou não no cargo de administrador. STJ. 2ª Turma. AREsp 2.462.266-RJ, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, julgado em 13/8/2024 (Info 22 - Edição Extraordinária). O Juízo da Execução Fiscal pode determinar a penhora de bens de empresa em recuperação judicial, mas deve comunicar ao Juízo da Recuperação, que avaliará se é necessário substituir a garantia; a alienação ou levantamento dos valores não pode ocorrer sem essa análise Imagine que a Fazenda Pública ingressou com execução fiscal contra empresa em recuperação judicial. O Juízo da execução fiscal pode determinar a penhora de bens dessa empresa? Sim. O juiz da execução fiscal pode determinar a penhora dos bens, no entanto: • não pode vender os bens penhorados; • não pode levantar dinheiro penhorado; Devendo comunicar a penhora ao juízo da recuperação judicial. Após ser comunicado, o juízo da recuperação judicial: • analisa se os bens penhorados são essenciais para a empresa continuar funcionando; • pode determinar a substituição da penhora por outros bens; • pode propor formas alternativas para pagar a dívida. Na prática, ocorre uma cooperação entre os dois juízos: • um juízo (da execução fiscal) identifica e penhora os bens; • outro juízo (da recuperação judicial) analisa se a penhora pode prejudicar a recuperação da empresa e propõe ajustes, se necessário. STJ. 1ª Turma. AgInt no AREsp 2.291.153-SP, Rel. Min. Benedito Gonçalves, julgado em 2/9/2024 (Info 22 - Edição Extraordinária). JULGADOS EM DESTAQUE 24 O CDI pode ser usado como índice de correção monetária nos contratos bancários O CDI pode ser usado em contratos bancários, não importando se é chamado de correção monetária ou juros (não importa o nomen iuris a ele conferido pelo contrato). Não há obstáculo legal à estipulação dos encargos financeiros em contratos bancários com base no índice flutuante CDI, acrescido de juros remuneratórios, sendo desimportante o nome atribuído a tal encargo (juros, correção monetária, correção remuneratória), cumprindo apenas verificar se a somatória dos encargos contratados não se revela abusiva, devendo eventual abuso ser observado caso a caso, em cotejo com as taxas médias de mercado regularmente divulgadas pelo Banco Central do Brasil para as operações de mesma espécie. Nos serviços que tenham por objeto a captação de recursos ou concessão de empréstimos pelas instituições financeiras, o CDI é índice flutuante adequado para medir a variação do custo da moeda. STJ. 3ª Turma. REsp 2.147.710/RJ, Rel. Min. Moura Ribeiro, julgado em 3/12/2024. STJ. 4ª Turma. AgInt nos EDcl no REsp 2.090.138/SP, Rel. Min. Raul Araújo, julgado em 2/12/2024. STJ. 4ª Turma. AgInt no AREsp 2.318.994-SC, Rel. Min. Marco Buzzi, Rel. para acórdão Min. Maria Isabel Gallotti, julgado em 27/8/2024 (Info 23 - Edição Extraordinária). O direito de opção de compra de ações (stock options) possui natureza personalíssima e só pode ser exercido pelo beneficiário que aderiu ao plano O direito de opção de compra (stock options) possui natureza de direito personalíssimo, pois a constituição do plano pela companhia outorga com exclusividade seus administradores, empregados e pessoas naturais prestadoras de serviço. O direito de stock options comporta exercício apenas pelo beneficiário que firmou o corresponde termo de adesão ao plano de opção de compra. STJ. 3ª Turma. REsp 1.841.466-SP, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, julgado em 5/11/2024 (Info 23 - Edição Extraordinária). BAIXE OUTROS MATERIAIS Informativos STF, Informativos STJ, Revisões e outros materiais exclusivos para download. Clique aqui e baixe. ÚLTIMOS MATERIAIS DO MÊS Revisão - concurso de Promotor de Justiça de São Paulo Teorias do Crime - Direito Penal (3ª Edição) https://www.buscadordizerodireito.com.br/download JULGADOS EM DESTAQUE 25 Para que o crédito não esteja sujeito à recuperação judicial, conforme prevê o art. 49, § 3º da Lei 11.101/2005, a cessão fiduciária de recebíveis exige mais do que a simples menção a créditos em borderô, pois isso não assegura a determinação necessária da garantia fiduciária Caso hipotético: a empresa Alfa obteve empréstimo bancário, oferecendo como garantia seus recebíveis futuros, especificando apenas que seriam todos os recebíveis que aparecerem no borderô eletrônico. A empresa entrou em recuperação judicial. O banco tentou exercer seu direito sobre a garantia (trava bancária), alegando que seu crédito não se sujeitaria à recuperação judicial com base no art. 49, §3º, da Lei nº 11.101/2005. O administrador judicial questionou a validade da garantia por ser muito genérica, já que os direitos creditórios não foram especificados claramente no contrato. O banco recorreu, mas o STJ decidiu que a mera menção aos créditos constantes em “borderô” não é suficiente para satisfazer os pressupostos da garantia fiduciária, pois não revela qualquer grau de determinação dos créditos. Embora o contrato de cessão fiduciária não precise identificar cada título individualmente, deve indicar ao menos a espécie dos créditos (como duplicatas, cheques, notas promissórias). Para fins de não sujeição do crédito à recuperação judicial, nos termos do art. 49, § 3º da Lei n. 11.101/2005, na cessão fiduciária de créditos recebíveis, a mera mençãoaos créditos que constarem em “borderô” não é suficiente para satisfazer os pressupostos da garantia fiduciária por não revelar qualquer grau de determinação. STJ. 3ª Turma. AgInt no EREsp 2.042.014-RJ, Rel. Min. Moura Ribeiro, julgado em 30/9/2024 (Info 23 - Edição Extraordinária). https://www.editorajuspodivm.com.br/vade-mecum-de-jurisprudencia-dizer-o-direito-20232 https://www.editorajuspodivm.com.br/sumulas-do-stf-e-do-stj-anotadas-e-organizadas-por-assuntos-2024-2-semestre JULGADOS EM DESTAQUE 26 ECA O habeas corpus não é meio adequado para impugnar decisão que negou a conversão de julgamento em diligência para estudo psicossocial O habeas corpus não é o meio adequado para discutir questões de direito de família, especialmente aquelas que envolvem guarda, adoção e destituição do poder familiar, uma vez que demandam análise aprofundada de provas. O habeas corpus não é meio adequado para impugnar decisão que determina colocação de criança em família substituta quando já iniciado o estágio de convivência para adoção, por não haver ameaça à liberdade de locomoção. A notória inviabilidade de manutenção do poder familiar autoriza o início do procedimento de adoção antes do trânsito em julgado da sentença de destituição. O princípio da prioridade da família natural sofre flexibilização conforme o caso concreto, devendo ser observado sempre o melhor interesse da criança. Não é recomendável nova alteração de lar de convivência quando a criança já se encontra há tempo razoável com a família substituta, evitando-se rompimentos de vínculos afetivos. STJ. 3ª Turma. HC 920.220-SC, Rel. Min. Moura Ribeiro, julgado em 12/11/2024 (Info 23 - Edição Extraordinária). DIREITO PROCESSUAL CIVIL Compete às Turmas da Primeira Seção (direito público) julgar recurso especial em execução de transação penal, quando a questão principal envolver matéria ambiental e administrativa, mesmo que a obrigação derive da transação penal Compete às Turmas da Primeira Seção o processamento e julgamento de recursos especiais interpostos no âmbito de execução de acordo celebrado em transação penal, quando a matéria principal a ser discutida é de natureza ambiental e administrativa, ainda que a obrigação decorra de transação penal. STJ. Corte Especial. CC 204.530-DF, Rel. Min. Raul Araújo, julgado em 7/8/2024 (Info 22 - Edição Extraordinária). JULGADOS EM DESTAQUE 27 Se a ação tramitou no Juizado da Infância, a execução dos honorários pela Defensoria Pública, que fez a assistência jurídica da parte autora, também será nessa vara especializada, salvo se a exequente escolher outro juízo O cumprimento de sentença, mesmo que referente exclusivamente a honorários, processar-se-á perante o juízo que decidiu a causa no primeiro grau de jurisdição, ainda que o feito no qual foi proferida a sentença em que fixada a verba honorária tenha tramitado perante juízo de vara especializada, salvo se outro for o juízo escolhido pelo exequente. STJ. 1ª Turma. REsp 1.859.295-MG, Rel. Min. Sérgio Kukina, julgado em 26/05/2020 (Info 673). STJ. 2ª Turma. REsp 2.138.914-MS, Rel. Min. Afrânio Vilela, julgado em 26/11/2024 (Info 22 - Edição Extraordinária). A alteração do estatuto social, ampliando a categoria defendida por associação, após o ajuizamento de demanda coletiva e a prolação da sentença, não modifica os limites subjetivos da coisa julgada para que os novos substituídos possam se beneficiar do título executivo Caso hipotético: em 2004, a ANFIP impetrou Mandado de Segurança Coletivo para garantir que os Auditores Fiscais da Previdência Social aposentados recebessem a gratificação GIFA em paridade com os servidores ativos. Em 2006, o juízo prolatou sentença favorável aos substituídos, ou seja, os Auditores da Previdência Social. A União recorreu. Em 2007, houve a unificação das carreiras de Auditor Fiscal da Previdência Social e Auditor Fiscal da Receita Federal, criando o cargo de Auditor Fiscal da Receita Federal do Brasil (AFRFB). Com isso, a ANFIP alterou seus estatutos para representar a nova carreira unificada. Em 2013, a sentença do MS transitou em julgado. Anos depois, Regina, Auditora Fiscal da Receita Federal aposentada, tentou executar a sentença coletiva, mas a União alegou que ela não era parte do grupo originalmente substituído pela ANFIP em 2004, argumento aceito pelas instâncias inferiores. O STJ reafirmou que os limites subjetivos da coisa julgada são determinados pela demanda inicial, ou seja, apenas os Auditores Fiscais da Previdência Social substituídos em 2004 foram beneficiados pela decisão. A unificação das carreiras em 2007 e a alteração dos estatutos da ANFIP não alteraram os beneficiários do título executivo, pois tal mudança posterior não tem o poder de ampliar os efeitos da coisa julgada. Caso contrário, haveria insegurança jurídica, já que bastaria uma modificação estatutária para incluir novos substituídos. Assim, o STJ concluiu que Regina não pode se beneficiar da decisão coletiva. A sentença proferida em favor dos Auditores Fiscais da Previdência Social não abrange os Auditores Fiscais da Receita Federal e, portanto, os efeitos da coisa julgada permanecem restritos ao grupo originalmente representado pela ANFIP em 2004. STJ. 1ª Turma. REsp 1.907.010-DF, Rel. Min. Sérgio Kukina, julgado em 24/9/2024 (Info 22 - Edição Extraordinária). JULGADOS EM DESTAQUE 28 A coisa julgada em ação coletiva proposta por sindicato abrange toda a categoria profissional, não só filiados, podendo beneficiar também trabalhadores de outros sindicatos, desde que pertencentes à mesma categoria geral Caso adaptado: em 2005, o Sindicato dos Trabalhadores no Serviço Público do Estado do Maranhão (SINTSEP) ajuizou ação coletiva buscando benefício para os servidores. A sentença foi favorável e transitou em julgado. Regina, uma servidora pública estadual filiada a outro sindicato mais específico (sindicato dos servidores públicos da educação) ingressou com execução individual da sentença. O Estado do Maranhão se opôs, argumentando que ela não tinha direito por não ser filiada ao SINTSEP, pertencer a sindicato específico e não constar na listagem inicial. O STJ rejeitou os argumentos do Estado, baseando-se no entendimento do STF (RE 646.104/SP - Tema 488/RG) de que a unicidade sindical não pode impedir a execução individual de sentença obtida em favor de toda categoria. As regras trabalhistas sobre unicidade e especificidade sindical têm finalidade diferente das regras do processo civil coletivo. Não havendo delimitação expressa dos seus limites subjetivos, a coisa julgada advinda da ação coletiva proposta por sindicato deve alcançar todas as pessoas abrangidas pela categoria profissional, e não apenas pelos seus filiados, podendo, ainda, ser aproveitada por trabalhadores vinculados a outro ente sindical, desde que contidos no universo daquele mais abrangente. STJ. 2ª Turma. AgInt no AgInt no AgInt no AREsp 2.189.867-MA, Rel. Min. Teodoro Silva Santos, julgado em 8/8/2024 (Info 22 - Edição Extraordinária). Quando não houver filhos incapazes, o juízo competente para as ações de reconhecimento de união estável será aquele do último domicílio do casal (mesmo que um deles já tenha morrido) Caso hipotético: Regina e João viveram em união estável na cidade de Santos/SP. Eles não tiveram filhos. Em 2023, João faleceu. Sua única parente viva era sua mãe, Francisca, que morava em Belo Horizonte/MG. Após o falecimento, Regina decidiu ingressar com ação de reconhecimento de união estável post mortem. Essa ação deverá ser proposta em Santos/SP (último domicílio do casal) ou em Belo Horizonte/MG (domicílio da mãe de João, que seria ré na ação junto com o espólio)? Em Santos/SP (último domicílio do casal). Na ausência de filhos incapazes, a competência para processar e julgar ações de reconhecimento de união estável, inclusive quando proposta após o falecimento do convivente, é do juízo correspondente ao último domicílio do casal. Fundamento: CPC/Art.