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DIREITO CIVIL VI: DIREITOS REAIS Daniel Ustarroz Introdução aos direitos reais Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Definir direitos reais. Distinguir direitos reais de direitos pessoais. Caracterizar os direitos reais. Introdução Os direitos reais são estudados desde o Direito romano. Historicamente, eram vistos como o conjunto de direitos que o titular dispunha perante os bens. Mais recentemente — em especial, a partir da Constituição Federal de 1988 —, são estudados igualmente os deveres que brotam dessa mesma relação jurídica. Neste capítulo, você vai ler sobre a definição de direitos reais, as prin- cipais diferenças entre os direitos reais e os direitos pessoais e, por fim, as características dos direitos reais no sistema jurídico brasileiro. 1 Conceitos fundamentais Sob o ponto de vista histórico, os direitos reais são um dos ramos mais antigos. Estudado desde o Direito romano, ele pode ser conceituado como o conjunto de direitos e deveres oferecidos ao titular em razão de seu vínculo com um determinado bem (coisa). Historicamente, é corriqueiro o uso das expressões jus utendi, ius fruendi e jus abutendi para indicar o direito que o titular possui de utilizar o bem, perceber seus frutos e dispor da sua propriedade. Desde o Direito romano, a propriedade é vista como o direito real por excelência. Contudo, com o passar dos anos, novos direitos reais foram identificados para propiciar à sociedade a satisfação e a segurança jurídica diante de novas realidades. Segundo Silvio de Salvo Venosa (2018, p. 4): [...] o direito das coisas estuda precipuamente essa relação de senhoridade, de poder, de titularidade, esse direito subjetivo que liga a pessoa às coisas; o direito de propriedade, o mais amplo, o ápice do direito patrimonial, e os demais direitos reais, de menor extensão. Todos esses direitos, em seu maior ou menor âmbito, decorrentes de modalidade de direito subjetivo, dizem-se erga omnes, ou seja, devem ser respeitados por todos, perante todos, noção à qual retornaremos. A preposição erga não significa oposição ou confronto, como seria a palavra contra, também latina, mas dá a ideia de respeito perante todos. A noção de confronto não integra a compreensão do direito real. O confronto social ao direito de propriedade, e seus consectários, é patológico e excepcional; se, por hipótese, tornar-se regra, traduz um segmento social desajustado. Cabendo ao Estado e ao Direito corrigi-lo. Os direitos reais regulam as relações jurídicas relativas às coisas apropriáveis pelos sujeitos de direito. Essa noção psicológica de senhoria necessita de regulamentação jurídica para adequar a sociedade aos anseios e necessidades individuais. Como as coisas apropriáveis são finitas, cabe ao Es- tado regular sua apropriação e utilização. Relacionado com o conceito maior de propriedade, o direito real é o que mais recebe reflexos históricos e políticos nas diversas épocas e nos diversos Estados, isto é, altera-se no espaço e no tempo. Com efeito, no Brasil, uma das principais mudanças ocorreu com a Cons- tituição Federal de 1988, a qual, no art. 170, estipulou como princípios da ordem econômica a propriedade privada e a função social da propriedade: Art. 170 A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social, observados os seguintes princípios: I — soberania nacional; II — propriedade privada; III — função social da propriedade; IV — livre concorrência; V — defesa do consumidor; VI — defesa do meio ambiente, inclusive mediante tratamento diferenciado conforme o impacto ambiental dos produtos e serviços e de seus processos de elaboração e prestação; VII — redução das desigualdades regionais e sociais; VIII — busca do pleno emprego; IX — tratamento favorecido para as empresas de pequeno porte constituídas sob as leis brasileiras e que tenham sua sede e administração no País. Parágrafo único. É assegurado a todos o livre exercício de qualquer atividade econômica, independentemente de autorização de órgãos públicos, salvo nos casos previstos em lei (BRASIL, 1988, documento on-line). A partir da vigência da Constituição Federal de 1988, do reconhecimento da propriedade privada e de sua função social, a doutrina e a jurisprudência passaram a indagar o sentido atual dos direitos reais expressamente previstos Introdução aos direitos reais2 na legislação brasileira. Nesse sentido, para ilustrar, o Código Civil de 2002 amoldou o regramento da propriedade à luz das novas exigências constitu- cionais e sociais. Assim dispôs o art. 1.228: Art. 1.228 O proprietário tem a faculdade de usar, gozar e dispor da coisa, e o direito de reavê-la do poder de quem quer que injustamente a possua ou detenha. § 1º O direito de propriedade deve ser exercido em consonância com as suas finalidades econômicas e sociais e de modo que sejam preservados, de con- formidade com o estabelecido em lei especial, a flora, a fauna, as belezas naturais, o equilíbrio ecológico e o patrimônio histórico e artístico, bem como evitada a poluição do ar e das águas. § 2º São defesos os atos que não trazem ao proprietário qualquer comodidade, ou utilidade, e sejam animados pela intenção de prejudicar outrem. § 3º O proprietário pode ser privado da coisa, nos casos de desapropriação, por necessidade ou utilidade pública ou interesse social, bem como no de requisição, em caso de perigo público iminente. § 4º O proprietário também pode ser privado da coisa se o imóvel reivindicado consistir em extensa área, na posse ininterrupta e de boa-fé, por mais de cinco anos, de considerável número de pessoas, e estas nela houverem realizado, em conjunto ou separadamente, obras e serviços considerados pelo juiz de interesse social e econômico relevante. § 5º No caso do parágrafo antecedente, o juiz fixará a justa indenização devida ao proprietário; pago o preço, valerá a sentença como título para o registro do imóvel em nome dos possuidores (BRASIL, 2002, documento on-line). Sobre o tema, Orlando Gomes (2012, p. 17) destaca que os “[...] fenômenos sociais, econômicos e jurídicos, captados pela lente sensível do observador atento aos fatos, não poderiam deixar de receber atenção maior e específica na nova co- dificação”. Como podemos observar, muito embora o titular do direito real goze do direito de usar e usufruir de seus bens, atualmente também lhe são impostos deveres. Ao contrário do Código Civil de 1916, o Código Civil de 2002 positivou, de forma expressa, a função social e econômica da propriedade. Além disso, determinou que os proprietários preservem a flora, a fauna, as belezas naturais, o equilíbrio ecológico e o patrimônio histórico e artístico, bem como evitem a poluição do ar e das águas. A partir desse norte, tramitam no Brasil milhares de demandas judiciais em que se discute a responsabilidade do proprietário por desmatamentos, queimadas e outros ilícitos. 3Introdução aos direitos reais 2 Diferenças entre direitos reais e direitos pessoais Historicamente, os direitos reais diferenciam-se dos direitos pessoais. Em linhas gerais, enquanto os direitos reais recaem diretamente sobre os bens, os direitos pessoais são oriundos de vínculos obrigacionais, assumidos entre as pessoas. Por essa razão, a doutrina afirma que os direitos reais geram eficácia erga omnes, de sorte que o seu titular pode exigir o respeito de seu direito real de toda a sociedade. Os direitos pessoais, ao contrário, vinculam sujeitos determinados, como dois contratantes, de sorte que os titulares de direitos pessoais apenas podem exigir do seu parceiro obrigacional o respeito ao direito pactuado. Sílvio de Salvo Venosa (2018, p. 8) aponta, de forma didática, oito diferenças entre as duas classes de direitos: 1. O direito real é exercido e recai diretamente sobre a coisa, sobre um objeto basicamente corpóreo,embora não se afaste a noção de realidade sobre bens imateriais, enquanto o direito obrigacional tem como objeto relações huma- nas. Sob esse aspecto, embora essa noção deva ser aprimorada, afirma-se ser o direito real absoluto, exclusivo, exercitável erga omnes. Por outro lado, o direito obrigacional é relativo. A prestação é o objeto do direito pessoal ou obrigacional, somente podendo ser exigida do devedor. O direito real caracteriza-se pela inerência ou aderência do titular à coisa. 2. Como consequência desse poder de senhoria sobre a coisa, o direito real não comporta mais do que um titular. Advertimos de início, porém, que essa assertiva não conflita com a noção de condomínio, em que a propriedade continua a ser exclusiva, mas com vários titulares. O sujeito titular de direito real exerce seu poder sobre a res, a coisa objeto de seu direito, de forma direta e imediata, sem intermediários. O direito obrigacional traz a noção primeira de um sujeito ativo (um credor), um sujeito passivo (um devedor) e a prestação, qual seja, o objeto dessa relação jurídica pessoal. Nesse aspecto, afirmamos que o direito real é atributivo, porque atribui uma titularidade, uma senhoria ao sujeito, enquanto o direito obrigacional é cooperativo, porque implica sempre uma atividade pessoal. 3. Pelo que se percebe, portanto, o direito real concede o gozo e fruição de bens. O direito obrigacional concede um direito a uma ou mais prestações, a serem cumpridas por uma ou mais pessoas. O direito real define inerência ou aderência da coisa ao titular, expressão que serve para caracterizar o que comumente chamamos de soberania, poder ou senhoria sobre a coisa. 4. É dito, em geral, que a obrigação é por natureza essencialmente transitó- ria: nasce para cumprir função social e jurídica, mas se extingue uma vez cumprido seu papel, com o adimplemento. O direito real teria sentido mais extenso de permanência, de inconsumibilidade. No entanto, essa afirmação somente pode ser vista do ponto de vista aparente desses dois fenômenos. Há direitos reais limitados no tempo, como sucede, por exemplo, no usufruto; e Introdução aos direitos reais4 há obrigações sem limite de tempo, como ocorre nas obrigações negativas. O que se permite concluir é que os direitos de crédito são preponderantemente transitórios, enquanto os direitos reais, preponderantemente permanentes, guardam característica básica de inconsuntibilidade e durabilidade de maior ou menor extensão temporal. 5. O chamado direito de sequela é corolário do caráter absoluto do direito real: seu titular pode perseguir, ir buscar o objeto de seu direito com quem quer que esteja. O direito pessoal não possui tal característica. O credor, detentor de direito pessoal, quando recorre à execução forçada, tem apenas a garantia geral do patrimônio do devedor, não podendo escolher, como regra, determinados bens para garantir a satisfação de seu crédito. O direito de perseguição, direito de sequela ou direito de seguimento dos direitos re- ais “significa que o direito segue a coisa, perseguindo-a, acompanhando-a, podendo fazer-se valer seja qual for a situação em que a coisa se encontre” (Moreira e Fraga, 1970-1971:47). Esse direito de sequela traduz-se tanto em uma apreensão material da coisa por terceiros como também em apreensão jurídica. Em ambas as situações, o titular de direito real pode reivindicar a coisa. A reivindicação é a forma processual mais clara, embora não a única, pela qual o direito de sequela concretiza-se. Esse direito de perseguir a coisa, amplo na forma mais completa de direito real que é a propriedade, também se manifesta nos outros direitos reais, sejam eles de gozo (ou fruição), sejam de garantia. O nu-proprietário e o usufrutuário podem reivindicar a coisa de terceiro que dela se aposse. Por igual razão, o credor hipotecário pode continuar na execução do bem hipotecado, objeto de sua garantia, independentemente de não mais pertencer ao primitivo titular que constituiu a hipoteca. O termo sequela pretende destacar o aspecto dinâmico do direito real, apresentando-se mais como imagem figurativa do que como fato externo. É, contudo, elemento forte de valoração jurídica de cunho didático. O direito de sequela, explicação dinâmica do fenômeno, faz lembrar também o direito de inerência, domínio ou senhoria sobre a coisa, explicação estática do mesmo fenômeno jurídico. 6. Consequência do direito de sequela é o fato de o direito real ser necessaria- mente individualizado. O objeto do direito real deve ser individualizado no nascedouro, pois doutro modo não há como exercer a sequela. Nos direitos obrigacionais, a prestação pode ter como objeto coisas apenas determináveis pelo gênero, quantidade e qualidade, coisas fungíveis. Como vemos, somente a completa individualização do objeto do direito real permite a perseguição, a sequela. 7. Questão fundamental, muito debatida pela doutrina mais antiga, diz respeito ao número limitado de direitos reais. Os direitos reais não são numerosos ao infinito, porque, em síntese, são finitos os bens disponíveis e apropriáveis pelo homem. A regra enunciada é que os direitos reais inserem-se em numerus clausus, número fechado, isto é, somente podem ser considerados direitos reais, mormente em nosso ordenamento, aqueles assim considerados pela lei. Por essa razão, seu elenco é facilmente enunciável. Por outro lado, os direitos obrigacionais são em número ilimitado, porque as facetas do relacionamento pessoal são infinitas. Os direitos pessoais apresentam-se, destarte, como número indeterminado. As necessidades sociais estão sempre a exigir criação de novas fórmulas jurídicas para atendê-las. 5Introdução aos direitos reais 8. Podemos lembrar também, como elemento distintivo, que somente os direitos reais podem ser objeto de usucapião, não existindo possibilidade dessa modalidade de aquisição nos direitos de crédito. O usucapião (ou a usucapião como prefere o Código Civil de 2002) é, destarte, forma de aquisição de propriedade. Porém, nem todos os direitos reais são passíveis dessa aquisição: somente o serão a propriedade e os direitos reais de gozo ou fruição que permitam a utilização em favor de um titular. Como consequência, tanto a propriedade material poderá ser objeto de usucapião, como o gozo de direitos de domínio imaterial (e não exatamente os direitos, uma vez que há muito se estabeleceu a celeuma sobre a posse de direi- tos, questão a ser enfocada). Por essa razão, parte da jurisprudência majoritária mais recente admite o usucapião do direito de uso de linha telefônica e situações assemelhadas, por exemplo. Não é a concessão da linha que se apropria, mas o direito de uso, o qual pode ser turbado por terceiros. A questão tem a ver com situações especiais que admitem apropriação. Nesse sentido, o Código argentino, em disposição acrescida à redação original do art. 2.311, dispõe: “As disposições referentes às coisas são aplicáveis à energia e às forças naturais suscetíveis de apropriação”. Se, de um lado, não se pode qualificar a energia na qual se coloca a linha telefônica e situações assemelhadas como coisa sem desvirtuar seu conceito, é, no entanto, um bem regido pelos mesmos princípios das coisas. Como podemos observar, a sequela é típica do direito real, isto é, a pos- sibilidade de o titular buscar o bem em poder de quem com ele se encontre. Para saber mais sobre direitos reais e pessoais, digite “Acórdão proferido pelo Superior Tribunal de Justiça. Recurso Especial nº. 857.548/SC, Rel. Min. Luiz Fux, Primeira Turma, julgado em 4/10/2007, DJ 8/11/2007, p. 178” no seu mecanismo de busca. 3 Caracterização dos direitos reais Os direitos reais, portanto, regulam a fruição dos bens pelos seus titulares. Caio Mario da Silva Pereira apresenta 10 características próprias desse específi co ramo do Direito: 1. O direito real é oponível erga omnes, enquanto que o direito de crédito o é a um sujeito passivo determinado; 2. O objeto dodireito real é sempre determinado, ao passo que o do direito de crédito basta seja determinável; Introdução aos direitos reais6 3. O ius in re exige a existência atual da coisa, em contraposição ao ius ad personam, compatível com a sua futuridade; 4. O direito real é exclusivo, no sentido de que se não compadece com a pluralidade de sujeitos com iguais direitos; 5. O direito real adquire-se por usucapião, ao passo que os direitos de crédito não suportam este modo de aquisição; 6. Os direitos de crédito extinguem-se pela inércia do sujeito, ao passo que os reais conservam-se, não obstante a falta de exercício, até que se constitua uma situação contrária, em proveito de outro titular; 7. Os direitos reais são providos da prerrogativa de acompanharem a coisa em poder de quem quer que ela se encontre (“sequela”); 8. O titular do direito real tem a faculdade de receber privilegiadamente em caso de falência ou concurso creditório, sem se sujeitar ao rateio, cabendo-lhe, dentro dos limites de seu crédito, embolsar o produto da venda da coisa gravada (preferência); 9. O titular de um direito real, que não possa mais suportar seus encargos, tem a faculdade de abandoná-lo, o que não cabe no tocante aos direitos de crédito; 10. Os iura in re são susceptíveis de posse, os de crédito não são (PEREIRA, 2001, p. 4). O Código Civil de 2002 apresenta, no art. 1.225, o rol dos direitos reais: Art. 1.225 São direitos reais: I — a propriedade; II — a superfície; III — as servidões; IV — o usufruto; V — o uso; VI — a habitação; VII — o direito do promitente comprador do imóvel; VIII — o penhor; IX — a hipoteca; X — a anticrese; XI — a concessão de uso especial para fins de moradia; XII — a concessão de direito real de uso; XIII — a laje (BRASIL, 2002, documento on-line). Segundo levantamento publicado no Jornal Correio Brasiliense, 33 milhões de pessoas, no Brasil, não têm onde morar. Essa situação favorece o aumento de ocupações irregulares e demonstra a necessidade de medidas de regularização fundiária. Os direitos reais também servem para desenvolver políticas públicas com esse objetivo (AUGUSTO, 2018). 7Introdução aos direitos reais Muito embora o conceito de propriedade seja discutido desde o Direito romano, o Código Civil não apresenta uma definição. O legislador preferiu apresentar os direitos que decorrem da propriedade, prescrevendo que o proprietário tem a faculdade de usar, gozar e dispor da coisa, bem como tem o direito de reavê- -la do poder de quem quer que injustamente a possua ou detenha. O direito de propriedade é considerado o principal direito real e dele derivam institutos im- portantíssimos na vida social, como os condomínios e os direitos de vizinhança. O proprietário pode conceder a outrem o direito de construir ou de plantar em seu terreno, por tempo determinado, mediante escritura pública devida- mente registrada no cartório de registro de imóveis. É o que chamamos de direito de superfície, previsto na legislação a partir do art. 1.369 do Código Civil (BRASIL, 2002). As servidões procuram ampliar a utilidade para o prédio dominante, gra- vando o prédio serviente (que pertence a dono diverso). Imaginemos, por exemplo, uma casa ou uma fazenda que possui ligação direta com a rua, demandando necessariamente o trânsito em propriedade alheia. Para resolver esse e outros problemas práticos, surge o instituto da servidão, previsto no art. 1.378 do Código Civil (BRASIL, 2002). No Direito brasileiro, o usufruto pode recair em um ou mais bens, móveis ou imóveis, em um patrimônio inteiro, ou parte deste, abrangendo-lhe, no todo ou em parte, os frutos e as utilidades, consoante a prescrição do art. 1.390 do Código Civil (BRASIL, 2002). Nesses casos, o nu-proprietário oferece ao usufrutuário o direito à posse, ao uso, à administração e à percepção dos frutos. Uma figura próxima é o simples uso. Alguns autores, como Caio Mario da Silva Pereira, não veem sentido em separar o uso do usufruto, “[...] de vez que o uso não passa de modalidade mais restrita de usufruto” (PEREIRA, 2001, p. 179). Dessa forma, o usuário usará da coisa e perceberá os seus frutos quanto o exigirem as necessidades suas e de sua família, como disciplina o art. 1.412 do Código Civil (BRASIL, 2002). O direito real de habitação consiste no direito de habitar gratuitamente casa alheia. O titular desse direito não pode alugá-la, nem emprestar, mas simplesmente ocupá-la com sua família. Segundo posição doutrinária, “[...] o direito real de habitação constitui o mais restrito dos direitos reais de fruição, eis que apenas é cedida uma parte do atributo de usar, qual seja, o direito de habitar o imóvel” (TARTUCE, 2019, p. 518). Muito usado no setor da construção civil, o Direito brasileiro permite que o promitente comprador de um imóvel tenha direito real à sua aquisição, me- diante a celebração de promessa de compra e venda, desde que não pactuado o direito de arrependimento. Introdução aos direitos reais8 Doutrinariamente, é comum a utilização da expressão direito real de aquisição para ilustrar o fenômeno pelo qual uma promessa de compra e venda — devidamente cumprida pelo promitente comprador (de regra, com o pagamento integral do preço, nas condições avençadas) — gera a garantia de transferência efetiva da propriedade do imóvel (TARTUCE, p. 555, 2019). A promessa de compra e venda pode ser celebrada por instrumento público ou particular, porém precisa ser devidamente registrada no cartório de registro de imóveis para viabilizar o surgimento do direito real. Preenchidos os requi- sitos legais, o promitente comprador pode exigir do promitente vendedor, ou de terceiros, a quem os direitos deste forem cedidos, a outorga da escritura definitiva de compra e venda, conforme disposto no instrumento preliminar; se houver recusa, pode requerer ao juiz a adjudicação do imóvel. As figuras do penhor, da hipoteca e da anticrese são úteis no mercado para a garantia de dívidas. São historicamente chamados de direitos reais de garantia sobre coisa alheia. Permitem que os credores reduzam o risco de insolvência dos deveres, uma vez que contam com bens oferecidos em garantia ao cum- primento da obrigação. Na hipótese de não pagamento pontual da obrigação, a propriedade do bem oferecido em garantia pode ser transmitida ao credor. A concessão de uso especial para fins de moradia refere-se a áreas públicas, inicialmente ocupadas de forma irregular pelas pessoas, em geral, vulneráveis. Em atenção ao interesse público na regularização fundiária, o título de concessão de uso especial para fins de moradia deve ser concedido pela Administração Pública. A base legal para sua concessão encontra-se na Lei nº. 11.481, de 31 de maio de 2007 (BRASIL, 2007). A mesma lei disciplinou a concessão de direito real de uso. O instituto tem como norte regularizar a utilização de áreas com interesse social, como, por exemplo, urbanização, industrialização, edificação, cultivo da terra, aproveitamento sustentável das várzeas, preservação das comunidades tradicionais e seus meios de subsistência ou outras modalidades de interesse social em áreas urbanas, como aponta Flávio Tartuce (2019). Como o intuito de regularizar uma prática urbana presente em diver- sas cidades do Brasil, a Lei nº. 13.465, de 11 de julho de 2017 (BRASIL, 2017), disciplinou o direito real de laje, autorizando que o proprietário de 9Introdução aos direitos reais uma construção-base ceda a superfície superior ou inferior de sua construção para que o titular da laje mantenha unidade distinta daquela originalmente construída sobre o solo. Conforme o art. 1.510-A, § 1º, do Código Civil (BRASIL, 2002), o direito real de laje contempla o espaço aéreo ou o subsolo de terrenos públicos ou privados, tomados em projeção vertical, como unidade imobiliária autônoma, não contemplando as demais áreas edificadas ou não pertencentes ao proprie- tário da construção-base. Vamos imaginar que uma senhora, com 84 anos, vem afalecer. Deixa como herança aos seus filhos e ao seu marido uma casa na praia, além do apartamento em que vivia. Poderão os herdeiros convencionar que a propriedade da casa na praia será, desde logo, transmitida apenas para os filhos. Contudo, conservará o marido o direito de usufruir do bem enquanto estiver vivo. Isso se dá por meio do instituto do usufruto, no qual o proprietário (filhos) concede a terceiro (usufrutuário) o direito de usufruir plenamente do bem. AUGUSTO, O. 33 milhões de brasileiros não têm onde morar, aponta levantamento da ONU. Correio Braziliense, 2018. Disponível em: https://www.correiobraziliense.com. br/app/noticia/brasil/2018/05/03/interna-brasil,678056/deficit-de-moradias-no-brasil- -chega-a-6-3-milhoes-sp-tem-a-maior-defa.shtml. Acesso em: 24 abr. 2020. BRASIL. Lei nº. 11.481, de 31 de maio de 2007. Dá nova redação a dispositivos das Leis nº. 9.636, de 15 de maio de 1998, 8.666, de 21 de junho de 1993, 11.124, de 16 de junho de 2005, 10.406, de 10 de janeiro de 2002 - Código Civil, 9.514, de 20 de novembro de 1997, e 6.015, de 31 de dezembro de 1973, e dos Decretos-Leis nº. 9.760, de 5 de setembro de 1946, 271, de 28 de fevereiro de 1967, 1.876, de 15 de julho de 1981, e 2.398, de 21 de dezembro de 1987; prevê medidas voltadas à regularização fundiária de interesse social em imóveis da União; e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, 31 maio 2007. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2007/ lei/l11481.htm. Acesso em: 24 abr. 2020. Introdução aos direitos reais10 Os links para sites da web fornecidos neste capítulo foram todos testados, e seu fun- cionamento foi comprovado no momento da publicação do material. No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. BRASIL. Lei nº. 13.465, de 11 de julho de 2017. Dispõe sobre a regularização fundiária rural e urbana, sobre a liquidação de créditos concedidos aos assentados da reforma agrária e sobre a regularização fundiária no âmbito da Amazônia Legal; institui me- canismos para aprimorar a eficiência dos procedimentos de alienação de imóveis da União; altera as Leis n os 8.629, de 25 de fevereiro de 1993 , 13.001, de 20 de junho de 2014 , 11.952, de 25 de junho de 2009, 13.340, de 28 de setembro de 2016, 8.666, de 21 de junho de 1993, 6.015, de 31 de dezembro de 1973, 12.512, de 14 de outubro de 2011 , 10.406, de 10 de janeiro de 2002 (Código Civil), 13.105, de 16 de março de 2015 (Código de Processo Civil), 11.977, de 7 de julho de 2009, 9.514, de 20 de novembro de 1997, 11.124, de 16 de junho de 2005, 6.766, de 19 de dezembro de 1979, 10.257, de 10 de julho de 2001, 12.651, de 25 de maio de 2012, 13.240, de 30 de dezembro de 2015, 9.636, de 15 de maio de 1998, 8.036, de 11 de maio de 1990, 13.139, de 26 de junho de 2015, 11.483, de 31 de maio de 2007, e a 12.712, de 30 de agosto de 2012, a Medida Provisória nº 2.220, de 4 de setembro de 2001, e os Decretos-Leis n º 2.398, de 21 de dezembro de 1987, 1.876, de 15 de julho de 1981, 9.760, de 5 de setembro de 1946, e 3.365, de 21 de junho de 1941; revoga dispositivos da Lei Complementar nº 76, de 6 de julho de 1993, e da Lei nº 13.347, de 10 de outubro de 2016; e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, 12 jul. 2017. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ ccivil_03/_Ato2015-2018/2017/Lei/L13465.htm. Acesso em: 24 abr. 2020. GOMES, O. Direitos reais. 21. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2012. PEREIRA, C. M. da S. Instituições de direito civil: direitos reais v. 15. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2001. 4 v. TARTUCE, F. Direito civil: direito das coisas. 11. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2019. VENOSA, S. de S. Direito civil: reais. 18. ed. São Paulo: Atlas, 2018. Leitura recomendada GAGLIANO, P. S. Direito real de laje: primeiras impressões. 2017. Disponível em http://www. cartaforense.com.br/conteudo/artigos/direito-real-de-laje-primeiras-impressoes/17244. Acesso em: 24 abr. 2020. 11Introdução aos direitos reais