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1 EM BUSCA DE UM NOVO PARADIGMA PARA A EDUCAÇÃO A busca de novos ambientes de aprendizagem, mais adequados às necessidades de nossas crianças e ao mundo como ele hoje se apresenta, levou-nos a procurar um novo referencial para a educação, tendo em vista a gravidade dos problemas enfrentados não apenas no setor educacional, mas também nas mais diferentes áreas do conhecimento humano. Esses desafios requerem, além do nosso compromisso com a educação, toda nossa criativi- dade colocada em prática na busca de soluções possíveis para os problemas enfrentados pela humanidade, com base em novas compreensões a respeito da natureza e do homem. Para Ubiratan D'Ambrosio (1993a), a fragmentação dos enfoques utili- zados para analisar a realidade ampara-se em esquemas racionais e científicos especializados, em detrimento de uma visão global da realidade e mesmo com desprezo por essa visão. Para esse autor, o próprio aparecimento das discipli- nas, consideradas por ele como a invenção mais fundamental da ciência moderna, deu origem ao afastamento da realidade em toda a sua plenitude. Com isso, o homem foi se tornando cada vez mais especialista, desaparecendo, em consequência, a preocupação com aspectos importantes do conhecimento, da visão crítica de fenômenos globais e da criatividade. Os efeitos globais do racio- nalismo científico começaram a ser questionados à medida que se tentava com- preender as razões pelas quais as coisas não teriam dado certo. Onde e como 29éticos morais? Para e modelo com princípios D'Ambrosio modelos de construção do comprometemos de outros fundamental adoção Naisbitt, Tofler, Capra, Morin, D'Ambrosio dade relacionados aos aspectos sociais, psíquicos, éticos e morais, vêm é autores, tais como Santos, apontam vivendo Vários Boaventura dos história da humanidade; num transformando o homem e a mulher em seres individualistas, egocêntricos, que (C e na um Weil, Harman muito importante sem noções de ética e solidariedade, desconhecedores do significado do amor transição de inúmeros desafios. E o mais grave e da compaixão. A atual abordagem, que analisa o mundo em partes inde- período de dimensão é da presença uma ou decorrente a outra, restringem nem se diferentes pendentes, já não funciona, assim como a associação do homem que domina do da esses desafios não mas envolvem dimensões que país, a natureza precisa ser repensada para gerar um novo tipo de pensamento que M localizam neste ou naquele morais e espirituais da políticas, intelectuais, compreenda o universo em contínua evolução, que respeite os fenômenos sociais, de nossa vida no planeta: saúde, culturais, naturais e reconheça a vida como um rio que flui naturalmente em direção à diferentes aspectos trabalho, tecnologia corrente infinita do Tao. afetam os mais relações sociais, e té meio ambiente, economia, provocando sérias ameaças à sobrevivência desafios vem da conjunto desses de manifestação da vida neste formas planeta, m às diferentes que é paradigma? raça humana e do diálogo crítico e criativo entre o restauração homem a o que mundo tem requerido da natureza, entre ciência e sociedade. Quais são as causas desses profundos está fato de Inúmeras, mas, Antes, é preciso esclarecer o conceito de paradigma que estamos utili- zando. Primeiramente, remetamo-nos a Kuhn, filósofo e historiador da ciên- fe problema no verdadeiro a maioria o dos intelectuais segundo Capra que (1988), integram o mundo acadêmico e suas instituições subscrever cia, introdutor de modificações importantes na maneira de compreender a A estreitas da realidade, inadequadas para resolver ciência. Para ele, paradigma significa "a constelação de crenças, valores e os principais técnicas partilhada pelos membros de uma comunidade científica" (1994, p. percepções de nosso tempo. Esse problema decorre de um pensamento redu- 225). Paradigma refere-se a modelo, padrões compartilhados que permitem a problemas fragmentado, simplificado, que, por sua vez, gera ações correspon- explicação de certos aspectos da realidade. mais do que uma teoria; implica cionista, não expressam a unidade e a diversidade existente no Capra uma estrutura que gera novas teorias. É algo que estaria no início das teorias. dentes, que o fato de nossos problemas serem sistêmicos, estarem intimamente Paradigma, na ótica de Kuhn, é uma realização científica de grande interligados afirma que e serem interdependentes requer metodologias mais abrangentes envergadura, com base teórica e metodológica convincente e sedutora, e que adequadas para sua solução. Os atuais problemas da humanidade não passa a ser aceita pela maioria dos cientistas integrantes de uma comunidade. e ser resolvidos com base nos enfoques fragmentados que caracterizam É uma construção que fim às controvérsias existentes na área a respeito de nossas podem instituições governamentais e acadêmicas, gerados por modelos cultu- determinados fundamentos. A partir do momento em que existe um consenso rais ou conceituais obsoletos e variáveis irrelevantes. por parte de um grupo de cientistas sobre determinadas ocorrências ou Se a realidade é complexa, ela requer um pensamento abrangente, fenômenos, começa uma sinergia unificadora ao redor da nova temática. multidimensional, capaz de compreender a complexidade do real e construir Já Edgar Morin procura conceituar paradigma indo além da proposta um conhecimento que leve em consideração essa mesma amplitude. originária estabelecida pela linguística e pela definição de Thomas Kuhn; ele Hoje, sabemos que a ciência como conhecimento sistemático do univer- justifica a existência de uma incerteza na definição kuhniana. Segundo Morin, físico exige uma nova visão de mundo, diferente e não fragmentada; uma um paradigma significa um tipo de relação muito forte, que pode ser de conjunção ou disjunção, que possui uma natureza lógica entre um conjunto de visão que já não pode ser compreendida como dominação e controle da conceitos-mestres. Para esse autor, esse tipo de relação dominadora é que natureza. Lembrando Edgar Morin, a ciência que liberta, não aprisiona. o seu determinaria o curso de todas as teorias, de todos os discursos controlados lado benéfico não pode ser destruidor, de tal forma que o desenvolvimento da pelo paradigma. Seria uma noção nuclear ao mesmo tempo linguística, lógica ciência, da técnica e da tecnologia não pode ignorar os problemas da humani- e ideológica. 30 31Jiménez, Morin (1996a) reafirma Glasersfeld e que diálogo com de relação e "comporta Num a noção um envolve paradigma entre conceitos; noções básicas vivenciava os processos da natureza em relações caracterizadas pela interde- definição de bem precisas, lógicas, número de autor ainda esclarece que "o relações pendência dos fenômenos materiais e espirituais e na subordinação das neces- o discurso" entre esses todo conceitos, soberanos e impõe, governam relações sidades individuais às da comunidade. A estrutura científica que predomina- impõe conceitos primeiro conjunção, de disjunção, de inclusão etc. (...), o que va nessa visão de mundo orgânica estava assentada no naturalismo aristotéli- ser de podem constituídas, as redes sejam mais que uma vez CO e na fundamentação platônico-agostiniana, e depois tomista, que contradiz a ideia paradigma de que, privilegia algumas relações cerne em detrimento obscuro de consideravam de maior significância as questões referentes a Deus, à alma tes" (ibid.). Um lógica do que humana e à ética. Naquela época, o objetivo principal da filosofia era servir de ele controle a orienta o que faz com que (Morin 1994, base à teologia e tinha como causa de suas preocupações religiosas a salvação neste ou naquele p. 37). da alma após a morte. Esse pensamento foi denominado de os discursos compreensão teóricos do conceito de paradigma com base em um enfoque Para o homem medieval, a realidade era sagrada por ter sido estabele- E relacional, A em que conceitos e teorias soberanos de vista, convivem pois não com teorias rivais, cida por Deus e cabia ao homem contemplar e compreender a harmonia acordo com nosso ponto apenas o amplia existente no universo. Foi uma época em que também predominava o autori- enfoque está mais excludente de de Kuhn, que faz desaparecer entre os membros escolas e de teorias rivais, tarismo na organização social o respeito cego às autoridades, aos textos surgimento de um consenso determinada comunidade partir do científica, como também reconhece que as mudanças bíblicos e gregos. Foi, também, um período de muita repressão, no qual muito pouco se inovou em termos de desenvolvimento científico. Aquele que inova- convivem, simultaneamente, com outras experiências, teorias, outros conceitos máticas ou fenômenos recalcitrantes que não se ajustam facilmente ao va, tentando discordar dos textos bíblicos, arriscava-se a morrer na fogueira para expiar bruxarias e alquimias associadas às reais novidades. digma vigente. Acreditamos que a interpretação de Morin vai um pouco mais A partir dos séculos XVI e XVII, a natureza da ciência medieval come- além do que a teoria de Kuhn e oferece uma ideia mais completa da evolução çou a sofrer mudanças radicais. A visão de um mundo orgânico, vivo, espiri- do conhecimento científico, que, além de crescer em extensão, também se tual e encantado passou a ser substituída pela noção de um mundo-máquina, modifica, transforma-se mediante rupturas que ocorrem na passagem de uma composto objetos distintos, em virtude das mudanças revolucionárias na de teoria à outra. física e na astronomia ocorridas depois de Copérnico, Galileu e Newton. Essa época, chamada de Idade Moderna e iniciada ao redor do século Qual a razão de ser do paradigma tradicional? XV, teve como fatores marcantes o Renascimento, que reposicionou o homem como centro do significado histórico período do antropocentrismo; os De onde decorre a crise de percepção da atualidade? Qual a origem da grandes descobrimentos marítimos que caracterizaram o apogeu do mercan- atual forma de pensamento, valores e percepções que prevalecem em nossa tilismo; e o racionalismo, com o advento da experimentação científica. De visão de realidade? De onde vem esse desenvolvimento cego e descontrolado acordo com esse modelo de ciência, o homem, como senhor do mundo, podia da tecnociência, gerador dessa agonia planetária provocadora de tantas rup- transformar a natureza, explorá-la, e ela deveria servi-lo, ser escravizada e turas? Tais valores decorrem de uma associação de várias correntes de pensa- obedecer. objetivo do cientista, segundo essa abordagem, era "extrair da mento da cultura ocidental, dentre elas a Revolução Científica, o Iluminismo natureza, sob tortura, todos os seus segredos" (Capra 1988, p. 51) e não mais o conceito da terra como mãe nutridora. e a Revolução Industrial, que estiveram presentes a partir do séculos XVII, XVIII e XIX. As ideias iniciais, que muito influenciaram a era moderna, foram racionalismo, segundo Morin (1990), reafirma a visão de mundo em formuladas nos séculos XVI, XVII e XVIII. que há perfeita entre o racional (coerência) e a realidade do universo, excluindo, dessa forma, o irracional. Essa visão se baseia em uma Antes de 1500, a visão de mundo que prevalecia na Europa da Idade Média (de 450 a 1400) e em grande parte do mundo era a orgânica, que afirmação lógica, e dela deduz todas as consequências práticas, negando assim outras possibilidades de explicação. Essa nova atitude mental e os valores 32 33desvelamento dos mistérios Do permitiram ponto de dela perdera sua mudança rimental ao combinar a observação e a indução com a dedução natureza, que da ciência, essa ética e teorica do consigo mesmo controlada pela experiência. De acordo com Omnés (1996, 53), matemática do objetivo a relação o Em também frases importantes de Galileu afirmava que "o livro da natureza está uma das tureza alterou de vista do homem do ponto social, em linguagem matemática". indução e dedução não são escrito outros, com relações os nas com a natureza, em mudanças do virtude de reflexão ou simples modalidades de raciocínio, mas duas atitudes apenas modos ocorreram também nas natureza não cultural, e linguagem da representava, diante da realidade que, em diferentes períodos, caracterizaram o pensamento mentais e de que a da humanidade. compreensão linguagem divina. deu origem a um novo método a de outrora, Simultaneamente, na Inglaterra, Bacon (1561-1626) descrevia o A visão do mundo-máquina Francis Bacon, que envolve a descrição método empírico da ciência, formulando sua teoria do procedimento induti- seu defendido por mudou tigação espírito desse modelo profundamente vo, cuja metodologia se baseava no exame de alguns casos particulares da natureza. temática objeto de investigação que, desde a natureza Antiguidade chegar a conclusões gerais a serem testadas por novos experimentos, toman- para compreensão da natural, a vida em harmonia com o sabedoria, a ordem universo do-se, então, o novo método de experimentação A indução é um objetivava a glória de Deus. Esse maior período, chamado método de pensamento, um recurso do raciocínio, que vai do particular realização da ciência para quando Nicolau Copérnico de o geral. Entretanto, cumpre observar que foi Aristóteles quem estabeleceu para os e a começou (1473-1543) Revolução de Ptolomeu e da Bíblia, aceita por mais de critérios da indução, mas exigindo a verificação de todos os casos particulares para que as generalizações pudessem ser feitas. opôs à ainda sob a influência do pensamento que concluiu, do sistema planetário, o que, para ele, o sistema de investigação formulado por Bacon foi denominado "in- posição central simbolizava ocupava a universo. A terra e o ser divina no humano não dução nele, para se ter o correto conhecimento dos fenômenos, "Luz Deus", presença eram de redor do qual a terra sim girava. o sol, ao seria necessário basear-se em fatos concretos da experiência para chegar às leis centro do mundo, mas e a suas respectivas causas. o I (1564-1642), físico, matemático e astrônomo Galileu Galilei grande gênio de sua época, introduziu a descrição Apesar de Bacon ter sido o grande teorizador da experimentação, foi tica destacado da natureza e a abordagem empírica como características sobreviveram predominantes como o Hume (1711-1776) quem o empirismo em cosmovisão, ao escla- científico século XVII recer que nossas ideias são construídas com base em impressões sensíveis do que como critérios do pensamento das teorias científicas atuais. Reconheceu a relevância das pro- provenientes das experiências de nossos órgãos dos sentidos. Para ele, toda atividade do espírito limitava-se a explorar fatos, e a reflexão nada acrescen- importantes quantificáveis da matéria forma, tamanho, número, posição e tava de essencial ao que trazem os fatos (Omnés 1996). Empirista radical, quantidade priedades de movimento como propriedades objetivas dos corpos, ex- Hume afirmava que só a experiência é que pode nos fornecer a ideia de cluindo do domínio da ciência as qualidades consideradas secundárias, resul- sucessão dos fatos e, portanto, de Para ele, o que chamamos de tantes de projeções mentais dos sujeitos, tais como cor, cheiro, sabor e causa e efeito nada mais são do que acontecimentos que se sucedem no tempo Segundo Morais (1988), para Galileu, o pensamento podia ser perfeita- e que nos habituamos a ver juntos. mente lógico e enquadrado no bom-senso, sem que necessariamente fosse verda- Tanto Hume quanto Locke acreditavam que consciência, mente, razão deiro. Ele marcou o nascimento do experimentalismo científico ao substituir a e sujeito, em sua origem, seriam como uma folha em branco em que ficavam argumentação lógica da dialética formal pela observação dos fatos em si mesmos, registradas as impressões, as imagens, enfim, as ideias. Consequentemente, só o que, para Morais, foi a principal referência da mentalidade moderna. conhecemos aquilo que for registrado em nossa mente pelos órgãos dos sentidos. Aquilo que não transformamos em impressão sensível não pode ser Galileu, que também submeteu a teoria copernicana à prova do teles- conhecido. Em decorrência, as ideias inatas não fazem sentido, são ilusões. cópio, teve como seu grande mérito a aplicação sistemática do método expe- Portanto, o sujeito só conhece suas ideias desde que elas sejam transformadas 34 35conteúdos, as os que privilegia o sujeito em mas subjetivismo empirista. realidade. do as próprias relevante para o conhecimento objetivo, e outro, do sujeito, um mundo intui- de em conteúdos tivo, reflexivo, que conhece de outra forma. De um lado, espírito, a alma. impressões de que a mentalidade moderna outro, a matéria, o cérebro, as ciências e a técnica. Para Descartes, quem De conhece é o sujeito, o espírito humano, a razão. nas ainda no século Apesar XVII, duas substituição da concepção pensamento cartesiano, exposto no Discurso afirmava raízes orgânica para da era preciso decompor uma questão em outras mais fáceis até chegar a um que figuras que Descartes Newton. pela metáfora de simplicidade suficiente para que a resposta ficasse evidente. Na realidade, grau médico e matemático o método cartesiano nos marcou a todos fortemente, e devemos também a ele Descartes pai do racionalismo e a Galileu a ideia de que a natureza é governada por leis, cujas fórmulas são derado fundador formulação filosófica que deu sustentação ao matemáticas. Daí a matematização do pensamento humano, que constituiu a que concluiu XVII. herança mais importante de Descartes. a partir do século ciência moderna John Losee (1993), Descartes concordava com Dessa forma, ele reconheceu a superioridade da mente sobre a matéria Segundo de científico era uma pirâmide e concluiu que as duas eram coisas separadas e fundamentalmente distintas. empreendimento vértice. Ambos aceitavam a imperiosa de dualismo entre matéria e mente, corpo e alma, teve profundas repercussões gerais mas, se Bacon tentava descobrir princípios gerais com base em no no pensamento ocidental, com implicações nas mais diferentes áreas do co- progressiva, Descartes acentuação indutiva procurou começar do nhecimento humano. o exagerado culto ao intelecto, em detrimento das dedutivo. De um modo procedimento diferente de dimensões do coração e do espírito, vem gerando profundas patologias disso- trabalhar ideal de Arquimedes de uma hierarquia dedutiva de ciativas e de grande significação para a humanidade, como veremos mais acreditava fundamento do empreendimento científico estava no adiante. Para Damásio (1996), foi Descartes quem convenceu os biólogos a Para tivo. Fundamenta-se na razão como única base segura para que possamos ele, raciocínio adotar, até hoje, uma mecânica de relojoeiro como modelo de processos vitais. Para esse grande matemático, mente e matéria seriam criações de Deus, compreender o homem e a natureza. sendo Ele a fonte da ordem natural e da luz que ilumina a razão, que possibilita Por seu método analítico, Descartes propunha a decomposição do pensa- ao ser humano o reconhecimento dessa ordem. universo material era uma mento e dos problemas em suas partes componentes e sua disposição em máquina sem vida e sem espiritualidade. A natureza funcionava de acordo ordem lógica. Para ele, o conhecimento era obtido da intuição e com leis mecânicas exatas. Tudo no universo poderia ser explicado por leis meio das quais se tentava construir um conhecimento baseado em sólidos matemáticas e pelo entendimento de suas partes. Esse pensamento passou a ces. A análise mostrava o caminho verdadeiro para o qual fora inventada, ao orientar a observação científica e a formulação de todas as teorias dos fenôme- mesmo tempo em que revelava que os efeitos dependem de suas nos naturais até o início do século XX, quando, então a teoria da relatividade Descartes tinha a dúvida como ponto fundamental de seu método; e a física quântica provocaram mudanças radicais. utilizava-a como instrumento básico de raciocínio. A única coisa sobre a qual, Entretanto, foi o inglês Isaac Newton (1642-1727) quem complementou para ele, não havia dúvidas era a existência de si mesmo como pensador, que o pensamento de Descartes, dando realidade à visão do mundo como máqui- o levou a afirmar "Cogito, ergo sum", isto é, "Penso, logo existo". Assim, na perfeita ao desenvolver uma completa formulação matemática da concep- deduziu que a essência da natureza humana está no pensamento e este está ção mecanicista da natureza, realizando uma grande síntese das obras de Copérnico, Kepler, Bacon, Galileu e Descartes. separado do corpo. A mente, essa coisa pensante, está separada do corpo, coisa A física newtoniana, como então fora denominada, foi considerada o não pensante, coisa extensa e constituída de partes mecânicas. Assim, Descar- ponto culminante da revolução científica e forneceu uma consistente teoria tes expressou a seu modo a visão de dois mundos: o mundo dos objetos, matemática a respeito do mundo da natureza, que se constituiu no alicerce do 36 37Newton pensamento a lógico-dedutivo está presente na matemática que, com sua linguagem, movimento dos tiu construir a imagem do mundo mecanicista, um relógio a ser conhecido permi- governam da gravidade. vários outros desmontado, no qual os fenômenos seguem leis fixas e Desse e cometas, fluxo das determinismo universal decorreu um conhecimento utilitário e funcional a gravidade. contribuições, Newton trouxe deu origem à ideia de que, para compreender real, era preciso dominar que com transformar mundo, manipulá-lo pela e Além corpúscula A técnica, ao servir de base para a Revolução Industrial, aumentou sistema mecânico também o poder de manipulação do homem sobre a natureza. Uma população universo matemáticas. Para ele, todos constituída de trabalhadores rurais foi sendo substituída por operários de acordo movimento de funcionava ao partículas materiais dos com a produção e a distribuição de bens industriais, em decorrência ocupa- da físicos estavam menos da gravidade. Essa força foi descrita aplicação real e efetiva dos conhecimentos na indústria. sado pela atração constituem os fundamentos básicos da movimento que mecânica Essa transformação deu origem à automatização do trabalho humano, com equações de então, composta de partículas homogêneas, inúmeros desdobramentos a partir do final do século XVIII. A força humana matéria seria, força da gravidade. Era um foi sendo substituída por novas formas de energia que, por sua vez, foram quais atua a mundo nas estático indestrutíveis, para ser conhecido, necessitava ser também modificando o mundo mediante um intensivo processo de industria- flutuar num espaço to em seus elementos constituintes. lização. Foi a técnica produzida pela ciência, transformando a sociedade pelo De acordo com Newton, Deus criou as partículas materiais, a desenvolvimento tecnológico, que, por sua vez, desenvolveu-se, ampliando e transformando a própria ciência. as fundamentais do movimento. Tudo isso elas leis entre leis imutáveis, controla a natureza e leva Entretanto, observando a evolução dos fatos, pouco a pouco, o divino a máquina pressupor governada a existência do determinismo universal, ou seja, o universo por desapareceu completamente da visão científica do mundo, deixando um vácuo espiritual que se tornou característico de nossa cultura. A base filosófica sempre da mesma maneira. passou, então, a ser a divisão cartesiana entre espírito e matéria, e a análise De acordo com Gell-Mann (1991), na física clássica, o passou a ser o instrumento necessário e indispensável do pensamento. exato das leis do movimento e da configuração do em qualquer Hoje, sabemos que a valorização das qualidades primárias da matéria instante de tempo, permite, em princípio, predizer a história completa. Como trouxe grandes benefícios para o desenvolvimento da ciência e da tecnologia. exemplo clássico, o autor cita a lei do movimento de mundo era Mas, como tudo na vida tem dois lados, esse fato acarretou também um um sistema mecânico passível de ser descrito objetivamente sem relacionar 0 pesado ônus, que provocou uma significativa perda para a raça humana em observador humano, fazendo com que tal descrição objetiva da natureza termos de sensibilidade, estética, sentimentos e valores ao direcionar atenção tornasse o ideal de toda ciência. Essa visão de um mundo-máquina que importância para tudo o que fosse mensurável e quantificável. o mundo foi funciona de maneira sempre igual deu origem ao mecanicismo como uma das ficando árido, morto, incolor, sem paladar, cheiro, consciência e espírito. grandes hipóteses universais da era moderna e constituiu um dos pilares da Todo o projeto filosófico desenvolvido na Idade Moderna privilegiava o sujeito no processo de conhecimento, sendo, portanto, subjetivista. A partir ideia de progresso, influenciando todo o pensamento da burguesia ascendente do empirismo, o conhecimento é construído pelo sujeito, que se propõe a a partir do século XVIII. conhecer os fenômenos que ocorrem em sua percepção. É sujeito que delineia Ao trabalhar com os raciocínios indutivo e dedutivo, a ciência a imagem do mundo. Para Severino (1993), as perspectivas epistemológicas da observação dos fatos à criação de leis universais mediante hipóteses (indu- da Idade Moderna apoiavam-se nas "luzes" naturais da razão que, na realida- ção). Das leis, passou às teorias, ou destas aos fatos (dedução). o processo de, só podem "iluminar" o objeto se ele estiver articulado e montado na consciência. 38 39da filosofia do saber e da estrutura da matéria. Com base nesse posicionamento central, consequências importantes, que influenciaram todo o pensamento surgiram duas razão Uma se refere ao fato de que, para é preciso corrente, científico é dado pelo rigor das medições. As qualidades do não e o rigor que científico. A outra está relacionada ao pensamento têm valor a idealista para conhecer, é preciso dividir, classificar, para depois tentar compreender em que, relações das coisas em separado. as o conhecimento de Segundo Boaventura dos Santos (1988), embora houvesse alguns do além daquilo núncios no século XVIII, somente no século XIX o modelo de racionalidade pre- que nos Para ele, conteúdo estendeu às ciências sociais emergentes, dando origem a um modelo global de se para racionalidade científica que admitia variedades internas, mas se defendia depende do ostensivamente de duas formas de conhecimento não o senso Para Kant, comum e as chamadas da empíricos são organizados ele organiza Para esse autor (1988), a nova racionalidade científica, sendo um único, mas 104). delo global, era também um paradigma totalitário na medida em que mo- (Severino 1993, que o homem necessitava o caráter racional a todas as formas de conhecimento que não rezavam negava pela projeto mas também mesma cartilha epistemológica e pelas suas regras metodológicas. Esta seria da sensível, experiência que sua característica principal e simbolizava a ruptura do novo paradigma com a os que o precederam. do conhecimento uma empirista da abordagem modelo de racionalidade hegemônica da ciência moderna empíricos, dos então do estudo da natureza para o estudo da sociedade, argumentando-se passou do fundamentais desse os aspectos paradigma que, tal como fora possível descobrir as leis da natureza, seria também possível ciências sociais emergentes? Numa tentativa as de descobrir as leis da sociedade. Segundo Boaventura dos Santos (1988), muito distinções fundamentais: a observar duas primeira se, podemos conhecimento científico e o conhecimento a consciência filosófica da ciência moderna que tivera no racionalismo proveniente separação entre existente cartesiano e no empirismo baconiano as sua primeiras formulações, segunda refere-se à separação entre a veio a condensar-se no positivismo oitocentista. E de acordo com este, senso só havia duas formas de conhecimento científico: as disciplinas for- pessoa humana. mais da lógica e da matemática e as ciências empíricas segundo o Como foi visto anteriormente, ao contrário de Aristóteles, a ciência modelo mecanicista das ciências naturais; as ciências sociais nasce- evidências de nossa as experiência imediata, ram para ser empíricas. não que moderna na do conhecimento comum, considerando-a Por estavam a ciência moderna reconhecia a total separação entre a Com base nessa compreensão, todos os princípios epistemológicos e Este era senhor e o possuidor da natureza, ao passo que aquela metodológicos positivistas presentes no estudo da natureza desde o século humano. extensão e movimento, passiva, eterna e reversível, passível de ser XIV começaram a ser aplicados no estudo da sociedade, dando origem ao que se chamou de "física social". Usando esse modelo científico, os fenômenos apenas montada para ser mais bem observada e relacionada com as leis passaram a ser estudados como se fossem naturais, apesar das inúmeras A ciência moderna reconheceu a matemática como o instrumento que diferenças existentes entre eles. Os fatos sociais foram reduzidos às suas permitia a análise, a lógica da investigação e o modelo de representação da dimensões externas, observáveis e mensuráveis, uma redução que nem sem- pre deveria ser fácil de ocorrer sem uma distorção dos fatos. 40 41inúmeros foram os Santos (1988), Boaventura compatibilizar os fatos sociais, as ciências dos Para naturais. A maioria deles tentativa de cientificidade das ciências não de teorias estava Questionam-se, hoje, de acordo com D'Ambrosio, Capra, Morin e surgidos na de as ciências sociais disporem êxitos alcançados pelo paradigma industrial do Ocidente e Harman, os os critérios de fato de não poderem produzir direta ou indiretamente, a maioria dos atuais problemas críticos que de geraram, ordem relacionada com controladas, metodologicamente humanos modificam comportamento social e global presentes na tivas, seres o fato de as porque os ciências confiáveis adquirido. Acrescenta-se do ato de sociais Criticamos a excessiva ênfase dada ao método cartesiano conhecimento nou fortemente o paradigma dominante da ciência moderna que impreg- objetivas, pois provocaram um no desenvolvimento não serem segundo autor, das ciências passar dos séculos, provocou a fragmentação de nosso pensamento, que, a unilate- com o desenvolvimento comparado com ralidade de nossa visão. Levou-nos, também, a uma concepção de vida sociais se ciências sociedade como uma luta competitiva pela existência, à crença no em Paradigma tradicional: Algumas implicações em nossa vida material ilimitado a ser alcançado através do crescimento econômico progresso e tecno- lógico. Direcionou a nossa educação à supervalorização de determinadas do mundo esteja sendo questionada, disciplinas acadêmicas, à superespecialização, uma vez que todos os visão cartesiana proposições permitiu o desenvolvimento Embora a de tais nos complexos, para serem compreendidos, necessitam ser reduzidos às suas mos que o sucesso atual. desenvolvimento da partes constituintes. mundo ciência presente no tecnológico evolutivos na das civilizações, história traduzidos Criticamos a exclusão do pensador de seu próprio pensar, a erosão saltos possibilitou grandes aspectos, pela democratização do conhecimento, pelo surgimento alicerces religiosos que sustentavam os valores da civilização ocidental em con- nos entre outros extremamente eficazes para a construção de novos conhecimentos sequência do tipo de ciência que passou a predominar: uma ciência materialista, de e pela técnicas presença de um espírito científico de investigação aberta e validação determinista, destruidora, cheia de certezas, que ignora o diálogo e as interações que existem entre os indivíduos, entre ciência e sociedade, técnica e política. pública do conhecimento. Entretanto, a descrição reducionista representou um certo perigo Insensível aos valores, o método reducionista foi se enraizando em partir do momento em que o método analítico moderno, fruto do racionalismo nossa cultura e levou-nos a um processo de alienação e a uma crise planetária científico, foi interpretado como sendo a explicação mais completa, a de abrangência multidimensional, traduzidos por processos de válida do conhecimento, ao focalizar as partes, ao conhecer as unidades atomização e desvinculação. Em consequência, a cultura foi ficando dividida, os gem constitutivas, ao retalhar a visão de totalidade. Representou, também, um valores, cada vez mais individualizados, e os estilos de vida, mais patológicos. certo perigo ao valorizar os aspectos externos das experiências Como nunca antes ocorrera, o homem alienou-se da natureza, do trabalho, de si mesmo e dos outros. Dividido no conhecimento, dissociado em internas do indivíduo, ao fundamentar-se sobretudo na razão suas emoções e em seus afetos, com a mente técnica e o coração vazio, sem um sensações expressas pelos cinco sentidos. trabalho digno e satisfatório, compartimentalizado no viver e profundamente A ciência clássica criou um mundo pentassensorial limitado pelos infeliz. Tendo à sua disposição um arsenal tecnológico sem precedentes na sentidos e que podia ser cheirado, ouvido, degustado, tocado ou visto, e do história da humanidade, o homem foi criando um mundo desditoso, talado qual se podia manipular e controlar as coisas. Isso talvez fosse importante por guerras, em permanente estado de conflito. Um mundo onde já não mais o estabelecimento de uma ciência forte. No entanto, reducionismo e holismo, se conjugam os verbos compartilhar e cooperar, onde não mais há compaixão análise e síntese, linear e não linear, indução e dedução, observador e observa- e solidariedade no cotidiano das pessoas. do, sujeito e objeto são aspectos complementares, dois lados de uma mesma Na preponderância de suas aplicações, o racionalismo tornou-se uma moeda, que, quando interagem de forma equilibrada, permitem-nos chegara forma de controle e dominação da natureza e do homem pelo próprio homem, um conhecimento mais profundo e mais completo do mundo e da ao produzir aplicações tecnológicas tão ameaçadoras quando desvinculadas de uma compreensão metafísica mais ampla. 42 43material no Esses de serviços, busca cosmovisão uma cosmovisão carece newtoniana de com do explicação adequada essa do, exercem nos seres vivos, fazendo voltada com que vitais na ciência rejeitasse essas compreensões em mecanicistas de científico ocidental foram vida orgânica. a previsão, essa agonia Gerber (1993) afirma que a atual farmacoterapia ainda newtoniana para que possamos no sentido de operar sob um ponto de vista que corpo humano atuais como um complexo biomaquinismo. Em vez de usar instrumentos cujas do mundo cos cortantes, os médicos usam drogas para enviar substâncias mágicas cirúrgi- começar a procurar determinados tecidos do corpo. Assim, tanto a abordagem cirúrgica a tendo to a farmacológica tentam proporcionar avanços nos diagnósticos quan- soluções processo de renovação tratamentos das enfermidades Ambas de vista e nos de eixo implicações do pensamento cartesiano-newtoniano que o corpo humano é um mecanismo complicado constituído por órgãos Quais são algumas físicos, substâncias químicas, enzimas e receptores de membrana. Para ele, nossas do homem-máquina que aloja essa visão é só uma aproximação da realidade, constituindo-se numa abor- uma o dualismo entre dagem incompleta que ignora as forças vitais que animam a dos sistemas vivos. profundas repercussões no alma, continua corpo nas mais diferentes áreas do Ao contrário das máquinas, o corpo humano e os seres humanos são dental, com desdobramentos medicina, na psicologia e na educação, mais do que a soma de um conjunto de substâncias químicas ligadas umas às na biologia, na outras. Para Gerber (1993, p. 34), humano, como Essa visão nos levou a delas. aceitar o nosso citar apenas algumas mente, como coisas absolutamente separado de nossa volumosa todos os organismos dependem de uma força sutil e vital que cria corporal, divisível, e substância uma sinergia graças a uma singular organização estrutural dos com- lado, era uma substância mental, indivisível, fluida, ponentes moleculares. Por causa dessa sinergia, um organismo vivo outro, a mente. compreensão De alterou significativamente os rumos medicinal da medicina é mais do que a soma das partes. A força vital organiza os sistemas prática vivos e constantemente renova e reconstrói os seus veículos celulares razão das direções assumidas por uma de expressão. Isto é o que diferencia os sistemas vivos dos não-vivos Richard Gerber (1993), a visão do corpo humano como e as pessoas das máquinas. Segundo complexa ainda prevalece na medicina tradicional máquina as dimensões psicológicas das devida seriedade doenças Hoje, já começa a ser aceito o fato de as dimensões psicológicas provo- com a cias na matéria corporal. carem doenças no corpo, acreditando que cérebro e corpo estão integrados por Essa visão do corpo humano composto de engrenagens, e podendose circuitos bioquímicos e neurais recíprocos e direcionados de um para o outro. completamente entendido em termos de organização e funcionamento de Damásio (1996) confirma este aspecto ao reconhecer que cada músculo, arti- suas peças, vem dificultando o conhecimento de muitas enfermidades e suas culação ou órgão interno envia sinais para o cérebro através de nervos perifé- respectivas curas, ao negligenciar os aspectos psicológicos, e ricos. E que as substâncias químicas surgem da atividade do corpo, podendo atravessar o cérebro navegando pela corrente sanguínea e influenciando o seu tais das doenças. Segundo Richard Gerber (1993, p. 35), em seu livro Medicina vibracio- funcionamento. Por outro lado, o cérebro pode também atuar através dos nal, "os médicos modernos estão profundamente entrincheirados dentro de nervos em todas as partes do corpo, produzindo substâncias químicas, como, por exemplo, os hormônios. 44 45nosso A planeta. ecologia A nos ecologia ensina nos que ensina a que a terra "corpo" e que devemos aprender a nós tê-los mesmos. por todas Os as mesmos outras sentimentos a formas em nossa de vida devemos - florestas e os mares. A as tremenda beleza baleias, as do focas, as da pensamento propiciando-lhe ele da própria nos mostra vida o caminho uma de volta para a que compreensão apreciação extrair, sob tortura, todos rativas daquele próprio caminho impe- de existente entre de a Em outras áreas do conhecimento, como sociais que a técnica e a cialmente a economia, percebemos que a adoção da cartesiana e espe- acabassem modelo para teorias e conceitos científicos tornou-se também uma desvan- como fato colocou em risco não que tanto tagem, pois a estrutura cartesiana se mostra inadequada ao descrever da fenômenos sociais e, em decorrência, estes se mostram cada vez mais os ação irrealistas. a provocando "a ciência criou a Na economia, por exemplo, esse tipo de pensamento se Edgar coisa que ninguém havia uma maneira relativamente clara, pois a maioria dos economistas apresenta não de destruir tecnologia humana está nhece que a economia é meramente um dos aspectos de todo um reco- de Para Capra processos ecológicos que sustentam ecológico e social, um sistema vivo constituído de seres humanos em contínua contexto os perturbando própria base de nossa existência", interação com os recursos naturais. Ela depende também da ecologia, de que são a ambiente natural da água e do ar com resíduos químicos. recursos minerais, dos combustíveis fósseis, dos recursos ambientais e de seus Segundo constantes do estão a miopia ecológica e a ganância capacidade de absorver detritos. Há uma cisão entre as políticas econômica, sua problema social e ambiental. o autor, no âmago sistema econômico obcecado pelo crescimento de e pela rial, expansão decorrentes que continua a intensificar a produção tecnológica numa tentativa Negligencia-se, portanto, o aspecto econômico referente à evolução extremamente dinâmica da economia. Sabemos que os sistemas econômicos aumentar a produtividade. estão em contínua mudança e evolução, dependendo de inúmeros outros Para manter todo esse processo os países continuam investindo pesa- fatores também mutáveis como os sistemas sociais e ecológicos com os quais damente na exploração desses combustíveis fósseis não renováveis, causando estão em constante interação. Mas a rigidez dos sistemas econômicos e a pouca também perturbações ecológicas graves e muito sofrimento flexibilidade de sua estrutura conceitual impedem sua adaptação às novas A crise atual não é apenas pertinente a um ou outro ou esta situações de uma maneira mais flexível e contínua e, dessa forma, eles se ou àquela sociedade. É uma crise de dimensões planetárias, envolvendo distanciam das realidades indivíduos, nações, todo o ecossistema, e que requer uma visão de unidade No caso das ciências sociais, a questão dos valores culturais é de para que nos aproximemos mais da natureza, eliminando a separatividade extrema importância, tal como na economia que se ocupa da produção, da ilusória, o ego excessivo cuja presença nos separa dela. A aproximação coma distribuição e do consumo de riquezas, tentando determinar o que é e o que natureza nos devolve as dimensões de fraternidade e humildade ao com- não é valioso, implicando os valores relativos de troca de bens e serviços. preendermos nossa pequenez diante de um todo infinitamente grande. Sabemos que os valores que predominam nos modelos econômicos dos Esta também é a filosofia do ativismo ecológico Greenpeace para o qual: países desenvolvidos, ou em desenvolvimento, são aqueles que podem ser quantificados, mediante a atribuição de pesos e poderes monetários, demons- 46 47com que a economia vem provocando atual, pois o se previa que o avanço tecnológico seria capaz de entre as teorias psicológicas implica o econômica do operário individual. A sociedade sociais, normalmente negligenciadas pelos aumentar desta questão, tendo em vista o precário conheci- mensões qualitativas (1988). continua decorrentes das mudanças implicações tecnológicas que estão cos, como nos de desenvolvimento mento das Os seja, ocorrendo no ou a ponto de vista cartesiano, significa rigidez, conformis- de valorizam obsessão pela tecnologia de cima para baixo, objetivos impostos, fragmen- expansão, racionalismo crítico, do empirismo do e do valorização manipuladora da era industrial. mo, e ênfase nas tarefas especializadas, na separação uma mentalidade tação nas operações centralizadas. Como sociedade, estamos renda, os lucros obtidos, os aumentos, nível de o Uma das características deste paradigma interno pouco longe de compreender que o trabalho possa ser um meio de bens tangíveis. a da sociedade, com a valorização tarização econômica um pessoal, gratificação e autorrealização, e que o processo é tão impor- cada humanas. A produção econômica tem tante quanto produto. atividades crescimento econômico Cientistas sociais acreditam que, a longo prazo, o futuro da sociedade sociedade, e o passou a da sociedades julgam o seu progresso. Este é principal as avaliado industrial se caracterizará por desemprego e subemprego ainda mais crônicos. qual pelo quantitativo, sendo que o processo pouco importa. Alegam que, a longo prazo, o crescimento econômico poderá não mais conse- Há, portanto, uma crença na necessidade de guir gerar empregos suficientes para acomodar um contingente cada vez desmesurado, a qualquer preço, decorrente maior de mão de obra, e, mais, que a qualidade dos empregos disponíveis de valores expansão, autoafirmação poderá não ser compatível com a elevação dos níveis educacionais da força de e competição noção newtoniana de espaço e tempo absolutos e infinitos. estão que trabalhadora. o que fazer então? Segundo Harman e Hormann (1990), os conceitos pensamento linear, da crença errônea de que se algo é para atuais sobre negócios e trabalho, sobre a teoria do emprego e do bem-estar, e bom para o grupo, para a familia e para a sociedade. sobre as análises liberais e marxistas baseiam-se numa sociedade cujo princi- individualismo e de uma abordagem competitiva e pal objetivo é a produção, e seria justamente isso que se tornou obsoleto. prejudicando, cada vez mais, nossa vida individual Na era da informação, em que os recursos estratégicos são a informa- presentes nesse tipo de competição se traduzem em ção, conhecimento e a criatividade, o objetivo principal de uma corporação, "tempo é dinheiro". segundo Harman, deverá ser o capital humano as pessoas o que requer uma Atualmente, discute-se a necessidade de mudança nas estruturas organizacionais e nos procedimentos por parte das "produtividade" e "lucro", partindo de uma compreensão corporações, no sentido de estabelecer uma nova cultura voltada para o realidade, em que riqueza e conhecimento deverão significar desenvolvimento pessoal. É preciso redirecionar a política cuja ênfase está no do que o acúmulo de bens materiais, devendo incluir, produto e no lucro para o progresso humano e a plena realização pessoal, ao de realização, de esforço mútuo para enriquecimento mesmo tempo em que, em vez de considerar os investidores ou os acionistas desenvolvimento como os principais responsáveispor "dar as cartas" na empresa, é necessário que comecemos a nos preocupar em aumentar a influência dos empregados, Isso inclui, necessariamente, uma revisão importante e criar diferentes formas de participação na sociedade empresarial. preendemos como trabalho, cujos conceitos básicos foram momento atual requer uma nova forma de pensar na qual a substi- época em que sua função social primária era produzir bens e tuição em grande escala do trabalho humano por máquinas possa também servir de estímulo para uma retomada de pressupostos básicos. Nesse sentido, 48 49transcender os lucros M espirituais na nos humanos de na qual valores estar no bem-estar do homem, mecanicista de Newton, pelas regras metodológicas de Descartes, os deverá nova minismo mensurável, pela visão fechada de um universo linearmente pelo deter- desenvolvimento implicaria, valores para Consequentemente, é uma escola submetida a um controle rígido, At culturais, indivíduo, incluindo Harman paternalista, hierárquico, autoritário, dogmático, não percebendo as a um sistema não seu redor e, na maioria das vezes, resistindo a mudanças sociais de P significado enriquece profissional, mas relacionamentos de que da (1990), pessoal redefinição qualidade e Hormann terceiros. Essa do Uma escola que continua dividindo o conhecimento em M significativos a com base revolucionária, na qual significado especialidades, subespecialidades, fragmentando o todo em assuntos, serviços ocorre prestação de noção uma do o corpo em cabeça, tronco e membros, as flores em pétalas, partes, a história separan- contém a trabalho papéis do trabalho. fatos isolados, sem se preocupar com a integração, a interação, em do dos influências do pensamento reestruturação as dade e a síntese. É o professor o único responsável pela transmissão a continui- educacional, considerando seu significado para a Na conteúdo, e em nome da transmissão do conhecimento continua do ainda mais graves para o futuro da implicações aprendiz como uma tábula rasa, produzindo seres subservientes, vendo o niano parecem gerações, com sérias as transformações necessárias para o tes, castrados em sua capacidade criativa, destituídos de outras obedien- de novas de produzir educação atual continua a gerando expressão e solidariedade. Segundo Paulo Freire (1987), é uma formas de na Em vez ser humano, do harmonioso preestabelecidos, com base em um sistema de "domesticadora", "bancária", que "deposita" no aluno informações, educação fe/ mento do comportamento a não expressar o pensamento fatos, uma educação em que o professor é quem detém o saber, a autoridade, dados, de não questionar, Ap ensina a autoridade, a ter certeza das coisas. é quem dirige o processo e representa um modelo a ser seguido. za que nos aceitar passivamente a limitando nossas crianças ao espaço Em termos de conteúdo, é um modelo que apresenta propostas volta- CO continuamos Na escola, silenciadas em seus movimentos, em das para a aquisição de noções que enfatizam a assimilação, o conhecimento imobilizadas suas Me suas carteiras, sua criatividade e em em suas acumulado, o caráter abstrato e teórico do saber e a verbalização dele decor- pe de pensar. Reduzidas impedidas crianças encontram-se também limitadas em rente. De acordo com essa visão, conteúdo e produto são mais importantes sua Ide sociabilida. expressão, as impossibilitadas de experimentar o processo de construção do Em termos metodológicos, que de mente racional, novos aulas são expositivas, os alunos fazem exercícios de fixação traduzidos as à sua bc e de, de presas conquistar novos espaços. necessitam leituras e cópias. Os horários e os currículos são rígidos, em II, de folhas em branco para a Quando as crianças baseados na eficiência e na padronização, e calibrados pela mensuração espaços quadriculados e criatividade, oferecemos questões de continua separando ganhadores e perdedores. Os alunos estão segregados que por de sua construção do processos interativos para a conhecimento idades, compartimentados em fileiras bem comportadas, vivenciando um Em vez de escolha. delas memorização, repetição, no exigindo progresso controlado com base em um bloco único e As continuamos resultado ou produto, recompensando seu conformismo, sua boa normas disciplinares são rígidas, fazendo com que submissão e obediência cega sejam virtudes a serem do, punindo "erros" e suas tentativas de liberdade e expressão. Em vez de convergentes e inseparáveis, educação e liberdade constituem palavras conhecimento humano é adquirido pelo indivíduo por meio da transmissão estruturadora do processo ensino-aprendizagem, e o sujeito tem gônicas e excludentes. um papel insignificante em sua aquisição e em sua elaboração. A educação, na Onde estará a origem de tudo isso? Por que nossas escolas continuam maioria das vezes, é compreendida como instrução e está circunscrita à ação repetindo, confirmando e reconfirmando o velho ensino? Apesar de da escola. A ênfase é dada às situações de sala de aula, nas quais os alunos são correntes filosóficas que continuam disputando o espaço pedagógico, 0 que instruídos pelos professores. observamos é que a escola atual continua influenciada pelo universo estávele 50 51um papel central avaliação, as provas a memória Em privilegiando e a termos de do aluno, preocupação professor do é comportamento que formas mais sofisticadas e sutis que tornam o operário dócil e nando acumulado. A o que foi maneira determinada, e o aluno a autora, o taylorismo e a burocracia dele decorrente impessoalizam a Para expressar o específicos, de anseio de tendo referencial conhecimentos como aquilo do que não mais aparece como a face que oprime, mas que se encontra diluída ordem adquira boas notas, que das para tirar é "galerias" nos murais nas ordens de serviços dos setores de planejamento e controle. Estes produzem jovem estudar isso as escolas Acrescentam-se a alunos e uma avaliação será competição uma grande papelada, uma "bela" burocracia, tentando alcançar um saber cobrado. entre e punições, a visto como um princípio organizador importante objetivo, desinteressado e competente, o que para Aranha (1989), na realidade, prêmios diploma é de todo um ciclo de o estudos. é apenas uma imagem de uma técnica social de dominação. o taylorismo seletiva. e da consagração coroamento estática, podendo ser representado influenciou a educação tecnicista muito utilizada no Brasil na época da dita- bolo do possui uma natureza por cimento parede simbolizando o seu ponto de dura militar. pergaminho pendurado na chegada Criticamos também a postura da escola pública brasileira e dos siste- "final da linha". forma de perceber a educação traduzem mas educacionais em suas mais diversas instâncias que continuam caracteri- Essa concepção e essa a por força dos zando-se como instituições fechadas, passivas e obedientes, cumpridoras de conhecimento ocorre algo vem empirista do mundo em que do o objeto (meio físico e social) e este é o determinante que do normas e decisões provenientes de outras estruturas centrais existentes no próprio país ou fora dele e, portanto, longe do seu contexto social. o fato de a sujeito e não tendência o contrário. pedagógica está sob a influência da filosofia positivista escola apenas cumprir, obedecer e pouco "pensar" tem levado a um certo descompromisso com a qualidade dos serviços que vêm sendo prestados. Ese Essa no século XIX, cujo principal representante foi está Augusto Comte. Para isso ocorre em nível de administração da escola, possivelmente ocorrerá surgida isto é, o é só o positivo, que sujeito ao método ele, o objetivo e experimentação, da ciência analisando apenas os fatos e as suas leis. de também na sala de aula, no ambiente de aprendizagem, refletindo uma falta de postura filosófica, pedagógica e administrativa, demonstrando muito pou- observação tivo é o que é real, palpável, baseado em fatos experimentais. CO compromisso com a educação em si e um desconhecimento das diferentes Uma outra corrente proveniente do pensamento positivista e dimensões do fenômeno educativo. pela psicologia behaviorista é a pedagogia tecnicista, em que o elemento Um outro exemplo da aplicação do velho paradigma são os tipos de ( principal ciada do processo educacional é a organização racional dos meios, software que vêm sendo utilizados pela maioria das escolas como versão do sua eficiência e sua eficácia. Nessa corrente, professor e aluno são computadorizada dos métodos tradicionais de ensino, tais como as categorias executores de um processo concebido por uma equipe de planejamento de tutoriais, exercício e prática (drill-and-practice), jogos e certos tipos de rios, controle, a cargo de especialistas preocupados com a "neutralidade" simulações. Existem bons e maus programas nessas diferentes modalidades, e objetividade e a imparcialidade da ação educacional. Essa abordagem consi- mas, em sua maioria, a qualidade pedagógica é considerada muito baixa. É a dera a experiência, ou a experimentação planejada, como base do conhecimen- expressão da velha roupagem numa nova versão computacional perpetuando to, o que denota sua origem também empirista de que o conhecimento é 0 o velho paradigma, otimizando o péssimo. Apesar de certas "vantagens", C resultado direto da experiência. esses tipos de programas continuam sendo uma versão computadorizada dos C tradicionais métodos de ensino decorrentes da visão mecanicista, da mesma A escola tecnicista, surgida a partir da década de 1960, buscava a d forma que os programas de exercício e prática utilizados para a revisão de racionalização e a produtividade típica de um modelo empresarial capitalista. li assuntos, envolvendo a repetição e a memorização por parte do aluno. Era um reflexo da proposta taylorista voltada para a especialização de funções, p separando setores responsáveis pelo planejamento, pela realização ou pela A maioria das propostas de uso das tecnologias informacionais na S educação continua sustentando a fragmentação do conhecimento e, conse- r execução do processo de ensino-aprendizagem. Segundo Aranha (1989), 0 quentemente, a fragmentação da atividade pedagógica. Propostas usando taylorismo substituiu as formas de coação visíveis, de violência direta, por rádio, televisão e computadores continuam sendo baseadas apenas em sua 52 53utilização como máquinas de ensinar, transmitindo conteúdos, dados mações, sem um processo reflexivo, depurativo de e mento. E, dessa forma, estamos subestimando as possibilidades e as do lidades de tais recursos. Na verdade, precisamos fugir do modelo cartesiano-newtoniano do, fragmentado, autoritário, desconectado do contexto, que concebe ma educacional e o ser humano como máquinas que reagem a o externos. Esse modelo continua seguindo um enfoque gerencial de estímulos de conhecimento para consumo, por parte de uma população "amorfa" absolutamente indiferenciada. Um modelo que continua definindo comporta- mentos de entrada e saída numa verdadeira "linha de montagem", sequencial hierárquica, previamente estruturada pelo professor ou pelo planejador seu gabinete e completamente alienada do contexto sociocultural do em víduo. Um modelo que continua avaliando padrões de comportamento previamente definidos, em que o "erro" é visto como elemento de punição e de controle do sistema. Acreditamos que é preciso ir um pouco mais além das propostas parabólicas, pensando que, com isso, estaremos dando um salto para o futuro. Caso contrário, corremos o risco de estar dando mais um salto no escuro. Precisamos fugir do velho modelo tecnicista, da pedagogia transmissi- va, e encontrar uma nova forma de trabalhar em educação diferente da sequência de conteúdos preestabelecidos, de disciplinas estanques, em feedback, em vez de emergir do controle externo ao indivíduo, constitua-se que o de mecanismos internos de autorregulação, algo que parte de dentro do sujeito em e sua relação com os demais indivíduos e com sua realidade.

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