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Repensando a Teoria Literária Contemporânea João Sedycias, Ph.D. [organizador] Repensando a Teoria Literária Contemporânea Apresentação de Cíntia Moscovich Projeto internacional em conjunto da International joint project of Recife, PE, Brasil | 2015 Southern Illinois University Edwardsville Edwardsville, Illinois Estados Unidos da América Universidade Federal de Pernambuco Recife, Pernambuco Brasil vrau wkthbs wsus wvdkutk hhj - hhbc wh,atficha catalográfica (pode alterar a fonte para compor o projeto do gráfico do livro, mas deve-se evitar a mudança nos recuos e espaços definidos pelos bilbiotecários) Catalogação na fonte: Bibliotecária Fulana de Tal, CRB4-XXXX 1ª Edição XXXX Xª Edição (Ano corrente) Todos os direitos reservados à Universidade Federal de Pernambuco Reitor: Prof. Anísio Brasileiro de Freitas Dourado Vice-Reitor: Prof. Sílvio Romero Marques Diretor da Editora: Prof. Lourival Holanda Comissão Editorial Presidente: Prof. Lourival Holanda Titulares: Ana Maria de Barros, Alberto Galvão de Moura Filho, Alice Mirian Happ Botler, Antonio Motta, Helena Lúcia Augusto Chaves, Liana Cristina da Costa Cirne Lins, Ricardo Bastos Cavalcante Prudêncio, Rogélia Herculano Pinto, Rogério Luiz Covaleski, Sônia Souza Melo Cavalcanti de Albuquerque, Vera Lúcia Menezes Lima. Suplentes: Alexsandro da Silva, Arnaldo Manoel Pereira Carneiro, Edigleide Maria Figueiroa Barretto, Eduardo Antônio Guimarães Tavares, Ester Calland de Souza Rosa, Geraldo Antônio Simões Galindo, Maria do Carmo de Barros Pimentel, Marlos de Barros Pessoa, Raul da Mota Silveira Neto, Silvia Helena Lima Schwamborn, Suzana Cavani Rosas. Editores Executivos: Edigleide Maria Figueiroa Barretto, Rogério Luiz Covaleski e Silvia Helena Lima Schwamborn Rua Acadêmico Hélio Ramos, 20, Várzea, Recife, PE | CEP: 50.740-530 Fone: (0xx81) 2126.8397 | Fax: (0xx81) 2126.8395 www.ufpe.br/edufpe | livraria@edufpe.com.br 9 Sobre o[a]s Autore[a]s 23 Apresentação Cíntia Moscovich 25 Prefácio João Sedycias (Organizador) State University of New York College at Oneonta, USA 33 1. O que é e o que não é literatura? Anco Márcio Tenório Vieira Universidade Federal de Pernambuco 87 2. A teoria literária: desprestigiada e imprescindível Lourival Holanda Universidade Federal de Pernambuco 105 3. Crítica literária: seu percurso e seu papel na atualidade Roberto Acízelo de Souza Universidade do Estado do Rio de Janeiro 121 4. Reflexividade, Romantismo e Modernismo Sueli Cavendish Universidade Federal de Pernambuco 179 5. Fenomenologia e Hermenêutica: impactos sobre os estudos literários Maria da Glória Bordini Universidade Federal do Rio Grande do Sul 217 6. A Nova Crítica José de Paiva dos Santos Universidade Federal de Minas Gerais 235 7. Estruturalismo e Semiótica Regina Lúcia de Faria Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro 289 8. Literatura e psicanálise: confrontos Adélia Bezerra de Meneses Universidade de São Paulo Universidade Estadual de Campinas 321 9. Estética da Recepção e do Efeito ou há um leitor no horizonte? Carmen Sevilla Gonçalves dos Santos Universidade Federal da Paraíba 365 10. Marxismo Edu Teruki Otsuka Universidade de São Paulo 407 11. Feminismo e literatura: apontamentos sobre crítica feminista Cecil Jeanine Albert Zinani Universidade de Caxias do Sul 437 12. Formalismo russo: uma revisão e uma atualização Aurora Fornoni Bernardini Universidade de São Paulo Sumário 477 13. Walter Benjamin e sua teoria crítica Márcio Seligmann-Silva Universidade Estadual de Campinas 515 14. Uma literatura pensante: as desconstruções e o pensamento de Derrida Evando Nascimento Universidade Federal de Juiz de Fora 557 15. A literatura e o pensar: notas sobre a trajetória intelectual de Jonathan Culler Sueli Cavendish Universidade Federal de Pernambuco 607 16. Multitransintercultura: literatura, teoria pós-colonial e ecocrítica Roland Walter Universidade Federal de Pernambuco 663 17. Vozes autóctones das Américas: o discurso contracanônico da crítica indígena Eloína Prati dos Santos Universidade Federal do Rio Grande do Sul 689 18. Futuros (im)possíveis da (in)disciplina teoria da literatura André Monteiro Universidade Federal de Juiz de Fora Sobre o(a)s Autore(a)s JOÃO SEDYCIAS — Organizador da presente coletânea. Ph.D. em literatura comparada pela Universidade do Estado de Nova York em Buffalo (State University of New York at Buffalo), com a tese Crane, Azevedo, and Gamboa: A Comparative Study (Crane, Azevedo e Gamboa: um estudo comparativo). Em Buffalo, além de lidar com teoria literária no programa de literatura comparada, trabalhou, tam- bém, no Departamento de Línguas Modernas, como colaborador de pesquisa e assistente administrativo de Peter Boyd-Bowman na área de filologia hispânica (história da língua espanhola). De 1990 a 1997, chegou ao nível de Associate Professor de língua e literatura espanho- la e hispano-americana na Universidade do Estado da California em Sacramento (California State University, Sacramento). Regressando ao país de sua infância, de 1999 a 2002 foi professor titular visitante de espanhol e inglês no Departamento de Línguas Estrangeiras e Tradução da Universidade de Brasília, onde ajudou a estabelecer e desenvolver o programa de pós-graduação em linguística aplicada ao ensino de línguas estrangeiras. De 2002 a 2006, foi professor adjunto e, de 2003 a 2006, chefe do Departamento de Letras, na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), onde atuou nas áreas de inglês e espanhol. De volta aos Estados Unidos, de 2006 a 2011 ocupou o cargo de professor titular de espanhol e inglês e chefe da Divisão de Ciências Humanas da Faculdade do Condado de Essex 1110 (Essex County College) em Newark, Nova Jersey. Subsequentemente, de 2011 a 2014 foi professor titular efetivo de línguas espanhola e portuguesa na Universidade do Sul de Illinois em Edwardsville (Southern Illinois University Edwardsville), onde também atuou como chefe do Departamento de Línguas e Literaturas Estrangeiras. Em agosto de 2014, aceitou o convite e assumiu o posto de Professor Titular de Espanhol & Português e Decano Fundador da Escola de Artes & Humanidades na Universidade do Estado de Nova York em Oneonta (State University of New York College at Oneonta) e hoje mora na região das Montanhas Catskill, na parte central desse esta- do. Além de organizar a presente coletânea, é autor e organizador de vários livros sobre língua, literatura e cultura publicados no Brasil e no exterior, entres eles: The Naturalistic Novel of the New World (1993), Tópicos em linguística aplicada – Issues in Applied Linguistics (2000), O ensino do espanhol no Brasil (2005) e A América hispânica no imaginário literário brasileiro / Brasil en el imaginario literario hispanoamericano (2007). Interesses atuais incluem a teoria literá- ria, principalmente nas suas vertentes contemporâneas, a aplicação da tecnologia da informação e da Internet ao ensino de línguas estrangeiras (especialmente espanhol e inglês para lusofalantes), história da língua espanhola, literatura e cultura latino-americana e literatura do Siglo de Oro espanhol. ANCO MÁRCIO TENÓRIO VIEIRA — É Mestre em Teoria da Literatura (UFPE), Doutor em Literatura Brasileira (UFPB) e, atualmente, é professor Associado I do Departamento de Letras da UFPE. Co- editor da revista Investigações, do Programa de Pós-Graduação em Letras, tem trabalhos publicados na Revista USP, Ciência & Trópico, Luso-Brazilian Review, Estudos Portugueses, Cultura Vozes, Encontro, Cadernos Daimon, entre outros periódicos do Brasil e do exterior. Colaborou, como verbetista, na BIBLOS — Enciclopédia VERBO das literaturas de língua portuguesa (Coimbra, 1999, v. 3; 2001, v. 4; e 2004, v. 5). É autor de Luiz Marinho: o sábado que não entardece (FCCR, 2004), Adultérios, biombos e demônios (PPGL, 2009), Orley Mesquita: prosa e verso (CEPE, 2012), e é coautor dos livros O caminho se faz caminhando: 30 anos do ProgramaMito, e da produção dos poetas ditirâmbicos ou líricos, ele, o poeta, deve se submeter ao que é inerente à natureza do fato artístico: representar o que poderia acontecer. Para se entender melhor os argumentos de Aristóteles, lem- bramos que é na oposição firmada, desde fins do século VI a.C., entre “Mito” e “Lógos” (λόγος), que se calçou o antagonismo entre a História e os gêneros poéticos (particularmente a tragédia e a epopeia); entre o “acontecido” e o “acontecível”. “Lógos”, no senti- do de razão, racionalidade, ordem racional do cosmo e da beleza; “Mito”, como narrativa sobre matéria ilusória, fantasiosa, da ordem do irracional e do incognoscível. A História nasce e se constitui por negação do mítico. O historiador, diverso do poeta, é “aquele que vê”, que “procura saber”, “informar-se”, que investiga49. Mas se Aristóteles não acatava a História como matéria da filosofia, por tratar do particular e por não ser predicado de vários objetos; se 48 (ARISTÓTELES 1994:143, 1460b, 8-10) 49 (LE GOFF 1994:17) os gregos tinham uma cultura anti-histórica, pois suas concepções cíclica e repetitiva da história não acatavam o presente como algo diverso do passado e do futuro e, por sua vez, o futuro como um evento que seria distinto do presente (os sofistas, p. ex., acreditavam na ideia de progresso técnico, mas não na de progresso moral), por que eles criaram a História? Para Jacques Le Goff, duas foram as motivações. A primeira, étnica. Era preciso se distinguir dos bár- baros. Neste caso, “a concepção de história está ligada à ideia de civilização”. A segunda, como arma política e memória das famílias nobres e dos sacerdotes dos templos50. José Carlos Reis nota que o conceito grego de História desconhecia as ideias de “humanidade universal”, “progresso”, “evolução” ou mesmo a proposição de que a humanidade tinha um destino. Preocupações que só nasceriam com os historiadores latinos (a exemplo de Políbios) e cristãos. Para os gregos, a “sua história apenas ensinava, em relação ao futuro, a necessidade da memória, da prudência, da cautela, da resignação”51. Cultores de uma teoria dos ciclos da idade, os gregos (a exemplo de Heráclito) acreditavam que cada ciclo durava 18.000 anos — “Princípio e fim se reúnem na circunferência do círculo”, afirmava Heráclito52. À Idade do Ouro, seguiriam as Idades de decadência e, na ordem cíclica, ao fim dessas Idades, ressurgiria a Idade do Ouro. “Sob a ação do fogo, elemento fundamental, o mundo conhece, atra- vés dos contrários em perpétuo fluxo de interação, fases alternadas de criação (gênesis) e de desintegração [consumação] (ekpýrosis) que se exprimem por uma alternância de períodos de guerra e de paz”53. Filhos do “Logos”, da razão, da racionalidade, da explicação natural, os historiadores gregos buscavam dar ao mundo um sentido 50 (LE GOFF 1994:62) 51 (REIS 2006:16) 52 (HERÁCLITO 1991:87, frag. 103) 53 (LE GOFF 1994:297) 5150 Anco Márcio Tenório Vieira Capítulo 1 . O que é e o que não é literatura? metafísico, tal como a ordem e a beleza imutáveis do universo. Ao compararem a História —“[...] o lugar sublunar da mudança, da de- sordem”54 — com o cosmo, os historiadores abstraíam a história e o tempo e buscavam estabelecer a ordem das coisas, a ordem que esta- ria na “substância” das mudanças. “A palavra ‘destruição’ significava só ‘mudança’ e todas as idades voltariam a existir com as mesmas coisas e os mesmos homens”55. Assim, as destruições advindas dos eventos históricos seriam apenas aparentes, pois elas encerravam uma ordem imutável. “A mudança não poderia levar ao ser, pois um ser que muda já não é. O ser-que-é é alheio à mudança, imutável, estável, permanente, sempre presente”56. A “natureza humana” está subordinadas a ciclos (crescimento, decadência e morte), mas, aos olhos da razão grega, ela é imutável, pois as pulsões e as necessida- des dos homens foram, são e serão sempre as mesmas, assim como a ordem existente no universo. O sentido de que a história tinha como fim trazer para a humanidade a felicidade inexistia para os gregos. Se existia uma felicidade a ser conquistada, esta era indivi- dual, proporcional aos feitos heroicos de cada um. Feitos que davam ao indivíduo o direito de ser lembrado pelos pósteros57. Os gregos, nota José Carlos Reis, [...] não se perguntavam ‘o que fazer?’, questão que indica o fu- turo, mas ‘o que aconteceu?’, questão que aponta para o passado, que preferiam recente. Não se interessavam historicamente pelo futuro como ‘humanização’, nem pelo longínquo passado, que tratavam miticamente. Acreditavam que o futuro individual já estava dado e podia ser antevisto pelos oráculos. Os homens do 54 (REIS 2006:16). 55 (LE GOFF 1994:298). 56 (REIS 2006:17) 57 (REIS 2006:16) futuro não seriam melhores do que os passados e os atuais. Os oráculos tinham o dom de ver a vida predestinada dos indivíduos que as musas lhe sopravam. Estas conheciam tudo: o passado e o futuro. Os eventos presentes e passados tinham as mesmas características. Heródoto só queria evitar o esquecimento das singularidades humanas. O significado dos eventos lhes era im- plícito e não os transcendia.58 Se a mudança implicava na ideia de que era possível alterar a imutabilidade da ordem cósmica, ideia desdenhada por historiado- res e filósofos gregos, o Mito, que se inscrevia na ordem do irracional e do incognoscível (ordem “[...] incompatível com um pensamento que buscasse a verdade”59), encerrava tanto a “fortuna”, o “acaso” e a “contingência” quanto a “sorte-azar” e a “vicissitude”: as peripécias da riqueza para a pobreza, da vitória para a derrota, da escravidão para a liberdade e vice-versa60. O Mito, distinto do evento histórico, podia ser tomado como objeto do “acontecível” sem que tal condi- ção ferisse a verdade histórica ou filosófica, pois ele continha em si o acaso que os homens estão sujeitos ao longo da existência. Desse modo, esse caráter incognoscível do Mito permite que o poeta colha dele mais significados do que ele pode oferecer. É dessa forma que as Musas proclamavam “muitas falsidades, que se parecem com a ver- dade; mas também, quando queremos, proclamamos verdades”61. Em outras palavras: se, para Tucídides, o destino de determinados eventos ou personagens é uma preconização dos oráculos e das interferências míticas, para os gêneros poéticos eles, os oráculos e as interferências míticas, ficam parede-meia entre a falsidade e a 58 (REIS 2006:17-18) 59 (REIS 2006:17) 60 (REIS 2006:17) 61 (HESÍODO 2005:102) 5352 Anco Márcio Tenório Vieira Capítulo 1 . O que é e o que não é literatura? verdade: dentro do horizonte do “acontecível”. Livrando-se dessa camisa de força imposta pela História, o Mito (como guardião da natureza inconsciente dos desejos e dos valores coletivos) pode encerrar o “predicado de vários objetos”. Assim, ao se ater ao even- to que marca “[...] a mutação dos sucessos no contrário”62, isto é, aquele em que o Reconhecimento e a Peripécia provocam na vida do personagem “[...] a passagem do ignorar ao conhecer [...]”63 e, por extensão, suscitam o terror e a piedade no leitor/expectador — a Catarse (kátharsis, Κάθαρσις), a purificação —, o poeta toma do Mito a moral universal que ele contém em si. Partindo do princípio de que cada ciência encerra “[...] a essência que é própria do gênero de coisas [...]” de que se ocupa, Aristóteles distingue não apenas a Arte Poética (ciência “produti- va”) das ciências “teóricas” e “práticas”, mas também da História, que por se valer também da narrativa — o “modo” —, não difere da produção do poeta por ser escrita em verso ou em prosa, mas por buscar narrar o “acontecido” e não o “acontecível”. É essa natureza específica da poietike tecné que urde as diversas espécies de poesia imitativa numa só família: a que mimetiza a realidade empírica (a natureza humana e a vida) não como se ela fosse a “semelhança mais semelhante”64, mas pela sua recriação, por “representaro que pode- ria acontecer”. Não se é poeta “pelo metro usado”, diz Aristóteles, 62 (ARISTÓTELES 1994:118, 1452a, 22) 63 (ARISTÓTELES 1994:118, 1452a, 31) 64 Refiro-me, aqui, à passagem em que Sósia, personagem da comédia Anfitrião, de Plauto, depara-se com alguém que era a sua “semelhança mais semelhante”. Ante tal fato inusitado, ele observa: “Quando o examino e reconheço a minha figura, tal e qual eu sou — tenho-me visto muitas vezes ao espelho —, nada há mais semelhante a mim mesmo” (PLAUTO 1986:46). Ou seja, nenhuma “seme- lhança mais semelhante” era possível entre dois homens se não fosse por meio de uma imagem, a de Sósia, refletida no espelho. A arte seria não o que acontece quando nos olhamos no espelho, uma imagem da “semelhança mais semelhan- te”, mas o que poderia acontecer caso o espelho deformasse a nossa imagem: “a dessemelhança do que até então nos parecia semelhante”. mas “pela imitação praticada”65. E é a “imitação praticada”, a mímesis enquanto lugar do “acontecível”, que é inerente à natureza do fato artístico, à essência da poietike tecné. Se o conceito de mímesis será também acolhido no mundo lati- no, não podemos esquecer que é naquele espaço literário que nasce uma nova designação para a arte dos poetas: atribuir aos gêneros miméticos um caráter de fingimento, de fingir fazer, de simular: o fingere. Ora, fictio (Ficção, ficción, fiktion, finzione, fiction) deriva de fingere, mas também significa, no sentido próprio, “criação” e, no sentido figurado, “ação de fingir”. Se a palavra fictio (ficção) significa criar (e quem cria cria algo para), ela também encerra nesse criar o fingimento, o fingir fazer e o simular que provêm da sua raiz semânti- ca (fingere). De modo que a sua “ação de fingir” a distingue de outras formas de criação que estão submetidas aos conceitos e critérios de verdade/mentira. Afinal, quem finge, finge para alguém, o que implica que esse alguém tem que se inscrever nessa ação; ser parte dessa ação. No entanto, quais são as implicações da palavra fingere e da sua derivação fictio no campo da criação literária? Onde este conceito dife- re ou complementa o de mímesis, já que ele, no mundo latino, se aplica ao mesmo conjunto de gêneros que os gregos acatavam como mimé- ticos: o lírico, o dramático e o épico? Vamos para o próximo tópico. IV A Intencionalidade do Autor Richard Ohmann, dentro dos chamados atos de fala, assinala que o problema das definições correntes sobre literatura é que ora elas se centram nos atos locutivos, ora nos atos perlocutivos. Saindo dessa dicotomia texto/efeito, vamos nos ater, agora, nos “atos 65 (ARISTÓTELES 1994:104, 1447b, 15). 5554 Anco Márcio Tenório Vieira Capítulo 1 . O que é e o que não é literatura? ilocucionários”, isto é, nos atos que encerram os enunciados, as perguntas, as promessas, as ordens, os pedidos de desculpa, os agradecimentos, etc. Para tal, vamos nos valer das reflexões desen- volvidas por John R. Searle no ensaio “O estatuto lógico do discurso ficcional”66. Caminhemos. Searle nota que “[...] há um conjunto sistemático de relações entre os significados das palavras e sentenças que emitimos e os atos ilocucionários que realizamos na emissão dessas palavras e sentenças”67. Partindo dessa premissa, ele observa que essas relações levam a uma encruzilhada teórica quando focamos o discurso fic- cional, pois “[...] como é possível que as palavras e outros elementos tenham, numa estória de ficção, seus significados ordinários e, ao mesmo tempo, as regras associadas a essas palavras e outros ele- mentos, regras que determinam seus significados, não sejam cum- pridas?”68 Antes de responder a esse “problema de difícil solução”, que é o objeto do seu ensaio, Searle assinala duas distinções que devem ser feitas em relação ao discurso ficcional. 1. “distinção entre ficção e literatura”; 2. “distinção entre discurso ficcional e discurso figurado”. Vamos a elas. 1. Para Searle, a diferença entre ficção e literatura se faz neces- sária porque o discurso literário é de difícil análise. É que nada obs- tante muitas obras literárias serem ficção, o fato é que, para ele, nem toda obra ficcional é literatura e nem toda obra literária é ficcional. Ou seja, inexiste, no seu entender, um conjunto de traços comuns que encerrem todas as obras literárias, pois, citando Wittgenstein, “[...] a noção de literatura é uma noção por semelhança de família”69. 66 (SEARLE 1995:95-119; 1997:58-75) 67 (SEARLE 1995:95) 68 (SEARLE 1995:95-96) 69 (SEARLE 1995:97). O autor se refere ao livro Investigações filosóficas, de Ludwig Na ausência desses traços comuns, cabe ao autor decidir se a sua obra é ou não ficção, mas, para Searle, só ao leitor recai a decisão sobre se uma obra é ou não literatura. Assim, não há, para ele, um limite que caracterize as obras literárias das não literárias. 2. No caso da segunda distinção — os discursos ficcional e figurado —, Searle observa que, em ambos os casos, “[...] as re- gras semânticas são alteradas ou sustadas de alguma maneira”. No entanto, no discurso ficcional, essas regras se dão de modo diferente e independente das figuras de linguagem70. Para melhor exemplificar a sua tese, ele assinala que a expressão metafórica é “não literal” [nonliteral], enquanto as emissões ficcionais são “não Wittgenstein. Nesta obra, o filósofo vienense constrói o conceito de “jogos de linguagem”. Diz ele: “[..] todo processo de uso de palavras em (2) [a lingua- gem como um meio de entendimento entre um emissor e um receptor] seja um dos jogos por meio dos quais as crianças aprendem sua língua materna. Quero chamar esses jogos de ‘jogos de linguagem’, e falar de uma linguagem primiti- va às vezes como de um jogo de linguagem.// E poder-se-ia chamar também de jogos de linguagem os processos de denominação das pedras e de repeti- ção da palavra pronunciada. Pense em certo uso que se faz das palavras em brincadeiras de roda.// Chamarei de ‘jogo de linguagem’ também a totalidade formada pela linguagem e pelas atividades com as quais ela vem entrelaçada” (WITTGENSTEIN 1996:18-19 [§ 7]). A parte específica a que alude Searle, é a do § 66. Vejamos: “Observe, p. ex., os processos a que chamamos ‘jogos’. Tenho em mente os jogos de tabuleiro, os jogos de cartas, o jogo de bola, os jogos de combate, etc. O que é comum a todos estes jogos? — Não diga: ‘Tem de haver algo que lhes seja comum, do contrário não se chamariam ‘jogos’ —, mas olhe se há algo que seja comum a todos. — Porque quando olhá-los, você não verá algo que seria comum a todos, mas verá semelhanças de família, parentescos, aliás, uma boa quantidade deles. Como foi dito: não pense, mas olhe! Olhe, p. ex., os jogos de cartas: aqui você encontra muitas correspondências com aquela pri- meira classe, mas muitos traços comuns desaparecem, outros se apresentam. Se passarmos agora para os jogos de bola, veremos que certas coisas comuns são mantidas, ao passo que muitas se perdem. — Prestam-se todos eles ao ‘entrete- nimento’? [...] E assim podemos percorrer os muitos, muitos outros grupos de jogos, ver as semelhanças aparecerem e desaparecerem.// E o resultado desta observação é: vemos uma complicada rede de semelhanças que se sobrepõem umas às outras e se entrecruzam. Semelhanças em grande e em pequena escala” (WITTGENSTEIN 1996:51-52). 70 (SEARLE 1995:98) 5756 Anco Márcio Tenório Vieira Capítulo 1 . O que é e o que não é literatura? sérias” [nonserious]. Por exemplo: quando Ricardo Piglia escreve, em seu romance Respiração artificial, “passei a noite quase insone por causa do calor e agora estou sentado de frente para o frescor da janela”71, isso não significa que, no momento em que ele escrevia, houvesse algum frescor entrando pela janela, fizera calor na noite anterior, ou muito menos ele passara a noite quase insone. Não há nenhum compromisso do Piglia romancista com este enunciado dito pelo narrador do seu romance. É desse modoque a ficção é um discurso “não sério”, nada obstante a frase enunciada pelo escritor argentino ser literal. Diverso ocorre quando um ensaísta escreve que o seu artigo irá analisar e interpretar a obra de Machado de Assis. Neste caso, o enunciado é, ao mesmo tempo, sério e literal. No entanto, quando o mesmo ensaísta escreve que “Hegel é uma carta fora do baralho no jogo filosófico”, esse enunciado, que é uma metáfora, é sério, mas não é literal, já que é uma expressão metafórica72. Feitas as devidas ressalvas, Searle retoma a pergunta de “difícil solução” posta no início do seu ensaio. Para respondê-la, ele deixa de lado as diferenças entre emissões literais [literal] e figuradas [fi- gurative] e se propõe a explorar as dissimilitudes entre as emissões [utterances] sérias [serious] e ficcionais [fictional]73. Para tal empre- endimento, ele escolhe, inicialmente, dois exemplos: uma matéria jornalística do New York Times, assinada por Eileen Shanahan, e um excerto do romance The Red and the Green [O Vermelho e o verde], de Iris Murdoch74. Ambos os exemplos se valem de asserções que 71 (PIGLIA 1987:28) 72 (SEARLE 1995:98) 73 (SEARLE 1995:99) 74 No texto do New York Times, lemos: “Washington, 14 de dezembro — um grupo de membros dos governos federal, estaduais e municipais rejeitou hoje a ideia do presidente Nixon de que o governo federal fornecesse ajuda financeira que possibilitasse aos governos locais reduzir impostos sobre propriedades”. No usam palavras e enunciados literais. A diferença entre um excerto e outro é que o texto do jornal é “[...] um tipo de ato ilocucionário que se submete a certas regras semânticas e pragmáticas bastante específicas”. A saber: 1 - A regra essencial: quem faz uma asserção se compromete com a verdade da proposição expressa. 2 - As regras preparatórias: o falante deve estar preparado para fornecer evidências ou razões da verdade da proposição expressa. 3 - A proposição expressa não deve ser obviamente verdadeira para ambos, falante e ouvinte, no contexto da emissão. 4 - A regra da sinceridade: o falante com- promete-se com a crença na verdade da proposição expressa.75 Para Searle, caso o texto do New York Times não observasse to- das as regras acima, sua asserção seria defectiva [defective], isto é, in- correria no falso, no errado, no incorreto ou na mentira. Neste caso, “as regras estabelecem os cânones internos da crítica das emissões”76. O inverso ocorre no texto de Iris Murdoch, pois “sua emissão não é um compromisso com a verdade da proposição”. Isso não significa dizer que a proposição seja verdadeira ou falsa, e, sim, que a escritora “[...] não tem qualquer compromisso com a sua verdade”. Ora, como ela não tem “compromisso com a sua verdade”, ela não é “[...] capaz de fornecer evidências de sua verdade”. Desse modo, “não vem ao caso que já estejamos ou não informados de sua verdade”77. excerto do romance, lemos: “Mais dez dias gloriosos longe dos cavalos! Era no que pensava o segundo-tenente Andrew Chase-White, recentemente comissio- nado no ilustre regimento King Edward’s Horse, enquanto vagueava contente por um jardim dos subúrbios de Dublin, numa tarde ensolarada de domingo, em abril de 1916” (SEARLE 1995:100). 75 (SEARLE 1995:101) 76 (SEARLE 1995:102) 77 (SEARLE 1995:102) 5958 Anco Márcio Tenório Vieira Capítulo 1 . O que é e o que não é literatura? No entanto, uma pergunta se estabelece: se há uma asserção em The Red and the Green, que tipo de ato ilocucionário é manifestado no romance de Murdoch? Como pode existir uma asserção, se não há nenhum compromisso com as regras específicas que caracteri- zam as asserções? Para Searle, uma resposta equivocada seria admi- tir que existe um uso distinto das classes de atos ilocucionários nos jornais e nos textos ficcionais. Neste caso, os atos ilocucionários na ficção não são para enunciar, descrever ou explicar, mas apenas para contar uma estória. Assim, o ficcionista encerra o “[...] seu próprio repertório de atos ilocucionários, que estão no mesmo plano que os atos ilocucionários de tipo padrão (fazer perguntas, fazer pedidos, fazer promessas, fazer descrições, etc.), mas se acrescentam a eles”78. Caso essa premissa fosse correta, diz Searle, teríamos que admitir que uma mesma sentença literal usada, ao mesmo tempo, na ficção e no jornal, encerraria significados distintos. Desse modo, um leitor só poderia entender uma obra de ficção se aprendesse “[...] novos conjuntos de significados correspondentes a todas as palavras e outros elementos contidos na obra”79, o que o obrigaria, no caso do falante da língua portuguesa, a ter que aprender novamente a sua própria língua materna. A resposta correta, para Searle, é que Iris Murdoch “[...] está fingindo [pretend] fazer uma asserção, ou agindo como se estivesse fazendo uma asserção, ou imitando o ato de fazer uma asserção”80. Fingir não no sentido de fraude, mas no sentido de “[...] envol- ver-se numa encenação [...], de agir como se estivesse fazendo ou fosse essa coisa, sem nenhuma intenção de enganar”81. Neste caso, “[...] o autor de uma obra de ficção finge realizar uma série de atos 78 (SEARLE 1995:103) 79 (SEARLE 1995:104) 80 (SEARLE 1995:105) 81 (SEARLE 1995:105) ilocucionários, normalmente do tipo assertivo”. Assim, “[...] o critério para identificar se um texto é ou não uma obra de ficção deve necessariamente estar fundado nas intenções ilocucionárias do autor”82. Mas conhecer as “intenções ilocucionárias do autor não significa saber, no que diz respeito à análise da obra, “[...] as intenções últimas de um autor [...]”, e, sim, as intenções quanto à identificação do texto: se é um romance, um conto, uma novela, uma epopeia, um poema. Outra questão colocada por Searle é: “[...] o que torna possí- vel essa forma peculiar de fingimento?” Para ele, o que faz a ficção possível “[...] é um conjunto de convenções extralinguísticas, não semânticas, que rompem a conexão entre as palavras e o mundo estabelecida pelas regras [...]”; que fazem de um enunciado uma asserção sincera e não defectiva, isto é, “[...] regras [verticais] que relacionam palavras (e sentenças) ao mundo”, que conectam a lin- guagem à realidade83. Desse modo, as convenções que estabelecem o discurso ficcional se dão em cima de regras horizontais que rompem com as regras verticais. Tais convenções, no entanto, não encerram nem as regras do significado, nem as que estabelecem a competência semântica do falante. Assim, Searle assinala que “[...] as elocuções fingidas que constituem uma obra de ficção são possíveis em virtu- de da existência de um conjunto de convenções que suspendem a operação normal das regras que relacionam os atos ilocucionários ao mundo”84. Em outras palavras: “[...] contar histórias [stories] é realmente um jogo de linguagem à parte”. Jogo de linguagem este que “[...] não está no mesmo pé que os jogos de linguagem ilocucio- nários, mas é parasitário em relação a eles”85. 82 (SEARLE 1995:106) 83 (SEARLE 1995:107) 84 (SEARLE 1995:108) 85 (SEARLE 1995:108) 6160 Anco Márcio Tenório Vieira Capítulo 1 . O que é e o que não é literatura? Ainda dentro desse raciocínio, uma pergunta precisa ser res- pondida: “[...] quais são os mecanismos pelos quais o autor invoca as convenções horizontais — que procedimentos ele segue? Se, como eu disse, o autor não realiza de fato atos ilocucionários, mas apenas finge realizá-los, como realiza o fingimento?”86 Sua resposta é exemplificada pela encenação dramática. Neste, um personagem finge (e não o autor) bater em outro personagem e este, por sua vez, finge apanhar. Se a surra é fingida, os movimentos dos braços são reais. O mesmo procedimento ocorreria na ficção, onde “o autor finge realizar atos ilocucionários por meio da emissão efetiva de sentenças”. Ou seja, “[...] os atos ilocucionários são fingidos, mas o ato de emissão é real”, já que eles se efetivam através de “[...] atos fonéticos e fáticos”87.Se a mímesis aristotélica se atém ao texto em si (suas estruturas, seus procedimentos formais e a sua natureza: o horizonte do acon- tecível), a ficção, segundo Searle, também incorreria no mesmo ca- minho: o de encerrar no texto, por meio de enunciados “não sérios” [nonserious], emissões que não têm “compromisso com a verdade da proposição”. Assim, tanto na mímesis quanto na ficção, haveria uma ruptura entre o signo e o referente, entre o signo e aquilo a que ele se refere. É assim que Sófocles conta a estória de Édipo sem se preocupar em ser fiel ao seu referente: a narrativa oral e imemorial do Mito (forma simples). O mesmo ocorre com o texto ficcional: seus enunciados não têm nenhum “compromisso com a verdade da proposição”. Desse modo, para Searle, cabe ao autor empírico, e somente a ele, decidir se a sua obra é ou não ficção, pois é nela que ele lança mão dos atos de falas que a caracterizam como tal. Proposição que também se aplica à mímesis, pois o poeta, ao escolher enunciar 86 (SEARLE 1995:109) 87 (SEARLE 1995:109) o acontecível, já delimita em qual ciência a sua obra se inscreve: os gêneros produtivos. Concordamos que para uma emissão se constituir “não séria” é necessário que um autor empírico não tenha “[...] qualquer com- promisso com a sua verdade” (aquela enunciada pelo narrador ou pelo eu lírico) e, por decorrência, não seja “[...] capaz de fornecer evidências de sua verdade”. No entanto, como o leitor vai saber que tal enunciado é “não sério”? Como ele distingue a seriedade ou a não seriedade dos atos ilocucionários em textos que tratem do mesmo assunto: um romance histórico sobre D. Pedro II e uma biografia histórica sobre este? Creio que tal distinção só é possível se houver uma cooperação entre o autor e o leitor no ato de fingimen- to. Ou seja, não basta que um autor empírico finja enunciar uma verdade, faz-se necessário que o leitor saiba que ele está fingindo. A intencionalidade do autor empírico de fingir uma estória tal como ela deveria ter acontecido só se perfaz na disposição do leitor, co- nhecedor de tal intencionalidade, em acatá-la (o verbo “fingir”, por si, já encerra uma intencionalidade, pois quem finge finge para al- guém). E aqui temos que nos ater novamente à palavra fictio. Se ela, no sentido próprio, significa criação e, no sentido figurado, “ação de fingir”, não podemos perder de vista, como dissemos acima, que quem finge finge antes para alguém do que para si mesmo. Se o lei- tor/expectador desconhece que os atos de fala e/ou determinados gestos dramáticos são fingidos, a cooperação textual ou dramática não se estabelece (nesse caso, o texto, enquanto criação, pode ser acatado como um enunciado crível e o ator, como louco). Sem que as regras do jogo fiquem estabelecidas para ambos os jogadores — autor empírico e leitor empírico —, não é possível que o estatuto do fingimento se firme. Por quê? Porque só por meio desse pacto de fingimento mútuo as fronteiras entre a ficção, a mentira e a fantasia 6362 Anco Márcio Tenório Vieira Capítulo 1 . O que é e o que não é literatura? podem ser dissipadas. Como sabemos, o inverso da mentira é a ver- dade, e não a ficção ou a fantasia. O avesso de fingir é “desenganar”, no sentido de “esclarecer”. Mentir é iludir, trapacear. A mentira só é “jogada” (ou melhor, só é tomada como verdade) porque um dos atores do “jogo” (o que está sendo enganado) desconhece as regras do próprio “jogo”, desconhece que o pacto da verdade foi colocado em suspensão. Logo, ele é levado a crer que tal enunciado — a men- tira — é verdadeiro. Um enunciado ou uma asserção só são acatados como mentira porque ferem um pacto, ou contrato, que envolve um acordo social, ou interpessoal, calçado em cima de um determinado critério de verdade. Um exemplo: uma nota monetária só pode ser tomada como falsa porque quem a falsificou rompeu com um pacto de verdade estabelecido entre a sociedade e a Instituição que a go- verna, o Estado, já que este, por meio de vários mecanismos, é quem emite o dinheiro e dá fé da sua validade monetária. No caso das fronteiras entre a ficção e a fantasia, podemos dizer que a ficção encerra a fantasia (a faculdade de imaginar ou criar pela imaginação), mas a fantasia não encerra necessariamente a ficção. Um exemplo é o que se manifesta no portador de esquizofrenia. O esquizofrênico é alguém que possui uma personalidade fragmenta- da e, por decorrência, perdeu o contato com a realidade. Assim, o esquizofrênico toma a fantasia pela realidade empírica e, como tal, inscreve-a no horizonte do “acontecido”. Esquizofrênicos não fin- gem acreditar nas fantasias que estão narrando ou vendo, pois aqui- lo que eles narram ou veem é a sua própria realidade empírica. Por não perceber os limites entre a fantasia e a realidade empírica é que o portador de tal distúrbio mental é colocado à margem do pacto, ou do contrato, que rege a sociedade, ou que por ela foi instituído: seja o pacto da verdade (ou o que uma dada sociedade entende por verdade em um dado momento histórico), seja o ficcional. Outro ponto a observar é que a intencionalidade do autor empírico de fingir enunciados em uma determinada estória e a disposição do leitor (seja o leitor-modelo ou o leitor empírico)88 em aceitar tal intencionalidade (instituindo a cooperação textual) só se dão porque certos gêneros textuais encerram determinadas marcações que foram estabelecidas socialmente e, por sua vez, acatadas. No caso dos gêneros miméticos, os gregos os definiram como épicos, dramáticos e líricos. Ora, se o “nível mais básico” das intenções de um autor é identificar o seu texto como romance, conto, filosofia, teologia, história, sociologia, tese, dissertação etc. (e cada um desses gêneros textuais encerra naturezas e, por sua vez, propósitos distintos), isso “já é afirmar algo sobre as intenções do autor”, para usarmos as próprias palavras de Searle. Observando que as intencionalidades são instituídas não somente por aquele que compôs a obra, mas também por quem a editou. Um livro é denominado de romance, conto ou novela e, como tal, ele é pu- blicado por um dado editor. Assim, toda a composição visual da obra traz marcas das intenções do autor, reiteradas por seu editor: a orelha e a contracapa que explicam sobre o que versa o livro; a ficha catalográfica; o local que, dentro de uma livraria, lhe é destinado; as resenhas de jornais e revistas que lhe são consagrados. É dessa ma- neira que a obra chega ao leitor: identificada, no nível “mais básico”, 88 Valemo-nos aqui da distinção feita por Umberto Eco. Para o teórico italiano, “O leitor-modelo de uma história não é o leitor empírico. O leitor empírico é você, eu, todos nós, quando lemos um texto. Os leitores empíricos podem ler de várias formas, e não existe lei que determine como devem ler, porque em geral utilizam o texto como um receptáculo de suas próprias paixões, as quais podem ser exteriores ao texto ou provocadas pelo próprio texto”. O inverso é o leitor-modelo. Este é “[...] uma espécie de tipo ideal que o texto não só prevê como colaborador, mas ainda procura criar. Um texto que começa com ‘Era uma vez’ envia um sinal que lhe permite de imediato selecionar seu próprio leitor-modelo, o qual deve ser uma criança ou pelo menos uma pessoa disposta a aceitar algo que extrapola o sensato e o razoável” (ECO 2010:14-15; ver também 2008:35-49). 6564 Anco Márcio Tenório Vieira Capítulo 1 . O que é e o que não é literatura? pelas intenções do autor. Desse modo, é a intencionalidade no nível “mais básico” que dá o estatuto histórico-temporal da obra, e, por desdobramento, as marcações que vão promover a sua recepção por parte do leitor-modelo ou do leitor empírico, explicitando, assim, o desejo de um dado autor em pertencer a um determinado campo do conhecimento e, por extensão, de poder usar os atos ilocutivos de modos fingidos ou não. Logo, o pacto entre o autor empírico e o leitor empírico (ou o leitor-modelo)se estabelece quando aquele enuncia em que gênero o seu texto se inscreve e, por sua vez, o lei- tor, a par desse estatuto, assume determinadas maneiras de pensar e agir ante o texto. Caso seja uma obra ficcional — onde o autor “está fingindo [pretend] fazer uma asserção, ou agindo como se estivesse fazendo uma asserção, ou imitando o ato de fazer uma asserção” —, ele, o leitor, aceita a intencionalidade do texto e, junto com ele, finge aceitar tais enunciados; caso seja uma obra que se submeta “a certas regras semânticas e pragmáticas bastante específicas”, ele, o leitor, irá se relacionar com o texto observando se o autor cumpre as condições especificadas nas regras, ou, caso contrário, ele incorre em uma asserção defectiva. Logo, diverso do que pensa Searle, não é o leitor que diz se tal obra é ou não literatura, mas o seu autor, nada obstante a necessidade da cooperação textual entre este e o leitor. A questão é saber quais são as regras (regras que valem para todos os gêneros textuais, em qualquer área de saber) que definem se um texto é ou não literatura. Duas dessas regras, como vimos, foram estabelecidas pela poética clássica, a mímesis e a fictio, e ambas se complementam. A primeira, porque trata do horizonte do “aconte- cível”; a segunda, porque vê nesse “acontecível” não somente um ato ilocucionário fingido por parte do autor empírico, mas também um pacto de fingimento (ou uma cooperação textual) que se estende ao leitor, que lê e finge acreditar no que lê. Mais: ambos os conceitos compartilham o fato de que, embora toda a arte poética se valha da natureza como matéria-prima de imitação (imitação da natureza e das ações humanas), esta, ao se inscrever no campo do “acontecí- vel” ou do fingere, cria a sua própria verdade ou realidade textual. Verdade e realidade textuais essas que precisam ser pactuadas com o leitor para que possam se perfazer. Ambos os conceitos — mímesis e fictio — tratam de uma verdade textual, mas só o conceito latino considera o leitor ou expectador como parte desse jogo que é insti- tuído pela verdade textual (o “acontecível”). E aqui vamos ao terceiro ponto da nossa análise: a verdade e a realidade textuais (o caráter imanente do texto). V A Verdade e a Realidade Textuais Se o ofício do historiador e, por extensão, a História, nasce quan- do da passagem do Mito para o Logos, da substituição da nar- rativa fantasiosa, ilusória, irracional e incognoscível dos eventos para a narrativa que se calce em cima da razão e da racionalidade, Aristóteles defendeu o caminho inverso para as poesias imitativas (particularmente para o gênero trágico): o retorno do Logos para o Mito. No entanto, esse retorno não significava a defesa de uma literatura que retomasse a narrativa mítica, a forma simples, e, sim, que acolhesse o mito como “[...] o princípio e como que a alma da tragédia”89. Tal retorno implicou em uma série de proce- dimentos que terminam por caracterizar os textos literários até os dias que correm. Se a narrativa mítica — a exemplo da história de Édipo — não tem autor empírico, já que ela se caracteriza por ser uma história imemorial, a tragédia Édipo Rei não só tem um 89 (ARISTÓTELES 1994:112, 1450a, 35-36) 6766 Anco Márcio Tenório Vieira Capítulo 1 . O que é e o que não é literatura? autor empírico — Sófocles —, como este se distingue do narra- dor textual (puramente linguístico) que, no caso do drama, se dá “mediante todas as pessoas imitadas, operando e agindo elas mes- mas”90. Assim, os gêneros miméticos vão distinguir não só o autor empírico do narrador textual, como o autor empírico do eu lírico textual (o poeta “chega a fingir que é dor a dor que deveras sente”, ensina-nos Fernando Pessoa). Tais distinções foram necessárias para que os gêneros miméticos estabelecessem a diferença entre a “verdade textual” e a “verdade” que se “[...] deixa governar pelo critério válido para os discursos da realidade, o critério de verda- deiro/falso”91. Ou seja, se a realidade inscrita na literatura pode se alimentar da realidade empírica (Ao lermos Dom Casmurro, vemos que ele se passa no Rio de Janeiro da segunda metade do século XIX) e pode até se decifrar por meio dela (os princípios morais de Bentinho se calçam na moral predominante à época em que a estória decorre), ela, ao se perfazer como uma verda- de textual, não se confunde mais com a verdade empírica que a alimentou. Por mais que uma obra imite um dado referente, a ação dos seus personagens não se manifesta na realidade empí- rica, mas em uma realidade puramente textual que lhe é própria, pois esta não busca imitar a realidade empírica como um espelho, mas como ela poderia ser: uma imagem alterada, borrada; uma imagem que só existe no texto e nele se encerra, pois a realidade empírica foi colocada em suspensão. Logo, dilatada, duplicada, ficcionalizada. Vejamos os exemplos de duas narrativas históri- cas — as de Heródoto e Tucídides — e uma narrativa literária, a Ilíada, de Homero (a Odisseia segue a mesma estrutura narrativa da Ilíada, daí não precisamos evocá-la aqui). 90 (ARISTÓTELES 1994:112, 1447a, 24-25) 91 (LIMA 2002:666) A primeira distinção a se observar é que as narrativas de Homero são em verso e as dos historiadores gregos, em prosa. Mas esta não é uma boa distinção, pois, como nota Aristóteles, não é o uso do verso que caracteriza a obra, mas a intenção do poeta em inscrevê-la no campo do acontecível. A segunda distinção é que na Ilíada o narrador textual não se confunde com o autor empírico da obra. Seu narrador são as Musas, evocadas por outro narrador (que na falta de um nome melhor, chamaremos de “Homero”) para que elas tornem o passado presencial92. No entanto, ao longo da narrati- va, “Homero” as interpela: seja para pedir mais detalhes sobre os fa- tos, seja para mudar o rumo da narrativa. Esta distinção entre autor empírico (Homero) e narradores textuais (“Homero” e as Musas) já impõe um pacto textual com o leitor-modelo ou empírico: ele deve fingir acreditar que um dado narrador — “Homero” — é capaz de evocar as Musas, dialogar com elas, registrar as suas falas e, ao mesmo tempo, se distinguir delas. Como nem o seu autor empírico — Homero — nem o narrador textual interpelador — “Homero” — não foram testemunhas dos fatos narrados (ocorridos em um tempo mítico), eles precisam se valer de uma testemunhante “confiável”. Ora, sendo o narrador textual um narrador fingido, não há nenhum compromisso do autor empírico com as emissões destes narradores, que podem até ser literais, mas são “não sérios”. Parafraseando D. 92 “Homero”: “Canta, ó deusa, a cólera de Aquiles, o Pelida/ (mortífera!, que tantas dores trouxe aos aqueus/ e tantas almas valentes de heróis lançou no Hades,/ fi- cando seus corpos como presa para cães e aves/ de rapina, enquanto se cumpria a vontade de Zeus),/ desde o momento em que primeiro se desentenderam/ o Atrida, soberano dos homens, e o divino Aquiles.// Entre eles qual dos deuses provocou o conflito?” Musas: “Apolo, filho de Leto e de Zeus. Enfurecera-se o deus/ contra o rei e por isso espalhara entre o exército/ uma doença terrível de que morriam as hostes,/ porque o Atrida desconsiderara Crises, seu sacerdote./ Ora este tinha vindo até às naus velozes dos Aqueus/ para resgatar a filha, tra- zendo incontáveis riquezas./ Segurando nas mãos as fitas de Apolo que acerta ao longe/ e um cetro dourado, suplicou a todos os Aqueus,/ mas em especial aos dois Atridas, condutores de homens: [...]” (HOMERO 2005:30, Canto I, 1-16). 6968 Anco Márcio Tenório Vieira Capítulo 1 . O que é e o que não é literatura? Couty, esta distinção entre o autor empírico e os narradores textuais mostra a distância fundamental entre o saber do autor empírico e o dos narradores textuais93. A relação das Musas com os seus perso- nagens (o ponto de vista) é que elas sabem mais do que eles (“visão por trás”). Já “Homero” manifesta saber menos do que as Musas e os seus personagens (“visãode fora”). Já nas obras de Heródoto e Tucídides os narradores são os próprios autores empíricos. Por quê? Porque sendo testemunhantes dos eventos que, por ventura, estão narrando, eles nem precisam evocar as musas (o Mito), nem fingirem serem narradores textu- ais, o que implicaria na falta de compromisso com a verdade das proposições. Daí por que muitos estudiosos de Heródoto o acusam de ter incorrido, em várias passagens da sua obra, em falsidades, manipulações e acréscimos. Acusações essas que jamais poderiam ser aplicadas a Homero. Pelo contrário. Assim, no parágrafo ini- cial das obras de Heródoto e Tucídides, ambos se apresentam na terceira pessoa e expõem os motivos que os levaram a escreverem tais livros94. Em seguida, no parágrafo seguinte, eles se inscrevem na narrativa (primeira pessoa) para que o leitor tome ciência de que o que vai ser narrado é resultado daquilo que eles viram ou ouviram de testemunhantes críveis95. Aos olhos de hoje, Heródoto e 93 (COUTY 1988:94). 94 Heródoto: “Esta é a exposição das investigações de Heródoto de Halicarnasso, para que os feitos dos homens se não desvaneçam com o tempo, nem fiquem sem renome as grandes e maravilhosas empresas, realizadas quer pelos Helenos quer pelos bárbaros; e sobretudo a razão por que entraram em guerra uns com os outros” (HERÓDOTO 2002:53). Tucídides: “O Ateniense Tucídides escreveu a história da guerra entre os peloponésios e os atenienses, começando desde os primeiros sinais, na expectativa de que ela seria grande e mais importante que todas as anteriores, pois via que ambas as partes estavam preparadas em todos os sentidos; além disto, observava os demais helenos aderindo a um lado ou ao outro, uns imediatamente, os restantes pensando em fazê-lo [...]”. (TUCÍDIDES 1999:19). 95 Heródoto: “Os conhecedores entre os Persas consideram que os Fenícios foram os causadores do diferindo: sustentam que, vindos do mar chamado Eritreu para Tucídides teriam escritos obras de testemunhos; testemunhos deles, Heródoto e Tucídides, que participaram dos eventos e, também, dos testemunhantes oculares, informantes das guerras narradas. Nota Richard Bauckham, parafraseando Samuel Byrskog, que os historia- dores gregos e latinos, de modo semelhante ao método da moderna historiografia oral, [...] estavam convencidos de que a verdadeira história poderia ser escrita somente enquanto os acontecimentos ainda se encon- travam dentro de uma memória viva, e consideravam como suas fontes os relatos orais de experiência direta dos acontecimentos por parte dos participantes envolvidos neles [e quanto mais parcial fosse esse testemunhante, melhor]. Idealisticamente, o próprio historiador deveria ter sido um participante dos eventos que ele narra — como foram, por exemplo, Xenofonte, Tucídides e Josefo —, mas, visto que ele não poderia estar em todos os acontecimentos que ele narra ou em todos os lugares que ele des- creve, o historiador tinha de confiar, portanto, em testemunhas oculares, cujas vozes vivas ele podia ouvir e a quem ele próprio podia questionar: “Autopsia [testemunho de testemunha ocular] era o meio essencial para remontar o passado”.96 Cabia ao historiador selecionar (autopsiar) os relatos dos tes- temunhantes, juntá-los às suas impressões de partícipe do evento, e, as margens do Mediterrâneo e ocupada a região que agora habitam, de imediato empreenderam longas navegações: com mercadorias egípcias e assírias, aponta- ram a diversas regiões, entre as quais estava Argos [...]”. (HERÓDOTO 2002:53). Tucídides: “É óbvio que a região agora chamada Hélade não era povoada esta- velmente desde a mais alta antiguidade; migrações haviam sido frequentes nos primeiros tempos, cada povo deixando facilmente suas terras sempre que for- çado por ataques de qualquer tribo mais numerosa [...]”. (TUCÍDIDES 1999:19). 96 (BAUCKHAM 2011:23) 7170 Anco Márcio Tenório Vieira Capítulo 1 . O que é e o que não é literatura? criticamente, dar um sentido à sua narrativa. “O sentido é a atmos- fera em que os fatos são postos para que assumam uma presunção significativa”97. Sabemos que, entre os métodos da historiografia clássica e aqueles que foram instituídos pela moderna historiografia, muitas coisas mudaram. No entanto, uma permaneceu: o autor em- pírico da obra (chame-se ele Edward Gibbon, Arnold Toynbee, R. G. Gollingwood, Fernand Braudel ou Sérgio Buarque de Hollanda) é o próprio narrador dos fatos narrados (seja a narrativa na primeira ou na terceira pessoa), e os seus atos ilocucionários se submetem a certas regras semânticas e pragmáticas específicas, sob o julgo da sua obra se inscrever no campo do defectível. Não só: sua narrativa é tomada como crível porque aquilo que é narrado encontra respaldo e teste- munho (seja ele documental, seja oral) no objeto narrado: o acon- tecido. A verdade do texto histórico não está calçada em si mesma, mas no seu referente. Isso não significa dizer que a narrativa histórica está no lugar do evento em si (afinal, desde Santo Agostinho que se sabe que a palavra é um signo, isto é, ela é a representação da coisa em si, mas não é a coisa em si), e, sim, que ela só se perfaz porque o evento que lhe serve de objeto de análise e interpretação se plasma na realidade empírica. Logo, essa narrativa tem sua análise e interpreta- ção delimitadas pelo referente: a documentação que lhe fundamenta. Desse modo, onde terminam, para o historiador, os limites da análise e da interpretação dos eventos históricos é onde tem inicio a narrativa literária. Por exemplo: se o historiador, refém do referente, não pode afirmar que D. Pedro II morreu governando o Brasil, o escritor literá- rio, diversamente, pode contar a estória do nosso monarca como ela poderia ter sido. No caso, uma estória onde o Imperador jamais fora exilado e a República nunca fora proclamada no Brasil. Como “[...] o discurso ficcional ocupa uma posição ex-cêntrica quanto à verdade, o traço ‘referência’ sofrerá uma modificação considerável”98. O que 97 (LIMA 1991:143) 98 (LIMA 1991:144) ocorre com o discurso histórico se manifesta também em todas as outras formas de discursos, mesmo aqueles mais esotéricos, a exem- plo da teologia e dos textos místicos, que se firmam e se decifram em cima dos textos sagrados (no caso do cristianismo e do judaísmo, na Bíblia), e, por sua vez, esses textos sagrados (expressão do verbo) se firmam e se explicitam em cima do Verbo. Assim, se a realidade inscrita na literatura pode se alimentar da realidade empírica e até se decifrar por meio dela, a realidade textual, ao se inscrever no horizonte do “acontecível”, não se confunde mais com essa realidade extratextual. Não há nenhuma possibilidade de um leitor de Guimarães Rosa se deparar, no mundo empírico, com Riobaldo ou com Diadorim (salvo no caso de perturbação mental). O inverso ocorre com os textos das ciências exatas, biológicas, so- ciais, humanas, teológicas e filosóficas: todos não só partem da reali- dade empírica (mesmo que seja só no campo especulativo), como só se decifram ou se firmam por meio dessa realidade empírica. Mímesis, fictio, verdade textual. Estes três conceitos se interpe- netram e, principalmente, se complementam, formando uma unida- de. No entanto, tais conceitos não se aplicam somente à literatura e, por decorrência, aos gêneros artísticos, mas também a certos gêne- ros que são puramente ficcionais, a exemplo das novelas televisivas, das estórias em quadrinho, das fotonovelas, dos videoclipes... Então o que faz determinados gêneros textuais serem literatura — isto é, serem alçados ao campo da arte — e outros serem apenas ficções? Vamos ao nosso quarto e último tópico. VI Os Significados e Significações do Texto Como toda forma de conhecimento, a literatura — e as artes, de ma- neira geral — também encerra um modo de usar ou de se relacionar 7372 Anco Márcio Tenório Vieira Capítulo 1 . O que é e o que não é literatura? com os signos:imitando o referente (representando o que poderia acontecer), fingindo (construindo, por meio de um pacto ficcional, enunciados não sérios) e plasmando uma realidade e uma verdade puramente textuais (estabelecendo a cesura entre o signo e o refe- rente, nada obstante, na maioria dos casos, se valer deste enquanto matéria). O resultado desse modo de se relacionar com os signos é que, na literatura, o leitor, ao ler um poema, é levado, caso queira entender o seu sentido, a decifrar e a recifrar permanentemente o verso, e, no caso da prosa, a se deparar com o sentido polissêmico que as estórias narradas encerram. Em ambos os casos, temos sig- nos carregados de significados e significações “até o máximo grau possível”99, como defendia Ezra Pound, sem que, necessariamente, isso implique, como queriam os Formalistas, determinadas proprie- dades sintáticas ou semânticas específicas do texto (como são exem- plos, no caso da prosa, as poéticas das Escolas Realista e Naturalista, que perseguiam antes uma narrativa denotativa do que conotativa, nada obstante o sentido da obra estar carregado de significados e significações). Essa condição de encerrar no signo significados e significações além daqueles que encontramos nos dicionários, tira da literatura o caráter que, muitas vezes, lhe é atribuído, particular- mente pelos estudos sociológicos (o de ser apenas um “documento”, um “indicador” ou um “epifenômeno” da realidade empírica), e lhe confere tanto a sua condição trans-histórica (o que lhe dá uma autonomia em relação ao referente) quanto o seu estatuto artístico. Estatuto que a leva a perseguir não apenas o Belo (afinal, outras manifestações também buscam a beleza estética: a moda, a deco- ração, o design), mas retesar o signo com o intuito de extrair dele o máximo possível de significados e significações além dos limites aceitáveis nas demais formas de discurso. Desse modo, a arte e, no 99 (POUND 1983:32) nosso caso, a literatura caminham no sentido inverso do discurso persuasivo (os discursos das telenovelas, da política, do judiciário, da propaganda, da maioria das ficções policiais, das estórias em quadrinho, das fotonovelas, dos seriados de TV). Se este “[...] quer levar-nos a conclusões definitivas; prescreve-nos o que devemos desejar, compreender, temer, querer e não querer”100, a arte e, no caso específico, a literatura não repetem para o leitor “[...] aquilo que ele já sabe e aquilo que deseja saber”,101 mas revelam aquilo que ele não sabe (ou pelo menos ele nunca imaginou ou nunca pensou daquele modo) e o que ele nem desejaria (ou pensou desejar) saber. Mutatis mutandis, as artes plásticas podem, aqui, nos fornecer um bom exemplo. Ao pintar um cachimbo e escrever no rodapé da tela que aquilo não é um cachimbo (“Ceci n’est pas une pipe”), René Magritte não só contraria o “automatismo perceptivo”102 do seu expectador, mas cria “[...] uma percepção particular do objeto [sua singularização], busca[ndo] a criação da sua visão e não de seu reco- nhecimento”103. Desse modo, o artista não somente rompe a relação entre o signo (o cachimbo pintado) e o seu referente (o cachimbo empírico), mas lhe dá significados e significações além daqueles que a linguagem persuasiva busca dar; ou, como nota Luiz Costa Lima, a arte da imitação “[...] não só recebe o que vem da realidade mas é passível de modificar nossa própria visão da realidade”104. “Se isto não é um cachimbo, então é o quê?”, perguntaria o apreciador da sua obra. A resposta poderia ser: “tente fumá-lo”. O mesmo ocorre com Homero ao narrar a Guerra de Troia: ele não oferece ao leitor uma estória em que ele reconheça a narrativa mítica (“o caso eu conto como o caso foi”), e, sim, que seja o “acontecível” do “acontecido”. 100 (ECO 1986:280) 101 (ECO 1986:282) 102 (EIKHENBAUM 1978:15) 103 (EIKHENBAUM 1978, p. 15) 104 (LIMA 2000:25) 7574 Anco Márcio Tenório Vieira Capítulo 1 . O que é e o que não é literatura? Assim como existe o cachimbo de Magritte que não é um cachimbo (apenas a representação mimética do cachimbo), existe a Guerra de Troia de Homero que não é a Guerra de Troia da narrativa míti- ca, mas a sua imitação. Do mesmo modo, quem inicia a leitura de Dom Casmurro buscando encontrar um discurso persuasivo contra o adultério e a favor da família patriarcal e cristã, encontra uma linguagem polissêmica que puxa o tapete de todas as suas certezas. O que resta ao leitor? Ou ficar na dúvida (e não é Dom Casmurro um romance sobre a dúvida?) ou recomeçar a leitura do romance em busca de indícios mais convincentes da traição de Capitu. A verdade textual do romance cria os seus próprios significados e as suas próprias significações (independentes dos valores morais do seu tempo), o que dá à obra o seu caráter trans-histórico. Pouco nos interessa agora saber qual era, ao tempo em que a obra foi escrita, a moral que alimentava Bentinho, pois o que parecia ser reconheci- mento — uma estória de adultério passada na segunda metade do século XIX brasileiro — singulariza-se, agora, como o discurso da dúvida. Dúvida não só nossa, leitor, mas que se inscreve no próprio modo discursivo como a obra é organizada pelo autor empírico por meio do narrador textual. A forma irônica é o modo que Machado de Assis encontrou para compor a sua obra e lhe prover de signifi- cados e significações. Assim, essa forma irônica — isto é, a cesura entre o signo e aquilo a que ele se refere, a realidade empírica — nos leva a concluir, parafraseando Octávio Paz, que “não sabemos o que é realmente o real”: se o que veem os olhos de Bentinho ou o que a sua (ou a nossa) “imaginação projeta”105. Se o reconhecimento, a matéria do discurso persuasivo, é sinônimo de significado unívoco, a singularização é sinonímia de linguagem carregada de significados e significações. No caso, a arte; a literatura, particularmente. 105 (PAZ 1991:108) VII Conclusão 1. Não é por semelhança de família, como são os jogos (afinal, o que há em comum entre uma partida de xadrez, atividade puramente cerebral, e uma de futebol, atividade em que predomina o esforço físico? Serem ambas apenas um entretenimento?), que podemos colocar sob o mesmo guarda-chuva a poesia, a epopeia, o drama, o romance, o conto e a novela. Apesar de guardarem formas distintas, todos esses gêneros encerram os quatro critérios que elencamos ao longo deste texto: (a) todos imitam (ora tomando a natureza como modelo, ora por meio da intertextualidade, ou mesmo ten- tando traduzir em linguagem os sonhos e as alucinações da mente) e contêm emissões fingidas que são acatadas, em forma de pacto, pelo leitor-modelo ou pelo leitor empírico; (b) todos trazem as in- tencionalidades do autor empírico; (c) todos constroem realidades textuais; e (d), por fim, todos perseguem uma linguagem carregada de significados e significações. Se estes critérios em conjunto (e não individualmente) caracterizam e estão presentes em todos os gê- neros literários (poesia, epopeia, drama, romance, conto e novela), terminando por agregá-los sob o mesmo manto e, principalmente, dando-lhes um estatuto artístico, como podemos encerrar, dentro desse mesmo manto conceitual, livros como os do Padre Antônio Vieira e Euclides da Cunha, por exemplo, que se inscrevem em campos do conhecimento que lhes são distintos? No caso de Vieira, a oratória religiosa (o sermão); no de Euclides, a história social. Ambos, como sabemos, ocupando papéis de destaque em todas as histórias da literatura brasileira (e, no caso de Vieira, também nas histórias da literatura portuguesa), apesar de as obras que predomi- nam nesses manuais serem, em quase totalidade, as que encerram 7776 Anco Márcio Tenório Vieira Capítulo 1 . O que é e o que não é literatura? os quatro critérios declinados ao longo deste texto. Então, por que Vieira? Por que Euclides? Talvez os críticos e os historiadores da literatura encontrem neles, como quer Searle, a “semelhança de família”. Afinal, Searle, comovimos, distingue obras ficcionais de obras literárias, já que, para ele, nem toda obra de ficção é literatura (no que concordamos com ele) e nem toda obra literária é ficção (do que discordamos). Desse modo, parece que temos, aqui, uma questão não respondida: o que faz um conjunto de obras ficcionais serem acatadas como literatura e, em contrapartida, outro conjun- to de obras não ficcionais serem tidas também como literatura? Sabemos a resposta de Searle: cabe ao autor decidir se a sua obra é ou não ficção, mas só ao leitor recai a decisão de afirmar se uma obra é ou não literatura. Assim, não há, para Searle, um limite que caracterize as obras literárias das não literárias: tudo depende do gosto e do critério de quem a lê. Talvez Vieira e Euclides sejam dois bons exemplos que venham responder o que o texto de Searle não respondeu. Vamos à análise. Para tal, evoquemos quatro estudiosos e historiadores da nossa literatura: Alfredo Bosi, José Guilherme Merquior, Afrânio Coutinho e Antonio Candido. Bosi define Vieira como um “[...] estupendo artista da pala- vra”106. Já Merquior toma muitos dos seus sermões como “[...] exemplos incomparáveis de artifício retórico posto a serviço do pensamento”. Entre estes, encontram-se “[...] a guirlanda de metáfo- ras, desfraldadas em amplo movimento alegórico; o amor à antítese; a frase de ritmo rápido, sincopado, enérgico; enfim, a indicação teatral do paradoxo [...], plataforma, por sua vez, de novas salvas metafóricas, e de novos arabescos de figuras de pensamento e de dicção”107. Coutinho, assinala que ele, Vieira, aliou “[...] a essência 106 (BOSI 1984:50) 107 (MERQUIOR 1979:18) do estilo senecano, ‘coupé’ e sentencioso, à ênfase, à sutileza, ao pa- radoxo, ao contraste, à repetição, à assimetria, ao paralelo, ao símile, ao manejo da metáfora [...]”. Assim, Vieira “[...] produziu páginas que são tesouros da eloquência sagrada em língua portuguesa”108. Por fim, Candido toma-o como um “escritor ardente, correto, a sua linguagem cheia de vigor e harmonia tornou-se um dos modelos da escrita clássica portuguesa”109. No caso de Euclides da Cunha, Bosi nota que “a expressão ‘barroco científico’, com que já se procurou batizar a sua linguagem, indica-lhe a essência, se em ‘barroco’ visualizamos, antes de mais nada, um conflito interior que se quer resolver pela aparência, pelo jogo de antíteses, pelo martelar dos sinônimos ou pelo paroxismo do clímax”110. Para Merquior, Euclides da Cunha é dono de uma “[...] frase contundente, angulosa, convulsa [...], singularizada pela elasticidade da sintaxe assindética (quase sem conectivo), dos cres- cendo dramáticos e dos ritmos espasmódicos [...]”111. Coutinho vê n’Os Sertões, “[...] como arquitetura e como construção, [...] o cará- ter de narrativa, de ficção, de imaginação. Os Sertões são uma obra de ficção, uma narrativa heroica, uma epopeia em prosa, da família de A Guerra e paz, da Canção de Rolando e cujo antepassado mais ilustre é a Ilíada”112. E Candido assinala em Os Sertões “[...] o voo retórico do estilo, inclusive no rebuscamento do vocabulário e das construções sintáticas, bem-vindos aos ‘cultores da forma’”113. Em resumo: tirante a definição de Afrânio Coutinho para Os Sertões, que lhe atribui um caráter ficcional (apesar do autor se va- ler apenas da autoridade de crítico e de professor universitário para 108 (COUTINHO 2001:116) 109 (CANDIDO 2004:26) 110 (BOSI 1984:349) 111 (MERQUIOR 1979:196) 112 (COUTINHO 1981:82) 113 (CANDIDO 2004:83) 7978 Anco Márcio Tenório Vieira Capítulo 1 . O que é e o que não é literatura? fazer tal asserção, deixando de lado qualquer problematização sobre o que asseriu, isto é, onde se encontra e como se dá a ficcionalida- de na obra de Euclides), todas as demais definições confluem para o mesmo ponto: Vieira e Euclides estão nas histórias das literaturas brasileira e portuguesa pela qualidade retórica do texto114. Ora, se o princípio finalista dos gêneros miméticos é a imitação, a ficciona- lização, a autonomia do texto em relação ao seu referente e, por sua vez, a construção de uma linguagem que não seja persuasiva, o que encontramos nos textos de Vieira e de Euclides é exatamente o inverso (sem esquecer que ambos não pretendiam, se pensarmos, aqui, pelo viés da intencionalidade, subordinar os seus textos a nenhum gênero ficcional. Muito pelo contrário). No caso de Vieira, sua obra segue o plano do discurso apregoado pela oratória: persuadir e comover. Para 114 Talvez pudéssemos evocar para essas obras o conceito formalista de litera- turidade (literaturnost), desenvolvido por L. Jacobinski, em 1916, no ensaio “Conclusões sobre a teoria da língua poética”. Para este teórico, a literaturida- de perseguia antes como o efeito de estranhamento da linguagem construía a percepção artística do que os princípios finalistas da poesia: a mímesis. É dentro desse princípio que Jacobinski e os demais formalistas irão definir a li- teraturidade a partir da confrontação entre a língua poética e a língua prática, cotidiana, que tem como fim a comunicação interpessoal. “’Os fenômenos lin- guísticos devem ser classificados do ponto de vista do objetivo visado em cada caso particular pelo sujeito falante. Se os utiliza com objetivo puramente prático da comunicação, ele faz uso do sistema da língua quotidiana (do pensamento verbal), na qual as formas linguísticas (os sons, os elementos morfológicos, etc.) não têm valor autônomo e não são mais que um meio de comunicação. Mas podemos imaginar (e eles existem realmente) outros sistemas linguísticos, nos quais o objetivo prático recue a um segundo plano (ainda que não desapareça inteiramente) e as formas linguísticas obtenham um valor autônomo’”. (Apud EIKHENBAUN 1978:9). No entanto, há um ruído na aplicabilidade do conceito de literaturidade à prosa (diverso do que ocorre nas formas poéticas). Na prosa, as palavras não têm autonomia, pois, enquanto instrumento, estão subordinadas à construção de um sentido: construção linear calcada em cima de ideias, críticas, fatos e análises. Todo narrador (indiferente de sua prosa ser ficcional ou não), ao tempo em que narra, escolhe, analisa e interpreta. Diverso da poesia, onde o pro- cesso de decifração da palavra e do verso só se dá pelo processo de recifração. Ou, como bem diz Octávio Paz, “[...] o sentido do poema é o próprio poema”, pois “há muitas maneiras de dizer a mesma coisa em prosa; só existe uma em poesia” (PAZ 1976:48). tal, ele se instrumenta nos preceitos da retórica clássica: o “exórdio” ou “princípio” (o começo) do discurso, que é constituído de duas partes: a “proposição” dos temas e a sua “divisão” (as partes que vão constituir o discurso); segue o “desenvolvimento” do discurso, que é formado tanto pela “narração” quanto pela “argumentação” (esta podendo encerrar o silogismo, o paralogismo, o paradoxo e exemplos); e, por fim, a “pero- ração”, “conclusão” ou “epílogo” do discurso. Assim, se o discurso, en- quanto oratória, se pauta pelo bem dizer (bene dicere) e pelo persuadir (persuadere), todo esse bem dizer e todo esse persuadir têm como fim ensinar (docere), agradar (delectare) e comover (movere)115. No caso de Euclides, se a qualidade retórica do texto é indiscutível, não podemos acusá-lo nem de ter construído um pacto ficcional com o leitor (toda a forma tripartite da obra segue uma lógica que se subordina aos prin- cípios científicos do seu tempo — o meio determina a degradação da raça, e ambos explicam as causas do evento a ser narrado: a Guerra de Canudos), muito menos de perseguir, em sua obra, o “acontecível”. Assim, tanto Vieira quanto Euclides escreveram obras em que podemos acusar, em determinados momentos da sua prosa, uma linguagem carregada de significados e de significações (particular- mente no uso de tropos), mas que não respondem ou se inscrevem nos demais tópicos que, em conjunto, perfazem o grosso dos gêneros textuais que compõem as históriasda literatura. Neste caso, tomá-los como literatura “por semelhança de família” (no caso, pela qualidade retórica do texto) é subordinar os seus atos ilocutivos (enunciados sérios, literais ou não literais) aos atos locutivos ou perlocutivos. E tais atos ou se atêm ao texto (a qualidade retórica) ou aos seus efeitos (a persuasão e a comoção). Logo: (a) a substância específica dessas obras não é a mimeses, nem a fictio; (b) esses livros não têm uma po- sição ex-cêntrica em relação aos fatos, pessoas e valores que povoam a 115 Ver MOISÉS (1992:152-155); CARMONA (2003); TRINGALI (1988) 8180 Anco Márcio Tenório Vieira Capítulo 1 . O que é e o que não é literatura? realidade empírica. Logo, não são fatos e pessoas puramente textuais; (c) o pacto de intencionalidade estabelecido com o leitor não é o do fingimento, mas o do critério de verdade e realidade prevalecentes em seus tempos: seja ela a “verdade” perseguida pela ciência e a filosofia, seja a da teologia ou das Escrituras. Se, por ventura, esses autores faltam com a verdade nos seus textos, eles incorreram na mentira, e não na criação ficcional, pois, como vimos, o avesso da verdade é a mentira; já o avesso de fingir é “desenganar”, no sentido de “esclare- cer”. Por fim, o único elo entre essas obras e os gêneros literários seria a suposta qualidade retórica dos seus textos, as supostas propriedades sintáticas ou semânticas específicas. Porém, essas não são necessa- riamente propriedades (específicas) da literatura, são procedimentos que podemos encontrar ou não em um texto literário, como também em obras filosóficas, religiosas e de ciências exatas. Por fim, (d) um texto literário carregado de significados e significações exclui do seu horizonte a “semelhança mais semelhante”, que é o estatuto do “reconhecimento” (tanto os Sermões, de Vieira, que se decifram pela teologia e a Bíblia, quanto Os Sertões, de Euclides da Cunha, que se calçam nas teorias cientificistas que lhe eram contemporâneas, são exemplos de “reconhecimentos”, e não de “singularizações”). Desse modo, se as obras citadas no início deste ensaio com- partilham dos mesmos genes, obras como a de Vieira e Euclides não trazem marcações que as inscrevam na mesma família em que Memórias póstumas de Brás Cubas e Invenção de Orfeu participam. Por se nutrirem de um referente, mas não se subordinarem a este (e aqui a dicotomia verdadeiro/falso perde completamente o seu senti- do), as obras de Machado de Assis e de Jorge de Lima terminam por “neutralizar”116 o modo como os demais discursos (sejam eles cien- tíficos, sejam religiosos ou morais) buscam tematizar ou apreender 116 Ver LIMA (2002:666) a realidade empírica. Se Machado e Jorge de Lima fingem as suas asserções, o mesmo não podemos dizer de Vieira e Euclides. Daí por que a dicotomia verdadeiro/falso poder ser aplicada aos seus textos, mas não aos de Machado e Jorge de Lima. Concluindo: como afirmamos no início deste artigo, os estudos sobre o que é e o que não é literatura pecam por querer definir a litera- tura apenas por um dos seus aspectos: ou centrando-se no texto ou na sua recepção. É o que faz Searle, ao defender que cabe ao autor decidir se a sua obra é ou não ficção e, ao leitor, a decisão de afirmar se uma obra é ou não literatura. No primeiro caso, a palavra ficção é tomada por Searle apenas no sentido de “criação” (daí por que ele desconsi- derar o leitor) e não em sua dupla acepção: a de “criação” (sentido próprio) e a de “ação de fingir” (sentido figurado). Ora, como quem finge finge para alguém, tomar a ficção também no seu sentido figura- do já implica na construção de um pacto com o leitor. Logo, não é só o autor que delimita a ficcionalidade do seu texto, mas também o leitor, que é convidado a participar desse pacto ficcional. Sem esse pacto entre autor e leitor, a ficcionalidade não se perfaz e, por extensão, os gêneros que formam as histórias da literatura e que são calçados na ficcionalidade: a poesia, a epopeia, o drama, o romance, o conto e a novela. Gêneros estes que só poderão ter as suas “naturezas” apreen- didas e tomadas como partes de uma mesma família se consideramos o fenômeno como um todo sistêmico: 1º A imitação e a ficcionalidade do texto (compondo a unidade dos gêneros literários) e, como parte dessa ficcionalidade, a recepção de quem o lê perfazendo o pacto fic- cional; 2º A intencionalidade do autor (o estatuto histórico-temporal da obra e, por desdobramento, as marcações dadas pelo autor empíri- co e que delineiam a sua recepção); 3º A verdade e a realidade textuais (o caráter imanente do texto); 4º Os significados e significações do texto (sua condição artística e trans-histórica). Mesmo sabendo que, 8382 Anco Márcio Tenório Vieira Capítulo 1 . O que é e o que não é literatura? isoladamente, cada um desses aspectos sejam variáveis conceituais (podemos encontrar cada um desses aspectos nos demais gêneros textuais, como vimos no caso de Vieira e Euclides), em conjunto (e só em conjunto) eles se constituem (e é o que tentamos demonstrar ao longo deste artigo) em uma invariável. Invariável esta que está presen- te tanto nos gêneros que compõem a poética clássica (o épico, o lírico e o dramático) e medieval (a novela de cavalaria) quanto nos que surgiram a partir do Renascimento (o romance, o conto e a novela). Referências ANGIONI, Lucas. 2009. Comentários. In: ARISTÓTELES. Física I-II. Pref., introdução, trad. e comentários de Lucas Angioni. Campinas (São Paulo): Editora UNICAMP, p. 65-406. ARISTÓTELES. 2013. Da Interpretação. Trad. e comentários José Veríssimo Teixeira da Mata. São Paulo: Editora UNESO. Edição bilíngue. ______. 2009. Ética a Nicômaco. Trad. António de Castro Caeiro. São Paulo: Atlas. ______. 2009. Física I-II. 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A teoria literária: desprestigiada e imprescindível Lourival Holanda Universidade Federal de Pernambuco O advento, tão irresistível quanto imprevisível, por sua rapidez e extensão, da cultura cibernética fez repensar alguns valores tidos anteriormente por consensuais. A essa altura é ocioso pensar se se trata de uma revolução cultural, de uma transformação social, de uma mutação; o fato é que é próprio de tais situações pôr em xe- que costumes e conceitos. A realidade virtual veio sacudir o torpor conceitual porquanto altera nossa percepção da teoria. Claro, isso só pode fazer sentido se pensado em sua complexidade: a academia não encerra toda a teoria; assim como nenhuma teoria casa com o real literário; o mais comum, no espaço cibernético, são posturas pontuais cuja rapidez de circulação faz crer serem verdades incon- testes. A prevalência do mundo da informática, da comunicação, das conexões em todos os níveis, tudo leva a crer que Prometeu cede lugar a Hermes. A teoria literária recente viveu de supostas certezas representacionais advindas de um modo cultural que precisava de âncoras conceituais incontestes como suporte de seu mundo. A cultura no modo virtual permite permutas mais ricas, diminui as pretensões de uma teoria total, global, e faz inflectir as supostas certezas das escolas teóricas apenas em ganhos pontuais — não em verdades estabelecidas. De evidente, o serviço público que ade Pós- Graduação em Letras da UFPE (Ed. UFPE, 2006) e Hermilo Borba Filho e a dramaturgia: diálogos pernambucanos (FCCR, 2010). Foi Gerente-Assistente do Instituto de Documentação (INDOC), da Fundação Joaquim Nabuco (1994-1997; 2000-2002). No momento, organiza a correspondência ativa e passiva entre Joaquim Nabuco e Graça Aranha (1890-1910) e o Teatro Completo de Luiz Marinho (em 3 volumes). LOURIVAL HOLANDA — Possui Graduação em Filosofia pela Universidade de Paris VIII (1976), Mestrado em Letras (Língua e Literatura Francesa) pela Universidade de São Paulo (1986) e Doutorado em Letras (Língua e Literatura Francesa) pela Universidade de São Paulo (1992). Editor da Revista Estudos Universitários da UFPE. Publicou Fato e Fábula (Ed UFAM, 1999); Sob o signo do silêncio (EDUSP, 1992); e Álvaro Lins: crítico literário e cultural (Ed UFPE, 2008). Organizou para o Itaú Cultural a coletâ- nea Deslocamentos críticas (São Paulo: Babel, 2011); Tem feito con- ferências nos Estados Unidos (Nova York e Austin) e, sobretudo na França (Paris e Clermont-Ferrand). Membro do Conselho Editorial da revista online de Literatura e Linguística Eutomia (ISSN 1982- 6850). Membro do Instituto Arqueológico Geográfico e Histórico de Pernambuco. Atualmente é Professor Associado I da Universidade Federal de Pernambuco e Diretor da Editora UFPE. Desenvolve pesquisas em poéticas, memória e sociedade, com ênfase na Crítica editora Highlight 1312 e Teoria Literária, Literatura Brasileira Contemporânea, Literaturas Estrangeiras Contemporâneas, Cultura, História e Linguagem. ROBERTO ACÍZELO DE SOUZA — É licenciado em letras pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, instituição onde é pro- fessor titular de literatura brasileira, tendo também lecionado teoria da literatura na Universidade Federal Fluminense, de 1976 a 2002. Doutor em teoria da literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, com estudos de pós-doutorado na Universidade de São Paulo, entre seus principais trabalhos publicados figuram: Teoria da literatura (1986, 10ª edição em 2007), Formação da teoria da litera- tura (1987), O império da eloquência: retórica e poética no Brasil oi- tocentista (1999), Iniciação aos estudos literários: objetos, disciplinas, instrumentos (2006) e Introdução à historiografia da literatura bra- sileira (2007). Organizou ainda duas edições anotadas de trabalhos do historiador e crítico romântico Joaquim Norberto — História da literatura brasileira (2002) e Crítica reunida; 1850-1892 (2005; em colaboração com José Américo Miranda e Maria Eunice Moreira) — bem como uma edição dos ensaios sobre história literária na- cional de Fernandes Pinheiro: Historiografia da literatura brasileira: textos inaugurais (2007), além da antologia Uma ideia moderna de literatura: textos seminais para os estudos literários (1688-1922). SUELI CAVENDISH — Doutora em Letras pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e Mestre em Sociologia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Professora efetiva Adjunta III de Literaturas de Língua Inglesa do Departamento de Letras da UFPE. Visiting Scholar e Visiting Fellow, respectivamente, da University of Southern Mississippi e da Yale University, entre 2001 e 2002. Professora Visitante do Curso de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Pós-Graduação em Letras da mesma universidade, com bolsa de pesquisador visitante FAPERJ (2003- 2004). Lecturer dos Departamentos de Estudos Culturais e de Inglês, da University of North Carolina at Charlotte, EUA, apresentando as conferências: “From Walter Benjamin to the translation of William Faulkner into Portuguese: Talks by Dr. Sueli Cavendish” e “Close Encounters at a Crossroads: Poe, Faulkner, Rosa and Machado de Assis”. Tem capítulos publicados nos livros Crossings and Contaminations: Studies in Comparative Literature (Ed. por Eduardo Coutinho e Pina Bausch, Aeroplano, 2009), Do Jeito Delas: Vozes da Poesia Feminina de Língua Inglesa (Sete Letras / Faperj, 2008), e Nove Abraços no Inapreensível (Azougue, 2008). Tem artigos cientí- ficos publicados em diversas revistas (USP, Eutomia, Investigações, Terceira Margem, Continente Multicultural, entre outras) e tradu- ções de diversos contos inéditos de William Faulkner, publicados nas revistas USP, Eutomia, Continente Multicultural, e Investigações. É editora-chefe de Eutomia, Revista de Literatura e Linguística, que criou no Departamento de Letras da UFPE em 2008. MARIA DA GLÓRIA BORDINI — Possui licenciatura em letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1969), mestrado em letras / teoria da literatura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (1983) e doutorado em letras na mesma área de concentração também pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (1991). É professora aposentada como Adjunta IV na UFRGS e ex-professora titular de teoria da literatura da PUCRS. Atualmente exerce o cargo de professora colaboradora convidada da UFRGS no Programa de Pós-Graduação em Letras. Tem experiência na área de letras, com ênfase em teoria da literatura, atuando prin- cipalmente nos seguintes temas: Erico Verissimo, Mario Quintana, 1514 acervos literários, literatura brasileira e portuguesa, estudos culturais e lírica. É pesquisadora 1B do CNPq. Entre os 27 livros publicados ou organizados, figuram importantes marcos nos estudos literários brasileiros, tais como: Poética da cidade em Erico Verissimo (Rio de Janeiro: Edições Makunaima, 2012), Melhores contos de Walmir Ayala (São Paulo: Global, 2011), Identidades fraturadas: ensaios sobre literatura portuguesa (São Paulo: EDUSP, 2011), Leitura e desenvol- vimento da linguagem (São Paulo: Global / ALB, 2010), As cidades imaginadas de Erico Verissimo (Porto Alegre: Gráfica Comunicação Impressa, 2007), Mario Quintana: o anjo da escada (Porto Alegre: Telos Empreendimentos Culturais, 2006), Crítica do tempo presente: estudo, difusão e ensino de literaturas de língua portuguesa (Porto Alegre: Nova Prova / AIL / IEL, 2005), Caderno de pauta simples: Erico Verissimo e a crítica literária (Porto Alegre: Instituto Estadual do Livro, 2005), Cultura e identidade regional (Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004), O tempo e o vento: história, invenção e metamorfose (Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004), O arco e as pedras: fontes primárias, teoria e história da literatura (Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004), Lukács e a literatura (Porto Alegre: EDIPUCRS, 2003), 35 Melhores Contos do Rio Grande do Sul (Porto Alegre: Instituto Estadual do Livro CORAG, 2003), A liberdade de escrever (São Paulo: Globo, 1999), O cortejo do divino e outros contos escolhidos (Porto Alegre: L&PM, 1999), Criação literária em Erico Verissimo (Porto Alegre: L&PM, 1995), Confissões do amor e da arte (Porto Alegre: Mercado Aberto, 1994), Literatura: a formação do leitor (Porto Alegre: Mercado Aberto, 1993), e O gigolô das palavras (Porto Alegre: L&PM, 1993). JOSÉ DE PAIVA DOS SANTOS — Professor de Literaturas de Língua Inglesa na Universidade Federal de Minas Gerais, Faculdade de Letras, onde atua nas seguintes áreas: literatura estadunidense do século 19 e 20, Literatura Afro-Americana, Literatura e Religiosidade, e Literatura Comparada. Obteve Ph.D. em Literatura Comparada e Teoria Literária na Purdue University (2001), e Mestrado na mesma área na Brigham Young University (1997). Coorganizador do livro Migrações Teóricas, Interlocuções Culturais: Estudos Comparados Brasil / Canadá (2009) e autor de vários artigos publicados na área de literatura estadunidense, afro-estadunidense e canadense. REGINA LÚCIA DE FARIA — É professora adjunta de Literatura Brasileira no curso de Letras da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) desde 2010. Fez mestrado e doutorado na PUC- RJ e doutorado-sanduíche na Universidade de Stanford, Califórnia. De 1999 a 2002, foi professora leitora no Instituto de Línguas Românicas da Universidade de Aarhus, Dinamarca.tecnologia presta à ins- tância crítica ao democratizar uma panóplia de informações e uma 9190 Capítulo 2 . A teoria literáriaLourival Holanda pluralidade de enfoques teóricos. Se a teoria puder se definir como modulações de uma reflexão sobre o fazer literário, o pensamento teórico fica mais livre para equilibrar, relativizar, modelar aborda- gens no momento mesmo em que a literatura se serve de outras mídias para a construção de seu objeto. Uma consideração sobre a emergência hoje de outras teorias pode conduzir à conclusão de que sua função continua a de ser uma atenção refletida ao imprevisível da criação. O empenho teórico é como o fervor que resulta da febre que um texto forte provoca: seja que a reação tenha sido de exe- cração ou de exultação, o momento teórico tenta então depurar a paixão na aventura de um exercício intelectual de reflexão analítica. E menos com o intuito de restituir o texto que de recompor sua possibilidade. Com a entrada do século XXI, já o conceito de teoria literária tinha entrado em deliquescência. As novas tecnologias fizeram vir à tona problemas teóricos que não poderiam ter sido abordados antes. A web 2.0 permitiria outros modos de permuta, de leitura, de produção de textos e de uma possível frequentação imediata dos teóricos, e, em consequência, mudaria a prática de pensar o texto literário. E o estudioso de literatura se vê confrontado a outra realidade, tendo que pensar o que não previu e que ser sensível ao inesperado, na fusão de registros do protocolo literário atual. A profusão de experimentos pôs em xeque a estabilidade conceitual anterior: já se sabe cada vez menos como classificar o que se está fa- zendo — mas, o que mais importa, se está produzindo em torno da literatura. As definições anteriores, vigorosas e veementes, perdem seu poder ante o impacto das transformações operadas no campo da criação literária. As discussões críticas já não têm a contundência excludente de ontem, mas os discursos se toleram mais, quando não fraternizam francamente em suas diferenças. À primeira vista, e como consequência, a situação presente da teoria literária parece inapreensível — sobretudo em seu modo anterior; as causas da crise conceitual são difusas como é complexa a cultura contemporânea; porque o abalo sísmico provocado pelas possibilidades de produção literária no espaço cibernético leva os teóricos a redefinir seu objetivo (a que serve ainda a teoria?) e mesmo seu objeto (há alguma unanimidade no que se pretende literário?). Enquanto foi compreendida como extensão da prática heleno-judaica do comentário e interpretação de textos, ela deteve um sentido agregador junto à comunidade e teve um papel relevante no prosseguimento de uma dada noção de cultura. A Poética de Aristóteles é sempre a referência — chamada ou xingada: dois mil e quinhentos anos de presença pesam. Se já é um texto de teoria, isso só pode ser aceito sob reservas prudentes para evitar anacronismo. Seu objeto não é tanto aquilo que, sobretudo depois de Valéry vamos chamar de poética, mas a representação, a mímese, da ação; e, por extensão, do mundo. Onde uma poética estende e classifica, a outra, mais próxima, aprofunda. O modo mais descritivo de Aristóteles, ocupado com gêneros de representação, epopeia ou drama, tragédia ou comédia, marca ainda os estudos teóricos. A essas abordagens é oportuno acrescentar as novas lei- turas do real, advindas da Física atual: A natureza apresenta-nos, de fato, a imagem da criação, da imprevisível novidade.1 A tônica sobre a imprevisível novidade deixa mais nítido o desafio da tentativa de compreensão do real literário contemporâneo. Com a eclosão da cultura virtual, volta Valéry: as diversas dimensões das linguagens, agora mais modais, como possibilidade de enriquecer as virtualida- des da criação literária. Desde os anos 20, no século passado, se viu surgir a necessi- dade de um consenso e de maior segurança teórica. Há aqui uma 1 (PRIGOGINE 1996:75) 9392 Capítulo 2 . A teoria literáriaLourival Holanda profusão de teorias sociais, psicanalíticas, antropológicas, que vão se fecundando mutuamente. O teórico de literatura ganhou um espaço no debate cultural — mesmo se ainda muito restrito ao ambiente acadêmico; a concentração acadêmica fez sua força — e também sua fraqueza; mas, logo depois, pela estreita relação que os estudos literários mantêm com as demais ciências sociais, que também recorrem à linguística, à filosofia, à psicoanálise, o teórico de literatura ganhou uma plataforma no questionamento das coisas culturais. A teoria, seguindo os ares do tempo, pretendeu criar um corpus conceitual que, dotado de uma metodologia rigorosa e uma terminologia operacional nova, desse status de ciência, emulando, assim, as ciências naturais e as exatas. O afã teórico levou a extremos e fez alguns prisioneiros de uma nova escolástica; o totalitarismo teórico tem, no pior, dupla deriva: política e teológica. Fez mais mal que bem. O empreendimento teórico é um projeto de ultra- passagem, porque de crítica, não de crença. Sua atuação crescente desperta admiração e receio, respeito e desconfiança. Se não se pode falar mais em falência das teorias, não há como negar seu progres- sivo descrédito. As correntes teóricas se tinham cristalizado a partir da prevalência de posicionamentos políticos — que resultavam em redundância: ler um texto enquanto crítico marxista ou cristão ofe- rece pouca margem à descoberta e muita margem à confirmação de uma teoria já consabida de antemão; porque o princípio mesmo do saudável distanciamento crítico já está sacrificado. Depois do giro linguístico, já nos tumultuados anos 70, a lingua- gem ocupou a centralidade da cultura; e houve uma recrudescência teórica notável. A lamentar, o saldo: não foi tanto a contribuição generosa à abertura, à recepção do texto, mas a redistribuição dos lugares acadêmicos, a conquista de cátedras. Estruturalismos, new criticism, formalismos, todos tonitruando na soberana alegria de suas afirmações e felizes com o eco de sua divulgação nos quadran- tes latino-americanos; um modo pouco sutil de imperar era reduzir perplexidades e complexidades alheias para melhor desmontá-las. O debate entre Afrânio Coutinho e Álvaro Lins, nos meados dos anos 60, padeceu desse esquema; nem sempre Álvaro tinha razão; o prestígio da novidade das teorias americanas dava a Afrânio força. Hoje Antonio Candido ou João Cezar de Castro Rocha restituem a querela, sobretudo com ganho para o teórico mais jovem. Volta a vez de quem ousa e arrisca, na busca de outros modos críticos. Como é o caso de Eduardo Maia: “A lição orteguiana para a teoria literária é a de que não há objetivismo possível sem subjetivismo, mas o subje- tivo não existe em si, isolado e independente de sua relação com as coisas ao seu redor. Parece-me uma proposta elegante e realmente interessante para a superação da querela entre o contextualismo radical, por um lado, e o imanentismo na análise textual, por outro, de algumas correntes de teoria literária contemporâneas”.2 Como acontece depois de mutações fundas, alguns apontam no fim de um modo o fim de um mundo. Os mais impacientes já pensam definir esse tempo como depois da teoria;3 o gesto procede se se pensar o tempo, recente ainda, quando o debate literário em jornais e revistas tinha uma importância central na dinâmica da vida cultural, uma componente incontornável da cultura literária. O mundo cibernético operou uma passagem considerável: da rea- lidade aos signos, das coisas à linguagem, de Prometeu a Hermes, da energia bruta à informação sutil. No entanto, é cedo demais para falar em fim da teoria; difícil receber isso sem reticências internas, quando não com resistências externas, como é o caso de Repensando a teoria, de Richard Freadman, Richard e Seumas Miller.4 Como é 2 (MAIA 2013:81). 3 (EAGLETON 2005) 4 (FREADMAN; MILLER 1994). 9594 Lourival Holanda Capítulo 2 . A teorialiterária também o caso do presente projeto que João Sedycias organiza aqui: repensar a teoria é postura oposta à ação arbitrária de descartá-la, por não abarcar todas as dimensões do possível, do imprevisível — que caracteriza a criação literária contemporânea. No universo hierarquizado, burocrático, administrativo onde se estruturou a disciplina teoria da literatura, a cristalização de suas descobertas em certezas repassadas em vulgata doutrinal foi, certa, letal; mas assi- milar essas limitações à definição de teoria, não seria justo: a teoria é o esforço permanente de repensar o fato literário; e isso, ao modo da assíntota: sendo de natureza predominantemente retórica e não simplesmente lógico-dedutiva, a relação assintótica da teoria com o real literário vai cercá-lo sempre, sem abarcá-lo nunca. O rigor da lógica sempre fica aquém da força de evidência da coisa literária. A literatura, ainda que indefinível, transcende as teorias. A teoria como a concebemos hoje, instituída enquanto discipli- na universitária, deriva de inícios do século passado, entre os anos 20 e 30. Um grupúsculo de pesquisadores, amadores de literatura, cedo vai se transformar num coletivo com força de forjar os conceitos que revolucionarão os estudos teóricos. O grupo de Moscou se torna representativo, emblemático dessa virada de renovação; infelizmente a tradição vai engessá-los — os formalistas — numa função de tri- bunos; a um passo da função judicial. Os estudos se deslocam, no período entre guerras, e o centro de gravitação dos estudos de teoria pende para a Alemanha; depois para Praga, mas mantendo ainda um ar de família, reconhecível no empenho na objetivação do texto. Quando o foco de pesquisa se desloca e acontece nos Estados Unidos — o célebre new criticism — as variações de abordagem divergem entre a crítica formal e a teoria literária, guardando, contudo, ainda uma invariante: o caráter formal, modal, do texto. Assim, desde o formalismo russo, passando pelo new criticism, o estruturalismo, a semiótica, as teorias da recepção, o pós-estruturalismo e, dentro des- te, o projeto ou estratégia desconstrucionista, todas as abordagens mantêm um ar de família, para dizer com Wittgenstein: nos jogos analíticos que propõem ainda há o elo entre linguagens, sociedade e sua possível tradução do gesto criador — no seu étimo original. A ascendência circunstancial dessas escolas está ligada às in- junções sociopolíticas: os grandes centros universitários divulgam com mais eficiência a pretendida superioridade de seu aporte teó- rico; acontece, não raro, de um movimento ter mais força de circu- lação que de consistência teórica; havia um fetiche de sacralização de tudo o que emanava dos grandes centros universitários. Seria interessante observar do ponto de vista sociológico a ascendência, poder e prestígio terrorizantes de certos nomes. Um vocabulário carregado de aluviões de discurso supostamente filosófico, cientí- fico, técnico — como se assumindo postura de que o que concebe bem não se explica claramente — deixou para as gerações atuais um campo que, depurado de areia e cascalho, fica pouco fecundo. A teoria literária perdeu o contato com o mundo social; tal isolacio- nismo foi letal. Mesmo se nos centros universitários os programas continuem esperando dos estudantes que salmodiem teorias como ventríloquos aplicados. A contradição começa em não pressentir que quando se fala em literatura a reflexão sobre os afrontamentos sociais, ideológicos, toma como objeto a linguagem enquanto mobilidade e modalidades de experiência — e a linguagem do teórico aponta um dado cami- nho metodológico consabido, um chão batido; mas com o prestígio do poder de plantão naquele centro acadêmico; a segurança suposta sacrifica, assim, a margem de liberdade; um trabalho teórico ficava sendo o jogo de completar ou decodificar com os termos aceitos em um quadro conceitual. 9796 Lourival Holanda Capítulo 2 . A teoria literária Se a função do teórico muda é porque as novas formas artísticas pedem outros referenciais. A poesia de Mallarmé ou a música dode- cafônica estavam distantes do grande público, então o teórico fazia as vezes de mediador cultural criando um modo de compreender o fenômeno novo. Com a mudança de sensibilidade literária, há uma prevalência da experiência sobre a referência. No mundo virtual é fácil perceber a eclosão de experiências de expressão em muitos registros. O poema compõe com a pintura, que pede a música, que põe o conjunto em movimento gráfico, como nas criações poemáticas de Jussara Salazar ou de André Vallias. A linguagem do texto já de antemão dialoga com os recursos teóricos, como romances de Lourenço Mutarelli ou de Cícero Belmar. A teoria tem o desafio permanente de acompanhar, e às vezes de sugerir, as possibilidades de criação. E respeitando a liberdade de quem dispõe de um material de difícil controle: “a literatura tem um sistema seu de signos e de regras de sintaxe de tais signos, sistema esse que lhe é próprio e que lhe serve para transmitir comunicações peculiares, não transmissíveis com outros meios”5. O desafio do teórico con- temporâneo pode ser o de ter a liberdade de adequar métodos lá onde o escritor ousa modos de linguagens. Com o advento das novas mídias, há seguramente uma dificuldade em discernir o que seja teoria. Ela ainda sabe que existe; embora ignore o que ela é. A complexidade que se apresenta quando se tenta fixar conceitualmente de maneira absoluta qualquer prática cultural. Fenômeno concomitante à prática literária. Linha divisória pouco perspícua. Talvez sejam esses os vínculos interiores que, antes da teoria, a cultura literária mantinha com o corpo social. Da nebulosa de conceitos e escolas dos anos 70 pouca coi- sa guarda ainda o mesmo peso. Produziram um belo efeito de 5 (SILVA 1983:95). cientificidade nos estudos literários. Os ismos se sucederam com a força de modas, promovendo leituras enquadradas em sistemas que acreditávamos, mais que os melhores, os únicos possíveis. E, enquanto a ciência buscava uma narrativa que desse alguma uni- dade ao mundo, as teorias se fracionavam; nada nas investigações literárias se assemelhava à empresa utópica da teoria das cordas; ou a das catástrofes, através de processos descontínuos procurando um modelo dinâmico contínuo; ou do real velado, de que falam os Físicos: também a tarefa do teórico é captar o surgimento de uma dimensão social escondida sob a realidade do texto. Ficava, no entanto, a pretensão de cientificidade; ainda que compreendendo a ciência no estágio do XIX, com a termodinâmica [1880] e seu modelo de superação de fases, levando à entropia: cada escola supondo-se superar à anterior. Mas a analogia fica ali, deslocada: entropia só vale para sistemas fechados — não funciona na cultura, não serve para pensar a dinâmica de refazimento permanente das coisas culturais; aqui melhor recorrer à figuração da neguentropia; ou a autopoiésis (advinda também do mundo científico, da biologia, com Humberto Maturana e Francisco Varela; e diz melhor essa sur- preendente reorganização vital que escapa ao conceitual anterior). O cuidado em dar cientificidade às reflexões teóricas sobre literatura ainda acompanhava o paradigma dominante desde o XX, com a caução de um arrazoado emulando as exatas — e, se nem tão somente para angariar suportes financeiros para projetos de pesquisa no bojo das ciências com credibilidade pelas estatísticas e cifras, também porque respondia à suposição de uma transpa- rência mensurável do mundo como protótipo de conhecimento verdadeiro. Esse modo de conhecimento era ainda mais prescritivo que procedural, apontava conceituações e subconceituações catalo- gadoras; não ousava ainda deslocar discursos, submetê-los à prova 9998 Lourival Holanda Capítulo 2 . A teoria literária de autorrefazimento próprio às coisas de arte. E assim a teoria foi ficando um mundo à parte, la folie raisonnante, orientado peloprimado ou pretensão do modelo científico passado; fiel a uma forma de dedução lógico-racional, e nenhuma forma de linguagem comum, cotidiana, pragmática ou artística, que se servisse de ima- gens, analogias e metáforas, acreditava só assim ter pretensões de conhecimento autêntico. E, no entanto, já ali ao lado, a ciência de ponta, a quântica, a astrofísica, os pesquisadores como Heisenberg ou Niels Bohr não se constrangiam, antes se rejubilavam em perce- ber no mundo real dimensões que não cabiam num mero conceito. A teoria literária ficou presa a um processo dedutivo fechado em si mesmo e não podia ousar outras formas de persuasão que não derivassem desse processo lógico. Assim, o desvio desnorteou a geração seguinte que via na abstração cientificizante o sequestro da contingência que marca as valorações humanas. A tautologia e a previsibilidade beiravam o tédio; para onde tende toda vulgata: perde seu fulgor inicial de descoberta e finda em controle feroz de catecismo. De qual crédito goza ainda a teoria literária, junto a seus leitores eventuais, na diversidade de suas expectativas, nos corredo- res universitários? Quanto do particularismo das linhas ideológicas demasiado rígidas das escolas pôde agregar em suas sistematizações rígidas? A nova sensibilidade coletiva, construída a partir das aber- turas virtuais, sob a urgência do presente, vai se inventando uma forma de debate teórico cruzando muitas mídias. Como crer que o close reading dê conta da produção literária atual, tão assombrosa- mente heterogênea? Não há receita para a reflexão — incumbência eminentemente teórica. O encapsulamento operado nos estudos teóricos nos anos 80 não prestou grande serviço à credibilidade e difusão da literatura; os sintomas dessa expressão de poder vinham de longe; e já desde os anos 50, em Genebra, a advertência pertinente de M. J. Durry acompanhava a de Ortega y Gasset. A eficácia de uma leitura inte- ligente e viva vinha substituída pelo vocábulo técnico que, à guisa de servir à literatura, se servia desta para mascarar a ocupação de um espaço. Quanto mais absconso o discurso, maior seu poder de fascínio. O teórico era definido como um manipulador de conceitos, para quem o fato literário só existia para caber num sistema. Aqui, como no campo da química, a densidade aumentava a temperatu- ra: tempo das querelas por nuances conceituais; e a consequente clausura defensiva. E, se o poder se percebe pela culpabilidade que inspira, não surpreende que os estudantes tomem por prudência, por osmose ou conforto intelectual, um alinhamento teórico mais susceptível de garantir suportes financeiros pela aceitação junto aos organismos dispensadores de bolsas e benefícios. Há que se lamen- tar a perda dos níveis de integração, entre boa parte dos teóricos; sobretudo quando se poderia fazer face ao inimigo comum: a indi- ferença que hoje grassa nos corredores e desemboca nas outras mí- dias. As segregações departamentais negavam o movimento mesmo da cultura contemporânea: moléculas, células, órgãos e sistemas, tudo se define pela conexão; a sensibilidade contemporânea parece dar provas desse outro modo de inteligência — modi res conside- randi — novas formas de pensar a teoria literária: as redes sociais permitem muito — inclusive o melhor. A perspectiva globalizante ultrapassa as fronteiras das literaturas regionais e afirma a liberdade atual de poder cruzar pontos de vista teóricos e disciplinares. A teo- ria, portanto, está hoje também nas redes, ainda que sem pretender a sistematizações. Em algumas revistas digitais, como Cronópios, Sibila e Zunái, a reflexão em torno de teoria literária prossegue, entre jovens-cabeça e cabeças grisalhas; um modo frutífero de troca de experiências — e farpas, certo; mas que, se estão ali, é por crerem ainda de algum proveito e sentido estar no espaço da teoria como numa encruzilhada de modos e métodos de pensar a literatura. 101100 Lourival Holanda Capítulo 2 . A teoria literária Os teóricos refletem sobre literatura como extensão de suas prá- ticas de leitura. Desde Aristóteles: a Poética não vem com programa de prescrições, mas antes, de descrições; ainda que pontuadas por reflexões que guardam seu frescor de pertinência. Ernst Robert Curtius ou Antonio Candido, George Steiner ou Jean Starobinski, o trabalho teórico neles não busca dissimular insuficiências e lacunas, e por isso chegam a uma finura de observação, a uma pertinência de valoração que acrescentam a quanto os leiam. Mesmo os mais próximos, como Marcus Siscar ou Paulo Franchetti, Antonio Carlos Secchin ou João Cezar de Castro Rocha, se teorizam, o fazem com firmeza, mas também com retenção, com reserva, como num afã de partilhar percepções. Porque distantes da patrimonialização das teorias, a liberdade deles se soma à nossa; propõem, mais que impõem. A questão aqui seria: a teoria literária tem futuro? Podem-se discernir, em meio aos muitos fracassos, os sinais de sua permanên- cia? Desde os anos 60, a teoria literária projetou sobre os estudos universitários um modo de pensar a realidade do texto e ocupou um espaço necessário. Algumas teorias trazendo mais originalidade que peso; outras, mais singularidade que crédito. É bom não esquecer o lugar de onde emanam as teorias; sua patrimonialização nos centros universitários de maior suporte financeiro conta muito: o sucesso não é tanto que sejam operacionais, mas que circulem; cumulam, assim, a expectativa de certos centros por dividendos imediatos. A teoria padecia da síndrome de quem fica entre Cila e Caríbdis: de um lado, o recente imperativo mercadológico neoliberal que hoje a condiciona; e, de outro lado, a superstição de autoridade inconteste das posturas teóricas anteriores. O ciberespaço desvirtua essa direção, relativiza as autoridades superficiais e se propõe, na maleabilidade de formatação das redes, um serviço de maior partilha de um saber. A teoria literária em tempos de redes sociais pode ser aventura de grande fôlego: o exercício do pensamento não se faz com redes de segurança; as citações possíveis estão na internet, em sua grande parte; mas elas já não servem do mesmo modo: antes, davam a im- pressão de segurança; hoje, servem de suporte para a reflexão mais pessoal. A teoria dissolveu sua segurança, cristalizada pelos últimos anos, e a literatura preservou seu talento excepcional para sair-se do impasse criativamente. E, no entanto, urge acreditar no quanto a teoria literária pode trazer à cultura. Mesmo não sendo fácil definir a extensão desse aporte, ele é um gesto afirmativo. No espaço acadêmico, ou no espaço virtual, a teoria pode ser um trabalho de criação coletiva; um em- preendimento coligando outros colaboradores; onde o prazer da par- tilha, nesse modo de saber que fraterniza, é maior que as hierarquias. O espaço cibernético permite um modo teórico mais livre, onde o discurso científico convive com o controverso, a escrita artesanal com a técnica; a teoria anterior carregava o compromisso com a segurança conceitual, quando compreender era enquadrar num sistema teórico, integrar nele o texto, transformá-lo enfim em prova de validade da teoria, afastando suposições (mais procedurais, mais deslocáveis, na cultura virtual) — antes essa alternância que aquela alternativa. E quem hoje ousa pensar a teoria literária não se constrange em fundir, num mesmo empreendimento, função e paixão. Deixando espaço à acolhida e à surpresa, uma vez que o mundo cibernético fica à beira de eventualidades, de possíveis, sendo uma sucessão de equilíbrios efêmeros. Sem, no entanto, renegar o primado da reflexão que sustém a análise. A teoria literária, a despeito de suas imperfeições, de suas lacunas, de suas insuficiências, a despeito mesmo do anacronismo das instituições universitárias, é ainda um espaço da liberdade de refletir sobre a prática escritural, o espaço do direito à pesquisa, tão certeira- mente requerido por Mário de Andrade. A grande disparidadeentre as correntes teóricas e as políticas que caracterizaram os estudos literários manifesta especialmente a 103102 Lourival Holanda Capítulo 2 . A teoria literária fragilidade das instituições universitárias quando, para assegurar cré- dito, repetem, em pior, os aparelhos de controle contra os de criação; e, assim, distanciam, mais que agregam, o possível público leitor de literatura. A complexidade mesma da matéria com que trabalha o te- órico — a literatura — é de difícil conceituação unânime. A tarefa do teórico começa quando se dá conta da dificuldade de definir essa di- ficuldade: a palavra literária, a que suscita no leitor prazer ou espanto, exasperação ou exultação, enfim que o atinge. A reflexão teórica pode começar na linguagem, a base mesma do fato literário (ainda que, por temer uma suposta aristocracia do espírito, de tradição humanista, a teoria mais recente tenha se autorizado alianças suspeitas). E, mesmo se o autor não pretendeu qualquer reflexão abstrata, cabe ao teórico fazê-lo porque essa dimensão metaliterária que está no interior do texto o alarga. Assim, em qualquer que seja o suporte, o teórico pode contribuir para clarear sentidos e possibilidades de leituras. Há aspec- tos do fenômeno literário que a teoria pode liberar, fortificar, enrique- cer. E, acreditando na relevância de manter algum referencial de rigor simultaneamente analítico e criativo, pode pôr alegria na função que lhe cabe no sistema da vida social. É de se esperar que especialmente na plataforma virtual a teoria ganhe em liberdade e persistência. Referências ALBORG, J. L. 1991. Sobre crítica y críticos. Madrid: Gredos. COMPAGNON, Antoine. 1999. O demônio da teoria: literatura e senso comum Trad. Cleonice Paes Barreto Mourão e Consuelo Fortes Santiago. Belo Horizonte: UFMG. EAGLETON, T. 2005. Depois da teoria: um olhar sobre os estudos culturais e o pós- modernismo. Trad. Maria Lucia Oliveira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. FREADMAN, Richard; MILLER, Seumas. 1994. Re-pensando a teoria: uma crítica da teoria literária contemporânea. Trad. Aguinaldo José Gonçalves e Álvaro Hattnher. São Paulo: Unesp. MAIA, Eduardo César. 2013. Crítica e contingência: uma reavaliação da crítica humanista através do perspectivismo filosófico de José Ortega y Gasset e do personalismo crítico de Álvaro Lins. Recife: Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal de Pernambuco. Tese de doutorado. Orientador: Prof. Dr. Lourival Holanda. MERQUIOR, José Guilherme. 1975. O estruturalismo dos pobres e outras questões. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. MILLER, J. Hillis. 1986. The Ethics of Reading: Kant, de Man, Eliot, Trollope, James, and Benjamin. New York: Columbia University Press. NINA, Cláudia. 2007. Literatura nos jornais. São Paulo: Summus Editorial. PRIGOGINE, Ilya. 1996. O fim das certezas: tempo, caos e as leis da natureza. São Paulo: Unesp. PUTNAM, H. 1981. Mind, Language, and Reality. New York: New York University Press. RORTY, R. 1996. Contingencia, ironía y solidaridad. Barcelona: Editorial Paidós. SCHOLES, R. 1985. Textual Power. Literary Theory, and the Teaching of English. New Haven & London, Yale: University Press. SELDEN, R. (ed.). 2010. Historia de la crítica literaria del siglo XX: del formalismo al Postestructuralismo. Madrid: Akal. SILVA, Víctor Manuel Aguiar e. 1983. Teoria da literatura. Coimbra: Almedina. WATERS, Lindsay. 2004. Enemies of Promise: Publishing, Perishing, and the Eclipse of Scholarship. Chicago: Prickly Press. Crítica literária: seu percurso e seu papel na atualidade* Roberto Acízelo de Souza Universidade do Estado do Rio de Janeiro Capítulo 3 nota inicial * Versão revisada de ensaio anteriormente publicado em: Floema; Caderno de teoria e história literária. Vitória da Conquista, BA, Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, Ano VII, n. 8, jan.-jun. 2011, p. 33-44. I A expressão “crítica literária”, talvez, sobretudo, na língua inglesa, é em geral empregada de modo extremamente impreciso. Designa via de regra o conjunto dos estudos literários, assim englobando verten- tes bastante distintas desses estudos, e, pois, misturando num balaio só tanto disciplinas antigas, como retórica e poética, quanto moder- nas, como história da literatura e teoria da literatura. Procurando um pouco mais de precisão no uso da terminologia técnica da nossa especialidade, tentemos um desenredo, que nos permita situar de modo mais claro o conceito de crítica literária, bem como compre- ender melhor sua função no momento presente. II A compreensão imediata da noção veiculada pela palavra crítica con- trasta com o precário conhecimento acerca da história do termo1. Sem condições de contribuir para superar completamente esse problema, podemos, contudo, pelo menos situar alguns referenciais preliminares. A palavra, proveniente do grego, integra inicialmente o vocabulá- rio da pedagogia. No sistema da educação antiga — esboçado a partir de em torno do século VI a.C. e vigente até por volta do século V da 1 (cf. WELLEK s.d. [1963]:29). 109108 Roberto Acízelo de Souza Capítulo 3 . Crítica literária nossa era —, depois das primeiras letras os alunos passavam a dedicar- -se ao estudo aprofundado dos escritores clássicos. Encarregavam-se desses cursos mestres chamados em geral gramáticos, ou então, alter- nativamente, filólogos, e ainda críticos, designação corrente nos meios situados sob a influência da escola filosófica dos cínicos2. Do grego a palavra passa para o latim, tornando-se, no entanto, de uso pouco frequente, dada a preferência manifestada nessa língua pelo vocábulo concorrente gramático3. Nos empregos greco-latinos dessas palavras, parece nem sempre ter havido sinonímia perfeita entre elas, observan- do-se indícios de que se reservava a expressão crítico para designar o indivíduo habilitado a maior aprofundamento nas especulações sobre os textos, em comparação com o saber mais modesto característico do gramático 4. Na Idade Média, ao que parece, o termo crítico deixa de circu- lar. Registra-se apenas a forma adjetiva, como um derivado do subs- tantivo crise, em expressões como “doença crítica”, na terminologia da medicina, por conseguinte 5. No Renascimento, porém, a palavra ressurge no sentido lite- rário. Recupera-se então a virtual equivalência entre os termos gra- mático, filólogo e crítico, para designar os humanistas empenhados na restauração, comentário, compreensão e julgamento dos textos da Antiguidade 6. Finalmente, nos vernáculos modernos, entre fins do século XVI e início do XVIII o vocábulo crítica expande seu uso e se firma, com algumas assimetrias nacionais que por ora não nos interessam7. 2 (cf. MARROU 1973 [1948]:252-253). 3 (cf. WELLEK s.d. [1963]:30). 4 (cf. WELLEK s.d. [1963]:30). 5 (cf. WELLEK s.d. [1963]:31). 6 (cf. WELLEK s.d. [1963]:31). 7 (cf. WELLEK s.d. [1963]:32-45, passim). III Curioso é que, se o crítico, como vimos, tornou-se personagem bem conhecido na cultura ocidental, a crítica não constitui espaço disciplinar autônomo, pelo menos até o século XVIII. Assim, seu exercício se dava no âmbito da gramática, da retórica e da poética. A expressão grega originária para designá-la é kritike tekhne (tradu- zida em latim por ars critica), isto é, “arte crítica”, tomada a palavra arte na acepção antiga, ou seja, com o significado de “habilidade”, “perícia”, “técnica”. E na verdade tratava-se de uma prática sensivel- mente distanciada do que chamamos hoje crítica literária. Com efeito, na tradição antiga, exercer a crítica significava percorrer um caminho escalonado. Num primeiro momento, tra- tava-se de apurar a fidedignidade da cópia de um texto. No início de uma aula naqueles tempos muito anteriores à era da imprensa, professores e alunos tinham de preliminarmente verificar o grau de correspondência entre as cópias manuscritas dos textos de que cada qual dispunha. Supondo-se que o texto autêntico estivesse na posse do mestre,era necessário conferir se as vias em mãos dos discípulos não apresentavam variantes relativamente à versão do professor. Constatada a uniformidade das várias cópias, passava-se à etapa propriamente analítica do trabalho com o texto: leitura em voz alta, segundo a prosódia; explicação literal e literária das senten- ças; dedução das regras gramaticais. Por fim, coroando o percurso, vinha o julgamento dos méritos da obra, que, aliás, visava menos à identificação das “belezas” do que ao destaque de sua eficácia na proposição de padrões éticos de honra e virtude. Desse modo, os critérios especificamente estéticos — limitados à verificação do grau de conformidade entre o texto em questão e os modelos consagra- dos, constituídos especialmente pelo conceito de gêneros (tragédia, comédia, epopeia, etc.) — se subordinavam a princípios morais, 111110 Roberto Acízelo de Souza Capítulo 3 . Crítica literária pondo-se em relevo, por exemplo, a capacidade do autor em figurar exemplos de perfeição humana, mediante a caracterização dos he- róis e a narração de suas ações8. Ora, da descrição que apresentamos infere-se a feição dog- mática da kritike tekhne, exercício fortemente condicionado pela observância de regras e pela reverência à autoridade da tradição, muito distante, por isso, do entendimento moderno que temos do ato crítico, isto é, análise de um texto desenvolvida sem ideias cerce- adoras e preconcebidas. Como se deu então esse salto conceitual? Tentemos uma re- constituição concisa, privilegiando uns poucos marcos estratégicos. IV No início do século XVI, Erasmo de Rotterdam passa a aplicar a ars critica ao estudo da Bíblia, “como um instrumento a serviço do ideal de tolerância” 9. Na segunda metade do século XVII, Richard Simon, por sua vez, publica sua série de estudos críticos sobre a Bíblia: Histoire critique du Vieux Testament (1678), Du text du Noveau Testament (1689), Des versions du Nouveau Testament (1690), Des principaux commentateurs du Nouveau Testament (1693) e Nouvelles observations sur le texte et les versions du Nouveau Testament (1695)10. Utilizada para o estudo do mais intocável de todos os textos, a prática da crítica entra, assim, no século XVIII bastante alterada em rela- ção à sua matriz antiga: em vez de exame baseado em convenções tradicionalmente aceitas sem questionamento, apresenta-se como consideração analítica livre e racional não apenas de textos, mas de 8 (cf. MARROU 1973 [1948]: 258-266, passim; SOUSA 1966:198-199; DIONÍSIO TRÁCIO 2002:35-36). 9 (cf. WELLEK s.d. [1963]:31). 10 (cf. BOURDÉ; MARTIN s.d. [1983]:64). objetos de diversas naturezas, como, por exemplo, o gosto, o conhe- cimento, os eventos da história. A expressão certamente mais gran- diosa e influente dessa profunda reconcepção da velha kritike tekhne encontramos sem dúvida nas três Críticas de Kant: a da razão pura (1781), a da razão prática (1788) e a da faculdade de julgar (1790). Desse modo, integrada primeiro à filosofia e logo depois ao próprio senso comum, como efeito da democratização da cultura decorrente da revolução burguesa e da correlativa difusão das luzes, a crítica desborda do seu âmbito originário. Deixa de ser uma técni- ca de análise de textos fundamentada em argumentos de autoridade, para tornar-se, na definição de um dicionário português de 1813, “arte de discernir o verdadeiro do falso; e o bom do mau gosto”11. Façamos, no entanto, abstração de suas incidências no vasto campo em que se opõem o “verdadeiro” e o “falso” (onde cabem tanto os voos metafísicos quanto o pragmatismo da vida cotidiana), a fim de reorientar nosso foco para a questão das letras. V Aplicada a textos, à medida que se liberta da tutela normativa exercida pelas antigas disciplinas literárias — gramática, retórica e poética —, a crítica como que se desregulamenta. Prevalecendo o livre exame e, pois, o relativismo de julgamentos, tende a aproxi- mar-se de uma nova ramificação da filosofia emergente no século XVIII, a estética. Dela absorve em especial a noção de “gosto”, que assim se desvencilha do estigma de tema intratável, cristalizado no conhecido provérbio de origem medieval: “De gustibus non est disputandum”12. 11 (SILVA 1922:497, v. 1). 12 (cf. RONAI 1980:50). 113112 Roberto Acízelo de Souza Capítulo 3 . Crítica literária Assim fortalecida na centúria iluminista, promovida de técnica didática a empreendimento intelectual de cúpula, a crítica literária desdobra-se no século XIX em dois projetos que se revelariam contraditórios. Segundo um deles, pretendia transformar-se numa discipli- na acadêmica autônoma. Com esse objetivo, procurou superar a discussão filosófica sobre questões como gosto, sensibilidade, be- leza, buscando bases científicas para suas análises e especulações, extraídas de ciências especialmente prestigiosas na época, como a biologia, a psicologia e a sociologia. Por esse projeto, a crítica seria uma ciência rigorosa, com aparato conceitual próprio apto a propor explicações causais para o fenômeno literário. Assim, à proporção que cresciam as exigências de demonstrações objetivas sobre as questões estudadas, contornava-se o enfrentamento do problema crítico por excelência, o do julgamento de valor: Nada há menos semelhante que a análise dum poema no intuito de o achar bom ou mau, tarefa quase judicial e comunicação confidencial que se resume em muitas perífrases, em dar sen- tenças e confessar preferências, e a análise desse mesmo poema com o intuito de encontrar indicações estéticas, psicológicas e sociológicas, trabalho de ciência pura, em que o autor se dedica a extrair causas dos fatos, leis dos fenômenos, estudando tudo sem parcialidade e sem predileções.13 Ora, esse alvo relegado pelo projeto cientificista é que consti- tui justamente o centro de atenção da diretriz que se lhe opunha. Conforme essa alternativa, em vez de superar-se a tendência para aferições de mérito subjetivas e relativistas, cabia pelo contrário 13 (HENNEQUIN 1910 [1888]:6). erigi-la em fundamento da crítica. Esta, por conseguinte, longe da pretensão de tornar-se uma ciência especializada, seria antes uma prática diletante; seu lugar institucional e seu veículo, em vez da cátedra e do livro eleitos pela vertente cientificista, se encontraria nos jornais e periódicos: A crítica varia infinitamente segundo o objeto estudado, segundo o espírito que o estuda, segundo o ponto de vista em que este es- pírito se situa. Pode considerar as obras, os homens ou as ideias. E pode julgar ou somente definir. A princípio dogmática, ela se tornou histórica e científica; mas não parece que sua evolução esteja terminada. Vã como doutrina, forçosamente incompleta como ciência, tende talvez a se tornar simplesmente a arte de fruir os livros e de enriquecer e refinar, através deles, as impres- sões que suscitam.14 VI Essa crítica jornalística, dita também impressionista, que se destina a público heterogêneo e cuja produção não requer formação espe- cífica, estava destinada a fazer carreira. Há quem veja suas origens num periódico francês de fins do século XVII, Le Mercure Galant15. Atravessa os séculos XIX e XX, alcançando o XXI sem sinais de exaustão. Hoje, chama a atenção seu vezo de sentenciar autores e obras de modo explícito e peremptório, quase sempre a partir de lastro analítico mínimo, limitado não só conceitualmente, mas também pela exiguidade de espaço concedido pelos jornais, e tudo segundo a fluidez exigida pela ligeireza do grande jornalismo da 14 (LEMAÎTRE s.d. [1887]:341-342). 15 (cf. DEJEAN 2005 [1997]:101). 115114 Roberto Acízelo de Souza Capítulo 3 . Crítica literária atualidade. Sirvam de exemplos duas matérias recém-publicadas no caderno cultural de um dos nossos principais diários. Na primeira, assegura o crítico no lead: “Mirisola tropeça em novo romance; cansativo de ler e ingênuo ao tentar chocar o leitor, obra relata as relações sexuais do protagonista com uma menina”16.Na segunda, se lê: “Ruffato acerta em painel da vida provinciana”17. Seguem-se, em ambas as matérias, umas poucas colunas de texto, ilustrado com fotos dos autores. Não obstante a inversão de sinais nos juízos emi- tidos em cada qual, nas duas observa-se muito mais publicidade de livros do que qualquer outro conteúdo, o que, se dúvidas houvesse, se confirma plenamente com as notas em destaque que fecham cada matéria: “Autor: Marcelo Mirisola / Editora: Record / Quanto: R $ 32,00 (176 págs.) / Avaliação: ruim”; “Autor: Luiz Ruffato / Editora: Record / Quanto: R $ 31,00 (162 págs.) / Avaliação: ótimo”18. VII Quanto à crítica que vamos chamar acadêmica — a fim de distingui- -la da jornalística ou impressionista —, seu projeto foi constituir-se em disciplina abstratizante e universalista, dedicada a determinar o conceito de literatura, a propor princípios e procedimentos vi- sando à análise de obras literárias e a fixar critérios destinados a aferir a qualidade das produções literárias. Trata-se, pois, de uma teoria factual19, à medida que numa de suas extremidades situa seu axioma — o conceito de literatura —, enquanto na outra dispõe seus dados, isto é, as obras literárias submetidas por ela a análise e julgamento. 16 (Folha 2008:5, Ilustrada). 17 (Folha 2008:5, Ilustrada). 18 (Folha 2008:5, Ilustrada). 19 (cf. BUNGE 1976:436-437). Essa crítica que se definiu no curso do século XIX não logrou esquivar-se, contudo, de uma fraqueza inerente às teorias factuais construídas no campo das humanidades. A certa altura de sua traje- tória, começa a confundir seu axioma com os dados com que traba- lha, isto é, passa a julgar as obras que analisa (seus dados) em função do conceito de literatura que adota (seu axioma). Assim, assumindo que o verismo figurativo constitui o atributo definidor da literatura abstratamente concebida, considera, por exemplo, que certo poema lírico específico é menos ou mais estimável segundo seu teor menor ou maior de autenticidade emocional, ou que uma narrativa parti- cular tem menos ou mais valor de acordo com seu grau de transpa- rência em relação às circunstâncias que pretende representar. Ora, esse modo romântico-realista de conceber a literatura, a partir do qual a crítica formulava seus juízos de valor, revelou-se envelhecido na passagem do século XIX para o XX. Como se sabe, nesse mo- mento, experiências diversas promoveram verdadeira revolução na ideia de arte, sacrificando o princípio da referência, soberano por todo o século XIX, ao princípio da imanência: uma obra literária se define não pelo que diz, mas pelo modo de dizer; um poema não é expressão nem pensamento, mas um arranjo de palavras; um personagem não é a réplica verbal de uma pessoa, mas um efeito de sentido. Em síntese, a linguagem deixa de ser tomada como simples instrumento, para converter-se no elemento central da arte literária. Naturalmente, os produtos literários concebidos conforme esse novo paradigma não podiam ser bem cotados pela crítica lite- rária, sendo programaticamente refratários ao conceito de literatu- ra que lhe servia de axioma. Se num primeiro momento o prestígio institucional da crítica permaneceu forte o suficiente para margina- lizá-los, o fato é que tais novos produtos acabaram por legitimar-se, a ponto de a crescente generalização de seu acolhimento ter virado 117116 Roberto Acízelo de Souza Capítulo 3 . Crítica literária o jogo: a crítica acadêmica é que sai de cena, por seu insuperável desaparelhamento conceitual para analisar, compreender e julgar adequadamente as obras literárias identificadas com as vanguardas artísticas emergentes na virada do século XIX para o XX. Assim desabilitada a crítica acadêmica oitocentista, sua con- dição de sistema integrador dos conceitos sobre a literatura e seu estudo acabaria por transferir-se para uma nova disciplina: a teoria da literatura. É verdade que o rótulo crítica literária não se tornaria obsoleto a partir do momento em que, no início do século XX, co- meça a circular a expressão teoria da literatura. Passa, no entanto, a acolher um conjunto conceitual tão distinto do que cobria ante- riormente que se torna compreensível certa resistência dos meios universitários em utilizá-lo, quando a solução mais lógica seria, para nomear o novo conjunto conceitual então estabelecido, usar terminologia igualmente nova, isto é, justamente, teoria da litera- tura. Desse modo, em geral desde então relegou-se a empregos não estritamente acadêmicos o vocábulo crítica, usado em referência a matérias jornalísticas ou até no título de publicações especializa- das, mas não para designar disciplina dos currículos universitários. VIII Segundo a linha expositiva até aqui trilhada, a teoria da literatura constitui uma teoria factual sobre a literatura historicamente su- cessora da crítica literária. Trata-se também, por conseguinte, de disciplina abstratizante e universalista, dedicada a determinar o conceito de literatura, a propor princípios e procedimentos visan- do à análise de obras literárias e a fixar critérios destinados a aferir a qualidade das produções literárias. Seu conceito de literatura, no entanto, já não é o mesmo da crítica literária, uma vez que ela adotou por axioma o entendimento das vanguardas, assumindo, pois, que o atributo definidor da arte literária consiste fundamen- talmente na autorreferencialidade. Tende, portanto, a teoria da literatura a desvirtuamento aná- logo ao que assinalou a crítica, isto é, a proferir os seus juízos de valor a partir de certo padrão estético apenas contingente — o das vanguardas mencionadas —, porém considerado absoluto, por sua mera condição de presente hegemônico. Mas será esse um destino inevitável da disciplina? Não ne- cessariamente, acreditamos. Para isso, no entanto, se a teoria da literatura pretende sobreviver ao século que a criou, permanecen- do vigorosa século XXI adentro, terá de assimilar um pensamento formulado na aurora da modernidade: Vive com teu século, mas não sejas sua criatura; serve teus con- temporâneos, mas naquilo de que carecem, não no que louvam. Sem partilhar de sua culpa, partilha de seu castigo com nobre resignação, e aceita com liberdade o jugo de que são incapazes de suportar tanto o peso quanto a falta.20 IX Enfim, numa época como a nossa, que levou a desarticulação de valores — e não só artísticos, naturalmente — a extremos sem precedentes, talvez nunca se tenha precisado tanto de crítica21. Não, 20 (SCHILLER 1995 [1795]:55-56). 21 Empregamos aqui a palavra crítica, bem como nas ocorrências que se seguem neste parágrafo, no sentido de atitude particularmente comprometida com o pronunciamento de juízos de valor estéticos, e não para designar a disciplina definida no século XIX cuja caracterização antes esboçamos. Segundo o voca- bulário aqui empregado existe, por conseguinte, atitude crítica não só na crítica literária acadêmica, mas também no jornalismo cultural, na teoria da literatura e 119118 Roberto Acízelo de Souza Capítulo 3 . Crítica literária é claro, da crítica como sensacionalização de banalidades, con- forme se vê nas manifestações desinibidas do jornalismo cultural. Tampouco de uma crítica acadêmica dada à absolutização dos seus axiomas, segundo os desvios verificados no âmbito dos dois grandes modernos sistemas de conceitos sobre a literatura e seu estudo, a crítica literária e a teoria da literatura. Menos ainda — por sua tática de substituir a reflexão por um apelo fácil ao sentimento de repúdio às injustiças — de uma crítica culturalista, dada ao contrassenso de pregar o absolutismo ético e praticar o relativismo estético, no seu afã programático de revisar ou desconstruir o cânone. Em vez disso, precisamos de uma crítica fundamentada numa teoria consistente, prevenida contra a transformação de dados em axiomas, e que seja capaz de integrar compromisso com o presente e reflexão do passa- do. Quanto ao futuro, a Deus pertence. ReferênciasBOURDÉ, Guy; MARTIN, Hervé. s.d. [1983]. As escolas históricas. [Lisboa]: Europa-América. BUNGE, Mario. 1976 [1969]. La investigación científica; su estrategia e su filosofia. Barcelona: Ariel. DEJEAN, Joan. 2005 [1997]. Antigos contra modernos; as guerras culturais e a construção de um fin de siècle. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. DIONÍSIO TRÁCIO. 2002. Gramática/Comentarios antiguos. 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Reflexividade, Romantismo e Modernismo Sueli Cavendish Universidade Federal de Pernambuco Capítulo 4 “A força formadora da reflexão marca a forma da obra” “A reflexão, no sentido dos românticos, é pensamento que engendra sua forma” Walter Benjamin Acessamos o nosso tema por uma via particular e bastante objeti- va, e esta é a análise do teórico e crítico Leon Chai sobre o poema “O Triunfo da Vida”, de Percy Bishe Shelley, composto em 1822. A análise tem por título “O Triunfo da Teoria” e constitui o primeiro capítulo do seu livro “Romantic Theory: Forms of Reflexivity in the Revolutionary Era”1, no qual o autor explora, de modo geral, a con- cepção de teoria que vem à luz na esteira da Revolução Francesa. O poema nos projeta ao período imediatamente posterior ao do Círculo de Iena, a Inglaterra do século XIX, bastante próximo ainda, portanto, daquele em que frutificaram as doutrinas estéticas dos Primeiros Românticos alemães, aos quais recuaremos a fim de identificar o momento de instalação de uma tendência que viria a se tornar a marca característica do moderno — a autorreflexividade, ou, pura e simplesmente, a Reflexão, de que nos ocuparemos neste texto. Nosso método reduplica, em seus primeiros passos, o de Chai, uma vez que focaliza a reflexividade reconhecendo a necessidade de posicioná-la em diversas molduras: a do poema, a da análise do poema, a da visão de Chai sobre a reflexividade em geral e o meio intelectual no qual se gestou. O conceito, como sabemos, vem de Fichte e, em poucas pa- lavras, designa a atividade do pensamento que se desenvolve ad 1 (CHAI 2006). 125124 Sueli Cavendish Capítulo 4 . Reflexividade, Romantismo e Modernismo infinitum o pensar do pensar, o pensar-se a si mesmo como obje- to. Pensar o pensar é um movimento da consciência pelo qual se conformam ou tomam forma os objetos estéticos, e pelo qual se inscrevem numa trajetória que tem como horizonte a infinitude, tão cara aos românticos. Por isso mesmo, num primeiro momento, o pensamento do filósofo receberia plena e entusiasta adesão dos integrantes do Círculo. Começamos pelo “Triunfo da Vida”, porque a análise através da qual lançamos um olhar oblíquo sobre o poema de Shelley expõe a estrutura recessiva em tudo semelhante ao movimento da reflexivida- de que o conforma. Essa estrutura recessiva — o termo recessivo no contexto da análise de Chai se refere ao movimento de um olhar que recua com relação a um objeto, a fim de obter, desse objeto, uma visão cada vez mais clara e abrangente — é, segundo Chai, bastante visível em “The Triumph of Life”, no qual visões oníricas se sucedem e se en- fileiram, cada visão acrescentando uma nova revelação sobre a visão imediatamente antecedente, movimento que implicaria uma crescente ampliação da nossa cognição com respeito ao objeto que se visa. Ocorre, entretanto, que o argumento poético que esclareceria determinada visão é inadequado ou insuficiente. A explicação é a cada vez adiada para a visão subsequente, que promete clarividência ainda maior, na medida em que incorpora o conhecimento e a “luz” da visão precedente, o que nos coloca em dúvida sobre a possibilida- de de se alcançar o fechamento de uma significação, seja para cada nova visão particular, seja para o poema como um todo. Rousseau é a figura tutelar desse processo que será nomeado por Shelley de “A Procissão da Vida”, remetendo ao cânone literário que envolve auto- res como Petrarca, Dante, Homero, Virgílio e Milton. Importa aqui menos o conteúdo do poema que essa sistemática e essa estrutura, com que se movem as figuras focalizadas pelo autor. Na abordagem de Chai, de fato, com esse caminhar ininterrup- to do pensamento para formas cada vez mais apuradas do pensar, a reflexividade, sinônimo de Teoria, ganha em poder analítico, ao se tornar cada vez mais abstrata e ao ganhar autonomia com respei- to aos objetos sobre os quais se debruça. Nesse caso, uma vez que se consiga especificar a forma de uma teoria independente do seu campo de aplicação, se adquire conhecimento da natureza de todas as formas de teoria. Sem que pretendamos nos arriscar em terreno tão vertiginoso, retornamos ao poema de Shelley e à análise de Chai sobre “O Triunfo da Vida”. No primeiro episódio visionário, argumenta Chai, Shelley faz uso deliberado da alegoria a fim de nos impelir a adotar outro tipo de perspectiva para além da literal. A alegoria torna necessária a adoção de um frame, ou de uma moldura, que garanta um grau de abstração correspondente ao da imagem proposta pelo poema, ou seja, a da necessidade de uma perspectiva consciente de si. Na leitura de Chai, que acompanhamos, a ausência de tal perspectiva condena Rousseau, figura tutelar em foco, a seguir a carruagem triunfante da “Procissão da Vida” até a própria destruição, deixando-se subjugar pela paixão. Pois são justamente as idas e vindas da paixão erótica que são figuradas nessa primeira imagem visionária, em face das quais fracassa Rousseau. Sua figura é especialmente pungente em consequência da: [...] sua incapacidade de oferecer ao narrador qualquer com- preensão da “Procissão da Vida”, ou mesmo de suas próprias experiências [...] A admissão (dessa inabilidade pelo próprio Rousseau) implica que a experiência em si mesma, mesmo que cuidadosamente obervada, não é bem suficiente para nos levar até lá (a essa compreensão) [...] Daí a necessidade de uma nova 127126 Sueli Cavendish Capítulo 4 . Reflexividade, Romantismo e Modernismo revelação, precisamente para mostrar o que tornaria a compre- ensão possível.2 No segundo episódio visionário, Rousseau se encontra em meio a uma cena de beleza extremada e quase sobrenatural: “a pai- sagem é abundante em detalhes idílicos, e, para rematar, o bosque ecoa com um som ‘que todos os que o ouvem se obrigam a esquecer/ todo o prazer e toda a dor, todo o ódio e o amor’”. Rousseau vê em seguida uma imagem que é o pináculo do episódio: E vi então a clara onipresença Da alva a fluirna gruta do oriente E o brilho intenso do astro maior Acender em chamas as águas da fonte Qual ouro a tecer a teia dos bosques Jade ígneo em coruscantes trilhas Envolta em sol como ele envolto em chama De sua própria glória em plena fonte Eis que surgiu, espargindo clarões Uma forma só luz.3 Esta é uma imagem cuja configuração reduplica toda a estru- tura do poema, cuja forma é a da revelação dentro de revelação dentro de revelação, estrutura que pretende causar no leitor a cren- ça de que a cada descoberta ele chega mais perto de uma revelação última: a de uma “forma só luz”, cuja luminosidade ultrapassa a de toda aquela que a envelopa e lhe serve de moldura, como a luz da 2 (CHAI 2006:16). 3 (CHAI 2006). manhã em sua “brilhante onipresença” e “o brilho de uma luz que parece queimar o próprio fogo”, imaginável apenas como a expres- são simbólica da compreensão última para a qual incessantemente aponta o poema4. A “forma só luz”, não sendo apenas forma, mas forma dentro de forma, é compreensível apenas quando se considera a luz que a emoldura. Em outras palavras, Shelley não quer falar de qualquer luz que brilhe nas trevas, mas de luz que brilha em luz num campo ampliado de luz, ou seja, luz que é desdobramento de camadas de luz que lhe antecedem. “Forma só luz” é alegoria, então — luz dentro de luz, dentro de um campo ainda mais amplificado de luz — para a mais radiante forma de teoria. O brilho se intensifica à medida que nos aproximamos daquilo que sugere o alcance do supremo frame conceitual. Sugere, mais ainda, que a teoria pode se debruçar apenas sobre a teoria, tornando-se cada vez mais abstrata e a forma só luz será o símbolo da teoria mesma: A sinestesia que encontramos ao longo do segundo episódio visionário tem, para mim, outro significado (que não apenas poético e imaginativo). Como Rimbaud num momento pos- terior, Shelley, creio, a vê como um movimento em direção ao “desregramento de todos os sentidos”. E isso, para ele, significava um modo de desestabilizar nosso senso de moldura ou de pers- pectiva. Desse ponto de vista, a sinestesia atua como um passo preliminar à teoria: uma vez que percamos nosso rígido senso de moldura/estrutura ou perspectiva, estamos prontos para pensar na própria perspectiva.5 4 (Cf. CHAI 2006:17). 5 (CHAI 2006:18). 129128 Sueli Cavendish Capítulo 4 . Reflexividade, Romantismo e Modernismo Há outras implicações no poema de Shelley com respeito à questão da forma suscitada pela riqueza simbólica da imagem, tra- tadas por Chai, mas aqui nos concentraremos apenas na dinâmica da “forma só luz”, dinâmica da revelação dentro de revelação, e a semelhança que guarda a dinâmica da imagem com a do poema como um todo, que caminha do mesmo modo segundo essa mesma estrutura: mas qualquer coisa cuja forma possa ser discernida no brilho do sol deve ser, por definição, ainda mais brilhante. Podemos imaginá-la apenas como simbolicamente expressiva da compreen- são última para a qual o modo visionário do poema constantemente aponta6. Prometendo uma clareza e uma clarividência crescentes, uma palavra final sobre si, a imagem, todavia, é muda, e percebemos a cegueira essencial que constitui o olhar, bem como a negatividade que funda todo ato de cognição. Para Chai, o que Shelley visa com o silêncio da imagem, que também não fala a Rousseau, reforça a crença de que a teoria, “em última instância, pode debruçar-se apenas sobre a teoria”. Ao invés de pura negatividade, porém, esse postergar da reflexividade também sugere, para o mesmo autor, que a teoria, um seu equivalente, trata da tentativa de dar forma e coerência, representação, noutras palavras, àquilo que ainda não fomos capazes de figurar, aquilo que ainda não sabemos, à nossa própria busca de conhecimento. Daí por que uma imagem positiva como a da “forma só luz” estar apta a representar a reflexividade, em suas duas faces de negatividade e positividade, ou seja, tanto a que contém a promessa do alcance de níveis de compreensão e clarividência cada vez maiores quanto a que nos adverte do fracasso inerente e constitutivo de toda tentativa da completa apreensão de qualquer objeto. 6 (Cf. CHAI 2006:17). A razão pela qual optamos por introduzir o nosso tema pela abordagem indireta de um poeta romântico é a de que a poesia do romantismo inglês foi muitas vezes considerada como sendo a pura expressão de emoções, destituída de qualquer caráter reflexivo. T. S. Eliot interpretara a afirmação de Wordsworth no manifesto ro- mântico — a poesia seria para o inglês “um transbordamento de emoções poderosas colhidas na tranquilidade” — como manifesta- ção cabal da ênfase romântica na alma do poeta, na subjetividade como motor de um confessionalismo emocionalista e sentimental. A partir dessa constatação, Eliot passara a advogar a tese da rup- tura total entre românticos e modernos, sob o argumento de que a anulação e obliteração do eu que se instalaria como processo típico da poética modernista deixava de fora a poesia romântica, em que, julgava, o eu e seus transbordamentos eram o princípio estético nucleal. Sobre a questão, ele deixou palavras que vieram a se tornar uma marca indelével na história literária, sobre sua concepção da poesia como uma fuga da emoção e como fuga da personalidade. Eliot pontifica — legitimado pela publicação e pela repercussão do seu monumental poema The Waste Land, sobre a metamorfose a que se deve submeter o Eu lírico na passagem/ruptura do român- tico para o moderno: “O que ocorre é uma continua rendição de si mesmo, daquilo que se é no momento para algo que é mais valioso. O progresso de um artista é um autossacrifício contínuo, uma extin- ção contínua da personalidade”. 7 É de admirar que, nos portais do século XX, um poeta do ca- libre de um Eliot manifeste um pensamento tão trivial, prescritivo e normativo com respeito à estética, deslocando ou fazendo tábula rasa dos avanços filosóficos e epistemológicos notáveis conquistados pelo círculo de Iena quase dois séculos antes. A neutralização ou 7 (ELIOT 2000). 131130 Sueli Cavendish Capítulo 4 . Reflexividade, Romantismo e Modernismo repressão dos românticos, seja consciente ou não, seria responsável por muitos dos equívocos de Eliot, um dos quais a incompreensão da importância de Edgar Alan Poe para a conexão romântico-moderna, uma importância que sempre ganhou realce e se manifestou através do grande interesse demonstrado, primeiro da parte de simbolistas franceses, Baudelaire e Mallarmé — e posteriormente da parte de Valéry, pelo poeta americano. Com Eliot, que também não levou em conta a extrema variedade e complexidade dos romantismos, o eu se confunde com a personalidade, sem que reconheça nessa instância a sede do próprio movimento da Reflexão, do pensar a si mesmo e que o primeiro romantismo, aderindo à filosofia fichteana, longe de entregar-se a efusões do sentimento, concebe o eu, e mais tarde o pensamento, como sede daquela atividade do pensamento que se desenvolve ad infinitum, o pensar-se a si mesmo como objeto8. A própria poesia eliotiana, composta em fragmentos no modernismo em consequência da inflexão dada à produção da arte pelos primeiros românticos, que faz da forma uma “conformação”, ou seja, um dar-se forma no próprio processo reflexivo, é uma repercussão tardia da gui- nada imprimida à arte pelos primeiros românticos e dará testemunho do acerto e da fecundidade das teses do Círculo de Iena, fermentadas com mais de século e meio de antecedência, entre os anos de 1798 e 1800, ocasião em tinha como suporte a revista Athenaum, que publicava os textos dos integrantes deste grupo, os irmãos Schlegel, Novalis, Schelling, Schiller e ocasionalmente Hölderlin e Tieck9. 8 (BENJAMIN 1993). 9 (CAVENDISH 2009). O exame da “Ode sobre uma Urna Grega”, de Keats, dá sustentação à afirmação de que também dentre os poetas românticos ingle- ses o enlace filosófico-poético assumiu fecundidade inusitada. Nestaanálise, é possível observar o movimento da reflexividade conformando o objeto estético, o poema “Ode sobre uma Urna Grega”. Tal como a relação kantiana entre a imaginação e o entendimento na espécie do belo, o dístico final da ode, a beleza é a verdade, a verdade a beleza, cai num mecanismo pendular de circuito fecha- do, ou seja, em um movimento reflexivo, ou autorreflexivo, em que a infinitude, Mas a restrição de Eliot, na verdade, pode ser compreendida, para além do seu desconhecimento do assunto. Há uma certa obscu- ridade e confusão que rondam a própria designação “romantismo”, que se verifica ainda hoje, em parte pela diversidade dos romantismos existentes, em parte porque singularizam a rubrica do romantismo na história e teoria da literatura como algo fútil e inconsistente. Uma leitura histórica que o relega ao mero culto do irracional e ignora a dimensão epistemológica da atitude e do gesto românticos. De fato, não se fazia distinção entre o romantismo de caráter generalizado, chamemos de romantismo tout court, chamemos de romantismo vulgar, afundado em clichês, como a melancolia e o en- nui, e o primeiro romantismo, assim como chamado pelos alemães, que verdadeiramente constituiu e fundou não apenas o romantis- mo, e determinou a possibilidade de um “romantismo em geral”, mas também o sentido que a história literária, a literatura e a própria história em sentido mais amplo tomariam a partir desse momento. Haverá ocasião de acentuarmos devidamente quão decisivo e deter- minante é o Primeiro Romantismo, ou o Romantismo de Iena, para a ruptura entre o antigo e o moderno, para a instituição do que hoje compreendemos como o romantismo teórico, ou de um projeto teórico em literatura e, finalmente, para a existência da própria lite- ratura. Com o romantismo (de Iena) a literatura pela primeira vez chega não só a ombrear-se com a filosofia, como a assumir o papel teórico e especulativo da filosofia, a tornar-se o “absoluto literário”. ou a ideia de totalização, é representada no sujeito. Observa-se, então, que o movimento do pensamento do filósofo se articula ao movimento do conteúdo do pensado, criando-se por essa via um circuito cuja origem é indiscernível, justamente porque é na esfera subjetiva, no domínio do eu, que o movimento tem lugar. Esta mesma mecânica que impede que um terceiro termo se instale, será reproduzida no dístico final da Ode de Keats, indefinidamente remetendo ‘a beleza à verdade e a verdade à beleza’, uma armadilha que sequestra a subjeti- vidade, revelando as ilusões em que o eu incorre ao tomar-se a si mesmo como objeto. Mas, sobretudo, inscrevendo o poema no movimento infinito da reflexão. 133132 Sueli Cavendish Capítulo 4 . Reflexividade, Romantismo e Modernismo A poesia se erige em apresentação finita do infinito e a poesia como obra absoluta, ou seja, forma privilegiada de cognição e apreensão do mundo, que se forma na reflexão. A exigência de que uma sub- jetividade plenamente constituída esteja em vigor, de modo que o sujeito leve a efeito as complexas operações que a reflexividade e a fusão de campos envolve, é cumprida. A subjetividade de Rousseau é compreendida como um dobrar-se sobre si do pensamento; há grande interesse dos primeiro românticos em Shakespeare, e po- demos observar claramente a subjetividade hipertrofiada de um Hamlet, aquele a quem o “excesso” do pensar paralisa. E, no limite, a figura de Sócrates, que é emblemática da antecipação do sujeito pelo qual e com quem a literatura se inaugura. Sujeito da ironia, no qual “interagem forma e verdade”, o mesmo podendo ser dito das interações entre a literatura e a filosofia. Sujeito exemplar, Sócrates institui a literatura como a obra e o reflexo (reflexão) da obra, poesia e crítica, arte e filosofia. Sócrates é o “sujeito-gênero” através do qual ou pelo qual a li- teratura é inaugurada, ou se autoinaugura, com toda a força da reflexividade, uma vez que a ironia é precisamente isso: o próprio poder da reflexão ou da reflexividade infinita — o outro nome da especulação.10 O comentário de Jeanne Marie Gagnebin arremata o que aci- ma foi dito acerca da origem primeiro romântica da literatura, a que Walter Benjamin11 dará ênfase toda especial ao indicar, na sua famo- sa tese de doutorado, a importância dos primeiros românticos para toda a teoria da literatura contemporânea, sobretudo em relação aos conceitos de obra e crítica. 10 (LACOUE-LABARTHE; NANCY 1988:86.) 11 (BENJAMIN 1993) O romantismo de Iena marca, pois, [...] o nascimento daquilo que até hoje se chama de “literatura” e que ele pela primeira vez tentou delimitar como produção específica. Nascimento parado- xal, como veremos, pois repousa sobre a perda da poesia mais originária e implica, portanto, desde o início, uma atividade autorreflexiva constante”.12 Há, portanto, um quiasma entre o romantismo vulgar e o ro- mantismo de Iena de que sequer suspeitara T. S. Eliot. Chegamos, então, a compreender por que consideram falsa Lacoue-Labarthe e Nancy a designação “romantismo” para referir- -se a este momento crítico da história literária, na medida em que o pressupõe separado — posto à parte, como uma escola, um estilo ou uma concepção — algo de todo modo pertencente ao passado, quando, na verdade, é o projeto teórico inaugural da literatura e, sobretudo, o que lhe dá toda a sua modernidade. E se não é plena- mente reconhecido como a nascente do seu importante veio teórico especulativo, isso se deve em grande parte à lacuna deixada pelos franceses. Tal lacuna necessita ser “‘preenchida’, embora não deva ser saturada”, posto que a saturação e a exaustão de possibilidades são, como veremos ainda, uma negação do espírito romântico. Assim, dizem Labarthe e Nancy, a lacuna “deve ser abordada de uma maneira que permita a decifração do poderoso equívoco que subjaz no termo ‘romantismo’, na medida em que seja possível alcançar-se um distanciamento dessa equivocidade”.13 Seguindo o caminho aberto por Benjamin, o estudo de Labarthe e Nancy procura mostrar que o romantismo e a teoria da literatu- ra que nasce com os integrantes do grupo de Iena produziram os pressupostos fundamentais e o modelo da prática teórico-crítica em pleno vigor em nossos dias. Benjamin já o dissera: 12 (GAGNEBIN 2007:66) 13 (LACOUE-LABARTHE; NANCY 1988:86) 135134 Sueli Cavendish Capítulo 4 . Reflexividade, Romantismo e Modernismo Se se quisesse reconduzir a seus princípios a teoria da arte de um mestre tão eminentemente consciente como Flaubert, a dos par- nasianos, ou aquela do círculo de Georg, encontraríamos entre eles os princípios aqui expostos. Se tivéssemos que formular estes princípios aqui, teríamos de demonstrar sua origem na filosofia dos primeiros românticos alemães. Eles são tão próprios ao es- pírito desta época que Kircher pôde, com razão, afirmar: “Estes românticos queriam guardar distância justamente do ‘romântico’ – tal como era entendido então e hoje”. 14 Central à tese de Benjamin é a questão da reflexividade. O fi- lósofo põe em relevo a reflexividade como o núcleo especulativo do romantismo, o conceito básico da teoria do conhecimento subjacen- te ao conjunto de conceitos que o integram — fragmento, witz, meio de reflexão, conexão, entre outros, como bem o registra Gagnebin15. É especialmente pelo conceito de reflexão que ele empreende a aná- lise do conceito de crítica de arte do romantismo de Iena; é a reflexão que erige a crítica como verdadeiro desdobramento das potenciali- dades existentes na obra, ultrapassando os limites de um discurso valorativo. E é essa determinação reflexiva da literatura, sentido extraordinário que esta assume e ao qual nos conduzirá o texto de Benjamin, que a constitui como um absoluto literário16. Autônoma, separada e independente, sobretudo com respeito à filosofia: Em seus efeitos literários, esse reflexo hiperbólico nada mais é que a crítica, na medida em que não se a considere umafun- ção secundária, sempre serve para aperfeiçoar o programa que a literatura põe a si mesma. [...] é possível observar que essa 14 (BENJAMIN 1993) 15 (Cf. GAGNEBIN 2007:65-82) 16 (CF. LACOUE-LABARTHE; NANCY 1988) determinação reflexiva responde não apenas pela importância do conceito de autofiguração sintética como aparece na teoria do romance de Schlegel a Bakhtin e Lukács, mas também como é enfatizada numa tradição que se estende [...] desde Lucinde, de Schlegel até vários movimentos formalistas e de vanguarda, até o nouveau Roman e a figuras tais como Wallace Stevens ou Maurice Blanchot.17 É espantoso que tantos anos tenham se passado desde a publica- ção de “O conceito de crítica de arte no romantismo alemão” sem que a questão central que anima esse texto, a questão da reflexividade te- nha adquirido algum relevo. É uma questão reprimida na história da literatura e a única originalidade a que podemos reclamar trazendo-a aqui é o fato inconteste da sua ocultação. Lembremos, por exemplo, que só em 1986 este texto foi traduzido para o francês e apenas em 1993 para o português, sem que fosse alvo de qualquer atenção da crítica18. Tentar compreender a centralidade da reflexividade para o romantismo e para a literatura como um todo é o que consideramos em si um ato de leitura original. O estudo de Walter Benjamin é, por conseguinte, o passo essencial para que se levasse a cabo o esforço pri- meiro de compreensão das vigas mestras que sustentam o arcabouço modernista a partir de sua matriz romântica — observe-se que a sua tese se elabora entre 1917 e 1919, auge do alto modernismo —, vindo a se tornar o primeiro resgate das teses do romantismo de Iena. A ação da reflexão talvez possa ser compreendida quando convocamos e seguimos, pela imaginação, obras como o “Hamlet”, 17 (BARNARD; LESTER 1988:xviii) 18 A tradução francesa desta tese de Benjamin só foi realizada por Phillipe Lacoue- Labarthe e Anne-Marie Lang em 1986. Posteriormente, em 1993, foi traduzida para a língua portuguesa por Márcio Seligmann-Silva, que manifestou em seu prefácio seu espanto pelo “quase que exclusivo desprezo da crítica especializa- da” por esta obra. 137136 Sueli Cavendish Capítulo 4 . Reflexividade, Romantismo e Modernismo “Dom Quixote” e o próprio “Grande Sertão: Veredas” — a sua exemplaridade no modernismo é farta — em que a obra se constrói efetivamente nas dobras do pensar o pensar do protagonista, uma atividade pela qual vai se conformando progressivamente a forma da própria obra. A relação do pensamento consigo mesmo, núcleo do pensar romântico, é, então, um pressuposto fundamental do conceito de arte. O processo que instaura é o da infinitude do pensar. Essa infinitude vai se realizar no objeto estético e é capturada através da abertura e do inacabamento característicos da obra de arte. A reflexão romântica se inicia seguindo esta rota: “O pensamento na autoconsciência refletindo a si mesmo é o fato fundamental do qual partem as considerações gnosiológicas de Friedrich Schlegel e, em grande parte também, as de Novalis”.19 Logo de saída é possível observar a extrema liberdade deste pensamento, em contraste com o pensamento kantiano. “O espírito romântico parece fantasiar agradavelmente sobre si mesmo”, dizia Schlegel20. “A faculdade da atividade que volta sobre si mesma, a capacidade de ser o Eu do Eu, é o pensar. Este pensamento não tem nenhum outro objeto senão nós mesmos”21. É, portanto, no pensamento que ocorre a intuição. No eu pen- sante, outra realidade é pensada, que ali se faz representar, e desta outra realidade representada, como em um jogo de espelhos, alcan- çamos outra e outra e mais outra, e poderíamos prosseguir assim até a intuir a totalidade das formas concebíveis: os românticos partem do simples pensar-a-si-mesmo como fenô- meno; o que é apropriado a tudo, pois tudo é si mesmo. Tudo é 19 (BENJAMIN 1993) 20 (BENJAMIN 1993:19) 21 Schlegel (apud BENJAMIN 1993:30) si mesmo, vale dizer também: tudo é uma parte ou momento do “eu”. Através do pensar, o eu torna-se um “eu do eu” (Gesammelte Schriften). 22 Benjamin realça a imediatez do pensamento reflexivo. Mas agora adianta um passo ao acentuar a infinitude que lhe imprimi- ram os românticos: A relação consigo mesmo do pensamento, presente na reflexão, é vista como a mais próxima do pensamento em geral, a partir da qual todas as outras serão desenvolvidas. Schlegel diz num trecho de Lucinde: “O pensar tem a particularidade de, próximo a si mesmo, pensar de preferência naquilo sobre o que ele pode pensar sem fim.” 23 Antes de endereçar de que maneira o romantismo revoluciona o conceito de crítica, devemos tratar, progressivamente, do processo que levaria a um tal desenvolvimento; de que maneira, em suma, a reflexivi- dade que lhe é central instala a literatura como sede do pensar. Em sua origem, a reflexividade é localizada na Doutrina da Ciência, de Fichte. De fato, na esteira do filósofo os românticos vêm a considerar “o pensar do pensar” como a mais alta forma de cognição, na medida em que é “imediata” (não mediada pela lin- guagem, por exemplo) e “intuitiva” — ou seja, não conceitualizada claramente. O conceito de reflexão da Doutrina da Ciência é o de que é uma ação da inteligência, constante e tendente ao infinito, de tomar 22 Benjamin (apud SELIGMANN-SILVA 2007A; Cf. primeira parte, p. 19) 23 (BENJAMIN 1993:29) 139138 Sueli Cavendish Capítulo 4 . Reflexividade, Romantismo e Modernismo consciência de formas, transformando-as em novas formas, por um processo de livre associação entre elas. Há aqui uma tensão dialética entre a forma captada por intuição e o refletir transfor- mador sobre a forma.24 O modelo de Fichte descarta a intersubjetividade, fixando-se no Eu individual, que se põe a si mesmo de forma ilimitada e abso- luta. Este ato inicial, livre, de autogeração (Tathandlung) é condição do autoconhecimento, ou da consciência de nós mesmos, e desde o início nos divide em sujeito e objeto. Importante ressaltar, então, que o Eu, em Fichte, é autoconsciência pura e não se confunde com a alma humana. É antes dinamismo e ação pura, criador de toda a realidade. É livre e a tudo preside. O eu substancial, autoconsciente, o eu do mundo das representações, só é compreensível como parte desse Eu absoluto. Os românticos, num primeiro momento, aderem irrestri- tamente ao modelo fichtiano, na medida em que ele acena com a perspectiva de retomada da certeza de uma experiência imediata inicial, que a filosofia de Kant demolira. E, num segundo momento, se afastam de Fichte justamente por querer preservar aquilo que, segundo Benjamin, lhes dá o seu “direcionamento mais original”: o apego à infinitude. Ali onde Fichte pensou haver encontrado um princípio fundacional — ou seja, a última proposição incondicio- nalmente válida — no Eu absoluto, o ceticismo romântico o nega. O absoluto, o incondicionado, não é cognoscível. A filosofia, nesse caso, como uma busca eterna por seus fundamentos, é tarefa infi- nita25. A reflexão, como tarefa infinita, resulta dessa nova inflexão dada pelos românticos que os afasta de Fichte. Apenas para reiterar 24 (LIMA 2012) 25 (FÓSCOLO 2009) de que maneira a renúncia ao absoluto estabelece o filosofar como tarefa infinita, recorremos a Manfred Frank: Deste sentimento inicial de incompletude (sentimento do todo a atrair a parte) é que surge o processo do filosofar — como incli- nação para o conhecimento. Schlegel pode dizer, portanto, que a filosofia resulta de dois “elementos”: a consciência que temos de nós mesmos como seres incompletos (finitos) e o infinito que de- vemos alcançar para sermos completos (fazermo-nos inteiros).26 Assim, muito embora os elementos comuns ao pensamento desses filósofos — Schlegel, Schiller, Novalis, Schelling, Fichte — os agregassem em uma mesma comunidade de pensamento — o caráter intuitivo do pensamento, da sua imediatez, portanto,Sua pesquisa é centrada, sobretudo, em crítica literária brasileira contemporânea. ADÉLIA BEZERRA DE MENESES — Formada e doutorada pela USP, pesquisadora do CNPq, lecionou Literatura Brasileira na Technische Universität de Berlim e Teoria Literária e Literatura Comparada na USP e UNICAMP. Aposentada, continua atuando vinculada à Pós- Graduação dessas duas universidades paulistas. Publicou os livros: A Obra Crítica de Álvaro Lins e sua Função Histórica (Rio de Janeiro: Vozes, 1979); Desenho Mágico: Poesia e Política em Chico Buarque (São Paulo: Hucitec, 1982; Prêmio Jabuti; 3ª ed. ampliada, São Paulo: Ateliê, 2002) ; Do Poder da Palavra: Ensaios de Literatura e Psicanálise (São Paulo: Duas Cidades, 1995; 2ª ed., 2004) ; Figuras do Feminino (São Paulo: Ateliê, 2000; 2ª ed., 2001); As Portas do Sonho (São Paulo: Ateliê, 2002); Cores de Rosa: Ensaios sobre Guimarães Rosa (São Paulo: Ateliê, 2010). Organizou os livros: Utopia Urgente (em colaboração com T. Jensen e Frei Betto), São Paulo: Casa Amarela / 1716 EDUC, 2002; e Saudades de Rosa e Sertão (Fotos de Germano Neto, textos de Guimarães Rosa), São Paulo: EDUSP, 2007. CARMEN SEVILLA GONÇALVES DOS SANTOS — Possui Doutorado em Teoria da Literatura (2007) pela Universidade Federal de Pernambuco, Mestrado em Psicologia Social pela Universidade Federal da Paraíba (1995) e Graduação em Psicologia pela Universidade Federal da Paraíba (1990). Atualmente é Professora Associada I no Departamento de Fundamentação da Educação do Centro de Educação da Universidade Federal da Paraíba. Tem experiência na área de Psicologia da Educação, Habilidades Sociais e Educação, Transtornos de Desenvolvimento e Necessidades Educativas Especiais. Também atua como professora da modalidade de Educação a Distância (vincu- lada ao Curso de Letras Virtual). Autora de capítulos, artigos e livros em educação, psicologia e teoria da literatura. EDU TERUKI OTSUKA — É mestre em Letras – Teoria Literária e Literatura Comparada (USP, 2000), doutor em Letras – Literatura Brasileira (USP, 2005) e professor do Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. É autor de Marcas da catástrofe: experiência urbana e indústria cultural em Rubem Fonseca, João Gilberto Noll e Chico Buarque (São Paulo: Nankin Editorial, 2001) e Era no tempo do rei: atualidade das Memórias de um sargento de milícias (São Paulo: Ateliê Editorial, no prelo). Entre seus interesses, destacam-se: teoria crítica, romance brasileiro e so- ciedade, formas culturais contemporâneas. CECIL JEANINE ALBERT ZINANI — Graduou-se em Letras – Português- Inglês, cursou Especialização em Literatura Infantil e Juvenil, na UCS; Mestrado em Letras – Teoria da Literatura, na PUCRS; Doutorado em Letras, Literatura Comparada, na UFRGS. Realizou estágio de Pós-Doutoramento na linha de pesquisa Memória e História, na PUCRS. É docente e pesquisadora do Curso de Letras, do Programa de Pós-Graduação Mestrado em Letras, Cultura e Regionalidade na Universidade de Caxias do Sul e do Programa de Pós-Graduação Doutorado em Letras, Associação Ampla UCS-UNIRITTER. Entre suas publicações, destacam-se: Literatura e gênero: a construção da identidade feminina, História da literatura: questões contemporâneas; em coorganização, as obras: Da tessitura ao texto: percursos de crítica feminista, Mulher e literatura: história, gênero, sexualidade, Dicionário biobibliográfico dos escritores da Região de Colonização Italiana no Nordeste do Rio Grande do Sul: das origens a 2005 e Multiplicidade dos signos: diálogos com a literatura infantil e juvenil. Também publicou capítulos de livros e artigos em periódicos. Entre seus interesses, destacam-se: estudos de gênero, questões de leitura e ensino da literatura, literatura infantil e juvenil história da literatura e literatura e regionalidade. AURORA FORNONI BERNARDINI — Professora titular da USP, formada em Letras Anglo-Germânicas e Estudos Orientais, leciona Literatura Russa, Teoria Literária e Literatura Comparada em nível de pós-gra- duação. Dedica-se à ensaística e à tradução, em particular, de obras russas e italianas. Em 2006, publicou pela Martins Fontes Indícios Flutuantes, ensaio e traduções de poemas de Marina Tsvetáieva, recebendo o Prêmio Paulo Rónai e o Prêmio Jabuti de tradução. No mesmo ano, recebeu o Prêmio da APCA, juntamente com Homero Freitas de Andrade, pela tradução que realizou para a Cosac & Naify de O Exército de Cavalaria de Isaac Bábel. Recentemente traduziu A Estrutura do Conto de Magia de E. Meletínski para a Editora da editora Highlight 1918 Universidade Federal de Santa Catarina. Atualmente dedica-se à tradução de poesia. MÁRCIO SELIGMANN-SILVA — Possui graduação em História pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1986), mestrado em Letras (Língua e Literatura Alemã) pela Universidade de São Paulo (1991), doutorado em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Freie Universität Berlin (1996), e pós-doutorado pelo Zentrum Für Literaturforschung Berlim (2002) e por Yale (2006). É professor livre-docente de Teoria Literária na UNICAMP e pesquisador do CNPq. É autor dos livros Ler o Livro do Mundo. Walter Benjamin: romantismo e crítica poética (Iluminuras/FAPESP, 1999, vencedor do Prêmio Mario de Andrade de Ensaio Literário da Biblioteca Nacional em 2000), Adorno (PubliFolha, 2003), O Local da Diferença. Ensaios sobre memória, arte, literatura e tradução (Editora 34, 2005, vencedor do Prêmio Jabuti na categoria Melhor Livro de Teoria/ Crítica Literária 2006), Para uma crítica da compaixão (Lumme Editor, 2009) e A atualidade de Walter Benjamin e de Theodor W. Adorno (Editora Civilização Brasileira, 2009); organizou os vo- lumes Leituras de Walter Benjamin: (Annablume/FAPESP, 1999; segunda edição 2007), História, Memória, Literatura: o Testemunho na Era das Catástrofes (UNICAMP, 2003) e Palavra e Imagem, Memória e Escritura (Argos, 2006) e coorganizou Catástrofe e Representação (Escuta, 2000), Escritas da violência. Vol I. O teste- munho (7Letras, 2012) e Escritas da violência. Vol II. Representações da violência na história e na cultura contemporâneas da América Latina (7Letras, 2012); Imagem e Memória (Belo Horizonte: FALE/ UFMG, 2012). Traduziu obras de Walter Benjamin (O conceito de crítica de arte no romantismo alemão, Iluminuras, 1993), G.E. Lessing (Laocoonte. Ou sobre as Fronteiras da Poesia e da Pintura, Iluminuras, 1998, finalista do Prêmio Jabuti na categoria Tradução, 2000), Philippe Lacoue-Labarthe, Jean-Luc Nancy, J. Habermas, entre outros. Coordenou de 12/2006 a 11/2010 o Projeto Temático FAPESP “Escritas da Violência”. Possui vários ensaios publicados em livros e revistas no Brasil e no exterior. Foi professor visitante em Universidades no Brasil, Argentina, México e Alemanha. Atua principalmente nos seguintes temas: romantismo alemão, teoria e história da tradução, teoria do testemunho, literatura e outras artes, teoria das mídias, teoria estética do século XVIII ao XX e a obra de Walter Benjamin. EVANDO NASCIMENTO — É ensaísta, escritor e professor da Universidade Federal de Juiz de Fora. Seu trabalho se desenvolve em torno das áreas de Filosofia, Literatura e Artes Visuais. Doutorou-se pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Nos anos 1990, com- pletou sua formação em Paris, onde foi aluno de Jacques Derrida na École des Hautes Études en Sciences Sociales. Lecionou durante três anos na Université Stendhal, de Grenoble. Em 2007, realizou um Pós-Doutorado em Filosofia, sobre Benjamin e Derrida, na Universidade Livre de Berlim. Já ministrou cursos e palestras em diversas instituições internacionais e nacionais: Universidade de Paris, Universidade de Manchester, Universidade de Bruxelas, UFMG, UERJ, PUC-Rio, Unicamp, USP, UFBA, Unesp, entre ou- tras. Foi o organizador do “Colóquio Internacional Jacques Derrida 2004: Pensar a Desconstrução”, em quee do processo infinito da reflexão —, num segundo momento, um desen- volvimento difícil terá lugar. Os românticos estarão de pleno acordo com Fichte no que diz respeito à imediatez do pensamento. A refle- xão se determina enquanto reflexão de uma forma, das formas da consciência, dando testemunho da imediatez do conhecimento que nelas se dá. É um “dar-se na interpenetração mútua do pensamento reflexivo e do conhecimento imediato”. O que é conhecimento ime- diato Benjamin também o explicita: “As formas da consciência, em seus traspassamentos mútuos, constituem o único objeto do conhe- cimento imediato e este traspassamento constitui o único método que permite fundar e compreender aquela imediatez”27. Por um lado, o refletir transformador de que fala Fichte é o movimento plástico das ideias, a metamorfose das formas que se penetram e se comunicam gerando sempre uma nova forma; por 26 Manfred Frank (apud FÓSCOLO 2004:4). 27 Lucinde (apud BENJAMIN 1993:41) 141140 Sueli Cavendish Capítulo 4 . Reflexividade, Romantismo e Modernismo outro, a reflexão como a reflexão de uma forma não pode existir prescindindo da imediatez do conhecimento dado nela. Tornar mais claro o “dar-se na interpenetração mútua do pensamento reflexionante e do conhecimento imediato” é de grande importân- cia para o pensamento romântico da reflexão. Considerando que a doutrina da ciência possui não apenas conteúdo, mas também uma forma, pois ela é ciência de algo e não este algo mesmo, Fichte quer determinar a reflexão como reflexão da forma, demonstrando a imediatez do conhecimento que nela se encontra: “Fichte quer fundar um conhecimento imediato através da conexão de duas for- mas de consciência: a forma e a forma da forma. Exatamente o eu absoluto (abstrato e formal) é aquele que é reconhecido de imediato. É para esse sujeito que a ação livre da consciência se direciona, é ele o centro dessa reflexão”28. A elevação da forma à consciência é uma ação livre: “algo que em si já é forma é acolhido como nova forma, a forma do saber ou da consciência e, por isso, aquela ação é uma ação de reflexão”29. Fichte rejeita a infinitude, vendo nela um problema para a filosofia teórica, e os românticos tomam outra rota, radicalizando a reflexão, elevando-a a um terceiro grau — o pensar do pensar do pensar — e, com isso, se permitem especular sobre o infinito. Para Fichte é necessário deter um processo em que a reflexão se dissolve, ou seja, em que se observa uma dissolução da forma em face do Absoluto. a partir do terceiro e dos consecutivos graus mais elevados da reflexão ocorre uma decomposição dessa forma originária, que 28 “Para que a ciência se torne ciência necessária, essa forma pura do espírito tor- na-se matéria de si mesma, isto é, eleva-se à consciência o seu modo de ação em geral” (ABREU 2008:46). 29 Fichte (apud BENJAMIN 1993:31) se manifesta numa ambiguidade peculiar... O pensar do pensar do pensar pode ser... ou o objeto pensado: pensar (do pensar do pensar) ou então o sujeito pensante (pensar do pensar) do pensar. A rígida forma originária da reflexão do segundo grau é, no terceiro, abalada e acometida pela ambiguidade.30 Para Fichte, portanto, não interessa o infinito teórico, no qual as distorções da consciência se multiplicam e o eu perde a capacidade de autorrepresentação. Os românticos, ao contrário de Fichte, procuram tornar a infinitude constitutiva para a filosofia teórica e por essa via para a filosofia como um todo31. A infinitude da reflexão romântica tornava, do ponto de vista fichtiano, a consciência inconcebível para o sujeito e Fichte se afasta dos românticos quando estes se inclinam para o culto do infinito. Não nos ocuparemos aqui das diferenças entre a reflexão e a posição, como uma ação através da qual Fichte interrompe a infinitude. É nosso interesse maior seguir a trilha do infinito romântico. É o terceiro grau da reflexão que permite compre- endê-lo. Nesse estágio, há como que um esfacelamento dessa forma originária, uma diferenciação progressiva que cria tanto ambiguidade quanto oscilação, as quais se desdobram, multiplicando-se. Já vimos que, para Benjamin, é essa inflexão em direção à in- finitude o núcleo da originalidade e da fertilidade do pensamento romântico. O pensar o pensar, para o grupo de Iena, deveria ser mais que uma progressão interminável e vazia: A infinitude da reflexão é, para Schlegel e Novalis, antes de tudo não uma infinitude da continuidade, mas uma infinitude da conexão... infinitude realizada do conectar: nela tudo devia se 30 (apud BENJAMIN 1993:36) 31 (Cf. BENJAMIN 1993:35) 143142 Sueli Cavendish Capítulo 4 . Reflexividade, Romantismo e Modernismo conectar de uma infinita multiplicidade de maneiras, sistemati- camente como nós diríamos hoje em dia, “exatamente”, ou como diz Hölderlin com mais simplicidade.32 Os românticos afirmam que a reflexão é capaz de gerar o Absoluto, que vem a ser, portanto, produto da nossa atividade men- tal, de um pensamento que se conhece a si mesmo nessa reflexão imediatizada, ou seja, sem a interveniência da linguagem, e, por- tanto de um tu. É um conhecimento direto no próprio movimento. “Não se trata de um conhecimento de um objeto através da intuição, mas do autoconhecimento de um método, de um elemento formal — o sujeito absoluto não representa nada além disso”.33 Esse movi- mento, presidindo a criação da obra de arte, aponta para o infinito e como atividade sempre inacabada responde também pela infinita abertura da obra de arte. É o que Novalis definiria como um “saltar a si mesmo sobre os próprios ombros da faculdade reflexiva”. A escrita de Benjamin, bastante complexa nesse estudo, não consegue nem tampouco se propõe abrandar as dificuldades com que as teses românticas se edificam e as ambiguidades se multiplicam e proliferam tanto como o próprio tema — a reflexividade — sobre a qual se debruçam. Registremos, porém, este momento em que o papel da reflexão na formação da obra assume clareza meridiana: A pura essência da reflexão anuncia-se aos românticos na aparição puramente formal da obra de arte. A forma é, então, a expressão objetiva da reflexão própria à obra, que forma sua essência. Ela é a possibilidade da reflexão na obra, ela serve, então, a priori, de fundamento dela mesma como um princípio 32 (SELIGMANN-SILVA 2007B:20) 33 (BENJAMIN 1993:30) de existência; através de sua forma a obra de arte é um centro vivo de reflexão”.34 Chegamos a um estágio em que é necessário fazer a diferen- ciação entre dois Schlegels, aquele que, seguindo Fichte, nas Lições Windschmann, determina o ponto central da reflexão, o absoluto, como o Eu. E o Schlegel que localiza na obra de arte, e não no Eu, o ponto central da reflexão. O pensar do pensar, na intuição român- tica da arte, não tem como suporte a consciência do Eu. Assim, ao tratar do problema da crítica, é preciso considerar o pensar do pen- sar como o esquema originário de toda reflexão, o qual por sua vez também fundamenta a concepção de crítica de Schlegel: Esta Fichte já determinara de maneira decisiva como forma. Ele mesmo interpretou esta forma como o Eu, como a célula origi- nária do conceito intelectual do mundo. Friedrich Schlegel, o ro- mântico, interpretou-a por volta de 1800 como a forma estética, como a célula originária da ideia de arte. E, Benjamin complementa até alcançar uma formulação bas- tante consistente do papel da reflexão na constituição da forma: “A intuição romântica da arte repousa no fato de que não se compre- ende no pensar do pensar nenhuma consciência do Eu. A reflexão livre-do-Eu é uma reflexão no absoluto da arte”35. Entre as ideias fundamentais a recuperar da abordagem de Benjamin com respeito às teses dos românticos de Iena está a noção de meio de reflexão — teia ou rede urdida por conexões infinitas da re- flexão, formadas por um incessante conectar da própria reflexividade, 34 (BENJAMIN 1993:81) 35 (BENJAMIN1993:48) 145144 Sueli Cavendish Capítulo 4 . Reflexividade, Romantismo e Modernismo onipresente, a recobrir o todo real e por isso chamado pelos primeiros românticos de o Absoluto. “O médium é de tal natureza abrangente que a reflexão move-se nele — pois esta, como o absoluto, movimen- ta-se em si mesma”; ou: “a reflexão constitui o absoluto e ela o constitui como um médium”36. Para Schlegel, o conceito é o meio pelo qual se consegue delimitar um pensamento, de maneira que conceituar é nomear, dar unidade a algo do mundo, ou seja, um conceito é uma forma linguística. Um sistema, na visão schlegeliana, é aquilo que explica todas as coisas do mundo, isto é, o sistema é um conjunto de unidades de conceitos que permite a compreensão sistemática do mundo. Benjamin se vale das definições propostas por Schlegel, segundo as quais, o conceito é “o pensamento justamente no qual o mundo pode ser recolhido em uma unidade e que se pode dilatar novamente em mundo. [...] Então se deveria certamente com mais razão denominar-se sistema apenas um conceito abrangente”37. Sendo o conceito uma forma linguística que delimita um pensamento, Benjamim criou o conceito de médium-de- -reflexão — em alemão o conceito é formado de uma única palavra: reflexionsmedium — traduzido segundo o significado das palavras que o compõem — médium, meio concreto de realização de algo, com- preendendo-se, então, que médium é uma forma assumida concreta- mente, desde que através dessa forma algo passe ou seja transmitido. O médium-de-reflexão é, portanto, o meio concreto pelo qual a reflexão é transmitida, ou seja, é a forma concreta assumida pelo pensar 38. Havia uma intenção sistemática de Schlegel com relação à arte que o conceito de médium-de-reflexão pretende capturar, embora essa intenção não tivesse sido formulada de maneira plena e clara na Athenaum, posto que à época preponderava na atitude intelectual 36 (BENJAMIN 1993:45) 37 Schlegel (Apud BENJAMIN 1993:53) 38 (AMARAL 2008) de Schlegel o interesse estético. Seria necessário esclarecer que re- flexionsmedium foi conceito cunhado pelo próprio Benjamin, cuja visão se interpõe necessariamente como enquadramento e como moldura em toda abordagem contemporânea dos românticos. A concepção sistemática fundamental da Athenaum, a arte como médium-de-reflexão absoluto, é inúmeras vezes substituída por outras designações que dão ao pensamento de Schlegel colora- ções de inconsistência. Vejamos uma das suas formulações típicas, na qual é possível visualizar variações e distorções do seu conceito de absoluto: A arte, criando a partir do impulso da aspiração da espirituali- dade, conecta esta em formas sempre novas com o acontecer do conjunto da vida do presente e do passado. A arte liga-se não a acontecimentos singulares da história, mas a sua totalidade; do ponto de vista da humanidade eternamente em aperfeiçoamen- to, ela abarca o complexo dos acontecimentos, unificando-os e explicitando-os.39 “Friedrich Schlegel era um filósofo-artista, ou um artista filo- sofante. Desde modo ele, por um lado, seguia as tradições das corporações filosóficas e buscava conexões com a filosofia de sua época; por outro, ele era artista demais para ficar parado no puramente sistemático”40. Como se vê, a concepção de reflexão artística se encaixa no sistema — que pode ser acusado de ser impropriamente chamado sistema — de Schlegel em uma culminância da chamada ideia de 39 (AMARAL 2008:53) 40 (BENJAMIN 1993:52) 147146 Sueli Cavendish Capítulo 4 . Reflexividade, Romantismo e Modernismo humanidade. Era preciso encontrar uma linguagem que mediasse o contato recíproco entre todos os homens num nível transcendente à experiência individual — ligando todos os homens àquele elemento divino constitutivo da existência humana. Conforme registra Márcio Seligmann-Silva, a articulação entre crítica e arte em nenhum lugar é mais conspícua que no livro inaca- bado de Benjamin, Passagenswork, no qual o médium-de-reflexão é tanto meio quanto é obra, é obra enquanto arte e obra enquanto crítica, um modelo em si mesmo refratário ao modelo da teoria do conhecimento monológico, baseado na simples cadeia de causas e efeitos. Passagenswork cristaliza, então, uma crítica a uma concep- ção linear tanto do desenvolvimento do conhecimento como do desenrolar da própria história, pondo em evidência a crítica de um determinado modelo de razão e racionalidade. Já desembaraçada de uma determinação ontológica, o pensar romântico é um movimento sem fim da reflexão, que funda o eu, uma infinidade de conexões concebida como mediação via imediatez, razão pela qual Schlegel se refere a uma passagem que é sempre um salto e ao eu como um con- junto de infinitas passagens, superações, traduções41. O processo de proliferação, multiplicação e desdobramento do eu, de automediação infinita do ser, preside a conceituação de Reflexionsmedium, com que Benjamin ilustra a própria concepção romântica de absoluto: “Com esse termo é designado de forma resumida o todo da filosofia teórica de Schlegel”42. Compreende-se, então, que a “romantização do mun- do” consiste em traduzir o mundo como uma cadeia de reflexos e reflexões, em conceber o mundo como lócus de um transitus. O interessante registro da transposição da noção de médium- -de-reflexão para um universo que permite contornar o excesso 41 (SELIGMANN-SILVA 2007B:19) 42 (SELIGMANN-SILVA 2007B:20) abstratizante da teoria romântica, tendo este conceito como seu prin- cipal suporte, é feito também por Willi Bolle com respeito a Benjamin, que caracteriza a urbe moderna como esse feixe e essa rede de re- flexividades em conexões móveis e ininterruptas, desde a primeira aparição de sua figuração no gênero tableau urbano, “inaugurado com o Tableau de Paris (1781 -1788), de Louis-Sébastien Mercier”43, contemporânea ainda do famoso florescimento do círculo romântico em torno da revista Athenaum. A interpolação dessas notas de Willi Bolle nos permite saltar do registro extremamente rarefeito e ambíguo do pensamento dos românticos para algo que, se visto em retrospecto, lança uma luz inestimável sobre aquilo cuja compreensão tanto nos incomodava. É que as transformações com tal intensidade se acele- ram desde esse primeiro grande evento da consagração da cidade — no campo da mídia, da publicidade, das vitrines e dos anúncios, da informação e invenções técnicas de uso da imagem — que obrigam a tradicional cultura literária a repensar seu ofício. Mas como pode ter razão Bolle sobre a primazia de todos esses outros vetores se todas essas técnicas não têm como fonte geradora senão a própria narração literária, o que é posto pela ficção, de prosa e poesia, o tratamento li- terário dado à imagem que pela palavra a antecipa, assim como o que é também engendrado pelo especialíssimo acasalamento verificado à época, a partir de Kant, entre a literatura e a filosofia? Isso também torna visível o caldeirão cultural em que tudo se gesta, o tecido e a malha cujo desenho os primeiros român- ticos têm o arrojo de naquele momento fornecer e desvelar, uma empreitada na qual logram na verdade antecipar os paradigmas para a produção da arte até os nossos dias. Benjamin dá provas de seu poder visionário, por um insight que oferece do fenômeno da crescente complexidade com que se desenvolve a cidade a partir 43 (BOLLE s/d) 149148 Sueli Cavendish Capítulo 4 . Reflexividade, Romantismo e Modernismo do século XVIII, compreendendo-o como a concretização da ideia do reflexionmedium, uma vez que nela se dá o encontro de todo o metapensamento que vem das artes e das ciências, e de todas as infinitas reflexividades que se forjam neste meio instável e extrema- mente pujante, de todas as conexões que o sustentam: o Absoluto. Benjamin: “A intensificação da consciência na crítica é, a princípio, infinita; a crítica é então o médium no qual a limitação da obra de arte singular liga-se metodicamente à infinitude daarte e, finalmen- te, é transportada para ela, pois a arte é, como já está claro, infinita enquanto médium-de-reflexão”.44 Nunca será demasiado ressaltar, então, que Benjamin privile- gia a transformação que imprimiram os românticos ao conceito de crítica através da ideia de Reflexionmedium (médium-de-reflexão), que estabelece a reflexividade como núcleo do pensar romântico. Sendo um conceito instável, devemos nos fixar na noção de que o infinito primeiro romântico não é o infinito teórico, que permanece assintótico, e, sim, o infinito da obra de arte, constituído pelo sujeito reflexivo, de oscilação em oscilação, e de conexão em conexão, em sua tarefa de autoconstituição que é, também, tarefa de autocons- tituição da obra e do próprio meio que ela habita. Oscilação que já fora flagrada por Schlegel em pleno movimento: “A poesia român- tica é a que mais pode oscilar, livre de todo interesse real e ideal, no meio entre o exposto e aquele que expõe, nas asas da reflexão poética, sempre de novo potenciando e multiplicando essa reflexão, como numa série infinita de espelhos”45. É aqui que nos permitimos traçar um paralelo entre a reflexivi- dade e a dinâmica do belo kantiano, do jogo livre e infinito entre as faculdades do entendimento e da imaginação, em busca de formar 44 Benjamin (Apud SELIGMANN-SILVA 2007B:21) 45 Schlegel (apud GUIDOTTI 2011) um conceito sobre o objeto estético, um fechamento que, entretanto, sempre escapa, seja porque a imaginação exorbita na profusão de sínteses que oferece ao entendimento, seja porque o entendimento não consegue produzir as categorias que as abarque. E o que é essa dinâmica pendular na espécie kantiana do belo senão um oscilar infinito, aquele pelo qual se constitui a abertura da obra de arte? Este processo formativo interno e ao nível do indivíduo é o que produz a sua individualidade; ou seja, o que constitui a individualidade é a capacidade de autoprodução do indivíduo, produção de si por meio de sua força formativa interna, noção herdada de Kant que os românticos transcrevem numa vis poetica, concluindo então que se todo indivíduo é portador de poiesis, todo indivíduo deve ser poeta. O poético não é tanto a obra, opera, quanto aquilo que opera, aquilo que nela trabalha. Novalis nos fala de um “oscilar entre extremos que necessariamente devem ser reunidos e necessariamente devem ser separados. A partir desse ponto de luz do oscilar jorra toda a realidade”.46 “O ser existe apenas nessa tensa double bind”47. Vejamos, entretanto, o filosofar romântico do ponto de vista de sua negatividade, isto é, aquele que instaura um processo infinito e que contém em si mesmo uma impossibilidade, um fracasso, o filoso- far que jamais poderá almejar a um sistema. Novalis se indaga sobre o filosofar segundo um fundamento quando esse fundamento não é dado, quando contém uma impossibilidade. E conclui que o impulso infinito é o eterno impulso para um fundamento absoluto que pode ser satisfeito apenas relativamente e que por isso não cessa. Então, e se este fundamento não fosse dado, se contivesse uma impossibili- dade — então o impulso para o filosofar seria uma atividade infinita — e sem fim porque seria um eterno impulso para um fundamento 46 Novalis (Apud SELIGMANN-SILVA 2007B:7) 47 (SELIGMANN-SILVA 2007B:7) 151150 Sueli Cavendish Capítulo 4 . Reflexividade, Romantismo e Modernismo absoluto que pode ser satisfeito apenas relativamente — e que nunca seria, por conseguinte, cessada. A atividade livre infinita surge em nós através da livre renunciação do absoluto — o único absoluto pos- sível que nos pode ser dado e que somente encontramos por nossa inabilidade de alcançar e conhecer um absoluto. Este absoluto que nos é dado pode somente ser conhecido negativamente: Nessa busca perene e nunca alcançada do infinito repousa o pa- radoxo do projeto romântico, que se define por uma negatividade constitutiva. O filosofar é tarefa infinita, a obra de arte dirige-se para o infinito e a infinitude da tarefa do filosofar e do interpretar a obra constituem o absoluto. Daí que a tarefa do filosofar e a tarefa da arte se interpenetram num constante desdobrar-se, mo- vidas por um impulso para um fundamento absoluto. Como diz Schlegel: “Pode-se somente vir a ser, não ser filosófico. Tão logo se acredita sê-lo, deixa-se de o vir a ser”.48 O pensamento romântico é em tudo contrário à resolução por meio de sínteses, ao modo do sistema da dialética hegeliana, mantendo sempre a sua orientação oblíqua e paradoxal e alinhando em justaposição os opostos. Filosofia e obra de arte sustentam em suspensão os movimentos antípodas e as ideias antagônicas, a fim de que a autocontradição lhes seja intrínseca: Deveria o princípio supremo conter o paradoxo supremo em seu problema? Ser uma proposição, que não deixasse absolutamente nenhuma paz — que sempre atraísse, e repelisse — sempre se tornasse de novo ininteligível, por mais vezes que já se a tivesse entendido? Que incessantemente ativasse nossa atividade — sem 48 Novalis (apud GUIDOTTI 2011:56-57) jamais cansá-la, sem jamais se tornar costumeira? Segundo anti- gas tradições místicas, Deus é para os espíritos algo semelhante”.49 O feitio dessa oscilação permanente é perfeitamente carac- terizado por Schlegel em “Diálogos com a Poesia”50, cuja estrutura entre duas posições divergentes não implica em resolução dialética ou síntese, mas na manutenção das oposições. As contradições são mantidas e renovadas, não há solução para as divergências, “roman- tizar o mundo” carrega a tarefa de sustentar o movimento pendular das tensões, que de conexão em conexão termina por formar o tecido que recobre o mundo e que é o médium-de-reflexão mesmo, o todo. É o que permite a Lacoue-Labarthe e Nancy renovarem a in- terpelação que se faz à questão romântica e ao romantismo, assim como à própria literatura, quanto à sua natureza e quanto aos seus estatutos, ao enfatizarem que a própria questão, sendo autorreferen- te, permite somente a renovação infinita da questão mesma: Não significa tudo isso, simplesmente, que o romantismo con- sequentemente pode ser definido somente como uma autorre- ferência infinita da questão: O que é o romantismo? — ou: O que é literatura? Na verdade, significa que a literatura, como seu questionamento infinito e como a perpétua proposição da ques- tão que lhe é própria, data do romantismo e como romantismo. E portanto que a questão romântica, a questão do romantismo, não tem e não pode ter uma resposta.51 Voltemos, porém, àquilo que imprime à literatura a sua feição mais diferenciadora, e que diz respeito ao caráter que a crítica de 49 Novalis (apud GUIDOTTI 2011) 50 Cf. Schlegel (apud GUIDOTTI 2011:56) 51 (LACOUE-LABARTHE; NANCY 1988:83) 153152 Sueli Cavendish Capítulo 4 . Reflexividade, Romantismo e Modernismo arte assume nesse médium, no qual a reflexão preside como elemen- to constitutivo mais importante. A crítica, segundo Benjamin, é um experimento, no qual a obra é ativada, despertada, movida. É pela crítica que a obra reflete sobre si: “é levada ao conhecimento de si mesma” e torna-se, como no dizer de Schlegel, célula originária da arte, o próprio sujeito da reflexão: o experimento da crítica consiste não numa reflexão sobre uma conformação que, como está implícito no sentido da crítica de arte romântica, não poderia alterá-la essencialmente, mas no desdobramento da reflexão, isto é, para os românticos: do espíri- to em uma conformação. 52 Já vimos que o movimento sem fim da reflexão, que para os românticos funda o eu (ou o ser de modo geral), indica uma infini- tude de conexões que é concebida como uma paradoxal mediação via “imediatez”. Por isso, Schlegel fala de uma passagem que deve ser sempre um salto e Novalis de “saltar a si mesmo sobre os ombros da capacidade reflexiva”. O eu é uma construção, um conjunto de infi- nitas passagens, superações, vale dizer, traduções. Tendo em vista essateoria do ser como reflexionmedium, fica fácil compreender o lema romântico da “romantização do mundo”, que nada mais é que a revelação da cadeia de reflexos e reflexões. A crítica assume, então, o papel de um operador dentro do reflexionmedium, deixando de ser julgamento e passando a ser um degrau da reflexão, incluído num processo de autoconhecimento da própria obra. A crítica é po- ética tanto no sentido de ser tomada como parte da obra criticada, como no sentido etimológico de poesia como poiésis. A crítica é criação quando realiza a sua tradução das obras, é o médium no 52 (BENJAMIN 1993:72) qual a limitação da obra singular liga-se metodicamente à infinitude da arte e finalmente é transportada para ela, pois a arte é, como já está claro, infinita enquanto médium-de-reflexão. Essa concepção da arte — e da literatura — como um continuum de formas que se autodeterminam constitui um painel da história da arte como um intertexto infinito. Assim chegamos a compreender a afirmação de Novalis de que a estrutura básica da obra de arte é a do médium-de- -reflexão. Autoconhecimento e conhecimento da obra se confun- dem e interpenetram; ou seja, ao se tornar conhecimento da obra, a crítica se torna autoconhecimento desta: jamais será mais evidente de que maneira a crítica de arte é o conhecimento do objeto do que no médium-de-reflexão. No dizer de Benjamin, a crítica inclui o co- nhecimento do objeto. Uma vez que a teoria romântica vem sendo extensivamente explorada em nossos dias em nossas instituições acadêmicas, parecendo que a necessidade de um revival romântico é essencial e já está em curso, será suficiente para os nossos propósitos restringir o campo das ideias que são fundamentais e recuperar a abordagem de Benjamin com respeito às teses dos românticos de Iena. Dentre elas, a noção preeminente é a de meio de reflexão, médium-de-reflexão, — teia ou rede urdida por conexões infinitas da reflexão, formadas por um incessante conectar da própria reflexi- vidade, onipresente, a recobrir o todo real e por isso chamado pelos primeiros românticos de o Absoluto. “O médium é de tal natureza abrangente que a reflexão move-se nele — pois esta, como o absolu- to, movimenta-se em si mesma”. O romantismo de Iena inaugura a literatura enquanto saber autônomo e como um modo privilegiado de conhecimento do mundo; instala-a, na verdade, da maneira mais inusitada e nova, posto que com ele se inaugura o projeto teórico da literatura ao introduzir a sua função eminentemente especulativa, que extrai da 155154 Sueli Cavendish Capítulo 4 . Reflexividade, Romantismo e Modernismo filosofia, tomando para si grande parte dessa função. É assim que o romantismo preside a emergência do conceito moderno de literatu- ra, um modelo de literatura enquanto produção de sua própria teo- ria. Lacoue-Labarthe e Nancy, ao apontarem o descompasso entre a importância dos Românticos de Iena e a negligência que se observa quanto ao reconhecimento dessa “origem”, o fazem nos seguintes termos: O que ainda nos interessa no romantismo é que ainda perten- cemos à era aberta por ele. O período atual continua a negar esse pertencimento, que nos define. Um verdadeiro inconsciente romântico é discernível hoje, na maioria dos temas e motivos da nossa modernidade.53 A negligência apontada pelos dois autores evidencia-se no fato de que o romantismo chega até nós apenas indiretamente através da tradição inglesa, desde Coleridge, que procedeu a um verdadeiro escrutínio dos primeiro românticos, até Joyce, por um caminho que também foi trilhado por Schopenhauer, assim como por Hegel e Mallarmé (todo o simbolismo também incluído, acrescentamos), mas sempre que o que é fundamental na teoria romântica não é distorcido, ele passa despercebido, como se o primeiro romantismo fosse “o reprimido” do sistema literário. E quando emerge, é repetido sem que haja uma compreensão ade- quada do que está em jogo. Mas o essencial é que nossa era é uma era crítica por excelên- cia, é a era na qual a literatura devota-se exclusivamente à busca de sua própria identidade, levando com isso toda ou parte da filosofia e diversas ciências e mapeando o espaço daquilo a que agora nos 53 (LACOUE-LABARTHE; NANCY 1988:69) referimos, para usar uma palavra particularmente cara aos român- ticos, como “teoria”54. Sobre o transbordamento de limites entre literatura e crítica, Juliana Salvadori chama atenção para o duplo veio que a concepção romântica nos abre: “o da progressiva literarialização da crítica, em um primeiro momento (o da revista Athenaum) e o da criticização da literatura, em um segundo”55. A crítica romântica rompe com o quiasmo entre poiesis e teoria, desde que, enquanto a literatura é reflexiva e não se reduz à produção de artifícios e artefatos, a críti- ca não pode deixar de ser criativa e criadora. Haroldo de Campos chamará a este romantismo de um “romantismo intrínseco”, que caracteriza a modernidade: a atividade crítica como criativa e cria- dora, reflexiva, portanto, “reflexão em terceiro grau, o pensar sobre o pensar, isto é, o conhecer o pensar”56. Otávio Paz, por seu turno, afirma a marca eminentemente reflexiva e crítica da modernidade: A modernidade é sinônimo de crítica e se identifica com a mudança; não é a afirmação de um princípio intemporal, mas o desdobrar da razão crítica que, sem cessar, se interroga, se exa- mina e se destrói para renascer novamente. […] No passado, a crítica tinha como objetivo atingir a verdade; na idade moderna, a verdade é crítica. O princípio em que se fundamenta o nosso tempo não é uma verdade eterna, mas a verdade da mudança”.57 Mais um legado romântico não pode ser deixado passar sem menção: é o gênero “ensaio” como forma privilegiada para o exercício da crítica, por sua brevidade, que permite que se constitua enquanto 54 (LACOUE-LABARTHE; NANCY 1988:15) 55 (SALVADORI 2011:109-121) 56 (SALVADORI 2011:113) 57 Octavio Paz (apud SALVADORI 2011:113) 157156 Sueli Cavendish Capítulo 4 . Reflexividade, Romantismo e Modernismo fragmento, abrindo mão de pretensões totalizadoras, pondo-se em consonância com a infinitude da possibilidade de réplica, instalan- do no meio da literatura um diálogo em movimento, que incita os seus participantes a um jogo, a esboçarem pensamentos de modo não sistemático, a acolherem o inacabamento, num afrouxamento dos nexos causais em prol da errância e da experimentação subjetiva e linguísti- ca. O ensaio, por esse ponto de vista, é insidioso como o texto literário ao qual se refere, pois, por meio da forma, busca pela leitura ativa — uma leitura potencializadora, isto é, que atualize as possibilidades ali inscritas — tornar-se texto, ser interpretado, isto é, vir a ser como texto”. 58 Enfim, com o romantismo, a obra começa a tomar forma quan- do o pensamento, ou o pensamento que há nela, voltando-se sobre si mesmo, assume conformação, assume forma, torna-se objeto, ou mais precisamente, sujeito-objeto. A crítica, efetivamente, é um desdobramento reflexivo da própria obra literária, a qual deixa de pertencer à categoria objeto de estudo ou de análise. Na concepção de arte e de crítica primeiro romântica, a antítese sujeito-objeto se esfuma. E o ensaio será um dos rebentos dessa filogenia romântica, de fundamental importância, não tanta, porém, quanto a que os membros do círculo atribuíam ao romance como forma por exce- lência a abrigar todos os gêneros, inclusive a poesia. No fundo de todo esse desenvolvimento dos gêneros, que se dá pelas trocas livres entre as multiplicidades de vetores que participam do terreno ou da malha, ao mesmo tempo, flexível, ao mesmo tempo, justa, do meio-de-reflexão, as transferências recíprocas entre a literatura e a 58 (SALVADORI 2011:113) filosofia atam pequenos nós ou pontos de interseção e desvio em que a energia que ali se produz se propaga e é reconduzida e desvia- da em variáveis caminhos. A regra, e não a exceção, é o paradoxo eé assim que se recua até Platão para incorporar o “gênero” do Diálogo como o gênero do Sujeito socrático por excelência, conduzindo naturalmente à sugestão de que Sócrates representava a encarnação antecipatória do sujeito da ironia, o lócus dos intercâmbios entre a forma e a verdade que define a ironia, ou, o que é o mesmo, o lócus das trocas entre poesia e filosofia. Não contamos com uma área livre de opacidade, contudo, para darmos conta da multiplicidade de elementos que trazem o romance para o centro da questão romântica, desde que a reflexivi- dade que ela opera, aquilo que vem aclarar, é justamente produtora dos pontos cegos. Não há posição privilegiada para ver o conjunto, mas recuando aos “Diálogos”, percebe-se a tentativa que fazem os românticos de recuar e retornar aos gregos como um modelo da união da poesia e da filosofia e assim da matriz originária do roman- ce, ou seja, daquilo que finalmente entre os Modernos encontrará um nome. É aqui que se deixa manifestar a engenhosidade de João Guimarães Rosa ao conceber a sua saga como um diálogo platônico com um único interlocutor, constituindo-se como um refletir-se a si mesmo, deixando os vestígios da trilha percorrida, via círculo de Iena, para chegar ao modus operandi dessa forma. Também fica visí- vel a argúcia de um Edgar Allan Poe quando mimetizou, pondo em operação, a reflexividade, na figura de uma carta roubada, chamada depois pelos pós-estruturalistas de a hipóstase do significante. Pelo tratamento que lhe deu Lacan num dos seminários dedicados ao conto (que certamente vai buscar na “Letter on the Novel”, manifesto de Schlegel sobre o romance, texto básico do romantismo, no qual se declaram os termos de uma poesia universal progressiva, de uma 159158 Sueli Cavendish Capítulo 4 . Reflexividade, Romantismo e Modernismo civilização progressiva e universal, contendo em si todas as coisas (Dialogue on Poetry, 1799). O romance perfeito mistura todos os gêneros, através da fusão do épico, do dramático, do lírico, do crí- tico e do filosófico. E como o engendramento de tal trama é impos- sível, o romance perfeito é inatingível. A “Carta sobre o Romance”, então, pedra de toque da “filosofia da poesia”, nos Diálogos, não está situada no centro do texto, está em falta, como a “A Carta de Poe”, en souffrance, em sofrimento, en attente, em espera, como o próprio romantismo que simboliza59. Vasto é o campo aberto pelos românticos de Iena, ao liberta- rem e emanciparem a obra de arte da estética tradicional. Vastas e dominantes são as conexões entre os produtos de sua especulação e a arte do século e meio que ao deles se segue, que por si só constitui o lugar privilegiado para a pesquisa e para a especulação literária por excelência. O núcleo essencial é o da reflexividade, também chamada metateoria, ou simplesmente teoria, que em formulações extremas, como a de Leon Chai, assume o lugar do próprio conte- údo de qualquer campo do saber, de tal forma que “as razões pelas quais fazemos teoria derivam menos do nosso conhecimento de um campo específico — ou disciplina — do que daquilo que intuitiva- mente percebemos sobre a teoria mesma”60. Não obstante o fato de que a reflexividade, que se mantivera latente na obra de autores do simbolismo e tornara-se a pulsar na obra dos autores do modernismo, vindo a se constituir o núcleo irradiador da tradição moderna da poesia, tudo isso, porém, foi in- suficiente para que a teoria lhe reservasse um lugar. Diria até que a questão jamais se tornaria visível em si mesma senão em momentos 59 (Cf. SCHLEGEL 1971:87-91) 60 “The reasons we do theory the way we do come less from our knowledge of a given Field — or discipline — than from what we intuitively feel about theory itself”. (CHAI 2006:XII). excepcionais e em comentários fugazes, como se vê na instigante análise de Octavio Paz — “Stéphane Mallarmé: o soneto em ix”, — na qual, citando palavras colhidas por Mallarmé da senhora Émilie Noulet, nos diz que ela havia elucidado o mistério sobre o significa- do da palavra ptyx: “se nos remontamos à origem grega da palavra, ficamos conscientes de que a ideia de dobra é fundamental... ptyx significa uma concha, um desses caracóis que ao aproximarmos do ouvido nos dão a sensação de escutar o rumor do mar” (Oeuvre poétique de Mallarmé,1940)61. Debruçar-se sobre a organização do poema permite a Paz concluir que o seu instrumento, o caracol, “é uma estrutura que se dobra sobre si mesma”. Segundo Jean-Pierre Richard (L’Univers imaginaire de Mallarmé, Paris, 1961), a dobra é uma forma de reflexão: pensar, refletir, “é dobrar-se”62. Surpreende que um pensador com os poderes de Paz e já em anos tão recentes quanto aqueles em que produz o seu ensaio, não fizesse ali articu- lações mais significativas sobre todo o circuito que a reflexividade ativava desde Iena, percorrendo todo o campo da literatura desde então. Fica claro, porém, que o seu objetivo é revelar, no enigmá- tico poema de Mallarmé, como, por sua forma, a obra de arte é um centro vivo de reflexão, e pôr a nu as sequências de operações autorreflexivas pelas quais o poema se constrói refletindo sobre si mesmo. Mallarmé aponta, na figura do Mestre que “já fora colher outros prantos no Estige”, o influxo da força externa que recebia de Edgar Allan Poe. Obviamente tais referências à reflexividade não estão comple- tamente ausentes da teoria literária, mas se encontram pulverizadas neste campo, aqui e ali, como grãos de pólen; o padrão a que me refi- ro, o do tratamento fragmentário e ligeiro, é a tônica, como, aliás, já 61 (PAZ 1996:190) 62 (PAZ 1996:190) 161160 Sueli Cavendish Capítulo 4 . Reflexividade, Romantismo e Modernismo registravam Lacoue-Labarthe e Nancy, tanto que a tese de Benjamin é um dos seus textos que menos atenção mereceu por parte da críti- ca e justamente aquele em que a reflexividade é reconhecida como o núcleo da teoria romântica. Jeanne Marie Gagnebin chama atenção para a reflexividade que também nucleia a tese de Benjamin, como responsável pela fertilidade do pensamento romântico para toda a teoria contemporânea da literatura, sobretudo no que diz respeito aos conceitos de obra e crítica: É justamente esse conceito de Reflexão que Benjamin destaca na primeira parte do seu livro como sendo o conceito básico da teoria do conhecimento subjacente à concepção de crítica (antes de tudo literária) dos irmãos Schlegel (sobretudo de Friedrich) e de Novalis. Ao centrar suas análises nesse con- ceito, Benjamin ressalta a dimensão especialmente filosófica dos românticos, buscando o núcleo especulativo comum sob a abundância, à primeira vista confusa e arbitrária, dos textos e dos fragmentos.63 Digo que a questão da Reflexividade permanece pulsante, uma vez que, originária dos primeiro românticos, ressurge de forma am- plificada para um grande público partir de Edgar Allan Poe, vindo a constituir-se o principal operador da sua obra e das três gerações de poetas franceses que a retomam e a refletem, refletindo também sobre ela – Baudelaire, Mallarmé e Valéry – e que integraram uma articulação que viria a ser chamada por Eliot de a conexão Poe, no seu ensaio “De Poe a Valéry”. Um pouco da perplexidade de Eliot em face da poética de Edgar Allan Poe é tratada em conferência minha de 2002, na Faculdade de Letras da UFRJ: 63 (GAGNEBIN 2007: 66) “A fundação da reflexividade, como tradição da ficção, não é atribuída a Poe e sim a Mallarmé. Baudelaire, Mallarmé e Valéry não se cansam de afirmar a sua fidelidade de princípios ao poeta americano — Poe, para Mallarmé, é a alma poética mais nobre que jamais viveu”, “o caso literário absoluto”, para Valéry é “talvez o mais sutil artista deste século”. Mas o culto de Poe pelos fran- ceses é visto pelos leitores de língua inglesa como um mistério. Um leitor privilegiado como T. S. Eliot, para quem Poe nunca deixaria de ser “uma pedra no meio do caminho de todo crítico judicioso”,não é capaz de nele vislumbrar as marcas de uma mo- dernidade que com ele se funda:64 “Devemos estar preparados para contemplar a possibilidade de que esses franceses tenham visto algo em Poe que nós, leitores de língua inglesa, não percebemos”.65 Se essas palavras representam certa rendição em face do in- compreensível fenômeno Poe, outras proferidas anteriormente comportam a condenação pura e simples, embora a contundência traia um resíduo de dúvida que não se erradica: “É difícil para nós compreendermos como poderiam três poetas franceses, todos ho- mens de dotes intelectuais excepcionais, levar Poe tão a sério como filósofo — pois são as teorias de Poe sobre a poesia, mais que seus poemas, que significavam tanto para eles”. Não se sabe com que grau de compreensão deste público a reflexividade em Poe foi recebida, uma vez que mesmo poetas, prosadores e críticos em geral pouco a entenderam. Na verdade era comum atribuir-se o que se considerava a estranheza dos escritos de 64 (CAVENDISH 2002) 65 T. S. Eliot (apud FELMAN 1988 — minha tradução); (ELIOT 1956 — minha tradução) 163162 Sueli Cavendish Capítulo 4 . Reflexividade, Romantismo e Modernismo Poe não a um umheimlich, estranho familiar, mas à sua expressiva aderência ao gótico alemão. Por tudo isso, permaneceu latente nos textos do simbolismo, do pré-modernismo e do modernismo. Onde quer que se manifes- te, porém, vem a ser o núcleo irradiador da tradição moderna da poesia. Tudo isso, entretanto, sem que a teoria lhe determine um lugar. O fato é que a intensa e meteórica tempestade constelar do cír- culo de Iena deixou em seu rastro os efeitos, os desdobramentos, as conexões, a teia de ramificações, o influxo que irá formar o conjunto do meio “literatura” — sem que se faça distinção aí entre produção crítica e teórica e produção ficcional — e se estenderá com uma amplitude e uma profundidade que hoje não permite sequer cogitar o que haveria ficado de fora dessa explosão. Posta em operação, ou seja, presentificada, na poética fundadora do movimento, a questão permaneceu igorada, porém, pela Teoria e Crítica Literária de quase dois séculos, não fosse por um importante veio do simbolismo e do modernismo, que se tornou muito visível, ao tomar a reflexivi- dade como eixo — o já citado eixo da reflexividade — Baudelaire, Poe, Valéry — resgatando-a de Edgar Allan Poe, a partir do qual se estabeleceria o liame — ou ao menos se tornaria possível des- nudar a vinculação entre os primeiros românticos e estes poetas, os quais construíram as suas obras e a sua poética sob a égide da reflexividade, tendo-a, na verdade, como instância nucleal, fosse ou não esse processo de construção consciente ou das raízes primeiro românticas em que se assentava. Tenhamos como ponto pacífico que as referências ligeiras e o comentário ligeiro sobre a reflexividade são a tônica. Nunca será demais reconhecer que, adotando o foco romântico numa época de pleno olvido, Benjamin dá testemunho da agudeza crítica que era a sua marca, apontando para a fertilidade do pensamento romântico para toda a teoria contemporânea da literatura, sobretudo no que diz respeito aos conceitos de obra e crítica. O conceito de Reflexão, conceito básico da teoria do conhecimento subjacente à concepção crítica dos irmãos Schlegel e de Novalis, confere ao pensar român- tico seu núcleo especulativo e realça a dimensão especialmente filosófica dos românticos. Tomar contato com o livro Romantic Theory; Forms of Reflexivity in the Revolutionary Era, de Leon Chai, com que intro- duzimos este capítulo, foi uma grata surpresa, uma vez que se trata de uma importante incursão no campo da teoria que vê a partir do romantismo um movimento que atravessa amplos campos de co- nhecimento, partindo do Conceito, da sua gênese, da abordagem espacial dos conceitos pelos românticos — questão certamente ain- da não reconhecida ou isolada — ao primado do desenvolvimento sobre aquele dos conceitos e à criação da metateoria, ou a análise formal da teoria, implicada nessa concepção a noção de um retorno da teoria sobre si mesma, uma visada que ficará mais compreensível se levarmos em conta a filiação hegeliana do autor. Uma das ênfases do seu livro é, portanto, o “movimento de retorno”: para que se volte a si mesmo desde a alteridade, é necessário ha- ver algum tipo de reflexividade... Com Schlegel aprendemos que a reflexividade não apenas envolve um movimento de retorno, e sim, do mesmo modo um movimento de autoconsciência. Mas entendo que a consciência não se refere apenas à nossa própria autoconsciência. Ao invés disso, uma vez que observamos nossa passagem à alteridade via negatividade e nosso retorno ao self, é possível chamá-la de narrativa”.66 66 (CHAI 2006) 165164 Sueli Cavendish Capítulo 4 . Reflexividade, Romantismo e Modernismo Na teoria ou na crítica brasileira, a Reflexividade tampouco foi isolada como questão ou como conceito. A exceção são as referên- cias esparsas que lhe faz João Alexandre Barbosa em seus estudos sobre Valéry, o primeiro com o título de “Suicídio da Literatura? Mallarmé segundo Valéry”. Neste livro, Barbosa examina as razões para o que considera o fracasso de Valéry, incapaz de revolucionar o tradicional verso francês por ter-se deixado consumir por “uma incessante reflexão destruidora e cética”, explicitando o problema básico do escritor, uma divisão “entre a consciência de uma aniqui- lação da Literatura, desde que submetida a um processo autorrefle- xivo, e o esforço em se fazer continuador de uma herança literária que, como não poderia deixar de ser, terminava por ser a negação daquela consciência. Embora seja forçoso reconhecer um certo poder paralizante da reflexividade, certo efeito medusante tão bem encenado no Hamlet, há o efeito oposto, a favor da poiésis, fértil e prolífico. Mas, prossegue Barbosa: “É somente nesta trilha de refle- xão, que parece razoável a caracterização de Valéry como ‘símbolo perfeito da Europa”67. A Reflexividade é, então, apenas tangencialmente referida pelo crítico brasileiro, embora já essa referência revele a sua exponencial lucidez. Vincula-a aos destinos da literatura, ressaltando que com ela a literatura marcha para si mesma ou, como diz Blanchot, para sua “essência que é o desaparecimento”68. Neste texto, em nenhuma instância, há um recuo da análise que vincule Valéry à figura de Poe e à Reflexividade e muito menos aos românticos. A ênfase recai sobre os processos psicológicos de Valéry e a reflexividade é posta como um pensamento obsessivo, que seria responsável pelas contradições entre a sua produção teórica e sua prática poética. Barbosa concebe 67 Maurice Blanchot (apud BARBOSA 1976:52) 68 Maurice Blanchot (apud BARBOSA 1976:52) a Reflexividade como o excesso do pensar, tomado como causa do fracasso da comunicação, do silêncio, do échet que se instala na lite- ratura com Mallarmé e mais radicalmente com Valéry, o poeta cuja dedicação ao pensamento não teve como resultado a ultrapassagem das regras do Parnaso. Repensar a poiésis em face do fenômeno da reflexividade, estabelecer paralelos e identificar contradições entre a reflexividade e a mímesis poderia oferecer uma linha de desen- volvimento mais consequente com a poética da modernidade e do modernismo. Será em muitos textos da coletânea “A Comédia Intelectual de Paul Valéry”, publicada em 2007, que veremos o desenvolvimento e a explicitação de uma compreensão crítica das articulações que conduziriam o poeta francês e a sua produção intelectual a desa- guar naquele duplo contraditório e paradoxal para o qual o poeta vinha se preparando ao longo dos anos. Já no capítulo de abertura, À margem dos Textos, um estudo de 1999, é possível observar que Barbosa renunciara a ver Valéry como um poeta capturado por uma obsessão doentia de caráter psicológico; também aí o críti- co, já agora se concentrando em Valéry e não mais em Mallarmé pelo olhar de Valéry, procura estabelecer“as linhas de influência e continuidade de seu pensamento com relação a antecessores funda- mentais para a sua obra, tais como Leonardo da Vinci, Descartes, Edgar Allan Poe ou Mallarmé. Influência e continuidade que se iluminam por alguns conceitos recorrentes, como, por exemplo, o da consistência (no caso de Poe) ou da analogia (casos de Leonardo ou Mallarmé)”.69 Acentua Leyla Perrone-Moisés, em sua apresen- tação a esse livro, que no ensaio “Permanência e Continuidade de Paul Valéry”, Barbosa estabelece uma “instigante linha de relação 69 (BARBOSA 2007:18) 167166 Sueli Cavendish Capítulo 4 . Reflexividade, Romantismo e Modernismo fundamental Poe/Valéry/Calvino”70. Na verdade, será através da lei- tura de duas estrofes de “O Cemitério Marinho”, a décima terceira e a décima quarta, e do poema La Jeune Parque, de 1917, que Barbosa “examinará as relações mais profundas entre a criação poética, de que Valéry já havia dado provas, e a consciência crítica envolvida na própria criação. Um exame prático de leitura daquilo que uma crítica inglesa, Elizabeth Sewell, chamou de mind in the mirror. Uma poética da autorreflexividade”71. Considerando os longos anos de silêncio guardados por Valéry antes de La Jeune Parque, ocupado como sempre esteve por uma incessante reflexão levada a cabo quase que exclusivamente nos seus cadernos, é de supor que o poeta francês tivesse sido capturado pe- los textos da trilogia poeana, em que a inteligência é ficcionalizada na figura de Monsieur Dupin. No início do segundo desses contos, “Assassinatos na Rua Morgue”, uma súmula do intelecto quando se toma a si mesmo em escrutínio — “The mental features discour- sed of as the analytical, are, in themselves, but little susceptible of analysis. We appreciate them only in their effects. We know of them, among other things, that they are always to their possessor, when inordinately possessed, a source of the liveliest enjoyment”72 — encontra de fato ressonância nas palavras de Valéry: “I regard methods with much more affection than results, and for me the end does not justify the means, since — there is no end”73, que reduplica reflexivamente, a infinitude do paradoxo poeano, apontando ao mesmo tempo, para o infinito não como infinito assintótico, mas como o infinito “da obra de arte”, segundo indicara Schlegel. A sen- tença valeriana nos remete ainda ao estatuto da metateoria, ao qual 70 (BARBOSA 2007:18) 71 (BARBOSA 2007:14) 72 POE (http://www.poemuseum.org/) 73 Valéry (In: BARBOSA 2007:109) nos detivemos ao iniciar este texto, no qual uma palavra final sobre qualquer objeto de inquirição é indefinidamente postergada. Teria Valéry compreendido que Poe, incorporando aos seus tex- tos os mais variados elementos vindos de qualquer campo — ciência ou saber hermético, da matemática, da astrologia, da astronomia, da criptografia, da frenologia, da tipografia, entre outros tantos, de fato sinalizava para o échet da Literatura, preconizado e tão temido por Eliot, dedicando mais tempo não tanto à produção de textos literários, quanto à reflexão sobre o método? Ou seja, seria razoável postular que o silêncio poético de Valéry, “a ideia do trabalho do poeta como uma empresa destrutiva e, por isso mesmo, suicida”74, teria se dado sob o influxo da poética poeana, mais especificamente da autorreflexividade que a nucleia? Que essa autorreflexividade Poe irá buscar nos primeiros românticos é para onde aponta o seu uso de textos atribuídos a Novalis, assim como na provável origem da ideia de “A Carta Roubada” na Letter on the Novel, de Schlegel, e na epígrafe supostamente extraída do autor germânico para o conto “O Assassinato de Marie Rogêt”. Em suma, teria sido possível que tanto Valéry quanto seus an- tecessores, Baudelaire e Mallarmé, tivessem interpretado, e por isso adotado, Poe, para desespero de Eliot, como precursor de uma poesia pura, no sentido de uma poesia que abarca uma infinitude de forças no campo gravitacional do meio de reflexão? E o poema “O Corvo” como fruto de uma composição intencionalmente mecânica, cujo protagonista, um objeto artificial, com seu refrão repetitivo, seria símbolo e germe do fracasso, do fim da transcendência, da transcen- dência vazia e da literatura mesma, como até então concebida antes do advento do “admirável mundo novo” das forças engendradas pelas ciências da natureza? Toda arguição aqui colocada não tem 74 (BARBOSA 2007:29) 169168 Sueli Cavendish Capítulo 4 . Reflexividade, Romantismo e Modernismo como propósito senão deixar que falem as especulações abertas pela consideração da trilogia poeana (isso sem falar sequer em outros es- pécimens da sua obra) ou por um único conto, “A Carta Roubada”, e o seu poder de multiplicação, de reflexão e de conexão que constitui o meio literário como esta vasta teia de entrelaçamentos em que a reflexividade se movimenta, ampla rede de forças em movimento. É quase uma certeza, porém, que Eliot teria sido responsável em gran- de parte pelo infortúnio crítico da recepção poeana no século 20 e que desviara o curso de uma tradição literária a fim de retirar do seu núcleo a figura de Poe. Por exemplo: sabemos que Baudelaire fora o primeiro a introduzir Edgar Allan Poe na França, consumindo mui- tos anos de trabalho com suas várias traduções de “A Carta Roubada”, La Lettre Volée”. Eliot, porém, se refere a essa tradução como tendo sensivelmente aperfeiçoado o texto original, quando o original é que é, propriamente, uma obra-prima do conto. Lacan, outro francês, em seu famoso “Seminário” sobre o conto, queixa-se, todavia, justamente da pobreza semiótica da tradução, que não captura sequer a nuance filológica implicada no título: The Purloined Letter. A responsabilida- de de Eliot no que diz respeito às vicissitudes da recepção moderna a E. A. Poe se deve à natureza de sua crítica, que não interagia com os textos, não se comunicava com a obra do poeta de “O Corvo”, ou sequer a compreendia, colocando-se em posição de exterioridade quanto a ela, em posição de julgamento, valendo-se para julgar do critério de autoridade que emanava dos poetas franceses que admi- rava, os quais, por ironia, eram todos admiradores de Poe75. Sempre colocando em dúvida o valor literário de Poe, todavia, afirma: Eis aqui três gerações literárias, representando quase exatamente um século de poesia francesa. Naturalmente são poetas muito 75 Valéry compusera o seu “Monsieur Teste” como um duplo de Dupin. diferentes uns dos outros... Mas penso que podemos traçar o desenvolvimento e a linhagem de uma teoria específica através desses três poetas e é uma teoria que busca sua origem na teoria... de Edgar Poe. E a impressão que temos de Poe é tanto mais notá- vel em razão do fato de que Mallarmé e Valéry, por seu turno, não apenas efluem de Poe via Baudelaire: cada um deles sujeitou-se a essa influência diretamente, e deixou evidência convincente do valor atribuído à teoria e à prática do próprio Poe...76 No que diz respeito às características que o aproximam do simbo- lismo, é sugerido que em Poe a insistência no aspecto dual da música, como “medida” e como “condutor de indefinição” sugestiva do Ideal aplica-se a uma poesia que se centra na impressão para obter o efeito do Belo, ou seja, um efeito da sugestão, em detrimento de qualquer significado. A arte como forma, produzindo a “corrente subterrânea de sentido”, derivada do misticismo do sentimento, afirmando o poeta em- pregá-la na acepção de “ideal” conferida por A. W. Schlegel. Por isso foi, certamente, um importante influxo para o movimento simbolista euro- peu. Creditou-se a ele, e não às teorizações encontradas em Coleridge ou em Emerson, a herança de uma tradição francesa, de Baudelaire a Mallarmé e Valéry, a que se convencionou chamar “simbolista”. No entanto, sua maior contribuição ao simbolismo foi a insistência na materialidade sonora das palavras, no modo como a musicalidade as afasta do referente sem que, porém,freudiano do termo, umheimlich, e que cercou todo o processo da recepção poeana no seu tempo, a incompreensão dos seus contem- porâneos, os ódios suscitados nos seus inimigos, a violência com que o establishment assestou suas baterias contra ele, com a qual se empenhou-se em negá-lo a qualquer custo, a complexidade mesmo 78 (FELMAN 1988; 2006:152-153) 175174 Sueli Cavendish Capítulo 4 . Reflexividade, Romantismo e Modernismo da sua empreitada, que ousou levantar o véu de algo que havia fica- do há muito enterrado no caminho. Quanto ao projeto de Poe, em que minimamente consistia? A pergunta traz à lembrança uma importante aquisição a que tive acesso nas pesquisas realizadas durante a minha tese de doutorado, quando me confrontei com o extenso estudo comparativo entre Poe e Borges, de John T. Irwin, “The Mystery to a Solution — Poe, Borges and the Analytical Detective Story”79 (O Mistério de Uma solução — Poe, Borges e a História de Detetive Analítica), crítica realizada nos moldes do que verdadeiramente preconizavam os primeiros românticos, como desdobramento infinito da obra, inscrita no processo de autoconhecimento da própria obra, degrau do processo reflexivo. Eis aqui a questão que ele primeiro se coloca: Deixe-me começar por uma questão muito simples: como es- crever uma história analítica de detetive enquanto obra de arte, quando os mecanismos da narrativa central do gênero parecem desencorajar a releitura ilimitada associada a um texto literário? Quer dizer, se a essência de uma história de detetive analítica é a solução dedutiva de um mistério, como o escritor evita que tal solução esgote o interesse do leitor na história? Já o projeto pareceria implicar a reconciliação do paradoxo entre um gênero considerado menor e uma obra de arte. Aqui o gênero “história de detetive”, inaugurado por Poe, reflete sobre o seu próprio estatuto como obra de arte. Irwin o esclarece: Tudo isso me coloca a tarefa de desenredar algo bastante enre- dado, “A Carta Roubada”, a fim de considerar a estrutura desse problema — o modo de um mistério com uma solução repetível, 79 (IRWIN 1983:i) uma solução que conserva (porque infinitamente reconfigura) o senso de mistério, que se encontra na própria origem do gênero.80 O universo de conexões criadas pela simples posição de uma dessas histórias, “A Carta Roubada”, na qual a reflexividade dá forma e conformação à ficção através da análise do ato de análise, é de- masiado vasto para que sequer as enumeremos. O reflexionmedium no qual se produz e reproduz incessantemente desde o primeiro romantismo abrangerá uma galáxia de pontos luminosos, sinais de poéticas distintas mas articuladas, em que figuram os nomes de Holderlin, Tieck, Baudelaire, Mallarmé, Valéry, Calvino, Faulkner, Joyce, Rosa, Borges, e uma miríade de outros, muitos dos quais já citados, em meio aos quais Poe se coloca estrategicamente como ponto de junção e ao mesmo tempo de desvio. A reflexão, como intensificação da teoria, como alargamento da autoconsciência e au- toconsciência do objeto estético, requer o afastamento, com relação a esse objeto, de um passo a mais, sempre, do enquadramento do visado numa moldura, da consideração do caráter da obra como alegoria. A análise do modo de operação da reflexividade na litera- tura, a metateoria, e a sua encarnação em obras reais, o modo como constitui a literatura “como manifestação de si para si mesma”81, as formas que assumem a reflexão, são tarefas para realizar-se num tempo que é também infinito. Referências ABREU, Maria Clara C. 2008. No redemoinho da história: um estudo sobre a relação entre a verdade e a linguagem em Walter Benjamin. Rio de Janeiro: PUC. 80 (IRWIN 1983:ii) 81 (IRWIN 1983:123) 177176 Sueli Cavendish Capítulo 4 . Reflexividade, Romantismo e Modernismo AMARAL, Stephania Ribeiro do. 2008. Conceituando a crítica artística e a arte crítica: dois teóricos e um só conceito de crítica de arte. Darandina, Revista Eletrônica. Programa de Pós-Graduação em Letras / UFJF, volume 1, n. 2, out. BARBOSA, João Alexandre. 2007. A comédia intelectual de Paul Valéry. São Paulo: Iluminuras. BARBOSA, João Alexandre. 1976. A Metáfora crítica. São Paulo: Perspectiva. BARNARD, P.; LESTER, C. 1988. 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Fenomenologia e hermenêutica, relações possíveis Embora a fenomenologia e a hermenêutica sejam disciplinas filosó- ficas diversas, há nelas um vínculo que as aproxima tanto quanto as afasta. A primeira visa descrever a coisa em si. A segunda tem em mira interpretá-la, levando em conta que o “em si” é insuficiente para a ela chegar. A “coisa” pode variar — neste caso é a literatura —, mas as duas atitudes, e esta é a ideia aqui defendida, são comple- mentares. Como a fenomenologia queria atingir o eidos invariável de seu objeto, para conhecê-lo em sua verdade, para tanto advogou que pressupostos e/ou preconceitos fossem “postos entre parênte- ses”, contemplando puramente os processos de constituição desse objeto na própria consciência, uma consciência não psicológica, mas transcendental. Por seu lado, a hermenêutica desistiu da pura apreensão da “coisa”, já que, no seu andamento histórico, reconheceu que a consciência está mergulhada num horizonte compreensivo, na história pessoal, social e política e que os parênteses não conseguem isolá-la. Para os estudos literários, as duas correntes têm prestado servi- ços basilares, numa e noutra perspectiva, seja para o conhecimento da obra literária em si, seja para a explicação de seus sentidos. A fenomenologia literária mais estrita, desenvolvida por Roman Ingarden e por Georges Poulet, apesar das flagrantes diferenças 183182 Maria da Glória Bordini Capítulo 5 . Fenomenologia e Hermenêutica entre ambas as orientações, a polonesa e a genebrina, possibilitou o desenvolvimento de análises rigorosas do estatuto das obras, seja no seu aspecto estrutural fenomênico, seja quanto aos fenômenos criativos na consciência autoral. A hermenêutica literária tem seus principais representantes em Hans-Georg Gadamer e Hans-Robert Jauss, na Alemanha, que mais especificamente trataram das ques- tões da compreensão da poesia e da narrativa, um enquanto filósofo, o outro enquanto teórico da literatura, e Paul Ricoeur, na França, que teoriza as relações entre tempo e narrativa e o status da metáfora e especialmente os impasses da tradição interpretativa. A fenomenologia repercutiu sobre o formalismo e o estrutura- lismo1, sendo contestada posteriormente pelos pós-estruturalistas, Derrida à frente2. Deu origem, igualmente, à disciplina de Teoria da Literatura nos Estados Unidos, a partir do texto de mesmo nome de René Weller e Austin Warren3, embora mesclada ao New Criticism. A hermenêutica deixou sua marca mais profunda na Escola de Constança, tanto em Jauss quanto em Wolfgang Iser. Derrida denunciou o logocentrismo das concepções estruturalistas. Jauss e Iser buscaram ultrapassar a visão imanentista dos formalis- mos, recorrendo à história, mas defrontaram-se com o problema do leitor ideal, uma espécie de máquina de leitura intratextual, que necessitaria, para ser desidealizada, de leitores históricos, tornando mais complexos os estudos recepcionais. Por outro lado, a fenomenologia filosófica derivou para a on- tologia de Heidegger, de que o ser se manifesta na linguagem e é na análise da linguagem que pode aflorar, atravessou a teoria dialogal de Gadamer, que funde os horizontes do texto e do leitor, possibili- tando a compreensão do passado pelo presente, e encontrou outra 1 (Cf. KRISTEVA 1978) 2 (Cf. DERRIDA 1982). 3 (Cf. WELLECK; WARREN 1962) vertente em Paul Ricoeur, para quem, além do texto, há um Outro transcendente que produz sentido e cuja voz necessita de escuta. Nesses três casos, fenomenologia e hermenêutica se irmanam, bor- rando fronteiras e abandonando posições radicais. Para a literatura, essa conciliação surte novos desafios. A fe- nomenologia não mais pode prescindir da visada histórica, tendo de incorporá-la em seus princípios, o que é realizado pelo filósofo Maurice Merleau-Ponty, ao conferir ao corpo e à percepção papel fundante na constituição dos objetos fenomênicos, direção com- partilhada, no âmbito literário, por Roland Barthes na sua segunda versão do estruturalismo em O prazer do texto4. A seu turno, a hermenêutica se vê na necessidade de tratar os fenômenos do texto e da consciência levando em conta sua estruturalidade e sua histo- ricidade, como Gadamer e Ricoeur o fazem, direcionando a inter- pretação para uma consideração da “coisa” em que os fenômenos extratextuais também devem ser interrogados. Uma separação apenas para fins expositivos pode aclarar essas questões, de modo que se possa compreender — e interpretar — as implicações das duas correntes e seus cruzamentos para os estudos literários. Como aponta Gumbrecht, com o “boom teórico” dos anos 60 e 70, “reviveu-se o desejo de encontrar uma definição transcultu- ral e meta-histórica de ‘literatura’”, mas esse também levou a “várias respostas ‘apologéticas’, a perguntas sobre as funções sociais da lite- ratura e a importância das mesmas”5. Acrescenta ele que a estética da recepção “alegou que, pela medição do(s) leitor(es), os textos lite- rários tinham exercido funções chave em algumas das mais impor- tantes transformações ao longo da história ocidental; por sua vez, a desconstrução atribuiu à leitura desses textos o status de encenação da experiência filosófica crucial da falácia do significado linguístico 4 (Cf. BARTHES 1987) 5 (GRUMBRECHT 1998:161). 185184 Maria da Glória Bordini Capítulo 5 . Fenomenologia e Hermenêutica e da referência”6. Se hoje estudar literatura tornou-se um problema, dadas as concepções que contestam seu estatuto, ou apontam as alterações que a literariedade — para usar a terminologia de Roman Jakobson7 — tem sofrido ao longo do tempo e em etnias e culturas diversas, metropolitanas ou coloniais e pós-coloniais, pensar as questões fenomenológicas e hermenêuticas pode reorientar a crise de sentido que afeta os estudiosos desse campo tão polemizado. 2. A fenomenologia num horizonte de incertezas A fenomenologia como disciplina filosófica é estabelecida por Edmund Husserl (1859-1938), na Alemanha. Embora Hegel já utilizasse o termo em sua Fenomenologia do Espírito (1807), especu- lando sobre como a Ideia Absoluta se realiza em e contra os objetos e na consciência de si do sujeito8, é Husserl quem lhe dá um corpo teórico rigoroso, iniciado em suas Investigações lógicas, de 1900- 19019. Na virada o século, antes da Primeira Guerra Mundial, o mundo europeu se apercebia das primeiras consequências nefastas do capitalismo e os valores sociais mostravam o abalo das tradições seculares. Husserl, em A crise das ciências europeias, em 1935, de- clara que sua filosofia quer nortear a prática, restituindo a noção de verdade não como proveniente do Absoluto — como em Hegel — mas como construção da consciência10. 2.1 Husserl e a fenomenologia da consciência transcendental Para a fenomenologia, o que existe só existe para a consciência, que por sua vez se torna consciência ao tomar consciência do que a ela se 6 (GRUMBRECHT 1998:161-162) 7 (Apud EIKHENBAUMDerrida fez a conferência de abertura. Publicou, entre outros: Derrida e a literatura (2ª. Ed., EdUFF), Derrida (Zahar), Filosofia e literatura: diálogos (EdUFJF e Imprensa Oficial), Pensar a desconstrução (Ed. Estação Liberdade) e Clarice Lispector: uma literatura pensante (Civilização Brasileira). Coordena atualmente a Coleção Contemporânea – Literatura, 2120 Filosofia & Artes, pela Civilização Brasileira. Lançou pela Record os livros de ficção Retrato desnatural (2008) e Cantos do mundo (contos) (2011). ROLAND WALTER — É Professor Associado do Departamento de Letras da UFPE e Pesquisador do CNPq. É doutor em Literatura Comparada pela Johannes Gutenberg Universität, Mainz, Alemanha (1992) e fez pós-doutorado na University of California, Santa Cruz (2000). Roland Walter é autor de três livros — Magical Realism in Contemporary Chicano Fiction (Vervuert, 1993), Narrative Identities: (Inter)Cultural In-Betweenness in the Americas (Peter Lang, 2003) e Afro-América: Diálogos Literários na Diáspora Negra das Américas (Bagaço, 2009) — editou o e-book “As Américas: Encruzilhadas Glocais” (Ed. UFPE, 2007) e (em coautoria com Ermelinda Ferreira) o livro Narrações da Violência Biótica (Ed. UFPE, 2010) e publicou numerosos artigos e capítulos de livro no Brasil, na Argentina, em Cuba, no Canadá, nos Estados Unidos, na Inglaterra, na Alemanha e na Holanda. Em 2004, foi convidado como Professor Visitante na Eberhard-Karls Universität de Tübingen, Alemanha. E-mail: wal- ter_roland@hotmail.com. ELOÍNA PRATI DOS SANTOS — É professora aposentada da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde foi Vice-Diretora do Instituto de Letras e Coordenadora do Núcleo de Estudos Canadenses e atuou como Professora Visitante no Mestrado de História da Literatura na Fundação Federal Universidade de Rio Grande. Obteve seu PhD em Literaturas de Língua Inglesa pela State University of New York, Buffalo e realizou Pós-Doutoramento na Universidade Federal Fluminense. É especialista em ficção contem- porânea dos Estados Unidos e do Canadá, literatura pós-colonial e literatura ameríndia. Organizou, entre outros, Perspectivas da literatura ameríndia no Brasil, Estados Unidos e Canadá (2003, com dois volumes online), e Outras literaturas anglófonas: (des)ecrevendo império, com Sonia Torres (2006). Foi membro do Corpo Editorial da Revista Interfaces (Revista da Associação Brasileira de Estudos Canadenses) para a publicação dos números 1 a 11. ANDRÉ MONTEIRO — É homo lattes e homo ludens. Com a máscara do primeiro é proletário da cognição. Como homo ludens, busca criar e se deixar criar por afetos alegres. Na corda bamba entre acasos e constelações, as duas máscaras, simultaneamente, lhe caem muito bem e fazem dele doutor e pós-doutor em Estudos da Literatura pela PUC-Rio, professor de literatura da Universidade Federal de Juiz de Fora (FALE/Dep. de Letras), escritor e compositor em horas raras. Publicou os livros A ruptura do escorpião – Torquato Neto e o mito de marginalidade e Ossos do Ócio. 23 Apresentação Em tempos nos quais reflexão e conhecimento passaram a um plano vil de consideração na sociedade, a iniciativa de organizar um volume de estudos sobre teoria literária parece-me notável e absolutamente necessária. Este Repensando a Teoria Literária Contemporânea, or- ganizado pela generosa mão do professor João Sedycias e que reúne 18 capítulos, joga luz não só nos estudos da disciplina, mas na con- cepção da própria academia, aprofundamento importante em meio ao cipoal de informações que molda a modernidade. Iniciando nas discussões sobre o estatuto da literatura e suas ba- ses, passando por diversas escolas estético-filósoficas que contribuí- ram para a conformação atual da teoria e culminando num exercício de possibilidades vindouras, o presente volume brinda-nos com conhecimento articulado e, o que é melhor, atualizado e vigoroso. Pessoalmente, e peço desculpas por falar em primeira pessoa, a teoria literária tem sido fonte permanente de inquietações e de sa- tisfações, as duas em igual medida. Como escritora — como alguém que, ainda que modestamente, produz literatura — percorri as pági- nas deste livro com o encanto que provém das inflexões do espírito, gratificando-me pelas possibilidades de abstração e de descoberta. Diversos graus de argumentação (incisivos, poéticos, eloquentes, apaixonados) conduziram-me a reavaliações técnico-teóricas, in- clusive em níveis que tocam a própria experiência dos dias. A mim 2524 me interessa, é claro, o ato criativo: aquele do autor, que em tese inicia o ciclo; do leitor, que recria o criado; e do estudioso, que tenta captar (e mediar e repercutir) esssas duas extremidades. Penso que, se a busca do autor é pela originalidade e pelo viço do novo, nada melhor do que se embrenhar nas diversas expressões que a obra literária suscita ao leitor especializado — leitura ideal, digamos, e que escapa do senso médio e comum. Ler um livro como este é, portanto, uma espécie de volta em segundo grau à própria origem do fato literário, uma instância em que a linguagem não mais engendra a ficção, mas fala sobre ela, desdobrando-se em no- vos significados. Tão criativo quanto o autor, tocado pela mesma inquietude que move aquele que escreve, o teórico é capaz disso, de despertar e de nomear essa espécie de consciência tão esquiva quanto real. Como vivo ao sul do Brasil e como tenho me dedicado ao estu- do e à leitura da teoria ao longo dos anos, também li esse livro com bastante afinco e curiosidade, buscando nele os ecos de nossa gente e nossa terra. Ao longo dos 18 textos, é possível reconhecer e apre- ciar a realidade da teoria literária em nosso país, matéria complexa em ambiente complexo, mas que, por isso mesmo, nos obriga e nos confronta com a nossa precariedade e com nossa exuberância. Convido a todos os que amamos a literatura e o estudo a des- frutar das páginas deste livro. Aqui dentro, há iluminação e encanta- mento, que são, a bem dizer, as bases de todo o conhecimento. Cíntia Moscovich Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil Prefácio O ano de 2005 marcou de forma significativa o nosso trabalho no campo de línguas e literaturas estrangeiras, principalmente no que diz respeito às línguas portuguesa e espanhola e suas literaturas corres- pondentes, e mais especificamente a brasileira e a hispano-americana. Vários colegas da área de espanhol e eu tivemos, naquela ocasião, a grata satisfação de publicar, através da Parábola Editorial, de São Paulo, o livro O ensino do espanhol no Brasil. Essa obra teve excelen- te recepção por parte da comunidade acadêmica e hoje serve como referência no campo dos estudos da língua espanhola e literaturas hispanófonas no nosso país. Alguns anos depois, em 2007, publi- camos, através da Editora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), outro livro na mesma área, A América hispânica no ima- ginário literário brasileiro / Brasil en el imaginario literario hispa- noamericano. Ambas as obras problematizam assuntos importantes relacionados ao estudo do espanhol e das literaturas hispanófonas no ambiente acadêmico brasileiro. Procuram, também, acrescentar novas perspectivas ao diálogo que vem se desdobrando com relação a esse assunto nas instituições de ensino superior do Brasil nos úl- timos vinte anos. Agora, com esta obra, pretendemos acrescentar mais uma dimensão à temática linguístico-literária acima referenciada. Explorando aspectos dessa problemática que extrapolam os limites 2726 do modelo crítico-filológico usado nas duas publicações anteriores, neste livro aplicamos uma ótica bem mais ampla. Enfocamos, es- pecificamente, o estudo dos vários paradigmas filosóficos e episte- mológicos que contribuíram para delinear e dar forma à teoria e à crítica literária nos nossos dias, em suas diversas manifestações. Assim, trazemos ao mercado acadêmico brasileiro a presente coletânea de artigos cujo eixo em comum é a teoria literária con-1971:8) 8 (Cf. HEGEL 1992) 9 (Cf. HUSSERL 1976a) 10 (Cf. HUSSERL 1976b) doa11. Husserl não discute a prioridade do mundo ou da consciên- cia, mas recusa a hipótese de que o conhecimento venha de fora da consciência, como queriam os empiristas. Por outro lado, não aceita a tese kantiana de uma consciência pura. Para ele, a consciência não apenas percebe o mundo pelos sentidos, mas confere aos dados da percepção sua inteligibilidade: ela constitui para si um objeto ideal, o único que pode ser conhecido com certeza absoluta. O conceito de consciência depende do que ele chama de inten- cionalidade. Para ele, a intenção é movimento da consciência que a faz tender para algo que não é ela. É o voltar-se para as coisas que determina que a consciência exista, pois só assim será consciência de. É nesse mover-se que ela vivencia a si mesma e aquilo que nela aparece: o fenômeno (phainomenai). Essa é a razão por que só os fenômenos podem ser objeto de conhecimento, pois não há meio de a consciência ir às coisas mesmas, de que eles são fenômenos, senão através deles. Diz Husserl, em Investigações lógicas, que o conceito de fenômeno é “o objeto intuído (aparente), como ele nos aparece aqui e agora”12. Daí que a fenomenologia seria “a teoria das vivências em geral e, incluídos nelas, de todos os dados, não só reais, mas também intencionais, que se podem mostrar com evidência nas vivências”13. Conhecer é apreender o fenômeno como ele se apresenta na consciência, tanto enquanto é por ela constituído, como depois de constituído. Não requer a comparação entre fenômeno e a coi- sa, pois não é possível relacionar-se sensoriamente com as coisas sem distorções. Para chegar ao verdadeiro conhecimento é preciso contemplar o fenômeno tal como ele surge na intuição (o dar-se de forma direta, imediata, completa, adequada), deixando de lado tudo o que se sabe sobre o objeto de que ele é fenômeno. Essa atitude 11 As considerações a seguir são extraídas de BORDINI (1990) 12 (HUSSERL 1976a:771) 13 (HUSSERL 1976a:772) 187186 Maria da Glória Bordini Capítulo 5 . Fenomenologia e Hermenêutica se chama “redução fenomenológica” (epoché). Consiste em pôr o objeto do conhecimento entre parênteses e atentar à atividade da consciência que o constitui para si. Conhecer seria extrair dos fenômenos o que é transitório ou contingente — o que eliminaria as ilusões — para alcançar o que nele é imutável, sua essência (eidos), aquilo que garante que o fe- nômeno é o que é, sempre que se manifestar à consciência. Como a consciência não é um lugar ou um estado, mas está sempre se voltando para, fluindo no tempo, o conhecimento verdadeiro será o eidético, pois — como Platão já dizia — não se pode conhecer o que está sempre mudando. Esses conceitos causaram o escândalo com que foi recebido o seu Idéias para uma fenomenologia pura e para uma filosofia fenomenológica, de 1913, acusado de idealismo14. Como a consciência é um fluxo, possui um horizonte em perpétuo movimento. O horizonte é tudo o que a consciência pode vivenciar, voltando-se do aqui e agora para os fenômenos passados (que constituem a memória) ou para os que se anunciam adiante (a previsão), no plano daquilo que ela dá como existente, porque preenchido pela intuição da coisa (o real) ou no plano a que não considera existente, mas vivencia assim mesmo (a fantasia). A linha desse horizonte se altera à medida que o raio da intenção focaliza algo, avança ou retrocede, até os fenômenos se esfumarem e desa- parecerem. O agora de cada ato intencional é instantâneo, mas dele guarda-se a vivência, pelo processo da retensão, ou antecipa-se seu desenvolvimento, pela protensão. Só depois configuram-se os atos de recordação ou de antecipação. O horizonte da consciência é, pois, dinâmico e fornece o contexto a cada fenômeno na história do su- jeito enquanto autoconsciência e na história de sua vida no mundo. A consciência se torna consciência porque está imersa no 14 Cf. o Prefácio do autor à edição inglesa (In HUSSERL 1969) mundo-da-vida (Lebenswelt), do qual ela intenciona tudo o que pode, pela lembrança do que passou ou pela imaginação do que virá. O mundo-da-vida, para Husserl, é “o mais conhecido de todas as coisas, o já por si evidente em todo o viver humano, o que já nos é sempre familiar em sua tipologia por meio da experiência”15. No conjunto das consciências, em sua interligação, faz-se a história, ao longo do fluir do tempo da natureza. É da intersubjetividade que nascem os gestos e a práxis, desde que as consciências possam se comunicar, o que é facultado pela linguagem. A linguagem surge como significação, a que a consciência dá corpo com matéria sensível, sinais físicos: o verbo, na linguagem, o som, na música, o gesto corporal, na dança, a cor, na pintura, etc. Graças a esse suporte material, que indica a outra consciência o sentido intencionado nesta, a comunicação se faz possível e as cons- ciências se tornam intersubjetivas, ou seja, reconhecem-se como consciências e fazem acordos, entram em desavença, socializam-se e historializam-se. 2.2 Roman Ingarden e a teoria fenomenológica da literatura É a partir dessa posição radicalmente fenomenológica que o polonês Roman Ingarden, em seu livro A obra de arte literária, de 193016, investiga a essência do literário. Seguindo o método de seu mestre — foi aluno de Husserl em Göttingen e Freiburg durante oito anos17, para ele a literatura teria uma estrutura essencial per- ceptível em todas as experiências individuais que dela se têm. Pela redução fenomenológica, ele propõe que se deixem de lado todas as características transitórias e singularizantes das obras literárias e as 15 (Apud LANDGREBE 1975:172-173) 16 (Cf. INGARDEN 1973a) 17 (Cf. SARAIVA 1973:xi) 189188 Maria da Glória Bordini Capítulo 5 . Fenomenologia e Hermenêutica prenoções conhecidas sobre elas, para atingir a essência invariante dos fenômenos que apresenta à intuição. É bastante conhecida sua conceituação da literatura como produção da consciência, constituída de quatro estratos fenomênicos heterogêneos, formando uma estrutura harmônica, em fluxo. São eles: o estrato fônico, dos fonemas linguísticos organizados em palavras, o estrato semântico, em que, de unidades superiores de combinação, por meio de conexões gramaticais, surgem os sentidos intencionais. Desses dois estratos se projetam outros dois, em que a intencionalidade constitui objetos fenomênicos e em que estes se concretizam, se revestem de aspectos sensoriais segundo os hábitos da consciência. A essência da obra seria a interrelação necessária entre eles (daí a noção de estrutura) e a autonomia do conjunto em relação ao que haja fora dele (a condição de imanência). A diferença entre os componentes de cada estrato e suas relações com o todo se responsabiliza pelo efeito da literatura: a polifonia qualitativa, em que todos os elementos permanecem à vista, mas entram em rela- ção uns com os outros, originando a configuração singular de cada obra e de cada gênero. Por outro lado, como a consciência opera no tempo fenomenológico, a obra se desdobra em fases, que a levam adiante, fundamentando-se no que já passou e no que virá, até sua constituição plena, o que explica a divisão em episódios, capítulos, versos, estrofes, etc. Deriva de sua teoria da literatura também uma teoria fenome- nológica da leitura, expressa em seu O conhecimento da obra de arte literária, de 193718. Quando se lê, a consciência apreende o objeto de leitura a partir dos fenômenos que o texto impresso lhe oferece. Em primeiro lugar, ocorre a intuição sensível dos sinais gráficos, de imediato transformados, por atos constitutivos intencionais, em impressões fônicas. 18 (Cf. INGARDEN 1973b) A apreensão dos sinais gráficos seria um ato ao mesmo tempo perceptivo e significativo, pois captaria a figura da letra e lhe confe- riria um sentido intencional, convencionado socialmente, que seria o fonema a ela correspondente, acionandoatos de memória e de pensamento. Se a memória falha em produzir a associação apren- dida na alfabetização, ou o pensamento não sintetiza o sinal gráfico com a impressão acústica, a leitura não ocorre. Por isso, só flui a leitura que não se prende às letras, mas às palavras e frases. Num segundo movimento, haveria o ato de compreensão dos sentidos verbais provenientes dos fonemas combinados em uni- dades superiores. Ela aconteceria a dois níveis: o da palavra, como elemento individual, e como parte de uma hierarquia superior, a da frase, e ao texto inteiro. A palavra receberia o sentido por uma convenção intersubjetiva, mas, ao nomear e indicar a coisa para várias consciências, apreenderia relações das coisas umas com as outras, que ficariam fixadas pelos índices gramaticais. Portanto, ser um verbo e ser um predicado designam um estado de coisas na consciência, que é correlato intencional ao comportamento das coisas fora dela. O leitor, porém, não intui cada conjunto fônico-semântico em si. Para chegar ao ato compreensivo, inscreve-o em unidades de fenômenos correlatas às coisas em si, através dos estados de coi- sas (state of affairs) como aparecem na consciência. O sentido da linguagem é recuperado pela intuição do objeto designado, ou do léxico e da morfossintaxe quando esse objeto não está à vista dos que usam a linguagem como meio de comunicação intersubjetiva. Segue-se o momento da objetificação, ou da constituição de objetos intencionais a partir desses sentidos intencionais. Entender um texto é transferir para a própria consciência o ato significativo que teve origem em outra (ou num outro momento da consciência de si, como quando se lê o que se escreveu). As palavras iniciais de 191190 Maria da Glória Bordini Capítulo 5 . Fenomenologia e Hermenêutica cada frase têm sentidos, pois apontam para estados de coisas que depois serão preenchidos com os sentidos das palavras seguintes, produzindo a ilusão de continuidade que os textos veiculam. A lei- tura eficiente supera a linearidade das palavras e efetua ligações nas hierarquias superiores, constituindo, a partir das frases, as objetivi- dades que vão se enlaçando no texto. Entendidos os sentidos, a leitura efetua o processo fenomênico da objetificação. A intencionalidade do leitor capta, na profusão de determinações do correlato intencional da coisa, algumas dessas de- terminações e reconstitui criativamente esse correlato, independen- te da experiência do objeto fora da consciência. Isso explica por que uma leitura pode divergir de outra sem ler objetividades diferentes. Os núcleos de concordância seriam estabelecidos pela estrutura total da obra, fixada nos estratos fônico e semântico. Atualizando as determinações criativamente, o leitor constitui para si todo o mun- do apresentado na obra, reapresentado na sua consciência conforme sua intencionalidade pessoal. Essa irá coincidir com a do autor no que se refere à estrutura do todo, mas se diferenciará na configura- ção individual dos elementos que o integram. A partir daí, o leitor chega à concretização, ou evidenciação da presença desses objetos intencionais como se fossem fenômenos de objetos independentes da consciência. A concretização é determi- nada pela natureza esquemática dos estratos objetual e aspectual. Trata de preencher os pontos de indeterminação, as lacunas deixa- das em branco no esquema dos objetos. Os pontos de indetermina- ção são aqueles momentos em que não se pode decidir se o objeto apresentado tem essa ou aquela qualidade. O leitor, cuja consciência sempre vivencia o objeto intencional autônomo em plenitude na in- tuição do mesmo, diante do objeto intencional heterônomo que lhe é doado pela linguagem, preenche esses pontos vazios com sua ex- periência prévia, derivada do seu tempo e de seu espaço, tais como são constituídos na sua consciência em interação com as demais consciências. Para Ingarden, o leitor não é livre no preenchimento dos pon- tos de indeterminação, porque a estrutura intencional da obra lhe traça um rumo a seguir. Não é só ao nível das objetividades que as indeterminações são preenchidas. Os aspectos que nelas estão em prontidão, em potência, são despertados e atualizados conforme os hábitos perceptivos do leitor. Assim, o que é uma vivência intelectu- al ou emotiva de um objeto, se reveste de qualidades sensoriais, que garantem o lado estético da experiência da leitura. O ato fenomenológico da leitura, portanto, acontece na cons- ciência e, como esta é sempre temporal, está em fluxo, também é determinado por uma corrente de fenômenos. Seu desenvolvimento se dá por polarizações de fenômenos, que seriam os agoras em se- quência. Esses agoras da leitura estariam cercados por zonas esma- ecidas, tanto para frente como para trás, como futuros antevistos ou passados memorizados. Cada momento da obra transitaria, na lei- tura, de desconhecido ou pressentido para intuitivamente presente, vivo, e logo para conhecido, mas já sem nitidez. A cada ponto-agora da leitura, os objetos intencionais apresentados são vividos pela consciência do leitor como se tivessem existência própria, como sendo realmente experimentados, mas logo se desvaneceriam e na memória restariam reverberações do estrato fônico, sínteses im- perfeitas do estrato semântico, vistas pouco detalhadas do mundo intencional, detalhadas aqui e ali por alguma ênfase aspectual. Por sua dinâmica, o processo de leitura obriga à contínua mu- dança, à novidade, à reavaliação do conhecido em relação ao que se vai conhecendo. O leitor está cônscio de que sua leitura progride, de que decrescem as partes não lidas e aumentam as já lidas, e que seu movimento de umas para outras não é regular. Seu ritmo é deter- minado tanto pela sua consciência, que se distrai ou não da leitura, 193192 Maria da Glória Bordini Capítulo 5 . Fenomenologia e Hermenêutica que volta atrás para conferir algo ou imagina o que virá, quanto pela obra, que lhe produz momentos de tensão ou distensão, conforme se desenrolam os eventos no mundo nela apresentado. Para Ingarden, a obra literária é eideticamente estética. Embora expresse uma subjetividade, portadora de uma ideologia, ela não se realiza enquanto não reveste o que for ideia, emoção ou palavra de qualidades sensíveis, atualizadas no ato de concretização. Toda leitura que não chegue aí, não será literária. Leituras meramente fi- losóficas, sociológicas, religiosas, psicológicas ou linguísticas de uma obra literária seriam secundárias, pois não atingiriam sua esteticida- de inerente. Ingarden não deixou de receber críticas por sua concepção da estrutura fenomenológica da obra literária. Embora a fenomenologia esteja na raiz dos estruturalismos posteriores, foi acusada de ignorar a história e o corpo, o que não é de todo verdadeiro, pois estes são os elementos entre parênteses da redução fenomenológica e na base da teoria husserliana está o mundo-da-vida. Se Ingarden foi o mais or- todoxo quanto ao seguimento da filosofia da consciência husserliana, enquanto outros a ela filiados, como Dufrenne19, Merleau-Ponty20 e Sartre21 refutaram a ideia de intencionalidade pura, trazendo a força criativa da natureza, a corporalidade e a existência histórica como sede dos fenômenos da consciência, de qualquer modo, a fenome- nologia de Ingarden rendeu frutos na década de 1960, especialmente nas teorias de Wolfgang Iser, que dela partiu para conceber suas teorias da recepção da narrativa. Contrariando Ingarden e dialogando com autores como Jakobson, Lotman, Hirsch, Riffaterre e Eco, Iser, em 1976, com O ato da leitura22, admite um preenchimento mais livre das indeterminações, 19 (Cf. DUFRENNE 1979) 20 (Cf. MERLEAU-PONTY 1994) 21 (Cf. SARTRE 1999) 22 (Cf. ISER 1996) pois defende que o leitor cria o que não está dito conforme suas referências, repertório de padrões e temas conhecidos, alusões que tornam familiar o que poderia não ser, buscando uma consistência que pode não corresponderà da obra, e, sim, fazer sentido para ele. De qualquer modo, nem assim o leitor pode desviar-se das determi- nações textuais a seu bel-prazer. Do jogo do determinado e do inde- terminado decorre a desfamiliarização, o efeito que, segundo ele, a obra deve realizar ante as expectativas e crenças do leitor, levando-o a reformulá-las. Pensando os pensamentos do outro, do texto, o leitor aceita a alteridade e revê suas convicções. Assim, a literatura exerceria sua função emancipatória. Para Ingarden, a estrutura estratificada da obra e sua sequencia- lidade deveriam acionar todas as operações da consciência do leitor, que, ao conseguir concretizar o seu objeto fenomênico, estaria sendo desafiado a obter a harmonia qualitativa que a obra lhe oferece, como o intérprete num concerto, e, eventualmente, alcançaria a experiência de qualidades metafísicas como o sublime, o grotesco, o inefável. As duas posições são divergentes, a de Ingarden mais imanentista, a de Iser mais contextualista, mas ambas acolhem a possibilidade de o leitor interagir com a obra e de esta afetá-lo. A questão é decidir se a huma- nidade melhora pela via da experiência estética — ideia base das artes miméticas ou expressivas em geral — ou do choque entre tradições e inovação, ao influxo das vanguardas históricas. Uma das respostas à pertinência dessa pergunta está nas propostas da hermenêutica. 3. A hermenêutica na busca do sentido A interpretação existe, porque existem a situação e o discurso e estes podem negar seus sentidos ao ser humano. Os termos gregos her- meneuein, interpretar, e seu substantivo, hermeneia, interpretação, são empregados desde a Antiguidade em correlação com o deus 195194 Maria da Glória Bordini Capítulo 5 . Fenomenologia e Hermenêutica Hermes, o mensageiro do Olimpo, que transformava a voz dos deu- ses em mensagem inteligível aos homens. Segundo Palmer23, a partir dessa tradição remota, interpretar se refere a dizer, explicar ou tra- duzir. Dizer estaria ligado à “expressividade da palavra falada”, que, na sua performance, é inerentemente interpretativa. Explicar viria da concepção aristotélica de ajuizar, enunciar um juízo verdadeiro ou falso, mas pressupondo que o interpretado mergulha num fundo pré-compreensivo, fornecido pelo modo como é explicado, ou seja, pelo método como o objeto é conhecido. Traduzir é tornar compre- ensível o que é estrangeiro, seja o que é distante pela língua, pelo tempo ou pelo espaço. Tendo em mente essas três possibilidades, a hermenêutica nos tempos modernos tem transitado nos âmbitos da exegese bíblica, da pesquisa filológica, do cientificismo, como em Schleiermacher, que desejava dar-lhe um fundamento universal e sistemático, do método para as ciências do espírito, à maneira historicista de Dilthey, do existencialismo, como em Heidegger e Gadamer, e das culturas simbólicas, como em Ricoeur. Todas essas tendências repercutiram sobre os estudos literá- rios. O termo “hermenêutica” foi empregado, na exegese bíblica, por Johann Conrad Danhauer, no século XVII, em seu livro Hermeneutica sacre sive methodus exponendarum sacrarum littera- rum (1654). Todavia, a interpretação já existia no Antigo Testamento (José do Egito interpretando os sonhos do faraó), nas regras para se compreender corretamente a Torah, na forma de os Evangelhos serem propagados na cristandade dentro de um sistema prévio de compreensão, sendo a teologia também um modo histórico de in- terpretação. Para a literatura, esse legado exegético manifestou-se nos estudos que lhe buscam um sentido previamente dado, que a informa e determina sua compreensão. Como metodologia filológica, a hermenêutica sofre a influência 23 (Cf. PALMER 1986) da ascensão do racionalismo no século XVIII. Buscar o sentido, ou as grandes verdades, significaria considerar racionalmente a língua, sua gramática e o contexto histórico do texto, salientando as nacio- nalidades. Essa posição leva quase naturalmente de uma concepção de hermenêutica como sistema de regras para a constituição de uma ciência que descrevesse as condições da compreensão em geral, que é o que faz Schleiermacher (1768-1834), no século XIX, postulan- do que compreender é reconstruir os processos mentais do autor do texto, numa espécie de diálogo circular entre as constrições da gramática e a individualidade do emissor. Se a filologia marcou o estudo da literatura por sua ênfase na história da língua e da cultura nacional, refletindo-se sobre o positivismo literário, a hermenêutica, após Schleiermacher, derivou, na esfera literária, para a estilística, a análise de marcas subjetivas e de desvios da norma linguística. Na busca de uma metodologia para as Geisteswissenschaften, Wilhelm Dilthey (1833-1911) encontrou na hermenêutica de Schleiermacher a saída para a historicização que considerava central a fim de interpretar as manifestações da vida humana. Rebelando- se contra a aplicação dos métodos das ciências naturais às huma- nas, também não aceitava partir de um fundamento metafísico, de modo que seu interesse estava em destacar a historicidade da existência humana. Para tanto, Dilthey usa uma fórmula triádica: experiência, expressão e compreensão. Distinguindo Erfahrung (experiência em geral) de Erlebnis (experiência individualizada), considera esta o “contato imediato com a vida”, anterior à separação sujeito-objeto. É, pois, a Erlebnis que sustenta — e dificulta, por sua inapreensibilidade — sua teoria da compreensão histórica. A expressão (Ausdruck), talvez melhor traduzida por objetificação da mente24, permitiria fugir à introspecção, garantindo o lado objetivo das ciências humanas. Finalmente a compreensão seria a captação 24 (Cf. PALMER 1986:118) 197196 Maria da Glória Bordini Capítulo 5 . Fenomenologia e Hermenêutica plena da experiência particularizada da vida, em que o sujeito se redescobre no outro, não se comparando a ele, mas transpondo-o para si. Como o homem não possui uma essência imutável, só pode autocompreender-se pelas objetificações da vida que o precedem, as quais lhe facultam o poder de decidir e mudar. Daí o conceito de sentido para Dilthey: “aquilo que a compreensão capta na interação essencial do todo e das partes”, ocorrendo no interior do chamado círculo hermenêutico entre história e indivíduo, visão de mundo (universal) e vivências (particulares). Para a literatura, as concepções de Dilthey tiveram longo al- cance. Como ele valorizava as artes como objetivação da mente, e as da linguagem como as mais capazes de manifestar a vida interior do homem em sua forma, a literatura constituiria um corpo de objetos fixos para exercer o potencial compreensivo das ciências humanas, o que lhe realçava o valor. Com isso, a interpretação da literatura é situada na esfera da autocompreensão histórica do homem, embora sendo encarada equivocadamente por ele como reconstrução do ato de criação do autor, nas águas de Schleiermacher. Os reflexos da teoria diltheyana da Weltanschauung se estenderam às sociologias literárias, como a de Lukács, sendo reconfigurados pelas correntes marxistas, mas sob o peso da determinação histórico-econômica da vida. Como são múltiplos os caminhos que a hermenêutica seguiu ao longo do século XX, desaguando nos desenvolvimentos mais recen- tes, pragmatistas, como em Rorty, em 198225, ou semioticistas, como no caso de Umberto Eco, em 199026, uma opção se faz imprescindí- vel entre os vários pensadores que se ocuparam do assunto. Faz-se a seguir uma seleção, obrigatoriamente redutora, entre duas grandes vertentes: a de língua alemã, salientando Hans-Georg Gadamer, e a 25 (Cf. s.d) 26 (Cf. ECO 1995) de língua francesa, com ênfase em Paul Ricoeur, ambas com forte repercussão sobre os estudos literários. 3.1 A hermenêutica de Heidegger a Gadamer e Jauss A hermenêutica tomou um impulso inteiramente novo na Alemanha, com o interesse de Heidegger de constituir uma on- tologia que atingisse o fundamento último do Ser. Valendo-seda apreensão pré-conceitual de Husserl, dedica-se não à perquirição da consciência transcendental, mas do Ser-aí, o Dasein, tal como aparece na sua historicidade e temporalidade. Para ele, a questão era a primordialidade do Ser situado, não a da consciência, como para Husserl. Dessa forma, sua fenomenologia não é metodologicamente tributária de Husserl, mas uma outra, que estaria na base do seu intento de fazer a hermenêutica do Dasein. Partindo da acepção grega de fenômeno como aquilo que se revela à luz, pensa a fenomenologia como o modo de deixar as coi- sas aparecerem como são — não por constituição da consciência — e sim pelo logos, a fala, pois a linguagem é que faz aparecer aquilo que ela diz. O pressuposto é que a realidade se mostra na palavra e a investigação do Ser, que o fenômeno deixa transparecer, pode ser efetivada pela compreensão da existência, uma vez que o Ser vai se manifestando enquanto se existe. Essa atitude leva a outra noção de hermenêutica: “o poder que torna possível a revelação do ser das coisas e em última instância das potencialidades do próprio ser do Dasein”27. Para Heidegger, a compreensão seria ontologicamente anterior aos atos existenciais. Consistiria na apreensão das possibi- lidades que se têm de ser na existência concreta de cada um, num projetar-se do aqui para o futuro, sob a consciência da finitude, não 27 (Cf. PALMER 1986:135) 199198 Maria da Glória Bordini Capítulo 5 . Fenomenologia e Hermenêutica de um ponto de vista metafísico, mas mergulhado no mundo. É importante acentuar que “mundo”, para Heidegger, é a totalidade em que o ser humano está imerso, é pessoal, sempre pre- sente e anterior a qualquer separação sujeito-objeto. Está junto com as coisas que o formam e é o fundo para a compreensão. Quando aquilo a que se está acostumado de repente rompe com sua costu- meira invisibilidade e se mostra: eis como se compreende o sentido de algo. Nele a temporalidade e historicidade do ser estão sempre presentes, é onde o ser se mostra como significação, compreensão e interpretação. Significação (Bedeutsamkeit) é o termo que Heidegger usa para nomear esse fundamento ontológico da compreensão. Está na base da linguagem, como uma totalidade que possibilita estabelecer sentidos, vem do mundo e permite ao homem a fala, o dizer como as coisas são. A interpretação seria apenas a explicitação desse como elas se dão, pela linguagem. Por essa razão, ele, no desenvolvimento posterior de sua obra, irá valorizar a linguagem como “morada do ser”. A interpretação, portanto, não pode ser exercida sem pressu- postos. O surgimento do objeto não pode ser entendido como au- toevidente, pois o que é apreensível sempre possui um contexto na existência e é pré-doado por esta. As consequências para os estudos literários foram, de certa forma, demolidoras. Se a compreensão e a interpretação precedem a relação sujeito-objeto, a atenção à his- toricidade e à linguagem avultam, assim como se torna necessário abandonar a noção de que a verdade do texto poderia ser alcança- da por uma análise imanente, pondo o mundo “entre parênteses”. Assim também seria preciso repensar a linguagem, pois ela tanto revela quanto oculta o ser. Ela o falseia quando se ocupa com a sua utilidade e não consigo mesma, em que a coisa se doa28. Por isso, 28 (Cf. HEIDEGGER 1985a) será a poesia, que se desinteressa do útil, a linguagem onde o ser se manifesta, como ele afirma em seu estudo sobre Holderlin29. Nessa perspectiva heideggeriana é que se constitui a obra fi- losófica de Hans-Georg Gadamer, de valor exponencial para a her- menêutica literária. Em Wahrheit und Methode (Verdade e método), ele tenta refletir sobre como é possível a compreensão na existência humana e como é compreensível a experiência da obra de arte em horizontes histórico-existenciais que lhe dão significação para além daquela intentada pelo autor ou pelo leitor. Como Heidegger, ele rejeita a visão tecnicista e racionalista da modernidade. Para Gadamer, a verdade não se atinge pelo método, uma vez que este a predetermina. Se o Ser se manifesta na historicidade e na linguagem, é a dialética, à maneira de Sócrates e não tanto de Hegel, que pode escutá-lo, pois pelo diálogo se acessa aquilo que já está pré-doado na totalidade que o Ser é. Assim como Heidegger, ele se preocupa com a arte, que sem- pre exige interpretação, e com a história, pelo problema da distân- cia temporal que medeia a interpretação. Seu ponto de partida é a negação de que a verdade preexista ao processo interpretativo. Não há como aceder a ela sem pressupostos. Todo o fenômeno hermenêutico se apoia em expectativas de sentido já pertencentes ao horizonte de aparecimento do objeto. Como em Heidegger, a interpretação não ocorre fora do espaço aberto pela compreensão. Ela atualiza as possibilidades de ser e as articula à totalidade do campo compreensivo, de modo a garantir a sua unidade. Nas pala- vras de Gadamer, “quem quer compreender um texto realiza sem- pre um projetar. Logo que aparece no texto um primeiro sentido, o intérprete projeta em seguida um sentido do todo. Naturalmente o sentido só se manifesta porque se lê o texto de determinadas 29 (Cf. HEIDEGGER 1985b) 201200 Maria da Glória Bordini Capítulo 5 . Fenomenologia e Hermenêutica expectativas relacionadas por sua vez a algum sentido determina- do”.30 O projeto interpretativo vai se reformulando à medida que o intérprete se aprofunda no sentido. Para Gadamer o diálogo é o que caracteriza a compreensão. Diz ele que só compreendemos o que compreendemos como resposta a uma pergunta [...] precisamos ter compreendido anteriormente uma questão, para que possamos dar uma resposta a ela ou para que possamos compreender algo como resposta a ela. [...] Pertence à dialética de pergunta e resposta, que toda pergunta seja ela mes- ma, em verdade, uma vez mais uma resposta que motiva uma nova pergunta. Assim, o processo do perguntar e do responder aponta para a estrutura fundamental da comunicação humana, para a constituição originária do diálogo. Essa estrutura é o fenô- meno central do compreender humano.31 Na obra de arte, a tendência já foi a de procurar um sentido fora dela, para o qual ela apontaria. Gadamer não aceita a ideia de representação (Vorstellung) e sim a de apresentação (Darstellung): para ele a obra diz, e o que diz se encontra nela mesma. Intenção autoral e representação metafórica do mundo não lhe são admis- síveis. Fenomenologicamente, ele vê a hermenêutica como uma relação intencional entre o horizonte do intérprete e o da obra. Há que perguntar para obter uma resposta (embora a resposta já esteja na questão formulada pela obra), pois o apresentado só se revela no movimento de sua apresentação. O que acontece é que algo significa no evento mesmo da significação, mas está contido na historicidade 30 (GADAMER 1984:333) 31 (GADAMER 2010:95) da tradição, numa cadeia de perguntas e respostas que circulam incessantemente, em que não há instâncias previamente dadas. Entre intérprete e obra trava-se um diálogo sem imposições de parte a parte. Estar em diálogo pressupõe estar aberto a ser transformado por ele, porque do contrário, se um dos dialogantes impõe o seu discurso, não há diálogo. Para Gadamer, o diálogo se dá numa fusão de horizontes. Cada dialogante possui um horizonte prévio, que se funde com o do outro no ato dialogal. Nessa fusão, cada participante se determina pelo modo como se funde ao outro, num jogo regrado, mas liberador. Diz Marco Antonio Casanova que diante da obra assumimos o próprio jogo que ela institui: Deixamo-nos guiar aqui incessantemente pela expectativa de sentido e pelo esboço de totalidade, de tal modo que acolhemos o aceno da arte para que perguntemos por seu significado. [...] É preciso seguir as orientações fornecidas pelo próprio horizonte de mostração da obra e escapar incessantemente da tendência de se lançar para fora desse horizonte.[...] Dar voz à arte não signi- fica outra coisa senão abrir novas possibilidades compreensivas que não põem fim ao jogo, mas o mobilizam cada vez mais.32 Segundo Gadamer, a hermenêutica da arte tem de se defrontar com o fato de que entre a obra e seu intérprete há uma “simultanei- dade absoluta que se mantém inconteste apesar da crescente lucidez da consciência histórica”33. Não se pode reduzir a obra ao momento em que surgiu, nem ao de sua leitura. É como se estivesse num pre- sente próprio, relacionada com sua origem e intenções de seu autor e de seu intérprete de modo peculiar. Esse modo relacional é o da 32 (In GADAMER 2010:XVI) 33 (GADAMER 2010:1) 203202 Maria da Glória Bordini Capítulo 5 . Fenomenologia e Hermenêutica tradição, não só constituída de textos, mas de instituições e modos de vida. A atualidade da obra seria sua abertura para integrar novos ho- rizontes, lançando-se além das fronteiras temporais. “A obra de arte diz algo a alguém, e isso não apenas como um documento histórico diz algo ao historiador — ela diz algo a cada um como se isso fosse dito expressamente a ele, enquanto algo atual e simultâneo”34. Diante dela, o intérprete é colhido pelo seu “encantamento”, a descoberta de algo encoberto, efetuada pelo modo como ela o diz, e compreende a si mesmo nesse encontro. Não se trata de uma questão de pensar ou ajuizar esse modo de dizer, mas deixar-se compreender por ele. 3.2 A teoria recepcional de Hans-Robert Jauss Quando Jauss, que estudara com Gadamer, verificou a inadequação da educação literária alemã para dar conta das questões sócio-his- tóricas e culturais de seu tempo, seja pela dominância em seu meio do New Criticism importado ou do antigo positivismo historicista, defrontou-se com o problema das relações entre passado e presente, já colocado por seu mestre como fusão de horizontes e dialética da pergunta e da resposta. Voltou-se para o formalismo russo e o marxismo, para equacionar imanência e transcendência, não na direção de Tynianov, que postulava a evolução das séries literárias sem relação com a história extraliterária, ou de Lukács, que via a obra como reflexo da consciência da humanidade35. Valendo-se do que aprendera com Gadamer, estabeleceu os fundamentos de sua Estética da Recepção. Se o fenômeno herme- nêutico abrange o mundo familiar do intérprete e o desconhecido da obra, o receptor não pode escapar de seus limites, preocupações e preconceitos, que são trazidos à compreensão do texto, resultando, 34 (GADAMER 2010:6) 35 (Cf. JAUSS 1993) por esse ato de integração, na compreensão de si mesmo. O intér- prete não se concentra no texto, mas dirige-se à questão posta por este, ao longo da experiência do texto. Assim, ele torna o texto exis- tencialmente atual para si, porque se ocupa das questões do mesmo, imbricadas nas suas próprias. Jauss utiliza a noção de horizonte de Gadamer como “horizon- te de expectativas”, incluindo neste reações, pressuposições, conhe- cimentos prévios, superstições, que o encontro com o texto tanto pode confirmar como negar. No último caso, estabelece-se entre texto e receptor uma distância, que Jauss chama de “distância estéti- ca”. Esta irá determinar a história literária: ou o público transforma seu horizonte, para aceitar a obra, ou esta permanece em estado de latência até que surja um horizonte para ela. A força da literatura estaria nessa função emancipatória da distância estética, de alte- ração dos horizontes de expectativa. Dessa forma, a historicidade dos textos seria preservada pela resposta dos públicos, rompendo a barreira entre arte e vida, entre o antigo e o novo, que o formalismo não conseguira ultrapassar. E o historiador da literatura poderia re- constituir os horizontes mutáveis das expectativas do público, para acompanhar as alterações de sentido que a obra sofre. Jauss expressamente reconhece sua dívida para com Gadamer, por seu princípio de ver no “impacto histórico o acesso a todo o entendimento histórico” e por esclarecer “o processo controlável da ‘fusão de horizontes’”, mas também assinala suas divergências: se há uma suposta “superioridade” e “liberdade” de origem do texto clássico, que resgataria o passado, como poderia essa posição ser conciliada com a concretização progressiva do sentido e como “a identidade de sentido” da pergunta original, que mediaria origem e presente, poderia relacionar-se com a “atitude produtiva da com- preensão na aplicação hermenêutica”36? Todavia, não se afasta de 36 (Cf. JAUSS 1984:XXXVI) 205204 Maria da Glória Bordini Capítulo 5 . Fenomenologia e Hermenêutica Gadamer quando este entende a hermenêutica como “a tarefa de interpretar a tensão entre o texto e o presente como um processo no qual o diálogo entre autor, leitor e novo autor lida com a distância temporal no ir e vir da questão e da resposta, da pergunta original, da interrogação atual e da nova solução, e concretiza o sentido de maneiras sempre diferentes e, portanto, mais ricas”37. Para Jauss, a obra de arte, ao fundir-se com o horizonte de ex- pectativas do leitor, afasta-o de sua familiaridade com as coisas e o provoca a olhar o mundo de outra perspectiva, que poderia afetar a sua praxis. A literatura não seria representativa, não absorveria as condições históricas ou sociais de sua origem, mas ofereceria mo- delos, padrões de atuação a que o leitor responderia. Envolvendo- se com o texto, o leitor reagiria às normas nele postas em ação e reconsideraria as suas. Esse efeito emancipatório dá-se por uma hermenêutica que abarca, como em Gadamer, três momentos: o da compreensão, o da interpretação e o da aplicação. A compreensão significa descobrir as perguntas a que o texto se constitui como resposta, acompanhando sua estruturação à medida que ele se desenvolve. A leitura inter- pretativa é retrospectiva: toma o que foi compreendido e retorna ao início; ou vai das partes para o todo, para esclarecer o que ficou obscuro ou em aberto. A leitura reconstrutiva é a que recupera a re- cepção que a obra teve e que foi conformando e transformando seu sentido ao longo do tempo. Esse é o momento em que o horizonte do leitor se encontra e dialoga com o horizonte da obra, podendo aceitar as normas que ela antecipa ou contesta. Daí chamar-se essa atividade de aplicação, a atitude decorrente de transladar os mode- los com que o leitor se identifica para a ação prática. O potencial de experiência vivencial da literatura residiria 37 (Cf. JAUSS 1984:XXXVI) nesse processo de identificação, que proporcionaria a cada indiví- duo a avaliação e a alteração das regras que organizam a sociedade. A obra, ao pôr determinadas normas em circulação, reforçaria ou não modelos vigentes, ou sugeriria outros. Não seria, entretanto, doutrinária, portadora de “mensagens”, mas atuaria através do modo como, na obra, os eventos, os gestos e atitudes e o sistema de ideias que os determinam entram num diálogo — que deve ser prazeroso — com o horizonte de expectativas de quem lê. Como enfatiza Jauss, “é só no nível reflexivo da experiência estética que, na medida em que conscientemente adota o papel de observador e também se compraz nele que alguém terá prazer estético e entende- rá com prazer as situações da vida real que reconhece ou que têm a ver consigo”38. É ao prazer operado pelo texto, portanto, que Jauss chama de experiência estética. Ela depende de uma fruição compreensiva, ou seja, de gostar de entender, e de uma compreensão fruidora, ou seja, de compreender o que se está gostando. Nesse sentido, tal experiên- cia se desdobra em três atividades coincidentes: a poiesis, a aisthesis e a katharsis. A primeira é o prazer do leitor ao fazer-se coautor da obra; a segunda é o efeito de renovação da percepção estimulado pela sua não familiaridade; a terceira seria uma reação afetiva que deslocaria crenças habituais e liberaria a mente para novas possibi- lidades, alterando a orientação das ações do indivíduo. A identificação como herói ou o tema, realizada no plano das emoções, permitiria ao leitor que experimentasse o texto num plano existencial. Haveria cinco modalidades de identificação prazerosa: a associativa, em que o leitor é desafiado a entrar no jogo da obra; a admirativa, em que o herói assume proporções ideais, tornan- do-se modelar; a simpatética, em que o leitor reconhece no herói 38 (Cf. JAUSS 1984:5) 207206 Maria da Glória Bordini Capítulo 5 . Fenomenologia e Hermenêutica um semelhante; a catártica, em que o leitor pode se separar de sua identificação e analisar o que lhe foi apresentado; e a irônica, em que a identificação esperada é proposta, para depois ser ironizada ou recusada, levando à reflexão. Embora a estética da recepção tenha recebido críticas, especial- mente por postular, na etapa da interpretação, uma espécie de leitor ideal, que teria habilidades de análise não encontráveis em qualquer indivíduo, elitizando a atitude compreensiva, a qual já seria suficien- te para fornecer a experiência existencial que a hermenêutica advo- ga, a teoria de Jauss teve o mérito de chamar a atenção sobre o polo até então pouco considerado, o da leitura e seus efeitos sociais. Além disso, ao retomar a dialética da pergunta e da resposta gadameriana para estabelecer a atualização do sentido nos horizontes de expecta- tiva históricos, deu uma resposta ao dilema do reflexo lukacsiano da sociedade na obra, incluindo origem, obra e intérprete num círculo hermenêutico de alta produtividade. 3.3 A interpretação segundo Ricoeur O filósofo Paul Ricoeur reúne tanto a tradição alemã da fenomeno- logia de Husserl quanto a hermenêutica de Heidegger, numa investi- gação voltada para a equivocidade dos textos e, fundamentalmente, para o campo do simbólico. Diz ele que a questão é como os seres humanos criam significações e por que na sua fala não há unidade. Na região em que o duplo sentido se instala, está o símbolo, quando “um outro sentido ao mesmo tempo se revela e se oculta num sen- tido imediato”39. Por isso, para ele, “a interpretação é a inteligência do duplo sentido”40. O campo hermenêutico seria o que vai além da perspectiva psicanalítica de que o “desejo frustra a palavra e fracassa 39 (RICOEUR 1977:18). 40 (RICOEUR 1977:18). em falar”41. Para Ricoeur, a hermenêutica teoriza as regras que pre- sidem a uma exegese. Portanto, “o símbolo é uma expressão linguís- tica de duplo sentido que requer uma interpretação; a interpretação é um trabalho de compreensão visando a decifrar os símbolos”42. Ele desenvolve sua argumentação a partir da anterioridade da hermenêutica em relação à fenomenologia. Convoca, em primeiro lugar, a exegese como aquela atividade que visa compreender um texto baseada no fundamento do que ele quer dizer. Dessa forma, ela implica uma teoria do signo e da significação, mas esta é muito mais complexa do que a puramente linguística, porque buscar o fundamento dos sentidos supõe abreviar uma distância temporal ou cultural e equilibrar leitor atual e texto estranho, incluindo, nesse processo, a autocompreensão historicamente situada desse leitor. Ricoeur adverte que, desde Aristóteles, em seu Da Interpretação (Peri hermeneias), a hermeneia abrange todos os discursos signi- ficantes, não apenas os que detêm um segundo ou mais sentidos, como os alegóricos ou mitológicos. O discurso mesmo é hermeneia, porque interpreta o real, diz algo sobre algo. Daí ser esse, no enten- der de Ricoeur, o princípio mais remoto a relacionar compreensão e interpretação: o discurso apreende o real por meio de expressões significativas e não por impressões provenientes dele. Todavia, a exegese não seria suficiente para fundar uma herme- nêutica geral, não fossem Schleiermacher e Dilthey, com suas filologia e ciências do espírito, que relocalizaram a questão da interpretação num quadro epistemológico, o qual, porém, não a podia conter, já que a interpretação pertence ao campo da compreensão, e compreender é transportar-se de uma vida que se exprime e assim se objetiva para outra vida, que capta essas significações e as compreende, superan- do sua situação histórica. Segundo Ricoeur, o problema estaria “na 41 (RICOEUR 1977:17). 42 (RICOEUR 1977:19). 209208 Maria da Glória Bordini Capítulo 5 . Fenomenologia e Hermenêutica relação entre a força e o sentido, entre a vida portadora de significação e o espírito capaz de encadeá-los numa sequência coerente”43. Sem a significação da vida, a compreensão não seria possível. É a fenomenologia, no seu entender, que poderá fundamentar a hermenêutica. Uma das maneiras de fazê-lo é pela ontologia da compreensão de Heidegger, em que o compreender não é um método de conhecer, mas um modo de ser. “O problema hermenêutico torna-se, assim, um domínio da analítica desse ser, o Dasein, que existe compreendendo”, afirma Ricoeur44. Para tanto, a pergunta deve ser dirigida não ao binônio sujeito-objeto, mas ao ser, esse Dasein que existe compreendendo. Nesses termos ontológicos, a fenomenologia do último Husserl efetua uma crítica ao objetivismo que havia na tentativa de Dilthey de construir um método para as ciências humanas e com isso abre caminho para uma ontologia da compreensão, pelo conceito de mundo-da-vida. Quando Husserl, no início de sua obra, reduzia o mundo, e, portanto, o ser, ao sentido do ser, como correlato da intencionalidade, estava fadado ao fracasso. Em sua última obra, ele admite um ser imerso no mundo, que o precede como campo de significações, que está antes do conhecimento e seu sujeito episte- mológico, que vive uma vida “anônima”. A historicidade vai desig- nar o modo como o existente “está com” os existentes em Heidegger: a potência da vida de transcender a si mesma estrutura o ser finito. A compreensão, o “estar com”, torna-se “um aspecto do ‘projeto’ do Dasein e de sua ‘abertura ao ser’”, como observa Ricoeur45. Essa seria uma forma de relacionar a fenomenologia à herme- nêutica. Entretanto, Ricoeur se propõe a explorar uma via diferente, pois vê na hermenêutica de Heidegger uma forma privilegiada de 43 (RICOEUR 1979:9) 44 (RICOEUR 1979:9) 45 (RICOEUR 1979:12) reeducação do olhar, subordinando o conhecimento histórico à compreensão ontológica, sem responder de que modo a compreen- são histórica deriva dessa compreensão originária. A resposta esta- ria em partir das formas derivadas da compreensão, para entender as marcas dessa derivação, e isso se daria investindo no plano da linguagem, por uma semântica das significações polissêmicas, ou seja, simbólicas. Seu intento é mostrar que compreender o sentido múltiplo das expressões equivale a um aspecto da compreensão de si. Trata-se de “um existente que descobre, pela exegese de sua vida, que é posto ao ser antes mesmo que se ponha ou se possua”46. Segundo ele, a exegese já tornara familiar a ideia de que um texto tem vários sentidos interrelacionados aos quais acede um outro sentido espiritual. O elemento comum em várias teorias mais modernas da interpretação, de Nietzsche a Freud, seria uma “arquitetura do sentido”, que mostra ocultando, ou seja, o campo da simbólica. Para ele, símbolo é “toda estrutura de significação em que um sentido direto, primário, literal, designa, por acréscimo, outro sentido indireto, secundário, figurado, que só pode ser apreendido através do primeiro”47. Seriam campo da hermenêutica os símbolos cósmicos, ligados à fenomenologia das religiões, como em Mircea Eliade, os oníricos, objeto da psicanálise de Freud, e as criações poéticas, conduzidas por imagens sensoriais. Em comum, teriam o lastro linguístico e por ele poderiam ser compreendidos. Uma hermenêutica como ele propõe investigaria as formas simbólicas e as estruturas simbólicas, para depois confrontar estilos de interpretação e criticar os sistemas teóricos que os informam, descortinando a variedade de métodos subordinada à estrutura das teorias. Assim, poderia inserir a fenomenologia husserliana, no que tem de menospolêmico, que é a teoria das expressões significantes 46 (RICOEUR 1979:14) 47 (RICOEUR 1979:15) 211210 Maria da Glória Bordini Capítulo 5 . Fenomenologia e Hermenêutica (descartando a exigência de univocidade de Husserl), na herme- nêutica. É dessa maneira que Ricoeur enfrenta o problema atual do desmembramento do falar humano. Ricoeur confessa que uma análise linguística que lidasse com as significações como um todo fechado acabaria por erigir a linguagem como um absoluto, o que negaria a natureza do signo de “valer por”. Por isso, a linguagem, como significação, tem de remontar à existên- cia. A análise semântica se integraria à ontologia pela reflexão, “o elo entre a compreensão dos signos e a compreensão de si”48. Se a inter- pretação é um modo de vencer uma distância ou estranhamento, o intérprete torna seu o que é outro e amplia a compreensão de si. Por isso a fenomenologia pode ligar-se à hermenêutica, com a condição de alterar a noção de Cogito de Husserl. A noção de consciência que se dobra sobre si mesma, conhecendo-se ao ser consciência de, precisa, nesse processo de reflexão, apropriar-se dos atos de sua existência, ou será um lugar vazio. O “eu” não pode saber de si senão nas expressões da vida que o tornam objetivo para si. O problema é que a consciência imediata pode ser falsa, como Nietzsche, Marx e Freud já provaram, e é necessário superar a má compreensão. Os meios para tanto estão na reflexão sobre, em primeiro lu- gar, a psicanálise, pois contesta a pretensão da consciência de ser a origem do sentido, mostrando seu enraizamento nas pulsões vitais. A existência a que a psicanálise dá acesso é a do desejo, a existência como desejo, que se manifesta por meio de uma arqueologia do sujeito. Outra hermenêutica, a da fenomenologia do espírito, trans- porta a origem do sentido não para o passado do sujeito, mas para seu futuro, do Deus que virá. Nela cada figura encontra seu senti- do não ao regredir ao arcaico, mas ao compreender-se por outra figura, num movimento que a leva para fora de si, para um sentido 48 (RICOEUR 1979:18) em marcha, como em Hegel. Uma outra hermenêutica estaria na fenomenologia das religiões, que, segundo Ricoeur, vai mais longe que a arqueologia psicanalítica ou a teleologia hegeliana, porque despossui o sujeito de uma arché ou de um telos de que possa dispor. Segundo Ricoeur, “o sagrado interpela o homem e, nessa interpela- ção, anuncia-se como aquilo que dispõe de sua existência, porque a põe absolutamente, como esforço e como desejo de ser”49. É assim que essas várias hermenêuticas se enraízam na ontologia da compreensão. Cada uma revela que o si depende da existência. É nesse sentido que se poderiam articular essas diversas funções existenciais numa unidade, reconhecendo a dialética dessas hermenêuticas e o conflito das interpretações no campo da simbó- lica. Para Ricoeur, somente os símbolos “são portadores de todos os vetores, regressivos e prospectivos, que as diversas hermenêuticas dissociam”. É por essa razão que ele sustenta “que a existência de que pode falar uma filosofia hermenêutica permanece sempre uma existência interpretada”50. 4. Estudos literários, fenomenologia e hermenêutica O consórcio entre fenomenologia husserliana e hermenêutica heideg- geriana, seja na visada de Gadamer ou na de Ricoeur, traduz-se para os estudos literários numa série de posições relacionadas com a história, o autor, a obra e o leitor, bem como com o tecido conjuntivo que une esses temas, a linguagem. A literatura, desse ponto de vista, não pode ser considerada em si mesma, como se suas significações fossem en- gendradas pelo sistema da língua e não houvesse um sujeito histórico que o acionasse, seja ele o autor ou o leitor. Derivam desse posiciona- mento outras questões a afetarem as modalidades de conhecimento e 49 (RICOEUR 1979:23) 50 (RICOEUR 1979:24) 213212 Maria da Glória Bordini Capítulo 5 . Fenomenologia e Hermenêutica de fruição do texto literário. Sem a moldura do “mundo”, na acepção de Heidegger, o Ser-aí não se mostra e não há compreensão. Assim igualmente sem a tradição, nos termos de Gadamer, não é possível entender o diálogo presente-passado que a obra e o autor/leitor tra- vam. Isso significa que conhecer a literatura ou usufruí-la ocorrem sempre de forma situada no tempo e espaço, na história, na sociedade e na cultura. A pretensão de ler sem referências cai por terra, o que predetermina uma educação da sensibilidade, com reflexos sobre a epistemologia literária e sobre o ensino de literatura. Por outro lado, se o que importa é a interpretação dos senti- dos dos textos, num plano pessoal e existencial, isso implica num exercício constante de reflexão sobre a consciência de si que atua no horizonte compreensivo da existência. Tal reflexividade, entre- tanto, não pode incidir na falsa consciência, como sugere Ricoeur, essa consciência que acredita ser a origem do sentido, quando é sabido que há fatores como o desejo, a economia, a dominação, que desviam as expressões da vida vivida de si mesmas, lançando-as na ilusão. Para a literatura, a tarefa é desvendar o Ser na linguagem, renunciando à utilidade e, pelo trabalho da forma, deixando-o mostrar-se. Não quer dizer que o texto literário não seja interessa- do — é que seus interesses não podem ser transparentes, também devem mostrar-se. Daí a pertinência da tarefa de desconstrução empreendida por Derrida, ao evidenciar a impermanência e indecidibilidade dos sentidos, seu deslocamento, dentro do pensamento diferencial característico do estruturalismo saussureano. Desconstruir uma oposição é demonstrar que ela não é natural, e, sim, uma constru- ção, produzida por discursos que nela se apoiam. Sua desconstrução não significa destruí-la, porque, afinal, o sentido se institui pela oposição, mas dar-lhe uma estrutura e funcionamento diferentes. Num texto, permite separar as forças significativas em conflito nele, que o estruturam, mas cujo sentido não pode ser contido nos seus limites. É o que ele faz com Husserl e Heidegger, ao desconstruir o que chama de metafísica da presença em ambos, quando apenas pela não presença é que a presença pode vir a ser51. A exigência de inscrever a literatura, seus fenômenos e inter- pretações num horizonte existencial, que se pode fazer retroceder a Husserl e Heidegger, surtiu efeitos profundos na consideração histó- rica do objeto literário, não mais visto como resultado para sempre fixo de intenções autorais ou de influências do meio, recuperáveis pela busca da origem. Admitindo-se a história como séries paralelas de eventos descontínuos, cuja causalidade é obra do observador, uma reorganização da historiografia se fez necessária, obrigando a repensar noções como períodos e a recortar pontualmente os momentos a serem pesquisados, levando em conta a flutuabilidade da própria obra como estrutura em constante reestruturação na sua imersão na vida. Outra consequência das revisões da fenomenologia e da her- menêutica é encontrável no tratamento dos símbolos, elemento cha- ve do texto literário e de suas interpretações. Deixando de ser enca- rado como imbuído de um sentido metafísico, que lhe conferiria seu caráter multívoco e enigmático, passou a ser estudado nos planos em que se constitui na existência humana, com os instrumentos da psicanálise, da antropologia, da fenomenologia das religiões, da história cultural, o que levou à explicitação das premissas que go- vernam sua decifração e sua radicação em situações humanamente determinadas. A virada das investigações formais para as de conteúdo, como ocorrem no prestígio recente dos Estudos Culturais e Pós-Coloniais 51 (Cf. DERRIDA 1972) 215214 Maria da Glória Bordini Capítulo 5 . Fenomenologia e Hermenêutica na elucidação da literatura, igualmente deriva da revalorização do sentido situacional, a partir das hermenêuticas existenciais. Quando o imanentismo dos estruturalismos foi desautorizado pelos pós-es-truturalistas, e o redencionismo das sociologias marxistas foi revisto no quadro da derrocada dos regimes de força socialistas, a cultura se transformou no alicerce para o enfoque social das literaturas, reivindicado pelas novas esquerdas, desde a Escola de Frankfurt até a de Birmingham, atingindo mais tarde os estudos das relações pós-coloniais num mundo globalizado. Nas teorizações de um Homi K. Bhabha52, por exemplo, o substrato hermenêutico aparece no conceito de tradução, central para o entendimento de como operam as negociações e o hibridismo em culturas colonizadas após sua independência. Por fim, tanto a fenomenologia e a hermenêutica vieram valo- rizar o trabalho poético, como meio de revelação do Ser, pela aten- ção sobre a palavra e seus poderes de nomeação original do mundo. Análises de poesia hoje não se ocupam com a medida do verso ou a classificação da figura, desvinculadas dos seus efeitos semânticos e pragmáticos. Requerem um olhar demorado sobre o leito linguís- tico em que o sentido repousa, a ser despertado por um intérprete que o faz seu porque é capaz, não de dominá-lo, mas de escutá-lo e com ele dialogar. No ato dialogal, como acentua Gadamer, está a chave para a compreensão e interpretação da literatura, nas diversas modalidades à disposição dos que a estudam e usufruem. Referências BARTHES, Roland. 1987. O prazer do texto. São Paulo: Perspectiva. BHABHA, Homi K. 2010. O local da cultura. Belo Horizonte: EdUFMG. Cap. 11. 52 (Cf. BHABHA 2010) BORDINI, Maria da Glória. 1990. Fenomenologia e teoria literária. São Paulo: EdUSP. CASANOVA, Marco Antonio. 2010. Apresentação à edição brasileira. In: GADAMER, Hans-Georg. Hermenêutica da obra de arte. Seleção e tradução de Marco Antonio Casanova. São Paulo: WMF Martins Fontes. DERRIDA, Jacques. 1982. 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Teoria da literatura. Lisboa: Europa- América. A Nova Crítica José de Paiva dos Santos Universidade Federal de Minas Gerais Capítulo 6 Origens e desenvolvimento da Nova Crítica A Nova Crítica foi o movimento que se destacou nos meios acadê- micos norte-americanos, com início na década de vinte do século passado, liderado em grande parte por um grupo de professores universitários, na maioria poetas, que viam os modelos de crítica literária então em vigor como superficiais e inadequados para uma real compreensão do potencial semântico do objeto literário. O que eles tinham em mente era principalmente a crítica genética e impressionista muito praticada nos meios acadêmicos e dissemi- nada em periódicos especializados. A primeira colocava ênfase na investigação das origens da obra literária, sua historiografia, filo- logia e o papel do autor como fonte de autoridade na constituição do significado do texto; a segunda se voltava para as experiências subjetivas do leitor ou crítico durante o processo interpretativo. As duas abordagens eram falaciosas, afirmavam os novos críticos, pois em ambos os casos, “o poema em si, como objeto específico de julgamento crítico, tende a desaparecer”1. Desta forma, o objetivo da Nova Crítica era trazer para o campo dos estudos literários mé- todos e práticas que valorizassem o que eles acreditavam ser o real objeto de investigação literária, qual seja, o texto, e não elementos 1 (WIMSATT, JR.; BEARDSLEY 1949:31). “…the poem itself, as an object of specifi- cally critical judgment, tends to disappear.” 221220 José de Paiva dos Santos Capítulo 6 . A Nova Crítica extrínsecos como biografia, história, influências e efeitos sobre o lei- tor. Para os novos críticos, a intenção do autor e as implicações so- ciais da obra não tinham absolutamente relevância alguma durante o exercício crítico, o qual deveria se concentrar no texto literário em si, objeto a ser dissecado e investigado para então poder ser devi- damente compreendido. A implementação de técnicas formalistas de análise textual se tornaria, assim, o carro-chefe do movimento, com destaque acentuado na leitura cerrada (close reading) do texto literário, análise minuciosa de figuras de linguagem, tensões, para- doxos, figuras retóricas e diferentes níveis de significado. O crítico estadunidense Vincent B. Leitch delineia três fases no desenvolvimento da Nova Crítica, o qual vai desde as primei- ras manifestações na década de vinte até o seu gradual declínio no final da década de cinquenta. A primeira fase segundo Leitch seria o esboço dos princípios formalistas que regeriam e popularizariam o movimento em décadas posteriores. Nesta fase, destacam-se a contribuição de T. S. Eliot, I. A. Richards e William Empson, na Inglaterra, e John Crowe Ransom e Allen Tate nos Estados Unidos. Dotados de um alto conservadorismo em relação às artes, estes críticos viam com ceticismo os avanços da ciência, a qual segundo eles só trazia desarmonia e um falso senso de progresso humano. A literatura, mais propriamente a poesia, poderia resgatar valores e princípios em fase de extinção devido à confiança exacerbadano discurso científico. A segunda fase consistiria na populariza- ção do movimento com a adesão de um número considerável de críticos, entre eles figuras que produziriam obras complexas com o intuito de teorizar e fundamentar os princípios do movimento: René Welleck, Austin Warren, W. K. Wimsatt, Murray Krieger e Cleanth Brooks. Foi durante a década de quarenta que o movi- mento se solidificou e se estabeleceu em departamentos de estudos literários em universidades pelos Estados Unidos, com publicação de livros-textos e mudanças em currículos escolares. Vários perió- dicos especializados surgiram durante este período: The Criterion (1922-39), Scrutiny (1932-53), na Inglaterra, e o Southern Review, Kenyon Review e Sewanee Review nos Estados Unidos. O terceiro estágio, Leitch conclui, seria a fase de perda do impacto dos anos anteriores, devido principalmente ao ataque de diversas frentes, entre elas, críticos de tendências Marxistas na década de quarenta e cinquenta. Para os oponentes ao movimento, a tentativa de evitar o relativismo a todo o custo havia levado os novos críticos a aderirem a princípios positivistas e científicos que transformavam o texto em um mero artefato, uma estrutura a ser examinada a distância com base em um conjunto de normas específicas. A forte oposição, fato que levou muitos novos críticos inclusive a revisarem algumas de suas posições, fez, por outro lado, com que surgissem obras com teorizações detalhadas acerca do movimento. Theory of Literature (1949), por René Wellek e Austin, The Verbal Icon (1954), por W. K. Wimsatt e The New Apologists for Poetry (1956), por Murray Krieger, estão entre as obras que buscavam solidificar os ideais no movimento no cenário acadêmico2. Portanto, o que se percebe nesta trajetória da Nova Crítica é uma acentuada preocupação por parte de seus proponentes em revolucionar as práticas vigentes de interpretação literária por meio da implementação de mecanismos práticos de leitura, objetivando formar leitores e críticos capazes de entender as complexidades da linguagem literária e saber distinguir o texto verdadeiramente lite- rário do banal e corriqueiro. Understanding Poetry, publicado pela primeira vez em 1938 por Cleanth Brooks e Robert P. Warren tinha esta função, qual seja, treinar estudantes universitários a serem 2 (LEITCH 1988:24-25) 223222 José de Paiva dos Santos Capítulo 6 . A Nova Crítica leitores mais eficientes. O livro acabou ganhando popularidade e foi adotado por um grande número de universidades, chegando a quatro edições. Seu parceiro, Understanding Fiction também obteve sucesso semelhante. O que se pretendia era estabelecer uma meto- dologia capaz de ser aplicada ao texto literário em qualquer tempo e lugar, que transcendesse fronteiras culturais, históricas e de gênero. Com o advento de teorias pós-estruturalistas na década de sessenta e o multiculturalismo nas décadas posteriores, a Nova Crítica perdeu seu espaço, tornando-se apenas objeto de interesse histórico dentro da história da crítica literária ocidental. Porém, como já observado por vários historiadores, a perda do espaço não significa que sua influência tenha desaparecido por completo. Na verdade, afirmam alguns, muitas das práticas estabelecidas pelos novos críticos como leitura cerrada do texto, ênfase em evidência textual e unidade te- mática se enraizaram no cenário acadêmico de tal forma que nem se percebe que são “um legado de um movimento em particular. Pelo contrário: [parece] serem as condições definitivas e naturais da crítica em geral”3. Qualquer estudante de literatura ou crítico, independente de sua persuasão ideológica, sabe que o que se espera de suas análises são mais do que ruminações impressionistas sem base no texto em questão. É neste sentido, portanto, como observa Lois Tyson, que “a Nova Crítica é ainda uma real presença entre nós e provavelmente permanecerá assim por um bom tempo”4. Torna- se, assim, importante conhecer em mais detalhes este movimento que revolucionou a crítica na primeira metade do século passado e que abriu caminho para práticas acadêmicas e docentes que trans- formariam o cenário crítico-literário para sempre. 3 (CAIN 1984:105). “...a legacy of a particular movement. On the contrary: we feel them to be the natural and definitive condition of criticism in general”. 4 (TYSON 2006:135). “New Criticism is still a real presence among us and probably will remain so for some time.” Princípios e Programas da Nova Crítica Uma das preocupações fundamentais dos novos críticos era a deli- mitação de seu campo de estudo e a definição do que seria o real ob- jeto de investigação do crítico. Como já mencionado, a Nova Crítica via como irrelevantes elementos relacionados à vida do autor ou au- tora e as circunstâncias que deram origem ao texto literário. Taxado de falácia intencional, este mecanismo de interpretação e avaliação da obra funcionava bem no campo da história da literatura, mas não num exercício aprofundado para a busca do significado do texto. Da mesma forma, os efeitos sobre o leitor não deveriam ser levados em consideração, pois como poderia o crítico isolar algo tão particular como a reação de um indivíduo ao entrar em contato com uma pro- dução literária? Assim, se o objetivo do crítico deveria ser o texto e não elementos extrínsecos, o que definiria então o objeto de estudo do crítico? Em outras palavras, como se distinguiria a obra literária de outros enunciados escritos? Influenciados principalmente pelas teorias do poeta inglês Samuel T. Coleridge em Biografia Literaria (1817), os novos críticos viam o princípio da unidade orgânica como elemento primordial na caracterização do texto literário. Segundo Coleridge, a obra literária, a qual para ele se resumia na poesia, se distinguia de outros discur- sos por proporcionar deleite através da relação harmoniosa entre um todo e suas partes componentes: “Porém se a definição procu- rada é de um poema legítimo, respondo que deve ser um no qual as partes mutuamente apoiam e explicam umas às outras; e todas em suas proporções harmonizando com e dando suporte ao propósito e influências do arranjo métrico”5. Coleridge sugere que o poema 5 (COLERIDGE 1993:390). “But if the definition sought for be that of a legitimate poem, I answer it must be one the parts of which mutually support and explain each other; all in their proportion harmonizing with, and supporting the purpose and known influences of metrical arrangement”. 225224 José de Paiva dos Santos Capítulo 6 . A Nova Crítica é uma entidade na qual o prazer estético é produto da combinação precisa entre elementos linguísticos, retóricos e semânticos. Assim, o enunciado literário, em especial o poema, ao combinar poder e beleza, assemelha-se a um organismo vivo, “no qual cada parte é ao mesmo tempo o fim e o meio”6. Foi com esta visão coleridgiana em mente que os novos crí- ticos delinearam uma definição da obra literária como sendo uma entidade hermética, autossuficiente e atemporal. René Wellek, por exemplo, em “The Mode of Existence of the Literary Work of Art” (1942), explica que o poema nada mais é que “um sistema de nor- mas” e não “uma experiência individual ou soma de experiências”7. Embora conceda em alguns momentos que o poema pode se reali- zar parcialmente na experiência do leitor, já que os efeitos sonoros só são percebidos quanto entoados por um falante, ontologicamente falando, ele é um sistema fechado, constituído de regras próprias que transcendem qualquer imposição extrínseca. Na verdade, e no- vamente se baseando na Biografia Literária (1817), os novos críticos viam a unidade orgânica do texto literário, além de inerente, como também dotada, conforme Coleridge, de uma força centrífuga: “A forma orgânica, por outro lado, é inata; toma forma ao se desenvol- ver de dentro para fora, e a plenitude de seu desenvolvimento é um e idêntica com a perfeição de sua forma externa”8. Esta metáforaor- gânica ganha contornos novos em elaborações subsequentes, como as de Wimsatt e Beardsley, que comparam o poema a um pudim 6 (COLERIDGE 1993:397). “…so that each part is at once end and means!” 7 (WELLEK 1987:79). “A poem, we have to conclude, is not an individual experi- ence or a sum of experiences, but only a potential cause of experiences…. Thus, the poem must be conceived as a system of norms, realized only partially in the actual experience of its many readers”. 8 (COLERIDGE 1993:397-398). “The organic form, on the other hand, is innate; it shapes as it develops itself from within, and the fullness of its development is one and the same with the perfection of its outward form.” ou uma máquina, no sentido de que todos os elementos precisam funcionar para que resultado certo seja obtido. “Julgar um poema é como julgar um pudim ou uma máquina”, observam os Wimsatt e Beardsley; “Exige-se que funcione... O sucesso da poesia reside na relevância de tudo ou quase tudo que é dito; o que é irrelevante foi excluído, como os caroços do pudim ou os ‘bugs’ da máquina”9. O poema ideal é uma entidade constituída de relações complexas res- ponsáveis pela constituição semântica do texto. Qualquer elemento destoante deve ser desconsiderado. A tarefa do crítico se resume, portanto, em compreender, através da análise minuciosa do poema, a complexidade desta unidade orgânica com suas tensões e incon- sistências, paradoxos e ambiguidades, metáforas e metonímias, bem como o papel destas figuras em relação ao significado da obra. Todos estes elementos deveriam estar em harmonia, fato que transformava o poema em um ícone verbal, “um complexo espacial de significado no qual todas as palavras e implicações tinham relevância”10. Ao ser concebido como unidade orgânica e ícone verbal, os novos críticos se voltaram então para teorizações em torno da esfera semântica do poema. Se o objetivo era evitar relativismos em rela- ção ao real significado do texto, onde, como e ao que exatamente deveriam leitores e críticos atentar? Afinal, o que os novos críticos hermeneuticamente concebiam como significado? Wellek, ao ex- plicar a constituição do poema, argumenta que a unidade orgânica deste deve ser entendida não apenas como um sistema de normas, mas sim como “um sistema constituído de vários estratos, cada um contendo seu próprio grupo subordinado”. Assim, continua Wellek, 9 (WIMSATT, JR.; BEARDSLEY 1946:469). “Judging a poem is like judging a pud- ding or a machine. One demands that it works… Poetry succeeds because all or most of what is said or implied is relevant; what is irrelevant has been excluded, like lumps from pudding and ‘bugs’ from machinery”. 10 (LEITCH 1988:29). “...a spatial complex of meaning where all words and implica- tions became relevant”. 227226 José de Paiva dos Santos Capítulo 6 . A Nova Crítica “há um sistema de normas contido na estrutura sonora de uma obra de arte literária e esta, por sua vez, contém unidades de significado baseadas em disposições de sentenças, e estas unidades, por sua vez, constroem um mundo de objetos ao qual o significado se refere”11. Ele faz uso em seguida dos conceitos linguísticos langue e parole, difundidos pela Escola de Genebra e Círculo Linguístico de Praga, para explicar que o poema, como um sistema de linguagem — lan- gue — funciona como uma coleção de normas e convenções que se realiza em instâncias textuais — parole —, mesmo que de forma incompleta. É com base nesta dicotomia que Wellek introduz o conceito de “estrutura de determinação”, que para ele “é o que faz o ato de cognição não um ato de invenção arbitrária de distinções subjetivas, mas o reconhecimento de algumas normas impostas a nós pela realidade”12. O que estas observações sugerem é uma con- cepção do significado partindo do poema durante o ato de leitura e não o contrário. Isto é, o significado é inerente à estrutura da obra literária e o seu desvendamento resulta do exercício criterioso por parte do leitor. Como fonemas que se combinam para formar pala- vras, as quais por sua vez se concertam na produção de enunciados de acordo com as normas sintáticas e gramaticais de uma língua, os poemas genuínos, ao relacionarem elementos linguísticos, retóricos, semânticos e filosóficos, entre outros possíveis, têm uma gramática própria e geram seus próprios significados. É neste sentido que Cleanth Brooks em The Well Wrought Urn, uma das obras centrais 11 (WELLEK 1942:80). “...a system which is made up of several strata, each im- plying its own subordinate group. There is a system of norms implied in the sound-structure of a literary work of art and this, in turn, implies units of meaning based on the sentence patterns, and these units in their turn construct a world of objects to which the meaning refers”. 12 (WELLEK 1942:80). “...which makes the act of cognition not an act of arbitrary invention of subjective distinctions, but the recognition of some norms imposed on us by reality”. da Nova Crítica, compara a estrutura essencial de um poema com a arquitetura, pintura, ou, para dar conta do aspecto temporal do poema, a um balé ou composição musical: “É um jogo de resoluções e equilíbrios e harmonizações desenvolvidas por meio de um esque- ma temporal”13. Portanto, para os novos críticos, o significado era um elemento subordinado à estrutura do poema, o qual, para ser exposto, devia ser examinado sem se recorrer à crítica genética ou impressionista. O valor de um poema estava na estrutura e na capacidade deste de gerar significado. Assim, a atividade crítica devia se deter à análise e avaliação desta “estrutura de determinação”, com toda sua complexi- dade linguística e riqueza semântica. Por esta razão, exercícios como a paráfrase eram vistos como anátema, pois destruíam a essência do poema. Em “A heresia da paráfrase”, um dos capítulos de The Well Wrought Urn, Cleanth Brooks ressalta este ponto. Brooks observa: Se nos deixarmos enganar pela [paráfrase], distorcemos a relação do poema com sua “verdade”, levantamos a questão da crença em uma forma corrupta e mutilada, dividimos o poema entre “forma” e “conteúdo” — fazemos com que a declaração seja comunicada por meio da uma competição irreal com a ciência, filosofia ou teologia.14 O significado, por mais escorregadio que fosse, constituía- -se uma entidade atrelada à estrutura, e qualquer exercício que 13 (BROOKS 1947:203). “It is a pattern of resolutions and balances and harmoniza- tions, developed through a temporal scheme”. 14 (BROOKS 1947:164). “If we allow ourselves to be misled by the [the paraphrase], we distort the relation of the poem to its ‘truth’, we raise the problem of belief in a vicious and crippling form, we split the poem between its ‘form’ and its ‘content’ — we bring the statement to conveyed into an unreal competition with science or philosophy or theology”. 229228 José de Paiva dos Santos Capítulo 6 . A Nova Crítica comprometesse esta relação destruiria a essência do poema. A habi- lidade crítica consistia em dissecar as diversas camadas semânticas do poema sem reduzir o significado ao banal e temporal. Assim, munidos dessa visão do poema como uma entidade autossuficiente e da linguagem como veículo de um significado transcendental, os novos críticos abraçaram a missão pedagógica de formar profissionais da interpretação literária, tarefa até então nor- malmente executada por ensaístas de periódicos e resenhistas. Para eles, havia um abismo separando leitores amadores dos treinados a descobrir as complexidades semânticas dos poemas. Neste sentido, John Crowe Ransom observa em “Criticism, Inc.” (1937): “Ao invés da crítica ocasional feita por amadores, eu acredito que o projeto como um todo deve ser seriamente executado por profissionais. Talvez o termo que vou usar seja de mau gosto, mas penso que o que necessitamos é Crítica, Inc., ou Crítica, Ltda.”15. Ramson reforça esta observação maistemporânea. Porém, esta obra vai bem mais além de uma mera enumeração histórica das diferentes e mais relevantes formas de abordagem literária das últimas décadas. Trata, de maneira abran- gente, dos aspectos mais expressivos da teoria e crítica literárias que atualmente ocupam o primeiro plano nas atividades de pesquisa acadêmica ou que estão sendo discutidos e problematizados nos círculos literários nos Estados Unidos, na Europa e principalmente no Brasil. Como já frisamos, o tema principal do livro é a teoria literária, porém abordada e problematizada do ponto de vista espe- cífico brasileiro, levando em conta, sobretudo, a maneira como, em suas raízes e desenvolvimentos, foi recebida e adaptada em territó- rio nacional. Com o intuito de proporcionar uma visão ao mesmo tempo panorâmica e circunstanciada, este livro reúne artigos sobre as vá- rias vertentes da teoria e crítica literárias dos nossos dias. Serve, por um lado, como uma apresentação do espectro teórico contempo- râneo — mesmo que de nível relativamente avançado, direcionada aos alunos de pós-graduação brasileiros — e, por outro, como uma reflexão mais detalhada e profunda dos principais temas abordados e problematizados por cada uma dessas formas de pensamento e perspectivas teóricas. A presente coletânea é, também, resultado do programa de cooperação internacional entre a Southern Illinois University Edwardsville e a Universidade Federal de Pernambuco, estabelecido pelo organizador deste livro e que está em funcionamento desde abril de 2012. Com a merecida e oportuna ascensão do Brasil no ce- nário mundial nos últimos anos, essa instituição norte-americana, onde até recentemente eu lecionava (desde agosto de 2014 aceitei o posto como Decano da Escola de Artes & Humanidades na State University of New York College at Oneonta), tem se empenhado em estabelecer laços e programas de intercâmbio com universidades brasileiras. Esta obra é, portanto, uma confirmação desse empe- nho e, também, esperamos, um prenúncio alvissareiro de outros possíveis projetos num futuro próximo entre instituições de ensino superior americanas e brasileiras. O livro é dividido em três partes. A primeira parte consiste de reflexões abrangentes sobre a literatura e a teoria literária, como é o caso dos três primeiros capítulos da coletânea: “O que é e o que não é literatura?”, de Anco Márcio Tenório Vieira; “A teoria literária: desprestigiada e imprescindível”, de Lourival Holanda; e “Crítica literária: seu percurso e seu papel na atualidade”, de Roberto Acízelo de Souza. A segunda parte do livro, a mais ampla e substancial da obra, examina mais detidamente as perspectivas críticas que delinearam e deram forma à teoria literária contemporânea. Esta parte contém 14 capítulos e fornece uma visão ao mesmo tempo global e detalhada, que abrange desde os mais expressivos desdobramentos literários do final do século XVIII — afinal de contas, somos filhos e filhas intelectuais do Romantismo de Jena (“Jenaer Romantik”) e de suas figuras exponenciais: Schlegel, Schelling, Novalis — às formas de pensamento mais relevantes da atualidade, tais como a desconstru- ção de Jacques Derrida. Aqui alcançamos uma reflexão ponderável a respeito dos fundamentos estéticos, filosóficos e históricos que subjazem os diversos veios em que se ramifica a teoria literária na contemporaneidade. 2928 A terceira parte do livro consta do capítulo “Futuros (im)possí- veis da (in)disciplina teoria da literatura”, de André Monteiro, onde o colega da Universidade Federal de Juiz de Fora discute o futuro da teoria literária, principalmente no contexto da academia brasileira. A questão do futuro da teoria literária também é abordada por Roberto Acízelo de Souza no terceiro capítulo deste livro, no qual o crítico da Universidade do Estado do Rio de Janeiro assinala que: “Numa época como a nossa, que levou a desarticulação de valores — e não só artísticos, naturalmente — a extremos sem preceden- tes, talvez nunca se tenha precisado tanto de crítica. Não, é claro, da crítica como sensacionalização de banalidades, conforme se vê nas manifestações desinibidas do jornalismo cultural. Tampouco de uma crítica acadêmica dada à absolutização dos seus axio- mas, segundo os desvios verificados no âmbito dos dois grandes modernos sistemas de conceitos sobre a literatura e seu estudo, a crítica literária e a teoria da literatura. Menos ainda — por sua tática de substituir a reflexão por um apelo fácil ao sentimento de repúdio às injustiças — de uma crítica culturalista, dada ao contrassenso de pregar o absolutismo ético e praticar o relativis- mo estético, no seu afã programático de revisar ou desconstruir o cânone. Em vez disso, precisamos de uma crítica fundamentada numa teoria consistente, prevenida contra a transformação de dados em axiomas, e que seja capaz de integrar compromisso com o presente e reflexão do passado. Quanto ao futuro, a Deus pertence.” André Monteiro oferece uma visão ligeiramente diferenciada, porém, ao mesmo tempo, complementária à postura de Roberto Acízelo no que diz respeito aos possíveis futuros da teoria literária no Brasil. O colega de Juiz de Fora argumenta que: “Não se trata de falar do futuro, mas de deixar falar um futuro. Deixar um futuro ser. Criar dispositivos, não para prendê-lo, prevê-lo em seus possíveis já pensados. De outro modo, entregar um futuro à graça e ao mistério de seu próprio futurar. [...] Os futuros (im)possíveis e (in)disciplinados das literaturas e da teorias da literatura serão sempre os mais contemporâneos de uma época. Os mais contemporâneos de uma época são justa- mente os mais extemporâneos de toda e qualquer época. Não porque fogem à época, mas porque dela incorporam e assumem o que qualquer “retrato de época”, ou pensável “estilo de época”, seria incapaz de revelar. [...] É preciso aprender a fazer com que os futuros (im)possíveis do viver não se envergonhem em nós, não desistam de nós, não morram em nós. Ou, ainda, nos façam sucumbir de vez, virar farrapo, virar molécula diante da enorme onda de sua grandeza. A vida nos exige uma (in)disciplina de guerra. Não a guerra do ressentimento, mas a guerra do esquecimento. Não adianta brigar com a vida. É preciso ir com ela e esquecê-la. Esquecer para lembrar o que ainda não é. Esquecer como a criança que surfa esquece o caldo da última onda para pegar uma onda nova. Esquecer para não esquecer, como não esquecia Nietzsche, do lema de Píndaro que ele tanto amava: “torna-te aquilo que és”. E o que és, o que é, o que somos senão o próprio “tornar”? Ou melhor: um próprio e sempre único tornar-se povoado pelo eterno tornar-se da vida. O que distingue uma disciplina forte de outra disciplina forte (assim como uma pessoa de outra pessoa, uma música de outra música, uma teoria de outra teoria, uma literatura de outra literatura...) é a singularidade de seu próprio e necessário tornar-se...” 3130 Além dos colaboradores acima citados, o nosso projeto teve a honra de contar com a participação de professores e críticos literários de projeção significativa no ambiente acadêmico brasileiro e interna- cional. Esses colaboradores contribuíram com os seguintes capítu- los: “Reflexividade, Romantismo e Modernismo” e “A literatura e o pensar: notas sobre a trajetória intelectual de Jonathan Culler” (Sueli Cavendish, Universidade Federal de Pernambuco); “Fenomenologia e Hermenêutica: impactos sobre os estudos literários” (Maria da Glória Bordini, Universidade Federal do Rio Grande do Sul); “A Nova Crítica” (José de Paiva dos Santos, Universidade Federal de Minas Gerais); “Estruturalismo e Semiótica” (Regina Lúcia de Faria, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro); “Literatura e psica- nálise: confrontos” (Adélia Bezerra de Meneses, Universidade de São Paulo/Universidade Estadual de Campinas); “Estética da Recepção e do Efeito ou há um leitor no horizonte?” (Carmenadiante ao colocar os professores universitários de inglês no centro deste projeto pedagógico, transformando assim a universidade ou sala de aula em uma espécie de laboratório e os professores em um grupo de elite. Ele acrescenta: É a partir dos professores universitários de literatura, neste país professores de inglês na maioria, que eu espero no devido tempo sejam criados padrões de crítica inteligente. É o trabalho deles. A crítica deve se tornar mais científica, ou precisa e sistemática, e isto significa que deve ser desenvolvida através do esforço sustentado e coletivo de pessoas eruditas — o que significa que o local adequado são as universidades.16 15 (RAMSOM 1937:586). “Rather than occasional criticism by amateurs, I should think the whole enterprise be seriously taken in hand by professionals. Perhaps, I use a distasteful figure, but I have the idea of what we need is Criticism, Inc., or Criticism, Ltd.”. 16 (RAMSOM 1937:586). “It is from professors of literature, in this country the Ao colocar a universidade e professores de inglês no centro deste projeto hermenêutico, Ransom abriu as portas para uma gama enorme de materiais didáticos cujo intuito era formar profissionais da interpretação literária. Até mesmo professores já atuantes no sistema universitário necessitavam do treinamento adequado, argu- mentava Ramson, já que a formação destes se deu em outro con- texto crítico. Era preciso revolucionar o sistema educacional tanto na esfera discente quanto docente: “Professores de literatura são homens eruditos, porém não críticos”, reclamava Ramson17. Estes passavam uma vida agregando fontes e documentos, mas pouco se preocupavam em emitir julgamento acerca do objeto de estudo ao qual se dedicavam: o texto literário. Este tipo de postura investigativa se refletia nos estudantes, ar- gumentavam os novos críticos. I. A. Richards em Practical Criticism já relatava vários principais problemas enfrentados por estudantes de literatura em relação à interpretação de poesia. Entre os obstáculos mais comuns enumerados por Richards, estavam: a) dificuldade em compreender o sentido do poema, seu significado no sentido amplo; b) má compreensão da métrica e do ritmo; c) não compreensão da linguagem figurada; d) uso de recursos mnemônicos inapropriados; e) respostas prontas ou clichês; f) sentimentalismo exagerado; g) aplicação de doutrinas religiosas; h) preconcepções críticas18. Com base nestas e outras observações, os novos críticos criaram vários métodos e protocolos não só de interpretação, mas também de ava- liação literária, pois, segundo eles, a leitura exigia tanto a explicação quanto julgamento. O próprio livro de Richards tinha como principal professors of English for the most part, that I should hope eventually for the erection of intelligent standards of criticism. It is their business. Criticism must become more scientific, or precise and systematic, and this means that it must be developed by the collective and sustained effort of learned persons — which means that its proper seat is the universities”. 17 (RAMSOM 1937:1). “Professors of literature are learned but not critical men”. 18 (RICHARDS 1929:17) 231230 José de Paiva dos Santos Capítulo 6 . A Nova Crítica objetivo melhorar o ensino de literatura nas universidades. Outros materiais como Understanding Poetry, lançado por Cleanth Brooks e Robert Penn Warren em 1938, vieram transformar a maneira como literatura era lida e ensinada nos bancos escolares. Para os mentores destes materiais didáticos, técnicas de análise poderiam ser aprendi- das, imitadas e passadas adiante, daí o papel crucial de professores treinados e instrumentos pedagógicos apropriados. É importante ressaltar que os protocolos e técnicas de leitura propostos pelos novos críticos seguiam normas rígidas de interpretação de figuras de linguagem, retórica, símbolos e tensões textuais. Uma leitura cuidadosa deveria ser feita de modo a compreender como estes elementos, em harmonia, contribuíam para o significado do poema. Nesta busca pela essência da obra literária, atenção especial deveria ser dada à metáfora, argumentam os novos críticos. Era na complexidade e polissemia desta figura de linguagem que o crítico encontraria o caminho em direção ao cerne do poema. Em Literary criticism: a short history, Wimsatt e Brooks reforçam o status especial deste elemento durante o exercício crítico: “Podemos encontrar nossos universais no discurso conceitualizado da ciência e filosofia. Podemos ver detalhes específicos à vontade nos jornais e registros de julgamentos. ...Mas apenas na metáfora, e assim é por excelência na poesia, que encontramos a mais radi- cal e relevante união e fusão do detalhe e a ideia universal”19. Mais do que um papel ornamental na estrutura no poema, a metáfora incorporava verdades universais, daí a importância de se examinar de perto as várias facetas e manifestações deste elemento durante a 19 (WIMSATT: BROOKS 1957:749). “We can have our universals in the full concep- tualized discourse of science and philosophy. We can have specific detail lavishly in the newspapers and in record of trials. …But it is only in metaphor, and hence it is par excellence in poetry, that we encounter the most radically and relevantly fused union of the detail and the universal idea”. análise textual. Além da metáfora, os protocolos também exigiam atenção às inter-relações entre os paradoxos, as ambiguidades e ironia presentes no poema. As tensões semânticas geradas por estes elementos geravam conflitos cujos efeitos deveriam ser investiga- dos. Em relação ao paradoxo, Brooks afirmava que “o cientista é o indivíduo para o qual a verdade requer uma linguagem destituída de todo o traço de paradoxo; aparentemente a verdade pronunciada pelo poeta só pode ser concretizada nos termos do paradoxo”20. Em suma, o protocolo hermenêutico proposto pelos novos críticos exigia: 1) rejeição de qualquer análise impressionista e genética do poema em questão; 2) concentração nos conflitos textuais e nas figuras de linguagem: metáfora, metonímia, paradoxos, ironia, etc.; 3) concepção do texto como um todo cujas partes se relacionam em perfeita harmonia; 4) visão do significado como uma entidade transcendental presente na estrutura do poema. Considerações Finais O projeto hermenêutico defendido pela Nova Crítica tinha como eixo principal uma noção transcendental de estrutura e, principal- mente, do significado, o qual para os novos críticos era sinônimo de verdade. Qualquer exercício que desviasse o crítico desta busca pela essência do poema deveria ser refutado. Juntamente com a busca pela verdade poética, o projeto também tinha um teor avaliativo, isto é, alguns poemas se aproximavam mais que outros do ideal de obra literária. Daí então o surgimento de hierarquias textuais visan- do justificar por que um texto era mais rico e literário em relação a outros do mesmo gênero ou categoria. 20 (BROOKS 1947:1). “It is the scientist whose truth requires a language purged of every trace of paradox; apparently the truth which the poet utters can be approached only in terms of paradox”. 233232 José de Paiva dos Santos Capítulo 6 . A Nova Crítica É importante frisar também que apesar da reação em conjunto contra a crítica impressionista e genética das décadas anteriores, bem como a crítica social dos marxistas, os novos críticos não se constituíam um grupo coeso. Um exame mesmo que superficial dos vários posicionamentos dos maiores expoentes do movimento re- vela que havia várias divergências entre o grupo. Wellek argumenta, inclusive, em “The New Criticism: Pro and Contra” que talvez os críticos associados ao movimento devessem ser discutidos separa- damente devido aos diferentes posicionamentos que pronunciaram ao longo dos anos21. Kenneth Burke pode ser citado como exemplo de um crítico que, mesmo abraçando uma hermenêutica baseada apenas no texto, abria espaçoSevilla Gonçalves dos Santos, Universidade Federal da Paraíba); “Marxismo” (Edu Teruki Otsuka, Universidade de São Paulo); “Feminismo e literatura: apontamentos sobre crítica feminista” (Cecil Jeanine Albert Zinani, Universidade de Caxias do Sul); “Formalismo russo: uma revisão e uma atualização” (Aurora Fornoni Bernardini, Universidade de São Paulo); “Walter Benjamin e sua teoria crítica” (Márcio Seligmann- Silva, Unicamp); “Uma literatura pensante: as desconstruções e o pensamento de Derrida” (Evando Nascimento, Universidade Federal de Juiz de Fora); “Multitransintercultura: literatura, teoria pós-colonial e ecocrítica” (Roland Walter, Universidade Federal de Pernambuco); e “Vozes autóctones das Américas: o discurso contra- canônico da crítica indígena” (Eloína Prati dos Santos, Universidade Federal do Rio Grande do Sul). Gostaria de agradecer à escritora, jornalista e crítica literária, Professora Cíntia Moscovich, que muito gentilmente aceitou o nosso convite para fazer a apresentação deste livro. Além de ser um dos nomes de maior destaque no atual firmamento das letras no Brasil, por ter uma ampla bagagem de treinamento formal e experiência com a teoria e crítica literárias — possui mestrado em teoria literária pela PUC-Rio Grande do Sul, tendo atuado como professora, consul- tora literária, tradutora, revisora e assessora de imprensa — Cíntia é singularmente qualificada para aquilatar o valor e a utilidade deste projeto. Autora do Reino das Cebolas (1996), Duas iguais (1998), Anotações durante o incêndio (2000) e Arquitetura do arco-íris (2004), entre outros contos e romances, a nossa apresentadora dá ênfase em muitas de suas obras à ótica judaica e feminina, fecundas pers- pectivas de alteridade que também figuram proeminentemente em vários capítulos do nosso livro, como os que tratam do feminismo, da psicanálise e das obras de Jacques Derrida e de Walter Benjamin. A presença de Cíntia Moscovich neste livro é particularmente relevante para o nosso projeto pelo fato de ela poder oferecer aos nossos leito- res uma perspectiva única e privilegiada, que advém de sua formação híbrida: por um lado, como autora e produtora de ficção literária e, por outro, como cuidadosa leitora e crítica da produção literária. Tivemos uma experiência similar em 2007 quando da publi- cação do nosso livro A América Hispânica no imaginário literário brasileiro / Brasil en el imaginario literario hispanoamericano, quan- do o escritor Moacyr Scliar nos honrou com sua presença ao fazer a apresentação do mesmo. Nessa ocasião, já havíamos assinalado que, como todo escritor ou crítico literário em Terra Brasilis bem sabe, é imprescindível para um projeto como o nosso contar com esse tipo de apoio e incentivo para poder se tornar realidade. Infelizmente, muitas vezes, isso não acontece no nosso país, quer seja por parte das agências oficiais, dos órgãos de fomento, ou até mesmo dos nos- sos pares na academia. Portanto, nesse contexto, a simpatia e boa vontade de Cíntia se tornam ainda mais notáveis, fato que muito sensibilizou a mim e aos outros colaboradores deste livro. 32 Gostaria, também, de registrar o meu carinhoso agradecimen- to à Professora Maria José de Matos Luna, ex-Diretora da Editora da Universidade Federal de Pernambuco. Esta excelente profissional muito generosamente forneceu todo o apoio ao nosso trabalho, co- locando à nossa disposição o aparato da EdUFPE, que ela dirigia, assim como a sua ampla experiência como editora. Tudo isso permi- tiu a realização e finalização exitosa do projeto segundo os objetivos com que foi concebido. Termino este prefácio com a lembrança de uma pessoa mui- to estimada de todos nós, atuais ou ex-professores de letras da Universidade Federal de Pernambuco. Da última vez que publiquei um livro pela Editora UFPE, em 2007, o meu agradecimento foi direcionado, também, à Professora Gilda Lins, que então dirigia essa casa editorial. Hoje, só posso repetir o meu agradecimento à nossa “pequena notável” de maneira póstuma. E é assim, portanto, com uma lembrança querida e duradoura de uma pessoa que tan- to contribuiu para o Departamento de Letras, o Centro de Artes e Comunicação, a Editora Universitária e a Universidade Federal de Pernambuco, que dedico a presente obra à minha conterrânea do Recife e de Bom Jardim, Professora Gilda Maria Lins de Araújo. Prof. Dr. João Sedycias Professor Titular de Espanhol & Português e Decano Fundador da Escola de Artes & Humanidades Tenured Full Professor of Spanish & Portuguese and Founding Dean of the School of Arts & Humanities State University of New York College at Oneonta 111 Schumacher Hall, SUNY Oneonta Oneonta, New York 13820, USA E-mail: sedycias@yahoo.com O que é e o que não é literatura?* Anco Márcio Tenório Vieira Universidade Federal de Pernambuco Capítulo 1 La letteratura è sempre — dico sempre! — finzione, di qualsiasi cosa parli. Può parlare di filatori di seta del Seicento, di pastori innamorati di ninfe, di pescatori siciliani o di piccoli principi che coltivano rose sul loro pianeta: non importa, è sempre inven- zione! Sublime, utilissima e bellissima invenzione, fabbricata per dire la verità, ma per dirla parlando d’altro, deviando, depistando: parola indireta.** Ludovico Ariosto (1474-1533) notas iniciais * Retomamos neste ensaio algumas breves considerações que desenvolvemos em VIEIRA (2011:10-13; 2012:55-76). ** “A literatura é sempre – eu digo sempre! – ficção, indiferente do que você fale. Você pode falar sobre fiadores de seda dos seiscentos, de pastores enamorados de ninfas, de pescadores sicilianos ou de pequenos príncipes que cultivam rosas nas terras do sul: não importa, é sempre invenção! Sublime, utilíssima e belíssima invenção, fabricada para dizer a verdade, mas para colocá-la falando de outra coisa, desviando, despistando: discurso indireto”. Foi no Institvtio Oratória, de Marcus Fabius Quintilianus (30-95 d.C.), que a palavra “literatura” (“Conferimos, pois, a qualquer pro- fissão o seu território próprio: a gramática, que em latim equivale o sentido de literatura...”)1 apareceu pela primeira vez no mundo latino e, por decorrência, no Ocidente e no mundo ocidentalizado. Litteraturam, palavra que tem em littĕra a sua raiz semântica (em latim, letra, substantivo feminino), não designava, em princípio, somente o conjunto dos gêneros ficcionais ou miméticos e, sim, nascia como o equivalente latino para a palavra grega Grammatikós (Gramática), que tinha o sentido, para Platão e Aristóteles, de “ciên- cia das letras” (gramma, em grego, é letra).2 No caso, a arte de saber ler e escrever, já que no mundo antigo ler e escrever eram compe- tências distintas; do mesmo modo que saber ler não significava, necessariamente, uma pessoa educada, muito menos culta. Como “ciência das letras”, Quintiliano dividia a Gramática (a primeira das sete artes liberais)3 em duas partes: na “Arte de falar 1 “Nos suum cuique professioni modum demus: et grammatice, quam in Latinum transferentes litteraturam uocauerunt...” (QUINTILIANO. Institvtio Oratória. In: http://pt.scribd.com/doc/129709086/ QVINTILIANI-INSTITVTIO-ORATORIA-LIBER-SECVNDVS-docx). 2 (CURTIUS 1996:78) 3 Na Idade Média, A Gramática, a Retórica e a Dialética (Lógica) formavam o Trivium. A Aritmética, a Geometria, a Música e a Astronomia constituiam o Quadrivium. 3736 Anco Márcio Tenório Vieira Capítulo 1 . O que é e o que não é literatura? corretamente” e na “de narrar os poetas”.4 Na primeira, temos o ins- trumental para se conhecer e se fazer o uso correto da língua (neste caso, a Gramática alargava os limites da Retórica); na segunda, o meio para explicar as obras dos poetas e, principalmente, como uma ciência exegética, a ferramenta para interpretar os demais fenôme- nos da Natureza.5 Assim, “litteratus”, como nos ensina Ernst Robert Curtius,6 “é o conhecedor da gramática e da poesia, [mas] não ne- cessariamente um escritor”; ou, como nota EricA. Havelock, é “[...] ’o homem de letras’, ou seja, um leitor de letras, [...] o seu oposto, illiteratus, um homem sem nenhuma cultura letrada”.7 Desse modo, litteratus é aquele que conhece as letras, as regras da Gramática ou explica as obras dos poetas, e litteraturam é a produção intelectual do homem de letras. Ao designar toda e qualquer produção intelec- tual que tinha a palavra como o seu meio de expressão, o termo lit- teraturam designava, inicialmente, todos os gêneros textuais (afinal, para escrever, era preciso dominar o “uso correto da língua”). Logo, ao enunciar a palavra “literatura”, fazia-se necessário complemen- tá-la: “literatura de quê?”. “Literatura filosófica”, “literatura política”, “literatura matemática” ou “literatura de ficção?”. Ora, o que particulariza a literatura ficcional dos demais gê- neros textuais que eram tomados como litteraturam apenas pelo “uso correto da língua” (“recte loquendi scientiam”)? Por que um autor como Lúcio Aneu Sêneca (4 a.C.-65 d.C.), que transitou por vários gêneros textuais, a exemplo da tragédia e da filosofia, tinha a sua produção dramática designada como “literatura de ficção” e aquela que se voltava para o “amor à sabedoria”, como “literatura filosófica”? Que conjunto de regras e procedimentos encerra, em um 4 “recte loquendi scientiam et poetarum enarrationem” (QUITILIANO op. cit.) 5 (Ver GORDON 2012:10) 6 (CURTIUS 1996:78) 7 (HAVELOCK 1996:47) mesmo sistema, as tragédias de Sêneca e as demais obras ficcionais, distantes no tempo e no espaço, como Édipo rei, Ilíada, A Divina comédia, Orlando Furioso, Dom Quixote, Os Lusíadas, Memórias póstumas de Brás Cubas, Histórias extraordinárias, A Invenção de Orfeu e A Pedra do Reino? O que há em comum (ou não) entre essas obras ficcionais e outras não ficcionais, a exemplo dos Sermões, do Padre Antônio Vieira, e Os Sertões, de Euclides da Cunha, para que elas compartilhem os compêndios da história da literatura? Como distinguir conceitualmente os gêneros que Aristóteles chamava de “poesia imitativa” (lírico, dramático e narrativo) e a teologia cristã (seja ela patrista, agostiniana ou tomista) passou a designar como a literatura dos poetas (a que se vale da allegoria in verbis, alegoria verbal, considerada distinta das alegorias comunicadas por Deus, a allegoria in factis, alegoria factual)8 dos demais gêneros textuais, sem que tal conceito termine, por falta de rigor teórico, transbor- dando ou se aplicando também às demais formas de discurso (no caso, confundindo as duas partes da Gramática que Quintiliano fez questão de distinguir, isto é, todo poeta para ser chamado como tal precisa, antes de tudo, conhecer e fazer “uso correto da língua”, mas nem todo aquele que usa “corretamente” a língua pode ser chamado de poeta)? Por que muitas definições de literatura não conseguem dar conta do fenômeno literário em sua totalidade: quando cobrem um dado gênero, deixam outros descobertos? Por que a poesia era vista pelos teólogos, a exemplo de Santo Agostinho (354-430), em A Cidade de Deus, como uma criação humana cuja ciência faltava com a “verdade”? Por que Agostinho denomina os poetas de criado- res de “fábulas mentirosas” (mendacissimis fabulis), falsas (fasum), torpes (turpe) e indignas (indignum)?9 Ou mesmo Tomás de Aquino 8 (Ver SANTO AGOSTINHO 1991) 9 (SANTO AGOSTINHO 2009:241-242). Nos valemos também da edição em latim da obra agostiniana: SANCTI AURELLI AUGUSTINI (1877). 3938 Anco Márcio Tenório Vieira Capítulo 1 . O que é e o que não é literatura? (1224?-1277), o Doutor Angélico, que defende, a partir de uma lei- tura da Metafísica, de Aristóteles10, que “A ciência da poesia refere-se a coisas que, dada sua falta de verdade [...], não podem ser compre- endidas pela razão; convém seduzir a razão por meio de algumas analogias?”11 Eis algumas perguntas que ainda precisam de respos- tas pertinentes. Afinal, diante de tantos desencontros conceituais, parece que explicar conceitualmente, hoje, a literatura tornou-se quase que o mesmo que tentar definir o conceito de tempo: “Se nin- guém me perguntar [o que é o tempo], eu sei; se quiser explicá-lo a quem fizer a pergunta, já não sei”12, dizia Santo Agostinho, em suas Confissões. Aparentemente todos nós, nos dias que correm, sabemos o que é literatura e quais gêneros ela encerra (ninguém, salvo os in- gênuos, se dirige para o setor das ciências exatas, biológicas ou jurí- dicas quando precisa encontrar um romance ou um livro de contos ou de poesia em uma livraria ou biblioteca), mas, de algum modo, sentimos dificuldades em explicá-la conceitualmente. Se não temos dúvidas quanto ao estatuto literário de alguns gêneros textuais, já que eles são trans-históricos e se calçam em cima da ficcionalida- de (como o romance, a epopeia, o conto, a novela, a poesia e suas formas fixas), formando uma só família, ficamos sempre hesitantes em acatar ou mesmo explicar por que certos gêneros não ficcionais são estudados nas histórias da literatura — a exemplo da crônica, do sermão, dos textos bíblicos, das cartas, de algumas obras filosóficas, etc. — quando eles também participam (ou são rebentos) de outras áreas do conhecimento humano. No caso, o jornalismo, a teologia, a filosofia etc. Toda essa dúvida fica mais acentuada quando essa reflexão se dá em um país um tanto que avesso à reflexão teórica, 10 Aristóteles observa na Metafísica (983ª, 3-4) que um provérbio grego dizia que “[...] os poetas dizem muitas mentiras [...]” (ARISTÓTELES 2005:13). 11 (Apud CURTIUS 1996:279) 12 (SANTO AGOSTINHO 1988:278) que aposta na ideia de que um texto é literatura porque foi conven- cionado como tal ou se aprendeu dessa forma na escola (ou na vida) e assim é, ou deve ser, se lhe parece. Afinal, como nota Luiz Costa Lima, “quando uma comunidade não tem a prática da discussão, o uso da linguagem crítica sempre lhe parece ameaçador”.13 Vamos ao desafio. II Em ensaio publicado em 1971, Richard Ohmann observa, recor- rendo à teoria dos atos de fala (speech acts)14, de J. L. Austin, que o problema dos conceitos sobre literatura é que ora eles se centram no texto em si (“sua referência, sua verdade e seu significado”)15, os chamados atos locutivos, ora em seus efeitos, os atos perlocuti- vos. Ainda dentro desse corte epistemológico, Ohmann nota que as definições sobre literatura estão encerradas em seis proposições correntes. A saber: 1º Em uma obra literária, particularmente na po- esia, as palavras não se referem tais como elas se referem em outras formas de discurso; 2º O que define a literatura é o modo como são expressas as asserções. Assim, há os que defendem que a literatura é uma rede de mentiras (sendo a falsidade a sua marca distintiva) e há os que asseguram que “o poeta não afirma nada”; logo, uma 13 (LIMA 1981:193) 14 Os atos de fala são classificados em três categorias. Locutivos ou locucioná- rios são os enunciados que, tanto gramaticalmente quanto fonologicamente, e dentro de certo código linguístico, são reconhecíveis pelo interlocutor/ouvinte. Perlocutivos ou perlocucionários são os atos em que o autor do enunciado espera do seu interlocutor/ouvinte alguma reação, isto é, são atos em que o enunciador tem pouco controle, ou um controle limitado, sobre as consequências dos seus enunciados. Ilocutivos ou ilocucionários são os atos de asserção: perguntar, dar ordens, agradecer etc. Ao definir os atos de fala, dentro de certas convenções e circunstâncias, eu estou realizando um ato de asserção. Ainda sobre os atos de fala, ver OHMANN (1990:85-102) 15 (OHMANN 1987:24; 1971:1-19) 4140 Anco Márcio Tenório Vieira Capítulo 1 . O que é e o que não é literatura? obra literária “não pode se justificar por critérios de verdade”, suas proposições são apenas pseudoproposições, “despojadas de alguma maneira de seu poder assertivo”;16 3º O discurso literário se carac- teriza pelo seu caráter e o significado implícito das palavras; 4º Na literatura, os escritoresusam as palavras buscando despertar e orde- nar sentimentos emotivos no leitor, diverso do que ocorre nas obras discursivas ou científicas, “[...] que se dirigem primordialmente às crenças do leitor”17; 5º dentro da comunicação verbal, que encerra seis categorias (remetente, destinatário, contexto, contacto, código e mensagem), a função poética da linguagem se dá no “enfoque da mensagem por ela própria [...]”18; 6º “Todo discurso está estrutu- rado de acordo com a gramática da língua em que está escrita ou é falada. As obras literárias revelam, com frequência, estruturas excessivamente alijadas das exigidas pela gramática; a métrica e a rima são claros exemplos”19. Para Ohmann, todos esses conceitos são antes um relatório (re- porting) sobre o uso genérico da palavra literatura do que uma de- finição que proporcione um “discernimento” ou uma “penetração” (insight) da sua natureza20. Assim, buscando definir a natureza da literatura, Ohmann, de maneira sucinta, expõe as suas objeções aos conceitos recolhidos acima: 1º não há como distinguir entre o modo como as palavras se referem em literatura e o modo como elas se referem em outras formas de discurso, pois, em ambas as situações, as palavras são usadas nos dois sentidos: conotativo e denotativo21; 2º falsas proposições podem ser encontradas tanto em uma obra literária quanto em outras formas de discurso; 3º todos os gêneros 16 (OHMANN 1987:17) 17 (OHMANN 1987:19) 18 (JAKOBSON 1991:127-128. Apud OHMANN 1987:20) 19 (OHMANN 1987:21) 20 (OHMANN 1987:11) 21 (OHMANN 1987:15-16) textuais encerram significados implícitos, a exemplo das notas di- plomáticas, dos anúncios publicitários e das cartas dos enamora- dos22; 4º “Todo discurso produz seu impacto nas emoções do leitor e ouvintes, e alguns discursos não literários possuem, provavelmente, maior carga emotiva do que qualquer [outro] discurso literário”23; 5º “[...] uma obra literária tende a atrair as diversas atenções [do leitor] porque ele sabe que [se trata de] uma obra literária, em lugar de provar que é uma obra literária por atrair um tipo de atenção adequada”24; 6º “[...] apesar da importância que têm para a literatura a repetição, a variação e os padrões de todo tipo, estes traços não delimitam a classe de discursos a que queremos chamar ‘literatura’, já que existem muitas conexões tanto voluntárias como inadvertidas em todo discurso”25. Apesar de concordarmos com as objeções de Ohmann, acredi- tamos, no entanto, que as insuficiências conceituais aqui elencadas residem no fato da “natureza” da literatura só poder ser apreensível se considerarmos o fenômeno literário (assim como qualquer outro modo formal do conhecimento humano) como um todo sistêmico. Temos que apreender as particularidades do texto, a intenção de quem o produz e, como parte dessa intenção, a recepção de quem o lê. Mesmo sabendo que, isoladamente, cada um desses aspectos sejam variáveis conceituais, em conjunto, eles parecem se constituir (e é o que tentaremos demonstrar) em uma invariável. Partindo dessa premissa, perseguiremos quatro tópicos que, em conjunto, poderão melhor definir o que constitui, de fato, um texto literário: 1. A imitação e a ficcionalidade do texto (compondo a unidade dos gêneros literários) e, como parte dessa ficcionalidade, a recepção de 22 (OHMANN 1987:18) 23 (OHMANN 1987:19) 24 (OHMANN 1987:20) 25 (OHMANN 1987:21) 4342 Anco Márcio Tenório Vieira Capítulo 1 . O que é e o que não é literatura? quem o lê perfazendo o pacto ficcional; 2. A intencionalidade do autor (o estatuto histórico-temporal da obra e, por desdobramen- to, as marcações dadas pelo autor empírico e que delineiam a sua recepção); 3. A verdade e a realidade textuais (o caráter imanente do texto); 4. Os significados e significações do texto (sua condição artística e trans-histórica). Vamos por etapas. III A Imitação e a Ficcionalidade do Texto Na Metafísica, Aristóteles afirma que todo conhecimento racional ou era “[...] prático, ou produtivo, ou teorético [...]”26. O domínio das ciências “produtivas” era o “fazer”; o das ciências “práticas”, o “agir”; e o das ciências “teóricas”, a natureza. Esta, no caso, compreendia a física, a matemática e a teologia; as ciências “práticas” encerravam, por exemplo, a ética e a política; e as “ciências produtivas” a poiética, as artes. No entanto, são as ciências teoréticas que Aristóteles con- siderava como as mais excelentes entre as demais ciências e, dentre elas, a teologia como a mais excelente de todas.27 Observe-se, no entanto, que há uma diferenciação entre o “agir” e o “fazer”. Em a Ética a Nicômaco, Aristóteles distingue [...] o que é produtível e o que é realizável pela ação. A produção é diferente da ação [...]. Assim, a disposição prática conformada por um princípio racional é diferente da disposição produtora conformada por um princípio racional. Assim, nenhuma das duas é envolvida pela outra, porque nem a ação é produção nem a produção é ação.28 26 (ARISTÓTELES 2005:271, 1025b, 25-26) 27 (ARISTÓTELES 2005:513, 1064b, 1-5) 28 (ARISTÓTELES 2009:132, 1140ª, 1-6) No caso específico das “ciências poiéticas” ou “ciências produ- tivas”, objeto aqui do nosso estudo, Aristóteles assinala que “[...] o princípio do movimento se encontra no artífice [o poeta] e não na coisa produzida, e esse princípio consiste ou numa arte ou nalgu- ma outra potência”. O mesmo princípio ocorre na “ciência prática”: “[...] o movimento não reside no que é objeto de ação, mas nos agentes”.29 Em outras palavras: “[...] o princípio das produções está naquele que produz, seja no intelecto, na arte ou noutra faculdade; e o princípio das ações práticas está no agente, isto é, na volição, enquanto coincidem os objetos da ação prática e da volição”30. Dentro desse preceito, a tékhne (τέχνη, arte) é um ofício dirigido antes ao fazer (a produção) — no caso, à arte poética (poietiké tékhne, ποιητική τέχνη) — do que à ação (praktiké, πρακτική), ao agir. Daí a contraposição entre as artes que imitam a natureza (a arte poética)31 e as que complementam a natureza (a que nasce da experiência). A experiência — a arte do artesão, do pedreiro... — é pragmática, em geral repetitiva e mecânica, requer uma habilida- de e um conhecimento técnicos adquiridos pela prática, não indo além do conhecimento do “quê”, do “dado de fato”, e busca integrar a natureza. As artes imitativas, em contraposição, se dirigem ou se aproximam do conhecimento do porquê, se constituindo, desse modo, em uma forma de conhecimento ou de saber, “[...] um saber que não é fim em si mesmo nem sequer um conhecimento buscado em vista da ação moral (como a política e a ética), mas antes em prol do objeto produzido”32. 29 (ARISTÓTELES 2005:511, 1064ª, 11-14) 30 (ARISTÓTELES 2005:270-271, 1025b, 22-25) 31 Em Física, Aristóteles (2009:47, II, 194ª, 21) afirma que “[...] a técnica [arte] imita a natureza [...]”. Para Lucas Angioni (2009:237), o argumento de Aristóteles é que “[...] a técnica imita a natureza, isto é, técnica e natureza obedecem a padrões similares, de tal modo que o conhecimento técnico serve de modelo adequado para conceber o conhecimento da natureza”. 32 (REALE 2001:107) 4544 Anco Márcio Tenório Vieira Capítulo 1 . O que é e o que não é literatura? Investigando as causas e os princípios da Poiética, Aristóteles irá discorrer sobre quais são os objetos de conhecimento dessa ciên- cia. O propósito do seu estudo não é somente se ater com vagar so- bre as estruturas33 e os procedimentos formais dos gêneros trágicos e épicos, mas, e principalmente, buscar “[...] a essência que é própria do gênero de coisas [...]” de que se ocupa34. Para tal perquirição, o conceito de imitação (mímesis, μίμησις) se mostra central em sua “ciência poética”. Enunciando que a poesia é imitação, Aristóteles define os seus aspectos segundo o “meio” (critério formal: o uso do ritmo, do canto e do metro como fatores de diferenciação entre os poemas),o “obje- to” (critério temático: a mimetização da ação dos homens segundo a sua índole elevada ou baixa) e o “modo” (princípio enunciativo, a maneira como se efetua a imitação: na primeira, na segunda ou na terceira pessoas).35 Mas o que é inerente à natureza do fato artísti- co está delimitado nos “primeiro” e “nono” capítulos da Poética. A necessidade de tal delimitação parece decorrer de uma constatação implícita: as classificações da imitação segundo o “meio”, o “objeto” 33 Lubomír Dolezel nota que há na “[...] mereologia aristotélica uma associação du- radoura entre a poética e o ‘modelo orgânico’; a poética teórica será fortemente influenciada pelas analogias entre as estruturas da poesia e as estruturas da na- tureza viva”. Citando Abraham Edel em nota de rodapé, ele assinala: “’as partes [da tragédia] são tratadas quase da mesma maneira como são tratados, nas obras de biologia, os órgãos ou partes dos animais, tendo em conta o desem- penho das suas funções em relação ao organismo como um todo’”. (DOLEZEL 1990:43). 34 (ARISTÓTELES 2005:511, 1064ª, 5-6) 35 (ARISTÓTELES 1994:103-106, 1447ª-1448b). Lubomír Dolezel acrescenta à tríade um quarto aspecto: a “função”. Embora reconheça que a “função” não conste da classificação inicial da Poética, ele nota que “noutro contexto, a função é ex- plicitamente referida e caracterizada como ‘o prazer que se retira das obras de imitação (1448b). A inclusão da ‘função’ no modelo das artes miméticas explica o aparecimento do ‘item catarse’ na definição da tragédia [...]. Caso contrário, a introdução da ‘catarse’ aparece como uma anomalia no procedimento derivativo de Aristóteles [...]”. DOLEZEL (1990:39, nota 2). Para o nosso presente estudo, recorremos também às seguintes edições da Poética: ARISTOTE (1980), (2002), ARISTÓTELES (2008), (1997) (2010). e o “modo” também seriam observáveis (daí serem variáveis) nos demais gêneros textuais. Afinal, não são apenas as poesias imitativas que lançam mão do mito, do maravilhoso, da elocução, dos proce- dimentos retóricos, do pensamento, do caráter, do reconhecimento, da peripécia, da catástrofe... Em O Banquete, por exemplo, Platão se vale de um “modo” enunciativo na segunda pessoa (a obra, por se valer do método dialético, é constituída por diálogos entre Sócrates e os seus interlocutores) e tem como “objeto” um tema superior: Eros e o Amor ao Bem. Assim, delimitando o que é inerente à na- tureza do fato artístico, Aristóteles defende que não é a versificação que define os gêneros miméticos, pois [...] se alguém compuser em verso um tratado de Medicina ou Física, esse será vulgarmente chamado ‘poeta’; na verdade, porém, nada há de comum entre Homero e [o fisiólogo] Empédocles, a não ser a metrificação: aquele merece o nome de ‘poeta’, e este, o de ‘fisiólogo’, mais que o de poeta36. O que diferencia a obra do poeta da obra de Empédocles é que “[...] não é ofício de poeta narrar o que aconteceu; é, sim, o de re- presentar o que poderia acontecer, quer dizer: segundo a verossimi- lhança e a necessidade”37. Exemplificando mais uma vez a sua tese, ele toma dois gêneros textuais distintos — a Poesia e a História — e os seus “meios” de mimetizarem a realidade: [...] não diferem o historiador e o poeta, por escreverem verso ou prosa (pois que bem poderiam ser postas em verso as obras de Heródoto, e nem por isso deixariam de ser História, se fossem 36 (ARISTÓTELES 1994:104, 1447b, 16-21) 37 (ARISTÓTELES 1994:115, 1451ª, 36-39) 4746 Anco Márcio Tenório Vieira Capítulo 1 . O que é e o que não é literatura? em verso o que eram em prosa) — diferem, sim, em que diz um as coisas que sucederam, e outro as que poderiam suceder”. (grifo nosso)38 A comparação, aqui, não se restringe apenas ao fato de que um (o historiador) diz “as coisas que sucederam, e outro [o poeta] as que poderiam suceder”, mas também porque a poesia, por tra- tar do que poderia acontecer, é mais filosófica e mais séria do que a História, já que o poeta se refere principalmente ao “universal” (kathólou, καθολου), e o historiador ao “particular” ou “singu- lar” (kath’hékaston, κάϑ’έκαστov). No tratado Da interpretação, Aristóteles define os conceitos de “universal” e “particular” nos seguintes termos: “[...] denomino de universal aquilo que natural- mente é predicado em muitas coisas, e de singular aquilo que não é, por exemplo: homem pertence às coisas universais e Cálias [famoso guerreiro grego] às singulares”39. A História, aqui, é predicado ape- nas de um dado “evento”, já a poesia, enquanto “conhecimento dos universais”, de vários objetos40. Ou como se lê na Metafísica: “[...] a substância [ousía, Οὐσία, aquilo que é] primeira de cada indivíduo é própria de cada um e não pertence a outros; o universal, ao con- trário, é comum: de fato, diz-se universal aquilo que, por natureza, pertence a uma multiplicidade de coisas”.41 Assim, o “Homem” é um “universal”; um “homem específico” (Cálias), um “particular”, um “singular”, pois este encerra “[...] aquilo que não é dito de um sujeito ou não está presente num sujeito [...]”42. Em “comentário” à sua tradução da Poética, Eudoro de Sousa observa que o “universal” 38 (ARISTÓTELES 1994:115, 1451ª, 39-40; 1451b, 42-45) 39 (ARISTÓTELES 2013:9-10) 40 (Ver PETERS 1983:124) 41 (ARISTÓTELES 2005:347, 1038b, 10-13) 42 (PETERS 1983:180) se dá nos gêneros miméticos pela “[...] coerência, [pela] íntima cone- xão dos fatos e das ações, [sendo] as próprias ações entre si ligadas por liames de verossimilhança e necessidade”43. Desse modo, são as espécies de poesia imitativas que se valem do Mito (mýthos, μυθος) (compreendido por Aristóteles como “[...] imitação de ações [...]” e como “[...] a composição dos atos [...]”)44 as que melhor permitem ao poeta construir a “íntima conexão dos fatos e das ações”. Por ser Uno, por encerrar uma ação com princípio, meio e fim (como de- vem ser a tragédia e a epopeia), o Mito não se imputa “[...] a uma só pessoa [o “particular”] [...], pois há muitos acontecimentos e infinitamente vários, respeitantes a um só indivíduo, entre os quais não é possível estabelecer unidade alguma. Muitas são as ações que uma pessoa pode praticar, mas nem por isso elas constituem uma ação una”45. Por perseguir essa ação Una é que o poeta não deve versificar todos os sucessos da vida de um Mito, mas somente os que são necessários e verossímeis à ação46. Dessa forma, a oposição entre História e poesia é, segundo Eudoro de Sousa, [...] entre o acontecido e disperso no tempo (História) e o aconte- cível, ligado por conexão causal (poesia). ‘Acontecido’ e ‘aconte- cível’ são ambos verossímeis; mas só os acontecimentos ligados por conexão causal são necessários. [Assim,] [...] pelo lado da verossimilhança, haveria um ponto de contato entre História e poesia; contudo, a poesia ultrapassa a História, na medida em que o âmbito do acontecível excede o do acontecido.47 43 (SOUSA 1994:170) 44 (ARISTÓTELES 1994:111, 1450ª, 2-3) 45 (ARISTÓTELES 1994:114, 1451ª, 16-18) 46 (ARISTÓTELES 1994:115, 1451ª, 22-29) 47 (SOUSA 1994:170) 4948 Anco Márcio Tenório Vieira Capítulo 1 . O que é e o que não é literatura? Só o “acontecível” dá ao poeta a liberdade de não se ater a todos os eventos que constituem a trajetória de um Mito (suas particula- ridades), e se voltar apenas àqueles que são “ligados por conexão causal”. Como os poetas buscam o “universal” (uma espécie de arqué- tipo eterno) e não o “particular” (o “evento”), sua imitação “[...] incidirá num destes três objetos: [1º] coisas quais eram ou quais são, [2º] quais os outros dizem que são ou quais parecem, [3°] ou quais deveriam ser”48. Mesmo quando o poeta despreza o Mito e busca matéria em objetos distintos (fatos que ocorreram ou estão a ocorrer, fatos que a tradição oral diz que ocorreram ou parecem que ocorreram e fatos puramente criados pela imaginação do poeta), a exemplo das comédias, das tragédias que prescindiam doadiante ao colocar os professores universitários de inglês no centro deste projeto pedagógico, transformando assim a universidade ou sala de aula em uma espécie de laboratório e os professores em um grupo de elite. Ele acrescenta: É a partir dos professores universitários de literatura, neste país professores de inglês na maioria, que eu espero no devido tempo sejam criados padrões de crítica inteligente. É o trabalho deles. A crítica deve se tornar mais científica, ou precisa e sistemática, e isto significa que deve ser desenvolvida através do esforço sustentado e coletivo de pessoas eruditas — o que significa que o local adequado são as universidades.16 15 (RAMSOM 1937:586). “Rather than occasional criticism by amateurs, I should think the whole enterprise be seriously taken in hand by professionals. Perhaps, I use a distasteful figure, but I have the idea of what we need is Criticism, Inc., or Criticism, Ltd.”. 16 (RAMSOM 1937:586). “It is from professors of literature, in this country the Ao colocar a universidade e professores de inglês no centro deste projeto hermenêutico, Ransom abriu as portas para uma gama enorme de materiais didáticos cujo intuito era formar profissionais da interpretação literária. Até mesmo professores já atuantes no sistema universitário necessitavam do treinamento adequado, argu- mentava Ramson, já que a formação destes se deu em outro con- texto crítico. Era preciso revolucionar o sistema educacional tanto na esfera discente quanto docente: “Professores de literatura são homens eruditos, porém não críticos”, reclamava Ramson17. Estes passavam uma vida agregando fontes e documentos, mas pouco se preocupavam em emitir julgamento acerca do objeto de estudo ao qual se dedicavam: o texto literário. Este tipo de postura investigativa se refletia nos estudantes, ar- gumentavam os novos críticos. I. A. Richards em Practical Criticism já relatava vários principais problemas enfrentados por estudantes de literatura em relação à interpretação de poesia. Entre os obstáculos mais comuns enumerados por Richards, estavam: a) dificuldade em compreender o sentido do poema, seu significado no sentido amplo; b) má compreensão da métrica e do ritmo; c) não compreensão da linguagem figurada; d) uso de recursos mnemônicos inapropriados; e) respostas prontas ou clichês; f) sentimentalismo exagerado; g) aplicação de doutrinas religiosas; h) preconcepções críticas18. Com base nestas e outras observações, os novos críticos criaram vários métodos e protocolos não só de interpretação, mas também de ava- liação literária, pois, segundo eles, a leitura exigia tanto a explicação quanto julgamento. O próprio livro de Richards tinha como principal professors of English for the most part, that I should hope eventually for the erection of intelligent standards of criticism. It is their business. Criticism must become more scientific, or precise and systematic, and this means that it must be developed by the collective and sustained effort of learned persons — which means that its proper seat is the universities”. 17 (RAMSOM 1937:1). “Professors of literature are learned but not critical men”. 18 (RICHARDS 1929:17) 231230 José de Paiva dos Santos Capítulo 6 . A Nova Crítica objetivo melhorar o ensino de literatura nas universidades. Outros materiais como Understanding Poetry, lançado por Cleanth Brooks e Robert Penn Warren em 1938, vieram transformar a maneira como literatura era lida e ensinada nos bancos escolares. Para os mentores destes materiais didáticos, técnicas de análise poderiam ser aprendi- das, imitadas e passadas adiante, daí o papel crucial de professores treinados e instrumentos pedagógicos apropriados. É importante ressaltar que os protocolos e técnicas de leitura propostos pelos novos críticos seguiam normas rígidas de interpretação de figuras de linguagem, retórica, símbolos e tensões textuais. Uma leitura cuidadosa deveria ser feita de modo a compreender como estes elementos, em harmonia, contribuíam para o significado do poema. Nesta busca pela essência da obra literária, atenção especial deveria ser dada à metáfora, argumentam os novos críticos. Era na complexidade e polissemia desta figura de linguagem que o crítico encontraria o caminho em direção ao cerne do poema. Em Literary criticism: a short history, Wimsatt e Brooks reforçam o status especial deste elemento durante o exercício crítico: “Podemos encontrar nossos universais no discurso conceitualizado da ciência e filosofia. Podemos ver detalhes específicos à vontade nos jornais e registros de julgamentos. ...Mas apenas na metáfora, e assim é por excelência na poesia, que encontramos a mais radi- cal e relevante união e fusão do detalhe e a ideia universal”19. Mais do que um papel ornamental na estrutura no poema, a metáfora incorporava verdades universais, daí a importância de se examinar de perto as várias facetas e manifestações deste elemento durante a 19 (WIMSATT: BROOKS 1957:749). “We can have our universals in the full concep- tualized discourse of science and philosophy. We can have specific detail lavishly in the newspapers and in record of trials. …But it is only in metaphor, and hence it is par excellence in poetry, that we encounter the most radically and relevantly fused union of the detail and the universal idea”. análise textual. Além da metáfora, os protocolos também exigiam atenção às inter-relações entre os paradoxos, as ambiguidades e ironia presentes no poema. As tensões semânticas geradas por estes elementos geravam conflitos cujos efeitos deveriam ser investiga- dos. Em relação ao paradoxo, Brooks afirmava que “o cientista é o indivíduo para o qual a verdade requer uma linguagem destituída de todo o traço de paradoxo; aparentemente a verdade pronunciada pelo poeta só pode ser concretizada nos termos do paradoxo”20. Em suma, o protocolo hermenêutico proposto pelos novos críticos exigia: 1) rejeição de qualquer análise impressionista e genética do poema em questão; 2) concentração nos conflitos textuais e nas figuras de linguagem: metáfora, metonímia, paradoxos, ironia, etc.; 3) concepção do texto como um todo cujas partes se relacionam em perfeita harmonia; 4) visão do significado como uma entidade transcendental presente na estrutura do poema. Considerações Finais O projeto hermenêutico defendido pela Nova Crítica tinha como eixo principal uma noção transcendental de estrutura e, principal- mente, do significado, o qual para os novos críticos era sinônimo de verdade. Qualquer exercício que desviasse o crítico desta busca pela essência do poema deveria ser refutado. Juntamente com a busca pela verdade poética, o projeto também tinha um teor avaliativo, isto é, alguns poemas se aproximavam mais que outros do ideal de obra literária. Daí então o surgimento de hierarquias textuais visan- do justificar por que um texto era mais rico e literário em relação a outros do mesmo gênero ou categoria. 20 (BROOKS 1947:1). “It is the scientist whose truth requires a language purged of every trace of paradox; apparently the truth which the poet utters can be approached only in terms of paradox”. 233232 José de Paiva dos Santos Capítulo 6 . A Nova Crítica É importante frisar também que apesar da reação em conjunto contra a crítica impressionista e genética das décadas anteriores, bem como a crítica social dos marxistas, os novos críticos não se constituíam um grupo coeso. Um exame mesmo que superficial dos vários posicionamentos dos maiores expoentes do movimento re- vela que havia várias divergências entre o grupo. Wellek argumenta, inclusive, em “The New Criticism: Pro and Contra” que talvez os críticos associados ao movimento devessem ser discutidos separa- damente devido aos diferentes posicionamentos que pronunciaram ao longo dos anos21. Kenneth Burke pode ser citado como exemplo de um crítico que, mesmo abraçando uma hermenêutica baseada apenas no texto, abria espaço