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C A R D I O L O G I A INSUFICIÊNCIA CARDÍACA P R O F . B R U N O F E R R A Z E P R O F . J U A N D E M O L I N A R I Insuficiência Cardíaca PROF. BRUNO FERRAZ E PROF. JUAN DEMOLINARI APRESENTAÇÃO: Caro colega Revalidando, Insuficiência cardíaca é um tema muito importante para a prática médica, mas não é muito lembrado nas provas do Revalida. Na prova do INEP, é o quarto tema mais importante na Cardiologia, enquanto na UFMT, é apenas o quinto tema! Os assuntos mais cobrados sobre esse tema estão relacionados ao diagnóstico e ao tratamento. Para entender insuficiência cardíaca, conhecer sua fisiopatologia é fundamental. Por isso, falaremos bastante sobre esse tema aqui e você vai entender o porquê. Segue abaixo a estatística da Cardiologia para o Revalida. O livro contém material escrito por mim e pelo Prof. Juan Demolinari (tratamento). Espero que goste deste livro! 11% 28% 25% 25% 11% 0% Arritmias Insuficiência Cardíaca INEP Coronariopa�as Hipertensão Arterial Valvopa�as Pericardio e Miocardiopa�as 9% 14% 24% 29% 19% 5% Arritmias Insuficiência Cardíaca UFMT Coronariopa�as Hipertensão Arterial Valvopa�as Pericardio e Miocardiopa�as 11% 19% 16% 26% 7% 21% Arritmias Insuficiência Cardíaca UFMT + INEP Coronariopa�as Hipertensão Arterial Valvopa�as Pericardio e Miocardiopa�as Insuficiência Cardíaca 11% 28% 25% 25% 11% 0% Arritmias Insuficiência Cardíaca INEP Coronariopa�as Hipertensão Arterial Valvopa�as Pericardio e Miocardiopa�as 9% 14% 24% 29% 19% 5% Arritmias Insuficiência Cardíaca UFMT Coronariopa�as Hipertensão Arterial Valvopa�as Pericardio e Miocardiopa�as 11% 19% 16% 26% 7% 21% Arritmias Insuficiência Cardíaca UFMT + INEP Coronariopa�as Hipertensão Arterial Valvopa�as Pericardio e Miocardiopa�as Sobre o professor Bruno Ferraz Sou Bruno Ferraz, carioca, vascaíno e portelense, nascido no subúrbio do Rio de Janeiro. Vim de uma família simples e lutei bastante para chegar à faculdade de Medicina. Desde a época do pré-vestibular (fiz o primeiro ENEM da história, que não valia aprovação), já gostava de ensinar Matemática e Física a meus colegas, e essa experiência garantiu minha aprovação em uma Universidade pública (física era matéria específica no vestibular de Medicina e mandei muito bem). Em 2001, entrei na UFRJ com 17 anos para cursar Medicina. Nessa época, a vida também não foi fácil. Fui monitor de diversas disciplinas, recebi bolsa de Iniciação Científica e dei muitos plantões como acadêmico para conseguir complementar renda. Por conta disso, não tive condições de fazer nenhum curso preparatório para Residência e resolvi estudar por conta própria. Alguns amigos e eu montamos um grupo de estudos e entendemos rapidamente a importância de estudar por questões. Depois de muita perseverança nos estudos e de milhares de questões respondidas, fui aprovado na Residência. Hoje, sou titulado em Cardiologia, Ecocardiografia e Terapia Intensiva. Fiz meu mestrado em Engenharia Biomédica na COPPE-UFRJ e estou terminando meu Doutorado em Cardiologia na UFRJ. Além disso, sou médico do serviço de Cardiologia do HUCFF/UFRJ. Sempre gostei de ensinar e o Estratégia MED proporcionou a oportunidade de fazer o que mais gosto. Espero que gostem do material construído com muito carinho! Grande abraço! Bruno Ferraz Insuficiência Cardíaca /estrategiamedt.me/estrategiamed Estratégia MED @profbrunoferraz @drjuandemolinari @estrategiamed Sobre o professor Juan Demolinari Caro Estrategista, Meu nome é Juan Demolinari Ferreira, sou médico formado pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) em 2013. Fiz Residência de Clínica Médica e Cardiologia no Hospital Therezinha de Jesus, vinculado à Faculdade de Ciências Médicas e da Saúde de Juiz de Fora - SUPREMA. Posteriormente, cursei Residência em Ecocardiografia no Hospital Universitário da UFJF. Antes do término da Residência em Cardiologia, ingressei no Hospital Universitário da UFJF por meio de concurso público, como preceptor da Residência de Clínica Médica (“o bom filho à casa torna”). Em 2018, vivi uma experiência curiosa nesse Hospital: em alguns períodos, atuava como Residente de Ecocardiografia e, em outros, como preceptor de Clínica Médica (quase um transtorno dissociativo de dupla personalidade). Logo que terminei a Residência de Ecocardiografia, fui convidado a ingressar na equipe de Cardiologia do Hospital Therezinha de Jesus como preceptor e chefe do Ambulatório de Insuficiência Cardíaca. No momento, trabalho diretamente na assistência a pacientes. No entanto, a maior parte da minha rotina é voltada para o ensino médico por meio da preceptoria direta dos Residentes e do ensino dos alunos do internato da UFJF, ministrando curso intensivo de Eletrocardiografia. Atuo, ainda, como preceptor da pós-graduação de Ecocardiografia da SUPREMA. Além disso, tenho a imensa alegria de compor o time de Cardiologia do melhor curso preparatório médico do País: o Estratégia MED! Por meio deste material, desejo transmitir todo o conhecimento adquirido em minha prática como cardiologista e, principalmente, todas as informações necessárias para que você seja aprovado em seu tão sonhado concurso do REVALIDA. Costumo dizer que os professores do Estratégia MED não são apenas brilhantes especialistas em suas áreas, mas também são peritos em provas! Nos últimos meses, solucionamos milhares de questões e, dessa forma, podemos apontar com segurança quais assuntos serão mais cobrados. Confie em nossa metodologia, dedique-se ao máximo e a vaga será sua! Conte comigo! Juan Demolinari. @estrategiamed https://www.facebook.com/estrategiamed1 https://t.me/estrategiamed https://www.youtube.com/channel/UCyNuIBnEwzsgA05XK1P6Dmw https://www.instagram.com/profbrunoferraz/ https://www.instagram.com/prof.alexandremelitto/ https://www.instagram.com/drjuandemolinari/ https://www.instagram.com/prof.alexandremelitto/ https://www.instagram.com/estrategiamed/ 5Prof. Bruno Ferraz e Prof. Juan Demolinari | Cardiologia Insuficiência Cardíaca SUMÁRIO 1.0. DEFINIÇÃO 7 2.0. EPIDEMIOLOGIA 7 3.0. CLASSIFICAÇÃO 8 4.0. ETIOLOGIA 12 5.0. FISIOPATOLOGIA 15 5.1 FISIOPATOLOGIA DA ICFER 16 5.2 FISIOPATOLOGIA DA ICFEP 18 5.3 FISIOPATOLOGIA DA IC DIREITA 22 6.0. MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS 23 7.0. DIAGNÓSTICO 27 8.0 EXAMES COMPLEMENTARES 30 8.1 RADIOGRAFIA DE TÓRAX 30 8.2 ELETROCARDIOGRAMA 32 8.3 ECOCARDIOGRAMA 32 8.4 CATETERISMO CARDÍACO 32 8.5 EXAMES LABORATORIAIS 33 8.6 OUTROS EXAMES 34 9.0 TRATAMENTO 34 9.1 TRATAMENTO NÃO FARMACOLÓGICO 34 9.2 TRATAMENTO FARMACOLÓGICO DA ICFER 35 9.3 DISPOSITIVOS CARDÍACOS IMPLANTÁVEIS NA ICFER 43 9.3.1 TERAPIA DE RESSINCRONIZAÇÃO CARDÍACA (TRC) 43 9.3.2 CARDIODESFIBRILADOR IMPLANTÁVEL (CDI) 45 6Prof. Bruno Ferraz e Prof. Juan Demolinari | Cardiologia Insuficiência Cardíaca 9.4 ALGORITMO DE TRATAMENTO DA ICFER 47 9.5 TRATAMENTO DA ICFEP 48 9.6 TRATAMENTO DA ICFELR 48 9.7 DROGAS CONTRAINDICADAS NA INSUFICIÊNCIA CARDÍACA 49 10.0 INSUFICIÊNCIA CARDÍACA AGUDA 50 10.1 CLASSIFICAÇÃO 51 10.2 CARACTERÍSTICAS FISIOPATOLÓGICAS E CLÍNICAS 53 10.3 AVALIAÇÃO INICIAL 55 10.4 ABORDAGEM TERAPÊUTICA 57 10.4.1 OXIGENOTERAPIA E SUPORTE VENTILATÓRIO 57 10.4.2 DIURÉTICOS 58 10.4.3 VASODILATADORES ENDOVENOSOS 59 10.4.4 INOTRÓPICOS 60 10.4.5 VASOPRESSORES 61 10.4.6 DIGITÁLICOS 62 10.4.7 OPIOIDES 63 10.4.8 MEDICAÇÕES ORAIS 63 10.4.9 ALGORITMO DE TRATAMENTO DA IC AGUDA 64 11.0 VERSÕES DAS AULAS 65 12.0 LISTA DE QUESTÕES 66 13.0 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 67 14.0 CONSIDERAÇÕES FINAIS 68 7Prof. Bruno Ferraz e Prof. Juan Demolinari | Cardiologia Insuficiência Cardíaca 1.0. DEFINIÇÃO CAPÍTULO CAPÍTULO O coração tem a função de bombear o sangue para todos os órgãos e tecidos. Para que isso ocorra, o coração precisa encher-se de sangue (diástole) e ejetá-lo (sístole). Qualquer condição que afete a sístole e/ou a diástole pode levar à insuficiênciamassagem de seio carotídeo. D) administração de lidocaína endovenosa. COMENTÁRIO: Correta a alternativa A. Os betabloqueadores controlam a frequência cardíaca na fibrilação atrial. Mas vale ressaltar que no caso da questão também poderíamos tentar a reversão do ritmo com medicações como amiodarona ou propafenona e eventualmente com cardioversão elétrica. Incorreta a alternativa B. A desfibrilação é uma cardioversão assincrônica e só está indicada em casos de parada cardiorrespiratória ou nas taquicardias irregulares de QRS largo, como a TV polimórfica. Para fibrilação atrial o indicado é a cardioversão sincronizada. Incorreta a alternativa C. A massagem do seio carotídeo é indicada para reversão da taquicardia paroxística supraventricular. Incorreta a alternativa D. A lidocaína está indicada no tratamento da taquicardia ventricular. Gabarito: alternativa A. 43Prof. Bruno Ferraz e Prof. Juan Demolinari | Cardiologia Insuficiência Cardíaca (REVALIDA INEP – 2011) Homem, com 43 anos de idade, é atendido na Unidade Básica de Saúde com queixa de dispneia aos grandes esforços, há seis meses. Não relata dor precordial, síncope ou palpitações. No exame, encontra- se em bom estado geral, eupneico, hidratado, corado. Pressão arterial = 100x70 mmHg, Frequência cardíaca =112bpm, Frequência respiratória = 18irpm; temperatura axilar = 36,5°C. Murmúrio vesicular presente e simétrico bilateralmente. Ritmo cardíaco regular, em dois tempos, bulhas hipofonéticas, com sopro sistólico de regurgitação mitral discreto. Abdome flácido, sem visceromegalias, ruídos hidroaéreos presentes e regularmente distribuídos. Sem edema de membros inferiores. Radiografia de tórax atual mostra aumento global da área cardíaca, sem congestão pulmonar. Ecocardiograma transtorácico mostra a fração de ejeção do ventrículo esquerdo igual a 35%. Com base nas evidências científicas indique a opção terapêutica para o caso. A) Hidroclorotiazida e carvedilol. B) Carvedilol e digoxina. C) Enalapril e metoprolol. D) Espironolactona e enalapril. E) Digoxina e hidroclorotiazida. COMENTÁRIOS: Caro Revalidando, Estamos diante de um paciente com quadro de dispneia aos grandes esforços, em que observamos aumento da área cardíaca e ecocardiograma revelando fração de ejeção reduzida. Com isso, não há dúvidas quanto ao diagnóstico de ICFER. Quais são as drogas que fazem parte do início do tratamento da ICFER? iECA e betabloqueadores! Incorreta a alternativa A: hidroclorotiazida não é droga de escolha no tratamento inicial da ICFER, mas pode ser utilizada em casos de edemas refratários. Incorreta a alternativa B: a digoxina não faz parte do tratamento inicial, mas pode ser utilizada em doentes sintomáticos em fase avançada da doença visando à redução de reinternações. Correta a alternativa C: única alternativa que contempla iECA e betabloqueador. Incorreta a alternativa D: a espironolactona será a próxima droga a ser acrescentada se o paciente persistir com sintomas com dose de iECA e betabloqueador otimizados. Incorreta a alternativa E: hidroclorotiazida e digoxina não fazem parte do tratamento inicial. Gabarito: alternativa C. 44Prof. Bruno Ferraz e Prof. Juan Demolinari | Cardiologia Insuficiência Cardíaca (REVALIDA UFMT – 2007) Paciente do sexo masculino, 65 anos de idade, apresentou sinais de descompensação cardíaca de moderada intensidade. Procurou Unidade Básica de Saúde e foi medicado com Digoxina 0,25 mg/dia e Furosemida 40 mg/dia. Após 20 dias voltou para o retorno, queixando-se de anorexia, vômitos e palpitações. A) Quais os prováveis diagnósticos desse paciente? Justifique. B) Quais as alterações no ECG são esperadas nesse paciente? Justifique. C) Proponha a conduta adequada para o caso; COMENTÁRIOS: Revalidando, Apesar de ser uma questão antiga, ela revisa conceitos que acabamos de aprender. Temos um paciente que não está recebendo o tratamento mais adequado para ICFER. Está em uso de digoxina! Vai ao hospital com queixas de anorexia, vômitos e palpitações, sinais clássicos de intoxicação digitálica! Gabarito: A) Intoxicação digitálica; B) sinal da pá do pedreiro (infradesnivelamento do segmento ST) ou sinal do bigode de Salvador Dalí; C) suspensão do digital, correção de distúrbios eletrolíticos e, se disponível, uso do anticorpo monoclonal específico (especialmente em casos mais graves). 9.3 DISPOSITIVOS CARDÍACOS IMPLANTÁVEIS NA ICFER Agora vamos estudar uma parte interessantíssima sobre o tratamento da ICFER. Além dos avanços no tratamento medicamentoso, que já falamos aqui, nos últimos anos, houve o desenvolvimento de alguns dispositivos cardíacos implantáveis que também mostraram benefício na redução de eventos cardiovasculares maiores (inclusive morte) em grandes ensaios clínicos. Tais dispositivos constituem a terapia de ressincronização cardíaca (TRC) e o cardiodesfibrilador implantável (CDI). 9.3.1 TERAPIA DE RESSINCRONIZAÇÃO CARDÍACA (TRC) Um dos mecanismos de perda de efetividade na contração cardíaca é a dissincronia ventricular. A insuficiência cardíaca está associada à ocorrência de remodelamento miocárdico, o que pode desencadear distúrbios da condução intraventricular, que promovem uma contração assincrônica entre os ventrículos esquerdo e direito e entre as paredes do ventrículo esquerdo. 45Prof. Bruno Ferraz e Prof. Juan Demolinari | Cardiologia Insuficiência Cardíaca A partir desse conhecimento, foi desenvolvida uma técnica capaz de recuperar o sincronismo ventricular, baseada na estimulação artificial de ambos os ventrículos de forma programada. Isso se dá por meio da colocação de um marca-passo com eletrodos de estimulação nos ventrículos direito e esquerdo (este Observe como, na primeira figura, a contração ventricular esquerda é assincrônica. Já na segunda figura, a colocação do ressincronizador restaura uma contração efetiva. Dessa forma, a TRC está formalmente indicada para os pacientes portadores de ICFER com FEVE ≤ 35%, que permanecem sintomáticos apesar do tratamento clínico otimizado, apresentando ECG com ritmo sinusal, portadores de BRE completo e com duração do complexo QRS ≥ 150 ms (já há indicação a partir de 120 ms). Esses pacientes foram os que mais se beneficiaram da TRC nos ensaios clínicos. último geralmente posicionado no seio coronariano). Com a recuperação da contração ventricular sincrônica, espera-se uma melhora da função ventricular e, consequentemente, dos sintomas de IC. Essa técnica de estimulação é denominada de terapia de ressincronização cardíaca (TRC). 46Prof. Bruno Ferraz e Prof. Juan Demolinari | Cardiologia Insuficiência Cardíaca Refratariedade ao tratamento clínico BRE com QRS largo Ritmo sinusal FEVE ≤ 35% TR C Critérios de boa resposta à terapia de ressincronização cardíaca (TRC). 9.3.2 CARDIODESFIBRILADOR IMPLANTÁVEL (CDI) A morte súbita é responsável por 30 a 50% dos óbitos dos portadores de IC, e cerca de 80% desses episódios são decorrentes de arritmias ventriculares, como taquicardia ventricular (TV) ou fibrilação ventricular (FV). Baseado nesses dados, foi desenvolvido um tipo de marca-passo com capacidade de reconhecer e, prontamente, tratar, por meio de um choque elétrico (desfibrilação ou cardioversão), arritmias ventriculares potencialmente graves, que poderiam causar morte súbita nos pacientes com ICFER. Tal dispositivo é o cardiodesfibrilador implantável (CDI). Essa terapia mostrou redução da mortalidade por arritmia ventricular em vários subgrupos de pacientes com ICFER, sendo superior às drogas antiarrítmicas. 47Prof. Bruno Ferraz e Prof. Juan Demolinari | Cardiologia Insuficiência Cardíaca Radiografia de tórax de um cardiodesfibrilador implantável. Ao identificar um ritmo chocável, o gerador do CDI envia uma onda de choque que percorre de um "coil" a outro, abortando uma possível morte súbita. A indicação do CDI pode ocorrer em dois contextos clínicos distintos: para prevençãosecundária (quando já houve algum evento de morte súbita ou arritmia ventricular grave instável documentado) e na prevenção primária de morte súbita (quando nunca houve evento arrítmico prévio documentado). O implante de CDI, na prevenção primária, ocorrerá na seguinte situação: pacientes com ICFER sintomática, com FE ≤ 35%, em uso de terapia medicamentosa otimizada, em classe funcional NYHA II e III e com boa expectativa de vida em 1 ano. Se o paciente for portador de cardiopatia isquêmica, devemos avaliar a FEVE pelo menos 40 dias após o episódio de infarto agudo do miocárdio e 90 dias após a cirurgia de revascularização miocárdica (recomenda-se aguardar esse período para avaliar a possível recuperação da função ventricular). Morte súbita abortada em TV/FV Síncope por TV/FV IC + TV IC com FEVE ≤ 35% e sintomas CD I Resumo das indicações de implante de CDI (cardiodesfibrilador implantável). TV: taquicardia ventricular; FV: fibrilação ventricular; IC: insuficiência cardíaca; FEVE: fração de ejeção do ventrículo esquerdo. 48Prof. Bruno Ferraz e Prof. Juan Demolinari | Cardiologia Insuficiência Cardíaca 9.4 ALGORITMO DE TRATAMENTO DA ICFER Deixamos aqui um algoritmo do tratamento com as informações resumidas. Gaste um tempo neste resumo, porque ele vai garantir a você questões sobre o tema! Insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida (NYHA II-IV / Estágio C iECA / BRA INRA* Betabloqueador Antagonista Mineralocorticóide CLASSE I INRA** Manter tratamento Encaminhamento para centro especializado (IC Avançada) iSGLT2† CLASSE IIa TRC H-NTRC CDI CDIIvabradina Digoxina NYHA ≥ II Reavaliação clínica e funcional em 3 - 6 meses Estratégias terapêuticas adicionais FEVE ≤ 35% Ritmo sinusal BRE QRS ≥ 150 ms *Em lugar do iECA/BRA ** Em substituição a iECA/BRA † Vide texto para diferenças entre agentes da mesma classe QRS ≥ 120 -149 ms Isquêmico Não-isquêmico FEVE ≤ 35% Ritmo sinusal FC > 70 bpm FEVE ≤ 30 - 35% FEVE ≤ 45% Ritmo sinusal Fibrilação atrial FEVE ≤ 35% Afrodescendente autodeclarado Assintomático NYHA ≥ II NYHA III/IVD iu ré tic os p ar a co nt ro le d e co ng es tã o iECA: inibidor da enzima conversora da angiotensina; BRA: bloqueador do receptor da angiotensina II; INRA: inibidor da neprilisina + BRA – sacubitril-valsartana; iSGLT2: inibidores da SGLT2 – dapaglifozina e empagliflozina; TRC: terapia de ressincronização cardíaca; H+N: hidralazina + nitrato; CDI: cardiodesfibrilador implantável. 49Prof. Bruno Ferraz e Prof. Juan Demolinari | Cardiologia Insuficiência Cardíaca Observe que é possível utilizar o sacubitril-valsartana como primeira opção, porém a classe de indicação é inferior a dos iECA/BRA. Além disso, um ponto forte desse fluxograma é definir que, se o paciente continuar sintomático após a terapia tripla otimizada, a quarta droga a ser utilizada deve ser ou o sacubitril-valsartana ou um inibidor da SGLT2. 9.5 TRATAMENTO DA ICFEP A insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada (ICFEP) é um subtipo de IC que vem sendo objeto de muitos ensaios clínicos recentes, uma vez que tem sido notado um aumento na incidência dessa doença na população, que está associada a certas comorbidades de alta prevalência, como hipertensão arterial, obesidade, doença coronariana e fibrilação atrial. Em comum, todas essas doenças provocam uma diminuição do relaxamento ventricular, o que ocasiona disfunção diastólica com aumento progressivo das pressões de enchimento ventriculares, alteração fisiopatológica fundamental no desenvolvimento da ICFEP. Para o diagnóstico, é obrigatório que a fração de ejeção do ventrículo esquerdo seja ≥ 50%. Diferentemente do que acontece na ICFER, na ICFEP, a maioria dos ensaios clínicos falhou em mostrar benefício de qualquer droga em redução de mortalidade, evidenciando, no máximo, benefício na melhora dos sintomas e na redução das taxas de hospitalização. Acredita-se que essa dificuldade de replicar os resultados da ICFER esteja relacionada a uma maior heterogeneidade da população portadora de ICFEP, o que implica maior dificuldade de uniformizar o tratamento. Na ICFEP, não existem drogas capazes de reduzir mortalidade, apenas sintomas e hospitalizações. Portanto, recomenda-se tratar as comorbidades. Nessa doença, não devemos usar drogas que melhorem a contratilidade cardíaca, já que o mecanismo da doença não é a disfunção sistólica. Sendo assim, devemos evitar usar os digitálicos nesse grupo de pacientes. 9.6 TRATAMENTO DA ICFELR O tratamento da ICFELR deve ser focado no controle adequado das comorbidades associadas e no tratamento específico da etiologia, sendo fundamental a pesquisa de doença coronariana devido à alta prevalência dessa condição. 50Prof. Bruno Ferraz e Prof. Juan Demolinari | Cardiologia Insuficiência Cardíaca Com relação ao tratamento medicamentoso da ICFELR, não existem ensaios clínicos randomizados desenhados especificamente para esse modelo de paciente; sendo assim, as recomendações são baseadas nos resultados de estudos feitos em pacientes com ICFEP e ICFER. De forma geral, se o paciente tinha uma ICFER que melhorou para ICFELR, devemos manter as medicações que ele usou. Nos demais pacientes, em geral, usamos, pelo menos, betabloqueadores e iECA ou BRA. 9.7 DROGAS CONTRAINDICADAS NA INSUFICIÊNCIA CARDÍACA Para finalizarmos nosso estudo sobre o tratamento da IC, é importante comentarmos sobre as medicações que devemos evitar nessa doença. Em quadros de insuficiência cardíaca, três tipos principais de drogas são contraindicados: as que causam retenção hidrossalina, as cardiodepressoras e as que aumentam a incidência de taquiarritmias malignas. O primeiro grupo é principalmente representado pelos AINES (ibuprofeno, diclofenaco, cetoprofeno, etc.), pelos corticoides e pelas glitazonas (pioglitazona, rosiglitazona). Já no segundo grupo, temos os bloqueadores dos canais de cálcio não di-hidropiridínicos (verapamil e diltiazem), a propafenona, os antidepressivos tricíclicos (amitriptilina, imipramina, nortriptilina, etc.) e os quimioterápicos cardiotóxicos (trastuzumabe, ciclofosfamida, antracíclicos, etc.). Por último, alguns antiarrítmicos podem causar arritmias malignas (TV/FV) em pacientes com alterações estruturais cardíacas, como na ICFER. São eles: o sotalol, a propafenona e a quinidina. Além desses três grandes grupos, o cilostazol, um inibidor da fosfodiesterase 3, que causa vasodilatação e antiagregação plaquetária, muito usado em insuficiências arteriais periféricas, apesar de nunca ter sido estudado na insuficiência cardíaca, é uma droga contraindicada, já que pertence à mesma classe do milrinone oral que, quando testado, aumentou arritmias e morte na insuficiência cardíaca. Drogas contraindicadas na IC AINES Corticoides Glitazonas BCC não di-hidropiridínicos Propafenona Antidepressivos tricíclicos Quimioterápicos cardiotóxicos Cilostazol Sotalol Quinidina 51Prof. Bruno Ferraz e Prof. Juan Demolinari | Cardiologia Insuficiência Cardíaca 10.0 INSUFICIÊNCIA CARDÍACA AGUDA A insuficiência cardíaca (IC) aguda ou descompensada é definida como um quadro de falência da função cardíaca (sistólica e/ou diastólica) de início rápido e progressivo que pode acontecer em paciente com ou sem história de IC. Na maioria das vezes, irá apresentar-se como um quadro de dispneia progressiva (começando aos grandes esforços até estar presente em repouso). Em outros casos, será um quadro de dispneia súbita, em que outras características da IC estarão presentes (apresentação típica do edema agudo de pulmão). A IC aguda pode ser causada pela deterioração natural da função cardíaca ou precipitada por um fator. É fundamental identificarmos a presença de um fator causal em todos os pacientes com IC aguda, pois esta pode ser a chave para compensação de nosso paciente! Nos pacientes sem históricode IC, devemos pensar em disfunção miocárdica aguda (isquêmica, inflamatória ou tóxica), disfunção valvar aguda ou tamponamento cardíaco. Nos pacientes com histórico de IC, a descompensação pode ocorrer sem nenhum fator causal, mas alguns fatores podem estar presentes, como infecção, hipertensão não controlada, distúrbios do ritmo ou má aderência ao tratamento. A tabela abaixo resume os principais fatores de descompensação. Fatores que desencadeiam descompensação da insuficiência cardíaca Síndrome coronariana aguda Taquiarritmias (fibrilação atrial, taquicardia ventricular...) Elevação da pressão arterial Infecção Má aderência terapêutica (ingesta excessiva de sal e água, uso inadequado de medicamentos) Bradiarritmias Substâncias tóxicas (álcool, drogas ilícitas) Drogas cardiotóxicas (anti-inflamatórios não esteroidais, corticosteroides, quimioterapia cardiotóxica) CAPÍTULO 52Prof. Bruno Ferraz e Prof. Juan Demolinari | Cardiologia Insuficiência Cardíaca Fatores que desencadeiam descompensação da insuficiência cardíaca Exacerbação do DPOC Embolia pulmonar Cirurgia ou complicações perioperatórias Aumento do tônus simpático (cardiomiopatia por estresse) Alterações metabólicas/hormonais (disfunção tireoidiana, cetoacidose diabética, disfunção adrenal, gravidez, cardiomiopatia periparto) Insulto cerebrovascular Causa mecânica aguda (síndrome coronariana aguda complicando com ruptura de parede livre, defeito de septo interatrial, insuficiência mitral aguda); trauma de tórax ou intervenção cardíaca, incompetência de prótese valvar secundária à endocardite; dissecção aórtica 10.1 CLASSIFICAÇÃO A classificação é parte fundamental na abordagem inicial do paciente com IC aguda, visto que orienta toda a terapêutica. Basicamente, são avaliados dois parâmetros: volemia e perfusão. Com relação à volemia, pacientes com sinais e sintomas de hipervolemia são classificados como congestos (úmidos). Na ausência desses sintomas, definimos como secos. Quanto à perfusão, pacientes com baixo débito são chamados de frios, enquanto aqueles com perfusão preservada são denominados de quentes. Definimos, assim, 4 situações: 53Prof. Bruno Ferraz e Prof. Juan Demolinari | Cardiologia Insuficiência Cardíaca 54Prof. Bruno Ferraz e Prof. Juan Demolinari | Cardiologia Insuficiência Cardíaca Os sinais e sintomas presentes nesses grupos estão resumidos na figura abaixo. 55Prof. Bruno Ferraz e Prof. Juan Demolinari | Cardiologia Insuficiência Cardíaca 10.2 CARACTERÍSTICAS FISIOPATOLÓGICAS E CLÍNICAS O mecanismo fisiopatológico da IC aguda nova é diferente do paciente crônico (IC crônica agudizada). A IC aguda nova corresponde ao paciente sem história prévia de IC que desenvolve quadro de IC descompensada. A tabela abaixo sumariza os mecanismos fisiopatológicas e apresentação clínica de ambas as condições. Características fisiopatológicas e clínicas da insuficiência cardíaca aguda crônica descompensada e IC aguda nova IC aguda crônica descompensada (60 a 75% dos pacientes) IC aguda nova (25 a 40% dos pacientes) Mecanismo ↓ Contratilidade Retenção de água e sódio ↑ Pós-carga e/ou Disfunção diastólica do VE Perda aguda da contração Padrão de congestão Aumento global da volemia (hipervolemia sistêmica) Redistribuição da volemia da periferia para pulmão (hipervolemia pulmonar) Início dos sintomas Gradual (dias) Rápido (horas) Sintoma principal Dispneia ou fadiga Dispneia PAS Normal ou baixa Alta ou normal (PA baixa é incomum) PD2 +++ ++++++ FEVE e DC Reduzidos Normais ou reduzidos Edema de mmii Frequente Infrequente Ganho de peso Sim Não VE: ventrículo esquerdo; PAS: pressão arterial sistólica; PD2: pressão diastólica final do ventrículo esquerdo; FEVE: fração de ejeção do ventrículo esquerdo; DC: débito cardíaco. 56Prof. Bruno Ferraz e Prof. Juan Demolinari | Cardiologia Insuficiência Cardíaca 10.3 AVALIAÇÃO INICIAL Toda sequência de avaliação inicial objetiva a pronta identificação do paciente com maior risco de morte, portanto deve ser iniciada rapidamente! O diagnóstico deve ser breve e baseado na história pregressa de insuficiência cardíaca, na identificação de sinais e sintomas clássicos de IC e no uso de exames adicionais nos casos duvidosos. O algoritmo abaixo sumariza todo o protocolo de avaliação inicial: De uma maneira bem simples, a fisiopatologia envolve 3 itens: pré-carga, pós-carga e contratilidade. O manejo adequado delas vai ser fundamental na compensação do quadro cardíaco. A figura abaixo sumariza os mecanismos relacionados a essa fisiopatologia e às drogas que podem ser empregadas para compensação. 57Prof. Bruno Ferraz e Prof. Juan Demolinari | Cardiologia Insuficiência Cardíaca Repare que o algoritmo acima visa à identificação de todas as situações que demandam conduta imediata! Ele deve ser implementado a partir do primeiro contato médico. Uma vez descartadas essas condições iniciais, devemos buscar o diagnóstico e pedir ajuda aos exames laboratoriais: • Radiografia de tórax: auxilia no diagnóstico diferencial entre causas torácicas e pulmonares da dispneia, além de permitir avaliação da congestão pulmonar. • Eletrocardiograma: fundamental na avaliação inicial do paciente com IC, pois pode fornecer informações quanto à etiologia da IC ou ao fator de descompensação. Um eletrocardiograma (ECG) normal na IC é incomum. • Ecocardiograma: deve ser realizado imediatamente em pacientes com instabilidade hemodinâmica. Deve ser realizado precocemente nos pacientes com primeira manifestação de IC e em pacientes com função ventricular desconhecida. A ultrassonografia pulmonar também pode fornecer ajuda no diagnóstico diferencial de congestão (conseguimos ver as linhas B de Kerley com auxílio do ultrassom). • Exames laboratoriais: na fisiopatologia da IC, a sobrecarga ventricular promove aumento da produção de peptídeos natriuréticos (BNP). Por isso, o BNP deve ser mensurado em todos os pacientes com dispneia aguda e suspeita de IC aguda para ajudar no diagnóstico diferencial de outras causas de dispneia aguda. Como o exame tem alta sensibilidade, um exame negativo praticamente exclui a possibilidade de IC aguda. Paciente com suspeita de IC aguda Suporte circulatório • Farmacológico • Mecânico Confirmar a IC e condutas iniciais Paciente está em choque cardiogênico? Não Não Sim Sim Não Sim Paciente está em insuficiência respiratória? Tratamento específico Estabilização imediata Transferência para CTI FASE URGENTE FASE INICIAL 60-120 minutos iniciais Suporte ventilatório • Oxigênio • VNI • VM C H A M E o médico: (descubra a causa) Coronariano? Hipertensivo? Arritmia? Mecânico? Embolia Pulmonar? Manejo inicial do paciente com IC aguda. VNI: ventilação não invasiva; VM: ventilação mecânica; CTI: centro de Tratamento Intensivo. 58Prof. Bruno Ferraz e Prof. Juan Demolinari | Cardiologia Insuficiência Cardíaca 10.4 ABORDAGEM TERAPÊUTICA 10.4.1 OXIGENOTERAPIA E SUPORTE VENTILATÓRIO Você pode estar se perguntando: por que este tópico? Paciente está com dispneia, logo devemos sempre oferecer oxigênio. Calma, calma... o oxigênio pode causar vasoconstrição e redução do débito cardíaco. Com isso, não deve ser usado para todos. Vamos usar nos pacientes hipoxêmicos (SpO2pressão positiva nas vias aéreas, tenha muita cautela em pacientes hipotensos, pois pode ocorrer queda brusca da pressão arterial. Os pacientes que não respondem à VNI ou que evoluem para insuficiência respiratória com hipoxemia (PaO2 50 mmHg) ou acidose (pH 25 irpm) Insuficiência respiratória Hipercapnia (PaCO2 > 50 mmHg) Acidose (pH 90 mmHg. 61Prof. Bruno Ferraz e Prof. Juan Demolinari | Cardiologia Insuficiência Cardíaca VASODILATADORES ENDOVENOSOS Para quem? Pacientes com congestão pulmonar e/ou sistêmica Pacientes com pressão arterial sistólica acima de 90 mmHg Como? Nitroglicerina endovenosa (ampola de 5 ou 10 mL – 5 mg/mL): Em bomba infusora: 10-100 mcg/min Nitroprussiato de sódio endovenoso (ampola de 2 mL – 25 mg/mL) Em bomba infusora: 1-10 mg/h Cautela Nitroprussiato: usar equipo fotossensível e evitar infusão prolongada e em altas doses (intoxicação por tiocianato) Cuidado com hipotensão – manter PAS > 90 mmHg Por quê? Reduzem a pressão arterial e pressão capilar pulmonar Aumentam débito cardíaco e frequência cardíaca 10.4.4 INOTRÓPICOS Nos pacientes com perfusão inadequada (FRIOS), precisamos de medicamentos que promovem aumento da contratilidade miocárdica (INOTRÓPICOS). Dispomos de três drogas em classes diferentes: agonistas beta- adrenérgicos, inibidores da fosfodiesterase III e sensibilizadores de cálcio. A dobutamina (agonista beta-adrenérgico) é o agente inotrópico mais utilizado. Deve ser utilizada preferencialmente em casos de IC descompensada com hipotensão ou choque cardiogênico. Como atuam no receptor beta, pode ser necessário o uso de doses mais elevadas em pacientes com uso prévio de betabloqueadores. Seu efeito é dosedependente (quanto maior a dose, maior o efeito inotrópico). Os principais efeitos limitantes são: potencial arritmogênico e redução de sua ação com uso prolongado. A milrinona (inibidor da fosfodiesterase III) possui propriedade inotrópica e vasodilatadora. Pode ser utilizada em pacientes com uso prévio de betabloqueadores e naqueles com hipertensão pulmonar. Deve ser evitada em portadores de cardiopatia isquêmica, pois, em um estudo com pacientes isquêmicos, essa droga aumentou potencial arritmogênico. A levosimendana (sensibilizador de cálcio) promove melhora na contratilidade miocárdica e hemodinâmica semelhante à dobutamina e à milrinona. Também possui propriedade vasodilatadora e é segura em pacientes com uso prévio de betabloqueador. Seu principalefeito colateral é hipotensão, por isso não pode ser utilizada em pacientes com choque cardiogênico. Alguns estudos compararam a levosimendana à dobutamina e verificaram que não houve diferença na mortalidade. Uma particularidade interessante dessa droga é a infusão única de 24 horas. Seus efeitos hemodinâmicos persistem por até 2 semanas. 62Prof. Bruno Ferraz e Prof. Juan Demolinari | Cardiologia Insuficiência Cardíaca INOTRÓPICOS Para quem? Pacientes com perfusão inadequada (FRIOS) Como? Dobutamina endovenosa (ampola de 20 mL – 12,5 mg/mL): Em bomba infusora: 2,5-20 mcg/kg/min Milrinona endovenosa (ampola de 20 mL – 1 mg/mL) Em bomba infusora: 0,375-0,750 mcg/kg/min Levosimendana endovenosa (ampola de 5 mL – 2,5mg/mL) Em bomba infusora: 0,05-0,20 mcg/kg/min Cautela Efeito vasodilatador (todos inotrópicos) Efeito arritmogênico (todos inotrópicos) Usuários de betabloqueador (demanda dobutamina em altas doses) Portadores de cardiopatia isquêmica (não usar milrinona) Choque cardiogênico (só utilizar dobutamina) Por quê? Aumentam o inotropismo (força de contração cardíaca) 10.4.5 VASOPRESSORES Em algumas situações, a pressão arterial está tão baixa que compromete a perfusão tecidual. Nesse caso, precisamos do auxílio dos vasopressores para manter uma pressão arterial mínima adequada. Essas medicações devem ser feitas com cautela, pois podem aumentar a pós-carga e atrapalhar o esvaziamento cardíaco, comprometendo o débito cardíaco. Com isso, são drogas que devem ser feitas no paciente com CHOQUE CARDIOGÊNICO! Logo, esses pacientes devem estar em uso concomitante de DOBUTAMINA. Alguns estudos compararam a dopamina à noradrenalina em diversas situações de choque. Esses estudos sugerem que a noradrenalina resulta em menos efeitos colaterais e menor mortalidade. A adrenalina também pode ser utilizada, mas somente em casos selecionados de hipotensão persistente, apesar da pressão de enchimento adequado e do uso de outros vasopressores. 63Prof. Bruno Ferraz e Prof. Juan Demolinari | Cardiologia Insuficiência Cardíaca VASOPRESSORES Para quem? Hipotensão arterial refratária (PAS 110 bpm Como? Deslanosídeo endovenoso (ampola de 2 mL – 0,2 mg/mL): Dose de ataque: 1 a 2 ampolas Dose de manutenção: 1 ou 2 ampolas diárias Dose máxima: 2 mg/dia Cautela Intoxicação digitálica (mais comum em pacientes idosos, renais crônicos e hepatopatas) – náuseas, vômitos, bradicardia acentuada, distúrbios visuais e outros Por quê? Reduz a frequência cardíaca por sua atividade vagomimética e simpaticoinibitória 64Prof. Bruno Ferraz e Prof. Juan Demolinari | Cardiologia Insuficiência Cardíaca 10.4.7 OPIOIDES Utilizados para redução da sensação de dispneia, com melhora da ansiedade e da pré-carga (efeito vasodilatador). Devem ser utilizados com cautela devido ao risco de depressão respiratória e de broncoespasmo por liberação de histamina. O opioide mais utilizado é a morfina, que é muito recomendada nos casos de edema agudo de pulmão. No entanto, o uso atual de morfina vem sendo questionado, pois algumas publicações sugeriram aumento da taxa de intubações e mortalidade com seu uso, visto que os opioides promovem depressão respiratória e maior incidência de vômitos (risco de broncoaspiração). OPIOIDES Para quem? Edema agudo de pulmão Dispneia severa Como? Morfina endovenosa (ampola de 1 mL – 1 mg/mL): Dose: 2-4 mg Cautela Pode causar depressão respiratória e bradicardia Por quê? Reduzem a pré-carga Aliviam a dispneia e ansiedade 10.4.8 MEDICAÇÕES ORAIS Após toda a abordagem endovenosa do paciente com IC aguda, chega o momento de definição sobre as medicações orais. Devemos decidir quais drogas devemos manter, quais suspender e quais iniciar. Medicação oral está recomendada para pacientes com estabilidade hemodinâmica e sem uso de inotrópicos ou vasodilatadores endovenosos. Comentaremos sobre esses medicamentos a seguir. BETABLOQUEADORES São drogas fundamentais no tratamento da insuficiência cardíaca. Aumentam a sobrevida e reduzem o risco de progressão de doença. Em pacientes sem uso prévio da droga, sua introdução deve estar condicionada à melhora dos sintomas, especialmente da congestão. Naqueles que já faziam uso da droga, esta deve ser mantida na mesma dose em situações em que não há hipoperfusão tecidual (perfil hemodinâmico quente). Nos pacientes com perfil hemodinâmico frio, a conduta deve ser individualizada, em que pode ser considerada uma redução em 50% da dose habitual ou suspensão do fármaco (casos mais graves, como o choque cardiogênico). 65Prof. Bruno Ferraz e Prof. Juan Demolinari | Cardiologia Insuficiência Cardíaca INIBIDORES DA ECA/BLOQUEADORES DOS RECEPTORES DE ANGIOTENSINA São benéficos na redução da pré- e pós-carga e na redução da mortalidade em pacientes com IC. O uso deve ser com cautela em pacientes com IC descompensada, uma vez que podem piorar a função renal ou gerar hipotensão. Sua introdução deve ser feita após quadro clínico estabilizado, visto que a IC aguda é uma condição hiperreninêmica. Na ausência de hipotensão sintomática ou contraindicações (disfunção renal grave e/ou hipercalemia), o iECA/BRA pode ser mantido ou iniciado. 10.4.9 ALGORITMO DE TRATAMENTO DA IC AGUDA O conhecimento do perfil hemodinâmico guiará a terapêutica. O primeiro passo é identificar se o paciente está congesto. Caso afirmativo, esse paciente deve receber diurético. O próximo passo é definir se há hipoperfusão tecidual. Se houver, devemos avaliar a necessidade de inotrópico! Se a pressão estiver muito baixa (PASResolva questões pelo computador Copie o link abaixo e cole no seu navegador para acessar o site Resolva questões pelo app Aponte a câmera do seu celular para o QR Code abaixo e acesse o app 11.0 LISTA DE QUESTÕES https://estr.at/DQ1p https://estr.at/DQ1p 67Prof. Bruno Ferraz e Prof. Juan Demolinari | Cardiologia Insuficiência Cardíaca 12.0 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CAPÍTULO 1. Diretriz Brasileira de Insuficiência Cardíaca Crônica e Aguda. Arq. Bras Cardiol. 2018; 111(3):436-539. 2. 2016 ESC Guidelines for the diagnosis and treatment of acute and chronic heart failure: The Task Force for the diagnosis and treatment of acute and chronic heart failure of the European Society of Cardiology (ESC) Developed with the special contribution of the Heart Failure Association (HFA) of the ESC. European Heart Journal, Volume 37, Issue 27, 14 July 2016, Pages 2129–2200. 3. Kalil & Fuster. Medicina Cardiovascular. Editora Atheneu, 2016. 4. Pathophysiology of heart failure with reduced ejection fraction: Hemodynamic alterations and remodeling. Uptodate.com (acesso em 30/05/2020). 5. Medicina Interna de Harrison. 20° edição, 2019. J. Larry Jameson, Anthony S. Fauci, Dennis L. Kasper, Stephen L. Hauser, Dan L. Longo, Joseph Loscalzo. 6. Marcondes-Braga et al. Atualização de Tópicos Emergentes da Diretriz Brasileira de Insuficiência Cardíaca – 2021. Arq Bras Cardiol. 2020; [online].ahead print, PP.0-0. 7. 2017 ACC/AHA/ HFSA Focused Update of the 2013 ACCF/AHA Guideline for the Management of Heart Failure. JACC. 2017 August; 70 (6): 776-803 8. 2013 ACCF / AHA Guideline for the Management of Heart Failure. JACC. 2013 October 15; 62 (16): 147-239. 9. Jameson JL. Doenças do sistema cardiovascular; In: Kasper DL. Medicina Interna de Harrison – Parte 10 – Seção 4– Doenças do coração; Capítulo 280 – Insuficiência Cardíaca: Manejo. 19ª Edição. Porto Alegre: AMGH Editora; 2017: 6281-6307. 10. Medicina Intensiva: abordagem prática. Luciano César Pontes de Azevedo, Leandro Utino Taniguchi, José Paulo Ladeira. 2ª edição. Manole, 2015. 11. Cardiac Intensive Care. Allen Jeremias, David L. Brown. 2nd ed. 13.0 CONSIDERAÇÕES FINAIS CAPÍTULO Caro colega Revalidando, Insuficiência Cardíaca é um tema denso e com muitas informações. Espero que tenha gostado da construção didática deste livro. Se alguma dúvida persistir, utilize o Fórum de Dúvidas! Terei o maior prazer em responder a seus questionamentos. Também estou disponível no Instagram (@profbrunoferraz) e por meio do e-mail (bruno.ferraz@estrategiamed.com.br). Até o próximo tema! Bruno Ferraz. mailto:bruno.ferraz@estrategiamed.com.br 1.0. Definição 2.0. Epidemiologia 3.0. Classificação 4.0. Etiologia 5.0. Fisiopatologia 5.1 Fisiopatologia da ICFER 5.2 Fisiopatologia da ICFEP 5.3 Fisiopatologia da IC direita 6.0. Manifestações clínicas 7.0. Diagnóstico 8.0 Exames complementares 8.1 Radiografia de tórax 8.2 Eletrocardiograma 8.3 Ecocardiograma 8.4 Cateterismo cardíaco 8.5 Exames laboratoriais 8.6 Outros exames 9.0 Tratamento 9.1 Tratamento não farmacológico 9.2 Tratamento farmacológico da ICFER 9.3 Dispositivos cardíacos implantáveis na ICFER 9.3.1 Terapia de ressincronização cardíaca (TRC) 9.3.2 Cardiodesfibrilador implantável (CDI) 9.4 Algoritmo de tratamento da ICFER 9.5 Tratamento da ICFEP 9.6 Tratamento da ICFELR 9.7 Drogas contraindicadas na insuficiência cardíaca 10.0 Insuficiência cardíaca aguda 10.1 Classificação 10.2 Características fisiopatológicas e clínicas 10.3 Avaliação inicial 10.4 Abordagem terapêutica 10.4.1 Oxigenoterapia e suporte ventilatório 10.4.2 Diuréticos 10.4.3 Vasodilatadores endovenosos 10.4.4 Inotrópicos 10.4.5 Vasopressores 10.4.6 Digitálicos 10.4.7 Opioides 10.4.8 Medicações orais 10.4.9 Algoritmo de tratamento da IC aguda 12.0 Lista de questões 13.0 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAScardíaca (IC). Com isso, o principal achado fisiopatológico da IC é a presença de débito cardíaco reduzido e/ou de pressões de enchimento elevadas durante o repouso ou aos esforços. A IC é uma síndrome e, com isso, apresenta-se como um conjunto de sinais (turgência jugular, crepitações pulmonares, edema periférico, entre outros) e sintomas (cansaço, falta de ar, fadiga, entre outros). Assim, identificar a origem do problema cardíaco é fundamental para entender a fisiopatologia e propor o tratamento. A IC apresenta diversos estágios, mas seu diagnóstico é apenas realizado na fase sintomática. Antes dessa fase, existem alterações estruturais no coração que podem comprometer seu funcionamento, assim como afetar o controle autonômico. Por isso, não usamos mais o termo “ICC” (insuficiência cardíaca congestiva), já que podemos identificar pacientes portadores de IC sem congestão. 2.0. EPIDEMIOLOGIA A IC está presente em 1 a 2% da população adulta e sua prevalência aumenta com a idade. Em idosos (> 70 anos), pode atingir níveis superiores a 10% da população. No Brasil, é a principal causa de internação hospitalar e apresenta elevada mortalidade. A sobrevida após 5 anos do diagnóstico é baixa (em torno de 35%), inferior a diversos tipos de câncer. O maior registro brasileiro de insuficiência cardíaca aguda é o estudo BREATHE, que foi um estudo multicêntrico que incluiu hospitais públicos e privados de todas as regiões do Brasil. Assim como em estudos realizados em outros países, a maior prevalência de IC aguda foi observada em idosos, com predomínio de mulheres. Houve predomínio da IC com fração de ejeção reduzida (58,7%) e um número significativo de doentes hipertensos (70,8%). As principais etiologias foram: isquêmica (30,3%) e hipertensiva (20,4%). Ressalta-se a importante prevalência de doença de Chagas (10,8%), com amplo predomínio na região Norte, onde atinge prevalência de 42,4%. 8Prof. Bruno Ferraz e Prof. Juan Demolinari | Cardiologia Insuficiência Cardíaca CAPÍTULO 3.0. CLASSIFICAÇÃO A insuficiência cardíaca pode ser classificada de 3 formas distintas: conforme fração de ejeção, estágio da doença e sintomas. A classificação mais utilizada nos concursos é, sem dúvida, a classificação baseada em sintomas proposta pela New York Heart Association (NYHA): Classificação de IC baseada em sintomas – New York Heart Association (NYHA) NYHA I Sem sintomas aos esforços. Tolera bem as atividades cotidianas NYHA II Cansaço ou dispneia aos esforços cotidianos NYHA III Cansaço ou dispneia aos pequenos esforços NYHA IV Não consegue fazer nenhuma atividade sem cansaço ou dispneia. Sintomas podem surgir em repouso De uma forma bem simples: Paciente classe I: não cansa Paciente classe II: cansa um pouco Paciente classe III: cansa muito Paciente classe IV: vive cansado até no repouso! É fundamental que você decore essa classificação! 9Prof. Bruno Ferraz e Prof. Juan Demolinari | Cardiologia Insuficiência Cardíaca CAI NA PROVA (REVALIDA UFMT - 2019) Paciente feminina, 34 anos, moradora em zona rural, procura atendimento médico por estar "sentindo cansaço severo" que a impede de trabalhar "como antes", sentindo "palpitações" nos últimos seis meses. Tonsilites estreptocócicas de repetição. Exame físico: pressão arterial de 110 x 60 mmHg; frequência cardíaca de 118 batimentos por minuto; sopro diastólico em foco mitral, rude (++/4+); estertores crepitantes em ambas as bases pulmonares, discreta dor à palpação profunda em hipocôndrio direito; edema perimaleolar bilateralmente (+/4+). Submetida a eletrocardiograma em seis derivações (abaixo). Considerando a história clínica e o eletrocardiograma, qual a classe funcional dessa paciente, segundo a classificação NYHA (New York Heart Association)? COMENTÁRIOS: Vamos lá: nosso paciente alega dispneia AOS MÍNIMOS ESFORÇOS! Ele cansa muito ou cansa pouco? Cansa muito. Quem cansa muito? O paciente com classe funcional III! Vamos relembrar: Classe I: não cansa Classe II: cansa pouco Classe III: cansa muito Classe IV: vive cansado Gabarito: CLASSE III. (REVALIDA UFMT - 2009) Paciente do sexo masculino, 40 anos, com hipertensão arterial sistêmica controlada por medicação e dieta, apresentando dispneia ao subir lance de escada ou pedalar por mais de uma quadra, com astenia e discreto edema perimaleolar vespertino. RX do tórax com sinais de hipertrofia ventricular esquerda e leve ectasia aórtica. A) Qual o estágio e a classe funcional (NYHA) da cardiopatia apresentada pelo paciente? Justifique. COMENTÁRIOS: Vamos lá: nosso paciente alega dispneia durante atividades físicas habituais. Ele cansa muito ou cansa pouco? Cansa pouco. Quem cansa pouco? O paciente com classe funcional II! Vamos relembrar: 10Prof. Bruno Ferraz e Prof. Juan Demolinari | Cardiologia Insuficiência Cardíaca Classe I: não cansa Classe II: cansa pouco Classe III: cansa muito Classe IV: vive cansado Gabarito: CLASSE II. Antigamente, baseados na fração de ejeção, classificávamos os pacientes em dois grupos: IC diastólica ou ICFEN (IC com fração de ejeção normal, em que a fração de ejeção era superior a 50%) e IC sistólica ou ICFER (IC com fração de ejeção reduzida, em que a fração de ejeção era inferior a 50%). Muitas questões antigas abordam esses conceitos, assim como algumas mais atuais. Em 2016, a Sociedade Europeia de Cardiologia publicou uma nova diretriz que modificou a classificação conforme a fração de ejeção, incluindo o conceito de IC com fração de ejeção intermediária (fração de ejeção entre 40 a 49%). Em 2018, a Sociedade Brasileira de Cardiologia também adotou essa classificação. Em 2021, essa classificação foi novamente modificada, alterando a ICFEI para IC com fração de ejeção levemente reduzida (ICFELR). A figura abaixo resume a classificação por FE mais atual: Essa classificação causa impacto diretamente no tratamento. Algumas drogas apresentam benefício comprovado nos pacientes com FE reduzida, mas não na FE normal. E muitas questões podem explorar esses conceitos. Portanto, fique atento! FE ≥ 50% FE entre 40 e 49% FEa função sistólica como a diastólica. A IC de causa sistólica está relacionada ao dano miocárdico (infarto, miocardite) e à sobrecarga ventricular (valvopatia, hipertensão) e resultam, invariavelmente, em dilatação da cavidade ventricular (explicaremos na fisiopatologia). A IC de causa diastólica está relacionada à restrição no enchimento ventricular (cardiopatias restritivas, hipertensão, cardiopatias de depósito), em que a hipertrofia e a disfunção diastólica com elevadas pressões de enchimento serão as principais características. Principal causa de IC sistólica: cardiopatia isquêmica Principal causa de IC diastólica: cardiopatia hipertensiva Além das condições que afetam primariamente o ventrículo esquerdo (VE), existem situações que levam exclusivamente à insuficiência cardíaca direita, como cor pulmonale (relacionado à DPOC), tromboembolismo pulmonar, estenose mitral e outros. Por fim, existem as famosas causas de IC de alto débito, pouco frequentes na prática clínica, mas presentes nas provas do Revalida: hipertireoidismo (tireotoxicose), deficiência de tiamina ou vitamina B1 (beri béri), cirrose, sepse, entre outras. A tabela abaixo sumariza as principais causas: IC sistólica IC diastólica IC direita IC de alto débito Doença arterial coronariana HVE (fase inicial da cardiopatia hipertensiva) Cor pulmonale Hipertireoidismo Valvopatias que geram sobrecarga ventricular Cardiomiopatia hipertrófica TEP Beri béri HAS (fase final da cardiopatia hipertensiva) Miocárdio não compactado HAP primária Cirrose hepática Álcool/drogas Amiloidose Estenose mitral Sepse Doença de Chagas Endomiocardiofibrose Doença de Paget Miocardite Doença arterial coronariana Obesidade Cardiomiopatia periparto Estenose aórtica Shunt arteriovenoso IAM: infarto agudo do miocárdio, HAS: hipertensão arterial sistêmica; HVE: hipertrofia ventricular esquerda; TEP: tromboembolismo pulmonar; HAP: hipertensão arterial pulmonar. 13Prof. Bruno Ferraz e Prof. Juan Demolinari | Cardiologia Insuficiência Cardíaca CAI NA PROVA (REVALIDA UFMT – 2014) Miocardiopatia dilatada NÃO ocorre em associação com: A) Alcoolismo. B) Desnutrição severa. C) Estenose mitral descompensada. D) Doença de Chagas. COMENTÁRIOS: Caro Revalidando, Temos uma questão sobre etiologia da insuficiência cardíaca! Quando o enunciado diz "miocardiopatia dilatada", ele quer saber as causas de ICFER. Vamos relembrar as principais causas de ICFER? Doença arterial coronariana Valvopatias que geram sobrecarga ventricular HAS (fase final da cardiopatia hipertensiva) Álcool/drogas Doença de Chagas Miocardite Cardiomiopatia periparto Correta a alternativa A: alcoolismo é causa de ICFER. Correta a alternativa B: apesar de desnutrição não estar na lista, pode ser causa de ICFER, especialmente em crianças. Incorreta a alternativa C: a estenose mitral, classicamente, poupa o ventrículo esquerdo e é uma causa clássica de ICFEP. Correta a alternativa D: doença de Chagas é causa importante de ICFER no Brasil. Gabarito: alternativa C. 14Prof. Bruno Ferraz e Prof. Juan Demolinari | Cardiologia Insuficiência Cardíaca (REVALIDA UFMT – 2011) A insuficiência cardíaca de alto débito NÃO faz parte das manifestações clínicas de A) Tireotoxicose. B) Doença de Paget óssea. C) Fístula arteriovenosa. D) Feocromocitoma. E) Beriberi. COMENTÁRIOS: Caro Revalidando, Mais uma questão sobre etiologia da insuficiência cardíaca! Dessa vez, a questão cobra causas de IC de alto débito. Vamos relembrar as principais causas? Hipertireoidismo Beri béri Cirrose hepática Sepse Doença de Paget Obesidade Shunt arteriovenoso Correta as alternativas A, B, C e E: são causas de IC de alto débito. Incorreta a alternativa D: feocromocitoma não é causa de IC de alto débito. A etiologia deve ser sempre buscada na história, no exame físico e nos exames complementares, pois estes norteiam o tratamento a ser implementado em seu paciente. Lembre-se de que a insuficiência cardíaca é uma síndrome que tem uma CAUSA! A tabela abaixo sumariza a história clínica das principais etiologias de IC: Gabarito: alternativa D. 15Prof. Bruno Ferraz e Prof. Juan Demolinari | Cardiologia Insuficiência Cardíaca História clínica das principais etiologias de IC Doença arterial coronariana Paciente com fatores de risco para doença coronariana, apresentando episódios de precordialgia aos esforços que melhoram com repouso; quadro súbito de dor torácica de grande intensidade com eletrocardiograma alterado Valvopatias História de febre reumática na infância (dor de garganta de repetição e sintomas articulares); presença de sopro cardíaco; algumas valvopatias geram longos períodos assintomáticos, enquanto outras são muito sintomáticas HAS Longo tempo assintomático, controle inadequado da pressão arterial, evolui com cansaço aos esforços, sinais de hipertrofia ventricular (B4, íctus propulsivo). Pode abrir o quadro com edema agudo de pulmão hipertensivo Miocardite Quadro viral recente, evoluindo com cansaço e/ou dor torácica. Há aumento de marcadores de necrose miocárdica, assim como pode alterar o eletrocardiograma Doença de Chagas Morador ou viagem recente à área endêmica. ECG com bloqueio de ramo direito e hemibloqueio anterior esquerdo Cardiopatia hipertrófica Jovem com quadro de síncope e/ou palpitações aos esforços. História de morte súbita precoce na família 5.0. FISIOPATOLOGIA O entendimento da fisiopatologia da IC é fundamental para compreensão da sintomatologia e do tratamento preconizado nesses pacientes. Há importantes diferenças nos mecanismos fisiopatológicos da IC sistólica e diastólica, mas sabemos que a IC diastólica não tratada evolui para IC sistólica devido à sobrecarga de cavidades. A IC sistólica está associada a um remodelamento excêntrico das fibras cardíacas, com dilatação das cavidades e fração de ejeção reduzida. A IC diastólica está associada ao remodelamento concêntrico das fibras cardíacas, com hipertrofia das cavidades e fração de ejeção preservada/normal. Não se assuste, iremos clarear esses conceitos agora! CAPÍTULO 16Prof. Bruno Ferraz e Prof. Juan Demolinari | Cardiologia Insuficiência Cardíaca 5.1 FISIOPATOLOGIA DA ICFER Na ICFER, encontramos redução no volume sanguíneo ejetado por distúrbio primário na ejeção ventricular. O organismo responde a essa redução do volume ejetado de 3 formas: 1. Mecanismo de Frank-Starling: imagine o coração como uma grande cama elástica. Quanto maior a quantidade de sangue que chega ao coração, maior a distensão de suas fibras e mais sangue é ejetado. No entanto, tanto o coração como a cama elástica têm um limite de distensão. Após atingir esse limite, as fibras não respondem mais com aumento do débito cardíaco. A quantidade de sangue que chega ao coração é denominada pré-carga. Na ICFER, encontramos sobrecarga de volume na cavidade ventricular esquerda, o que comprometerá o débito cardíaco. Por isso, utilizamos diuréticos para reduzir a sobrecarga de volume no coração. O mecanismo de Frank-Starling: existe um ponto máximo de distensão das paredes ventriculares. A partir desse ponto, as fibras musculares não conseguem responder com aumento da contratilidade, piorando o volume sistólico. Em A, temos o modelo de um doente hipovolêmico, em que há redução do débito cardíaco, pois chega pouco sangue ao coração. Em B, temos o paciente normovolêmico. Em C, temos o doente hipervolêmico, em que a sobrecarga hídrica impede uma ejeção eficaz. 2. Sistemas neuro-hormonais: a ativação do sistema neuro-hormonal ocorre devido à redução do débito cardíaco e à elevação das pressões de enchimento. A redução do débito cardíaco ativa barorreceptores periféricos que promovem resposta compensatória por meio do aumento do tônus adrenérgico (eles acham que a pressão arterial está baixa e tentam compensar isso). Assim, ocorre aumento da frequência cardíaca e aumento da liberação renal de renina (que é mediada, principalmente,pela hipoperfusão renal). O uso de betabloqueadores objetiva interromper esse mecanismo. 17Prof. Bruno Ferraz e Prof. Juan Demolinari | Cardiologia Insuficiência Cardíaca O baixo débito cardíaco também reduz a perfusão renal, que responde com intensa ativação do sistema renina-angiotensina-aldosterona (SRAA), promovendo retenção de sódio e água (responsável pelo quadro congestivo da insuficiência cardíaca) e vasoconstrição periférica (aumento da pós-carga). Esses mecanismos justificam o uso de inibidores da ECA/bloqueadores do receptor de angiotensina e antagonistas da aldosterona na IC. Em pacientes não tratados cronicamente, a elevação das catecolaminas, da angiotensina II (potente estimulador de hipertrofia ventricular) e da aldosterona aumenta o gasto energético miocárdico, induzindo apoptose dos miócitos e deposição de colágeno, que, por sua vez, geram fibrose miocárdica, responsável pela ocorrência de arritmias graves nesses pacientes (ver capítulo de taquiarritmias). A hipervolemia e o aumento do estresse ventricular gerado pela sobrecarga estimula o aumento sérico do BNP (peptídeo natriurético cerebral). Esse hormônio apresenta potente ação natriurética de vasodilatação e supressão do sistema renina-angiotensina-aldosterona. Como você deve ter reparado, ele é um mecanismo compensatório. Esse marcador será útil no diagnóstico de IC em algumas situações, como veremos à frente. Além do BNP, outras moléculas vasodilatadoras endógenas são ativadas em menor escala, como bradicinina, prostaglandinas e óxido nítrico, na tentativa de compensar o quadro excessivo de vasoconstrição periférica. Em contrapartida, a neprilisina, que apresenta atividade aumentada na IC, degrada essas moléculas vasodilatadoras (incluindo o BNP), o que promove efeito vasoconstritor e reduz o efeito dessas moléculas. Por isso, justifica-se o uso de um medicamento, o famoso sacubitril-valsartana, que atua inibindo esse mecanismo, em que o sacubitril é um inibidor da neprilisina. Você já pode imaginar que essa droga aumenta o BNP, não é? A figura abaixo resume toda a fisiopatologia neuro-hormonal da IC. Hipoperfusão renal Ativação do SRAA Retenção de sódio e água Ativação de barorreceptores BETABLOQUEADOR ANTAGONISTAS DA ALDOSTERONA IECA/BRA Liberação de catecolaminas Aumento do inotropismo e cronotropismo Redução do débito cardíaco HIPERVOLEMIA VASOCONSTRICÇÃO AUMENTO DO TÔNUS SIMPÁTICO APOPTOSE DOS MIÓCITOS DIURÉTICOS Fisiopatologia esquematizada da ICFER. SRAA: sistema renina-angiotensina-aldosterona 18Prof. Bruno Ferraz e Prof. Juan Demolinari | Cardiologia Insuficiência Cardíaca 3. Remodelamento cardíaco: o remodelamento é a dilatação ventricular e a perda da conformação cardíaca (assume um formato esférico). O tratamento medicamentoso objetiva evitar a ocorrência desse remodelamento, já que a agressão miocárdica decorrente dos processos adaptativos (necrose e apoptose induzidas pelas catecolaminas e sistema renina-angiotensina-aldosterona, além de hipertrofia dos miócitos remanescentes) pode ser irreversível. Você observou bem? Com a morte de diversos grupamentos celulares, os miócitos remanescentes precisam dar conta do recado: eles hipertrofiam! Então vamos memorizar os principais achados histológicos associados ao remodelamento cardíaco: perda de miócitos por apoptose, hipertrofia dos miócitos remanescentes, proliferação de fibroblastos e fibrose. 5.2 FISIOPATOLOGIA DA ICFEP A fisiopatologia da IC diastólica é diferente. O mecanismo primário para o desenvolvimento da IC diastólica é a sobrecarga pressórica no ventrículo esquerdo (VE), que gera hipertrofia e aumento das pressões de enchimento. A causa mais comum é a hipertensão arterial, mas pode acontecer em qualquer situação que gere sobrecarga ventricular esquerda (estenose aórtica, por exemplo). A hipertensão arterial será utilizada abaixo para explicar a progressão para IC. O esvaziamento atrial que ocorre na diástole dá-se em 2 etapas: enchimento rápido do ventrículo e contração atrial. 70% desse processo ocorre na fase de enchimento rápido. No paciente hipertenso, a elevação da pressão na raiz da aorta dificulta o esvaziamento ventricular, levando à sobrecarga de pressão no VE. A resposta a essa sobrecarga é a hipertrofia ventricular esquerda (HVE). Há um aumento da pressão dentro do VE (pressão diastólica final ou Pd2), que dificulta o esvaziamento atrial (que, por sua vez, depende da diferença de pressão entre o átrio e o ventrículo). Assim, a contração atrial começa a ter um papel mais importante no esvaziamento atrial (assim surge B4...). Com a piora da hipertrofia e a sobrecarga de pressão no VE, o átrio esquerdo (AE) fica progressivamente mais sobrecarregado, o que leva à sua dilatação (por isso, pacientes com disfunção diastólica têm maior risco e maior prevalência de fibrilação atrial). 19Prof. Bruno Ferraz e Prof. Juan Demolinari | Cardiologia Insuficiência Cardíaca Nesse momento, há sobrecarga de cavidades esquerdas (AE e VE), o que acarreta o aumento da pressão venocapilar pulmonar. Por fim, esse aumento promove o edema intersticial pulmonar, o que provocará a dispneia. Nessa fase adaptativa, qualquer situação súbita de descontrole de duplo-produto (aumento da pressão arterial e/ ou frequência cardíaca) pode provocar o famoso quadro de edema agudo de pulmão. Com o passar do tempo, a sobrecarga de cavidades direitas gera repercussão no lado direito do coração, levando às manifestações sistêmicas da insuficiência cardíaca. No paciente com disfunção diastólica e sem tratamento adequado, a hipertrofia concêntrica evoluirá para hipertrofia excêntrica e dilatação da cavidade ventricular esquerda, evoluindo de maneira semelhante à fisiopatologia da IC sistólica. Na hipertrofia excêntrica, a espessura da parede ventricular pode ser normal, mas a massa do ventrículo esquerdo estará aumentada. 20Prof. Bruno Ferraz e Prof. Juan Demolinari | Cardiologia Insuficiência Cardíaca CAI NA PROVA (REVALIDA UFMT - 2017) NÃO faz parte das manifestações clínicas da hipertrofia concêntrica do ventrículo esquerdo: A) Insuficiência cardíaca restritiva. B) Insuficiência cardíaca de alto débito. C) Presença de quarta bulha na ausculta. D) RX de tórax nos limites da normalidade. COMENTÁRIOS: Caro Revalidando, A hipertrofia concêntrica é o mecanismo fisiopatológico básico da ICFEP. Nesse caso, teremos os componentes diastólicos afetados e, com isso, observaremos aumento das pressões de enchimento e redução no débito cardíaco. Sabendo disso, vamos analisar as alternativas: Correta a alternativa A: na ICFEP, haverá restrição diastólica, como ocorre nas cardiopatias restritivas. Incorreta a alternativa B: não há aumento do débito cardíaco. As causas de IC de alto débito já foram mencionadas neste livro e incluem beri béri, tireotoxicose, entre outros. Correta a alternativa C: a quarta bulha é a manifestação da contração atrial, que se torna mais vigorosa em resposta à sobrecarga ventricular esquerda (o átrio precisa fazer mais força para encher o ventrículo). Correta a alternativa D: nas fases iniciais da ICFEP, não observamos aumento nos diâmetros do coração, apenas aumento da massa do VE (hipertrofia concêntrica). Nas fases mais avançadas, podemos observar cardiomegalia (hipertrofia excêntrica). Gabarito: alternativa B. (REVALIDA INEP - 2015) Um homem de 70 anos de idade é atendido no ambulatório de cardiologia com queixa de dispneia aos grandes esforços há um mês, com progressão para os médios esforços. Trata-se de paciente hipertenso, em tratamento irregular com clortalidona (25 mg/dia), tabagista há 30 anos (20 cigarros/dia). Ao exame físico, estava orientado; hipocorado (++/4+); hidratado. A ausculta cardíaca apresenta-se com ritmo cardíaco regular, hiperfonese em B2, sem sopros; ausculta pulmonar com sibilos esparsos e estertores crepitantes em bases.Pressão arterial = 170 x 90 mmHg; frequência cardíaca = 85 bpm e IMC = 32 kg/m². Eletrocardiogramas anteriores demonstravam sobrecarga atrial esquerda. O ecocardiograma atual evidencia parede posterior do ventrículo esquerdo de 14 mm (VR 58%). A radiografia de tórax demonstra área cardíaca normal, com inversão de trama vascular. Quais são, respectivamente, a hipótese diagnóstica mais provável e a conduta apropriada a ser estabelecida nesse caso? 21Prof. Bruno Ferraz e Prof. Juan Demolinari | Cardiologia Insuficiência Cardíaca A) Insuficiência cardíaca diastólica secundária à doença pulmonar obstrutiva crônica; recomendar repouso associado a bloqueador de canal de cálcio. B) Insuficiência cardíaca diastólica secundária à hipertensão arterial; recomendar repouso associado a inibidores da enzima conversora de angiotensina. C) Insuficiência cardíaca sistólica secundária à hipertensão pulmonar; recomendar dieta com redução da ingestão de sal associada a betabloqueadores. D) Insuficiência cardíaca sistólica secundária à miocardiopatia hipertrófica; recomendar redução da ingestão de sal associada a antagonista da aldosterona. COMENTÁRIOS: Caro Revalidando, Nessa questão, temos o protótipo clássico da ICFEP, que é o paciente hipertenso em tratamento irregular. Observe que ele segue com níveis pressóricos elevados e o ecocardiograma confirma a hipertrofia ventricular esquerda, além da fração de ejeção preservada. Com isso, podemos afirmar que estamos diante de um paciente com ICFEP (conhecida antigamente como IC diastólica) causada por hipertensão arterial. No capítulo de tratamento, veremos que a abordagem da ICFEP envolve o controle dos fatores de risco (nesse caso, a hipertensão). Vamos analisar as afirmativas: Incorreta a alternativa A: o paciente com doença pulmonar obstrutiva crônica desenvolve IC direita (famoso cor pulmonale). Nesses casos, não há manifestações em cavidades esquerdas. Na questão, evidenciamos importante hipertrofia ventricular esquerda, fato não observado nos pacientes com cor pulmonale. Correta a alternativa B: conforme explicado acima, essa é a evolução clássica da hipertensão arterial não tratada. O tratamento envolve o uso de vasodilatadores para controle pressórico e de diuréticos para aliviar a congestão. Incorreta a alternativa C: paciente apresenta fração de ejeção normal ao ecocardiograma. Além disso, a hipertensão pulmonar gera insuficiência cardíaca direita. Incorreta a alternativa D: paciente apresenta fração de ejeção normal ao ecocardiograma. Além disso, a miocardiopatia hipertrófica causa, primariamente, disfunção diastólica. Gabarito: alternativa B. 22Prof. Bruno Ferraz e Prof. Juan Demolinari | Cardiologia Insuficiência Cardíaca 5.3 FISIOPATOLOGIA DA IC DIREITA O ventrículo direito (VD) é uma cavidade com características diferentes do VE. Ele faz a conexão da circulação sistêmica com a circulação pulmonar. Fisiologicamente, é uma cavidade que lida com baixas pressões e, com isso, tem musculatura menos desenvolvida. Por outro lado, como o retorno venoso é variável, o VD tem grande capacidade de adaptação à volemia. Dessa forma, falamos que o VD tolera volume muito bem, mas não tolera pressão! Além disso, o VD divide o septo interventricular com o VE. Assim, parte da força contrátil do VD depende da contração septal. Dessa maneira, você deve imaginar que a dinâmica de contração ventricular vai ficar prejudicada nos pacientes com bloqueios de ramo (o VE e o VD contrairão em momentos diferentes). A maioria dos casos de IC direita está relacionada ao aumento da pós-carga direita (associada a doenças pulmonares ou à sobrecarga de cavidades esquerdas), mas também pode ocorrer em casos de dano à musculatura ventricular direita (infarto de VD, por exemplo). Quando a disfunção de VD ocorre por doença pulmonar, o quadro é chamado de cor pulmonale. A IC direita pode ocorrer de maneira aguda (tromboembolismo pulmonar, por exemplo) ou crônica. Na IC direita aguda, o VD não tem tempo para tentar adaptar-se à sobrecarga de pressão e, com isso, dilata bastante. Se a causa de base não for resolvida, essa sobrecarga de pressão comprometerá o funcionamento do VE, pois o VD sobrecarregado irá comprimir o VE, dificultando seu enchimento (ver figura abaixo). 23Prof. Bruno Ferraz e Prof. Juan Demolinari | Cardiologia Insuficiência Cardíaca Na IC direita crônica, o VD consegue adaptar-se à sobrecarga de pressão com hipertrofia ventricular direita. Esses mecanismos serão revisados e aprofundados no capítulo sobre hipertensão pulmonar. 6.0. MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS Pacientes com dano miocárdico (estágio B), que potencialmente leva à IC, permanecem assintomáticos por muito tempo devido aos mecanismos compensatórios de origem neuro-hormonal e simpático citados no item anterior. Quando esses mecanismos não são suficientes, surgem os sintomas, que podem ser decorrentes do quadro congestivo ou de baixo débito. A sobrecarga de cavidades esquerdas (presente na IC sistólica e diastólica) promove aumento da pressão venocapilar pulmonar. Esse aumento de pressão ocasiona extravasamento de líquido vascular para o interstício pulmonar. O sistema linfático consegue absorver esse líquido extravasado até um limite. Quando a pressão venocapilar é superior a 20-25 mmHg, a drenagem linfática é insuficiente, o que acarreta o surgimento do edema pulmonar, responsável por toda a sintomatologia respiratória na IC (cansaço, dispneia aos esforços, ortopneia, dispneia paroxística noturna...). Aumento da pressão venocapilar pulmonar é a causa dos sintomas respiratórios da IC (cansaço, dispneia, ortopneia...). Quando há sobrecarga em cavidades direitas, observamos a congestão sistêmica (turgência jugular patológica, edema de membros inferiores, ascite, refluxo hepatojugular...). De uma maneira bem simples, o trânsito de sangue “engarrafa” antes do problema. Se o problema é no VE, “engarrafa” primeiro o pulmão, depois o VD e, depois, todo o organismo. Se o problema é exclusivamente no VD, o engarrafamento será sistêmico, poupando o pulmão! A história clínica e o exame físico serão fundamentais na avaliação inicial do paciente com suspeita de IC. O sintoma que geralmente leva o paciente a procurar ajuda médica é a dispneia. Como diversas doenças podem levar à dispneia, esse sintoma é pouco específico para o diagnóstico, mas pode ser o primeiro indício de congestão pulmonar. Alguns sintomas que devem ser investigados nesses pacientes: CAPÍTULO 24Prof. Bruno Ferraz e Prof. Juan Demolinari | Cardiologia Insuficiência Cardíaca • Ortopneia: dispneia ao deitar-se. Sintoma típico, mas inespecífico. Uma forma de questionar esse sintoma é perguntando o número de travesseiros que o paciente utiliza para dormir. • Dispneia paroxística noturna: surge horas após se deitar. É uma dispneia súbita que desperta o paciente. Esse sintoma é mais específico para o diagnóstico de IC. • Tosse noturna: secundária à congestão da parede brônquica. Pode estar associada à dispneia paroxística noturna. Em quadros mais acentuados, pode gerar broncoespasmo (“asma cardíaca”). • Fadiga: origem multifatorial. Os mecanismos associados à fadiga na IC são desencadeados pela perfusão sanguínea inadequada, que afeta os músculos respiratórios e periféricos, levando à diminuição da capacidade oxidativa. A fadiga afeta mais da metade dos pacientes com IC e está associada a uma redução na qualidade de vida, à restrição de atividade física e a pior prognóstico. Em casos mais avançados de IC, podemos ter congestão sistêmica secundária à falência do ventrículo direito (VD). Nesses casos, a dispneia pode tornar-se menos frequente, visto que a insuficiência ventricular direita ou a insuficiência tricúspide impedem um bom funcionamento doVD, o que reduz a quantidade de sangue disponível na circulação pulmonar, que, por sua vez, ocasiona menor extravasamento de líquido para o alvéolo. A insuficiência cardíaca esquerda é a principal causa de hipertensão pulmonar secundária que acarretará, mais tardiamente, a disfunção de VD. São sintomas relacionados à disfunção de VD: • Edema de membros inferiores: bilateral e sem sinais de trombose venosa profunda. • Aumento do volume abdominal: ascite com padrão de transudato. • Derrame pleural: causa de dispneia em pacientes com disfunção de VD (transudato). • Hepatomegalia: dor abdominal em hipocôndrio direito. • Congestão da mucosa intestinal: saciedade precoce, caquexia, diarreia, náuseas. Os sintomas de baixo débito (cansaço, fadiga, sonolência, mialgia e lipotimia) também podem estar presentes, especialmente na população com doença mais grave e avançada. Na história clínica, devemos buscar dados que possam auxiliar na identificação da causa da IC (questionar comorbidades, quadros virais recentes, doenças na infância, viagens recentes) e do fator de descompensação (exercício, infecção, sobrecarga hídrica, má adesão terapêutica, arritmias, síndrome coronariana aguda...). O exame físico é peça fundamental no diagnóstico de IC. Os sinais mais específicos para o diagnóstico de IC são: presença de B3 e turgência jugular patológica. Na figura abaixo, pontuaremos os principais achados semiológicos da insuficiência cardíaca. 25Prof. Bruno Ferraz e Prof. Juan Demolinari | Cardiologia Insuficiência Cardíaca De uma maneira resumida, os sinais e sintomas estarão todos relacionados aos mecanismos fisiopatológicos da doença, como demonstramos na tabela e na figura abaixo: CORRELAÇÃO FISIOPATOLÓGICA DOS SINAIS/SINTOMAS DE IC Congestão pulmonar Ortopneia, dispneia paroxística noturna, tosse noturna, crepitações pulmonares, derrame pleural Congestão sistêmica Turgência jugular patológica, refluxo hepatojugular, ascite, hepatomegalia, ganho de peso, edema de membros inferiores Baixo débito cardíaco Extremidades frias, baixo débito urinário, sonolência, prostração, cansaço, anorexia, pulsos reduzidos, pulso alternans Aumento do tônus simpático Taquicardia, palpitações, síncope Sobrecarga de câmaras cardíacas B4 (sobrecarga de pressão), B3 (sobrecarga de volume), desvio de ictus cordis, sopro mitral (dilatação anel), ictus VD palpável 26Prof. Bruno Ferraz e Prof. Juan Demolinari | Cardiologia Insuficiência Cardíaca CAI NA PROVA (REVALIDA UFMT – 2012) Na presença de turgência jugular patológica, o refluxo hepatojugular é indicativo de A) congestão venosa central, com a veia cava superior pérvia. B) insuficiência cardíaca congestiva. C) cor pulmonale. D) pericardite constrictiva. E) tamponamento pericárdico. COMENTÁRIOS: Caro Revalidando, A turgência jugular patológica é um sinal de congestão sistêmica ou de sobrecarga de cavidades direitas, podendo ser ocasionada por diversas situações. Quando há refluxo hepatojugular, a origem da turgência será, necessariamente, a congestão sistêmica, visto que, na situação de sobrecarga de cavidades direitas, a pressão exercida no fígado seria incapaz de gerar o refluxo. Correta a alternativa A: conforme justificado acima. Incorreta a alternativa B: a insuficiência cardíaca congestiva é causa de ambas as situações (turgência jugular e refluxo hepatojugular). No entanto, não podemos fazer o diagnóstico apenas com esses dois dados. Só podemos dar certeza de que há congestão sistêmica! Incorreta a alternativa C: o cor pulmonale é a disfunção de VD secundária à pneumopatia crônica que leva à sobrecarga de cavidades direitas. Como vimos, nesse caso, observamos congestão sistêmica. Incorreta a alternativa D: nas pericardites constritivas, há limitação do enchimento ventricular e, assim, sobrecarga de cavidades direitas. Incorreta a alternativa E: no tamponamento, há importante sobrecarga pressórica, especialmente de cavidades direitas. Gabarito: alternativa A. 27Prof. Bruno Ferraz e Prof. Juan Demolinari | Cardiologia Insuficiência Cardíaca 7.0. DIAGNÓSTICO O diagnóstico é CLÍNICO. Uma boa história clínica e um bom exame físico serão suficientes para o diagnóstico sindrômico de insuficiência cardíaca na maioria das vezes. Os exames complementares auxiliam nos casos duvidosos, na investigação da etiologia, na identificação de complicações e na causa da descompensação. Para o diagnóstico, utilizamos os critérios de Framingham (mais cobrados em provas): CRITÉRIOS DE FRAMINGHAM PARA DIAGNÓSTICO DE IC Critérios maiores Critérios menores Dispneia paroxística noturna Edema de tornozelos bilateral Turgência jugular Tosse noturna Crepitações pulmonares Dispneia aos esforços Cardiomegalia à radiografia de tórax Hepatomegalia Edema agudo de pulmão Derrame pleural Terceira bulha (B3) Diminuição da capacidade funcional em 1/3 da máxima registrada previamente Aumento da PVC (> 16 cmH2O) Taquicardia (FC > 120 bpm) Perda de peso > 4,5 kg em 5 dias em resposta ao tratamento Para o diagnóstico de IC, devemos ter 2 critérios maiores SIMULTÂNEOS ou 1 critério maior e 2 menores. Uma maneira bem simples de memorizar esses critérios: os critérios maiores são específicos (são menos frequentes, mas, se estiverem presentes, aumentam a chance de IC) e os menores são sensíveis (são muito frequentes, mas estão presentes em várias outras condições). CAPÍTULO 28Prof. Bruno Ferraz e Prof. Juan Demolinari | Cardiologia Insuficiência Cardíaca CAI NA PROVA (REVALIDA UFMT – 2013) Homem negro, 45 anos, natural e procedente de Ilhéus-BA, mecânico, há 18 meses com cansaço fácil, dispneia progressiva aos grandes e médios esforços, dor discreta no hipocôndrio direito e edema dos membros inferiores, ascendente, sem sinais flogísticos, acentuando-se à tarde. Refere febrícula e sudorese no período noturno, com artralgias eventuais. Há 30 dias vem apresentando episódios de síncope em ortostatismo, sem fator desencadeante, melhorando com decúbito dorsal. Há 15 dias apresentou hemiparesia à esquerda, regredindo em poucas horas. Há 6 dias apresentou amaurose temporária à direita e dor, com palidez e resfriamento, no hálux esquerdo. Tabagista de 15 anos/maço, tendo parado há 2 anos. Etilismo de 200 ml de destilados/dia, há 15 anos. Nega uso de drogas ilícitas. Refere banhos de açudes em vários municípios da Bahia e relações sexuais desprotegidas eventuais. Exame físico: bom estado geral e nutricional, hipocorado +/++++, acianótico, anictérico, hidratado. Sem linfonodomegalia. Tireoide normal. Exame neurológico sem alterações. Ap. resp.: estertores crepitantes bibasais. ACV: ictus palpável no 5.º espaço intercostal esquerdo, linha hemiclavicular. RR4T, com B3 e B4, bulhas hipofonéticas nos focos de ponta. Sopro holossistólico ++/++++ em foco mitral, modificando-se com a mudança de decúbito. Pulsos normais, sendo de forma episódica e eventual impalpáveis, em posição ortostática. PA 110 × 70 mmHg. FC 105 bpm. Turgência jugular a 60 graus, com refluxo hepatojugular. Abdome: hepatomegalia dolorosa e espaço de Traube maciço. MMII: edema das pernas, frio, mole, indolor, com cacifo. A partir das informações dadas, responda o item a seguir: Qual a síndrome clínica apresentada pelo paciente? COMENTÁRIOS: Revalidando, Temos um paciente com sinais e sintomas clássicos de insuficiência cardíaca. Estamos diante de um doente com quadro clínico de dispneia progressiva, que sempre deve ligar o alerta para esse diagnóstico. Além disso, temos sinais claros de congestão pulmonar (estertores crepitantes, ritmo de galope) e sistêmica (edema de membros inferiores, turgência jugular, hepatomegalia). Nem precisamos usar os critérios de Framingham para fechar o diagnóstico, não é? Gabarito: insuficiência cardíaca congestiva. 29Prof. Bruno Ferraz e Prof. Juan Demolinari | Cardiologia Insuficiência Cardíaca Quando o diagnóstico segue duvidoso, podemos lançarem mais de 70% dos pacientes). Na maioria dos casos, o nível sérico será menor do que 3 mg/ dL à custa de bilirrubina indireta. Nesses doentes, o nível sérico de bilirrubina tem valor prognóstico. As transaminases estão discretamente elevadas em 1/3 dos pacientes (até 3x o valor de referência). • Cinética do ferro: metade dos pacientes com IC apresenta deficiência de ferro mesmo sem anemia presente, o que confere pior prognóstico. Devemos dosar ferritina sérica e saturação de transferrina em todos os pacientes com IC. Em caso de deficiência, está recomendada a reposição por via INTRAVENOSA, com o objetivo de melhorar a capacidade funcional, a qualidade de vida e de reduzir hospitalizações, independentemente da fração de ejeção. Estudos com reposição oral não demonstraram benefícios (absorção ineficaz). 34Prof. Bruno Ferraz e Prof. Juan Demolinari | Cardiologia Insuficiência Cardíaca 8.6 OUTROS EXAMES Alguns exames podem ser considerados em situações específicas, como: Ressonância magnética cardíaca: padrão-ouro para identificação de cardiopatias não isquêmicas, assim como na medida dos volumes, da massa miocárdica e da fração de ejeção de ambas as cavidades ventriculares. Deve ser solicitada na suspeita de cardiopatias infiltrativas (amiloidose, sarcoidose...) e de cardiopatias estruturais (displasia arritmogênica de VD, endomiocardiofibrose, cardiomiopatia hipertrófica...). Teste ergométrico: não é útil para o diagnóstico. Pode ser utilizado para avaliação de capacidade funcional e determinação de programa de reabilitação cardíaca. Cintilografia miocárdica: útil na identificação de isquemia e na avaliação de viabilidade miocárdica e denervação miocárdica. Também pode estimar a fração de ejeção. Biópsia endomiocárdica: seu uso é bastante restrito, visto que não há tratamento específico para a maioria das causas de IC de etiologia viral. Em situações específicas (miocardite de células gigantes, eosinofílica necrotizante e sarcoidose), mudam a terapêutica e o prognóstico dos doentes. 9.0 TRATAMENTO Existem diferenças quanto ao tratamento de pacientes com IC. Portanto, vamos dividir nosso estudo da abordagem farmacológica da IC de acordo com a classificação pela fração de ejeção, abordando, de forma independente, o tratamento em cada um dos grupos mencionados. 9.1 TRATAMENTO NÃO FARMACOLÓGICO Esse não é um dos temas mais “queridinhos das provas”. Portanto, para que você não perca tempo, resumimos os principais componentes do tratamento não farmacológico da IC, com maior grau de recomendação, na tabela abaixo: CAPÍTULO 35Prof. Bruno Ferraz e Prof. Juan Demolinari | Cardiologia Insuficiência Cardíaca Medidas não farmacológicas recomendadas na IC Medida Recomendação Classe de indicação Programa multidisciplinar de cuidado Visa melhorar a adesão, o autocuidado e, dessa forma, reduzir morbidade, hospitalizações e mortalidade por IC. IA Reabilitação ICFER Exercício aeróbico regular para ICFER NYHA II a III para melhorar qualidade de vida e capacidade funcional - aumenta o consumo pico de oxigênio (VO2). IA Vacinação Imunização para influenza anualmente e pneumococo a cada 5 anos para prevenção de fatores agravantes de IC. IB/IC Reabilitação ICFEP Exercício aeróbico regular para ICFEP NYHA II a III para melhorar capacidade funcional e função diastólica. IIA Ácidos graxos poli-insaturados n-3 (ômega 3) Suplementação alimentar com ácidos graxos poli-insaturados n-3 para redução de mortalidade e internações. IIA Restrição salina Evitar ingesta de sal superior a 7 gramas/dia (equivalente a 2,8 gramas de sódio). IIA Entre os pontos mais comumente abordados sobre terapia não farmacológica, um dos mais polêmicos é a restrição hídrica. Você observou que a tabela acima não contempla esse tema? O motivo é simples. Essa conduta, embora muito difundida na prática clínica, não encontra evidências robustas de benefício na literatura. Sendo assim, a mais recente Diretriz Brasileira de Insuficiência Cardíaca não recomenda a restrição hídrica como uma terapia para IC. Quanto à ingesta de bebidas alcoólicas, pacientes portadores de miocardiopatia dilatada causada pelo álcool devem ser aconselhados a interromper completamente o uso, o que pode se associar à melhora significativa da função ventricular. Já nos pacientes portadores de IC de outras etiologias, o uso permissivo de bebidas alcoólicas em pequenas quantidades diárias (≤ 10 mL de álcool para as mulheres e ≤ 20 mL de álcool para os homens) pode ser tolerado. 9.2 TRATAMENTO FARMACOLÓGICO DA ICFER Agora é hora de atenção total! Dê uma boa golada em um café forte e venha comigo estudar um dos temas mais quentes de toda a Cardiologia! 36Prof. Bruno Ferraz e Prof. Juan Demolinari | Cardiologia Insuficiência Cardíaca O tratamento farmacológico da ICFER é um assunto que está em constante atualização, com diversas drogas novas aprovadas nos últimos anos. Se você pudesse guardar apenas uma parte deste livro, diríamos que a mais útil seria quais são as drogas que reduzem a mortalidade na ICFER. O tripé clássico da terapia que modifica mortalidade na insuficiência cardíaca (IC) de fração de ejeção reduzida é composto por: iECA/BRA, betabloqueadores e antagonistas de mineralocorticoide (espironolactona). Entre os betabloqueadores, os que comprovadamente modificam a mortalidade são apenas: carvedilol, bisoprolol e succinato de metoprolol. Atenção a uma “pegadinha” em provas: o tartarato de metoprolol não modifica a mortalidade na IC. Lembre-se do “S’, só o succinato de metoprolol modifica a mortalidade, o tartarato não. Betabloqueadores que reduzem mortalidade na ICFER: CABISUM CA – Carvedilol BI – Bisoprolol SUM – Succinato de metoprolol Recentemente, outras drogas foram aprovadas como, também, sendo capazes de reduzir a mortalidade nessa doença. Na Diretriz Brasileira de Insuficiência Cardíaca de 2021, duas drogas foram destacadas como sendo a quarta opção. Entre elas, o complexo sacubitril-valsartana, um inibidor da neprilisina, pode ser usado em substituição aos iECA/BRA em pacientes que continuem sintomáticos a despeito da terapia tripla e os inibidores da SGLT2 (dapaglifozina ou empaglifozina), que, inicialmente, foram lançados como antidiabéticos orais; no entanto mostraram-se eficazes em reduzir a mortalidade, tanto em diabéticos quanto em não diabéticos. Com isso, podemos dizer que temos definidas as cinco primeiras opções de drogas que devem ser usadas: iECA/BRA, betabloqueadores, espironolactona, sacubitril-valsartana e inibidores da SGLT2. Após essas cinco opções, nos pacientes que estejam em uso de betabloqueadores em dose máxima e que persistam com FC > 70 bpm, há benefício de mortalidade com o uso de ivabradina (um inibidor do canal if do nó sinusal). Além disso, a associação entre hidralazina e nitrato também é capaz de reduzir a mortalidade em pacientes autodeclarados afrodescendentes ou em substituição aos iECA/BRA em pacientes que não tolerem essas medicações. 37Prof. Bruno Ferraz e Prof. Juan Demolinari | Cardiologia Insuficiência Cardíaca Para melhor controle de sintomas, sem alterar, no entanto, a mortalidade, você pode prescrever diuréticos e digitálicos (principalmente se a fração de ejeção for ≤ 45%). Betabloqueadores iECA ou BRA Antagonistas de mineralocorticoide Sacubitril-valsartana Dapagliflozina/ empagliflozina Hidralazina e nitrato Ivabradina Drogas que alteram mortalidade na ICFER Paciente continua sintomático? Drogas que reduzem a mortalidade na ICFER. Não caia em fake news! Diuréticos e digitálicos não reduzem a mortalidade por insuficiência cardíaca! São drogas úteis para o controle de sintomas, apenas. Agora que já conhecemos as drogas, detalharemos alguns pontos importantes sobre cada uma dessas classes na tabela abaixo. Fique atento a esta tabela! As informaçõescontidas nela sempre caem em provas. 38Prof. Bruno Ferraz e Prof. Juan Demolinari | Cardiologia Insuficiência Cardíaca Classe de drogas Indicação Principais efeitos adversos iECA ICFER mesmo que assintomática para redução de mortalidade Hipercalemia, piora de função renal, angioedema, tosse e hipotensão BRA Para os pacientes que não toleram iECA para redução de mortalidade Hipercalemia, piora de função renal e hipotensão Betabloqueadores ICFER, mesmo que assintomática, para redução de mortalidade BAVs, broncoespasmo, piora da doença arterial periférica, hipotensão, bradicardia, disfunção erétil Espironolactona ICFER sintomática para redução de mortalidade Ginecomastia, hipercalemia, piora de função renal e hipotensão Sacubitril-valsartana ICFER sintomática, refratária à terapia tripla Hipercalemia, piora de função renal, angioedema, tosse e hipotensão Ivabradina ICFER sintomática, apesar do uso de terapia tripla otimizada, sinusal e com FC > 70 bpm ICFER com ritmo sinusal em pacientes que não tolerem BB Bradicardia Inibidores da SGLT2 (dapaglifozina/ empagliflozina) ICFER sintomática, apesar do uso de terapia tripla em diabéticos ou não diabéticos Infecções geniturinárias, cetoacidose euglicêmica e hipovolemia Reduzem a mortalidade; Não reduzem a mortalidade, apenas os sintomas. 39Prof. Bruno Ferraz e Prof. Juan Demolinari | Cardiologia Insuficiência Cardíaca Classe de drogas Indicação Principais efeitos adversos Nitrato + hidralazina ICFER sintomática, apesar do uso de terapia tripla, principalmente em afrodescendentes Em substituição aos iECA/BRA em pacientes intolerantes Hipotensão, cefaleia (nitrato), lúpus medicamentoso (hidralazina) Digoxina ICFER sintomática, apesar do uso de terapia tripla otimizada Pacientes com ICFER e fibrilação atrial Intoxicação digitálica (sintomas gastrointestinais, prostração, xantopsia -visão amarelada, BAV, extrassístoles) Furosemida Para controle de sintomas de congestão Desidratação, hipotensão, hipocalemia, hipomagnesemia e ototoxicidade Tiazídicos Para controle de sintomas refratários de congestão e hipertensão Hipotensão, hiperuricemia (crise de gota), hiperglicemia e hiponatremia Além dos conhecimentos apresentados até aqui, outros tópicos sobre algumas dessas drogas costumam aparecer em provas. Um deles refere-se às contraindicações ao uso de iECA/BRA, como apresentado na tabela abaixo: Contraindicações ao uso de iECA/BRA Potássio sérico > 5,5 mEq/L Estenose de artéria renal bilateral ou estenose de artéria renal em rim único História de angioedema documentado com uso prévio de iECA (contraindicação a iECA) Hipotensão sintomática Considerar não usar em pacientes com Cr > 3 mg/dL Gestação 40Prof. Bruno Ferraz e Prof. Juan Demolinari | Cardiologia Insuficiência Cardíaca É importante observarmos que as contraindicações acima são comuns a ambas as classes de medicações, mas os iECA apresentam ainda limitações em casos de tosse limitante e refratária e angioedema. Esses eventos adversos estão relacionados ao aumento dos níveis séricos de bradicinina associado aos IECA, mas não aos BRA. A associação de iECA com BRA no tratamento da ICFER não é recomendada. A associação sacubitril-valsartana (INRA) provoca um aumento nos níveis séricos de BNP, uma vez que o sacubitril inibe a degradação dessa molécula. Você se lembra de que o BNP é usado para avaliar o prognóstico e a severidade da IC? Dessa forma, caso o paciente esteja em uso de sacubitril-valsartana, perderemos esse parâmetro. Como forma de avaliar esses casos, devemos utilizar os níveis séricos de NT- pró-BNP (pró-hormônio inativo do BNP), já que são menos afetados pelo uso dessa medicação. Sobre a ivabradina, devemos lembrar que, por ser uma droga que age no nó sinusal, só deve ser usada em pacientes com ritmo sinusal. Um conceito importante sobre as medicações que mudam a mortalidade na ICFER é que o benefício será maior quanto maior for a dose. Sendo assim, buscaremos sempre a dose máxima, desde que tolerada. Uma das drogas que não altera mortalidade, mas que merece nossa atenção por ser alvo nas provas, é o digitálico. Essa medicação pode ser usada para controle de sintomas, de hospitalizações dos pacientes com fração de ejeção reduzida e para redução de frequência cardíaca na fibrilação atrial. O tópico mais “quente” sobre essa droga é a intoxicação digitálica. Os pacientes com intoxicações digitálicas apresentam alterações neurológicas, como confusão mental, prostração, alterações de paladar e xantopsia (visão amarelada), alterações cardíacas, como taquicardias e bradicardias, e comprometimento gastrointestinal, como náuseas, vômitos e anorexia. 41Prof. Bruno Ferraz e Prof. Juan Demolinari | Cardiologia Insuficiência Cardíaca Infradesnivelamento do segmento ST em formato de "colher de pedreiro". Também há a descrição desse achado como sinal do “bigode do Salvador Dalí”. Fonte: Shutterstock. Alterações eletrocardiográficas da intoxicação digitálica Extrassístoles ventriculares (mais frequente) Prolongamento do intervalo PR Aumento da amplitude da onda U Bigeminismo ventricular Bradicardias, ritmo juncional e bloqueio AV Taquicardia atrial com condução AV variável (muito sugestivo) TV/FV É possível fazer a dosagem do nível sérico de digitálicos, mas apenas esse nível aumentado não fecha o diagnóstico de intoxicação: é necessário haver sintomas clínicos e alterações eletrocardiográficas. O tratamento da intoxicação digitálica grave deve ser feito com anticorpo específico (F-ab fragments), que é pouco disponível no Brasil. Os pacientes devem receber suporte clínico com correção de distúrbios hidreletrolíticos (nas intoxicações agudas, o mais comum é hipercalemia; nas crônicas, hipocalemia – principalmente porque, nas intoxicações crônicas, há associação ao uso prolongado de diuréticos que causam depleção de potássio). Infelizmente, os digitálicos não são retirados na diálise. Outro ponto importante é que, nas taquiarritmias causadas pela intoxicação digitálica, devemos evitar a cardioversão elétrica, pois esse procedimento pode desencadear taquiarritmias malignas. Sendo assim, é reservado aos casos de instabilidade hemodinâmica e deve ser usada uma baixa carga. Para tratamento dessas arritmias, podemos usar amiodarona, lidocaína e fenitoína. Outro conceito importante com relação ao uso dos digitálicos é o de impregnação digitálica. Trata- se de uma alteração eletrocardiográfica característica associada ao uso prolongado do digital, sem significado patológico; é apenas um marcador eletrocardiográfico do uso da medicação. Não tem, portanto, relação direta com a intoxicação digitálica. O achado típico da impregnação digitálica é o infradesnivelamento difuso do segmento ST (com aspecto em “colher de pedreiro” ou “bigode do Salvador Dalí”) da onda T, como visto abaixo: 42Prof. Bruno Ferraz e Prof. Juan Demolinari | Cardiologia Insuficiência Cardíaca CAI NA PROVA (REVALIDA INEP – 2024) Um homem com 26 anos é levado por amigos para o pronto-socorro devido a palpitações, tonturas e mal-estar. Relata que a sintomatologia iniciou abruptamente há 2 horas. Os amigos contam que estavam com ele em uma festa e confirmam consumo de bebida alcoólica, mas negam consumo de drogas ilícitas. O paciente nega episódios prévios ou comorbidades. Ao exame físico, apresenta-se com pulso irregular, com frequência cardíaca em torno de 123 bpm. A pressão arterial é de 118 x 68 mmHg e, à ausculta cardíaca, não apresenta sopros, mas verifica-se ritmo irregular, não se constatando outras alterações nesse exame. O eletrocardiograma mostra linha de base serrilhada, presença de onda F, intervalo RR irregular e frequência de 125 bpm. Nesse contexto, a abordagem desse paciente deve incluir A) uso de betabloqueador. B) desfibrilação ventricular. C)Resolva questões pelo computador Copie o link abaixo e cole no seu navegador para acessar o site Resolva questões pelo app Aponte a câmera do seu celular para o QR Code abaixo e acesse o app 11.0 LISTA DE QUESTÕES https://estr.at/DQ1p https://estr.at/DQ1p 67Prof. Bruno Ferraz e Prof. Juan Demolinari | Cardiologia Insuficiência Cardíaca 12.0 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CAPÍTULO 1. Diretriz Brasileira de Insuficiência Cardíaca Crônica e Aguda. Arq. Bras Cardiol. 2018; 111(3):436-539. 2. 2016 ESC Guidelines for the diagnosis and treatment of acute and chronic heart failure: The Task Force for the diagnosis and treatment of acute and chronic heart failure of the European Society of Cardiology (ESC) Developed with the special contribution of the Heart Failure Association (HFA) of the ESC. European Heart Journal, Volume 37, Issue 27, 14 July 2016, Pages 2129–2200. 3. Kalil & Fuster. Medicina Cardiovascular. Editora Atheneu, 2016. 4. Pathophysiology of heart failure with reduced ejection fraction: Hemodynamic alterations and remodeling. Uptodate.com (acesso em 30/05/2020). 5. Medicina Interna de Harrison. 20° edição, 2019. J. Larry Jameson, Anthony S. Fauci, Dennis L. Kasper, Stephen L. Hauser, Dan L. Longo, Joseph Loscalzo. 6. Marcondes-Braga et al. Atualização de Tópicos Emergentes da Diretriz Brasileira de Insuficiência Cardíaca – 2021. Arq Bras Cardiol. 2020; [online].ahead print, PP.0-0. 7. 2017 ACC/AHA/ HFSA Focused Update of the 2013 ACCF/AHA Guideline for the Management of Heart Failure. JACC. 2017 August; 70 (6): 776-803 8. 2013 ACCF / AHA Guideline for the Management of Heart Failure. JACC. 2013 October 15; 62 (16): 147-239. 9. Jameson JL. Doenças do sistema cardiovascular; In: Kasper DL. Medicina Interna de Harrison – Parte 10 – Seção 4– Doenças do coração; Capítulo 280 – Insuficiência Cardíaca: Manejo. 19ª Edição. Porto Alegre: AMGH Editora; 2017: 6281-6307. 10. Medicina Intensiva: abordagem prática. Luciano César Pontes de Azevedo, Leandro Utino Taniguchi, José Paulo Ladeira. 2ª edição. Manole, 2015. 11. Cardiac Intensive Care. Allen Jeremias, David L. Brown. 2nd ed. 13.0 CONSIDERAÇÕES FINAIS CAPÍTULO Caro colega Revalidando, Insuficiência Cardíaca é um tema denso e com muitas informações. Espero que tenha gostado da construção didática deste livro. Se alguma dúvida persistir, utilize o Fórum de Dúvidas! Terei o maior prazer em responder a seus questionamentos. Também estou disponível no Instagram (@profbrunoferraz) e por meio do e-mail (bruno.ferraz@estrategiamed.com.br). Até o próximo tema! Bruno Ferraz. mailto:bruno.ferraz@estrategiamed.com.br 1.0. Definição 2.0. Epidemiologia 3.0. Classificação 4.0. Etiologia 5.0. Fisiopatologia 5.1 Fisiopatologia da ICFER 5.2 Fisiopatologia da ICFEP 5.3 Fisiopatologia da IC direita 6.0. Manifestações clínicas 7.0. Diagnóstico 8.0 Exames complementares 8.1 Radiografia de tórax 8.2 Eletrocardiograma 8.3 Ecocardiograma 8.4 Cateterismo cardíaco 8.5 Exames laboratoriais 8.6 Outros exames 9.0 Tratamento 9.1 Tratamento não farmacológico 9.2 Tratamento farmacológico da ICFER 9.3 Dispositivos cardíacos implantáveis na ICFER 9.3.1 Terapia de ressincronização cardíaca (TRC) 9.3.2 Cardiodesfibrilador implantável (CDI) 9.4 Algoritmo de tratamento da ICFER 9.5 Tratamento da ICFEP 9.6 Tratamento da ICFELR 9.7 Drogas contraindicadas na insuficiência cardíaca 10.0 Insuficiência cardíaca aguda 10.1 Classificação 10.2 Características fisiopatológicas e clínicas 10.3 Avaliação inicial 10.4 Abordagem terapêutica 10.4.1 Oxigenoterapia e suporte ventilatório 10.4.2 Diuréticos 10.4.3 Vasodilatadores endovenosos 10.4.4 Inotrópicos 10.4.5 Vasopressores 10.4.6 Digitálicos 10.4.7 Opioides 10.4.8 Medicações orais 10.4.9 Algoritmo de tratamento da IC aguda 12.0 Lista de questões 13.0 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS