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Capítulo 1 SISTEMA DE IDEIAS GERAIS DO DIREITO Sumário: 1. A Necessidade de um Sistema de Ideias Gerais do Direito. 2. A Introdução ao Estudo do Direito. 3. Outros Sistemas de Ideias Gerais do Direito. 4. A Introdução ao Estudo do Direito e os Currículos dos Cursos Jurídicos no 1. A NECESSIDADE DE UM SISTEMA DE IDEIAS GERAIS DO DIREITO Direito que se descortina aos estudantes, neste primeiro quartel de século, além de exigir renovados métodos de aprendizado, encontra-se revigorado por princípios e nor- mas, que tutelam os direitos da personalidade, impõem a ética nas relações, dão prevalên- cia ao social e atribuem aos juízes um papel ativo na busca de soluções equânimes. Em sua constante mutação, a fim de acompanhar a marcha da história e conectar-se aos avanços da ciência, o Direito pátrio, entretanto, por vários de seus institutos, requer adequação à modernidade, desafiando, além da classe política e, em primeiro plano, a comunidade de juristas, a quem compete oferecer ao legislador os modelos alternativos de leis. É este, em linhas gerais, o quadro que se apresenta aos iniciantes no aprendizado da Ciência Jurídica. Identificar o Direito, no universo das criações humanas, situando-o como ordem so- cial dotada de coerção e, ao mesmo tempo, fórmula de garantia da liberdade, é a grande meta do conjunto de temas que se abrem à compreensão dos acadêmicos. Antes de iniciar- mos a execução deste importante projeto, impõe-se a abordagem do estatuto CO da Introdução ao Estudo do ensino do Direito pressupõe a organização de uma disciplina de base, introdutória à matéria, a quem cumpre definir o objeto de estudo, indicar os limites da área de conhe- cimento, apresentar as características da ciência, seus fundamentos, valores e princípios cardiais. À medida que a ciência evolui e cresce o seu campo de pesquisa, torna-se patente a necessidade da elaboração de uma disciplina estrutural, com o propósito de agrupar os conceitos e elementos comuns às diversas especializações. No dizer preciso de Benjamin4 INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO DIREITO PAULO NADER de Oliveira Filho, a disciplina constitui um sistema de ideias Ao mesmo tempo em que revela o denominador comum dos diversos departamentos da ciência, ela se ocupa igualmente com a visão global do objeto, na pretensão de oferecer ao iniciante a ideia do desenvolvimento alcançado pela Ciência do Direito, a partir da era da codificação, com a multiplicação dos institutos jurídicos, formação incessante de novos conceitos e permanente ampliação da terminologia específica, exigiu a criação de um sistema de ideias gerais, capaz de revelar o Direito como um todo e alinhar os seus elementos comuns. A árvore jurídica, a cada dia que passa, torna-se mais densa, com o surgimento de novos ramos que, em permanente adequação às transformações sociais, especializam-se em sub- Em decorrência desse fenômeno de crescimento do Direito Positivo, de expan- são dos códigos e leis, aumenta a dependência do ensino da Jurisprudência às disciplinas propedêuticas, que possuem a arte de centralizar os elementos necessários e universais do Direito, seus conceitos fundamentais, em um foco de menor Em função dessa necessidade, é imperioso proceder-se à escolha de uma disciplina, entre as várias sugeridas pela doutrina, capaz de atender, ao mesmo tempo, às exigências pedagógicas e científicas. Antes de a Introdução ao Estudo do Direito ser reconhecida como a mais indicada, houve várias tentativas e experiências com a Enciclopédia Jurídica, Filosofia do Direito, Teoria Geral do Direito e Sociologia do Direito. 2. A INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO DIREITO 2.1. Apresentação da Disciplina. A Introdução ao Estudo do Direito é matéria de iniciação, que fornece ao estudante as noções fundamentais para a compreensão do fenô- meno jurídico.4 Apesar de se referir a conceitos a Introdução não é, em si, uma ciência, mas um sistema de ideias gerais estruturado para atender a finalidades pedagógi- cas. Considerando a sua condição de matéria do curso jurídico, deve ser entendida como disciplina autônoma, pois desempenha função exclusiva, que não se confunde com a de qualquer outra. Sob este enfoque Luiz Luisi reconhece a autonomia, que "deriva de seu fim específico: reduzir Direito a unidade Se tomarmos, porém, a palavra disci- plina no sentido de ciência jurídica (v. item 5), devemos afirmar que a Introdução ao Es- Benjamim de Oliveira Filho, Introdução à Ciência do Direito, ed., José Konfino Editor, Rio de Janeiro, 1967, p. 86. 2 é oportuno, antes de baixar aos pormenores, abarcar num relance conjunto, sob risco de dei- xar todo pelos pormenores, a floresta pelas a filosofia pelas exige a pos- se de uma representação geral do escopo e da finalidade do conjunto para saber a que deva consagrar- -se" (Hegel, Introdução à História da Filosofia, Armênio Amado, Editor, Sucessor, ed., Coimbra, p. 42). Em sua Carta aos Jovens, dirigida aos estudiosos de sua pátria, russo Pavlov Aprendam o ABC da ciência antes de tentar galgar seu Nunca acreditem no que se segue sem assimilar o que vem antes. Nunca tentem dissimular sua falta de conhecimento, ainda que com suposições e hipóteses Como se alegra nossa vista com o jogo de cores dessa bolha de sabão no entanto, ela, inevitavelmente, arrebenta e nada fica além da con- fusão..." termo jurisprudência está empregado no sentido romano, ou seja, de Ciência do Direito. "Introduzir é um termo composto de duas palavras latinas: um advérbio (intro) e um verbo (ducere). Introduzir é conduzir de um lugar para outro, fazer penetrar num lugar novo" (Michel Miaille, Uma Introdução Crítica ao Direito, ed., Moraes Editores, Lisboa, 1979, p. 12). Filosofia do Direito, Sérgio Antônio Fabris Editor, Porto Alegre, 1993, p. 161. antigo professor da Faculdade de Direito de Santo reproduziu o seu trabalho publicado na Revista vol. V, 1953, onde apresenta uma lúcida visão do objeto da Introdução ao Estudo do Direito e de suas conexões com a Filosofia do Direito, Sociologia Jurídica e Teoria Geral do Entre nós aquele estudo foi um dos pioneiros.Primeira Parte Cap. 1 SISTEMA DE IDEIAS GERAIS DO DIREITO 5 mesmo tempo em tudo do Direito não possui autonomia; ela não cria o saber, apenas recolhe das disciplinas iência, ela se ocupa jurídicas (Filosofia do Direito, Ciência do Direito, Sociologia Jurídica, História do Direito, iniciante a ideia do Direito Comparado) as informações necessárias para compor quadro de conhecimentos a ser apresentado aos acadêmicos. A cada instante, na fundamentação dos elementos da a era da codificação, vida jurídica, recorre aos conceitos filosóficos, sociológicos e históricos, sem chegar, po- novos conceitos e rém, a se confundir com a Filosofia do Direito, nem com a Sociologia do Direito, que são sistema de ideias disciplinas autônomas. De caráter descritivo e pedagógico, não "consiste na elaboração comuns. A científica do mundo jurídico", como pretende Werner pois o conteúdo que rgimento de novos desenvolve não é de domínio próprio. O que possui de específico é a sistematização dos cializam-se em sub- conhecimentos gerais. Em semelhante incorre Bustamante y Montoro, que re- Positivo, de expan- conhece na disciplina uma "índole Embora de caráter descritivo, a disciplina às disciplinas deve estar infensa ao dogmatismo puro, que tolhe raciocínio e a reflexão. O tratamento rios e universais do exageradamente crítico aos temas é também inconveniente, de um lado porque torna a matéria de estudo mais complexa e de difícil entendimento para os iniciantes e, de outro de uma disciplina, lado, porque configura o objeto da Filosofia do Direito. Os temas que envolvem contro- empo, às exigências vérsias e abrem divergências na doutrina, longe de constituírem fator negativo, habituam to ser reconhecida o estudante com a pluralidade de opiniões científicas, que é uma das tônicas da vida jurí- ciclopédia Jurídica, dica.8 As Institutas de Gaio, do séc. II a.C., são citadas entre as primeiras obras do gênero Introdução ao Estudo do 2.2. Objeto da Introdução ao Estudo do Direito. A disciplina Introdução ao Es- tudo do Direito visa a fornecer ao iniciante uma visão global do Direito, que não pode ser é matéria de obtida através do estudo isolado dos diferentes ramos da árvore jurídica. As indagações do fenô- de caráter geral, comuns às diversas áreas, são abordadas e analisadas nesta disciplina. Os não é, em si, uma conceitos gerais, como o de Direito, fato jurídico, relação jurídica, lei, justiça, segurança alidades pedagógi- jurídica, por serem aplicáveis a todos os ramos do Direito, fazem parte do objeto de es- er entendida como tudo da Introdução. Os conceitos específicos, como o de crime, mar territorial, hipoteca, onfunde com a de desapropriação, aviso prévio, fogem à finalidade da disciplina, porque são particulares de "deriva de seu fim determinados ramos, em cujas disciplinas deverão ser estudados. A técnica jurídica, vista ém, a palavra disci- em seus aspectos mais gerais, é também uma de suas unidades de estudo. Introdução ao Es- Para proporcionar a visão global do Direito, a Introdução examina o objeto de estudo dos principais ramos, levando os alunos a se familiarizarem com a linguagem jurídica. O estudo que desenvolve não versa sobre o teor das normas jurídicas; não se de Janeiro, 1967, p. 86. ocupa em definir o que se acha conforme ou não à lei, pois é disciplina de natureza into, sob risco de dei- epistemológica, que expressa uma teoria da ciência jurídica. Concluindo, podemos di- espírito exige a pos- zer que ela possui um tríplice objeto: a que deva consagrar- a) os conceitos gerais do Direito; Coimbra, 1974, p. 42). Aprendam o ABC b) a visão de conjunto do Direito; que vem antes. Nunca c) os lineamentos da técnica jurídica. sas. Como se alegra nossa e nada fica além da con- 2.3. A Importância da Introdução. Os primeiros contatos do estudante com a O. Ciência do Direito se fazem através da Introdução ao Estudo do Direito, que funciona bo (ducere). Introduzir é odução Crítica ao Direito, 6 Introducción al Derecho, ed., Aguilar, Buenos Aires, 1960, p. 32. da Faculdade de 7 Introducción a la Ciencia del Derecho, ed., Cultural S.A., La Habana, 1945, p. 22. 53, onde apresenta uma 8 Ainda sobre objeto da disciplina, importante estudo subordinado à visão de autores brasileiros é apresentado por fia do Direito, Sociologia Paulo Condorcet Barbosa Ferreira, em sua obra A Introdução ao Estudo do Direito no Pensamento de Seus Expositores, Editora Líber Juris Ltda., Rio de Janeiro, 1982.6 INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO DIREITO PAULO NADER como um elo entre a cultura geral, obtida no curso médio, e a específica do Direito. leis papel que desempenha é de grande relevância para o processo de adaptação cultural estru do iniciante. Ao encetar os primeiros estudos de uma ciência, é comum ao estudante sentir-se Direi atônito, com muitas dificuldades, em face dos novos conceitos, métodos, terminologia e diante do próprio sistema que É ilustrativo o depoimento de Edmond Picard, tantes nas primeiras páginas de seu famoso livro Direito Puro, obra introdutória ao estudo do Dai P Direito. Conta-nos o eminente jurista francês a angústia que sentiu, ao início de seu curso insufi de Direito, com a falta de uma disciplina propedêutica, diante da "abundância prodigiosa jurídi dos fatos" e da dificuldade em relacioná-los; "da ausência de clareza e de harmonia na visão do É por meio da Introdução ao Estudo do Direito que o estudante deverá superar esses primeiros desafios e testar a sua vocação para a Ciência do A importância de nossa disciplina, entretanto, não decorre apenas do fato de propi- ciar aos estudantes a adaptação ao curso, de vez que ministra também noções essenciais à formação de uma consciência jurídica. Além de descortinar os horizontes do Direito pelo estudo dos conceitos jurídicos fundamentais, a Introdução lança no espírito dos estudan- tes, em época própria, os dados que tornarão possível, no futuro, desenvolvimento do a uma raciocínio jurídico a ser aplicado nos campos específicos do conhecimento blema nível estuda 3. OUTROS SISTEMAS DE IDEIAS GERAIS DO DIREITO 3.1. Filosofia do Direito. A Filosofia do Direito é uma reflexão sobre o Direito e seus gia do entre postulados, com objetivo de formular o conceito do Jus e de analisar as instituições jurí- dicas no plano do dever ser, levando-se em consideração a condição humana, a realidade objetiva e os valores justiça e segurança. Pela profundidade de suas investigações e natural 3 complexidade, os estudos filosóficos do Direito requerem um conhecimento anterior tan- são do to de filosofia quanto de Uma certa maturidade no saber jurídico é indispensável um a quem pretende estudar a scientia altior do Direito. Este aspecto já evidencia a impossi- grego. bilidade de essa disciplina figurar nos currículos de Direito como matéria propedêutica. nado S A importância de seu estudo é patente, mas a sua presença nos cursos jurídicos há de se acomp fazer em um período mais avançado, quando os estudantes já se familiarizaram com os resumi princípios gerais de Direito (v. item 6). é N 3.2. Teoria Geral do Direito. Como forma de reação ao caráter abstrato e meta- físico da Filosofia Jurídica, surgiu a Teoria Geral do Direito que, de índole positivista e que des de adotando subsídios da Lógica, é disciplina formal que apresenta conceitos úteis à com- preensão de todos os ramos do Direito. A sua atenção não se acha voltada para os valores ca não e fatos que integram a norma jurídica e por isso a sua tarefa não é descrever o conteúdo de vida 9 Edmond Picard, Direito Puro, Francisco Alves & Cia., Rio de Janeiro, s/d, pp. 5 e 6. A primeira edição francesa Le Droit Pur data de 1899. autor belga viveu no período de 1836 a 1924 e advogou nas Cortes de Apelação e de Cassação de seu País. 10 12 A ob A Introdução ao Estudo do Direito foi comparada, por Pepere, com alto de um mirante, de onde o estrangeiro de Di observa a extensão de um país, para fazer a sua análise. Mostrando a absoluta necessidade de uma disciplina de iniciação, Vareilles-Sommières comentou que começar o curso de Direito sem uma disciplina introdutória é o são p 13 Entre mesmo que se pretender conhecer um grande edifício, entrando por uma porta lateral, percorrendo corredores e saindo por uma porta de serviço. observador não se aperceberá do conjunto e nem terá uma visão da harmonia e estética da obra. (Apud Benjamim de Oliveira Filho, op. cit., pp. 96 e 98.) ciclopPrimeira Parte Cap. 1 SISTEMA DE IDEIAS GERAIS DO DIREITO 7 Direito. O leis ou formular a sua crítica. Seu objeto consiste na análise e conceituação dos elementos cultural estruturais e permanentes do Direito, como suposto e disposição da norma jurídica, coação, relação jurídica, fato jurídico, fontes formais. Na expressão de Haesaert, a Teoria Geral do nte sentir-se Direito "concerne ao estudo das condições intrínsecas do fenômeno rminologia e Esta ordem de estudo é valiosa ao aprendizado jurídico, contudo carece de impor- nond Picard, tantes unidades que versam sobre os fundamentos, valores e conteúdo fático do Direito. ao estudo do Daí por que essa disciplina, que constitui uma grande seção de estudo da Introdução, é de seu curso insuficiente para revelar aos iniciantes da Jurisprudentia as várias dimensões do fenômeno ia prodigiosa jurídico. harmonia na A Teoria Geral do Direito surgiu no século XIX e alcançou o seu maior desen- dante deverá volvimento na Alemanha, onde foi denominada Allgemeine Rechtslehre. Seus principais representantes foram Adolf Merkel, Berbohm, Bierling, Binding e Felix ato de propi- S essenciais à 3.3. Sociologia do Direito. O estudo das relações entre a sociedade e o Direito, Direito pelo dos estudan- desenvolvido em ampla extensão pela Sociologia do Direito, é um dos temas necessários olvimento do a uma disciplina introdutória. Esta, porém, não pode ter o seu conteúdo limitado ao pro- blema da efetividade do Direito, nem empreender aquela pesquisa em profundidade, em nível de especialização. A Sociologia do Direito não oferece a visão global do Direito, não estuda os elementos estruturais e constitutivos deste, nem cogita do problema de sua fun- damentação. Além desta série de lacunas, acresce ainda o fato de que o objeto da Sociolo- gia do Direito não está inteiramente definido e seus principais cultores procuram formar, Direito e seus entre si, um consenso a este respeito (v. item tituições jurí- a realidade ções e natural 3.4. Enciclopédia Jurídica. A etimologia do vocábulo enciclopédia dá uma vi- são do que a presente disciplina pretende objetivar: encyclios paidêia correspondia a anterior tan- um conjunto variado de conhecimentos indispensáveis à formação cultural do cidadão indispensável grego. A Enciclopédia Jurídica tem por objeto a formulação da síntese de um determi- cia a impossi- nado sistema jurídico, mediante a apresentação de conceitos, classificações, esquemas, propedêutica. acompanhados de numerosa terminologia. Sem conteúdo próprio, de vez que procura dicos há de se resumir as conclusões da Ciência do Direito, o que caracteriza a Enciclopédia Jurídica zaram com os é o método de exposição dos assuntos, ao dividi-los em títulos, categorias, rubricas, e a tentativa de reduzir o saber jurídico a fórmulas e esquemas lógicos. Na prática a Enciclopédia Jurídica não se revelou uma disciplina pedagógica, por- strato e meta- que conduz à memorização, tornando o seu estudo cansativo e sem atingir às finalida- e positivista e des de um sistema de ideias gerais do Direito. Estendendo o seu estudo aos conceitos S úteis à com- específicos, peculiares a determinados ramos da árvore jurídica, a Enciclopédia Jurídi- os valores ca não evita a dispersão cultural. Querer enfeixar, por outro lado, todo o panorama da o conteúdo de vida jurídica em uma disciplina é pretensão utópica e sem validade francesa Le de Apelação e de 11 Théorie Générale du Droit, ed., Établissements Émile Bruylant, Bruxelles, 1948, p. 19. 12 A obra Princípios de Sociologia Jurídica, publicada pelo brasileiro Queiroz Lima, destinada aos estudos preliminares onde o estrangeiro de Direito, obteve, na realidade, aprovação nos meios universitários, contudo, os capítulos nela desenvolvidos não de uma disciplina são próprios da Sociologia do Direito e configuram, antes, a temática da Introdução ao Estudo do ina introdutória é o 13 Entre as críticas que Piragibe da Fonseca faz à denominação, destaca a circunstância de que "hoje pesa sobre o rrendo corredores e vocábulo suspeição nada lisonjeira: enciclopedismo é sinônimo de superficialismo pretensioso e pedante, "en- visão da harmonia ciclopédico" é indivíduo que nada sabe, precisamente porque pretende saber tudo" (Introdução ao Estudo do Direito, ed., Livraria Freitas Bastos, Rio de Janeiro, 1964, p. 36).8 INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO DIREITO PAULO NADER Como obras mais antigas no gênero, citam-se a de Guilherme Duramti, de 1275, mia, Ética, Filosof denominada Speculum Juris, preparada para ser utilizada pelos causídicos perante os tri- a indicação das di bunais; a Methodica Juris Utriusque Traditio, de Lagus, em 1543; o Syntagma Juris Universi, Inequivocar de Gregório de Tolosa, de 1617 e a Encyclopoedia Juris Universi, de Hunnius, em 1638. A mação Enciclopedia Giuridica, de Filomusi Guelfi, do final do século XIX, revela a multiplicidade trodução ao dos temas abordados na disciplina. Além de uma parte introdutória e uma geral, onde Política, Economi desenvolve, respectivamente, sobre o conceito do Direito e suas relações com a Moral e O Ministéri aborda o tema da origem do Direito Positivo e problema das fontes formais, a obra do dificar o currícul notável mestre italiano apresenta uma parte especial, a mais extensa, dedicada aos insti- vogados do Brasi tutos jurídicos fundamentais, tanto de Direito Público como de Direito Privado. Nesta de ordem prática parte, o autor faz incursões demoradas em todos os ramos do Direito, analisando o sistema jurídico Não obstante o seu grande valor, essa obra não deve ser catalogada como para o processo propedêutica, porque não se limita a analisar os conceitos gerais do Nos currícu tiva, ou seja, as q Teoria Geral e de 4. A INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO DIREITO E os CURRÍCULOS DOS CUR- reito Penal, Direi SOS JURÍDICOS NO BRASIL pelas disciplinas A primeira disciplina jurídica de caráter propedêutico, em nosso País, foi o Direito O pensame Natural denominação antiga da Filosofia do Direito a partir de 11 de agosto de 1827, grade curricular com a criação dos cursos jurídicos em São Paulo e em Já em 1877, Rui Barbosa trabalho da reivindicava a substituição da disciplina Direito Natural pela Sociologia Jurídica, em sua 9.193/2017, que f "Reforma do Ensino Secundário e Superior", conforme relata Luiz Fernando Coelho. (15) Em 1891, com o advento da o currículo do curso jurídico sofreu alterações e a BIBLIOGRAFIA disciplina Direito Natural foi substituída pela Filosofia e História do Direito, lecionada na primeira série. Em 1895, houve o desmembramento dessa disciplina, figurando a Filosofia Ordem do Sumário: do Direito na primeira série e a História do Direito, que pouco tempo perdurou, na quinta 1 Benjamim de série. 2 Miguel Reale, Em 1912, com a reforma Rivadávia Correia, foi instituída a Enciclopédia Jurídica, 3 Mouchet e Becu que permaneceu como matéria de iniciação durante três anos, sendo posteriormente su- 4 Luiz Fernando primida pela reforma Maximiliano. A Filosofia do Direito passou então a ser estudada como disciplina introdutória, lecionada na primeira série até que, em 1931, com a chama- da Reforma Francisco Campos, passou a ser ensinada na última série e nos cursos de pós- -graduação. Em seu lugar, para a primeira série, foi criada a Introdução à Ciência do Di- reito. A Resolução 3, de 2 de fevereiro de 1972, do então Conselho Federal de Educação, alterou a sua nomenclatura para Introdução ao Estudo do Direito e a Portaria 1.886, de 30 de dezembro de 1994, do Ministério da Educação e do Desporto, ao estabelecer novas diretrizes para o curso jurídico, confirmou o caráter obrigatório da disciplina, passando a denominá-la Introdução ao Estão em vigor, a partir de de outubro de 2004, as Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Direito, instituídas pelo Conselho Nacional de Educação, com a Resolução CNE/CES 9, de 29 de setembro de 2004. A orientação pretende assegurar aos acadêmicos "sólida formação geral, e axiológica, capacidade de análise, domínio de conceitos e da terminologia jurídica, adequada argumentação, interpretação e valorização dos fenômenos jurídicos e Diferentemente das fórmulas anteriores, a atual não in- 16 Louvável, por um dica as disciplinas que devam integrar o chamado Eixo de Formação Fundamental, optando dentro de uma pe por assegurar aos estudos "conteúdos essenciais sobre Antropologia, Ciência Política, Econo- deixar em aberto não havia consen não se renunciar 14 Filomusi Guelfi, Enciclopedia Giuridica, ed., Nicola Jovene & Cia. Editori, Napoli, 1910. 17 Com a finalidade 15 Luiz Fernando Coelho, Teoria da Ciência do Direito, ed., Edição Saraiva, São Paulo, 1974, p. 2. país a AssociaçãoPrimeira Parte Cap. 1 SISTEMA DE IDEIAS GERAIS DO DIREITO 9 iti, de 1275, mia, Ética, Filosofia, História, Psicologia e Sociologia." Cabe, assim, às coordenações de curso, rante os tri- a indicação das disciplinas capazes de atender aos objetivos propostos. ris Universi, Inequivocamente, as disciplinas que se encaixam no perfil delineado do Eixo de For- em 1638. A mação Fundamental, dado o atual nível de nossa cultura e experiência acadêmica, são: In- ultiplicidade trodução ao Estudo do Direito, Sociologia Jurídica, Filosofia do Direito, Introdução à Ciência geral, onde Política, Economia Aplicada ao Direito e História do a Moral e S, a obra do O Ministério da Educação, no decorrer de 2014, manifestou seu empenho em mo- la aos insti- dificar o currículo do curso, contando, para tanto, com a colaboração da Ordem dos Ad- vado. Nesta vogados do Brasil. Especialistas preconizam, entre outras mudanças, o reforço nos estudos do o sistema de ordem prática com abordagem da conciliação e mediação, além de atenção especial ogada como para o processo digital. Nos currículos, especial atenção deve ser atribuída às disciplinas de natureza forma- tiva, ou seja, as que fornecem elementos embasadores do raciocínio jurídico, como as de Teoria Geral e de Hermenêutica Jurídica. As informativas, as de Direito Civil, Di- os CUR- reito Penal, Direito Administrativo, são valiosas, mas pressupõem o saber subministrado pelas disciplinas formativas. oi o Direito pensamento predominante, na atualidade, ainda no campo das ideias, é que a sto de 1827, grade curricular atenda às especificidades locais, isto é, às necessidades do mercado de lui Barbosa trabalho da região. Relativamente ao estágio supervisionado em Direito, o Projeto de Lei lica, em sua 9.193/2017, que fora arquivado, previu a sua ampliação de dois para três Coelho. (15) terações e a BIBLIOGRAFIA PRINCIPAL ecionada na D a Filosofia Ordem do Sumário: u, na quinta 1 Benjamim de Oliveira Filho, Introdução à Ciência do Direito; Miguel Reale, Lições Preliminares de Direito; 2 Miguel Reale, op. cit.; Mouchet e Becu, Introducción al Derecho; lia Jurídica, 3 Mouchet e Becu, op. cit.; Benjamim de Oliveira Filho, op. cit.; su- 4 - Luiz Fernando Coelho, Teoria da Ciência do er estudada m a chama- rsos de pós- ncia do Di- e Educação, 1.886, de novas passando a es Nacionais ação, com a aos ise, domínio valorização tual não in- 16 Louvável, por um lado, a preocupação do Conselho Nacional de Educação ao traçar o perfil do homo juridicus tal, optando dentro de uma perspectiva de sólido embasamento científico e filosófico, mas pecou pela falta de praticidade, ao tica, Econo- deixar em aberto as disciplinas que realizam tal ideário, correndo-se o risco de um recuo histórico à época em que não havia consenso sobre as unidades de estudo. bom-senso há de nortear as coordenações de curso, a fim de não se renunciar a experiência acumulada. 17 Com a finalidade de favorecer a boa qualidade do ensino, pesquisa e extensão do ensino jurídico, existe em nosso país a Associação Brasileira de Ensino do Direito (ABEDI).