Prévia do material em texto
Técnicas de pesquisa Prof.ª Mirian Goldenberg, Prof.ª Monise Nascimento Descrição Você vai estudar a relevância das técnicas de pesquisa qualitativa e quantitativa na produção acadêmica, além da importância da pesquisa de campo e da análise de dados em ambas as abordagens, enriquecendo o processo de investigação. Propósito É essencial entender as características das abordagens qualitativa e quantitativa de pesquisa para reconhecer como elas se cruzam. Também vale ressaltar que a análise de dados da pesquisa de campo pode ser útil na pesquisa acadêmica, não importando a abordagem. Objetivos Módulo 1 Pesquisa quantitativa X Módulo 2 Análise de dados Módulo 3 Gerenciamento de recursos e Pesquisa qualitativa Distinguir pesquisa quantitativa de pesquisa qualitativa, destacando a importância da pesquisa de campo no contexto da produção acadêmica. Reconhecer a importância de utilizar recursos e instrumentos de pesquisa de maneira adequada aos objetivos propostos em um estudo científico. instrumentos de pesquisa Selecionar eficientemente recursos e ferramentas tecnológicas para potencializar todas as etapas da pesquisa acadêmica. Introdução Quando os cursos presenciais de metodologia de pesquisa começam, percebemos nos semblantes dos alunos uma profunda desconfiança. Geralmente, questionamos suas experiências anteriores com a disciplina e, salvo raríssimas exceções, eles concordam que a matéria foi muito desinteressante. Com essa recepção, não é fácil começar um curso de dezenas de horas, semanas ou meses. Ao final do curso, no entanto, sempre encontramos alunos entusiasmados, empolgados com seus projetos, e não raro com manifestações de carinho e gratidão. Aqui compartilhamos um pouco dessa experiência prazerosa em sala de aula e demonstramos que a pesquisa científica não é algo reservado apenas para alguns, podendo ser exercida em qualquer campo de estudo. A metodologia científica é muito mais do que algumas regras de como fazer uma pesquisa; ela auxilia a refletir e propicia um novo olhar sobre o mundo: um olhar científico, curioso, indagador e criativo. Assim, a pesquisa não se reduz a certos procedimentos metodológicos. A pesquisa científica exige criatividade, disciplina, empatia, flexibilidade, humildade, interesse genuíno, organização e sensibilidade, baseando‐se no confronto permanente entre o possível e o impossível, entre o conhecimento e o desconhecimento. Nenhuma pesquisa segue um roteiro totalmente previsível, com início, meio e fim claros. É um processo imprevisível, e o pesquisador está sempre consciente de que seu conhecimento é limitado. Da mesma forma, não há um único modelo de pesquisa. Neste material, apresentaremos um dos caminhos possíveis que temos explorado, adotando diferentes abordagens de acordo com o tema escolhido. Todos os pesquisadores precisam estar abertos a um verdadeiro debate de ideias. É por meio da discussão de nossas descobertas que podemos aprimorar nosso trabalho. A pesquisa científica requer uma prática contínua de crítica e autoavaliação. Portanto, encare o estudo deste conteúdo como um desafio estimulante: uma oportunidade para desenvolver o pensamento científico com clareza, criatividade, organização e, sobretudo, prazer. Podcast Ouça e conheça os pilares essenciais da pesquisa científica, explorando desde a fundamentação teórica até o uso de recursos para facilitar seu processo como pesquisador. Material para download Clique no botão abaixo para fazer o download do conteúdo completo em formato PDF. Download material javascript:CriaPDF() 1 - Pesquisa quantitativa X Pesquisa qualitativa Ao �nal deste módulo, você será capaz de distinguir pesquisa quantitativa de pesquisa qualitativa, destacando a importância da pesquisa de campo no contexto da produção acadêmica. Construindo o problema da pesquisa Realizar uma pesquisa implica aprender a organizar as próprias ideias. Mais importante do que o tema selecionado é a experiência adquirida durante o processo de pesquisa. Trabalhando‐se bem, não existe tema que seja tolo ou pouco importante. A pesquisa deve ser entendida como uma ocasião singular para fazer alguns exercícios que servirão por toda a vida. O trabalho de pesquisa deve ser instigante, mesmo que o objeto não pareça ser tão interessante. O que o verdadeiro pesquisador busca é o jogo criativo de aprender como pensar e olhar cientificamente. Observe que falamos em objeto da pesquisa e não em objetivos. Em metodologia científica, o que chamamos objeto da pesquisa é exatamente aquilo que será pesquisado. Já os objetivos de uma pesquisa dependerão de muitos fatores, inclusive do tipo de objeto pesquisado. Qualquer tema ou assunto da atualidade pode ser objeto de uma pesquisa cientí�ca. É preciso ter estudado muito, possuir uma sólida bagagem teórica e muita experiência de pesquisa para enxergar o que outros não conseguem ver. O pesquisador experiente descobre assuntos que podem parecer banais e os transforma em pesquisas fecundas. O desejo de reconhecimento não só leva o cientista a comunicar os seus resultados, mas também o influencia na escolha de temas e métodos que tornem seu trabalho mais aceitável por seus pares. Quanto maior a consciência de suas motivações, mais o pesquisador é capaz de evitar os desvios (bias) próprios daqueles que trabalham com a ilusão de serem orientados apenas por propósitos científicos. Comentário Existe uma hierarquia de legitimidade dentro do campo científico traçada de acordo com os temas que dão prestígio, recursos para a pesquisa, cargos universitários, publicações em editoras prestigiadas etc. Assim, falar de “liberdade de escolha” nesse campo é desconsiderar as pressões (evidentes ou sutis) às quais o pesquisador permanentemente se submete. Tendo consciência de tais pressões, muitas dificuldades e contradições podem ser mais bem compreendidas na escolha de um assunto e na sua formulação como um projeto de pesquisa. Na jornada de pesquisa, é fundamental cultivar uma série de atributos que moldam tanto o pesquisador quanto seu trabalho. Esses atributos podem ser divididos em duas categorias principais: os internos, que se referem às características pessoais do indivíduo, e os externos, que dependem da sua formação científica. Vamos entender melhor! Encontramos uma gama de qualidades que definem a abordagem e o comportamento do pesquisador: Clareza na formulação de ideias e comunicação. Concentração para manter o foco durante o processo de pesquisa. Criatividade para explorar novas abordagens e soluções. Curiosidade para investigar questões profundamente. Delicadeza no tratamento das informações e de pessoas envolvidas. Disciplina para manter uma rotina eficaz de trabalho. Atributos internos Empatia para compreender as perspectivas dos outros. Equilíbrio emocional diante dos desafios e resultados. Flexibilidade para adaptar-se a mudanças e imprevistos. Humildade para reconhecer limitações e aprender com os outros. Iniciativa para buscar novas oportunidades e soluções. Interesse genuíno nas questões estudadas. Objetividade na análise e interpretação dos dados. Organização para gerenciar eficientemente o processo de pesquisa. Paciência para lidar com os prazos e contratempos. Paixão pelo tema de estudo e pela própria pesquisa. Respeito ao entrevistado e aos participantes da pesquisa. Saber escutar ativamente para absorver diferentes perspectivas. Tranquilidade para enfrentar os desafios sem se deixar abalar. Estão relacionados ao conhecimento técnico e à expertise do pesquisador: Bom domínio da teoria relevante ao campo de estudo. Domínio das técnicas de pesquisa, incluindo métodos e ferramentas. Boa escrita para comunicar os resultados de forma clara e persuasiva. Experiência com pesquisa que fortalece a habilidade de enfrentar desafios. Capacidade de relacionar os dados empíricos coletados com a teoria, proporcionando insights significativos. As principais etapasE. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Zahar, 1978. GERHARDT, T. E.; SILVEIRA, D. T. Métodos de pesquisa. Planejamento e gestão para o desenvolvimento rural da SEAD/UFRGS. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2009. KAUARK, F.; MANHÃES, F. C.; MEDEIROS, C. H. Metodologia da pesquisa: guia prático. Itabuna, BA: Via Litterarum, 2010. GOLDENBERG, M. A outra. Rio de Janeiro: Record, 1990. LACERDA, G. B. Augusto Comte e o "positivismo" redescoberto. Revista de Sociologia e Política, v. 1, n. 34, p. 319-343, out. 2009. MALINOWSKI, B. Argonautas do Pacífico Ocidental. São Paulo: Abril Cultural, 1978. PEIRANO, M. A favor da etnografia. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1995. POLLAK, M. Le Témoignage. Actes de la recherche en sciences sociales. L’illusion biographique. v. 62-63, jun. 1986. QUEIROZ, M. I. P. Variações sobre a técnica de gravador no registro da informação viva. São Paulo: CERU e FFLCH/USP, 1983. THOMPSON, P. A voz do passado: história oral. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992. Material para download Clique no botão abaixo para fazer o download do conteúdo completo em formato PDF. Download material O que você achou do conteúdo? Relatar problema javascript:CriaPDF()da pesquisa científica envolvem a concepção de um tema de estudo, a coleta de dados, a apresentação de um relatório com os resultados e, em alguns casos, a aplicação dos resultados. O passo inicial está ligado à formulação do problema e consequente definição do objeto da pesquisa. O primeiro passo é tornar o problema concreto e explícito pelos meios a seguir. Imersão sistemática no assunto. Estudo da literatura existente. Atributos externos Discussão com pessoas que acumularam experiência prática no campo de estudo. A boa resposta depende da boa pergunta. O pesquisador deve estar consciente da importância da pergunta que faz e deve saber colocar as questões necessárias para o sucesso de sua pesquisa. O pesquisador, ao escolher seu objeto de estudo, deve analisar alguns detalhes. Veja! Primeiro passo Identificar um tema preciso (recorte do objeto). Segundo passo Escolher e organizar o tempo de trabalho. Terceiro passo Realizar a pesquisa bibliográfica (revisão da literatura). Quarto passo Organizar e analisar o material selecionado. Para isso, o objeto de estudo deve responder aos interesses do pesquisador e ter as fontes de consulta acessíveis e de fácil manuseio. Quanto mais se recorta o tema, com mais segurança e criatividade se trabalha. O estudo científico deve ser claro, interessante e objetivo, tanto para as pessoas familiarizadas com o assunto quanto para as que não são. Muitos acadêmicos se perdem em parágrafos herméticos que não são compreendidos nem pelos seus pares. O pesquisador não precisa utilizar termos obscuros para se mostrar profundo. A profundidade e a seriedade do estudo podem ser mais bem percebidas se o pesquisador utilizar uma linguagem compreensível para o maior número de alunos e leitores. A pesquisa apresenta diferentes fases. Vamos conhecê-las! Lembra uma paquera entre dois adolescentes. É o momento em que se tenta descobrir algo sobre o objeto de desejo, quem mais escreveu (ou se interessou) sobre ele, como poderia haver uma aproximação, qual a melhor abordagem (ou metodologia) entre todas as possíveis para conquistar esse objeto. Equivale ao namoro, quando há maior compromisso e que exige um conhecimento mais profundo, uma dedicação quase exclusiva ao objeto Quinto passo Fazer com que o leitor compreenda o seu estudo e possa recorrer aos resultados caso queira dar continuidade à pesquisa. Fase exploratória Fase de elaboração de paixão. É a fase de elaboração do projeto de pesquisa, quando o estudioso mergulha de fato no tema estudado. É como um casamento, em que a pesquisa exige fidelidade, dedicação, atenção ao seu cotidiano, que é feito de altos e baixos. O pesquisador deve resolver os problemas que vão aparecendo, desde os mais simples (como se vestir para realizar as entrevistas) até os mais necessários (como garantir a verba para a execução da pesquisa). Equivale à separação, em que o pesquisador precisa se distanciar do seu objeto para escrever o relatório final da pesquisa. É a fase em que se deve examinar o objeto com o máximo de criticidade possível, fazendo rupturas conceituais e sugerindo novas direções para pesquisas futuras. É o momento de enxergar tanto as falhas quanto as virtudes desse objeto tão familiar e caro ao pesquisador. Relevância da pesquisa na vida acadêmica Confira neste vídeo a importância da vida acadêmica e da clareza do problema pesquisado. Fase de resolução de problemas Fase de diagnóstico Pesquisa quantitativa X Pesquisa qualitativa Características de uma pesquisa Durante muito tempo, as ciências se pautavam por um modelo quantitativo de pesquisa, em que a veracidade de um estudo era constatada pela quantidade de pesquisados. Muitos pesquisadores, no entanto, questionaram a representatividade e o caráter de objetividade com que a pesquisa quantitativa se revestia. É preciso aceitar o fato de que, mesmo nas pesquisas quantitativas, a subjetividade do pesquisador está presente. Existe um autor, um sujeito que decide os passos a serem dados, seja na escolha do tema, dos entrevistados, seja no roteiro de perguntas, na bibliografia consultada e na análise do material coletado. Na pesquisa qualitativa, a preocupação do pesquisador não é com a quantidade de indivíduos, mas com o aprofundamento da compreensão de um grupo social, de uma organização, de uma instituição, de uma trajetória etc. Ao se pensar nas origens da pesquisa qualitativa em ciências sociais, corre‐se o risco de se perder em um caminho longo demais que, procurando as origens das origens, não chega jamais ao fim. Poderia chegar a Heródoto (495 AEC-425 AEC) que, descrevendo a guerra entre a Pérsia e a Grécia, dedicou-se a esboçar os costumes, as vestimentas, as armas, os barcos, os tabus alimentares e as cerimônias religiosas dos persas e dos povos vizinhos. Heródoto Uma boa reflexão sobre a importância de Heródoto nesse contexto, bem como um ótimo exemplo de pesquisa podem ser encontrados no artigo O selvagem e a História: Heródoto e a questão do Outro, de Klaas Woortmann. Comentário Vamos elucidar o debate entre a sociologia positivista e a sociologia compreensiva, situando o uso de métodos qualitativos de pesquisa nas ciências sociais. Os pesquisadores que adotam a abordagem qualitativa em pesquisa se opõem a ideia de um modelo único de pesquisa para todas as ciências, baseado no modelo de estudo das ciências da natureza. Esses pesquisadores se recusam a legitimar seus conhecimentos por processos quantificáveis que venham a se transformar em leis e explicações gerais. Os pesquisadores qualitativistas recusam o modelo positivista aplicado ao estudo da vida social e afirmam que as ciências sociais têm sua especificidade, o que pressupõe uma metodologia própria. Antes de prosseguirmos com a abordagem qualitativa, vamos analisar as ideias de dois importantes representantes do modelo positivista. Acompanhe! Augusto Comte Autor dos famosos Sistema de filosofia positiva (1830-1842) e Catecismo positivista (1852), o fundador do positivismo defendia a unidade de todas as ciências e a aplicação da abordagem científica na realidade social humana. Com base em critérios de abstração, complexidade e relevância prática, Comte propôs uma hierarquia das ciências, na qual a matemática era considerada a mais importante e a sociologia, ou "física social", a menos importante, precedida, em ordem decrescente, pela astronomia, física, química e biologia. Segundo Comte, cada ciência dependia do progresso da que a precedia. Assim, a sociologia não poderia existir sem a biologia, que por sua vez dependia da química, e assim por diante. Retrato de Augusto Comte. Segundo a perspectiva de que o objeto das ciências sociais deve ser estudado como o das ciências físicas, a pesquisa é uma atividade neutra e objetiva, que busca descobrir regularidades ou leis, em que o pesquisador não pode fazer julgamentos nem permitir que seus preconceitos e suas crenças contaminem a pesquisa. Émile Durkheim Assim como Comte, o chamado pai da sociologia também se posicionou a favor da unidade das ciências, preocupado com a ordem na sociedade e com a primazia da sociedade sobre o indivíduo. Tomando “os fatos sociais como coisas”, Durkheim (1985) defendia que o social é real e externo ao indivíduo, ou seja, o fenômeno social, como o fenômeno físico, é independente da consciência humana e verificável pela experiência dos sentidos e da observação. Retrato de Émile Durkheim. Durkheim acreditava que os fatos sociais só poderiam ser explicados por outros fatos sociais, e não por fatos psicológicos ou biológicos, como pretendiam alguns pensadores de seu tempo. Defendendo a visão da ciência social como neutra e objetiva, na qual sujeito e objeto do conhecimento estão radicalmente separados, Durkheim teve uma influência decisiva para que as ciências sociais adotassem o método científico das ciências naturais. Sociologia compreensiva Na segunda metade do séculopassado, alguns pensadores, influenciados pelo idealismo de Kant, reagiram criticamente ao modelo positivista de conhecimento aplicado às ciências sociais, acreditando que o estudo da realidade social por meio de métodos de outras ciências poderia destruir a própria essência dessa realidade, já que esquecia a dimensão de liberdade e individualidade do ser humano. A sociologia compreensiva, distinguindo “natureza” de “cultura”, mostrou que era necessário, para estudar os fenômenos sociais, um procedimento metodológico diferente daquele utilizado nas ciências físicas e matemáticas. Wilhelm Dilthey Filósofo alemão que criticava o uso da metodologia das ciências naturais pelas ciências sociais, em função da diferença fundamental entre seus objetos de estudo. Nas primeiras, os cientistas lidam com objetos externos passíveis de serem conhecidos de forma objetiva, enquanto nas ciências sociais lidam com emoções, valores, subjetividades. Essa diferença se traduz em diferenças nos objetivos e nos métodos de pesquisa. Retrato de Wilhelm Dilthey. Para Dilthey, os fatos sociais não são suscetíveis de quantificação, já que cada um deles tem um sentido próprio, diferente dos demais, e isso torna necessário que cada caso concreto seja compreendido em sua singularidade. Portanto, as ciências sociais devem se preocupar com a compreensão de casos particulares e não com a formulação de leis generalizantes, como fazem as ciências naturais. Max Weber É o maior representante da chamada sociologia compreensiva. Para ele, o principal interesse da ciência social era o comportamento significativo dos indivíduos engajados na ação social, ou seja, o comportamento ao qual os indivíduos agregam significado considerando o comportamento de outros indivíduos. Retrato de Max Weber. Os cientistas sociais, que pesquisam os significados das ações sociais de outros indivíduos e deles próprios, são sujeito e objeto de suas pesquisas. Nessa perspectiva — que se opõe à visão positivista de objetividade e de separação radical entre sujeito e objeto da pesquisa —, é natural que cientistas sociais se interessem por pesquisar aquilo que valorizam. Esses cientistas buscam compreender os valores, as crenças, as motivações e os sentimentos humanos, compreensão que só pode ocorrer se a ação for colocada dentro de um contexto de significado. Fundamentação da pesquisa teórica Confira neste vídeo a importância da fundamentação teórica para embasar suas pesquisas, garantindo solidez e credibilidade aos seus resultados acadêmicos. Pesquisa de campo A discussão que diferencia as ciências sociais das demais ciências físicas, contextualiza o surgimento e o desenvolvimento das técnicas e dos métodos qualitativos de pesquisa social. Veja as descobertas de alguns antropólogos a respeito desse tipo de pesquisa. Frédéric Le Play Contemporâneo de Comte, ele foi um dos primeiros a estudar a realidade social dentro de uma perspectiva científica que considerava a observação direta, controlável e objetiva da sociedade como o método mais adequado à pesquisa social. Em La Réforme Sociale en France (1864), Le Play expõe o método das monografias, que se caracteriza por ser uma técnica, ordenada e metódica, de observação direta da sociedade. Pepita de ouro. Trouxe de sua experiência de mineralogista, na qual estava habituado a colher amostras de jazidas para serem analisadas, a preocupação de observar diretamente e analisar sistematicamente as famílias operárias localizadas em diferentes países da Europa onde pesquisou. De seus registros minuciosos e ordenados, resultou um conjunto de monografias reunidas em Les ouvriers européens (1855). Morgan, Boas e Malinowski No final do século XIX e início do século XX, os estudos dos antropólogos nas sociedades chamadas então de “primitivas” foram determinantes para o desenvolvimento das técnicas de pesquisa que permitem recolher diretamente observações e informações sobre a cultura nativa. As sociedades estudadas diretamente por esses antropólogos eram sociedades sem escrita, longínquas, isoladas, de pequenas dimensões, com reduzida especialização das atividades sociais, tendo sido classificadas como simples ou primitivas em contraste com a organização complexa das sociedades dos pesquisadores. O primeiro antropólogo a conviver com os nativos foi o americano Lewis Henry Morgan, um dos mais expressivos representantes do pensamento evolucionista. Jurista de formação, em 1851 publicou The League of Hodénosaunee, or Iroquois, considerado o primeiro tratado científico de etnografia. No entanto, foram os trabalhos de campo de Franz Boas e Bronislaw Malinowski, entre 1883 e 1902, e, particularmente, a expedição às Ilhas Trobriand, que consagraram a ideia de que os antropólogos deveriam passar um longo período na sociedade que estão estudando para encontrar e interpretar seus próprios dados, em vez de depender dos relatos dos viajantes, como faziam os chamados “antropólogos de gabinete”. Retrato de Franz Boas. Nos primeiros 30 anos do século XX, o trabalho de campo passou a orientar as pesquisas antropológicas. Boas, um geógrafo de formação, crítico radical dos antropólogos evolucionistas, ensinou que no campo tudo deveria ser anotado meticulosamente e que um costume só tem significado se estiver relacionado ao seu contexto particular. Ensinou também o relativismo cultural, no qual o pesquisador deveria estudar as culturas com um mínimo de preconceitos etnocêntricos. Quem foi Franz Boas? Resposta Foi o grande mestre da antropologia americana na primeira metade do século XX. Formou toda uma geração de antropólogos importantes no campo, como Ralph Linton, Ruth Benedict e Margaret Mead, considerados representantes da antropologia cultural americana, que utiliza métodos e técnicas de pesquisa qualitativa somados a modelos conceituais Para Boas, o que constitui o “gênio próprio” de um povo repousa sobre as experiências individuais e, portanto, o objetivo do pesquisador é compreender a vida do indivíduo dentro da própria sociedade em que vive. A primeira experiência de campo de Malinowski foi em 1914, entre os mailu, na Melanésia. Impedido de voltar à Inglaterra no início da Primeira Guerra Mundial, ele começou sua pesquisa nas Ilhas Trobriand, de 1915 a 1916, retornando em 1917 para viver com os nativos por mais um ano. Essa longa convivência com os nativos teve uma influência decisiva na inovação do método de pesquisa antropológica. Malinowski demonstrou que o comportamento nativo não é irracional, mas se explica por uma lógica própria que precisa ser descoberta pelo pesquisador. Colocou em prática a observação participante, criando um modelo do que deve ser o trabalho de campo: o pesquisador, por meio de uma estada de longa duração, deve mergulhar profundamente na cultura nativa, impregnando‐se da mentalidade nativa. Deve viver, falar, pensar e sentir como os nativos. Portanto, a convivência íntima com os nativos passou a ser considerada o melhor instrumento de que o antropólogo dispõe para compreender “de dentro” o significado das lógicas particulares características de cada cultura. Grande parte da renovação das ciências sociais se deve às influências (diretas ou indiretas) dos métodos de pesquisa de Malinowski. Argonauts of the Western Pacific provocou uma verdadeira ruptura metodológica na antropologia, priorizando a observação direta e a experiência pessoal do pesquisador no campo. Publicado em 1922, é um verdadeiro tratado sobre o trabalho de campo. Fundamentação da pesquisa de campo Comprenda neste vídeo a importância de fundamentar sua pesquisa de campo, que é essencial para análises precisas e conclusões embasadas. próximos da psicologia e da psicanálise. São de autoria de Boas muitos trabalhos clássicos, inclusive Raça, linguagem e cultura — provavelmente o mais enfático texto antirracista a surgir do mundo acadêmico em sua época. Falta pouco para atingir seus objetivos.Vamos praticar alguns conceitos? Questão 1 Sobre o conceito de pesquisa estudado neste material, considere as seguintes afirmações: I. A pesquisa não é uma ação isolada, mas uma oportunidade de fazer exercícios que servirão por toda a vida. II. O autêntico pesquisador compreende a pesquisa como um jogo que lhe proporciona a criatividade e o desenvolvimento do olhar científico. III. Ainda que o objeto não seja ou não pareça interessante, é preciso que o trabalho do pesquisador seja instigante. IV. Não é qualquer tema ou assunto da atualidade que pode ser objeto de uma pesquisa científica. V. Mesmo temas do cotidiano e banais, dependendo da experiência do pesquisador, podem se tornar grandes e profundas pesquisas. Está correto o que se afirma em A I, II, IV e V. B II, III, IV e V. Parabéns! A alternativa D está correta. Qualquer tema ou assunto da atualidade pode ser objeto de uma pesquisa científica. A pesquisa não é uma ação isolada, mas uma oportunidade de fazer exercícios que servirão por toda a vida. O autêntico pesquisador compreende a pesquisa como um jogo que lhe proporciona a criatividade e o desenvolvimento do olhar científico. Ainda que o objeto não seja ou não pareça interessante, é preciso que o trabalho do pesquisador seja instigante. Mesmo temas do cotidiano e banais, dependendo da experiência do pesquisador, podem se tornar grandes e profundas pesquisas. Questão 2 Para este pensador, os fatos sociais somente podem ser explicados por outros fatos sociais e não por explicações psicológicas ou biológicas, diferenciando-se de muitos outros pensadores de sua época. A adoção do método científico nas ciências sociais tem, com certeza, a sua influência direta e determinante. Esse pensador é C I, II e III. D I, II, III e V. E III, IV e V. A Durkheim. B Comte. C Malinowski. D Dilthey. Parabéns! A alternativa A está correta. Um fato social é qualquer comportamento, seja ele estabelecido ou não, que tem o poder de influenciar um indivíduo externamente; ou seja, qualquer padrão de comportamento que seja comum em uma sociedade e que tenha uma existência própria, independente das ações individuais. O fato social é tudo o que se produz na e pela sociedade, ou ainda, aquilo que interessa e afeta o grupo de alguma forma (Durkheim, 1985). 2 - Análise de dados Ao �nal deste módulo, você será capaz de reconhecer a importância de utilizar recursos e instrumentos de pesquisa de maneira adequada aos objetivos propostos em um estudo cientí�co. Análise dos dados: da coleta à interpretação E Weber. Como acontece a pesquisa de campo Agora, vamos explorar mais a pesquisa de campo e seu processo. Isso ajudará você a encontrar a melhor metodologia para realizá-la quando estiver elaborando seu próprio projeto de pesquisa ou mesmo já buscando os dados de seu objeto. Para isso, continuaremos aproveitando a experiência antropológica citada. Malinowski sugeriu três questões para o trabalho de campo. Vejamos! O que os nativos dizem sobre o que fazem? O que realmente fazem? O que pensam a respeito do que fazem? Malinowski buscou respostas a essas questões através do contato íntimo com a vida nativa, registrando suas observações no diário de campo e se esforçando para compreender o ponto de vista dos nativos. Para Malinowski, a antropologia era a chave para entendermos melhor a nós mesmos, através do estudo dos povos “primitivos". A rica experiência de campo de Malinowski, assim como suas propostas metodológicas, influenciaram decisivamente a aplicação de técnicas e métodos de pesquisa qualitativa em ciências sociais. Malinowski em pesquisa de campo com nativos das Ilhas Trobriand. Na década de 1970, surge nos EUA a antropologia interpretativa, inspirada na ideia weberiana de que a observação dos fatos sociais deve levar à compreensão (e não a um conjunto de leis). Um dos principais representantes da abordagem interpretativa é Clifford Geertz, que propõe um modelo de análise cultural hermenêutico. Segundo ele, o antropólogo deve fazer uma descrição em profundidade (descrição densa) das culturas como “textos” vividos, como teias de significados que devem ser interpretados. De acordo com Geertz (1978), os “textos” antropológicos são interpretações sobre as interpretações nativas, já que os nativos produzem interpretações de sua própria experiência. Essa perspectiva se traduz em um permanente questionamento do antropólogo a respeito dos limites de sua capacidade de conhecer o grupo que estuda, e na necessidade de expor, em seu texto, suas dúvidas, perplexidades e os caminhos que levaram à sua interpretação, percebida sempre como parcial e provisória. Geertz inspirou a tendência atual da chamada antropologia reflexiva (ou pós‐ interpretativa), que propõe uma autorreflexão a respeito do trabalho de campo nos seus aspectos morais e epistemológicos. Essa antropologia questiona a autoridade do texto antropológico e propõe que o resultado da pesquisa não seja fruto da observação pura e simples, mas de um diálogo e de uma negociação de pontos de vista entre pesquisador e pesquisados. Retrato de Clifford Geertz. Partindo do princípio de que o ato de compreender está ligado ao universo existencial humano, as abordagens qualitativas não se preocupam em fixar leis para se produzir generalizações. Os dados da pesquisa qualitativa objetivam uma compreensão profunda de certos fenômenos sociais apoiados no pressuposto da maior relevância do aspecto subjetivo da ação social. Contrapõem‐se, assim, à incapacidade da estatística de dar conta dos fenômenos complexos e da singularidade dos fenômenos que não podem ser identificados por meio de questionários padronizados. Atenção! Enquanto os métodos quantitativos lidam com uma população de objetos comparáveis, os métodos qualitativos destacam as particularidades de um fenômeno em relação ao seu significado para o grupo estudado. É como mergulhar profundamente em um grupo para explorar questões importantes relacionadas ao tema em estudo. O reconhecimento da especificidade das ciências sociais conduz à elaboração de um método que permita o tratamento da subjetividade e da singularidade dos fenômenos sociais. Com esses pressupostos básicos, a representatividade dos dados na pesquisa qualitativa em ciências sociais está relacionada à sua capacidade de possibilitar a compreensão do significado e a descrição densa dos fenômenos estudados em seus contextos, e não à sua expressividade numérica. A quantidade é, então, substituída pela intensidade, pela imersão profunda — por meio da observação participante por um longo período, das entrevistas em profundidade, da análise de diferentes fontes que possam ser cruzadas — que atinge níveis de compreensão que não podem ser alcançados por meio de uma pesquisa quantitativa. O pesquisador qualitativo buscará casos exemplares que possam ser reveladores da cultura em que estão inseridos. O número de pessoas é menos importante do que a insistência em enxergar a questão sob várias perspectivas. Observar aspectos diferentes, sob enfoques diversos, pode não só contribuir para reduzir o bias da pesquisa, como também propiciar uma compreensão mais profunda do problema estudado. Representação da diversidade e complexidade dos fenômenos sociais abordados na pesquisa qualitativa em ciências sociais. Grande parte dos problemas metodológicos da pesquisa qualitativa é decorrente da tentativa de se ter como referência o modelo positivista das ciências naturais, não se considerando a especificidade dos objetos de estudo das ciências sociais. Os dados qualitativos consistem em descrições detalhadas de situações, com o objetivo de compreender os indivíduos em seus próprios termos. Esses dados não são padronizáveis como os dados quantitativos, obrigando o pesquisador a ter flexibilidade e criatividade no momento de coletá‐ los e analisá‐los. Duas pesquisadoras destacam-se nesse cenário. Vamos conhecê-las! Aponta para a falta de uma críticateórico‐metodológica consistente no campo das ciências sociais e para algumas das armadilhas e limitações das pesquisas qualitativas. A autora descreve um “indisfarçado pragmatismo”, que dominou as ciências sociais contemporâneas e desqualificou o debate sobre os compromissos teóricos que cada método exige. Retrato de Ruth Cardoso. Mostra a preocupação dos pesquisadores em descobrirem uma aplicação imediata e direta dos resultados de sua pesquisa que beneficie a população estudada. Sem deixar de ver como necessária a identificação do pesquisador com seu objeto, porque sem ela é impossível a compreensão “de dentro”. Durham alerta para o perigo de explicar a sociedade apenas através das categorias "nativas", sem uma análise científica crítica e sem reflexão teórica e metodológica sobre a postura do cientista social. Ruth Cardoso (1986) Eunice Durham (1986) Retrato de Eunice Durham. Aaron Cicourel, Mariza Peirano e Maria Isaura Pereira de Queiroz apresentam importantes alertas: Cicourel (1980) já havia advertido para o perigo de o pesquisador ficar tão envolvido com o grupo estudado que poderia se tornar um “nativo”, sem compreender as consequências dessa “conversão” para os objetivos da pesquisa, como “tornar‐se cego para muitas questões importantes cientificamente”. Cicourel aponta para as faltas de regras processuais claras que definam o papel do pesquisador no campo desde o momento de sua inserção. Peirano (1995), em A favor da etnografia, afirma que não se pode ensinar a fazer pesquisa de campo como se ensinam os métodos estatísticos, as técnicas de surveys (tipo de investigação quantitativa, baseada principalmente na coleta de dados), a aplicação de questionário. A pesquisa qualitativa depende da biografia do pesquisador, das opções teóricas, do contexto mais amplo e das imprevisíveis situações que ocorrem no dia a dia da pesquisa. Um dos principais problemas a ser enfrentado na pesquisa qualitativa diz respeito à possível contaminação dos seus resultados em função da personalidade do pesquisador e de seus valores. O pesquisador interfere nas respostas do grupo ou do indivíduo que pesquisa. A melhor maneira de controlar essa interferência é ter a consciência de como sua presença afeta o grupo e até que ponto esse fato pode ser minimizado ou, inclusive, analisado como dado da pesquisa. Queiroz (1983) enfatiza que a omissão de fatos, de ocorrências, de detalhes pode ser tão significativa quanto a sua inclusão nos depoimentos. Para a autora, o importante não é verificar se o entrevistado conhece ou não o fato, mas sim buscar saber por que razão ele o havia esquecido, ou o havia ocultado, ou simplesmente dele não tivera registro. O pesquisador deve estabelecer um difícil equilíbrio para não ir além do que pode perguntar, mas, também, não ficar aquém do possível. Além disso, a memória é seletiva, a lembrança diz respeito ao passado, mas se atualiza sempre a partir de um ponto do presente. As lembranças não são falsas ou verdadeiras, simplesmente contam o passado através dos olhos de quem o vivenciou. Um trabalho de negociação e compromisso que consiste em interpretar, ordenar ou rejeitar (temporária ou definitivamente) toda experiência vivida de maneira a torná‐la coerente com uma identidade construída, como afirma Michael Pollak (1896). Existem algumas qualidades essenciais que o pesquisador deve possuir para ter sucesso em suas entrevistas: interesse real e respeito pelos seus pesquisados, flexibilidade e criatividade para explorar novos problemas em sua pesquisa, capacidade de demonstrar compreensão e simpatia por eles, sensibilidade para saber o momento de encerrar uma entrevista ou sair de cena e, como lembra Paul Thompson (1992), principalmente, disposição para ficar calado e ouvir. Atenção! Thompson, ao analisar a situação de entrevista, afirma que quem não consegue parar de falar nem resistir à tentação de discordar do informante e de impor suas próprias ideias, obterá informações inúteis ou enganosas. Howard Becker, sociólogo norte-americano que fez grandes contribuições à sociologia do desvio, sociologia da arte e sociologia da música, admite que, no lugar de procedimentos uniformes, prefere um modelo artesanal de ciência, no qual cada pesquisador produz as teorias e técnicas necessárias para o trabalho que está sendo feito. Becker (1997) alerta que a escolha das teorias que orientam a pesquisa também está contaminada pelas preferências e dificuldades do pesquisador, já que uma organização ou um grupo pode ser visto de muitas maneiras diferentes, nenhuma delas certa ou errada, visto que são alternativas possíveis e talvez complementares. Não é possível formular regras precisas sobre as técnicas de pesquisa qualitativa porque cada entrevista ou observação é única: depende do tema, do pesquisador e de seus pesquisados. A delimitação do objeto de estudo deve ser claramente explicitada pelo pesquisador para que outros pesquisadores analisem as conclusões obtidas. A escolha do objeto está relacionada a um problema central desse tipo de abordagem: a questão da representatividade do caso escolhido. Ao contrário das pesquisas quantitativas, em que a representatividade se estabelece por meio de procedimentos claros, não existem regras precisas para a escolha de um caso a ser estudado de maneira aprofundada pelo cientista social. A exemplaridade de um indivíduo ou grupo e a possibilidade de explorar um problema em profundidade em uma instituição ou família são alguns dos motivos que levam à escolha do objeto de estudo. Essa escolha depende, fortemente, da sensibilidade e da experiência do pesquisador, e não apenas das características objetivas do grupo estudado. Observe algumas responsabilidades do pesquisador! 1ª Responsabilidade Apresentar de forma clara as características do indivíduo, da organização ou do grupo que influenciaram sua seleção, permitindo que o leitor forme suas próprias conclusões sobre os resultados e sua aplicabilidade em contextos semelhantes envolvendo outros grupos ou indivíduos. 2ª Responsabilidade Destacar as dificuldades e restrições encontradas durante a pesquisa, reconhecendo a importância das pessoas que facilitaram sua entrada no campo (essenciais para a formação da identidade do pesquisador perante o grupo estudado), mencionando aqueles que se recusaram a participar de entrevistas, as perguntas não respondidas pelos participantes, as contradições identificadas e a consistência (ou falta dela) das respostas. Isso proporciona uma visão abrangente do estudo, abordando não apenas os aspectos bem-sucedidos, mas também os desafios enfrentados. O fato de ter uma convivência profunda com o grupo estudado pode contribuir para que o pesquisador naturalize certas práticas e alguns comportamentos que deveria estranhar para compreender. Malinowski chama a atenção para a explosão de significados no momento de entrada no campo, em que cada fato observado na cultura nativa é significativo para o pesquisador. O olhar que estranha, em um primeiro momento, passa a naturalizar em seguida e torna‐se cego para dados valiosos. É comum que pesquisadores se vejam em situações delicadas com o indivíduo ou grupo pesquisado que extrapolam os limites da pesquisa, como pedido de dinheiro ou de favores, convites inapropriados, telefonemas após o término da pesquisa etc. Todos esses problemas, decorrentes do envolvimento intenso com o objeto de estudo, precisam ser administrados pelo pesquisador para que sua pesquisa não fique comprometida. Quanto mais intensa a relação, maior a necessidade de um distanciamento do pesquisador, que torne possível a sua reflexão sobre cada dificuldade que, com certeza, terá de enfrentar. A questão do relacionamento entre pesquisador e objeto, da possível dependência ou disputa de poder, é um dos maiores problemas que devem ser enfrentados. O pesquisador necessita ter bom senso e criatividade para encaminhar as soluções para cada situação.A experiência e a maturidade do pesquisador são fatores determinantes para que a pesquisa seja bem‐sucedida. Os dados da pesquisa Confira neste vídeo a base teórica ao lidar com os dados da pesquisa, garantindo análises precisas e interpretações sólidas para os resultados. Integração dos dados da análise quantitativa e qualitativa Muitos pesquisadores que utilizam métodos de pesquisa qualitativos consideram que os surveys apenas servem para dar legitimidade ao senso comum, visto que não contribuem para a compreensão dos fenômenos sociais. Para esses cientistas sociais, os métodos quantitativos simplificam a vida social limitando‐a aos fenômenos que podem ser enumerados. Eles afirmam que as abordagens quantitativas sacrificam a compreensão do significado em troca do rigor matemático. Comentário Max Weber defendia que a quantificação na sociologia poderia ser útil, desde que contribuísse para a compreensão de um problema específico e não obscurecesse a singularidade dos fenômenos que não poderiam ser capturados por meio da generalização. Como nenhum pesquisador pode abarcar toda a realidade, diferentes abordagens de pesquisa podem oferecer insights sobre questões diversas. É a combinação de múltiplos pontos de vista e métodos de coleta e análise de dados (qualitativos e quantitativos) que possibilita uma compreensão mais ampla e clara da complexidade de um problema. A integração das pesquisas quantitativa e qualitativa permite que o pesquisador faça um cruzamento de suas conclusões de modo a ter maior confiança de que seus dados não são produto de um procedimento específico ou de alguma situação particular. Ele não se limita ao que pode ser coletado em uma entrevista: pode entrevistar repetidamente, pode aplicar questionários, pode investigar diversas questões em diferentes ocasiões, pode utilizar fontes documentais e dados estatísticos. A maior parte dos pesquisadores em ciências sociais admite que não há uma única técnica, um único meio válido de coletar os dados em todas as pesquisas. Há uma interdependência entre os aspectos quantificáveis e a vivência da realidade objetiva no cotidiano. A escolha de trabalhar com dados estatísticos ou com um único grupo ou indivíduo, ou com ambos, depende das questões levantadas e dos problemas que se quer resolver. É o processo da pesquisa que determina as técnicas e os procedimentos necessários para as respostas que se quer alcançar. Cada pesquisador deve estabelecer os procedimentos de coleta de dados que sejam mais adequados para o seu objeto particular. O importante é ser criativo e flexível para explorar todos os possíveis caminhos e não fixar a ideia positivista de que os dados qualitativos comprometem a objetividade, a neutralidade e o rigor científico. Representação do diálogo e interação na pesquisa social. A combinação de metodologias diversas no estudo do mesmo fenômeno tem por objetivo abranger a máxima amplitude na descrição, na explicação e na compreensão do objeto de estudo. Parte de princípios que sustentam que é impossível conceber a existência isolada de um fenômeno social. Enquanto os métodos quantitativos pressupõem uma população de objetos de estudo comparáveis, que fornecerá dados que podem ser generalizáveis, os métodos qualitativos poderão observar, diretamente, como cada indivíduo, grupo ou instituição experimenta, concretamente, a realidade pesquisada. A pesquisa qualitativa é útil para identificar os conceitos e as variáveis relevantes de situações que podem ser estudadas quantitativamente. A riqueza presente nos casos desviantes da "média" nos relatórios estatísticos é inegável e merece ser explorada. Também é evidente o valor da pesquisa qualitativa para estudar questões difíceis de quantificar, como os sentimentos, as motivações, as crenças e as atitudes individuais. Comentário Na integração, a premissa fundamental é que as limitações de um método podem ser compensadas pela amplitude de outro. Assim, os métodos qualitativos e quantitativos não são mais vistos como opostos, mas sim como complementares. Um exemplo de integração de observação participante e survey (técnica de pesquisa que envolve a coleta de dados por meio de questionários estruturados) é o estudo realizado por Neuma Aguiar no Cariri, uma região no sul do Ceará. Esse estudo aborda os modos de organização social da produção e a transformação de três tipos de matéria‐prima. A pesquisadora observou as atividades envolvidas na produção do milho, do barro e da mandioca, assim como as representações elaboradas pelos próprios trabalhadores. Aguiar (1978) afirma que os dados da observação participante são profundos, pois atingem níveis de compreensão dos fatos sociais não alcançados pelos surveys. Plantação de milho. Por outro lado, os dados dos surveys atingem um nível de mensuração que a observação participante não pode atingir. A autora propõe que um modo de superar a dificuldade de generalização dos dados qualitativos e a dificuldade de interpretação das correlações alcançadas pelos surveys seja tentar integrar os dois métodos. Para aumentar a variabilidade dos dados a fim de situar o fenômeno estudado em um contexto mais abrangente, Aguiar propõe que as categorias relevantes, selecionadas por meio do processo de observação participante, sejam empregadas de modo amplo e sistemático com a utilização do questionário. Durante seis meses, a autora estudou, mediante observação participante, duas indústrias de produtos cerâmicos e duas indústrias de farinha de milho. Também recolheu, por intermédio de entrevistas e documentos, dados sobre uma fábrica de fécula de mandioca que havia fechado. Foram aplicados, depois disso, 250 questionários. Atenção! A autora afirma que sua pesquisa não visa apenas à generalização, destacando a importância da observação participante para explorar o tema, levantar hipóteses e questionar as categorias do vocabulário dos trabalhadores. Essa abordagem também ajudou a especificar conceitos e perguntas para os questionários. Aguiar demonstra que ao combinar o survey com a observação participante, foi possível ir além das generalizações sobre o processo de industrialização na região, permitindo entender as representações dos trabalhadores sobre suas atividades. Outro exemplo de integração de dados qualitativos e quantitativos é a pesquisa da professora Miriam Goldenberg (1990) sobre amantes de homens casados. Foram realizadas entrevistas em profundidade com oito mulheres, em um primeiro estudo. Em seguida, foram entrevistados nove homens casados que refletiram sobre as suas experiências extraconjugais. Por fim, realizou-se um estudo de caso, em que foram entrevistados o homem casado, sua amante e toda a sua família (pai, mãe, duas irmãs e um irmão). Além desses dados qualitativos, foram fundamentais para as conclusões as análises demográficas feitas por Elza Berquó, a partir dos dados do censo de 1980. Gráfico: Homens e mulheres casados com mais de 65 anos, conforme os dados do censo de 1980. Berquó (1989), uma das fundadoras da Associação Brasileira de Estudos Populacionais (Abep) observou que apenas 32% das mulheres com mais de 65 anos estavam casadas, em comparação com 76% dos homens. A maior mortalidade dos homens e o fato de o homem brasileiro se casar com mulheres mais jovens geram esse desequilíbrio. As mulheres teriam, assim, chances iguais aos homens somente até os 30 anos, no máximo. Berquó levanta a hipótese de que no Brasil exista uma poligamia disfarçada, já que as mulheres sem possibilidades de casamento acabam se unindo a homens casados. Nesse caso, apenas para ilustrar, os dados quantitativos revelam uma realidade demográfica e as entrevistas em profundidade retratam como cada mulher vivencia essa situação. É interessante como as entrevistadas se queixam de que “falta homem no mercado”, constatação que pode ser facilmente verificada pelos dados do censo. Os dados do IBGE sobre idade, sexo e estado civil foramusados para pensar situações complexas, não quantificáveis, como a situação de ser amante de um homem casado. Esses dados ajudaram a interpretar o discurso e a compreender a situação de forma mais ampla. Interpretados à luz da questão, Goldenberg concluiu (1990) que as mulheres têm menos chances de casar, e essa pode ser uma possível explicação para a situação da amante. Sem os dados do IBGE, a pesquisadora poderia se restringir às explicações dos pesquisados: a ideia de que o fato de ser amante deve corresponder a um tipo determinado de personalidade de mulher “que não se valoriza” ou que “não quer compromisso”. A integração dos dados quantitativos e qualitativos permite verificar a tensão existente entre a escolha individual e o campo de possibilidades das mulheres que são amantes de homens casados. Resumindo Por meio dessa análise detalhada, fica evidente que tanto o exame quanto a interpretação dos dados quantitativos e qualitativos podem aprimorar a compreensão do problema investigado. O suposto conflito entre pesquisa qualitativa e quantitativa é infundado. Cada vez mais, os pesquisadores reconhecem a importância de utilizar todas as ferramentas e técnicas disponíveis para uma compreensão abrangente do problema em estudo. Pesquisa quantitativa X Pesquisa qualitativa Compreenda neste vídeo as principais características de cada abordagem e como elas se diferenciam na coleta e análise de dados. Falta pouco para atingir seus objetivos. Vamos praticar alguns conceitos? Questão 1 Este pensador marcou a história e a conceituação da pesquisa ao apresentar sua teoria de que é no trabalho de campo, no contato íntimo com o cotidiano dos nativos, na vivência diária e com os registros de todas as atividades que será possível obter as respostas para as principais questões que envolvem as interrogações acerca da vida dos nativos. Este pensador é Parabéns! A alternativa C está correta. Para Malinowski, o trabalho de campo possibilita a compreensão do estado mais primitivo do objeto de estudo. Ele influenciou decisivamente a pesquisa ao apresentar sua proposta investigativa de campo com a aplicação de técnicas específicas de pesquisa, principalmente no diário de campo, que deve conter o relato das observações. Ele é um dos representantes da pesquisa qualitativa em ciências sociais. Questão 2 A Durkheim. B Comte. C Malinowski. D Dilthey. E Weber. Este pensador não aceitava a generalização na compreensão dos fenômenos. Por isso, afirmava que o método quantitativo defendido pelo positivismo somente poderia ser proveitoso se não obscurecesse a compreensão. Afirma ele em seu livro Metodologia das ciências sociais (2001): “Não há um ‘agir racional’ sem a experimentação de regras referentes ao decurso histórico que apenas podem ser percebidas e elaboradas mediante uma percepção e observação objetivantes”. Este pensador é Parabéns! A alternativa D está correta. Max Weber defendia a pesquisa qualitativa e, por isso, questionou a validade do método positivista das metodologias das ciências sociais como uma física social capaz de compreender os fenômenos sem generalizá-los. A Malinowski. B Durkheim. C Comte. D Weber. E Dilthey. 3 - Gerenciamento de recursos e instrumentos de pesquisa Ao �nal deste módulo, você será capaz de selecionar e�cientemente recursos e ferramentas tecnológicas para potencializar todas as etapas da pesquisa acadêmica. Recursos como estratégia de pesquisa Para a pesquisa, há diversos recursos disponíveis, incluindo ferramentas tecnológicas que podem facilitar várias etapas da investigação. Ao iniciar um estudo, o pesquisador geralmente encontra motivação através do interesse pelo tema ou objeto. Esse interesse pode surgir por: Razões pessoais. Razões acadêmicas. Lacuna na literatura existente sobre o assunto. Esses fatores impulsionam a investigação, fundamentados no interesse e curiosidade do pesquisador. Por outro lado, é necessário que o trabalho tenha relevância para outras pessoas, apresentando novas provocações sobre o tema ou sugira novos caminhos de análise. Assim, o pesquisador deve produzir algo que seja significativo e colabore para as reflexões na área, não sendo apenas “mais do mesmo”. Durante todas as fases da pesquisa, certos recursos são essenciais, tanto para realizar cada etapa da investigação quanto para apresentar um trabalho significativo. Enfrentar desafios é uma parte natural desse processo, independentemente do quão interessado o pesquisador seja pelo objeto de estudo. Portanto, o pesquisador deve recorrer aos recursos mais adequados em cada momento de seu trabalho. Agora, vamos conferir alguns dos recursos internos e externos mais importantes à condução da pesquisa: Recursos internos: a motivação, o interesse, a persistência, a dedicação e o interesse pelo seu trabalho. Recursos externos: a literatura disponível sobre o tema, os recursos tecnológicos que auxiliam desde a concepção até a divulgação dos resultados, entre outros. Uma estratégia fundamental para todo pesquisador é estabelecer a relação direta entre seu problema de pesquisa e o emprego adequado dos recursos pertinentes ao desenvolvimento dela. Algumas vezes, temos recursos interessantes e atrativos, mas que não condizem com a realidade do nosso trabalho. Por isso, o processo de gerenciar o que se tem disponível é empregar recursos em favor do seu objetivo, porque a carência ou abundância de recursos pode impor limitações ou abrir novas possibilidades para sua pesquisa. Exemplo Quando há escassez de literatura disponível sobre o tema ou quando o tempo é curto para abordagens metodológicas mais extensas. Mesmo diante do cenário de escassez de produção literária sobre seu tema, você pode desenvolver um trabalho muito relevante, inclusive porque vai colaborar para que se amplie um acervo carente de contribuições. Porém, como provavelmente você precisará recorrer a fontes de pesquisa menos acessíveis, precisará de mais tempo para desenvolver a pesquisa. Portanto, mesmo diante da falta de algum recurso, você pode se destacar, mas é necessário avaliar o todo. Sobre o tema e sua relação com o gerenciamento dos recursos, é importante registrar o seguinte. Observe! Na escolha do tema, deve-se considerar a quantidade de atividades a ser cumprida para executar o trabalho, avaliando o tempo disponível para tal, subtraindo deste aquele necessariamente dedicado às atividades cotidianas, estabelecendo assim o limite das capacidades do pesquisador em relação ao tema pretendido. (Kauark; Manhães; Medeiros, 2010, p. 46) Nesse sentido, o pesquisador, desde a fase inicial da pesquisa, deve começar a pensar nos recursos que possui e como pode utilizá-los da melhor forma, propondo um estudo que possa ser executado de forma coerente. Assim, estabelecer um recorte claro sobre o que se quer estudar dentro do tema de pesquisa é começar a delimitar seu problema e direcionar o olhar para um campo ou pergunta que possa ser respondida tendo em vista os recursos disponíveis, ainda que essa resposta sugira novos estudos. Os recursos disponíveis para uma pesquisa Confira neste vídeo os recursos que podem auxiliar seu processo como pesquisador, fornecendo ferramentas e estratégias para tornar sua jornada acadêmica mais eficiente e produtiva. Instrumentos de pesquisa Alguns instrumentos, que também funcionam como recursos, podem facilitar e otimizar as informações durante sua pesquisa, como a utilização de fichamentos, resumos, diário de bordo, internet e formulários. Vamos conhecer em detalhes! Fichamentos Funcionam como uma reunião de dados de fácil acesso para a conclusão do trabalho, com tópicos importantes para que o pesquisador mantenha o foco em questões relevantes durante sua pesquisa bibliográfica. O importante aqui é centralizar algumas informações que poderiam se perder ao longo do processo, devido ao volume de leituras e reflexões. As fichas permitem identificar as obras lidas, as citações,fazer críticas, entre outras possibilidades. Em todos os casos, as fichas podem ser preparadas nas tradicionais folhas pautadas, ou de forma mais moderna, em blocos de notas digitais ou similares. De acordo com Kauark, Manhães e Medeiros (2010), há três tipos principais: fichas bibliográficas, de conteúdo ou de citações. Vamos conferir! Fichas bibliográ�cas São registros organizados dos principais temas encontrados nas obras consultadas durante a revisão de literatura. Ao ler um livro ou artigo, os pesquisadores encontram informações diretamente relevantes para a pesquisa. Recomenda-se fazer anotações breves em fichas, permitindo acesso futuro às informações sem revisitar toda b I t t i t ít l it ífi Resumos Consistem em um importante instrumento de trabalho para o pesquisador, principalmente durante a revisão bibliográfica. Eles devem conter as principais informações das obras lidas, destacando as ideias do autor da obra que está sendo resumida. Os resumos apresentam: Ideia central da obra. a obra. Importante registrar o capítulo ou item específico, e incluir comentários pessoais ou ideias surgidas durante a leitura. Fichas de conteúdo Funcionam como resumos. Elaboradas a partir da leitura da obra, são feitas com as próprias palavras do pesquisador, sem a necessidade de seguir a estrutura de organização de itens na obra original. Fichas de citações São reproduções dos trechos que se pretende usar como citação no trabalho, na linguagem original do autor. Essa prática facilita reunir citações e referências ao estruturar a pesquisa posteriormente. Manter uma ficha com citações é muito importante para evitar a perda de informações e seguir as diretrizes de referências e citações da ABNT. É importante registrar o trecho e o ano da obra. Forma como são acessadas e organizadas as informações. Ordem em que as informações aparecem no texto original. Ao ler um resumo, a pessoa deve ser capaz de compreender todos os principais pontos tratados no livro, artigo ou conteúdo que está sendo resumido, sem prejuízo de sentido, embora de forma mais sucinta. Ao adotar o hábito de fazer resumos, o pesquisador: Se informa melhor do conteúdo que está lendo, porque, para resumir uma obra, é preciso compreendê-la. Constrói um acervo pessoal de informações relevantes e mais acessíveis em uma segunda leitura para organização do seu trabalho. Diários de bordo São registros detalhados das percepções do pesquisador ao longo do dia a dia da pesquisa, especialmente em situações que envolvem observação e entrevistas em campo. Podem ser mantidos em formato físico, como um caderno, ou em meio digital. O principal objetivo é anotar o dia e o local da observação, além de outros detalhes relevantes, como resultados, fatos e descobertas. O diário de bordo auxilia o pesquisador a reunir informações importantes e detalhadas após a imersão durante sua pesquisa. Os instrumentos viáveis a uma pesquisa Confira neste vídeo algumas ferramentas e estratégias para tornar seu processo de investigação mais eficiente e produtivo. O uso das tecnologias para aplicar instrumentos de pesquisa Atualmente é possível contar com recursos e instrumentos de pesquisa mais modernos e com diferentes possibilidades para potencializar sua pesquisa em diferentes fases. Em função do avanço tecnológico, muitas ferramentas facilitadoras estão à disposição do pesquisador. A internet serve como uma ferramenta de pesquisa que possibilita o acesso a uma variedade de obras, bancos de dados e recursos que podem impulsionar significativamente a revisão de literatura, análise de dados e outras etapas da pesquisa. Segundo Gerhardt e Silveira (2009), em relação ao uso das tecnologias da informação e comunicação em pesquisas, sabemos que o maior destaque está na: Capacidade de armazenamento Grande diversidade de informação Entretanto, para que seu objetivo seja plenamente alcançado, é preciso considerar algumas questões. Devido ao vasto volume de acervos e informações acessíveis por meio das tecnologias, o pesquisador enfrenta vários desafios, como: Selecionar fontes que sejam confiáveis. Filtrar as informações, inclusive estabelecendo critérios para este fim. Analisar a coerência entre a informação acessada e seu problema de pesquisa. Uma vez que o pesquisador permanece atento aos seus desafios, um leque de boas possibilidades se abre, desde o início até o final de sua pesquisa. Para ilustrar de que forma as ferramentas tecnológicas podem auxiliar, vamos apresentar alguns exemplos, considerando três fases importantes de um estudo. Revisão de literatura Com o uso cada vez mais frequente das novas tecnologias, a abordagem da "pesquisa bibliográfica" adquire uma nova dimensão. Agora, para obter informações atualizadas, é possível realizar pesquisas em bancos de dados, internet, livros eletrônicos, entre outros recursos. Isso abre novas possibilidades e facilita o acesso à informação, permitindo que os pesquisadores realizem consultas de onde estiverem, otimizando seu tempo e ampliando o acesso aos títulos disponíveis. Exemplo Diversas bibliotecas disponibilizam acervos virtuais para busca de forma remota. As pesquisas em periódicos estão cada vez mais acessíveis e permitem o acesso à produção bibliográfica com base em critérios como tema, ano de publicação, local de publicação e autor. Assim, é possível encontrar e ler pesquisas bastante recentes, atualizadas, sobre o tema que se pretende estudar. Dica O portal de periódicos da Capes disponibiliza acesso livre às produções nacionais e internacionais. Coleta/análise de dados Para esse momento, o pesquisador também pode contar com diferentes instrumentos. Entre as formas mais utilizadas de coletas de dados, estão o questionário e a entrevista. Vamos conhecer essas ferramentas! Supõe conversas diretas entre entrevistador e entrevistado, podendo acontecer das seguintes formas: Estruturada, com perguntas prontas. Não estruturada, que possui perguntas em aberto. Entrevistas Semiestruturada, que embora possua roteiro, tem maior flexibilidade. Não necessitam da interação direta entre entrevistador e entrevistado. Esse instrumento é elaborado pelo pesquisador e respondido pelo informante. Deve ter linguagem acessível e coletar dados gerais das pessoas que irão responder, inclusive esses dados pessoais podem servir para classificar determinado grupo de respondentes e observar se há padrões conforme idade, classe social, gênero, entre outros. Os questionários podem ser impressos ou digitais. Uma ferramenta facilitadora para a aplicação de questionários são os formulários on-line, como o Google Forms. Com eles, o pesquisador consegue disponibilizar seus questionários e acessar as respostas de forma organizada, otimizando o seu tempo. Há também as ferramentas utilizadas para o tratamento dos dados, como o Excel, que organiza informações com tabelas e gráficos. Assim, é possível acessar a tabulação e visualização de resultados, realizar a contagem automática de respostas, entre outras funcionalidades. Divulgação Tão importante quanto produzir uma boa pesquisa é saber divulgá-la, tornando-a acessível aos demais pesquisadores e colaborando para o avanço científico na área. Existem diversas formas para que você divulgue a sua pesquisa, cada meio estabelece os critérios para publicação. Dica O Google Acadêmico é uma das maneiras mais acessíveis de publicar um estudo. Trata-se de uma ferramenta de busca destinada a estudantes, professores, pesquisadores e ao público em geral. Por meio dela, é possível acessar publicações de outros autores e também publicar suas próprias contribuições. Questionários Há uma série de possibilidades, principalmente com o avanço tecnológico, que estão colaborando com estudantes e pesquisadores contemporâneos. Tecnologias digitais e a pesquisa Confira neste vídeo como as tecnologias digitais podem revolucionar sua pesquisa, oferecendo recursos inovadorespara coleta, análise e apresentação de dados. Falta pouco para atingir seus objetivos. Vamos praticar alguns conceitos? Questão 1 Os instrumentos de pesquisa funcionam como recursos que ajudam o pesquisador a se organizar ao longo de todas as etapas de seu estudo. Entre os exemplos de instrumentos citados, existe um que, de forma mais particular, irá colaborar para o acesso a informações sobre uma obra que foi lida durante a revisão de literatura, bem como citações com suas páginas e obras. Isso ajuda inclusive a organizar as referências de seu trabalho de acordo com as normas da ABNT, pois é um instrumento que propõe o registro das informações para este fim. A qual instrumento de pesquisa o enunciado está se referindo? A Resumo Parabéns! A alternativa C está correta. Os fichamentos podem ser bibliográficos, de conteúdo e de citação. Entre outras colaborações, esse instrumento de pesquisa auxilia a reunir informações relevantes sobre as obras lidas, ajudando não somente a retomar os conceitos principais em um livro ou artigo lido, mas a organizar os dados de citações a serem acrescentados nas referências do trabalho, conforme o padrão ABNT. Isso porque, os dados exigidos pela norma podem ser previamente anotados nas fichas e ficam de fácil acesso posteriormente, no momento da estruturação e configuração do trabalho. Questão 2 O uso das tecnologias da informação e da comunicação tende a favorecer significativamente o acesso a alguns instrumentos de pesquisa que, cada vez mais, são ofertados de forma virtual por meio de programas, redes de buscas, softwares. O uso da internet potencializa muito o acesso a obras disponíveis virtualmente, inclusive a produção bibliográfica mais recente sobre determinado tema de pesquisa. Entretanto, é preciso ter atenção a alguns pontos para que se faça um uso consciente dessa tecnologia. Assinale a alternativa que contempla alguns pontos de atenção em relação ao uso das tecnologias, sobretudo a internet, como ferramenta de busca. B Diário de bordo C Fichamentos D Entrevistas E Questionários Parabéns! A alternativa D está correta. O uso da internet para potencializar as buscas de obras que versam sobre determinado tema consiste em uma ferramenta muito favorável atualmente. Muitas são as vantagens ao acessar os bancos de dados virtuais, bibliotecas, obras e até mesmo fazer compras de exemplares que não estão disponíveis em estantes físicas de livrarias. Porém, é necessário ter atenção ao volume de informações acessadas nesse universo, e desenvolver a habilidade de saber filtrar aquilo que, de fato, será pertinente ao seu trabalho. Caso contrário, corre-se um grande risco de se perder no volume de informações e ter dificuldade em conduzir sua pesquisa. Outro cuidado mencionado no texto é saber selecionar fontes confiáveis. Aqui, poderia ser destacado outro cuidado: atenção ao plágio! Acessar as ideias dos outros é colaborar para a sua linha de pensamento, mas é necessário utilizar as informações de forma ética. A É preciso saber elencar muitas informações e agregar o maior número de informações à sua pesquisa. B É necessário evitar o uso da internet, pois há muitas fontes não confiáveis. C O pesquisador deve ter atenção e usar somente a biblioteca virtual de sua instituição. D É necessário saber filtrar as informações, conforme seu problema de pesquisa, bem como selecionar fontes que sejam mais confiáveis. E O pesquisador precisa manter o foco em três fontes da internet apenas. Considerações �nais É fundamental registrar a importância dos primeiros orientadores, que ensinam a pensar, ter disciplina e escrever corretamente. Graças a eles, agora, já formados, em um ambiente de intensas e calorosas discussões, de professores e alunos brilhantes, encontramos solo fértil para começar a fazer pesquisa nas áreas das chamadas ciências humanas ou ciências sociais. Contagiados pelo vírus do olhar científico, não conseguimos parar de pesquisar. Ao aplicar o que aprendeu neste conteúdo, como futuro pesquisador, você deve identificar a seriedade de uma pesquisa acadêmica e a importância de usar modelos qualitativos e quantitativos conforme necessário. Esperamos que se sinta inspirado pelo olhar científico! Aprofundando conceitos de nosso tema Neste vídeo vamos aprofundar os principais conceitos de nosso tema. Explore + A obra A arte de pesquisar: como fazer pesquisa qualitativa em ciências sociais (1997) apresenta elementos importantes para o aprofundamento do conteúdo aqui apresentado. Vale conferir! Leia sobre Émile Durkheim, considerado o pai da sociologia, no artigo que analisa seu legado, 100 anos sem Durkheim. 100 anos com Durkheim, de R. Weiss e R. Benthien. Leia o artigo que destaca o centenário da morte do autor, Wilhelm Dilthey em novas traduções, de L. Waizbort. Na obra Apresentação: Max Weber, hoje de L. Waizbort, entenda melhor a relevância e a atualidade das ideias de Max Weber nos dias de hoje. Leia A família na obra de Frédéric Le Play, de T. Botelho, e saiba um pouco mais sobre o sociólogo Frédéric Le Play e seu método de pesquisa. No artigo O parentesco como consciência humana, de P. Gow, conheça um dos principais conceitos do antropólogo Lewis H. Morgan. Conheça uma pesquisa realizada a partir da fundamentação teórica de Franz Boas e Bronislaw Malinowski no artigo A questão alimentar na trajetória do pensamento antropológico clássico, de L. Santos. Para saber mais sobre Ralph Linton, Ruth Benedict e Margaret Mead, leia o texto Cultura e personalidade, de R. Oliven. Leia sobre a perspectiva de Clifford Geertz no texto Pode realmente haver uma ciência natural da ação humana?, de S. Oliveira. Veja a importância de Ruth Cardoso e Eunice Durham no artigo Ruth Corrêa Leite Cardoso, de Gilberto Velho, publicado em 2008 na Revista DADOS (IESP-UERJ). No artigo Pesquisa etnográfica com crianças: participação, voz e ética, de R. Marchi, é possível perceber a contribuição de Aaron Cicourel e Mariza Peirano. Conheça mais do trabalho de Maria Isaura Pereira de Queiroz, no artigo Amizade e memória: Maria Isaura Pereira de Queiroz e Roger Bastide, de G. Villas Boas. Leia Memória, esquecimento, silêncio, de Michael Pollak, sociólogo e historiador austríaco, e saiba mais sobre um importante conceito: memória. Em seu artigo História oral e contemporaneidade, o sociólogo britânico Paul Thompson desenvolve esse importante conceito em sua produção acadêmica. A resenha do livro Truques da escrita: para começar e terminar teses, livros e artigos, de Howard Becker (1928), realizada por C. Lima, mostra como o sociólogo norte-americano preocupa-se com a temática da produção científica e escrita acadêmica. Em seu trabalho Qual a contribuição dos métodos quantitativos em ciências sociais para o conhecimento da sociedade brasileira?, apresentado no XXV Encontro Anual da ANPOCS, a pesquisadora Neuma Aguiar já se preocupava com a integração entre a abordagem quantitativa e qualitativa. Vale a pena conferir! Referências AGUIAR, N. Observação participante e survey: uma experiência de conjugação. In: NUNES, E. de O. A aventura sociológica: objetividade, paixão, improviso e método na pesquisa social. Rio de Janeiro: Zahar, 1978. BECKER, H. Métodos de pesquisa em ciências sociais. São Paulo: Hucitec, 1997. BERQUÓ, E. A família no século XXI. Ciência Hoje. v. 10, n. 58, out. 1989. CARDOSO, R. Aventuras de antropólogos em campo ou como escapar das armadilhas do método. In: CARDOSO, R. (org.). A aventura antropológica: teoria e pesquisa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986. CICOUREL, A. Teoria e método em pesquisa de campo. In: ZALUAR, A. (org.). Desvendando máscaras sociais. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1980. DURHAM, E. A pesquisa antropológica com populações urbanas. In: CARDOSO, R. (org.). A aventura antropológica: teoria e pesquisa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986. DURKHEIM, E. As regras do método sociológico. São Paulo: Nacional, 1985. GEERTZ,