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Farmacologia Colinérgica
A farmacologia colinérgica estuda os fármacos que atuam no sistema nervoso
parassimpático, estimulando ou inibindo a ação dos receptores colinérgicos. Esses receptores
são ativados pelo neurotransmissor acetilcolina (ACh).
Os fármacos colinérgicos podem ser divididos em:
• Agonistas colinérgicos (estimulam os receptores colinérgicos)
• Antagonistas colinérgicos (bloqueiam os receptores colinérgicos)
Vamos entender esse assunto em detalhes.
1. Sistema Nervoso Parassimpático e Neurotransmissor
O sistema nervoso autônomo (SNA) regula funções involuntárias do corpo e é dividido em:
• Simpático ("Luta ou Fuga") → Responde ao estresse.
• Parassimpático ("Repouso e Digestão") → Mantém o corpo relaxado e em equilíbrio.
No sistema nervoso parassimpático, o neurotransmissor principal é a acetilcolina (ACh), que
atua sobre os receptores colinérgicos.
A ativação do sistema parassimpático causa:
Diminuição da frequência cardíaca (bradicardia)
Contração dos brônquios (broncoconstrição)
Aumento da secreção gástrica e motilidade intestinal
Contração da bexiga (micção facilitada)
Contração da pupila (miose)
2. Receptores Colinérgicos
A acetilcolina age em dois tipos de receptores colinérgicos:
2.1 Receptores Muscarínicos (M) → Ativados pela muscarina
Encontrados em órgãos inervados pelo sistema parassimpático.
M1 → Atua no SNC e glândulas gástricas (aumento da secreção gástrica).
M2 → Atua no coração, reduzindo a frequência cardíaca (efeito cronotrópico negativo).
M3 → Atua nos brônquios, bexiga, olhos e trato digestivo, causando broncoconstrição,
aumento da motilidade intestinal e secreção glandular.
2.2 Receptores Nicotínicos (N) → Ativados pela nicotina
Encontrados em gânglios autonômicos, medula suprarrenal e junção neuromuscular.
Nn (neuronal) → Presente nos gânglios autonômicos e na medula da suprarrenal
(estimula a liberação de adrenalina).
Nm (muscular) → Encontrado na junção neuromuscular, promovendo a contração
muscular.
3. Fármacos Agonistas Colinérgicos (Colinomiméticos)
São substâncias que estimulam os receptores colinérgicos, podendo ser:
3.1 Agonistas Diretos (agem diretamente nos receptores colinérgicos)
Acetilcolina → Atua em receptores muscarínicos e nicotínicos.
Betanecol → Estimula M3, promovendo contração da bexiga e intestino (tratamento de
retenção urinária).
Pilocarpina → Estimula M3, promovendo miose e aumento da secreção salivar (usada no
glaucoma e na xerostomia).
Carbacol → Atua nos receptores M e N, usado no tratamento do glaucoma.
3.2 Agonistas Indiretos (inibidores da acetilcolinesterase – AChE)
A acetilcolinesterase (AChE) degrada a acetilcolina. Os inibidores dessa enzima aumentam a
ação da ACh.
Edrofônio → Inibidor de curta duração, usado no diagnóstico da miastenia gravis.
Neostigmina e Piridostigmina → Tratamento da miastenia gravis e reversão do bloqueio
neuromuscular.
Fisostigmina → Usado na intoxicação por atropina.
Donepezila e Rivastigmina → Tratamento do Alzheimer, aumentando a acetilcolina no
SNC.
4. Fármacos Antagonistas Colinérgicos (Anticolinérgicos)
Os fármacos anticolinérgicos bloqueiam os receptores colinérgicos, reduzindo a ação do
sistema parassimpático.
4.1 Antagonistas Muscarínicos
Atropina → Bloqueia M1, M2 e M3, causando taquicardia, midríase e redução da
secreção salivar.
Usada na bradicardia, intoxicação por organofosforados e midríase para exame
oftalmológico.
Escopolamina → Reduz motilidade gastrointestinal e secreções, usada para enjoo e
cólicas intestinais.
Ipratrópio e Tiotrópio → Bloqueiam M3, promovendo broncodilatação (tratamento da
asma e DPOC).
Oxitropina e Tolterodina → Usadas no tratamento da incontinência urinária, pois
reduzem a contração da bexiga.
4.2 Antagonistas Nicotínicos
Bloqueadores Ganglionares (raro uso clínico) → Ex: Hexametônio e Mecamilamina.
Bloqueadores Neuromusculares → Usados em anestesia:
Atracúrio e Rocurônio (bloqueio reversível da junção neuromuscular).
Succinilcolina (bloqueio irreversível, usado para intubação rápida).
5. Aplicações Clínicas
Condição Fármaco Indicado
Miastenia Gravis Neostigmina, Piridostigmina
Glaucoma Pilocarpina, Carbacol
Alzheimer Donepezila, Rivastigmina
Retenção urinária Betanecol
Bradicardia Atropina
Intoxicação por organofosforados Atropina + Pralidoxima
Asma e DPOC Ipratrópio, Tiotrópio
Incontinência urinária Tolterodina, Oxitropina
Checklist Resumo
Neurotransmissor principal → Acetilcolina (ACh).
Receptores Colinérgicos → Muscarínicos (M1, M2, M3) e Nicotínicos (Nn, Nm).
Efeito do Parassimpático → Bradicardia, miose, aumento da secreção gástrica,
motilidade intestinal e contração da bexiga.
Agonistas Colinérgicos → Diretos (ex: Betanecol, Pilocarpina) e Indiretos (ex:
Neostigmina, Rivastigmina).
Antagonistas Colinérgicos → Atropina (midríase, taquicardia), Ipratrópio (asma),
Tolterodina (incontinência urinária).
Aplicações Clínicas → Miastenia Gravis (Neostigmina), Alzheimer (Donepezila), Asma
(Ipratrópio), Glaucoma (Pilocarpina).
Inibidores da Acetilcolinesterase (AChE)
Os inibidores da acetilcolinesterase (AChE) são fármacos que bloqueiam a degradação da
acetilcolina (ACh), aumentando sua disponibilidade na sinapse. Isso prolonga e intensifica
os efeitos colinérgicos no sistema nervoso autônomo, central e na junção neuromuscular.
Como funciona a acetilcolinesterase (AChE)?
A acetilcolinesterase (AChE) é uma enzima que degrada a acetilcolina em colina e ácido
acético, interrompendo sua ação.
Localização:
• Fenda sináptica das terminações nervosas colinérgicas.
• Junção neuromuscular.
• Sistema nervoso central (SNC).
Ao inibir essa enzima, ocorre um acúmulo de acetilcolina, intensificando a estimulação dos
receptores muscarínicos e nicotínicos.
Classificação dos Inibidores de AChE
Os inibidores da AChE podem ser classificados de acordo com sua duração de ação:
1 ⃣ Inibidores de AChE de Curta Duração
• Edrofônio → Usado no diagnóstico da miastenia gravis (teste do edrofônio).
• Efeito reversível e de curta duração (cerca de 10 minutos).
2 ⃣ Inibidores de AChE de Média Duração
• Neostigmina, Piridostigmina, Fisostigmina → Tratamento da miastenia gravis,
reversão do bloqueio neuromuscular e intoxicação por anticolinérgicos.
• Fisostigmina atravessa a barreira hematoencefálica e pode ser usada na intoxicação
por atropina.
3 ⃣ Inibidores de AChE de Longa Duração (Irreversíveis)
• Organofosforados (ex: gás sarin, paration, malation) → Usados como pesticidas e
agentes neurotóxicos.
• Ligam-se irreversivelmente à enzima AChE, causando intoxicação grave.
4 ⃣ Inibidores de AChE usados no Alzheimer
• Donepezila, Rivastigmina, Galantamina → Aumentam os níveis de acetilcolina no SNC
para tratar o Alzheimer.
Efeitos dos Inibidores da AChE
Os efeitos são consequência do acúmulo de acetilcolina, estimulando receptores
muscarínicos e nicotínicos:
Efeitos Muscarínicos (Sistema Parassimpático ativado)
Miose (contração da pupila)
Bradicardia (redução da FC)
Hipotensão (vasodilatação)
Aumento da secreção salivar e lacrimal
Sudorese excessiva
Aumento da motilidade gastrointestinal (diarreia, cólicas)
Contração da bexiga (micção facilitada)
Efeitos Nicotínicos (Efeitos na Junção Neuromuscular e SNC)
Aumento da contração muscular (doses terapêuticas)
Fraqueza muscular e paralisia (altas doses → intoxicação)
Convulsões e coma (se atingir o SNC)
Principais Aplicações Clínicas dos Inibidores da AChE
Indicação Fármaco
Miastenia gravis Neostigmina, Piridostigmina
Alzheimer Donepezila, Rivastigmina, Galantamina
Reversão do bloqueio neuromuscular (cirurgia) Neostigmina
Intoxicação por atropina Fisostigmina
Diagnóstico de miastenia gravis Edrofônio
Intoxicação por Inibidoresda AChE (Organofosforados)
A intoxicação por organofosforados (pesticidas, armas químicas) é grave e pode levar à crise
colinérgica.
Sintomas da Intoxicação
Efeitos Muscarínicos (DUMBBELLS)
D → Diarreia
U → Urinação excessiva
M → Miose
B → Bradicardia
B → Broncoespasmo
E → Excitação muscular
L → Lacrimejamento
L → Salivação excessiva
S → Sudorese
Efeitos Nicotínicos → Fadiga muscular, convulsões, coma.
Tratamento
1 Atropina → Bloqueia os efeitos muscarínicos.
2️ Pralidoxima → Reativa a AChE e reverte os efeitos nicotínicos (se administrada
precocemente).
Checklist Resumo dos Inibidores da AChE
Mecanismo de ação → Inibem a degradação da acetilcolina, aumentando sua ação.
Classificação → Curta duração (Edrofônio), Média duração (Neostigmina), Longa
duração (Organofosforados), Alzheimer (Donepezila, Rivastigmina).
Efeitos → Muscarínicos (bradicardia, miose, aumento de secreções) e Nicotínicos
(contração muscular, fraqueza).
Usos clínicos → Miastenia Gravis (Neostigmina, Piridostigmina), Alzheimer
(Donepezila), Reversão de bloqueio neuromuscular (Neostigmina).
Intoxicação → Organofosforados causam crise colinérgica (DUMBBELLS). Tratamento:
Atropina + Pralidoxima.