Prévia do material em texto
HISTOLOGIA E EMBRIOLOGIA AULA 6 Profª Fernanda Eliza Toscani Burigo 2 CONVERSA INICIAL O tecido nervoso, constituído por células amplamente especializadas – os neurônios – e pelas células da neuroglia ou células da glia, permite a captura de sensações, sua interpretação e a resposta rápida a estímulos. Esse tecido é responsável pela formação de um dos sistemas mais importantes do organismo: o sistema nervoso, dividido anatomicamente em duas partes principais (Figura 1), o sistema nervoso central (SNC), o qual compreende o encéfalo e a medula espinhal e o sistema nervoso periférico (SNP), formado pelos nervos, gânglios e terminações nervosas – estas irão compor o sistema nervoso autônomo (SNA), sem interferência direta do SNC, que coordena ações involuntárias, como os movimentos peristálticos e os batimentos cardíacos. A estrutura anatômica e fisiológica do sistema nervoso será abordada posteriormente. Figura 1 – Sistema nervoso central (em laranja) e sistema nervoso periférico Fonte: Vector Mine/Shutterstock. 3 É importante ressaltar que o tecido nervoso e, consequentemente, o sistema nervoso, estão intimamente relacionados à atividade de outros sistemas, tais como os sistemas sensorial e endócrino, atuando efetivamente na atividade destes. Nesta aula, vamos destacar a composição do tecido nervoso, seus componentes e suas respectivas funções, abordando com profundidade as características dos neurônios e de suas células anexas – as células da glia, compreendendo como ocorre a propagação do impulso nervoso, destacando ainda o papel das meninges e a ação das drogas (lícitas e ilícitas) nesse importante tecido. Para esta aula, destacam-se os seguintes objetivos: Geral: Identificar os componentes do tecido nervoso e sua ação de controle sobre tecidos e órgãos. Específicos: • Caracterizar o tecido nervoso; • Identificar as células do tecido nervoso; • Descrever o mecanismo de transmissão do impulso nervoso e a ação dos neurotransmissores; • Caracterizar anatômica e fisiologicamente as meninges; • Relacionar a fisiologia do sistema nervoso à ação das drogas lícitas e ilícitas. TEMA 1 – FUNÇÕES E CARACTERÍSTICAS DO TECIDO NERVOSO O tecido nervoso, que se origina da ectoderme embrionária, com a formação do tubo neural (SNC) e da crista neural (SNP), é composto por células muito especializadas, os neurônios (células permanentes, que não sofrem divisão) e as células da glia, com diferentes formas e funções, mas capazes de sofrer mitose (Figuras 2 e 3). As características de tais células serão bem discutidas e desmembradas na sequência. 4 Figura 2 – Células do tecido nervoso: neurônios e células da glia Fonte: Designua/Shutterstock. Figura 3 – Neurônios e células da glia vistos por microscopia Fonte: Kateryna Kon/Shutterstock. Para desempenhar bem suas funções, o tecido nervoso depende de uma propriedade dos neurônios – a excitabilidade, a qual afeta a permeabilidade na membrana plasmática, invertendo a sua polarização, que se espalha ao longo do neurônio, provocando a propagação do estímulo nervoso. Entre os neurônios, há um espaço, denominado fenda sináptica, no qual ocorre a liberação de importantes mediadores químicos, os neurotransmissores, que permitem a sensibilização e a continuidade da propagação do impulso nervoso aos neurônios adjacentes. A intercomunicação entre neurônios é 5 chamada de sinapse. Os processos de transmissão do impulso nervoso serão destacados no tema 3. Em relação às suas funções, o tecido nervoso é responsável por captar os estímulos, por meio de neurônios especiais, os neurônios sensitivos, conduzindo-os até o SNC, local de interpretação das sensações e comando de reações, enviando sinais elétricos a partir dos neurônios motores, os quais irão propiciar a reação efetiva ao estímulo inicial. Vale destacar que todo esse movimento demora milésimos de segundos para ocorrer. Por exemplo, ao apoiar a mão em uma superfície quente, os neurônios sensitivos captam o estímulo, conduzindo-o ao encéfalo, que o interpreta e envia uma resposta pelos neurônios motores, fazendo com que os músculos esqueléticos recebam a informação na placa motora, retirando a mão imediatamente da superfície quente. Essa rápida reação é fundamental para a preservação do organismo. Outra função importante é a atuação do tecido nervoso sobre o sistema endócrino, protagonizando a importante função de regulação do organismo, pela liberação dos hormônios. Por exemplo, ao observar uma situação apavorante, como um assalto, os neurônios sensitivos presentes nos olhos enviam o sinal de perigo ao SNC, que, ao interpretá-lo, envia sinais por meio dos nervos até as glândulas suprarrenais, as quais secretam adrenalina na corrente sanguínea, promovendo diversas reações, como a taquicardia, preparando o indivíduo para uma possível fuga, ou seja, para uma reação efetiva. Enfim, o tecido nervoso, compreendendo o sistema nervoso, está envolvido em praticamente todas as funções de um indivíduo, atuando tanto de forma voluntária, como as supracitadas, quanto de forma involuntária, como ocorre nos movimentos peristálticos do trato digestório, nas contrações uterinas (cólicas menstruais), na condução da urina pelo trato urinário e nos movimentos do miocárdio. TEMA 2 – COMPONENTES DO TECIDO NERVOSO: NEURÔNIOS E CÉLULAS DA GLIA Durante o desenvolvimento embrionário, as células que compõem o tecido nervoso diferenciam-se pela presença de duas estruturas embrionárias principais: o tubo neural, o qual forma os neurônios, e os glioblastos, os quais irão se diferenciar em astrócitos e oligodendrócitos, importantes células da glia 6 e também para a diferenciação dos monócitos em micróglias, células fogocíticas, capazes de responder às lesões. Já a crista neural dá origem aos neurônios sensitivos da raiz dorsal e dos gânglios nervosos cranianos, aos neurônios motores dos gânglios do sistema nervoso autônomo e às células de Schwann, que formarão a bainha de mielina das fibras nervosas. A partir de agora, iremos destacar as características de cada tipo celular, abordando suas peculiaridades. 2.1 Neurônios Os neurônios são as unidades funcionais do tecido nervoso, altamente especializadas e que, em função de sua excitabilidade, permitem a condução, interpretação e resposta aos estímulos. São células capazes de grande conexão entre si, constituindo redes neuronais, formando uma grande rede de comunicação, a qual irá compor o sistema nervoso, conforme demonstra a Figura 4. Figura 4 – Rede de conexão entre neurônios Fonte: Whitehoune/Shutterstock. Apesar de possuírem grande variedade de formas e tamanhos, todos os neurônios possuem três componentes básicos, conforme demonstra a Figura 5 e é descrito a seguir: • Corpo celular: também denominado de soma ou pericário, é o local onde se encontra o núcleo e o citoplasma. Nele ocorre intensa atividade metabólica, pois é onde se encontra o material genético e as organelas. O núcleo, o nucléolo e o retículo endoplasmático rugoso (também 7 chamado de corpúsculo de Nissl) são bem desenvolvidos, indicando a intensa atividade de síntese proteica. A atividade aeróbica também é intensa, recrutando uma grande quantidade de mitocôndrias. Geralmente, os corpos celulares ficam localizados no SNC; • Dendritos: prolongamentos muito ramificados, originados do corpo celular, responsáveis pela recepção dos estímulos, tanto do meio quanto de outros neurônios, estabelecendo uma ampla conectividade sináptica; • Axônio: sempre único no neurônio, essa estrutura é responsável pela transmissão do impulso nervoso ao longo deste, possuindo ramificações terminais (ou distais), os telodendros, nos quais são percebidas pequenas dilatações, denominadasbotões sinápticos ou terminações sinápticas, as quais se comunicam por meio da liberação dos neurotransmissores na fenda sináptica, com os dendritos de outros neurônios ou em órgãos motores, como o músculo esquelético. Os axônios também podem ser referidos como fibras nervosas. Figura 5 – Estrutura do neurônio Fonte: Shacde Design/Shutterstock. É importante ressaltar que a propagação do impulso nervoso sempre ocorrerá no seguinte sentido: dendritos > corpo celular > axônio. Ainda, os 8 neurônios caracterizam-se por serem células grandes, cujo axônio pode medir até um metro de comprimento. Em geral, devido ao fato de possuírem ampla variedade de formas e também funções, os neurônios podem ser classificados quanto à sua funcionalidade e também quanto ao número e comprimento de processos que emergem do pericário, ou seja, de acordo com o arranjo do axônio e dos dendritos em relação ao corpo celular. Quanto à função, os neurônios podem ser classificados em: a. Sensoriais (aferentes): responsáveis por receber os estímulos do meio e do organismo. Estão amplamente relacionados aos órgãos sensoriais (tato, olfato, paladar, visão e audição), capturando as sensações; b. Motores (eferentes): são os neurônios responsáveis pela execução de uma reação, atuando sobre órgãos efetores, como as glândulas e fibras musculares; c. Associativos (interneurônios): são importantes no estabelecimento de conexões entre os neurônios, favorecendo a interação entre eles. Já, quanto ao número de processos, os neurônios classificam-se em (Figura 6): a. Multipolares: forma mais comum, apresentam inúmeros dendritos que partem do corpo celular e um único axônio. Visíveis no córtex cerebral e cerebelar; b. Bipolares: possuem único dendrito, localizado opostamente ao axônio, também único. São típicos da visão e audição; c. Pseudounipolares: único dendrito e axônio, que surgem de um tronco em comum do corpo celular. Presentes nos nervos cranianos e espinhais. 9 Figura 6 – Classificação dos neurônios quanto ao número de processos: pseudounipolares, bipolares e multipolares (da esquerda para a direita) Fonte: Tefi/Shutterstock. Em relação à estrutura do corpo celular, que compreende um citoplasma complexo e um núcleo organizado, pode-se observar uma organização diferenciada, com ribossomos abundantes, livres ou associados ao retículo granular, também proeminente, constituindo o corpúsculo de Nissl, que se estende para o interior dos dendritos, mas não no axônio. O complexo de Golgi, amplo e bem evidente, bem como numerosas mitocôndrias, essenciais à síntese de ATP, da mesma forma, compreendem organelas essenciais à atividade neuronal. Inúmeros lisossomos e grânulos de lipofucsina (característico de células permanentes) também podem ser observados. Além disso, possuem um citoesqueleto bem organizado, que atua na manutenção do formato do axônio e do corpo celular e permite o transporte de substâncias. Quanto ao núcleo, volumoso e de forma ovoide, posicionado centralmente no soma, possui intensa atividade metabólica, contendo a cromatina bem dispersa e o nucléolo bem evidente, relacionados à síntese dos neurotransmissores, a serem transportados ao longo do axônio até o botão sináptico, onde permanecem armazenados em vesículas, para posterior liberação por exocitose. 2.2 Células da glia As células da neuróglia, ou células da glia, responsáveis pela sustentação, suporte e nutrição dos neurônios, são bem mais numerosas do que 10 estes e bem menores, mantendo sua capacidade mitótica. Devido a essa capacidade proliferativa, a maioria dos tumores cerebrais possui origem glial. Da mesma forma, quando há alguma lesão no SNC, ocorre mobilização das células da glia, as quais removem os fragmentos celulares, isolam a área e originam a cicatriz glial ou gliose, que interfere na regeneração neuronal, conforme afirma Kierszenbaum (2004). Diferentemente dos neurônios, essas células não são capazes de propagar o impulso nervoso e seus dendritos e o axônio não recebem nem transmitem os sinais elétricos. Conforme suas funções, estrutura e localização, podem ser classificadas em cinco tipos, observadas na Figura 7 e descritas brevemente: Figura 7 – Tipos de células da glia Fonte: Designua/Shutterstock. a. Astrócitos (Figura 8): possuem vários filamentos gliais (tipo de filamento intermediário presente no citoesqueleto), com núcleo grande e ovoide. Também apresentam inúmeros prolongamentos, relacionados ao transporte de substâncias entre o sangue e os neurônios, uma vez que se conectam à parede dos vasos sanguíneos. Estão relacionados à recuperação de lesões no SNC, promovendo a cicatrização a partir da proliferação dos astrócitos; 11 Figura 8 – Astrócitos: imagem ilustrativa e conexões com vasos sanguíneos Fonte: LDarin/Shutterstock; Kateryna Kon/Shutterstock. b. Oligodendrócitos (SNC) (Figura 9) e células de Schwann (SNP) (Figura 10): células menores que os astrócitos, com núcleo irregular, complexo de Golgi bem desenvolvido e inúmeras mitocôndrias. A sua função é, com base nas dobras em torno do axônio, produzir o estrato mielínico (ou bainha mielínica), estrutura lipídica e proteica que envolve o axônio e permite acelerar a velocidade de propagação do impulso elétrico – processo conhecido como mielinização (Figura 10). O estrato mielínico se estende desde o início do axônio até as terminações axônicas, mas não são contínuos; os espaços são denominados nódulos de Ranvier e nele ocorre a condução saltatória do potencial de ação (propagação do impulso), o que torna bem mais rápida a transmissão nervosa; Figura 9 – Oligodendrócitos Fonte: Designua/Shutterstock. 12 Figura 10 – Processo de mielinização pelas células de Schwann Fonte: Tefi/Shutterstock. c. Micróglia (Figura 11): únicas derivadas da mesoderme resultam da diferenciação dos macrófagos, atuando como células fagocíticas, ou seja, atuam como protetores imunológicos do SNC. Podem eliminar células inviáveis, em especial na histogênese do embrião, por meio da apoptose; Figura 11 – Micróglia Fonte: LDarin/Shutterstock. d. Ependimárias: células epiteliais que constituem um epitélio simples cúbico e revestem as cavidades cerebrais e o canal central da medula espinhal. Essas células estão relacionadas à produção e à reabsorção do líquido cefalorraquidiano, importante na proteção e sustentação do SNC, contra forças externas, amortecendo impactos, além de remover resíduos metabólicos; 13 e. Satélites: células com formato cúbico, as quais constituem uma camada simples ao redor do corpo celular dos neurônios que formam os gânglios periféricos. Têm como função atuar como isolantes elétricos, auxiliar os neurônios em seu metabolismo e propiciar um microambiente favorável ao seu redor. Apesar das inúmeras divergências funcionais e estruturais das células da glia, é muito difícil diferenciá-las por meio de técnicas histológicas convencionais. Geralmente, as técnicas de imuno-histoquímica são utilizadas para essa identificação. TEMA 3 – A TRANSMISSÃO DO IMPULSO NERVOSO A transmissão do impulso nervoso, iniciada com base em um estímulo, caracteriza-se por uma corrente elétrica, que se propaga ao longo de todo neurônio. Para iniciar, o neurônio precisa estar em uma condição chamada potencial de repouso, que, segundo Junqueira e Carneiro (2018), caracteriza-se por uma diferença de voltagem (diferença de potencial), medida no interior e no exterior das células, para a qual se observa um valor de cerca de –65 mV (dependendo do neurônio, pode ser de –40 a –80 mV), indicando que o interior da membrana plasmática é negativo em relação ao seu exterior, o que significa que a membrana do neurônio está polarizada. Para que essa diferença de potencial ocorra, é necessário um desequilíbrioentre íons sódio e potássio dentro e fora da célula, mantido por bomba de sódio e potássio, transporte ativo que mantém o transporte contínuo de sódio para o meio extracelular e de potássio para o meio intracelular. Com base em um estímulo, ocorre a despolarização da membrana plasmática, ou seja, há a inversão das cargas elétricas, promovendo uma entrada brusca de sódio, que altera a polaridade do neurônio. Essa despolarização caracteriza o potencial de ação: é ele que permite as reações, pois muda a voltagem de -65 Mv (potencial de repouso) e gera um fluxo de corrente elétrica. Quando a despolarização ultrapassar -55 mV, gera uma onda de despolarização que se propaga pelo axônio. Como uma onda, logo após a passagem do potencial de ação pela membrana do axônio, ocorre a reversão do potencial, restabelecendo o potencial de repouso naquele lugar e 14 repolarizando a membrana, conforme demonstra o gráfico a seguir e as Figuras 13 e 14: Figura 12 – Gráfico que ilustra a despolarização (potencial de ação) e repolarização do axônio Fonte: Anya Ku/Shutterstock. Figura 13 – Propagação do potencial de ação pela membrana do axônio Créditos: Magnon Almeida. 15 Figura 14 – Detalhe da propagação do impulso nervoso ao longo do axônio Fonte: Extender_01/Shutterstock. Assim que cessa o estímulo, a bomba de sódio e potássio reequilibra as diferenças entre os íons, retornando ao potencial de repouso. Vale destacar que nos neurônios cujo axônio contém a bainha de mielina, a propagação se dá aos “saltos” nos nódulos de Ranvier, e não de forma linear, como ocorre nos neurônios desprovidos da bainha, sendo mais rápida e consumindo menos energia. Ao chegar ao final das terminações axônicas, ocorre uma série de situações que irão culminar na sinapse, ou seja, a transmissão da informação ao neurônio seguinte. É importante ressalvar que os neurônios não estão em contato direto entre si; entre eles, há um pequeno espaço, denominado fenda sináptica, no qual ocorre a liberação dos mediadores químicos – os neurotransmissores (Figura 15). 16 Figura 15 – Detalhe: fenda sináptica Fonte: Alex Mit/Shutterstock. As sinapses podem ser de dois tipos: elétricas e químicas (mediada pelos neurotransmissores). Na sinapse elétrica (Figura 16), ocorre a propagação do potencial de ação diretamente de um neurônio a outro, através das conexões celulares, promovidas pelas junções comunicantes (do tipo GAP). Esse tipo de sinapse é extremamente rápido, comum no SNC, porém não permite o controle. Figura 16 – Imagem esquemática da sinapse elétrica Fonte: Naeblys/Shutterstock. Já a sinapse química (Figura 17), predominante sobre a elétrica, ocorre quando o potencial de ação não consegue se propagar para o neurônio pós- sináptico de forma elétrica, necessitando de mediadores químicos para promover a sinalização celular. Os neurotransmissores, que podem ser 17 proteínas, aminas e até mesmo compostos inorgânicos, são sintetizados no corpo celular e armazenados em vesículas, conduzidas até os telodendros e eliminadas na fenda sináptica por exocitose. O neurônio seguinte, pós-sináptico, contém receptores para capturar os neurotransmissores, que permitem a entrada abrupta de íons sódio, promovendo uma despolarização local, que será conduzida ao longo de todo neurônio. Após serem liberados, os neurotransmissores serão removidos rapidamente da fenda sináptica, por degradação enzimática ou serão capturados por endocitose pela membrana pré- sináptica, podendo ser reutilizados. Assim, os neurotransmissores realizam uma ação muito breve. Figura 17 – Imagem esquemática da sinapse química Fonte: Christoph Burgstedt/shutterstock A tabela a seguir resume as funções de alguns neurotransmissores: Tabela 1 – Funções de alguns neurotransmissores NEUROTRANSMISSOR FUNÇÃO Dopamina Controla a estimulação e os níveis do controle motor. Quando os níveis estão baixos no mal de Parkinson, os pacientes não conseguem se mover. Serotonina Esse neurotransmissor é um dos mais importantes. Possui forte efeito no humor, memória e aprendizado. Regula o equilíbrio do corpo. Acetilcolina (ACh) A acetilcolina controla a atividade de áreas cerebrais relacionadas à atenção, aprendizagem e memória. Noradrenalina Substância química que induz a excitação física e mental e bom humor. A noradrenalina é uma mediadora dos batimentos cardíacos, pressão sanguínea, a taxa de conversão de glicogênio (glucose) para energia, assim como outros benefícios físicos. Glutamato O principal neurotransmissor excitatório do sistema nervoso Encefalina e endorfina Essas substâncias são opiáceos que, como as drogas heroína e morfina, modulam a dor, reduzem o estresse etc. Fonte: Lúcio, 2013. https://www.shutterstock.com/pt/g/christophburgstedt 18 TEMA 4 – MENINGES Pensemos no SNC como uma estrutura altamente delicada, que, dessa forma, apresenta um sistema protetor bem especializado e eficiente: crânio, meninges, líquido cefalorraquidiano e barreira hematoencefálica. Neste tópico, abordaremos as meninges. As meninges, membranas protetoras que envolvem o SNC, organizam-se em três camadas, dispostas nessa ordem: dura-máter (mais externa), aracnoide (intermediária) e pia-máter (mais interna), conforme demonstram as Figuras 18 e 19. Entre elas, auxiliando na proteção e no amortecimento de impactos, encontra-se o líquor ou líquido cefalorraquidiano, sintetizado pelas células ependimárias. Figura 18 – Visão geral das meninges Fonte: Sciencepics/Shutterstock. Figura 19 – Detalhe das meninges Fonte: Systemoff/Shutterstock. 19 4.1 Dura-máter Essa meninge, sendo a mais externa, é também a mais grossa e com maior resistência. Quanto à sua posição, fica contígua ao periósteo no crânio, aderindo intimamente aos seus ossos e, na medula espinhal, separa-se do periósteo das vértebras por um espaço (epidural), constituído basicamente por tecido conjuntivo – frouxo e adiposo. É uma membrana ricamente inervada – caracterizando a sensibilidade intracraniana (relacionada à maioria dos casos de dores de cabeça), composta por tecido conjuntivo denso modelado, repleto de fibras colágenas e irrigação sanguínea e por células meningoteliais (células epiteliais pavimentosas). Ainda, algumas áreas da dura-máter se destacam, formando pregas, as quais dividem a cavidade craniana em compartimentos que se interligam. As principais pregas são: foice do cérebro, que separa os dois hemisférios; tenda do cerebelo; foice do cerebelo e diafragma da sela, observados na Figura 20, Figura 20 – Pregas da dura-máter Crédito: Jefferson Schnaider 4.2 Aracnoide Essa membrana, muito fina, cujo aspecto se assemelha a uma teia de aranha (daí o nome), devido às várias ramificações que possui, encontra-se em uma posição intermediária em relação às outras meninges. Separa-se da pia- máter por espaços contendo líquor, os espaços subaracnóideos. A região que entra em contato com a pia-máter forma inúmeras projeções, denominadas de trabéculas, que se inserem nos espaços subaracnóideos, por onde permeiam os principais vasos sanguíneos cerebrais. Em certos locais, há expansões da 20 aracnoide que perfuram a dura-máter e que culminarão nos seios venosos: são as vilosidades aracnóideas. É importante ressaltar que o espaço subaracnóideo é variável conforme a posição cerebral, que possui inúmeros sulcos, giros e depressões; assim, nessas áreas, formam-se dilatações desse espaço, contendo muito líquor, constituindo as cisternas aracnóideas. 4.3 Pia-máter A pia-máter é a meninge mais interna, aderindo intimamente ao encéfalo e à medula espinhal, envolvendo os sulcos cerebrais até as porções mais profundas. Localiza-se sobre os prolongamentos dos astrócitos, sendo uma membrana muito delicada. É constituída por umtecido conjuntivo frouxo, amplamente vascularizado, e por células menigoendotelais. Tem por função dar resistência ao tecido nervoso e acompanha vasos que o permeiam, formando a parede externa dos espaços perivasculares, envolvendo os vasos sanguíneos que adentram no tecido. 4.4 Meningite Caso haja uma infecção – geralmente, viral ou bacteriana – nas meninges, com ou sem reação purulenta no líquor, ocorre a inflamação das membranas, provocando o quadro conhecido por meningite, doença muito perigosa, que pode provocar sequelas severas e até a morte. Dependendo do agente infeccioso, é transmitida por gotículas e secreções do trato respiratório, por alimentos contaminados, por contato próximo e até por picada de mosquitos. Seu diagnóstico é realizado por exames clínicos, que sugerem a doença, indicando, assim, a coleta de líquido cefalorraquidiano para análise laboratorial e pesquisa do antígeno. O aspecto do líquor, que deve ser incolor, pode ser um indicativo. A vacinação ainda é a melhor forma de prevenção contra a meningite, além da higienização pessoal e de manter os ambientes ventilados e limpos. Infelizmente, no Brasil a meningite é considerada uma doença endêmica, ou seja, casos são esperados ao longo do ano, com ocorrência de surtos e epidemias, conforme estações do ano (bacterianas: outono/inverno e virais: primavera/verão). 21 TEMA 5 – CONTEXTUALIZANDO: A AÇÃO DAS DROGAS NO TECIDO NERVOSO O uso de drogas e os potenciais problemas relacionados a ele é um assunto comum no nosso cotidiano, estando presentes nos meios de comunicação, nos diálogos dos pais com filhos, nas ações das autoridades, nas escolas, enfim, em diferentes momentos e lugares do nosso dia a dia. Apesar dos tabus que ainda permeiam esse tema, é fundamental sua abordagem e compreensão, a fim de atuarmos na prevenção e minimização de efeitos indesejáveis. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), “droga é qualquer substância que, introduzida no organismo, interfere no seu funcionamento”. Podem ser classificadas de três formas: 1. Naturais, semissintéticas e sintéticas; 2. Lícitas e ilícitas; 3. Atuação no SNC – Depressoras, estimulantes ou alucinógenas – Abordadas com maiores detalhes em nosso estudo. 5.1 Drogas naturais, semissintéticas e sintéticas Drogas naturais são aquelas que provocam alguma alteração no organismo, mas que não possuem componentes químicos em sua composição, ou seja, não estão relacionadas à produção em laboratório, geralmente sintetizadas utilizando-se plantas. Comumente, seus efeitos são alucinógenos. Como exemplo, pode-se citar a maconha, o ópio, alguns cogumelos específicos, a cafeína, a nicotina, entre outras. Já as drogas semissintéticas, apesar de utilizarem produtos da natureza, sofreram alguma alteração e/ou processamento em laboratório, como é o caso da cocaína, crack, heroína, morfina, codeína, álcool e outras. Por fim, as drogas sintéticas são aquelas totalmente produzidas em laboratório, sintetizadas com base em uma ou várias substâncias químicas, sendo exemplificadas pelo LSD, anfetaminas, ecstasy, anabolizantes, inalantes etc. Vale ressaltar que as duas últimas possuem alto poder viciante. 22 5.2 Drogas lícitas e ilícitas Drogas lícitas são aquelas cujo consumo é permitido por lei, além de poderem ser produzidas e comercializadas sem haver repressão. Dentre elas, destacam-se o álcool, a nicotina, a cafeína e medicamentos sem prescrição médica. Infelizmente, são as mais consumidas e, hoje, o álcool lidera o ranking de consumo e dependência. Consequentemente, as drogas ilícitas são o contrário, ou seja, são aquelas proibidas de serem consumidas, produzidas e comercializadas e, devido à sua proibição, relacionam-se diretamente ao tráfico de drogas. É o caso da maconha, cocaína, heroína, LSD, inalantes, ópio, dentre outras. é importante destacar que a legislação que regulamenta a produção, consumo e comercialização de uma droga pode variar de país para país. 5.3 Drogas e atuação no SNC Quanto à atuação no sistema nervoso central (SNC), as drogas podem ser classificadas em depressoras do SNC, quando diminuem drasticamente as atividades cerebrais, minimizando a liberação de neurotransmissores, caracterizando-se por fazer com que seu usuário se mantenha lento, desligado, alheio às atividades rotineiras, tornando-se menos sensível aos estímulos externos. São exemplos desse tipo de droga: álcool, inalantes, soníferos, ansiolítico, antidepressivos e morfina. O álcool, por exemplo, se liga aos receptores do GABA (gamma aminobutírico) e da acetilcolina, importante neurotransmissor no estímulo de músculos, em especial o esquelético, relacionando-se também à atenção, à excitação, à aprendizagem e à memória, bloqueando a ação desta, conforme demonstra a Figura 21. Assim, efeitos como tremedeiras, falta de atenção, lentidão de movimentos e da fala e os apagamentos são bem explicados. Além disso, a intoxicação pelo álcool leva ao acúmulo de células sanguíneas nos capilares, impedindo que os astrócitos realizem a conexão de substâncias entre neurônios e sangue, levando à morte de ambas, astrócitos e neurônios (Figura 22). 23 Figura 21 – Atuação do álcool sobre os neurônios e liberação de neurotransmissores Fonte: Joshya/Shutterstock. Figura 22 – Ação do álcool sobre o neurônio, astrócitos e capilares sanguíneos Fonte: Designua/Shutterstock. Os antidepressivos atuam estimulando a síntese de serotonina, elevando os níveis desse neurotransmissor, que está relacionado ao humor, à emoção, à ansiedade, regulando o sono e a alimentação. Por isso os antidepressivos causam dependência, pois retiram seus usuários de uma condição depressiva e suicida. As drogas estimulantes do SNC, ao contrário das depressoras, aumentam a atividade cerebral e a liberação de neurotransmissores, em especial a epinefrina (neurotransmissor excitatório que regula o humor e aumenta a 24 frequência cardíaca) e a dopamina (neurotransmissor associado ao mecanismo de recompensa do cérebro), regulando sensações prazerosas, fazendo com que o usuário sinta-se muito bem, em euforia, provocando reações intensas, como sensação de alerta, disposição e resistência, conforme demonstram as figuras 23 e 24. As drogas estimulantes são representadas pela nicotina, cafeína, anfetaminas, cocaína, crack e merla. Enfim, as drogas perturbadoras do SNC, ou alucinógenas, promovem a distorção das atividades cerebrais, em áreas específicas, promovendo alterações dos sentidos, da percepção espaço e tempo e alucinações. São representadas pela maconha, haxixe, ecstasy, cogumelo e LSD. Pesquisas sugerem que as drogas alucinógenas, como o cogumelo e seu psicoativo, a psilocibina, permitem o início de novas conexões cerebrais, que originalmente não estabelecem comunicação. A maconha, por exemplo, pode afetar as conexões cerebrais do córtex orbitofrontal, relacionado à tomada de decisões e às emoções, promovendo mudanças (observadas por ressonância magnética) nessa região. Figura 23 – Ação da cocaína sobre os neurônios e liberação de dopamina Fonte: Joshya/Shutterstock. 25 Figura 24 – Ação da cocaína sobre a liberação de neurotransmissores na fenda sináptica Fonte: Designua/Shutterstock. NA PRÁTICA • O tecido nervoso pode ser relacionado a inúmeras doenças. Pesquise sobre algumas delas, tais como: epilepsia, esclerose lateral amiotrófica (ELA). Mal de Parkinson e a doença de Alzheimer. Descreva suas características, diagnóstico e possíveis tratamentos. • Qual é a relação entre o tecido nervoso e o vírus da raiva? Explique. • A depressão é considerada a doença do século, acometendo milhões de pessoas, nas mais variadas idades. Qual é a relação dela com o tecido nervoso? Qual é o papel dos medicamentos? • Elabore um projeto de conscientização contrao uso de drogas lícitas, demonstrando os danos neurológicos provocados por elas. Saiba mais Assista ao filme Óleo de Lorenzo e compreenda um pouco mais sobe a doença adrenoleucodistrofia. Esquematize as características e sintomas dessa doença e a proposta de cura destacadas no filme. ÓLEO de Lorenzo. Direção de George Miller. EUA, 1993. 129 min. 26 FINALIZANDO Nesta aula, cujo objetivo foi compreender a estrutura, funções e composição do tecido nervoso, pudemos destacar alguns tópicos importantes, conforme resumimos no infográfico a seguir: Figura 25 – Resumo TECIDO NERVOSO FUNÇÕES E CARACTE- RÍSTICAS NEURÔNIOS E CÉLULAS DA GLIA IMPULSO NERVOSO MENINGES DROGAS E AÇÃO NO SNC 27 REFERÊNCIAS ABRAHAMSOHN, P. Histologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2016. EDUCAÇÃO INFOCO. Potencial de ação. Educação Infoco, S.d. Disponível em: . Acesso em: 4 set. 2019. GARTNER, L. P. Atlas colorido de histologia. 7. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2018. GLEREAN, A.; SIMÕES, M. I. Fundamentos de histologia para estudantes da área da saúde. São Paulo: Santos, 2013. JUNQUEIRA, L. C. U.; CARNEIRO, J. Histologia básica. 13. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2018. KIERSZENBAUM, A. L.; TRES, L. L. Histologia e biologia celular: uma introdução à patologia. 5. ed. Rio de Janeiro: GEN | Grupo Editorial Nacional S.A. Publicado pelo selo Editora Guanabara Koogan Ltda., 2021.LOPES, S.; LÚCIO, C. Sistema nervoso. Slideshare, 4 nov. 2013. Disponível em: . Acesso em: 4 set. 2019. MEDRADO, L. Citologia e histologia humana: fundamentos de morfofisiologia celular e tecidual. São Paulo: Érica, 2014. ROSS, M. H.; PAWLINA, W. Histologia: texto e atlas. 7. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2018. YOUNG, B. et.al. Wheater Histologia Funcional: texto e atlas em cores. 5. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2007.