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Conceitos básicos de motivação Luke: “Não acredito”. Yoda: “É por isso que você fracassa”. O império contra-ataca OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM Depois de ler este capítulo, você será capaz de: 1 Descrever os três elementos básicos da motivação. 2 Identificar as teorias clássicas de motivação e avaliar sua aplicabilidade nos dias de hoje. 3 Aplicar as previsões da teoria de avaliação cognitiva a recompensas intrínsecas e extrínsecas. 4 Comparar a teoria de estabelecimento de objetivos e a administração por objetivos. 5 Comparar a teoria do reforço e a teoria do estabelecimento de objetivos. 6 Demonstrar como a justiça organizacional é um aperfeiçoamento da teoria da equidade. 7 Aplicar os princípios básicos da teoria da expectativa na motivação dos funcionários. 8 Comparar as teorias contemporâneas de motivação. 9 Explicar até que ponto as teorias da motivação são culturalmente limitadas. 7 EM BUSCA DO BAÚ DA FELICIDADE Filho de um imigrante grego e de uma imigrante turca, Senor Abravanel nasceu em 1930 no bairro da Lapa, no Rio de Janeiro. Sendo o mais velho dos seis filhos do casal, o jovem sempre procurou estar perto de seu pai, dono de uma loja de artigos para turistas que visitavam a cidade. Nessa época, já se podia observar que Senor tinha grande tino para o comércio e, aos 14 anos, ele começou a praticá-lo por conta própria. Sua primeira atividade foi vender produtos simples na rua, atuando como camelô na cidade. Apesar de as mercadorias não possuírem diferenciais, o jovem demonstrava grande dinamismo e extroversão, conquistando a simpatia dos consumidores. Em função dessas habilidades in- terpessoais e de sua voz, Abravanel passou a trabalhar no rádio, que ainda era a ‘televisão da época’. Ao ingressar nessa nova carreira, Senor adotou o nome ar- tístico de Silvio Santos e continuou trabalhando em outros em- Fr ân ci o d e H ol an d a/ Fo lh ap re ss 07 rob0610_cap07 BR.indd 195 12/13/10 4:32 PM 196 Comportamento organizacional preendimentos. O primeiro deles foi um serviço de rádio na barca em que ele regressava do trabalho. Associando-se a comerciantes do Rio de Janeiro, Silvio ofereceu espaços comerciais na rádio em troca da aparelhagem necessária. Posteriormente, passou a vender os anúncios, alavancando ainda mais sua carreira de empresário. Seu segundo em- preendimento na barca foi a abertura de um bar para vender bebidas aos passageiros e a organização de um jogo de bingo para entretê-los ao longo do trajeto. Nessa época, Silvio Santos decidiu mudar-se para São Paulo e se tornou apresentador de circo. Rapidamente migrou para os programas de televisão e comprou o Baú da Felicidade, um serviço de venda a prestações de uma cesta com presentes de Natal. Aos poucos, Silvio passou a alugar horários nas redes de televisão para transmitir seu próprio programa, lucrando com a venda dos espaços comerciais. Nesses shows, a realização de sorteios de móveis e automóveis era comum e o empresário ingressou no ramo da venda desses produtos. A partir de então, o famoso apresentador iniciou sua batalha para inaugurar o próprio canal de TV. Em 1975, nasceu a TVS, que seria os primórdios do Sistema Brasileiro de Televisão, o SBT, que se tornou a marca única dos canais de Silvio no final dos anos 1980. Durante a década de 1990, o SBT consolidou-se como a segunda principal emissora de TV do Brasil e atualmente é uma das três maiores redes do país. O SBT, no entanto, não é a única empresa desse megaempreendedor, mas apenas um dos braços do Grupo Silvio Santos, que conta com 34 empresas e cerca de 12 mil funcionários. Entre outros negócios, a corporação administra a empresa de cosméticos Jequiti, a Tele Sena, uma rede de lojas de varejo e o Banco Panamericano, que, ao longo dos anos 2000, tornou-se a principal empresa do grupo. A instituição financeira atua fundamentalmente na concessão de crédito para pessoas físicas das classes C e D, financiando a aquisição de veículos. De 2007 para 2008, o lucro do grupo saltou de 340 milhões de reais para 450 milhões de reais, sendo que os resultados do banco responderam por cerca da metade desses números. De acordo com Luiz Sebastião Sandoval, presidente da empresa por mais de 30 anos, até se demitir em 2010, Silvio Santos é uma pessoa bastante “determinada e ousada”, que “assume riscos”, mas que sabe exatamente quais são seus objetivos. Ademais, de acordo com o executivo, o empresário “relaciona-se facilmente com outras pessoas e gosta de ouvir e aprender com os outros”. Segundo Sandoval, Silvio é uma pessoa “inquieta” e dedicada, motivada para alcançar plenamente todas as suas metas.1 O que motiva pessoas como Silvio Santos a se superarem? Existe algo que as organi- zações podem fazer para estimular esse tipo de motivação em seus funcionários? Esse é um dos tópicos mais estudados em comportamento organizacional.2 Uma das razões de sua popularidade foi revelada em uma pesquisa recente de uma empresa de consultoria, que chegou à conclusão de que a maioria dos trabalhadores brasileiros (79 por cento) sente-se desmotivada com seu trabalho.3 Outro estudo sugeriu que, segundo os próprios trabalhado- res, eles desperdiçam duas horas por dia, aproximadamente, sem contar a hora do almoço e intervalos programados (navegando na Internet e conversando com os colegas).4 É claro que a motivação parece ser um problema. A boa notícia é que todas essas pesquisas nos fornecem ensinamentos a respeito de como melhorá-la. Neste capítulo, vamos estudar as noções básicas de motivação, avaliar várias teorias e oferecer um modelo integrativo que mostre como essas teorias se encaixam. Definindo motivação Algumas pessoas, como Silvio Santos, parecem ser guiadas para o sucesso. Mas o mesmo aluno que acha muito difícil ler um livro técnico por mais de 20 minutos é capaz de devorar uma edição de Harry Potter em uma tarde. Para esse estudante, a mudança na motivação é impulsionada pela situação. Assim, tenha em mente, quando analisarmos a motivação, o nível dela varia tanto entre os indivíduos quanto em apenas um único indivíduo em diferentes momentos. Definimos motivação como o processo responsável pela intensidade, pela direção e pela persistência dos esforços de uma pessoa para alcançar determinada meta.5 Embora Motivação Processo responsável pela intensidade, direção e persistência dos esforços de uma pessoa para o alcance de determinada meta. 07 rob0610_cap07 BR.indd 196 12/13/10 4:32 PM Capítulo 7 Conceitos básicos de motivação 197 a motivação, de maneira geral, esteja relacionada ao esforço para atingir qualquer objeti- vo, reduziremos nosso foco aos objetivos organizacionais, para refletir interesse específico no comportamento relacionado ao trabalho. Os três elementos-chave em nossa definição são intensidade, direção e persistência. A intensidade refere-se a quanto esforço a pessoa despende. É o elemento ao qual a maioria de nós se refere quando falamos de motivação. Contudo, uma alta intensidade não é capaz de levar a resultados favoráveis de desempenho profissional, a menos que canalizada em uma direção favorável à organização. Portanto, precisamos considerar a qualidade do esforço, tanto quanto sua intensi- dade. O tipo de esforço que devemos buscar é aquele que vai em direção aos objetivos da organização e que é coerente com esses objetivos. Por fim, a motivação tem uma di- mensão de persistência. Essa é uma medida de quanto tempo uma pessoa consegue manter seu esforço. Os indivíduos motivados mantêm-se na realização da tarefa até que seus objetivos sejam atingidos. Teorias clássicas de motivação A década de 1950 foi um período frutífero para o desenvolvimento de conceitos sobre motivação. Quatro teorias foram formuladas nesse período e, embora sejam muito criti- cadas hoje e questionáveis em sua validade, ainda são provavelmente as mais conhecidas e estudadas sobre a motivação dos trabalhadores. Como você verá no decorrer deste ca- pítulo, outrasobtidas de seu trabalho com aqueles de outros funcionários e respondem de maneira a eliminar quaisquer injustiças percebidas. Quadro 7.1 Teoria da equidade Comparação* Percepção Injustiça por ser sobrerrecompensado *Onde significa relação entre resultado e investimento do funcionário, e , relação entre R IB R IA R IB R IA R IB R IA R IB R IA resultado e investimentos de outros funcionários relevantes. 07 rob0610_cap07 BR.indd 213 12/13/10 4:33 PM 214 Comportamento organizacional gênero, tempo de emprego, nível hierárquico na organização e bagagem educacional ou profissional.61 As pesquisas indicam que homens e mulheres preferem se comparar com alguém do mesmo sexo. As mulheres costumam receber menos que os homens para trabalhos iguais e têm expectativas mais baixas quanto à remuneração.62 Assim, uma mulher que escolher outra mulher como ponto de referência fará que o padrão de comparação fique mais baixo. Concluímos, então, que funcionários em serviços com menos segregação sexual fazem mais comparações entre sexos do que aqueles em situações de claro domínio de um dos sexos. Isso também sugere que se as mulheres são tolerantes à baixa remuneração, talvez esse fato se deva aos padrões de comparação que elas utilizam. É claro que os estereótipos dos empregadores sobre as mulheres (por exemplo, a crença de que elas têm menos compro- metimento com a empresa ou que ‘trabalho de mulher’ vale menos) também contribuem para a diferença na remuneração.63 Por sua vez, os funcionários com pouco tempo de casa não possuem muitas informa- ções sobre as outras pessoas da organização e tendem a confiar mais nas próprias experi- ências. Já os mais antigos, usam principalmente os colegas como fonte de comparação. Os funcionários em escalões mais altos e especializados e aqueles com nível educacional mais elevado costumam ser mais bem informados sobre as pessoas de outras empresas, por isso utilizam mais as referências do tipo outro-externo. De acordo com a teoria da equidade, quando o trabalhador percebe uma injustiça, espera-se que ele faça uma destas seis escolhas:64 1. Modificar seus insumos (por exemplo, fazer menos esforço ou mais se sentirem que ganham além do que é justo); 2. Modificar suas recompensas (funcionários que recebem por peça produzida po- dem aumentar seus rendimentos produzindo mais peças com menor qualidade); 3. Rever sua autoimagem (“Eu achava que trabalhava em um ritmo moderado, mas agora percebo que trabalho muito mais do que os outros.”); 4. Rever a percepção que tem dos outros (“O trabalho de Rodrigo não é tão interes- sante quanto eu pensava.”); 5. Buscar outro ponto de referência (“Posso não estar ganhando tão bem quanto meu cunhado, mas certamente ganho mais do que meu pai ganhava quando tinha mi- nha idade.”); 6. Desistir (deixar o emprego). Algumas dessas proposições têm sido suportadas pela pesquisa, mas outras não.65 Pri- meiro, as injustiças criadas pelo sobrepagamento não parecem ter um impacto significativo sobre o comportamento na maioria das situações profissionais. Aparentemente, as pessoas são bem mais tolerantes com relação a isso do que com relação ao subpagamento, ou pelo menos conseguem racionalizar melhor essa situação. É muito prejudicial a uma teoria quando a metade da equação (como as pessoas reagem ao sobrepagamento) se desintegra. Segundo, nem todas as pessoas são sensíveis à equidade.66 Existe uma pequena parcela da força de trabalho que até prefere que sua relação insumos-recompensas seja menor do que aquela de seu ponto de referência. As previsões da teoria da equidade não funcionam muito bem com essas pessoas ‘benevolentes’. É importante observar que, embora a maioria das pesquisas tenha se concentrado na remuneração, os funcionários parecem buscar a equidade na distribuição de outras re- compensas organizacionais. Para alguns funcionários, cargos de status e escritórios luxuosos funcionam como recompensas na equação da equidade.67 Por fim, a pesquisa mais recente se dirige à expansão do significado de equidade ou jus- tiça.68 Historicamente, a teoria da equidade enfocou a justiçadistributiva, ou a justiça que se percebe na quantidade e na alocação das recompensas entre os indivíduos. Mas, cada vez mais, ela é pensada do ponto de vista da justiçaorganizacional — uma percepção geral do que é justo no local de trabalho. Os funcionários percebem suas organizações como justas somente quando acreditam que os resultados que receberam e a forma com Justiça distributiva Justiça percebida do valor e alocação de recompensas entre indivíduos. Justiça organizacional Percepção geral do que é justo no local de trabalho, composto de justiça distributiva, processual e interacional. 07 rob0610_cap07 BR.indd 214 12/13/10 4:33 PM Capítulo 7 Conceitos básicos de motivação 215 que os resultados foram recebidos são justos. Um elemento-chave da justiça organizacio- nal é a percepção individual. Em outras palavras, de acordo com a justiça organizacional, justiça ou equidade podem ser subjetivas, e isso reside na percepção da pessoa. O que uma pessoa vê como injusto, outra vê como perfeitamente apropriado. No geral, as pessoas pos- suem um viés egocêntrico ou de autoconveniência. Elas veem as distribuições ou os proce- dimentos que as favorecem como se fossem justos.69 Em uma pesquisa recente, 61 por cento dos entrevistados disseram que estão pagando pessoalmente suas cotas justas de impostos, mas um número quase igual (54 por cento) dos entrevistados acham o sistema tributário como um todo injusto, dizendo que algumas pessoas o contornam.70 Além do foco sobre percepções de justiça, outro elemento-chave da justiça organiza- cional é a concepção de que a justiça é multidimensional. Quanto nos é pago em relação ao que achamos que deveríamos receber (justiça distributiva) é obviamente importante. Mas, de acordo com os pesquisadores da justiça, como somos pagos é relevante também. A Figura 7.6 mostra um modelo de justiça organizacional. Além da justiça distributiva, a justiça organizacional inclui também a justiçapro cessual— aquela percebida no processo utilizado para determinar a distribuição das re- compensas. Dois elementos-chave da justiça processual são os controles de processo e as explicações. O controle de processo é a oportunidade de apresentar o ponto de vista de alguém sobre os resultados desejados aos tomadores de decisões. As explicações são razões claras para o resultado que a gestão oferece ao indivíduo. Dessa forma, para os funcionários poderem ver um processo como justo, eles precisam sentir que têm algum controle sobre o resultado e que receberam uma explicação adequada sobre o porquê de o resultado ter ocorrido. Também é importante que o gestor seja coerente (com todas as pessoas e em tempo integral), imparcial, tome decisões baseadas em informações exatas e esteja aberto às solicitações.71 Os efeitos da justiça processual tornam-se mais importantes quando não há justiça distributiva. Faz sentido. Se não obtemos o que queremos, tendemos a focar o porquê. Se seu supervisor oferece um escritório confortável a um colega seu em vez de oferecer a você, Justiça processual Justiça percebida no processo utilizado para determinar a distribuição das recompensas. Figura 7.6 Modelo de justiça organizacional Justiça organizacional Definição: percepção geral do que é justo no ambiente de trabalho Exemplo: acredito que este é um local justo para se trabalhar. Justiça atribuitiva Definição: percepção do resultado justo. Exemplo: recebi o aumento de salário merecido. Justiça processual Definição: percepção de justiça do processo utilizado para determinar o resultado Exemplo: fui inserido no processo utilizado para conceder aumentos e me deram uma boa explicação sobre por que eu recebi o aumento solicitado. Justiça interacional Definição: percepção do indivíduo do grau em que é tratadocom dignidade e respeito Exemplo: quando me falou sobre meu aumento, meu supervisor foi muito gentil e cortês. 07 rob0610_cap07 BR.indd 215 12/13/10 4:33 PM 216 Comportamento organizacional você fica mais focado no tratamento de seu supervisor com relação a você do que se tivesse ganhado o escritório. As explicações são úteis quando tomam a forma de desculpas post hoc (“Eu sei que isso é ruim. Eu quis lhe oferecer o escritório, mas não foi uma decisão minha.”) em vez de justificativas (“Decidi dar o escritório ao João, mas ter um escritório melhor não é grande coisa.”).73 Uma contribuição recente para a pesquisa da justiça organizacional é a justiçain teracional, que é a percepção do indivíduo do grau em que é tratado com dignidade, consideração e respeito. Quando as pessoas são tratadas de maneira injusta (pelo menos aos próprios olhos), elas reagem por meio da retaliação (por exemplo, criticar o supervisor).74 Como as pessoas relacionam a justiça ou injustiça interacional ao portador das informa- ções, poderíamos esperar que as percepções de injustiça estivessem relacionadas mais es- treitamente ao supervisor de alguém. Via de regra, as evidências sugerem isso.75 Dessas três dimensões de justiça, a justiça distributiva é a que mais está relacionada ao comprometimento organizacional e à satisfação com resultados, como a remuneração. A justiça processual é a que está mais relacionada à satisfação no trabalho, confiança, afasta- mento da organização, desempenho profissional e comportamentos de cidadania. Quanto à justiça interacional, pelo fato de ser recente, ainda não existem muitas evidências que permitam apoiar conclusões sobre seus impactos.76 Os gestores podem dar vários passos para estimular as percepções dos funcionários. Primeiro, eles deveriam perceber que estes últimos são especialmente sensíveis à injustiça em procedimentos de comunicação de más notícias (ou seja, quando a justiça distributiva é baixa). Dessa forma, é especialmente importante compartilhar informações de maneira aberta sobre como as decisões de distribuição são tomadas, seguir procedimentos consis- tentes e equilibrados e empregar práticas similares para aumentar a percepção de justiça processual. Segundo, ao falar sobre as injustiças percebidas, os executivos precisam focar suas ações na origem do problema. No final de 2006 e início de 2007, após um acidente aéreo decorrente do choque entre duas aeronaves, muitos controladores de voo realizaram ‘operações-padrão’, em que cumpriam as recomendações técnicas e não trabalhavam em Justiça interacional Grau de percepção em que um indivíduo é tratado com dignidade, consideração e respeito. No final de 2009, a Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro convocou uma greve geral. Os bancários desejavam melhores salários, benefícios e condições de trabalho. De acordo com um líder do movimento, a inequidade entre as remunerações dos funcionários operacionais e dos executivos das instituições foi outra causa da paralisação. Segundo ele, “é inadmissível que os bancos, com seus altos lucros e com o pagamento de bônus milionários a seus executivos, queiram reduzir os salários e a participação nos lucros dos bancários”.72 Sé rg io L im a/ Fo lh ap re ss Figura 7.7 Teoria da expectativa Esforço individual 1 2 3Desempenho individual Relação esforço-desempenho Relação desempenho-recompensa Relação recompensa-metas pessoais Recompensas organizacionais Metas pessoais 1 2 3 07 rob0610_cap07 BR.indd 216 12/13/10 4:33 PM Capítulo 7 Conceitos básicos de motivação 217 um ritmo muito estressante. Essa foi a forma encontrada por eles para protestar contra as condições precárias de trabalho, as jornadas duplas realizadas e o elevado número de voos operados por cada um deles simultaneamente.77 Em uma situação como essa, a Agência Nacional de Aviação Civil e o Ministério da Defesa deveriam perceber que a solução deve- ria ser tangível (contratação e treinamento de pessoal e melhoria das condições de trabalho, por exemplo) e não baseada em desculpas ou mudanças nos procedimentos.78 Teoria da expectativa Hoje, uma das explicações mais amplamente aceitas sobre motivação é a teoriada expectativa, de Victor Vroom.79 Apesar de haver alguns críticos, boa parte das pesquisas dá embasamento a essa teoria.80 A teoria da expectativa sustenta que a força da tendência para agir de determinada maneira depende da força da expectativa de que essa ação trará certo resultado e da atração que esse resultado exerce sobre o indivíduo. Em termos mais práticos, um fun- cionário sente-se motivado a despender um esforço quando acredita que isso resultará em uma boa avaliação de desempenho; que a boa avaliação resultará em recompensas organizacionais — como uma bonificação, um aumento de salário ou uma promoção — e que essas recompensas satisfarão suas metas pessoais. A teoria, portanto, enfoca três relações (ver Figura 7.7): 1. relaçãoesforçodesempenho. A probabilidade percebida pelo indivíduo de que certa quantidade de esforço levará ao desempenho; 2. relaçãodesempenhorecompensa. O grau em que o indivíduo acredita que determinado nível de desempenho levará a um resultado desejado; 3. relaçãorecompensametaspessoais. O grau em que as recompensas orga- nizacionais satisfazem as metas pessoais ou as necessidades do indivíduo e a atra- ção que essas recompensas potenciais exercem sobre ele.81 A teoria da expectativa ajuda a explicar por que tantos trabalhadores não se sentem motivados em seu trabalho e muitos fazem apenas o mínimo necessário para continuarem empregados. Isso fica evidente quando examinamos as três relações da teoria em mais detalhes. Vamos apresentá-las sob a forma de perguntas, às quais os funcionários devem responder afirmativamente para que sua motivação seja maximizada. Primeiro, se eu me esforçar ao máximo, isso será reconhecido em minha avaliação de desempenho? Para muitos trabalhadores, a resposta é: não. Por quê? Sua capacitação pode deixar a desejar, o que significa que, por mais que se esforcem, eles nunca terão um desempenho melhor. O desenho do sistema de avaliação de desempenho da empresa pode considerar outros fatores (como lealdade, iniciativa ou coragem), o que significa que mais esforço não terá necessariamente como resultado uma melhor avaliação. Outra possibilidade é que o funcionário acredite, com ou sem razão, que seu chefe não gosta dele. Consequentemente, sua expectativa é de receber uma avaliação ruim, não importa o quanto se esforce. Esses exemplos sugerem que uma das possíveis causas da baixa motivação de um funcionário é sua convicção de que, não importa o quanto ele se esforce, nunca receberá uma boa avaliação de desempenho. Segundo, se eu obtiver uma boa avaliação de desempenho, isso resultará em alguma recompensa organizacional? Muitas organizações recompensam várias outras coisas além do desempe- nho. Quando a remuneração está, de alguma forma, ligada a fatores como tempo de casa, capacidade de cooperação ou ‘bajulação’ do chefe, os funcionários podem acreditar que a relação desempenho-recompensa é fraca e desmotivadora. Finalmente, se eu receber alguma recompensa, ela será atraente para mim? O funcionário tra- balha duro na esperança de conseguir uma promoção, mas recebe apenas um aumento de salário. Ou espera conseguir um serviço mais desafiador e interessante, porém só consegue algumas palavras elogiosas. Ou, ainda, espera conseguir uma transferência para a filial do Rio de Janeiro, mas acaba transferido para Teresina. É importante adequar as recompensas às necessidades de cada funcionário. Infelizmente, muitos gestores têm limitações quanto às re- compensas que podem oferecer, o que dificulta a possibilidade de individualizá-las. Alguns Teoria da expectativa Teoria que afirma que a força da tendência para agir de determinada maneira depende da força da expectativa de que essa ação trará certo resultadoe da atração que esse resultado exerce sobre o indivíduo. 07 rob0610_cap07 BR.indd 217 12/13/10 4:33 PM 218 Comportamento organizacional gestores pressupõem, erroneamente, que todos os funcionários querem as mesmas coisas, sem perceber os efeitos motivacionais da diferenciação das recompensas. Em todos esses casos, a motivação do funcionário fica abaixo de seu ponto máximo. Como um exemplo claro de como a teoria da expectativa pode funcionar, consideremos o caso dos analistas de mercado. Eles ganham dinheiro tentando prever o futuro dos preços das ações. A exatidão de suas recomendações sobre a compra, venda ou retenção das ações é o que os mantém trabalhando ou não. Mas não é tão simples assim. Poucos analistas de mer- cado financeiro fazem recomendações para que os investidores vendam ações que eles acham estarem sobrevalorizadas, embora, em um mercado estável, por definição, a mesma quan- tidade de ações que sobe, cai. A teoria da expectativa oferece uma explicação: os analistas que colocam uma recomendação de venda sobre a ação de uma empresa têm de equilibrar os benefícios que recebem com sua recomendação e os riscos de atraírem a ira da empresa. Quais são esses riscos? Eles incluem a reprovação pública, a exclusão do profissional e o não recebimento de novas informações. Quando colocam uma recomendação de compra sobre uma ação, eles não enfrentam esses dissabores porque, obviamente, as empresas adoram que se recomende aos investidores que comprem suas ações. Portanto, a estrutura de incentivo sugere que o resultado esperado da recomendação de compra seja maior do que o resultado esperado de recomendação de venda, e é por isso que a quantidade de recomendação de compra excede exageradamente a quantidade de recomendação de venda.82 A teoria da expectativa funciona? Alguns críticos sugerem que ela tem uma aplicação limitada e é mais válida nas situações em que as relações esforço-desempenho e desem- penho-recompensa sejam percebidas claramente pelo indivíduo.83 Como poucas pessoas percebem uma clara relação entre desempenho e recompensa em seu trabalho, a teoria é um tanto idealista. Se as organizações recompensassem as pessoas por seu desempenho — em vez de usar critérios como tempo de casa, esforço, nível de capacidade ou dificuldade Figura 7.8 Integração das teorias contemporâneas sobre motivação Desempenho individual Recompensas organizacionais Metas pessoais Oportunidade Capacidade Critérios de avaliação de desempenho Alto nível de realização Comparação de equidade/ Justiça organizacional Sistema objetivo de avaliação de desempenho Esforço individual Reforço Necessidades dominantes Objetivos que orientam o comportamento Desenho de cargo R IA IB R: 07 rob0610_cap07 BR.indd 218 12/13/10 4:33 PM Capítulo 7 Conceitos básicos de motivação 219 de tarefa —, a validade da teoria da expectativa seria consideravelmente maior. Contudo, essas críticas servem para sustentar a teoria da expectativa em vez de invalidá-la, já que ela explica por que um segmento significativo da força de trabalho despende tão pouco esforço na realização de suas tarefas. I ntegração das teorias contemporâneas sobre motivação As coisas seriam muito mais simples se, depois de todas as teorias apresentadas, pu- déssemos dizer que apenas uma é válida. Mas elas não travam uma competição entre si. O fato de uma ser considerada válida não invalida as demais automaticamente. Na verdade, muitas delas são complementares. O desafio agora é juntá-las para tentar entender seu inter-relacionamento.84 A Figura 7.8 apresenta um modelo que integra boa parte do que sabemos sobre motivação. Seu fundamento básico é o modelo de expectativa mostrado na Figura 7.7. Vamos examinar a Figura 7.8. (Abordaremos o desenho de cargo mais atentamente no Capítulo 8.) Começamos admitindo explicitamente que as oportunidades podem ajudar ou atra- palhar o esforço individual. A célula do esforço individual tem outra seta apontando para ela. A seta vem das metas pessoais. De maneira coerente com a teoria do estabelecimento de objetivos, esse fluxo das metas para o esforço tem a finalidade de nos lembrar que os objetivos orientam o comportamento. A teoria da expectativa prevê que um funcionário despenderá um alto nível de es- forço se perceber que existe uma forte relação entre esforço e desempenho, desempenho e recompensa, e recompensa e satisfação de metas pessoais. Cada uma dessas relações, por sua vez, é influenciada por certos fatores. Para que o esforço resulte em bom de- sempenho, o indivíduo precisa ter a capacidade necessária e perceber o sistema de ava- liação de desempenho como justo e objetivo. A relação desempenho-recompensa será fortalecida se o funcionário perceber que o desempenho é recompensado (e não outros critérios, como tempo de casa, preferências pessoais e demais critérios). Se a teoria da avaliação cognitiva fosse totalmente válida no ambiente real de trabalho, poderíamos prever que a recompensa com base no desempenho reduziria a motivação intrínseca do trabalhador. O último elo na teoria da expectativa é a relação recompensa-metas pes- soais. A motivação será alta na medida em que as recompensas recebidas pela pessoa, por seu bom desempenho, satisfizerem as necessidades dominantes coerentes com suas metas individuais. Um exame mais detalhado da Figura 7.8 mostra que estão sendo consideradas as necessidades de realização e as teorias do desenho de cargo, do reforço, da equidade e justiça organizacional. Os grandes realizadores não são motivados pela avaliação de seu desempenho nem pelas recompensas organizacionais; portanto, eles pulam direto do esforço para as metas pessoais. Lembre-se de que esses indivíduos são motivados interna- mente, desde que o trabalho lhes proporcione responsabilidade pessoal, feedback e riscos moderados. Eles não estão interessados nas relações esforço-desempenho, desempenho- recompensa e recompensa--metas individuais. A teoria do reforço aparece em nosso modelo por meio do reconhecimento de que as recompensas organizacionais reforçam o desempenho individual. Se a empresa tiver um sistema de recompensas percebido pelos funcionários como algo pelo qual ‘vale a pena’ ter um bom desempenho, essas recompensas vão reforçar e encorajar a continua- ção do bom desempenho. As recompensas têm um papel fundamental na teoria da equidade. As pessoas comparam a relação entre os resultados (por exemplo, seu salário) e o que os outros recebem, mas também a forma como são tratados: quando as pessoas 07 rob0610_cap07 BR.indd 219 12/13/10 4:33 PM 220 Comportamento organizacional ficam decepcionadas com suas recompensas, elas tendem a ser sensíveis à percepção da justiça que é feita com relação aos procedimentos usados e à consideração que lhes é dada pelos supervisores. I mplicações globais A maioria das teorias sobre motivação foi desenvolvida nos Estados Unidos, por norte- -americanos, sobre norte-americanos adultos.85 Tanto a teoria do estabelecimento de objetivos como a da expectativa enfatizam o alcance de objetivos, bem como o pensamen- to racional e individualista — características consistentes com a cultura norte-americana. Abordaremos agora algumas das teorias sobre motivação e consideraremos a possibilidade de sua transposição para outras culturas. A hierarquia das necessidades de Maslow sustenta que as pessoas começam no nível fisiológico e se movem progressivamente para o topo da hierarquia, na seguinte ordem de necessidades: fisiológicas, de segurança, sociais, de estima e de autorrealização. Essa hie- rarquia, se tiver alguma aplicabilidade, diz respeito à cultura norte-americana. Em países como Japão, Grécia e México, onde a aversão à incerteza é grande, as necessidades de se- gurança estariam no topo da hierarquia. Por sua vez, países que prezam principalmente ca- racterísticas relativas à qualidade de vida — como Dinamarca, Suécia, Noruega, Holanda e Finlândia — colocariam no topoas necessidades sociais.86 Podemos prever, por exemplo, que o trabalho em grupo será mais motivador para trabalhadores de países que enfatizam um ambiente acolhedor como critério. A visão de que uma alta necessidade de realização age como um motivador intrínseco pressupõe duas características culturais: a disposição para enfrentar um grau moderado de riscos (o que exclui as culturas que evitam a incerteza) e a preocupação com o desem- penho (o que se aplica quase que exclusivamente às culturas que enfatizam as conquistas materiais). Essa combinação é encontrada em países com forte influência anglo-saxônica, como Estados Unidos, Canadá e Grã-Bretanha,87 e é relativamente escassa em países como Portugal e Chile, ou mesmo o Brasil, uma vez que, entre outros fatores, apresentam consi- derável aversão ao risco. A teoria da equidade obteve uma adesão relativamente grande nos Estados Unidos, o que não surpreende, visto que os sistemas de recompensa norte-americanos baseiam-se na premissa de que os trabalhadores são muito sensíveis à justiça na alocação das recompen- sas. Nos Estados Unidos, a remuneração e a equidade têm um forte vínculo. Entretanto, evidências recentes sugerem que, em culturas coletivistas, em especial nas dos países per- tencentes ao antigo bloco socialista da Europa Central e do Leste, os funcionários esperam que as recompensas levem em conta suas necessidades pessoais, bem como seu desempe- nho.88 Coerentemente com a herança de uma economia comunista centralizada e plane- jada, os trabalhadores também exibem uma atitude de reivindicação — ou seja, esperam que os resultados sejam maiores do que seu investimento.89 Esses achados sugerem que as práticas norte-americanas de remuneração podem precisar de modificações em países como a Rússia e outras nações anteriormente comunistas, para serem percebidas como justas pelos trabalhadores. Mas não pense que não há qualquer consistência multicultural. O desejo por serviços interessantes parece ser comum a quase todos os trabalhadores, independentemente de sua origem cultural. Em um estudo realizado em sete países, os trabalhadores na Bélgica, na Grã-Bretanha, em Israel e nos Estados Unidos classificaram o ‘trabalho interessante’ em primeiro lugar de um total de 11 metas profissionais. E essa aspiração ficou em se- gundo ou terceiro lugar no Japão, na Holanda e na Alemanha.90 Um estudo comparativo que analisou os resultados das preferências profissionais de estudantes universitários nos Estados Unidos, no Canadá, na Austrália e em Cingapura apontou que os três itens mais bem classificados por todos eles foram crescimento, realização e responsabilidade, e que 07 rob0610_cap07 BR.indd 220 12/13/10 4:33 PM Capítulo 7 Conceitos básicos de motivação 221 eles tiveram classificações idênticas.91 Evidências meta-analíticas demonstram também que, tanto em culturas individualistas quanto em coletivistas, as pessoas preferem uma distribuição equitativa de recompensas (os trabalhadores mais eficientes ganham mais) do que uma divisão igual (todo mundo recebe a mesma remuneração, independentemente do desempenho).92 Nas diversas nações, respeitam-se os mesmos princípios básicos de jus- tiça nos procedimentos e os trabalhadores ao redor do mundo preferem as recompensas baseadas no desempenho e nas habilidades àquelas baseadas na senioridade.93 R esumo e implicações para os gestores Algumas teorias neste capítulo são voltadas à explicação da rotatividade, ao passo que outras enfatizam a produtividade. Elas também diferem quanto à capacidade de previsão do comportamento. Nesta seção, vamos (1) rever as teorias básicas sobre motivação, para determinar sua relevância em explicar as variáveis dependentes, e (2) avaliar a capacidade de previsão de cada uma delas.94 Teorias das necessidades Estas são a hierarquia de Maslow, a de McClelland e a dos dois fatores de Herzberg. Nenhuma dessas teorias obteve amplo respaldo, embora a mais forte delas seja provavelmente a de McClelland, em especial no que se refere à relação entre realização e produtividade. No geral, as teorias de necessidades não oferecem explicações muito válidas sobre o que é a motivação. Teoria da autodeterminação ou da avaliação cognitiva Ao se acumularem pes- quisas sobre os efeitos motivacionais das recompensas, parece ficar mais claro que as re- compensas extrínsecas podem minar a motivação caso sejam vistas como uma forma de controle organizacional. Elas podem aumentar a motivação se fornecem informações sobre competência. Teoria do estabelecimento de objetivos Os objetivos claros e difíceis conduzem a níveis mais altos de produtividade, o que sustenta a conclusão de que a teoria do esta- belecimento de objetivos oferece uma das mais poderosas explicações sobre esta variável dependente. A teoria, entretanto, não enfoca o absenteísmo, a rotatividade ou a satisfação com o trabalho. Teoria do reforço Esta teoria tem um histórico importante de previsões relativas a fa- tores como qualidade e volume de trabalho, persistência de esforço, absenteísmo, impon- tualidade e índices de acidentes. Mas não oferece muita explicação sobre a satisfação dos funcionários, nem sobre sua decisão de deixar a empresa. Teoria da equidade/justiça organizacional Esta teoria lida com todas as quatro va- riáveis dependentes — produtividade, satisfação, absenteísmo e rotatividade. Ela tem, pro- vavelmente, seu ponto mais forte na pesquisa sobre justiça organizacional, e é a que tem maior suporte na literatura. Teoria da expectativa Nossa teoria final oferece uma explicação poderosa para a produtividade, o absenteísmo e a rotatividade dos funcionários. Mas ela parte do prin- cípio de que os funcionários enfrentam poucas limitações em sua autonomia de decisão, como vieses e informações incompletas, e isso acaba por restringir sua aplicabilidade. A teoria da expectativa tem seu valor porque as pessoas consideram os resultados esperados com relação a muitos comportamentos. Contudo, ela apenas explica o comportamento. 07 rob0610_cap07 BR.indd 221 12/13/10 4:33 PM 222 Comportamento organizacional Ponto Contraponto Muitas das melhores lições que aprendemos na vida provêm dos fracassos. Frequentemente, quando estamos voando nas asas do sucesso, locomovemo-nos sem esforço — até cairmos no chão e não conseguirmos levantar —, ao passo que, quando te- mos dificuldades para decolar, lutamos para nos superar e damos mais valor ao sucesso. Vejamos o exemplo da montadora Ford no Brasil.95 No final da década de 1990, a companhia acumulava prejuízos e apresentava estagnação nas vendas, decor- rentes do fortalecimento da concorrência e do envelhe- cimento de seus produtos, que não atraíam a atenção dos consumidores. A matriz norte-americana cogitou encerrar as operações no país, mas resolveu dar uma nova chance aos gestores, confiando no crescimento do emergente mercado brasileiro e na capacidade dos fun- cionários nacionais. Diante do fracasso anterior, a Ford do Brasil mobi- lizou-se, promoveu uma profunda redução de custos, inaugurou a fábrica mais moderna do grupo, em Cama- çari, na Bahia, e investiu no desenvolvimento de novos veículos. Comandada por Antonio Maciel Neto, nomea- do presidente da empresa em julho de 1999, a Ford deu a volta por cima, lançando o Novo Fiesta e a EcoSport, que se tornou um sucesso de vendas. Graças a essas mudanças, a empresa alcançou 12,5 por cento de participação do mercado brasileiro em 2006, contra sete por cento em 1999, e reverteu os pre- juízos, que chegaram a 500 milhões de dólares naquele ano.96 Esse exemplo mostra que os fracassos passados podem servir como fonte de motivação e ajudar na con- quista de sucessos futuros. De acordo com uma especialista de Harvard que pas- sou sua carreira estudando executivos, um dos motivos pelos quais pessoas de sucesso fracassam com frequên- cia é porque elas colocam as próprias metas em um lu- gar muito alto. Segundo ela, “muitas pessoas de sucesso colocamas barreiras tão alto que não alcançam a meta distante. Mas elas alcançam coisas que não seriam possí- veis se não tivessem colocado essa meta maior”.97 As pessoas aprendem com o fracasso? Vimos o exemplo dos erros de tomada de decisões que as pessoas cometem na escalada do compro- metimento. Elas insistem em uma aventura fracassada porque acreditam que a persistência é uma virtude ou porque seus egos estão envolvidos, mesmo que a lógica sugira mudar. Uma pesquisa mostrou que os executivos, com frequência, persistem ilogicamen- te em lançar produtos, mesmo que as evidências deixem claro que o produto não irá a lugar algum. Como os autores apontam: “Às vezes, precisa-se de mais coragem para descontinuar um produto que não vai a lugar algum do que mantê-lo”. Portanto, o pen- samento de aprender com o fracasso é um belo ideal, mas a maioria das pessoas é muito defensiva para fazer isso. O fracasso só ajuda se a pessoa se beneficia com ele, e isso é uma grande presunção. Muitas vezes as pessoas não se recuperam, ou teriam tido mais sucesso se não fosse por essa falha. Há amplas evidências de que quando as pessoas fracassam, normalmente racio- nalizam seus fracassos para preservar sua autoestima e, portanto, não aprendem nada. Embora o exemplo da filial brasileira da Ford seja interessante, não ficou claro se os executivos da empresa fizeram algo além de racionalizar seu fracasso. Quando fracassamos, frequentemente desejamos explicar o passado, racio- nalizando que o fracasso e as experiências dolorosas foram essenciais para nosso sucesso. Essas racionaliza- ções talvez não estejam corretas, mas nos apegamos a elas para preservar a nossa sempre frágil autoesti- ma e tentar explicar o que muitas vezes não passa de azar. Precisamos acreditar em nós mesmos para nos motivarmos e, pelo fato de o fracasso enfraquecer a própria convicção, temos de fazer o possível para re- cuperar nossa autoconfiança.98 Embora seja uma bela história ouvir que o fracasso na verdade é bom, é como disse um compositor: “O mundo não é uma canção”. O fracasso machuca e, para proteger-nos ou nos recu- perarmos da dor, muitas vezes não aprendemos com o fracasso: nós simplesmente o racionalizamos. O fracasso motiva! 07 rob0610_cap07 BR.indd 222 12/13/10 4:33 PM Motivação: do conceito às aplicações O dinheiro é melhor do que a pobreza, nem que seja por razões financeiras. Woody Allen OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM Depois de ler este capítulo, você será capaz de: 1 Descrever o modelo das características do trabalho e avaliar a forma como ele motiva, provocando mudanças no ambiente de trabalho. 2 Comparar as principais abordagens motivacionais ao desenho de cargos. 3 Identificar três esquemas alternativos de trabalho e mostrar como eles podem motivar os funcionários. 4 Identificar os principais programas de envolvimento dos funcionários e como aqueles podem motivá-los. 5 Demonstrar como os diferentes tipos de programas de remuneração variável podem aumentar a motivação dos funcionários. 6 Demonstrar como os benefícios flexíveis podem transformar benefícios em agentes de motivação. 7 Identificar os benefícios motivacionais das recompensas intrínsecas. 8 UM BRINDE À INTERNET V ocê gostaria de trabalhar em uma empresa que lhe dá liberdade para esco- lher de onde quer trabalhar? E não está se falando sobre trabalhar no escri- tório de Belo Horizonte ou de Salvador, mas sim sobre optar por trabalhar em sua casa na praia ou em seu chalé na serra. Apesar de a Chemtech, empresa de engenharia e tecnologia do Rio de Janeiro, não oferecer um nível tão grande de flexibilidade a todos os seus funcionários, pode-se mostrar por alguns exemplos que ela se esforça para isso. O caso mais evidente de como a organização conseguiu adotar a flexibilidade e o trabalho remoto para garantir a permanência de seus funcionários mais importantes, além de mantê-los satisfeitos e motivados com o trabalho, é o de Denise Cardoso. A gestora ingressou na empresa em 1993 como estagiária e, desde então, trilhou seu caminho até assumir a gerência de operação da Chemtech, um cargo de grande relevância na hierarquia da organização, em 2005. Logo no ano seguinte, porém, Denise encontrou-se em uma situação bastante difícil, em que precisava tomar uma decisão que poderia afetar toda a família. Naquele ano, Fe lip e Va ra nd a 08 rob0610_cap08 BR.indd 230 12/13/10 4:23 PM Capítulo 8 Motivação: do conceito às aplicações 231 Manuel, o marido, foi demitido da empresa em que trabalhava no Rio de Janeiro quando esta teve de fechar as portas. Em função disso, Manuel resolveu prestar um concurso público e, ao ser aprovado, teve de assumir a vaga em Manaus, a muitos quilômetros da residência da família, no Rio de Janeiro, e do escritório de Denise, na sede da Chemtech. Isso colocou uma grande dúvida na cabeça da gerente de operação. Afinal de contas, o que ela deveria fazer: seguir com o marido e abandonar seu emprego de 13 anos ou dividir a família, composta ainda por duas filhas, entre o Rio de Janeiro e Manaus? Denise sabia que não poderia continuar na Chemtech do Amazonas, já que a organização não tinha nenhuma atividade nesse estado brasileiro. Ao avaliar as opções, a gerente foi com muita tristeza à sala do presidente da empresa, Luiz Eduardo Rubião, para solicitar sua demissão. “Fui à sala do Rubião e desatei a chorar. Quase não consegui comunicar minha decisão”, conta a gestora. Ao presen- ciar a cena, o presidente da empresa tentou confortar Denise e disse que ela não precisava se preocupar. Depois, “ele me disse que eu poderia ir para Manaus e trabalhar de lá para a Chemtech”, disse ela. Mas como isso seria possível? A companhia não tinha nenhum funcionário e nunca havia prestado nenhum serviço na cidade. A questão é que a organização trabalha com serviços de alta tecnologia e, portanto, o uso de computadores de última geração e redes de comunicação é algo corriqueiro. Com isso, Denise passou a trabalhar diretamente do Amazonas e tornou-se diretora de Recursos Humanos, um cargo que não exige que ela esteja constantemente no Rio de Janeiro. “Hoje em dia, com o avanço da tecnologia, não há necessidade de ela estar permanentemente aqui”, contou Rubião. Dessa maneira, a funcionária montou um home office em sua nova casa de Manaus e vai ao Rio, em média, uma vez por mês, quando participa de reuniões e encontra sua equipe. O caso de Denise é muito interessante, mas não é o único na empresa. Para garantir a permanência de bons funcionários e manter os trabalhadores satisfeitos e moti- vados, a Chemtech permite que alguns deles trabalhem de suas casas em algumas situações. Obviamente, essa não é a realidade para a maioria dos trabalhadores brasileiros, inclusive para os ocupantes de cargos gerenciais. Na verdade, a falta de flexibilidade ainda é a norma e a autorização por parte das empresas para que os funcionários trabalhem de casa ou montem os próprios horários depende diretamente da natureza do serviço prestado e do negócio realizado pela organização. Por exemplo, ainda não seria sensato imaginar um gerente de uma loja das Casas Bahia trabalhando de casa ou resolvendo mudar seu horário de trabalho, visto que a agenda dele precisa seguir as horas de abertura e fechamento do estabelecimento. No entanto, com a evolução tecnológica, cada vez mais os ocupantes de cargos gerenciais poderão optar por realizar suas tarefas remotamente ou escolher seus horários favoritos de trabalho. Essa é uma nova tendência e as organizações que quiserem manter seus melhores funcionários precisarão se adequar a ela para garantir que eles estejam sempre motivados.1 Como foi mostrado no caso da Chemtech, as empresas variam muito quanto à abor- dagem que utilizam para motivar seus funcionários. Embora a remuneração seja uma das principais formas de motivação que discutiremos ao longo deste capítulo — vamos chamá- la de motivação extrínseca —, ela não é a única. A outra forma de motivaçãoque as organiza- ções podem utilizar é a intrínseca. No Capítulo 7, focamos as teorias de motivação e, neste capítulo, começaremos a aplicar seus conceitos. Faremos a conexão das teorias de motivação com as práticas, tais como as de envolvimento dos funcionários e remuneração baseada em capacidades. Por quê? Porque uma coisa é conhecer as teorias específicas de motivação; outra bem diferente é compreender como um gestor pode usá-las na prática. Motivação por meio do desenho de cargo: o modelo de características do trabalho Cada vez mais, as pesquisas sobre motivação estão focadas nas abordagens que vincu- lam conceitos motivacionais a mudanças no modo como o trabalho é estruturado. As pesquisas sobre o desenho de cargos sugerem que a maneira como os elemen- tos do trabalho estão organizados na função a ser desempenhada pode contribuir para o aumento ou para a diminuição do esforço, ou seja, para o aumento ou diminuição da Desenho de cargos Forma como os elementos de um trabalho estão organizados. 08 rob0610_cap08 BR.indd 231 12/13/10 4:23 PM 232 Comportamento organizacional motivação. Primeiro, vamos analisar o modelo de características do trabalho e, então, dis- cutir como algumas funções e cargos podem ser reformulados. Para finalizar, exploraremos alguns esquemas de trabalho alternativos. O modelo de características do trabalho Desenvolvido por J. Richard Hackman e Greg Oldham, o modelo de caracterís- ticas do trabalho (MCT) propõe que qualquer trabalho pode ser descrito segundo cinco dimensões essenciais.2 1. Variedade de habilidades. A variedade de habilidades é o grau em que uma função exige recurso a diversas habilidades e competências de um funcionário na exe- cução de atividades diversificadas. Por exemplo, o trabalho de um mecânico que faça reparos elétricos, recupere motores, reforme latarias e interaja com os clientes apresenta grande variedade de habilidades. Por sua vez, uma funcionária de um salão de beleza que lava cabelos oito horas por dia seria o exemplo de uma função com baixa variedade de habilidades. 2. Identidade da tarefa. A identidade da tarefa é o grau em que uma função exige realização de uma parte identificável do trabalho, produzindo um resultado tangível. Um marceneiro que desenha um móvel seleciona a madeira, constrói o objeto e dá o acabamento final exerce uma função com alta identidade da tarefa. Por sua vez, um funcionário de uma fábrica de móveis que somente opera um torno para fazer os pés das mesas desempenha um trabalho com baixa identidade da tarefa. 3. Significância da tarefa. A significância da tarefa é o grau em que um traba- lho tem impacto substancial na vida ou no trabalho de outras pessoas. Um trabalho com elevada significância é o de uma enfermeira, que lida com as várias neces- sidades de pacientes em uma unidade de terapia intensiva de um hospital. Um trabalho com baixa significância da tarefa seria o de um funcionário que varre o chão de um hospital. 4. Autonomia. A autonomia é o grau em que um trabalho proporciona liberdade substancial e independência para que o indivíduo planeje seu trabalho e determine os procedimentos a serem utilizados durante sua condução. Um vendedor que plane- ja o próprio dia de trabalho, decidindo que clientes abordar e qual estratégia utilizar com cada um deles, possui um trabalho com elevada autonomia. Já um vendedor que recebe instruções diariamente e tem de seguir um roteiro padronizado com cada cliente possui um trabalho com baixa autonomia. 5. Feedback. O feedback é o grau em que a prática das tarefas exigidas por um trabalho gera informações claras e diretas sobre o desempenho. Um exemplo de função que apresenta alta pontuação em feedback é a montagem e o teste de iPods, com a finalidade de verificar se estão funcionando devidamente. Um trabalho com baixo feedback seria o de um operário que, após montar um iPod, tem de direcioná- lo a um inspetor de controle de qualidade que faz os testes de funcionamento ade- quados e os ajustes necessários. A Figura 8.1 mostra o modelo de características do trabalho. Perceba como as três dimensões — variedade de habilidades, identidade da tarefa e significância da tarefa — combi- nam entre si para criar um trabalho significativo, que será visto por seu responsável como im- portante, valioso e recompensador. Observe, também, que trabalhos com grande autonomia dão aos que se encarregam deles uma sensação de responsabilidade pessoal pelos resultados e, se um trabalho proporciona feedback, os funcionários saberão se estão desempenhando suas tarefas de forma eficaz. Do ponto de vista motivacional, o MCT preconiza que os indivíduos obtêm recompensas internas quando sabem (conhecimento dos resultados) que individual- mente (responsabilidade experimentada) tiveram um bom desempenho em uma tarefa com a qual se preocupam (significância vivenciada).3 Quanto mais esses estados psicológicos esti- verem presentes, maiores serão a motivação, o desempenho e a satisfação dos funcionários e menores serão o absenteísmo e a probabilidade de abandono da organização. Modelo de características do trabalho (MCT) Um modelo que propõe que qualquer trabalho pode ser descrito em cinco dimensões essenciais: variedade de habilidades, identidade da tarefa, significância da tarefa, autonomia e feedback. Variedade de habilidades Grau em que uma função exige recurso a diversas habilidades e competências. Identidade da tarefa Grau em que o trabalho requer finalização de uma porção inteira e identificável. Significância da tarefa Grau em que o trabalho possui um impacto substancial sobre a vida ou sobre o trabalho de outras pessoas. Autonomia Grau em que um trabalho proporciona liberdade substancial e independência para que o indivíduo planeje seu trabalho e determine os procedimentos para executá-lo. Feedback Grau em que a prática das tarefas exigidas por um trabalho gera informação direta e clara sobre a eficácia ou o desempenho do funcionário. 08 rob0610_cap08 BR.indd 232 12/13/10 4:23 PM Capítulo 8 Motivação: do conceito às aplicações 233 Conforme mostra a Figura 8.1, os indivíduos com elevada necessidade de crescimento estão mais propensos a experimentar os estados psicológicos críticos — e a responder a eles positivamente — quando seus trabalhos são valorizados do que seus colegas com baixa necessidade de crescimento e desenvolvimento. As dimensões essenciais podem ser classificadas conjuntamente em um índice agrega- do chamado potencial motivador (PM), que é calculado da seguinte forma: PM Variedade de habilidades + Identidade da ta = rrefa + Significância da tarefa 3 × Autonomia × Feedback A maioria das evidências dá suporte ao conceito do MCT de que a presença de um conjunto de características do trabalho — variedade, identidade, significância, autonomia e feedback — de fato gera um desempenho superior e mais satisfatório.4 Mas parece que podemos calcular melhor o potencial de motivação ao simplesmente somar essas caracte- rísticas em vez de usar sua fórmula de cálculo.5 Contudo, além da necessidade de cresci- mento do funcionário, outras variáveis, tal como a percepção do empregado a respeito de sua carga de trabalho comparada à dos outros, podem também atenuar a relação entre as dimensões essenciais de trabalho e resultados pessoais e profissionais. Como os trabalhos podem ser redesenhados? “O comprometimento do grupo era baixo e eles se queixavam dos trabalhos repetiti- vos”, conta Priscila Pádua, gerente de produto da empresa de bebidas Bacardi-Martini no Brasil. De acordo com a gestora, a excessiva divisão das tarefas realizadas por seus subor- dinados gerou o descontentamento de sua equipe, que se cansava ao realizar as mesmas atividades dia após dia. Essa especialização fazia que as pessoas, além de realizarem sempre tarefas semelhantes, não visualizassem os projetos como um todo. Potencial motivador Índice de previsão que sugere o potencial motivadorde um trabalho. Figura 8.1 Modelo de características do trabalho Resultados pessoais e profissionais Variedade de habilidades Identidade da tarefa Significância da tarefa Significância vivenciada do trabalho Elevada motivação interna Autonomia Responsabilidade experimentada Desempenho de alta qualidade Elevada satisfação com o trabalho Feedback Conhecimento dos resultados reais das tarefas Baixo absenteísmo e baixa rotatividade V i d d d h bilid d Dimensões essenciais do trabalho Si ifi â i Estados psicológicos críticos Necessidade de crescimento do funcionário Fonte: J. R. Hackman e G. R. Oldham, Work Redesign, 1980, p. 79-80. Adaptação realizada com a permissão da Pearson Education, Inc. Upper Saddle River, New Jersey. 08 rob0610_cap08 BR.indd 233 12/13/10 4:23 PM 234 Comportamento organizacional Ao perceber os problemas que os trabalhos segmentados e repetitivos estavam cau- sando, Priscila resolveu reestruturar sua gerência. A mudança baseou-se em um princípio de integração das atividades: cada funcionário não mais seria responsável por apenas uma pequena parte do trabalho, devendo acompanhar o planejamento e a execução de todo o processo. Segundo ela, “hoje, cada um é dono do próprio projeto”, o que elevou a motivação da equipe. O trabalho dos subordinados de Priscila na Bacardi-Martini consistia em tarefas repetitivas que não lhes davam autonomia, variedade ou motivação; em comparação, o novo modelo de gestão dos projetos é desafiador e estimulante. Vamos analisar duas abordagens motivacionais ao desenho de cargos que buscam tornar o tra- balho mais motivante. Rodízio de tarefas Se os funcionários sofrem com o excesso de rotina, uma alternativa é utilizar o rodízio de tarefas, ou a transferência periódica de um funcionário para outra função no mesmo nível organizacional. Por exemplo, na Singapore Airlines, um agente de reservas pode exercer as funções de auxiliar de bagagens. O rodízio de tarefas é uma das razões pelas quais a Singapore Airlines está classificada como uma das melhores linhas aéreas do mundo e um dos mais desejados lugares para se trabalhar. Muitas empresas de manufatura têm adotado o rodízio de tarefas como forma de aumentar a flexibilidade e evitar demissões — em algumas indústrias produtoras de calçados de couro em Franca, no interior de São Paulo, o rodízio de tarefas tem sido implantado como forma de elevar a eficiência da produção, algo fundamental para garantir a competitividade do produto no mercado globalizado.6 Durante a crise de 2008 e 2009, a Vale transferiu alguns empregados para outras áreas de produção com custos mais baixos, como ocorreu com técnicos que foram realocados no setor de pelotização de minério de ferro.7 Dessa maneira, a mine- radora brasileira conseguiu evitar demissões em sua força de trabalho em virtude de seu compromisso com o treinamento contínuo por meio do rodízio de tarefas, movimentando os funcionários para onde são necessários. O ponto forte do rodízio de tarefas é que ele reduz o tédio, aumenta a motivação e aju- da os funcionários a entender melhor como seu trabalho contribui para a organização. Um de seus benefícios indiretos é que os funcionários com um leque mais amplo de habilidades permitem que a administração usufrua de maior flexibilidade no planejamento do tra- balho, na adaptação às mudanças e no preenchimento de vagas.8 Na fábrica da Volkswagen sediada em Taubaté, no estado de São Paulo, após a implementação dessa prática houve uma redução do absenteísmo e um aumento na produtividade, uma vez que os funcioná- rios de linha, antes acostumados a executar tarefas repetitivas, sentiram-se mais motivados com a mudança.9 Mas, o rodízio de tarefas também tem suas desvantagens: os custos com treinamento crescem e a produtividade é reduzida, pois troca-se o funcionário de tarefa justamente quando sua eficiência na atividade anterior proporcionava economia para a organização. O rodízio também pode causar rupturas quando os membros do grupo de Rodízio de tarefas Transferência periódica dos funcionários de uma tarefa para outra. O rodízio de tarefas é frequentemente usado nos restaurantes da rede de fast food McDonald’s. Dessa maneira, a empresa busca motivar seus funcionários, fazendo que eles desempenhem atividades diferentes e não se cansem ao realizar sempre os mesmos trabalhos. Com isso, os funcionários passam por diferentes setores do restaurante, como o preparo dos alimentos, o atendimento ao público e a limpeza e recolhimento das bandejas, evitando-se, assim, um desligamento prematuro da organização. M ar ce lo X im en ez /F ol ha p re ss . 08 rob0610_cap08 BR.indd 234 12/13/10 4:23 PM Capítulo 8 Motivação: do conceito às aplicações 235 trabalho precisam ajustar-se ao novo funcionário; o supervisor também pode precisar de mais tempo para responder às dúvidas e monitorar um funcionário recém-chegado. Enriquecimento do trabalho O enriquecimento do trabalho refere-se à expansão das funções. Ele aumenta o grau em que o trabalhador controla o planejamento, a execu- ção e a avaliação de seu trabalho. Essa prática motivacional de desenho do cargo permite que o funcionário execute uma atividade por completo, além de aumentar sua liberdade e independência, ampliar sua responsabilidade e oferecer feedback para que o indivíduo seja capaz de avaliar e corrigir o próprio desempenho.13 Como os administradores podem enriquecer o trabalho de um funcionário? A Figura 8.2 sugere algumas orientações baseadas no modelo de características do trabalho. A combi- nação de tarefas mescla atividades já existentes e fracionadas para que formem um módulo de trabalho novo e mais amplo. A criação de unidades naturais de trabalho reúne as tarefas que o funcionário executa de modo a constituir um todo que tenha uma identidade e um sentido. O estabelecimento de relações com o cliente aumenta o relacionamento direto entre os funcionários e seus clientes (que podem ser internos ou externos à organização). A expansão vertical de tarefas transfere para os funcionários a responsabilidade e o controle anteriormente reser- vados aos dirigentes. Por último, a abertura de canais de feedback implica que os funcionários recebam informações concretas sobre como estão desempenhando suas tarefas e também acompanhem se o desempenho está melhorando, piorando ou se permanece constante. Algumas das novas versões do enriquecimento do trabalho concentram-se mais espe- cificamente em aumentar a significância da atividade. Um método muito utilizado consiste em relacionar as experiências do funcionário àquelas do cliente simplesmente fornecendo aos funcionários histórias de clientes que se beneficiaram dos produtos ou serviços da em- presa. Por exemplo, uma fabricante de equipamentos médicos convida as pessoas a descre- ver como seus produtos melhoraram ou até salvaram sua vida e compartilha essas histórias com funcionários em suas reuniões anuais, dando-lhes um lembrete poderoso do impacto de seu trabalho. Outro método para melhorar a significância do trabalho é oferecer aos funcionários pro- gramas de assistência mútua.14 Os funcionários que podem se ajudar diretamente por meio do Enriquecimento do trabalho Expansão vertical das funções, aumentando o grau em que o trabalhador controla o planejamento, a execução e a avaliação de seu trabalho. Essa afirmação é falsa. Muitos empregados real- mente querem ter trabalhos desafiadores, interes- santes e complexos. No entanto, apesar de toda a atenção dada pela mídia, pelos acadêmicos e pelos cientistas sociais ao potencial humano e às necessida- des dos indivíduos, algumas pessoas se dão melhor em serviços mais simples e rotineiros.10 A variável que parece dar melhor suporte para ex- plicar quem prefere e quem não quer trabalhos desa- fiadores é a força das necessidades de nível superior.11 As pessoas com elevada necessidade de crescimento respondem melhor ao trabalho desafiador.Mas qual é a porcentagem de trabalhadores de baixo escalão que realmente gostaria de satisfazer necessidades de nível superior e responderia positivamente a trabalhos mais desafiadores? Não estão disponíveis dados atuais sobre isso, mas um estudo realizado na década de 1970 esti- ma esse número em torno de 15 por cento.12 Mesmo após ajustes em função das mudanças tecnológicas e econômicas na natureza do trabalho, atualmente esse número provavelmente não ultrapassa 40 por cento. Muitos trabalhadores adoram trabalhos desafiado- res, mas esse desejo tem sido generalizado de forma exagerada para todos eles. Cada vez mais, as organi- zações têm cobrado responsabilidades extras de seus funcionários, frequentemente sem saber se isso é dese- jado ou como o trabalhador vai lidar com o aumento de responsabilidades. Muitos trabalhadores satisfazem suas necessida- des de nível superior fora do trabalho. A semana tem 168 horas e o trabalho raramente consome mais de 30 por cento desse tempo. Isso dá oportunidade consi- derável, mesmo para as pessoas com elevada neces- sidade de crescimento, de encontrar a satisfação para suas necessidades de nível superior fora do local de trabalho. Todo mundo quer um trabalho desafiador MITO OU CIÊNCIA? 08 rob0610_cap08 BR.indd 235 12/13/10 4:23 PM 236 Comportamento organizacional trabalho acabam enxergando a si mesmos e as organizações em que trabalham em termos mais positivos e pró-sociais, o que pode aumentar o comprometimento afetivo do funcionário. As evidências sugerem que essa prática motivacional de desenho de trabalho reduz os custos de absenteísmo e de rotatividade e aumenta o grau de satisfação; porém, nem todos os programas de enriquecimento do trabalho são igualmente eficientes.15 Algumas evidên- cias recentes sugerem que o enriquecimento de tarefas funciona melhor quando compensa o feedback e o sistema de recompensas insuficientes.16 O desenho pode também não afetar a todos da mesma forma, como colocado na seção ‘Mito ou ciência’ deste capítulo. Um estudo recente mostrou que os funcionários com preferência por trabalhos desafiadores experimentaram maiores reduções no nível de estresse após o redesenho do cargo em comparação com aqueles que não preferem esse tipo de trabalho.17 Esquemas alternativos de trabalho Além de reformular o trabalho em si e envolver os funcionários nas decisões, outra forma de abordar a motivação é alterar seus esquemas com o horário flexível, o compar- tilhamento de tarefas e o trabalho a distância. Esses esquemas tendem a ser especialmente importantes para uma força de trabalho diversificada, formada por casais em que ambos os cônjuges trabalham, pais e mães solteiros ou funcionários que cuidam de um familiar doente ou idoso. Horário flexível Sônia Gonçalves é o tipo clássico de ‘pessoa matutina’. Ela acorda pon- tualmente às cinco horas da manhã, cheia de energia. Em compensação, conta que geral- mente já está com sono quando termina o noticiário das 19 horas na TV. O horário de Sônia na empresa onde trabalha é flexível e permite que ela tenha alguma liberdade para chegar e sair. O escritório abre às seis horas da manhã e fecha às 19 horas. Sônia é quem decide como fará sua jornada de oito horas de trabalho dentro desse expediente de 13 horas. Como ela é uma pessoa matutina e, além disso, tem um filho de 7 anos que sai da escola às 15 horas, sua opção é trabalhar das seis da manhã às três da tarde. “Meu horário é perfeito. Fico no trabalho no momento em que estou mais alerta mentalmente e posso ficar em casa com meu filho depois que ele sai da escola.” O horário de Sônia é um exemplo de horário flexível. Os funcionários têm certa quan- tidade de horas a trabalhar na semana, mas são livres para distribuir seu horário de trabalho dentro de certos limites. Como mostra o Quadro 8.1, cada dia consiste de um núcleo comum, geralmente de seis horas, com duas faixas flexíveis nas extremidades. Por exemplo, tirando uma hora para o almoço, o núcleo poderia ser das nove às 15 horas, sendo que a empresa abre às seis Ação sugerida Dimensão essencial do trabalho Combinação de tarefas Criação de unidades naturais de trabalho Estabelecimento de relações com o cliente Expansão vertical das tarefas Abertura de canais de feedback Variedade de habilidades Identidade da tarefa Significância da tarefa Autonomia Feedback Figura 8.2 Diretrizes para o enriquecimento do trabalho Fonte: J. R. Hackman e J. L. Suttle (Orgs.). Improving Life at Work. Glenview, IL: Scott Foresman, 1977, p. 138. Reproduzido com autorização de Richard Hackman e J. Lloyd Suttle. Horário flexível Horas flexíveis de trabalho. 08 rob0610_cap08 BR.indd 236 12/13/10 4:23 PM Capítulo 8 Motivação: do conceito às aplicações 237 horas da manhã e fecha às 18 horas. Todos os funcionários devem estar no trabalho durante o horário do núcleo, mas são livres para distribuir as duas horas excedentes antes, depois ou antes e depois desse período. Alguns programas de horário flexível permitem que se acumulem horas extras, que poderão ser trocadas por um dia livre a cada mês. O horário flexível tornou-se extremamente popular nos últimos anos. No Brasil, as grandes organizações estão percebendo que evitar a rigidez no horário aumenta a satisfa- ção dos respectivos funcionários e, em 2000, essa prática já atingia, em alguns departamen- tos, 73 por cento das maiores empresas do país.18 No caso dos Estados Unidos, a proporção entre funcionários efetivos que trabalham em horário flexível mais do que duplicou entre o final dos anos 1980 e 2005. Aproximadamente 43 por cento da força de trabalho norte- americana agora tem flexibilidade em seus horários diários de entrada e saída.19 E isso não é somente um fenômeno brasileiro ou norte-americano. Na Alemanha, por exemplo, 29 por cento das empresas oferecem o horário flexível para seus funcionários.20 Os benefícios atribuídos ao horário flexível são numerosos. Entre eles estão a redu- ção do absenteísmo, o aumento da produtividade, a redução de gastos com horas extras, a diminuição da hostilidade com relação à chefia, a redução dos congestionamentos de trânsito nos locais de trabalho, a eliminação dos atrasos e o aumento de autonomia e de responsabilidade dos funcionários, o que pode levar ao aumento da satisfação.21 Mas quais contribuições reais do horário flexível foram confirmadas por pesquisas empíricas? A maior parte das evidências sobre desempenho é favorável. O horário flexível tende a reduzir o absenteísmo e com frequência melhora a produtividade do funcionário,22 prova- velmente por diversas razões. Os funcionários podem estabelecer os horários de maneira a conciliar suas demandas pessoais, reduzindo sua impontualidade e faltas, além de trabalhar durante as horas em que são individualmente mais produtivos. O horário flexível também pode ajudar os trabalhadores a equilibrar a vida profissional e familiar, sendo um critério popular para avaliar quanto uma empresa ‘valoriza a família’. A principal desvantagem do horário flexível é que ele não pode ser adotado em todos os tipos de trabalho. Ele funciona bem para as tarefas administrativas em que a interação de um funcionário com outros, de outros departamentos, é limitada. Entretanto, não é uma opção viável para recepcionistas, balconistas de lojas de varejo ou empregos similares, em que geralmente a demanda do serviço exige que as pessoas estejam em seus postos em horários predeterminados. Compartilhamento de tarefas O compartilhamento de tarefas permite que duas ou mais pessoas dividam entre si um emprego tradicional de 40 horas semanais. Uma pes- soa pode trabalhar das oito horas ao meio-dia enquanto outra trabalha no mesmo emprego das 13 às 17 horas. Ou ambas podem trabalhar o dia todo, mas em dias alternados. Esse é o caso de Sue Manix e Charlotte Schutzman, que dividem o título de vice-presidente de comunicações de pessoal no escritório da empresa de telefonia Verizon, na Filadélfia,nos Estados Unidos.23 Charlotte trabalha às segundas e terças-feiras e Sue, às quintas e sextas- -feiras. Elas se alternam nas quartas-feiras. As duas compartilham o espaço há dez anos, recebendo promoções, vários bônus e administrando uma equipe de 20 pessoas durante esse tempo, equilibrando melhor o trabalho e as responsabilidades familiares. Hoje em dia, aproximadamente 19 por cento das grandes organizações oferecem a possibilidade de compartilhamento de tarefas.24 O motivo pelo qual ele não é mais adotado Horário flexível Núcleo comum Almoço Núcleo comum Horário flexível 6h 9h 12h 13h 15h 18h Tempo ao longo do dia Quadro 8.1 Compartilhamento de tarefas Acordo que permite a dois ou mais indivíduos dividirem um trabalho tradicional de 40 horas semanais. 08 rob0610_cap08 BR.indd 237 12/13/10 4:23 PM 238 Comportamento organizacional de maneira ampla, provavelmente, se deve à dificuldade de encontrar parceiros compatíveis para o compartilhamento de tarefas e às percepções negativas historicamente mantidas com relação a pessoas não muito comprometidas com seu trabalho e com o empregador. O compartilhamento de tarefas permite que a organização se beneficie dos talentos de mais de um indivíduo em uma dada posição. Um gerente de banco que supervisiona dois fun- cionários nesse sistema descreve o compartilhamento de tarefas como uma oportunidade de ter duas cabeças ‘pelo preço de uma’.25 Isso também possibilita a contratação de trabalhadores capacitados que não estariam disponíveis em um sistema de tempo integral — como é o caso de mulheres com filhos pequenos ou de aposentados.26 No Brasil, 30 por cento das empresas já permitem essa alternativa.27 Também no Japão estão implantando esse sistema, mas por razões diferentes:28 como os gestores japoneses relutam em demitir funcionários, o comparti- lhamento é visto como um caminho humanitário para evitar demissões por excesso de pessoal. Do ponto de vista do funcionário, o compartilhamento de tarefas aumenta a flexibili- dade e pode incrementar a motivação e a satisfação daqueles que não têm 40 horas sema- nais para se dedicar ao trabalho. Contudo, do ponto de vista do empregador, a principal desvantagem é a dificuldade de encontrar uma dupla de funcionários compatíveis, capazes de coordenar com sucesso todos os detalhes de um cargo.29 Trabalho a distância Esta é a visão de trabalho mais próxima do ideal para muita gente. Não há deslocamento físico, o horário é flexível, há total liberdade para se vestir e nenhuma interrupção por parte dos colegas. Isso se chama trabalho a distância e se refere aos funcionários que trabalham em casa pelo menos dois dias por semana, com seus computa- dores ligados ao sistema da empresa.30 (Um termo intimamente relacionado com o trabalho a distância, o escritório virtual descreve a situação de funcionários que trabalham em casa de maneira quase que permanente.) Dados recentes fornecidos pela Sobratt (Sociedade Brasileira de Teletrabalho e Teleativi- dades) indicam que o Brasil conta com 10,6 milhões de indivíduos que trabalham a distância, o que representa, aproximadamente, 5 por cento do total da população. A organização infor- ma também que mais de 20 por cento da população adulta ativa de nosso país adota alguma forma de trabalho a distância ao longo do mês.31 Já nos Estados Unidos, estima-se que, em 2002, aproximadamente 15 por cento da força de trabalho trabalhava em casa pelo menos um dia por semana.32 Uma pesquisa recente, realizada com mais de cinco mil profissionais de RH, descobriu que 35 por cento das organizações permitem que seus funcionários trabalhem a distância por pelo menos parte de sua jornada e que 21 por cento delas permitem o tra- balho a distância em período integral.33 Entre as organizações reconhecidas que promovem ativamente o trabalho a distância estão a IBM, a Chemtech, a Natura e a Serasa Experian.34 Na Finlândia, na Suécia, no Reino Unido e na Alemanha, os ‘teletrabalhadores’ representam 17 por cento, 15 por cento, 8 por cento e 6 por cento da força de trabalho, respectivamente.35 Quais tipos de trabalho são adequados ao trabalho a distância? Três categorias fo- ram identificadas como mais apropriadas: tarefas de tratamento rotineiro de informações, atividades móveis e tarefas altamente especializadas ou relacionadas ao conhecimento.36 Trabalho a distância Os funcionários trabalham em casa, pelo menos dois dias por semana, em computadores ligados ao sistema da empresa. Carlos Ruchaud convivia diariamente com os engarrafamentos no trajeto até o trabalho e com a sensação de insegurança quando trabalhava no Rio de Janeiro. Cansado dessa situação, ele não pensou duas vezes ao aceitar uma oportunidade para ser diretor médico da farmacêutica Genzyme, sediada em São Paulo. Ora, mas isso seria trocar ‘seis por meia dúzia’, você pode pensar. No entanto, existem duas diferenças fundamentais entre os trabalhos. A primeira delas é que Ruchaud pode trabalhar a distância, no conforto de sua casa, e a segunda é ainda mais interessante: ele mora em Florianópolis. O gestor montou um home office em Santa Catarina, de onde trabalha com outros funcionários localizados em São Paulo, Santa Catarina e Minas Gerais. Muitos deles, também, em suas casas.37 D ar io Z al is 08 rob0610_cap08 BR.indd 238 12/13/10 4:23 PM Capítulo 8 Motivação: do conceito às aplicações 239 Escritores, advogados, analistas e funcionários que passam a maior parte do tempo ao computador ou ao telefone — como pessoal de telemarketing, representantes de serviços a clientes, agentes de viagens e especialistas em suporte técnico de produtos — são candida- tos naturais para o exercício do trabalho a distância. Como trabalhadores a distância, eles podem continuar a fazer a mesma coisa, mas em suas casas, em vez de dentro da empresa. Existem muitas histórias de sucesso no trabalho a distância.38 Na Ticket, empresa pau- lista de serviços de refeição-convênio, a implementação do trabalho a distância permitiu o aumento da produtividade — as vendas da equipe remota e o volume de contratos fechados aumentaram, respectivamente, 76 por cento e 40 por cento. Os funcionários, de casa, pu- deram investir mais tempo para pensar nos clientes e torná-los mais rentáveis.39 As vantagens potenciais do trabalho a distância para os gestores incluem um mercado maior de profissionais disponíveis, maior produtividade, menor rotatividade, moral mais alto e redução de gastos com instalações físicas. Existe ainda uma relação positiva entre o trabalho a distância e a avaliação de desempenho dos supervisores. A principal desvanta- gem é uma menor supervisão direta dos funcionários. Além disso, como a tendência hoje é a do trabalho em equipe, o trabalho a distância torna mais difícil para a administração coordenar o trabalho em grupo.40 Do ponto de vista do trabalhador, o trabalho a distância oferece um considerável aumento de flexibilidade, mas não sem custos. Para quem tem alta necessidade de socialização, ele pode levar a uma sensação de isolamento e reduzir a satisfação no trabalho. Além disso, todos os que trabalham a distância podem ficar vulne- ráveis ao efeito do ‘longe dos olhos, longe do coração’.41 O fato de não estarem dentro da empresa, de não participarem de reuniões nem das interações do dia a dia com os demais funcionários, pode se tornar desvantagem na hora das promoções e dos aumentos salariais. Os contextos físico e social do trabalho Robson e Cristiano formaram-se na faculdade há cerca de dois anos com diplomas na área de educação. Ambos obtiveram emprego como professores, mas em diferentes escolas e em bairros distintos. Robson imediatamente enfrentou vários obstáculos no trabalho: uma classe numerosa (42 alunos), uma sala de aula pequena e suja e materiais inadequados. Já a situação de Cristiano era completamente diferente: ele tinha apenas 15 alunos na sala, um assistente 15 horas por semana, uma sala de aula moderna e bemiluminada, um armário bem provido de materiais, um computador iMac por aluno e um diretor bastante colaborador. Não é de surpreender que, ao final do ano letivo, Cristiano tivesse sido con- sideravelmente mais eficaz como professor do que Robson. Esse episódio ilustra um fato óbvio que, em geral, é ignorado — o sucesso de um trabalho muitas vezes é facilitado ou prejudicado pela existência ou ausência de recursos de apoio. O modelo de características do trabalho mostra que a maioria dos funcionários se sente motivada e satisfeita quando as tarefas intrínsecas de seu trabalho são atraentes. No entanto, realizar um trabalho recompensador pode não levá-los, necessariamente, à satisfa- ção, caso eles se sintam isolados de seus colegas, ao passo que boas relações sociais podem tornar as tarefas mais enfadonhas e árduas mais realizadoras. Pesquisas demonstram que os aspectos sociais e o contexto do trabalho são tão importantes quanto seu conteúdo.42 Polí- ticas como o rodízio de tarefas, o aumento do poder de decisão do funcionário e sua maior participação nas decisões têm efeitos positivos na produtividade, pelo menos parcialmente, pois incentivam mais comunicação e um ambiente social positivo. Algumas características sociais que melhoram o desempenho profissional incluem a interdependência, o apoio social e as interações com outras pessoas fora do ambiente de trabalho. As interações sociais estão fortemente ligadas aos estados de ânimo positivos e dão aos trabalhadores mais oportunidades de esclarecer seu papel profissional, bem como de descobrir se estão desempenhando bem suas tarefas. O apoio social oferece aos fun- cionários mais oportunidades para obter assistência com seu trabalho. As relações sociais construtivas podem fazer surgir um ciclo positivo de feedback, visto que os funcionários se ajudam mutuamente em um ‘ciclo virtuoso’. O contexto profissional também pode afetar a satisfação do funcionário. O trabalho em ambientes muito quentes, barulhentos e perigosos é menos satisfatório do que aquele 08 rob0610_cap08 BR.indd 239 12/13/10 4:23 PM 240 Comportamento organizacional realizado em ambientes climatizados, relativamente silenciosos e seguros. É por isso, provavel- mente, que a maioria das pessoas prefere trabalhar em um café a trabalhar em uma fundição de uma indústria metalúrgica. As exigências físicas podem fazer os indivíduos se sentirem desconfortáveis, o que tende a resultar em níveis menores de satisfação profissional. Para avaliar por que um empregado não está trabalhando da melhor maneira possível, olhe para o ambiente de trabalho e veja se ele é estimulante. O funcionário tem ferramen- tas, equipamentos, materiais e suprimentos adequados? Tem condições de trabalho favorá- veis, colegas colaboradores, regras e procedimentos toleráveis, informação suficiente para tomar decisões profissionais, tempo adequado para fazer um bom trabalho e outras coisas do gênero? Se a resposta for negativa, o desempenho será prejudicado. E nvolvimento dos funcionários O que é envolvimento dos funcionários? Definimos esse conceito como um pro- cesso participativo que utiliza a capacidade dos funcionários para aumentar seu compro- metimento com o sucesso da organização. A lógica desse processo é que, se envolvemos os funcionários nas decisões que lhes dizem respeito e aumentamos sua autonomia e seu controle sobre o próprio trabalho, eles se tornarão mais motivados, mais comprometidos com a organização, mais produtivos e mais satisfeitos com o emprego.43 Programas de envolvimento do funcionário Nesta seção examinaremos mais detalhadamente duas formas de envolvimento dos funcionários: gestão participativa e participação por representação. Gestão participativa A principal característica comum a todos os programas de ges- tão participativa é a utilização do processo decisório coletivo, em que os subordinados compartilham algum poder de decisão com seus chefes imediatos. Algumas vezes, a gestão participativa é apontada como uma panaceia contra o baixo moral e a baixa produtividade. No entanto, para que funcione, os assuntos nos quais os funcionários estão envolvidos têm de ser compatíveis com seus interesses. Além disso, para que possam ser motivados, os fun- cionários precisam ter capacitação e conhecimento para oferecer contribuições relevantes, sem contar a necessidade de existir confiança entre as partes envolvidas.44 Foram realizadas dezenas de estudos sobre a relação entre participação e desempe- nho, e os resultados não são unânimes.45 As organizações que instituem a gestão parti- cipativa de fato apresentam maior retorno em ações, menores índices de rotatividade e maior produtividade estimada, embora os efeitos não sejam muito significativos.46 Uma revisão cuidadosa das pesquisas no nível individual mostra que a participação exerce apenas uma modesta influência sobre variáveis como produtividade, motivação e satis- fação dos funcionários. Apesar disso, no caso de duas empresas do setor químico de Porto Alegre, percebeu-se que as práticas de participação adotadas influenciaram positivamen- te a satisfação dos trabalhadores com relação ao ambiente de trabalho e ao trabalho propriamente dito.47 Logicamente, tudo isso não implica que a gestão participativa não possa trazer benefícios sob condições certas. Significa que a participação, por si só, não assegura a melhoria do desempenho dos trabalhadores. Participação por representação Praticamente todos os países da Europa Ocidental possuem alguma legislação que exige que as empresas pratiquem a participação por representação, chamada ‘a forma de envolvimento dos funcionários mais normatizada pela legislação em todo o mundo’.48 O objetivo da participação por representação é redis- tribuir o poder dentro da organização de modo a igualar os interesses dos funcionários com os dos dirigentes e acionistas da empresa ao permitir que os primeiros sejam representados por um pequeno grupo, que é quem de fato participa. Envolvimento dos funcionários Processo participativo que usa a capacidade dos funcionários para aumentar seu comprometimento com o sucesso da organização. Gestão participativa Processo no qual os subordinados compartilham algum poder de decisão com seus chefes imediatos. Participação por representação Sistema no qual os trabalhadores participam da tomada de decisões por meio de um pequeno grupo de funcionários representantes. 08 rob0610_cap08 BR.indd 240 12/13/10 4:23 PM Capítulo 8 Motivação: do conceito às aplicações 241 Os dois formatos mais comuns de participação por representação são os conselhos de trabalhadores e os representantes do conselho.50 São grupos de funcionários, nomeados ou eleitos, que devem ser consultados quando os dirigentes tomam qualquer decisão que envolva a força de trabalho. Os representantes do conselho são funcionários que participam das reuniões do conselho de administração da empresa, nas quais defendem os interesses dos trabalhadores. A influência da participação por representação sobre os trabalhadores parece ser mí- nima.51 Os conselhos de trabalhadores são dominados pelos gestores e têm pouquíssimo impacto sobre os funcionários ou sobre a organização. Embora essa participação possa au- mentar a motivação e a satisfação dos funcionários representantes, há pouca evidência de que isso seja repassado aos operários que eles representam. De maneira geral, “o principal valor da participação por representação é simbólico. Se alguém estiver procurando mudar as atitudes dos funcionários ou melhorar o desempenho organizacional, essa não será a melhor escolha”.52 A fabricante de embalagens metálicas Brasilata incentiva formal e informalmente que seus funcionários proponham melhorias e opinem sobre os processos e produtos da empresa. Acreditando que o capital humano é a principal fonte de inovação, a Brasilata criou um programa de sugestões e promoveu um clima de confiança e comunicação aberta. Graças aexplicações mais válidas sobre a motivação foram elaboradas desde aquela época, mas devemos conhecer as primeiras teorias por, pelo menos, duas razões: (1) elas representam os fundamentos sobre os quais as teorias contemporâneas se desenvolveram e (2) alguns gestores ainda utilizam esses conceitos e sua terminologia para explicar a mo- tivação de seus funcionários. Teoria da hierarquia de necessidades Podemos afirmar que a mais conhecida teoria sobre motivação é, provavelmente, a hierarquia de necessidades, de Abraham Maslow.6 Segundo esse autor, dentro de cada ser humano existe uma hierarquia de cinco categorias de necessidades, que são: 1. Fisiológica: inclui fome, sede, abrigo, sexo e outras necessidades corporais. 2. Segurança: segurança e proteção contra danos físicos e emocionais. 3. Social: afeição, aceitação, amizade e o sentimento de pertencer a um grupo. Hierarquia de necessidades Hierarquia composta de cinco necessidades — fisiológicas, de segurança, sociais, de estima e de autorrealização. Na medida em que cada uma delas é satisfeita, a seguinte torna-se dominante. Ricardo Nunes, proprietário da rede varejista Ricardo Eletro, exemplifica claramente os três elementos da motivação. O empresário demonstra grande intensidade e direção, trabalhando “desde as sete horas da manhã até a meia-noite praticamente todos os dias”. Além disso, a extrema dedicação é evidente também no apelido que recebeu de seus vendedores: ‘Ricardo Elétrico’. Por fim, sua persistência também é emblemática ao buscar de todas as formas expandir seus negócios. “Sonho ser o maior do país em minha área”.7 Pe d ro S ilv ei ra /F ol ha p re ss 07 rob0610_cap07 BR.indd 197 12/13/10 4:32 PM 198 Comportamento organizacional 4. Estima: fatores internos de estima, como respeito próprio, realização e autono- mia, e fatores externos, como status, reconhecimento e atenção. 5. Autorrealização: ímpeto de se tornar tudo aquilo que se é capaz de ser. Inclui crescimento, alcance do próprio potencial e autodesenvolvimento. De acordo com essa teoria, embora nenhuma necessidade possa ser totalmente pre- enchida, uma substancialmente satisfeita não motiva mais. Portanto, na medida em que cada uma delas é atendida, a próxima torna-se a dominante. Como mostra a Figu ra 7.1, o indivíduo move-se para o topo da hierarquia. Assim, de acordo com a teoria de Maslow, para motivar alguém é preciso saber em que nível da hierarquia a pessoa se encontra no momento e focar a satisfação naquele nível ou no patamar imediatamente superior. Maslow separou as cinco categorias de necessidades em patamares superiores e inferio- res. As necessidades fisiológicas e de segurança são consideradas necessidadesdenível inferior, e aquelas relacionadas à estima, à vida social e à autorrealização são chamadas necessidadesdenívelsuperior. A diferenciação entre os dois níveis parte da premissa de que as necessidades de nível superior são satisfeitas internamente (dentro do indivíduo), ao passo que as de nível inferior são satisfeitas quase sempre externamente (por meio de coisas como remuneração, acordos sindicais e permanência no emprego). A teoria das necessidades de Maslow recebeu amplo reconhecimento, em especial por parte de gestores e consultores. Ela possui uma lógica intuitiva e é de fácil compreensão. Infelizmente, contudo, as pesquisas empíricas não validam a teoria. Maslow não fornece comprovação empírica substancial e vários outros estudos que buscaram validar sua teoria não conseguiram encontrar embasamento para ela.8 Há poucas evidências de que as estru- turas de necessidades são organizadas dentro das dimensões propostas por Maslow, de que aquelas não satisfeitas são um fator motivador e de que uma necessidade atendida ativa um movimento em direção ao nível seguinte.9 Mas as teorias clássicas, em particular as intuiti- vamente lógicas, não morrem de maneira fácil. Teoria X e Teoria Y Douglas McGregor propôs duas visões distintas do ser humano: uma basicamente negativa, chamada Teoria X, e outra basicamente positiva, chamada Teoria Y.10Depois de observar o modo como os gestores tratavam seus funcionários, McGregor concluiu que a visão que, de acordo com as teorias, eles têm da natureza dos seres humanos baseia-se em certos conjuntos de premissas e que tendem a moldar o próprio comportamento em relação aos funcionários. Conforme a TeoriaX, os gestores acreditam que os funcionários não gostam de tra- balhar e devem ser orientados ou até coagidos a fazê-lo. Diferentemente, de acordo com a TeoriaY, os gestores presumem que os funcionários podem achar o trabalho algo tão na- tural quanto descansar ou se divertir e, portanto, a pessoa mediana pode aprender a aceitar ou até a buscar o exercício de responsabilidades. Necessidades de nível inferior Necessidades que são satisfeitas externamente, como necessidades fisiológicas e de segurança. Necessidades de nível superior Necessidades que são satisfeitas internamente, como as sociais, de estima e de autorrealização. Teoria X Teoria que sustenta que os funcionários não gostam de trabalhar, são preguiçosos e evitam a responsabilidade. Teoria Y Teoria que sustenta que os funcionários gostam de trabalhar, são criativos, buscam responsabilidades e podem se autodirecionar. Autor- realização Estima Social Segurança Fisiológica Figura 7.1 Hierarquia de necessidades de Maslow Fonte: A. H. Maslow, Motivation and Personality, 3ª ed., R. D. Frager e J. Fadiman (Orgs.), 1997. Adaptado com permissão da Pearson Education, Inc. Upper Saddle River, Nova Jersey. 07 rob0610_cap07 BR.indd 198 12/13/10 4:32 PM Capítulo 7 Conceitos básicos de motivação 199 Essa afirmação é em geral verdadeira. Comparados às mulheres, os homens são relativamente mais motivados para se superarem em tarefas e no tra- balho. Comparadas aos homens, as mulheres são mais motivadas a manter relacionamentos. É importante notar, porém, que essas diferenças en- tre os sexos não significam que todo homem é mais mo- tivado por sua carreira que toda mulher. Consideremos o sexo e a longevidade. As mulheres, em média, vivem mais do que os homens, mas em um percentual consi- derável de casais (aproximadamente 45 por cento), um homem casado viverá mais que sua esposa. Da mesma forma, há disparidades na motivação entre os homens e as mulheres, mas precisamos resistir à tendência do ser humano de transformar uma diferença entre grupos em uma generalização universal ou estereótipo. As pesquisas indicam que os homens são aparente- mente mais definidos pelo que chamamos ‘característi- cas agênticas’, tais como ativo, decidido e competitivo. As mulheres costumam ser mais descritas pelo que cha- mamos ‘características comunais’, tais como cuidadosa, emotiva e atenciosa. Essas evidências, contudo, podem refletir estereótipos com relação aos gêneros masculino e feminino, mas isso não prova necessariamente que ho- mens e mulheres são motivados por coisas diferentes. No entanto, um estudo com 1.398 trabalhadores alemães revelou que os homens eram de fato mais mo- tivados por esforços agênticos e as mulheres, por es- forços comunais, e que essas diferenças não mudaram durante os 17 meses do estudo. Como resultado dessas diferenças, os homens tinham graus mais elevados de sucesso ‘objetivo’ na carreira (renda, status profissional) que as mulheres. Estas, no entanto, estavam mais envol- vidas com suas famílias que os homens. Não sabemos se essas diferenças são congênitas ou socializadas. Se forem socializadas, todavia, as evidências sugerem que elas começam cedo. Um estudo das his- tórias que as crianças de quatro a nove anos contavam sobre suas vidas revelou que as meninas tinham uma tendência maior a enfatizar companheirismo (amizades, ajudar os outros, contato afetivo) do que os meninos.11 As mulheres têm mais motivação para se relacionar e os homens, para vencer MITO OU CIÊNCIA? J08 F08 M08 A08essa cultura informal de troca de informações, a empresa desenvolveu uma embalagem metálica com tampa plástica que passou a ser utilizada em diversos produtos, como leite em pó, achocolatados e até tintas. É interessante notar que a ideia para o novo invólucro surgiu em uma conversa de corredor e foi criada por uma funcionária do setor de recursos humanos.49 Ed iv al d o A ra új o Salário alto Percentual de trabalhadores que acham seus salários alto, justo ou baixo 60 50 40 30 20 10 0 Salário justo Salário baixo Amostra total 3% 46% 51% A maioria de nós acha o salário baixo? ENqUETE COMPORTAMENTAl Fonte: Baseado em D. Jacobe, “Half of Americans Say They Are Underpaid”, Gallup Poll, 18 ago. 2008, disponível em: . 08 rob0610_cap08 BR.indd 241 12/13/10 4:23 PM 242 Comportamento organizacional Vinculando os programas de envolvimento dos funcionários com as teorias sobre motivação O envolvimento dos funcionários foi delineado com base em várias das teorias sobre motivação que examinamos no Capítulo 7. A Teoria Y é coerente com a gestão participati- va, ao passo que a Teoria X está mais próxima do estilo tradicional autocrático de gerir as pessoas. No tocante à teoria de dois fatores, os programas de envolvimento podem oferecer uma motivação intrínseca, aumentando as oportunidades de crescimento, responsabilidade e envolvimento com o trabalho em si. A oportunidade de tomar decisões e implementá- -las — e então observá-las funcionando — pode ajudar a satisfazer as necessidades dos trabalhadores em responsabilidade, realização, reconhecimento, crescimento e melhoria da autoestima. Os programas de envolvimento, quando usados amplamente, têm potencial para aumentar a motivação intrínseca do funcionário na realização de suas tarefas. Utilizando recompensas para motivar funcionários Como vimos no Capítulo 3, a remuneração não é o fator principal de satisfação no trabalho. Em uma pesquisa feita com cerca de 1.400 gestores brasileiros, observou-se que a remuneração ocupa o terceiro lugar como fator de motivação e de satisfação geral no emprego, com uma representação de apenas 12,8 por cento.53 No entanto, mesmo não sen- do a principal fonte de motivação, a remuneração é um importante fator que as empresas frequentemente subestimam.54 Sendo a remuneração tão importante, os gestores têm de tomar algumas decisões es- tratégicas. A organização deve liderar o mercado em matéria de pagamento, equiparar-se a ele ou ficar abaixo da média? Como as contribuições individuais serão reconhecidas? Nesta seção, consideraremos: (1) o que pagar aos funcionários (decidido pelo estabelecimento de uma estrutura de pagamento); (2) como pagar os funcionários individualmente (decidido com planos de remuneração variáveis e planos baseados em capacidades); (3) que benefícios e opções oferecer (como benefícios flexíveis) e (4) como estruturar programas de reconhe- cimento de funcionários. O que pagar: estabelecimento de uma estrutura de remuneração Há muitas maneiras de remunerar os empregados. O processo de estabelecer níveis de remuneração pode ser complexo e envolve equilibrar o valor do trabalho para a orga- nização, geralmente estabelecido por um processo técnico chamado avaliação profissional, e a competitividade externa da remuneração de uma organização em relação à remune- ração média em sua área de atuação, geralmente determinada por pesquisas de mercado. Obviamente, o melhor sistema de remuneração paga o trabalho que vale, sendo também competitivo em comparação ao mercado de trabalho. Algumas organizações preferem ser líderes em remuneração e pagam acima do mer- cado, ao passo que outras ficam atrás, pois não podem arcar com a média do mercado, ou estão dispostas a suportar os custos de pagar abaixo do mercado (ou seja, maior rotativida- de uma vez que as pessoas são atraídas por empregos que pagam melhor). Ao remunerar melhor, as organizações conseguem funcionários mais bem qualificados e mais motivados que ficarão mais tempo com a empresa. Um estudo envolvendo 126 em- presas de grande porte descobriu que os funcionários que acreditavam receber um salário competitivo tinham o moral mais alto e eram mais produtivos, e que seus clientes também estavam mais satisfeitos.55 A remuneração, porém, é frequentemente o custo operacional mais alto para uma organização, o que significa que pagar muito pode tornar seus produtos e serviços muito caros. É uma decisão estratégica que deve ser tomada pela organização, com trade-offs evidentes. 08 rob0610_cap08 BR.indd 242 12/13/10 4:23 PM Capítulo 8 Motivação: do conceito às aplicações 243 Como remunerar: recompensando funcionários individual- mente com programas de remuneração variável “Por que eu faria um esforço extra em meu trabalho?”, pergunta Ana Garcia, profes- sora de ensino fundamental em uma escola de Cuiabá, no Mato Grosso. “Posso me esfor- çar ou apenas fazer o mínimo necessário. Não faz a menor diferença. Eu recebo o mesmo salário. Por que eu faria qualquer coisa além do mínimo exigido?”. Comentários como esse de Ana foram comuns entre os professores por décadas, pois os aumentos salariais nesse setor eram vinculados ao tempo de serviço. Recentemente, en- tretanto, diversas organizações no Brasil — desde empresas privadas até escolas públicas e agências governamentais — estão revendo seus sistemas de remuneração (normalmente ba- seados em credenciais ou tempo de serviço) para motivar pessoas como Ana a colocar mais entusiasmo em seu trabalho, aderindo a programas de remuneração variável. Em 2008, por exemplo, o governo de São Paulo definiu normas para um projeto de remuneração por desempenho para trabalhadores da função pública, em que 300 mil funcionários ligados à educação passariam a receber o equivalente a até 2,9 salários mensais se seus alunos absor- vessem melhor os conteúdos ensinados.56 Planos de remuneração por unidades produzidas, incentivos salariais, participação nos lucros e participação nos ganhos são algumas das for- mas possíveis de programas de remuneração variável, em que uma parte da remu- neração baseia-se em alguma medida de desempenho, individual e/ou organizacional. As quantias recebidas, portanto, flutuam de acordo com a medição do desempenho.57 Os planos de remuneração variável têm sido usados há muito tempo para compensar vendedores e gestores. A Claro, a Promon, o banco BTG Pactual e o Magazine Luiza são apenas alguns exemplos de empresas que utilizam pagamentos variáveis com funcioná- rios de diferentes níveis organizacionais.58 No Brasil, a prática desse tipo de remuneração tem sido crescente: em 2007, registrou-se o aumento de 25 por cento nas empresas que começaram a adotar a remuneração variável.59 Infelizmente, pesquisas recentes indicam que muitos empregados ainda não veem uma forte conexão entre remuneração e desempe- nho. Somente 29 por cento dizem que, quando fazem um bom trabalho, seu desempenho é recompensado.60 É a flutuação da remuneração variável que a torna tão atraente para os dirigentes das empresas. Ela transforma parte dos custos fixos com a força de trabalho em custos variáveis e, assim, reduz as despesas quando o desempenho cai. Quando a economia dos Estados Unidos entrou em recessão em 2001 e 2008, as empresas que utilizavam a remuneração variável conseguiram reduzir seus custos muito mais rapidamente do que as outras.61 Ao vincular pagamento e desempenho, a remuneração passa a ser também o reconhecimento de uma contribuição, e não apenas um direito adquirido. Ao longo do tempo, os menos es- forçados veem sua remuneração estagnar-se, ao passo que os que têm melhor desempenho desfrutam de uma remuneração maior, de acordo com sua contribuição. Vamos examinar os diferentes tipos de programas de remuneração variável em detalhes. Programas de remuneração variável Plano que baseia parte da remuneração do funcionário em alguma medidade desempenho, individual e/ou organizacional. Os vendedores representam o caso mais típico de remuneração variável. Como forma de incentivá-los a elevar suas vendas, as organizações atrelam seus pagamentos a diferentes fatores, como o volume de vendas, a quantidade de novos clientes conquistados e a diversificação dos produtos vendidos. Dessa maneira, as empresas oferecem salários fixos costumeiramente reduzidos e uma participação nas vendas realizadas, a comissão, que, nas lojas de roupas, costumam girar em torno de 5 por cento. Com isso, as organizações motivam seus funcionários a obterem melhores resultados. Im ag e So ur ce /K ev in S ac he r C M 08 rob0610_cap08 BR.indd 243 12/13/10 4:23 PM 244 Comportamento organizacional Remuneração por unidade produzida O plano de remuneração por unidade produzida tem sido popular há muito tempo como forma de compensar funcionários na área da produção, pagando-lhes uma soma fixa para cada unidade de produção comple- tada. Em seu estado mais puro, esses programas não preveem pagamento fixo básico, mas apenas para aquilo que for produzido. As pessoas que trabalham em estádios de esportes vendendo picolés ou refrigerantes costumam ser remuneradas dessa forma. Se venderem apenas 40 latas, ganham apenas 40 reais. Quanto mais eles se esforçam e quanto mais refrigerantes conseguem vender, mais ganham. A limitação desses planos é que não são viáveis para muitos trabalhos. Em 2010, por exemplo, o ex-treinador do Palmeiras, Muricy Ramalho, recebia cerca de 450 mil reais por mês. Esse salário era pago independentemen- te de quantos jogos o time vencesse. Não seria melhor pagar 70 mil reais por cada vitória (jogando cerca de oito jogos por mês, ele poderia receber até 560 mil reais)? Parece impro- vável que ele aceitaria tal proposta e isso também poderia gerar consequências imprevistas (trapaças, por exemplo). Assim, apesar de os incentivos serem motivadores e relevantes para algumas funções, parece irreal pensar que eles podem constituir a única parcela do pagamento de todos os funcionários. Pagamento com base no mérito O plano de pagamento com base no mérito é feito por desempenhos individuais com base em escalas de avaliação. Sua principal vanta- gem é que aqueles que têm melhores desempenhos podem receber recompensas maiores. Se esses planos forem realizados corretamente, os indivíduos perceberão uma forte relação entre seu desempenho e as recompensas que recebem.62 A maior parte das grandes organizações possui planos de remuneração por desempe- nho, principalmente para empregados assalariados. O plano da empresa de tecnologia e engenharia Promon, por exemplo, dá aumentos nos salários-base dos empregados de acor- do com suas avaliações anuais de desempenho. Desde os anos 1990, quando a economia tropeçou terrivelmente, um número crescente de empresas japonesas vem abandonando as remunerações baseadas em tempo de serviço em favor dos planos de incentivo salarial. Um executivo de uma empresa desse país comentou: “O sistema de remuneração baseada no mérito é um meio importante de atingir metas estabelecidas pela alta administração da empresa, e não somente um meio de mudar as remunerações”.63 Para motivar e reter os melhores trabalhadores, mais empresas estão elevando o diferencial entre os que têm o melhor e o pior desempenho. Uma pesquisa constatou que, em 2006, os empregadores deram aos que tiveram melhor desempenho aproximadamente 10 por cento de aumento, comparados com 3,6 por cento para os de desempenho mediano e 1,3 por cento para os de desempenho abaixo da média. Essa diferença tem aumentado com o tempo. Apesar do apelo intuitivo da remuneração por desempenho, os planos de remu- neração baseados no mérito têm muitas limitações. Uma delas é que, normalmente, tais planos se baseiam em uma avaliação anual de desempenho e, portanto, tão válidos ou tão inválidos quanto as classificações de desempenho nas quais se baseiam. Outra limitação é que o fundo para aumentos salariais flutua com as condições da economia ou outros fatores que têm pouca relação com o desempenho individual de um funcio- nário. Em um ano, um professor de uma renomada universidade que teve desempenho destacado em docência e pesquisa recebeu um aumento de mil reais. Por quê? Porque o fundo para aumentos salariais era muito pequeno. Assim, isso dificilmente pode ser considerado um pagamento por desempenho. Finalmente, os sindicatos costumam re- sistir aos planos de remuneração baseados no desempenho. Por isso, poucos professores têm o benefício do incentivo salarial, enquanto as remunerações baseadas em tempo de serviço predominam. Bônus Os bônus anuais são um componente significativo da compensação total. Entre os presidentes das cem maiores empresas norte-americanas, os bônus anuais (em média 1,01 milhão de dólares) geralmente excedem os salários-base anuais (em média 863 mil dólares). No Brasil, em 2005, a média dos salários-base dos presidentes (863 mil reais) ainda era maior do que os bônus recebidos por eles (382 mil reais).64 Cada vez mais, os bônus estão ocupando um espaço maior nas organizações, incluindo os funcionários de escalões Planos de remuneração por unidade produzida Plano de pagamento em que os funcionários recebem uma soma fixa para cada unidade de produção completada. Plano de pagamento com base no mérito Plano de pagamento baseado no índice de avaliação de desempenho. Bônus Plano que recompensa os empregados, privilegiando o desempenho mais recente em vez do desempenho histórico. 08 rob0610_cap08 BR.indd 244 12/13/10 4:23 PM Capítulo 8 Motivação: do conceito às aplicações 245 inferiores. Muitas empresas recompensam seus funcionários com bônus em milhares de reais quando seus lucros aumentam. Os efeitos do incentivo por bônus no desempenho deveriam ser maiores do que aqueles do pagamento por mérito, pois mais do que pagar as pessoas por seu desempenho de anos atrás (e que foram acrescidos ao pagamento- -base), os bônus recompensam somente o desempenho recente. Além do mais, em tempos difíceis, as empresas podem reduzir os custos de compensação. A empresa norte-ameri- cana de aço Nucor, por exemplo, garante a seus funcionários uma remuneração de so- mente cerca de 20 reais por hora, mas seus bônus podem ser substanciais. Em 2006, seus funcionários receberam, em média, aproximadamente 180 mil reais. Quando chegou a recessão, os bônus foram cortados drasticamente e o pagamento total caiu 40 por cento.65 Esse exemplo também destaca o lado ruim dos bônus: o pagamento dos funcionários fica mais vulnerável a cortes. Isso é particularmente problemático quando os bônus formam uma grande porcentagem do pagamento total, ou quando os funcionários passam a considerá-los um ganho certo. “As pessoas passaram a viver como se os bônus não fossem bônus, mas parte esperada de sua renda anual”, diz um professor da Harvard Business School. Remuneração por habilidades A remuneração por habilidades (também cha- mada remuneração por competências) é uma alternativa à remuneração com base no cargo que estabelece o nível salarial de acordo com as habilidades do funcionário ou com a va- riedade de funções que ele é capaz de desempenhar.66 Os funcionários da Marcopolo, fabri- cante gaúcha de carrocerias para ônibus, por exemplo, são geridos por suas competências e sabem exatamente quais habilidades precisam desenvolver para ser promovidos e receber aumentos salariais. O departamento de recursos humanos da organização mapeou todas as habilidades necessárias para a boa execução das tarefas e apresentou-as na intranet da empresa, para que os trabalhadores pudessem planejar seu desenvolvimento. Para os em- pregadores, o atrativo desse tipo de plano de remuneração é o aumento da flexibilidade: atender às necessidades dos funcionários é mais fácil quando as habilidades são intercam- biáveis. A remuneração por habilidades facilita a comunicação dentro da organização,pois as pessoas passam a entender melhor as funções umas das outras. Qual seria o lado negativo desses planos? As pessoas podem ‘atingir o ápice’ — aprender todas as habilidades disponíveis no programa. Isso pode levar os funcionários à frustração depois de eles terem sido desafiados por um ambiente de aprendizado, crescimento e au- mento contínuo de remuneração. Além disso, os planos de remuneração por habilidades não enfocam o nível de desempenho. Eles estão voltados apenas para a questão de as pessoas conseguirem, ou não, realizar determinadas competências. Planos de participação nos lucros Os planos de participação nos lucros são programas que envolvem toda a organização, distribuindo um pagamento baseado em alguma fórmula de cálculo da lucratividade da empresa. Esse pagamento pode ser feito em dinheiro ou, mais comumente no caso dos executivos, em ações da empresa. Quando você lê no noticiário que gestores como Márcio Cypriano, presidente do Bradesco, ganham Remuneração por habilidades Plano que estabelece o salário de acordo com a quantidade de habilidades do funcionário ou com a variedade de funções que ele é capaz de desempenhar. Planos de participação nos lucros Planos que envolvem toda a organização, distribuindo um pagamento baseado em alguma fórmula de cálculo da lucratividade da empresa. A DryWash, empresa de lavagem de veículos a seco, estabeleceu um sistema de remuneração variável baseado em uma preocupação socioambiental. Implantado em 2007, o programa buscava incentivar os trabalhadores de base a voltar a estudar, oferecendo um 14o salário aos gerentes das lojas que conseguissem manter 20 por cento dos funcionários sem ensino fundamental e médio nas salas de aula. Posteriormente, a empresa adicionou outro critério ao programa: para continuar recebendo integralmente o bônus, os gerentes precisavam garantir a reciclagem dos panos usados nas lavagens.67 Fe rn an d o M or ae s/ Fo lh ap re ss 08 rob0610_cap08 BR.indd 245 12/13/10 4:23 PM 246 Comportamento organizacional cerca de 14 milhões de reais por ano,68 quase toda essa quantia é recebida a título de par- ticipação nos lucros e resultados da companhia. Obviamente, nem todos os funcionários recebem montantes tão elevados. Entretanto, a participação nos lucros e resultados do pró- prio Bradesco conferiu a cada trabalhador 2,2 salários extras em 2008. Os planos de participação nos lucros parecem apresentar um impacto positivo nas ati- tudes dos funcionários. Aqueles que se beneficiam dele têm uma sensação psicológica mais forte de propriedade da empresa.69 Participação nas melhorias O programa de remuneração variável que vem rece- bendo maior atenção recentemente é, sem dúvida, o de participação nas melhorias.70 Trata-se de um plano de incentivo coletivo baseado em uma fórmula que usa a melhoria na produtividade do grupo durante certo período para determinar a quantia a ser distri- buída aos funcionários. Aproximadamente 45 por cento das mil maiores empresas norte- -americanas implementaram esse plano,71 cuja popularidade parece ser estreitamente liga- da às grandes empresas de manufatura. Esse plano é diferente do plano de participação nos lucros, pois as recompensas estão vinculadas a ganhos de produtividade em vez de a ganhos sobre lucros. Nesse plano, os funcionários podem receber os incentivos mesmo quando a empresa não está sendo muito lucrativa. Como os benefícios são concedidos a grupos de funcionários, aqueles que apresentam desempenho acima da média pressionam os funcio- nários cujo desempenho está abaixo dela para trabalhar mais, melhorando o desempenho do grupo como um todo.72 Planos de participação acionária para funcionários Os planos de participação acionária para funcionários são planos de remuneração variável estabelecidos pelas empresas, nos quais os funcionários compram ações da companhia, normalmente a preços abaixo dos de mercado, como parte de um pacote de benefícios. Empresas como a locadora de veículos Localiza, a consultoria Accenture e a América Latina Logística são exemplos de organizações com planos de participação acionária. Entretanto, não é necessário ter ações vendidas na bolsa ou ser uma grande empresa para oferecer participação acionária a seus funcionários. Nos Estados Unidos, inclusive, a maioria desses programas ocorre em organi- zações pequenas de capital fechado.73 As pesquisas mostram que esses planos contribuem para melhorar a satisfação dos funcionários,74 mas seu impacto sobre o desempenho é menos claro. De fato, esses planos têm o poder de aumentar a satisfação e a motivação, porém, para que isso aconteça, os fun- cionários têm de experimentar a sensação psicológica de posse da empresa.75 Ou seja: além de ter uma parcela financeira da companhia, eles precisam ser regularmente informados a respeito do status dos negócios e ter a oportunidade de exercer influência sobre eles para que sejam atingidas melhorias significativas no desempenho da organização.76 Os planos de participação acionária para a alta gerência reduzem o comportamento antiético. Os CEOs tendem a manipular os ganhos da empresa para impressionar bem no curto prazo quando não compartilham de sua propriedade, mesmo que tal manipulação termine por reduzir o preço das ações. Entretanto, quando os CEOs possuem uma elevada quantidade de ações, eles registram os ganhos da empresa com precisão, pois não querem arcar com as consequências negativas da queda do preço das ações.77 Avaliação dos programas de remuneração variável Esses programas de remunera- ção variável conseguem aumentar a motivação e a produtividade dos trabalhadores? A res- posta é um sonoro ‘sim’. No Brasil, os garçons, que recebem uma comissão de 10 por cento a cada cliente atendido, são um caso que comprova essa evidência. Em um estudo feito no Rio de Janeiro, 90 por cento dos entrevistados afirmam que não seriam garçons se não tivessem comissão, pelo que os autores concluem que essa seria sua principal fonte de mo- tivação.78 Os estudos normalmente confirmam que as organizações que adotam planos de participação nos lucros têm maior lucratividade do que as demais.79 Da mesma forma, as evidências indicam que a participação nas melhorias aumenta a produtividade na maioria dos casos, além de frequentemente ter impacto positivo sobre as atitudes dos funcionários.80 Outro estudo constatou que, enquanto os planos de remuneração por unidade produzida estimulavam maiores níveis de produtividade, esse efeito positivo não era observado em Participação nas melhorias Plano de incentivo coletivo baseado na melhoria da produtividade do grupo durante um determinado período. Planos de participação acionária para funcionários Planos de benefícios estabelecidos pela empresa, nos quais os funcionários compram ações da companhia, geralmente a preços abaixo dos praticados no mercado, como parte de um pacote de benefícios. 08 rob0610_cap08 BR.indd 246 12/13/10 4:23 PM Capítulo 8 Motivação: do conceito às aplicações 247 funcionários com aversão a riscos. Assim, o que o economista Ed Lazear disse parece certo: “Os trabalhadores respondem aos preços assim como a teoria econômica preconiza. As alegações dos sociólogos e de outros, de que os incentivos monetários podem de fato reduzir os resultados, são refutadas inequivocamente pelos dados existentes”. Mas isso não significa que todos respondem de maneira positiva aos planos de remuneração variável.81 Benefícios flexíveis: desenvolvendo o pacote de benefícios Cláudia Freitas da Silva e Celso Delinghausen trabalhavam, em 2001, na Telet, em- presa de telefonia celular que opera no Rio Grande do Sul, mas tinham necessidades muito diferentes com relação aos benefícios adicionais. Por serem pessoas distintas, cada um deles tinha preferências específicas com relação aos benefícios que gostariam de receber. Pen- sando nisso, a empresa resolveu adotar um plano de benefícios flexíveis. “Você podeescolher se quer vacina e, se não quiser, você pode aumentar um pouco a gasolina. Mas se você não tem carro, não há problema: aumente o valor de seu tíquete-alimentação”, conta Cláudia. “Se a pessoa tem filhos, pode optar por creche; se está pensando em ter, pode op- Benefícios flexíveis Plano de benefícios que permite aos funcionários criar o próprio pacote de acordo com as suas necessidades pessoais. O banco de investimentos Pactual, desde sua fundação, sempre apresentou uma cultura fortemente baseada na meritocracia. Espe- lhado no modelo do Goldman Sachs, tradicional banco norte-americano que valoriza o trabalho pesado e re- compensa os melhores funcionários com gordos bônus e participações nos lucros, o Pactual buscou implantar esse modelo no Brasil. Dessa maneira, seus fundadores moldaram um sistema em que os salários fixos não são muito elevados, os empregados trabalham muitas horas por dia e os melhores recebem vastas somas de dinhei- ro ao final do ano. Graças a essa política e à boa qualidade dos profis- sionais atraídos por ela, o Pactual tornou-se o maior ban- co de investimentos genuinamente brasileiro, atraindo a atenção de grandes grupos internacionais — um desses foi o UBS, gigante instituição suíça que o adquiriu em 2006. Essa organização também tinha uma política agres- siva de remuneração variável, mas, em função da crise financeira global decorrente dos problemas no mercado imobiliário norte-americano, precisou revisar o pagamen- to dos bônus. Ocorreu que, em 2007, o UBS teve um prejuízo de quatro bilhões de reais. Esse resultado foi decorrente das operações nos Estados Unidos e na Europa, visto que, naquele ano, as operações no Brasil e em toda a América Latina foram muito lucrativas. Em função dos maus resul- tados globais, a cúpula do banco suíço propôs a redução dos bônus aos funcionários, limitando-os a 750 mil dóla- res por pessoa e oferecendo a maior parte em ações, que só poderiam ser vendidas ao longo de três anos. Essa política era muito diferente da existente no Pac- tual, onde os funcionários recebiam 45 por cento do lu- cro antes do pagamento de impostos (Lair), sendo pagos, principalmente, em ‘dinheiro vivo’. Além da mudança no sistema de pagamento, os executivos brasileiros não achavam justo serem prejudicados pelos erros cometidos pelo pessoal da Europa e dos Estados Unidos. Teve iní- cio, então, uma negociação para resolver esse problema. O UBS ofereceu um bônus de até um milhão de dólares aos brasileiros, pagando ‘apenas’ 50 por cento em ações e distribuindo 30 por cento do LAIR, mas os brasileiros permaneceram descontentes. Os executivos do Pactual, principalmente os anti- gos donos, como André Esteves, ameaçaram se retirar da parceria e propuseram recomprar as ações do banco nacional caso o cálculo de seus bônus não considerasse apenas as operações latino-americanas. Temendo perder importantes executivos, o UBS teve de aceitar a proposta e alguns gestores brasileiros receberam bônus superiores a 10 milhões de reais. O problema, entretanto, não estava plenamente re- solvido, pois novos prejuízos eram esperados pelo UBS em 2008. Essas divergências foram uma das causas da venda do Pactual pelo UBS para seus antigos sócios, ocorrida no primeiro trimestre de 2008. Não mexa em minha cultura! Muito menos em meu bolso! COMPORTAMENTO ORGANIZACIONAl NA MÍDIA Fontes: “Bônus de executivos brasileiros gera atritos no UBS Pactual”, Portal Swissinfo.ch, 25 jan. 2008, disponível em: . Acesso em: 4 fev. 2010; e “Corte de bônus surpreende executivos do UBS no Brasil”, Valor Econômico, 22 nov. 2007, em Resenha Eletrônica, site do Ministério da Fazenda. Disponível em: . Acesso em: 4 fev. 2010. 08 rob0610_cap08 BR.indd 247 12/13/10 4:23 PM 248 Comportamento organizacional tar por um plano de saúde que contenha o hospital de sua preferência. Se a pessoa já tem um dentista de confiança, que é meu caso, por exemplo, pode economizar pontos e utilizá- -los em combustível ou serviços em aparelhos celulares”, disse Celso.82 Um plano único de benefícios para todos os funcionários da Telet não conseguiria atender às necessidades individuais de Cláudia e Celso, mas isso foi possível pelo fato de a empresa oferecer benefícios flexíveis. Em concordância com a tese da teoria da expectativa, que diz que as recompensas organizacionais devem estar ligadas aos objetivos individuais de cada funcionário, os be- nefícios flexíveis individualizam as recompensas, permitindo aos funcionários escolher seu pacote de acordo com as próprias necessidades e situação. Esses programas substituem o tradicional plano ‘igual para todo mundo’, projetado para funcionários do sexo masculi- no com mulher e dois filhos para sustentar, que dominou as organizações por mais de 50 anos.83 Menos de 10 por cento dos trabalhadores de hoje se ajustam a esse estereótipo. En- quanto 25 por cento deles são solteiros, cerca de um terço da força de trabalho é membro de um casal com duas fontes de renda e sem filhos. Os planos de benefícios flexíveis podem ser personalizados para atender a diferentes necessidades conforme a faixa etária, estado civil, benefícios do cônjuge, número e idade dos dependentes, e assim por diante. Os três tipos de plano de benefícios mais comuns são os planos modulares, os nucleares e os de crédito flexível.84 Os planos modulares são formados por pacotes ou módulos pre- definidos de benefícios, que podem ser somados para atender às necessidades de grupos específicos de funcionários. Um módulo projetado para atender funcionários solteiros, sem dependentes, poderia incluir apenas os benefícios básicos; outro, projetado para solteiros com filhos, poderia incluir também seguro de vida, de acidentes e maior cobertura de assis- tência médica. Os planos nucleares consistem em um núcleo fixo de benefícios essenciais e um ‘cardápio’ de benefícios adicionais, que podem ser escolhidos e anexados ao núcleo de benefícios essenciais pelos funcionários. Normalmente, cada funcionário utiliza seu ‘crédito de benefício’ para ‘comprar’ os benefícios específicos para suas necessidades particulares. Os planos de créditos flexíveis permitem que o funcionário use até determinada quantia bruta, estabelecida pelo plano, para pagar os serviços que contratar de maneira particular, como serviços médicos e odontológicos. Esse tipo de plano pode aumentar o salário líquido do funcionário, pois as despesas pagas dessa forma estão livres de impostos. Recompensas intrínsecas: programas de reconhecimento de funcionários Monique Gouvêa ganha apenas três reais por hora em uma lanchonete em Maceió, no estado de Alagoas, e seu trabalho não é exatamente interessante ou desafiador. Mesmo assim, Monique fala com entusiasmo do emprego, do chefe e da empresa em que trabalha. “O que gosto é do fato de Carlos (seu chefe) valorizar meu esforço. Ele me elogia na frente Na fabricante de produtos químicos DuPont, os funcionários anualmente escolhem os benefícios que desejam receber ao longo daquele período. A escolha é realizada por meio da Internet da empresa, em uma espécie de ‘compra on-line’. Nesse sistema, os funcionários recebem créditos anuais e, à medida que vão adicionando benefícios a sua cesta, consomem os pontos recebidos. O valor dos créditos é proporcional ao salário dos funcionários e as mudanças nos benefícios são realizadas automaticamente em casos de casamento, nascimento de filhos ou divórcio.85 D iv ul g aç ão 08 rob0610_cap08 BR.indd 248 12/13/10 4:23 PM Capítulo 8 Motivação: do conceito às aplicações 249 dos colegas durante meu turno e, nos últimos seis meses, fui eleita ‘funcionária do mês’ por duas vezes. Você viu minha foto no quadro na parede?” As organizações estão, cada vez mais, reconhecendo o que Monique vivencia: asrecompensas podem ser tanto intrínsecas como extrínsecas. Elas são intrínsecas na forma de programas de reconhecimento do funcionário e extrínsecas no formato de sistemas de compensação. Nesta seção, trataremos das maneiras como os gestores podem recompen- sar e motivar o desempenho do funcionário. Os programas de reconhecimento de funcionários podem ser de diferentes formatos. Eles vão desde um ‘muito obrigado’ espontâneo e em particular até programas formais explícitos, nos quais tipos específicos de comportamento são encorajados e os procedimen- tos para a conquista do reconhecimento são identificados claramente. Algumas pesquisas sugerem que os incentivos financeiros podem ser mais motivadores a curto prazo, mas, a longo prazo, os não financeiros são mais motivadores.86 O Real Atacado, empresa atacadista gaúcha que atua na distribuição de diversos itens para lojas varejistas, desenvolveu um programa formal de reconhecimento dos melhores funcionários. Mensalmente, um trabalhador é escolhido de acordo com critérios estabeleci- dos e recebe o prêmio de ‘funcionário do mês’, tendo seu nome e sua foto expostos no site da empresa.87 No outro extremo, muitos gestores usam abordagens bem mais informais. Em algumas equipes da empresa de telefonia Oi, o reconhecimento aos bons trabalhos realizados ocorre de maneira bastante descontraída. Quando alguns times superam suas metas de desempenho, eles realizam verdadeiras ‘bagunças comemorativas’, batucando em suas mesas, soprando apitos e percorrendo diversas salas para comemorar. Há alguns anos, foi realizada uma pesquisa com 1.500 trabalhadores, em diversos setores de atividades, para descobrir o que eles consideravam o maior agente motivador do trabalho. A resposta? Reconhecimento, reconhecimento e mais reconhecimento! Uma vantagem óbvia dos programas de reconhecimento do funcionário é que são bara- tos, uma vez que o elogio é gratuito!88 Não é por acaso, portanto, que eles vêm crescendo em popularidade. Uma pesquisa realizada em 2002 envolvendo 391 empresas revelou que 84 por cento delas tinham algum tipo de programa de reconhecimento pelo bom desempenho de seus funcionários e quatro em cada dez estavam investindo mais nessa área do que um ano antes.89 Apesar de sua crescente popularidade, os críticos argumentam que os programas de reconhecimento dos funcionários são muito suscetíveis à manipulação por parte de diri- gentes de empresas.90 Quando utilizados em áreas em que os fatores de desempenho são relativamente objetivos, como vendas, esses programas são vistos pelos funcionários como muito justos. Entretanto, em muitas outras funções, os critérios para definir o que é um bom desempenho não são assim tão evidentes, o que dá margem para que os gestores manipulem o programa para beneficiar seus funcionários favoritos. A má utilização de programas de reconhecimento pode erodir seu valor e até comprometer o moral dos funcionários. Na Daibase, fabricante de máquinas industriais diversas, como sistemas de exaustão e tratamento do ar, o reconhecimento dos melhores funcionários é formalizado por meio do programa ‘Colaborador do mês’. Os critérios para escolha são a assiduidade, o comprometimento e a sugestão e implantação de novas ideias. Na foto, vemos, à esquerda, o sr. Claudemir, operário do setor de produção, recebendo o prêmio de um gestor da Daibase.91 RH /D ai b as e 08 rob0610_cap08 BR.indd 249 12/13/10 4:23 PM 250 Comportamento organizacional Implicações globais As abordagens motivacionais discutidas neste capítulo variam de acordo com a cultura? Uma vez que tratamos de abordagens muito diferentes neste capítulo, vamos subdividir nossa análise por abordagem. Nem todas elas foram estudadas por pesqui- sadores interculturais, portanto consideramos as diferenças multiculturais nas seguintes abordagens: (1) características e enriquecimento do trabalho, (2) trabalho a distância, (3) remuneração variável, (4) benefícios flexíveis e (5) envolvimento do funcionário. Características e enriquecimento do trabalho Alguns estudos testaram o modelo de características do trabalho nas diferentes culturas, mas os resultados não são muito consistentes. Um estudo sugere que, quando os funcionários são mais preocupados com o bem-estar dos outros no trabalho, a relação entre as caracterís- ticas intrínsecas e a satisfação no trabalho é mais fraca. O fato de o modelo de características do trabalho ser relativamente individualista (considerando apenas o relacionamento entre o funcionário e seu trabalho) sugere que as estratégias de enriquecimento talvez não tenham os mesmos efeitos em culturas mais coletivistas em comparação com culturas individualistas (como a norte-americana).92 No entanto, outro estudo sugere que o grau em que os trabalhos possuíam características intrínsecas foi um fator de previsão de satisfação e envolvimento no trabalho igualmente válido para os trabalhadores norte-americanos, japoneses e húngaros, pertencentes a culturas bastante distintas entre si.93 Trabalho a distância A proporção de funcionários que trabalham em casa usando computadores varia de acordo com a nação? A eficácia depende da cultura? Primeiro, um estudo sugere que o trabalho remoto é mais comum nos Estados Unidos do que em todas as nações da União Europeia (UE), exceto a Holanda. No estudo, 24,6 por cento dos trabalhadores norte- -americanos trabalham remotamente comparados a apenas 13 por cento dos trabalhado- res na UE. Dos países da UE, a Holanda tinha a maior taxa de trabalho a distância (26,4 por cento), enquanto as taxas mais baixas são da Espanha (4,9 por cento) e Portugal (3,4 por cento). E quanto ao resto do mundo? No Brasil, por exemplo, um em cada quatro brasileiros (23,2 por cento da população adulta em atividade) realiza alguma forma de trabalho a distância, o que faz que, em nosso país, o trabalho remoto seja uma forma de trabalho muito utilizada.94 Infelizmente, há poucos dados comparando as taxas de trabalho a distância em outras partes do mundo. Remuneração variável Você provavelmente pensa que os sistemas de remuneração individual (tais como bô- nus ou remuneração por desempenho) devem funcionar melhor em culturas individualis- tas, como a Austrália ou o Reino Unido, do que em culturas coletivistas, como a China ou a Venezuela. Da mesma forma, você provavelmente deve acreditar que as recompensas baseadas no grupo, como participação nos lucros ou nas melhorias, funcionam melhor em culturas coletivistas do que nas individualistas. Infelizmente, não há muita pesquisa sobre o assunto. De qualquer maneira, um estudo recente sugeriu que as crenças sobre a lealdade de um plano de incentivo ao grupo eram bases mais fáceis para prever a satisfação pro- fissional entre os trabalhadores dos Estados Unidos do que entre os de Hong Kong. Uma interpretação dessas descobertas é que os trabalhadores norte-americanos são mais críticos ao avaliar um plano de remuneração em grupo e, por isso, torna-se mais importante que este seja comunicado claramente e administrado de maneira correta.95 08 rob0610_cap08 BR.indd 250 12/13/10 4:23 PM Capítulo 8 Motivação: do conceito às aplicações 251 Benefícios flexíveis Hoje em dia, parece que os benefícios flexíveis também estão se tornando norma em alguns países — quase todas as grandes corporações da América do Norte oferecem esses planos. Uma pesquisa recente com 136 empresas canadenses revelou que 93 por cento delas já adotavam ou pretendiam adotar plano de benefícios flexíveis em breve.96 Uma pesquisa semelhante realizada com 307 empresas no Reino Unido mostrou que, embora apenas 16 por cento delas já adotassem tais planos, 60 por cento empreendiam processos de implementação ou consideravam seriamente sua adoção.97 Por fim, em outra pesquisa que englobou 162 empresas de diferentes tamanhos e segmentos no Brasil, foi possível observar que, apesar de a maioria das empresas brasileiras não adotar um plano formal de benefíciosflexíveis (apenas 4 por cento o faz), um quinto das entrevistadas já estudou a possibilidade de implantar tal prática.98 Envolvimento do funcionário Os programas de envolvimento do funcionário diferem de país para país.99 Um estudo que comparou a aceitação dos programas de envolvimento dos funcionários em quatro países, incluindo os Estados Unidos e a Índia, confirmou a importância de mo- dificar as práticas para refletir a cultura nacional.100 Mais especificamente, enquanto os trabalhadores norte-americanos aceitaram de imediato esses programas, os gestores na Índia, que tentaram fortalecer seus funcionários por meio dos programas de envolvi- mento, receberam uma classificação baixa de seus funcionários. Essas reações são uni- formes dentro da cultura de distância do poder da Índia, que aceita e espera diferenças na autoridade. Da mesma forma, os trabalhadores chineses, mais ligados aos valores C omo os vários fatores do trabalho de um indi- víduo contribuem para a satisfação em culturas diferentes? Um estudo recente realizado em 50 países distinguiu características intrínsecas do trabalho (por exemplo, ter um trabalho que permita ao indiví- duo usar suas habilidades, recebendo frequentemente reconhecimento de um supervisor), suas características extrínsecas (por exemplo, receber uma remuneração competitiva em determinada área, trabalhar sob con- dições físicas confortáveis) e diferenças avaliadas entre as duas que possam prognosticar a satisfação do fun- cionário no trabalho. Em vários países, as características extrínsecas fo- ram sistemática e positivamente relacionadas à satis- fação no trabalho. No entanto, os países apresenta- ram diferenças na medida em que as características intrínsecas prognosticaram a satisfação no trabalho. Os países mais ricos, aqueles com a seguridade social mais forte, os que acentuam o individualismo em vez do coletivismo e os países com menor distância do po- der (aqueles que valorizam uma distribuição igualitária de poder em organizações e instituições) mostraram um relacionamento mais forte entre a presença de ca- racterísticas intrínsecas no trabalho e a satisfação no trabalho. O que explica essas descobertas? Uma hipótese é que em países com maior riqueza e melhor seguridade social, as preocupações com relação à sobrevivência são ignoradas e os funcionários têm a liberdade de depositar mais importância nos aspectos intrínsecos do trabalho. Outra explicação é que as culturas que enfatizam o in- divíduo e têm menor assimetria de poder socializam os indivíduos para focar os aspectos intrínsecos do trabalho. Em outras palavras, tais culturas dizem aos indivíduos que está certo querer trabalhos que são intrinsecamente re- compensadores. Diferenças culturais nas características e na satisfação no trabalho COMPORTAMENTO ORGANIZACIONAl INTERNACIONAl Fonte: Baseado em X. Huang e E. Van De Vliert, “Where Intrinsic Job Satisfaction Fails to Work: National Moderators of Intrinsic Motivation”, Journal of Organizational Behavior, 24, n. 2, 2003, p. 159-179. 08 rob0610_cap08 BR.indd 251 12/13/10 4:23 PM 252 Comportamento organizacional tradicionais de seu país, demonstraram se beneficiar pouco das decisões participativas, mas aqueles menos tradicionais ficaram mais satisfeitos e receberam uma avaliação de desempenho mais alta em gestão participativa.101 Esse estudo ilustra as diferenças subs- tanciais em como as práticas de gestão são percebidas por indivíduos em certos países, bem como entre países diferentes. R esumo e implicações para os gestores Neste capítulo e no anterior, apresentamos uma série de teorias sobre motivação e suas aplicações. Embora seja sempre um desafio tentar sintetizar um grande número de ideias complexas, as sugestões a seguir resumem aquilo que sabemos sobre como motivar os fun- cionários em uma organização. Reconhecer as diferenças individuais Os gestores devem ser sensíveis às diferenças dos indivíduos. Por exemplo, os trabalhadores das culturas asiáticas preferem não ser escolhidos como especiais porque não se sentem confortáveis. Os funcionários têm necessidades diferentes Empregue o tempo necessário para compreender o que é importante para cada um deles. Isso permitirá que você individualize as metas, os níveis de envolvimento e as recompensas, no sentido de alinhá-los com as neces- sidades individuais. Planeje as tarefas conforme as necessidades individuais para que elas maximizem o potencial de motivação no trabalho. Utilize os objetivos e o feedback Os funcionários precisam ter metas específicas e difíceis, bem como feedback com relação a seu progresso em direção a essas metas. Permita que os funcionários participem das decisões que os afetam Os fun- cionários podem contribuir para fixar objetivos de trabalho, escolher os próprios pacotes de benefícios e solucionar problemas de qualidade e produtividade. A participação pode melhorar a produtividade do funcionário, seu comprometimento com os objetivos, sua mo- tivação e sua satisfação com o trabalho. Vincule as recompensas ao desempenho As recompensas devem estar de acordo com o desempenho, e os funcionários precisam perceber esse vínculo entre os dois. Inde- pendentemente da força dessa vinculação, se os funcionários a virem como fraca, os resulta- dos serão desempenho fraco, diminuição da satisfação com o trabalho e aumento das taxas de rotatividade e absenteísmo. Verifique a equidade do sistema Os funcionários precisam perceber que a experiên- cia, as habilidades, as capacidades, o esforço e outras contribuições óbvias devem explicar as diferenças de desempenho e, por conseguinte, a remuneração, as atribuições de tarefas e outras recompensas óbvias. 08 rob0610_cap08 BR.indd 252 12/13/10 4:23 PM Capítulo 8 Motivação: do conceito às aplicações 253 Ponto Contraponto A lgumas das palavras mais memoráveis e cheias de significado que já ouvimos, provavelmente, devem ter sido as de elogio. Os elogios sinceros significam muito para as pessoas — e podem percor- rer um longo caminho em direção à inspiração para um melhor desempenho. Várias pesquisas mostram que os alunos que receberam elogios de seus professores são mais motivados, e normalmente essa motivação perdura após o elogio ter sido feito. Com frequência, nós supo- mos que simples palavras significam pouco, mas a maio- ria de nós anseia por elogios sinceros das pessoas que estão na posição de nos avaliar. As empresas estão começando a aprender essa li- ção. Na rede varejista Magazine Luiza, o reconhecimento do bom trabalho dos funcionários por meio de elogios e do bom relacionamento é visto como um diferencial estratégico. Graças à cultura da empresa e ao carisma da diretora-geral Luiza Helena Trajano, os funcionários iden- tificam-se com a organização. Na rede, os gestores são incentivados a manter um bom relacionamento com seus subordinados e a elogiá-los sempre que eles cumprem suas metas. Na WEG, fabricante catarinense de motores elétricos, a preocupação com a satisfação e motivação dos funcionários também incentiva a manutenção de um bom clima entre todos os empregados. A empresa man- tém um assistente social para que os trabalhadores lhe contem eventuais problemas e estimula que os adminis- tradores elogiem a boa conduta de seus funcionários. O elogio é importante até mesmo para os relacio- namentos a longo prazo. Uma pesquisa de uma empre- sa norte-americana de relacionamento e treinamento sugere que os casamentos mais felizes são aqueles em que os casais fazem cinco vezes mais afirmações positi- vas do que afirmações negativas sobre e para o outro. Por fim, um estudo recente de neuropsicologia des- cobriu que o elogio ativa a mesma parte do cérebro hu- mano que as recompensas materiais, o que nos leva a outro benefício do elogio: ele pode ser tão motivador quanto o dinheiro e, o melhor de tudo, é gratuito. O elogio é muito sobrevalorizado. É claro que, em teoria, é bom receber cumprimentos, mas, na prática,o elogio reserva algumas ciladas. Primeiro, o excesso de elogio não é sincero, e elogiar as pessoas falsamente gera narcisismo. A pesquisadora Jean Twenge diz que os números sobre narcisismo vêm aumentando constantemente desde 1982 e que o elo- gio em abundância pode ser o culpado. Se nos dizem que somos maravilhosos o tempo todo, começamos a acreditar nisso mesmo quando não somos. Em segundo lugar, o elogio é paradoxal: se dizemos a todo mundo que são especiais, em breve isso não sig- nificará nada para aqueles que realmente conseguem algo extraordinário. No filme de animação Os Incríveis, a mãe super-heroína diz a seu filho: “Todos são espe- ciais!” A resposta dele foi: “O que é outra forma de dizer que ninguém é”. Terceiro, o elogio pode ser manipulador. Um es- tudo feito com cabeleireiros descobriu que aqueles que elogiavam seus clientes recebiam gorjetas signi- ficativamente mais altas. Portanto, o elogio, muitas vezes, significa que o ‘elogiador’ quer alguma coisa do ‘elogiado’. Em quarto lugar, algumas das pessoas mais motiva- doras são aquelas difíceis de agradar. Pense em Jack Welch, ex-CEO da GE, ou Carlos Ghosn, CEO do grupo Renault-Nissan. Eles são conhecidos por serem difíceis de agradar, o que significa que a maioria das pessoas trabalhará muito mais para corresponder as suas expec- tativas. Quando você distribui vivas para um funcionário que simplesmente apareceu para trabalhar, você manda um recado de que isso é o suficiente. Com frequência, o que as pessoas realmente preci- sam é de uma gentil reprimenda. É como bons profes- sores fazem: diga às pessoas que elas sempre podem fazer melhor. Como um consultor empresarial diz: “As pessoas querem saber como estão indo. Não enrole. Dê logo a elas a porcaria dos dados”.102 O elogio motiva! 08 rob0610_cap08 BR.indd 253 12/13/10 4:23 PMM08 J08 J08 A08 S08 O08 N08 D08 J09 F09 M09 A09 Porcentagem dos funcionários que está prosperando no trabalho 54 43 52 51 50 49 48 51,3% 51,6% 51,9% 51,3% 51,7% 50,6% 51,0% 51,8% 53,3% 50,8% 50,6% 49,1% 48,7% 49,8% 49,1% 51,1% Prosperando no trabalho ENqUETE COMPORTAMENTAL Fonte: Baseado em “Employee Concerns”, Workforce Management, 16 fev. 2009, p. 17 07 rob0610_cap07 BR.indd 199 12/13/10 4:32 PM 200 Comportamento organizacional Para entender a Teoria X e a Teoria Y mais profundamente, pense na hierarquia de Maslow. A Teoria Y supõe que as necessidades de nível superior são as dominantes. McGregor, pessoalmente, acreditava que as premissas da Teoria Y eram mais válidas que as da Teoria X. Assim, propôs que ideias como a do processo decisório participativo, das tarefas desafiadoras e de muita responsabilidade, bem como um bom relacionamento de grupo, maximizariam a motivação dos funcionários. Infelizmente, não existem evidências de que as premissas de nenhuma das teorias sejam válidas, nem de que a aceitação das premissas da Teoria Y e a alteração do comportamento individual de acordo com ela resultem em um funcionário mais motivado. As teorias de comportamento organizacional precisam ter respaldo empírico antes de podermos aceitá- -las. Tal suporte empírico seria necessário à Teoria X e Teoria Y da mesma maneira que acontece com as teorias de hierarquia de necessidades. Teoria dos dois fatores A teoriadosdoisfatores (algumas vezes também chamada teoria da higiene-motiva- ção) foi proposta pelo psicólogo Frederick Herzberg.12 Com a crença de que a relação de uma pessoa com seu trabalho é básica e de que essa atitude pode determinar seu sucesso ou fracasso, Herzberg investigou a seguinte questão: “O que as pessoas desejam do traba- lho?”. Ele pediu às pessoas que descrevessem, em detalhes, situações em que se sentiram excepcionalmente bem ou mal a respeito de seu trabalho. As respostas foram, então, tabu- ladas e categorizadas. Teoria dos dois fatores Teoria que estipula que fatores intrínsecos estão associados à satisfação com trabalho, enquanto fatores extrínsecos estão relacionados com a insatisfação. Figura 7.2 Comparação entre satisfação e insatisfação Fonte: Reproduzido com permissão da Harvard Business Review. “Comparison of Satisfiers and Dissatisfiers”. Uma ilustração de One more time: how do you motivate employees?, de Frederick Herzberg, jan. 2003. Copyright © by Harvard Business School Publishing Company. Todos os direitos reservados. Fatores característicos de 1.844 eventos no trabalho que conduziram à extrema insatisfação Fatores característicos de 1.753 eventos no trabalho que conduziram à extrema satisfação Realização Reconhecimento O trabalho em si Responsabilidade Progresso CrescimentoPolíticas e administração da empresa Supervisão Relacionamento com o supervisor Condições de trabalho Salário Relacionamento com os colegas Vida pessoal Relacionamento com subordinados Status Segurança Frequência de porcentagem Todos os fatores que contribuem para a insatisfação no trabalho Todos os fatores que contribuem para a satisfação no trabalho Higiênicos Motivacionais Comparação e porcentagem 07 rob0610_cap07 BR.indd 200 12/13/10 4:32 PM Capítulo 7 Conceitos básicos de motivação 201 Herzberg concluiu que aquelas referentes aos momentos em que as pessoas se senti- ram bem com o trabalho eram significativamente diferentes das relacionadas aos momen- tos em que se sentiram mal. Como se vê na Figura 7.2, fatores intrínsecos, como o pro- gresso, o reconhecimento, a responsabilidade e a realização, parecem estar relacionados à satisfação no trabalho. Os entrevistados que se sentiam bem no trabalho tendiam a atribuir esses fatores a si mesmos. Por sua vez, os insatisfeitos tendiam a indicar fatores extrínsecos, tais como a supervisão, a remuneração, as políticas da empresa e as condições de trabalho. Segundo Herzberg, os dados sugerem que o oposto da satisfação não é a insatisfação, como normalmente se acreditava. A eliminação das características de insatisfação de um trabalho não necessariamente o torna satisfatório. Como vemos na Figura 7.3, Herzberg propôs que suas descobertas indicavam a existência de um duplo continuum: o oposto de ‘satisfação’ é ‘não satisfação’, e o oposto de ‘insatisfação’ é ‘não insatisfação’. De acordo com o psicólogo, os fatores que levam à satisfação no trabalho são dife- rentes daqueles que levam à insatisfação. Portanto, os gestores que procuram eliminar os fatores que geram insatisfação podem trazer paz, mas não necessariamente a motivação aos funcionários. Eles apaziguam os funcionários, mas não os motivam. Assim, as condições em torno do trabalho, como a qualidade da supervisão, a remuneração, as políticas da empresa, as condições físicas de trabalho, o relacionamento com os outros e a segurança no emprego foram caracterizadas por Herzberg como fatoreshigiênicos. Quando são adequados, as pessoas não se sentem insatisfeitas, mas também não estão satisfeitas. Se qui- sermos motivá-las para o trabalho, Herzberg sugere enfatizar os fatores associados com o trabalho em si ou com seus resultados diretos, como chances de promoção, oportunidades de crescimento pessoal, reconhecimento, responsabilidade e realização. Essas são as carac- terísticas consideradas intrinsecamente recompensadoras. A teoria dos dois fatores não recebeu respaldo na literatura, além de ainda ter quem a conteste.13 As críticas incluem os seguintes pontos: 1. O procedimento utilizado por Herzberg é limitado por sua metodologia. Quando as coisas vão bem, as pessoas tendem a tomar o crédito para si. Caso contrário, buscam culpar o ambiente externo pelo fracasso. 2. A confiabilidade da metodologia de Herzberg é questionável. Os pesquisadores precisam fazer interpretações e, dessa forma, podem contaminar os resultados in- terpretando uma resposta de determinada maneira, enquanto outra resposta se- melhante é interpretada de modo diferente. 3. Não se utilizou uma medida geral para a satisfação. Uma pessoa pode não gostar de alguns aspectos de seu trabalho, mas ainda assim considerá-lo aceitável de ma- neira geral. 4. Herzberg pressupõe uma relação entre satisfação e produtividade, mas a metodo- logia de pesquisa que usou enfoca apenas a satisfação, não a produtividade. Para tornar essa pesquisa relevante, é preciso considerar um forte relacionamento entre satisfação e produtividade. Fatores higiênicos Fatores — como políticas da empresa, supervisão e remuneração — que, quando adequados, tranquilizam os trabalhadores, ou seja as pessoas não ficarão insatisfeitas. Figura 7.3 Comparação entre as visões de satisfação e insatisfação Satisfação Visão tradicional Visão de Herzberg Insatisfação Satisfação Não satisfação Não insatisfação Insatisfação Fatores motivacionais Fatores higiênicos 07 rob0610_cap07 BR.indd 201 12/13/10 4:32 PM 202 Comportamento organizacional Apesar de todas as críticas, a teoria de Herzberg foi amplamente divulgada e poucos são os gestores que não conhecem suas recomendações. Teoria de necessidades de McClelland Você tem um saquinho de feijão para jogar e cinco alvos diante de si. Cada um deles fica progressivamente mais distante e, em consequência, mais difícil de acertar. O alvo A é facílimo; fica praticamente ao alcance da mão. Se você acertá-lo, ganhará dois reais. O alvo B está um pouco mais distante, mas 80 por cento daqueles que tentam conseguem acertá- -lo. Ele paga quatro reais. O alvo C paga oito reais e 50 por cento das pessoas conseguem atingi-lo. Poucos conseguem acertar o alvo D, que paga 16 reais. Finalmente, o alvo E paga 32 reais, mas é praticamente impossível de ser atingido. Qual deles você tentará alcançar? Se você escolheu o C, provavelmente é um realizador, ou seja, alguém que costuma alcançar o que quer. Por quê? Leia a seguir. A teoriadenecessidadesdeMcClelland foidesenvolvida por David McClelland e sua equipe.14 Ela enfoca três necessidades, conforme as definições a seguir: • Necessidadederealização (nAch): busca da excelência, de realização com re- lação a determinados padrões, ímpeto para alcançar sucesso. • Necessidadedepoder (nPow): necessidade de fazer que os outros se compor- tem de um modo que não o fariam naturalmente. • Necessidadedeafiliação(nAff): desejo de relacionamentos interpessoais próxi- mos e amigáveis. Entre as três necessidades, McClelland e pesquisadores que o sucederam focaram mais atenção naquela que chamamos nAch. Os grandes realizadores têm melhor desempenho quando percebem uma probabilidade de sucesso em 0,5 — ou seja, 50 por cento de chance de sucesso. Eles não gostam de situações muito fora de controle, pois não se sentem satis- feitos com uma realização cujo sucesso se deu por acaso. Da mesma forma, situações sob muito controle (com alta probabilidade de sucesso) também não são de seu agrado, pois não trazem desafios. Eles preferem estabelecer metas que os desafiem. Com base em uma grande quantidade de pesquisas, é possível fazer previsões razoa- velmente bem fundamentadas sobre o relacionamento entre a necessidade de realização e o desempenho no trabalho. Embora menos estudos tenham sido dedicados às necessidades de poder e de afiliação, existem alguns achados consistentes relacionados a essas dimensões. Primeiro, os indivíduos sentem-se altamente motivados quando o trabalho tem bastante responsabilidade, feedback e um grau médio de riscos. Os grandes realizadores, por exemplo, são muito bem-sucedidos em atividades empreendedoras, como gerenciar o próprio negócio ou uma unidade de negócios de uma grande organização.15 Segundo, uma grande necessidade de realização não faz de alguém, necessariamente, um bom gestor, em especial nas grandes or- ganizações. Essas pessoas estão mais interessadas em se sair melhor sob o ponto de vista pessoal, e não em convencer os outros a melhorar o desempenho. Vendedores com alto grau de rea- Teoria de necessidades de McClelland Teoria que afirma que a realização, o poder e a afiliação são três necessidades importantes que ajudam a explicar a motivação. Necessidade de realização (nAch) Busca da excelência, de se realizar com relação a determinados padrões, de lutar pelo sucesso. Necessidade de poder (nPow) Necessidade de fazer que os outros se comportem de um modo que não o fariam naturalmente. Necessidade de afiliação (nAff) Desejo de relacionamentos interpessoais próximos e amigáveis. Pedro Janot, presidente da empresa aérea Azul, pode ser considerado uma pessoa focada na realização. Convidado por David Neeleman antes mesmo da fundação da companhia para assumir o cargo, Janot, ex-diretor do Pão de Açúcar, aceitou o desafio de pilotar a novata empresa aérea. Sob sua direção, em menos de um ano de existência, a Azul conseguiu conquistar cerca de 4 por cento do mercado doméstico e planeja voar ainda mais alto, prevendo a abertura de capital para 2011 e uma frota de 78 aeronaves Embraer até 2016. G ia nf ra nc o B et in g 07 rob0610_cap07 BR.indd 202 12/13/10 4:32 PM Capítulo 7 Conceitos básicos de motivação 203 lização não são necessariamente bons gerentes de vendas, e os bons gerentes gerais de grandes empresas não costumam ter uma alta necessidade de realização.16 Terceiro, as necessidades de poder e de afiliação costumam estar intimamente ligadas ao sucesso gerencial. Os melhores gestores têm alta necessidade de poder e baixa necessidade de afiliação.17 De fato, uma grande motivação pelo poder pode ser considerada um requisito para a eficácia administrativa.18 Como você pode ter concluído, das teorias clássicas de motivação, a de McClelland foi a que recebeu mais suporte. Infelizmente, é a que tem menos resultados práticos em relação às outras. O fato de McClelland ter demonstrado que os três níveis são subconscientes — o que significa que podemos, sem saber, ter alto grau dessas necessidades — fez que sua mensuração não fosse tão facilmente executável. Na abordagem mais comum, um especia- lista treinado mostra figuras a os presentes, pede que eles contem uma história sobre cada uma delas e então dá pontos a suas respostas conforme a teoria das três necessidades. No entanto, por ser um processo caro e que demanda muito tempo, poucas organizações têm se mostrado propensas a investir tempo e recursos na utilização do conceito de McClelland. Teorias contemporâneas de motivação As teorias apresentadas, apesar de muito conhecidas, infelizmente não resistiram a uma análise mais detalhada ou perderam sua aceitação. Em comparação, existe uma série de teorias contemporâneas que possuem uma coisa em comum: cada uma tem um razoável grau de validação empírica. Isso não significa que as teorias de que vamos falar agora estejam inquestionavelmente corretas. Nós as chamamos ‘teorias contemporâneas’ porque representam o que de mais avançado existe atualmente para explicar a motivação dos trabalhadores. Teoria da avaliação cognitiva “É estranho”, diz Márcia. “Comecei a trabalhar em uma ONG que recolhia animais abandonados como voluntária. Eu trabalhava 15 horas por semana ajudando as pessoas a adotar um bicho de estimação. E adorava vir trabalhar. Então, há três meses, eles me contrataram em período integral, pagando 20 reais por hora. Faço a mesma coisa que fazia antes. Mas não estou achando mais tão divertido.” A reação de Márcia parece um contrassenso? Há uma explicação para ela. É a cha- mada teoriadaavaliaçãocognitiva, que sustenta que a introdução de recompensas externas, como pagamento, para trabalhos que eram anteriormente gratificantes apenas por seu conteúdo, tendem a reduzir a motivação intrínseca para realizá-los.19 A teoria da avaliação cognitiva defende que as recompensas extrínsecas reduzem o interesse intrín- seco em uma tarefa se elas foram vistas como forma de controle da organização sobre o comportamento dos trabalhadores. Quando alguém é pago por um trabalho, tem a impressão de que aquilo é menos uma coisa que ele quer fazer e mais uma coisa que ele tem de fazer. A teoria da avaliação cognitiva baseia-se na teoriadaautodeterminação.Esta última sustenta que as pessoas, além de serem guiadas por uma necessidade de autonomia (ou autodeterminação) e, consequentemente, determinarem o próprio comportamento, também buscam maneiras de adquirir competência e relacionamentos positivos com os outros. Um grande número de estudos tem sustentado ambas as teorias.20 Como veremos, as principais implicações delas estão relacionadas às recompensas no trabalho. Quando as organizações utilizam recompensas extrínsecas, como prêmios por um desempenho supe- rior, os funcionários podem deixar de sentir que estão fazendo um bom trabalho por causa de seu desejo intrínseco de se superar, mas porque é isso o que a organização quer deles. A eliminação da recompensa extrínseca pode substituir a explicação externa do motivo que alguém tem para realizar determinada tarefa. Se você lê um romance por semana porque seu professor de literatura mandou, atribui o fato de estar lendo a uma causa externa. Con- tudo, se você, depois de encerrado o curso, continuar a ler um livro a cada semana, estará naturalmente inclinado a dizer a si mesmo que deve gostar de romances, já que continua a ler um livro por semana. Teoria da avaliação cognitiva Versão da teoria da autodeterminação que afirma que destinar recompensas externas a comportamentos que já foram recompensados intrinsecamente tende a diminuir o nível geral de motivação caso elas sejam vistas como controle. Teoria da autodeterminação Teoria de motivação que lida com os efeitos benéficos da motivação intrínseca e com os efeitos nocivos da motivação extrínseca. 07 rob0610_cap07 BR.indd 203 12/13/10 4:32 PM 204 Comportamento organizacional Estudos recentes que examinaram como as recompensas extrínsecasaumentaram a motivação para certas tarefas criativas sugerem que talvez precisemos colocar as implica- ções da teoria da avaliação cognitiva sob um contexto mais amplo.22 Estabelecer objetivos é mais eficiente para aumentar a motivação, por exemplo, quando há recompensas para alcançá-los. Os autores originais da teoria da avaliação cognitiva admitem que recom- pensas extrínsecas, como elogios e feedback sobre a competência de alguém, podem au- mentar até mesmo a motivação intrínseca sob determinadas circunstâncias. Um exemplo disso é a motivação das bandas de rock ao ouvir o público pedir ‘Bis’, que pode ser muito mais importante e recompensador do que uma quantia para que eles o façam. Prazos e alguns padrões específicos de trabalho também, caso as pessoas sintam que estão no con- trole do próprio comportamento.23 Isso está de acordo com o tema central da teoria da avaliação cognitiva: as recompensas e o prazos diminuem a motivação quando são vistos como coercivos e como uma forma de controle imposto pela organização. O que a teoria da avaliação cognitiva sugere com relação às recompensas? Considere duas situações. Se uma representante de vendas sênior gosta de vender e fechar negócios, a comissão é um indicador de que ela está realizando essa tarefa muito bem. A recompensa aumentará seu sentido de competência ao lhe fornecer um feedback que pode vir a aumentar sua motivação intrínseca. Por sua vez, se uma programadora de computadores valoriza a tarefa de escrever códigos por gostar de resolver problemas, uma recompensa oferecida por trabalhar dentro de um padrão imposto externamente, com o qual ela não concorda, pode parecer coercivo, e sua motivação intrínseca será afetada. Ela pode ficar menos interessada na tarefa e reduzir seus esforços. Algumas pessoas acreditam que é nas situações mais difíceis que os melhores sentimentos hu- manos emergem. A motivação dos voluntários que se solidarizam e se mobilizam para ajudar pessoas em zonas de catástrofe é um exemplo desses belos sentimentos. Abastecidos por fatores intrínsecos, es- ses indivíduos sacrificam-se, realizando grandes esfor- ços e doando seu tempo, trabalho e, em muitos ca- sos, recursos financeiros para tentar salvar vidas e dar esperança às pessoas que sofrem com calamidades e desastres naturais. Evidentemente, há soldados, bombeiros, médicos e funcionários que recebem salários para trabalhar nessas ocasiões. Entretanto, mesmo para muitas dessas pes- soas, que também possuem razões extrínsecas para se sentirem motivadas, o propósito de seu trabalho torna- -se muito maior do que a simples recompensa financei- ra. Os voluntários, porém, não esperam receber nada em troca, agindo apenas por razões pessoais. As enchentes no Estado de Santa Catarina, no final de 2008 e início de 2009, que causaram a morte de mais de cem pessoas e deixaram milhares de desabri- gados, são um exemplo de catástrofe que incentiva a mobilização popular e o trabalho voluntário. Para aju- dar as vítimas da calamidade, diversas pessoas em todo o Brasil realizaram ações para arrecadar fundos, roupas, água e alimentos, bem como outros produtos. Além da arrecadação, outros indivíduos rumaram para os locais atingidos para trabalhar no socorro à população local. Como já foi dito, os fatores intrínsecos são a principal fonte de motivação para essas pessoas, mas não as úni- cas. A fixação de metas desafiadoras para arrecadação, a distribuição de materiais e o atendimento às vítimas também servem como elementos estimulantes para os voluntários. Em catástrofes ainda maiores, a mobilização de vo- luntários teve participação muito importante no socorro às vítimas e reconstrução dos locais atingidos, como no tsunami que atingiu a Ásia em dezembro de 2004 e no terremoto que assolou o Haiti em janeiro de 2010. Esses casos servem para mostrar o poder motivador de nossos sentimentos e valores, que constituem fatores intrínse- cos, e da fixação de metas arrojadas, que servem para elevar o empenho e a dedicação dos voluntários nesses momentos tão difíceis em que todo e qualquer apoio é muito importante.21 A motivação dos voluntários COMPORTAMENTO ORGANIZACIONAL NA MÍDIA 07 rob0610_cap07 BR.indd 204 12/13/10 4:32 PM Capítulo 7 Conceitos básicos de motivação 205 Um desenvolvimento recente da teoria da avaliação cognitiva é a autoconcor dância,que considera o grau em que as razões das pessoas para perseguir objetivos são coerentes com seus interesses e valores essenciais. Se os indivíduos perseguem ob- jetivos por causa de um interesse intrínseco, provavelmente tenderão a atingi-los e se contentarão mesmo que não o consigam. Por quê? Porque o processo de lutar por eles é divertido. Além disso, as pessoas que perseguem objetivos por razões extrínsecas (dinheiro, status ou outros benefícios) têm menor probabilidade de alcançá-los e ficam menos felizes mesmo quando os atingem. Por quê? Porque as metas são menos signi- ficativas para elas.24 As pesquisas em comportamento organizacional sugerem que as pessoas que perseguem objetivos profissionais por razões intrínsecas são mais satisfeitas com seu trabalho, sentem que se adaptam melhor às suas organizações e podem apre- sentar melhores desempenhos.25 O que tudo isso significa? Significa que você deve escolher seu trabalho por razões que não sejam extrínsecas. Para as organizações, significa que os gestores precisam pro- porcionar incentivos intrínsecos além dos extrínsecos. Eles precisam fazer que o trabalho seja interessante, reconhecer e apoiar o crescimento e o desenvolvimento dos funcionários. Aqueles que sentem que o que fazem está dentro de seu controle e é resultado de livre es- colha tenderão a ser mais motivados pelo trabalho que executam e mais comprometidos com seus empregadores.26 Autoconcordância Grau em que as razões das pessoas para perseguir objetivos são coerentes com seus interesses e valores essenciais. Um estudo recente com gestores da América do Norte, da Ásia e da América Latina encontrou diferenças interessantes em sua percepção das motivações dos funcionários. Os gestores norte-ameri- canos acreditam que seus funcionários são motivados por fatores extrínsecos (remuneração, por exemplo) mais do que por fatores intrínsecos (trabalhos interes- santes, por exemplo). Os asiáticos creem que seus fun- cionários são motivados tanto por fatores extrínsecos quanto intrínsecos, ao passo que os latino-americanos veem nos fatores intrínsecos a motivação de seus subordinados. É ainda mais interessante notar que essas diferen- ças afetaram as avaliações de desempenho dos funcio- nários. Como previsto, os gestores asiáticos focaram ambos os tipos de motivação ao realizar essa avaliação, e os latino-americanos, fatores intrínsecos. Os gesto- res norte-americanos, apesar de acreditarem que seus funcionários eram motivados basicamente por fatores extrínsecos, concentraram-se, no momento da avalia- ção, naqueles intrínsecos. Qual é a razão desse para- doxo? Uma explicação é a de que os norte-americanos valorizam a singularidade; assim, qualquer exceção à regra — como ser visto como uma pessoa que tem uma motivação intrínseca excepcionalmente alta — é recompensada. A razão pela qual os gestores latino-americanos real- çam as motivações intrínsecas ao avaliar seus funcioná- rios pode estar relacionada com características cultu- rais latinas. Gestores e subordinados latino-americanos tendem a ser mais cordiais e afáveis em seus relaciona- mentos no local de trabalho. Dessa forma, demonstram com mais facilidade os seus sentimentos e estão mais atentos aos sentimentos dos outros. Em consequência, os administradores latino-americanos podem reconhe- cer as motivações internas mais facilmente. Além disso, a importância dada pelos gestores e funcionários brasi- leiros às relações interpessoais também está relaciona- da com a percepção das motivações intrínsecas e com a avaliação delas por parte dos superiores. Então, podemosconcluir que, do ponto de vista do empregado, a cultura de seu supervisor pode ter um papel importante na maneira como ele é motivado e, posteriormente, avaliado. A motivação é dependente da cultura? COMPORTAMENTO ORGANIZACIONAL INTERNACIONAL Fonte: Baseado em S. E. DeVoe e S. S. Iyengar, “Managers’ Theories of Subordinates: A Cross-Cultural Examination of Manager Perceptions of Motivation and Appraisal of Performance”, Organizational Behavior and Human Decision Processes, jan. 2004, p. 47-61. 07 rob0610_cap07 BR.indd 205 12/13/10 4:32 PM 206 Comportamento organizacional Teoria do estabelecimento de objetivos É comum ouvir treinadores esportivos dizerem frases semelhantes a esta: “Cada um de vocês está apto fisicamente. Agora, saiam e deem o melhor de si. Ninguém pode pedir mais do que isto a vocês”. Você mesmo deve ter ouvido esta frase muitas vezes: ‘Apenas dê o melhor de si. É tudo o que podemos lhe pedir’. Mas o que significa exatamente ‘o melhor de si’? Conseguimos saber quando atingimos um objetivo tão vago? Os competidores de natação ou salto em distância teriam feito tempos melhores se seu técnico estabelecesse uma meta específica? Você teria tido melhor aproveitamento em suas aulas de matemática no colégio se seus pais dissessem “tente sempre tirar nota acima de 8,5” em vez de dizer simplesmente “faça o melhor possível”? A pesquisa sobre a teoriadoestabelecimentodeobjetivos estuda esses assuntos, e seus resultados, como veremos, são impressionantes no tocante aos efeitos que a especificação do objetivo, o desafio e o feedback têm sobre o desempenho. No final da década de 1960, Edwin Locke sugeriu que a intenção de lutar por um ob- jetivo é a maior fonte de motivação no trabalho.27 Ou seja, um objetivo diz ao funcionário o que precisa ser feito e quanto esforço terá de ser despendido para alcançá-lo.28 As evidên- cias confirmam a importância dos objetivos. Mais ainda, podemos afirmar que objetivos es- pecíficos melhoram o desempenho; que objetivos difíceis, quando aceitos, melhoram mais o desempenho do que aqueles mais fáceis e que o feedback conduz a melhores desempenhos.29 Objetivos específicos produzem resultados melhores que a meta genérica “faça o me- lhor que puder”. Por quê? A especificidade do objetivo em si funciona como um estímulo interno. Por exemplo, quando um caminhoneiro se compromete a fazer três viagens por semana entre Natal, no Estado do Rio Grande do Norte, e Porto Alegre, no Estado do Rio Grande do Sul, essa decisão lhe dá uma meta específica para tentar atingir. Podemos dizer que, sob as mesmas condições, o caminhoneiro com objetivo específico terá um desempe- nho superior ao de seus colegas que trabalham sem metas determinadas ou que apenas estejam tentando ‘fazer o melhor possível’. Se fatores como a capacitação e a aceitação do objetivo forem mantidos constantes, também podemos afirmar que, quanto mais difícil o objetivo, mais alto o nível do desempe- nho. Entretanto, é lógico pressupor que os objetivos mais fáceis serão provavelmente aceitos dessa mesma forma. Porém, uma vez que um funcionário se compromete com um objetivo difícil, espera-se que ele despenda um alto nível de esforços até atingi-lo. Mas por que as pessoas são motivadas por objetivos difíceis?30 Primeiro, porque as me- tas difíceis prendem nossa atenção e nos ajudam a focar. Segundo, porque as metas difíceis nos dão energia, pois temos de trabalhar mais para atingi-las. Você estuda com a mesma intensidade para uma prova fácil e para uma prova difícil? Provavelmente não. Terceiro, porque quando as metas são difíceis, as pessoas persistem na tentativa de atingi-las. Por fim, os objetivos difíceis nos levam a descobrir estratégias que nos ajudam a desempenhar o trabalho ou a tarefa de maneira mais eficaz. Se temos de lutar para encontrar uma forma de resolvê-los, sempre pensamos no melhor modo de solucionar o problema. As pessoas trabalham melhor quando recebem feedback com relação a seu progres- so, pois isso as ajuda a perceber as discrepâncias entre o que fizeram e o que precisava ser realizado para alcançar o objetivo. Ou seja, o feedback funciona como um guia para o comportamento. Mas nem todos os tipos de feedback têm a mesma potência. O feedback autogerenciado — quando o funcionário é capaz de monitorar o próprio progresso — tem se mostrado um motivador mais poderoso do que o feedback externo.31 Se os funcionários tiverem a oportunidade de participar da fixação dos próprios objetivos, eles se esforçarão mais? As evidências são controversas.32 Em alguns casos, o estabelecimento participativo de objetivos proporciona um desempenho superior, ao passo que, em outros, os funcionários desempenham melhor suas tarefas quando as metas são estabelecidas por seus chefes. Mas a principal vantagem da participação parece ser a crescente aceitação do objetivo como uma meta desejável a se atingir.33 O comprometimento é importante. Se a participação não for utilizada, então o indivíduo que estabelecer o objetivo necessita explicar claramente seu propósito e importância.34 Teoria do estabelecimento de objetivos Teoria que sustenta que objetivos específicos difíceis, com feedback, conduzem a melhores desempenhos. 07 rob0610_cap07 BR.indd 206 12/13/10 4:32 PM Capítulo 7 Conceitos básicos de motivação 207 Existem contingências na teoria do estabelecimento de objetivos ou podemos tomar como realidade universal que metas específicas e difíceis sempre conduzem a desempenhos superiores? Além do feedback, três outros fatores influenciam a relação objetivo-desempe- nho: o comprometimento com o objetivo, as características da tarefa e a cultura nacional. A teoria do estabelecimento de objetivos pressupõe que o indivíduo está comprometido com o objetivo, ou seja, que ele está determinado a não abandoná-lo. De uma perspectiva comportamental, isso significa que um indivíduo (1) acredita que pode alcançar o objetivo e (2) quer alcançá-lo.35 O compromisso com o objetivo tem maior tendência de ocorrer quando este é público, quando os indivíduos têm um locus de controle interno e quando os objetivos são autoestabelecidos em vez de atribuídos.36 A teoria do estabelecimento de objetivos não funciona igualmente bem para todas as tarefas. As evidências sugerem que os objetivos pare- cem ter um efeito mais substancial no desempenho quando as tarefas são simples (e não com- plexas), conhecidas (e não novas) e independentes (e não interdependentes).37 Para as tarefas interdependentes, os objetivos de um grupo são preferíveis. Finalmente, o ato de estabelecer objetivos específicos, difíceis e individuais pode ter diferentes efeitos em diversas culturas. A maior parte dos estudos de fixação de objetivos foi feita em países como Estados Unidos e Canadá, onde as conquistas e o desempenho indi- viduais são altamente valorizados. Até o presente momento, as pesquisas não mostraram que os objetivos estabelecidos por grupos são mais eficientes em culturas coletivistas do que naquelas individualistas. Há evidências de que em culturas coletivistas e com grande distân- cia de poder, os objetivos de alcance moderadamente difícil podem ser mais motivadores do que os difíceis.38 Assim, os objetivos designados parecem criar mais comprometimento em culturas de grande distância de poder do que nas de baixa distância.39 É necessário realizar muito mais pesquisas para avaliar como a definição e estabelecimento de objetivos podem diferir entre as culturas. Apesar de o estabelecimento de objetivos ter resultados positivos, alguns objetivos po- dem ser eficientes demais.40 Quando aprender algo é importante, os objetivos ligados ao de- sempenho minam a adaptação e a criatividade, pois algumas pessoas ficam focadas demais nos resultados e ignoram as condições de mudança. Nesse caso, o objetivo de aprender e criar soluções alternativas será mais eficiente do que um relacionado ao desempenho. Alguns autores também argumentam que os objetivospodem levar os funcionários a se tornarem excessivamente focados em um único padrão em detrimento de outros. Considere o foco es- treito que muitas empresas têm em preços de ações no curto prazo. A grande atenção nesse único padrão de desempenho pode ter levado algumas organizações a ignorar o sucesso de longo prazo, e mesmo a se comportar de maneira antiética, como fraudar a contabilidade ou realizar investimentos de risco em excesso. É claro que é possível para as organizações estabelecer objetivos de desempenho éticos. Apesar das diferenças de opinião, a maioria dos pesquisadores concorda que os objetivos são poderosos para moldar o comportamento. No entanto, os gerentes devem se assegurar de que estes estejam de acordo com os objetivos gerais da empresa. As pesquisas demonstraram o poder motivador da teoria do estabeleci- Após conversar com acionistas da Nestlé na Suíça, o presidente da empresa no Brasil, Ivan Zurita, foi obrigado a elevar a meta de crescimento de vendas da empresa de seis por cento para dez por cento ao ano a partir de 2010. Essa elevação, no entanto, não o desanimou, incentivando-o a superar seus limites e a conduzir sua equipe a resultados superiores. “Não há dúvida de que a nova meta de crescimento para o Brasil é bastante ousada, mas está longe de ser inatingível. Vamos trabalhar dobrado”, afirmou o executivo. Desenvolvendo novos produtos e investindo em outros segmentos, como o de Leite Longa Vida, difícil será impedir que a organização atinja seus objetivos. Sé rg io L im a/ Fo lh ap re ss 07 rob0610_cap07 BR.indd 207 12/13/10 4:32 PM 208 Comportamento organizacional mento de objetivos em mais de cem tarefas envolvendo mais de 40 mil participantes em va- riados tipos de atividades. Estabelecer metas específicas e desafiadoras para os funcionários é a melhor coisa que os gestores podem fazer para aprimorar seu desempenho. Implementação do estabelecimento de objetivos A teoria do estabelecimento de objetivos tem um embasamento impressionante de pesquisas empíricas. Mas, como gestor, como você poderia operacionalizá-la? Muitas vezes isso é deixado nas mãos de um gestor ou líder. Alguns gestores estabelecem claramente metas agressivas de desempenho. Alguns CEOs, como Edson Musa, da Caloi, e Ivan Zurita, da Nestlé, por exemplo, são famosos pelas metas exigentes que estabelecem. O problema de deixar a decisão com o gestor in- dividual é que, em muitos casos, ele não fixa metas. Uma pesquisa recente revelou que, ao serem questionados se seus trabalhos tinham metas claramente definidas, apenas uma minoria de funcionários respondeu de maneira afirmativa.41 Uma forma mais sistemática de utilizar a fixação de objetivos é por meio de um pro- grama de administração por objetivos. A administraçãoporobjetivos (APO ou MBO em inglês, sigla para management by objectives)enfatiza que os objetivos devem ser tangíveis, ve- rificáveis e mensuráveis, além de serem estabelecidos de maneira participativa. Conforme apresentado na Figura 7.4, os objetivos gerais da organização são traduzidos em objetivos específicos para cada nível subsequente (ou seja, de divisão, departamental ou individual) na organização. Mas o fato de os gerentes de unidades de menor escalão participarem em conjunto do estabelecimento dos próprios objetivos faz que a APO funcione tanto ‘de baixo para cima’ quanto ‘de cima para baixo’. O resultado é uma hierarquia que vincula objetivos em determinado nível àqueles no próximo nível. E, para o funcionário individual, a APO proporciona objetivos de desempenho pessoal específicos. Quatro ingredientes são comuns aos programas de APO: especificação dos objetivos, participação na tomada de decisões (incluindo participação no estabelecimento de me- tas ou objetivos), um horizonte temporal explícito e feedback de desempenho.42 Muitos dos ele- mentos dos programas de APO coincidem com as propostas da teoria do estabelecimento de objetivos. Por exemplo, o tempo claramente definido para cumprir os objetivos coincide com a ênfase existente na teoria do estabelecimento de objetivos quanto à especificidade da meta. Da mesma forma, já notamos que o feedback sobre o progresso feito para alcançar um objetivo é um elemento importante da teoria do estabelecimento de objetivos. A única área de uma possível discordância entre a APO e a teoria do estabelecimento de objetivos refere-se à questão da participação: a APO defende-a fortemente, ao passo que a teoria do estabelecimento de objetivos demonstra que normalmente os gestores, ao fixarem as metas, são eficazes da mesma forma. Administração por objetivos (APO) Programa que engloba objetivos específicos, decisão participativa, por um período explícito, com feedback do progresso do desempenho. Figura 7.4 Objetivos em cascata Objetivos organizacionais gerais Objetivos da divisão Objetivos do departamento Objetivos individuais Empresa XYZ Divisão de produtos industriaisDivisão de produtos ao consumidor Produção Vendas Marketing Pesquisa DesenvolvimentoAtendimento ao cliente 07 rob0610_cap07 BR.indd 208 12/13/10 4:33 PM Capítulo 7 Conceitos básicos de motivação 209 Programas de APO são encontrados em muitas empresas, planos de saúde, instituições educacionais e governamentais e em organizações sem fins lucrativos.43 Sua popularidade não significa que ela sempre funcione. Existem vários casos documentados em que a APO foi implementada, mas não satisfez as expectativas dos executivos.44 Os culpados costumam ser fatores como as expectativas não realistas a respeito dos resultados, falta de compromis- so da gerência executiva e incapacidade ou falta de vontade da administração em conceder recompensas baseadas em cumprimento de metas. As falhas também podem ocorrer por incompatibilidade cultural. Como exemplo, temos a empresa japonesa Fujitsu, que recen- temente jogou fora um programa que tinha o formato de APO porque a administração achava que ela não se adequava bem à cultura nipônica, que enfatiza a minimização de riscos e os objetivos de longo prazo. Teoria da autoeficácia A autoeficácia (conceito-chave da teoria social cognitiva) se refere à convicção individual de que se é capaz de realizar determinada tarefa.45 Quanto maior a autoeficácia de alguém, maior sua confiança na possibilidade de realizar uma tarefa com sucesso. Assim, acredita-se que as pessoas com baixa autoeficácia apresentam maior probabilidade de diminuir seus esforços ou desistir completamente, ao passo que aquelas com elevada autoeficácia tentam vencer o desafio com maior ardor.46 Além disso, as pessoas com elevada autoeficácia pare- cem responder ao feedback negativo com mais determinação e motivação, ao passo que as que têm baixa autoeficácia tendem a perder seu empenho quando o recebem.47 Como os gestores podem ajudar seus funcionários a atingir altos níveis de autoeficácia? Combinando a teoria do estabelecimento de objetivos e a da autoeficácia. A teoria do estabelecimento de objetivos e a da autoeficácia não competem entre si, mas se complementam. Como mostra a Figura 7.5, quando um gestor estabelece objetivos difíceis para os empregados, isso faz que estes obtenham níveis mais altos de autoeficácia, ao mesmo tempo que estabelecem objetivos mais altos para o próprio desempenho. Por que isso acontece? As pesquisas mostram que estabelecer objetivos para as pessoas transmite confian- ça. Imagine, por exemplo, que seu chefe estabeleça um objetivo elevado para você e você fique sabendo que ele é mais elevado que aqueles estabelecidos para seus colegas. Como Autoeficácia Crença de um indivíduo de que pode desempenhar determinada tarefa. Figura 7.5 Efeitos conjuntos e autoeficácia no desempenho O indivíduo tem segurança de que o grau de desempenho seja atingido (autoeficácia) O indivíduo estabelece níveis pessoais mais altos para o próprio desempenho O administrador estipula metas difíceis e específicas para o trabalho ou tarefa Oindivíduo tem alto grau de desempenho para o trabalho ou tarefa Fonte: Basedo em E. A. Locke e G. P. Latham, “Building a Practically Useful Theory of Goal Setting and Task Motiva- tion: A 35-Year Odyssey”, American Psychologist, set. 2002, p. 705-717. 07 rob0610_cap07 BR.indd 209 12/13/10 4:33 PM 210 Comportamento organizacional você interpretaria isso? Desde que não sinta que estão implicando com você, provavelmente pensaria que seu chefe o considera capaz de ter um desempenho melhor que o dos outros. Isso então aciona um processo psicológico por meio do qual você fica mais seguro consigo mesmo (maior autoeficácia) e estabelece objetivos pessoais mais altos, fazendo que tenha um melhor desempenho tanto no ambiente de trabalho quanto fora dele. O pesquisador que desenvolveu essa teoria, Albert Bandura, argumenta que há quatro maneiras de se aumentar a autoeficácia:48 1. Mestria prática 2. Aprendizagem por observação 3. Persuasão verbal 4. Excitação emocional De acordo com Bandura, a fonte mais importante para aumentar a autoeficácia é o que ele chama mestria prática — ou seja, o ganho de experiência relevante com o desempe- nho da tarefa ou trabalho. Se você foi capaz de fazer bem um trabalho no passado, então estará mais confiante para fazê-lo no futuro. A segunda fonte é a aprendizagem por observação — ou seja, a observação de pessoas desem- penhando atividades sem consequências adversas pode gerar, no observador, a expectativa de que ele também é capaz de realizá-las. Se seu amigo perde peso, por exemplo, isso aumenta sua confiança de que o mesmo poderá ocorrer com você. A aprendizagem por observação é mais efetiva quando você se vê como alguém igual àquele a quem está observando. Assistir a César Cielo quebrar um recorde mundial de natação pode não aumentar sua confiança em se tornar um bom nadador, mas se você observar um colega de trabalho nadando bem em uma compe- tição da empresa, poderá sentir-se estimulado a treinar mais arduamente. A terceira fonte é a persuasão verbal: tornar-se mais confiante porque alguém o convence de que você tem as habili- dades necessárias para ser bem-sucedido. Os palestrantes motivacionais usam muito essa tática. Finalmente, Bandura argumenta que a excitação emocional também aumenta a autoefi- cácia. Ela conduz a um estado de energia que leva o indivíduo a terminar a tarefa. A pessoa fica ‘mais animada’ e tem melhor desempenho. Mas quando a tarefa for algo que exija uma perspectiva constante e despretensiosa (por exemplo, editar um manuscrito), a excitação emocional pode realmente prejudicar o desempenho. Quais são as implicações para o comportamento organizacional da teoria de auto- eficácia? Bem, é uma questão de aplicação das quatro fontes de autoeficácia no ambiente de trabalho. Os programas de treinamento frequentemente fazem uso da mestria prática ao fazer que as pessoas pratiquem e desenvolvam suas habilidades. Na verdade, uma das razões pelas quais o treinamento funciona é porque ele aumenta a autoeficácia.49 A melhor maneira de um gestor usar a persuasão verbal é por meio do efeito de pigma- leão ou efeito galateia. Como foi discutido no Capítulo 5, o efeito pigmaleão é uma forma de profecia autorrealizável em que acreditar que algo seja verdadeiro pode realmente torná-lo O treinamento de alguns grupamentos especializados da polícia mostra a importância de certos métodos para elevar a autoeficácia de seus membros. Um exemplo é o Batalhão de Operações Policiais Especiais da Polícia Militar do Rio de Janeiro, o Bope, tema do filme Tropa de Elite. Em função de um árduo treinamento, da observação de membros experientes em ação e de forte persuasão verbal por parte de seus superiores, os policiais sentem-se mais confiantes de que obterão sucesso ao realizar suas tarefas. V ito r Si lv a/ A g if/ Fo lh ap re ss 07 rob0610_cap07 BR.indd 210 12/13/10 4:33 PM Capítulo 7 Conceitos básicos de motivação 211 verdadeiro. No efeito pigmaleão, a autoeficácia é ampliada ao se comunicar ao professor ou supervisor de um indivíduo que ele tem grande capacidade. Para exemplificar, podemos citar estudos que foram feitos com professores que receberam a informação de que seus alunos tinham QIs muito altos (quando, na verdade, tinham vários graus de QI, alguns altos, alguns baixos e alguns na média). Segundo o efeito pigmaleão, os professores gastaram mais tempo com os alunos que julgavam inteligentes, dando-lhes tarefas mais desafiadoras e, ao mesmo tempo, esperando mais deles. Tudo isso levou à autoeficácia dos alunos e a melhores notas.50 Essa estratégia também foi usada para o ambiente de trabalho.51 O efeito galateia ocorre quando altas expectativas de desempenho são comunicadas diretamente ao empregado. Por exemplo, marinheiros que receberam de maneira convincente a mensagem de que não fi- cariam enjoados ao mar ficaram, na verdade, muito menos propensos a se sentirem assim.52 Observe que inteligência e personalidade não estão presentes na lista de Bandura. Muitos estudos mostram que elas (especialmente a conscienciosidade e a estabilidade emo- cional) podem melhorar a autoeficácia.53 Esses traços individuais estão tão fortemente liga- dos à autoeficácia (pessoas que são inteligentes, conscienciosas e emocionalmente estáveis são muito mais propensas a apresentar maior autoeficácia que aquelas que têm pontuação baixa nessas características) que alguns pesquisadores argumentariam que a última não existe.54 Isso significa que a autoeficácia pode simplesmente ser um subproduto em uma pessoa inteligente com personalidade segura. Embora Bandura discorde fortemente dessa conclusão, são necessários mais estudos a esse respeito. Teoria do reforço Uma contrapartida à teoria do estabelecimento de objetivos é a teoriadoreforço. A primeira é uma abordagem cognitiva, sugerindo que os propósitos de uma pessoa orien- tam suas ações. Já a teoria do reforço é uma abordagem behaviorista, que argumenta que o reforço condiciona o comportamento. Ambas estão em evidente desacordo sob o ponto de vista filosófico. Os teóricos do reforço veem o ambiente como causa do comportamento. Não devemos nos preocupar, dizem eles, com os eventos cognitivos internos; o que controla o comportamento são os reforços — qualquer consequência que, seguindo imediatamente uma resposta, aumente a probabilidade de que aquele comportamento se repita. A teoria do reforço ignora as condições internas do indivíduo e concentra-se apenas no que lhe acontece quando realiza uma ação qualquer. Como não leva em conta aquilo que dá origem ao comportamento, ela não é, rigorosamente falando, uma teoria sobre mo- tivação. Mas fornece poderosos meios para analisar aquilo que controla o comportamento e, por isso, é sempre considerada nas discussões sobre motivação.55 A teoria do condicionamento operante, provavelmente o componente mais relevante da teoria do reforço para a gestão, argumenta que as pessoas aprendem a se comportar de modo a conseguir algo que querem ou a evitar algo que não querem. Ao contrário do reflexivo ou não aprendido, o comportamento operante é influenciado pelo reforço ou pela falta dele e pelas consequências disso. Portanto, o reforço fortalece um comportamento e aumenta a pos- sibilidade de que seja repetido.56 B. F. Skinner, um dos mais proeminentes defensores do con- dicionamento operante, argumentava que criar consequências agradáveis após alguns com- portamentos específicos aumentaria sua frequência. Ele demonstrava que as pessoas eram mais propensas a se comportar de forma desejável se fossem reforçadas positivamente ao fazê-lo, que as recompensas seriam mais eficientes caso seguissem imediatamente a resposta desejada e que o comportamento não recompensado ou punido tenderia a não se repetir. To- dos conhecemos um professor que sempre coloca um sinal ao lado do nome dos alunos cada vez que estes contribuem para uma discussão em sala de aula. O condicionamento operante sustentariaque tal prática é motivadora, pois condiciona os alunos a esperar uma recompensa (um ponto de crédito) cada vez que se comportam de determinada forma (participam das dis- cussões em sala de aula). O conceito de condicionamento operante era parte do conceito mais amplo estabelecido por Skinner de behaviorismo, que argumenta que o comportamento sucede os estímulos de uma maneira relativamente inconsciente. A forma mais radical do behaviorismo de Skinner rejeita sentimentos, pensamentos e outros estados de espírito como Teoria do reforço Teoria que estabelece que o comportamento é a função de suas consequências. Behaviorismo Teoria que afirma que um comportamento sucede os estímulos de modo relativamente inconsciente. 07 rob0610_cap07 BR.indd 211 12/13/10 4:33 PM 212 Comportamento organizacional causas de um comportamento. Em suma, as pessoas associam estímulos e respostas, mas sua consciência a respeito de tal associação é irrelevante.57 É possível encontrar em toda parte exemplos de nosso próprio condicionamento ope- rante, em que os reforços estão ligados a certas ações que fazemos. Seu professor lhe diz que, se quiser obter uma nota alta em seu curso, você deve dar as respostas corretas na pro- va. Uma comerciante comissionada que queira obter uma renda respeitável descobre que isso está condicionado à geração de um alto número de vendas em seu território. É claro, a ligação também pode ensinar indivíduos a se comportar de modo contrário aos interesses de uma organização. Suponha que seu chefe lhe diga que, se fizer horas extras durante as próximas três semanas de pico de vendas, você será compensado por isso no próximo cál- culo de pagamento. Entretanto, quando chega seu cálculo de pagamento, você não recebe nenhum reforço positivo por seu trabalho extra. Da próxima vez que seu chefe lhe pedir para trabalhar além de seu período regular, o que você fará? Provavelmente dirá não. Seu comportamento pode ser explicado pelo condicionamento operante: se um comportamen- to não é positivamente reforçado, a probabilidade de ser repetido diminui. O reforço é, sem dúvida, uma influência importante no comportamento, mas poucos especialistas estão preparados para sustentar que seja a única. Os comportamentos que você assume no trabalho e a quantidade de esforço que despende em cada tarefa são afetados pelas consequências de seu comportamento. Se você for constantemente censurado por produzir mais do que seus colegas, isso provavelmente reduzirá sua produtividade. Mas sua baixa pro- dutividade também poderia ser explicada em termos de metas, injustiças ou expectativas. Os indivíduos podem aprender quando lhes são dadas instruções verbais ou ao obser- var os outros, bem como por meio de experiências diretas. Muito do que aprendemos vem da observação de modelos — pais, professores, colegas, atores de cinema e televisão, chefes e outros. Essa ideia de que podemos aprender tanto por meio da observação quanto por meio de experiências diretas é chamada teoriadaaprendizagemsocial.58 Embora a teoria da aprendizagem social seja uma extensão do condicionamento operante (isto é, ela presume que o comportamento é uma função das consequências), ela também admite os efeitos da aprendizagem por observação e percepção. As pessoas respondem à maneira como percebem e definem as consequências, não às consequências objetivas em si. Os modelos são centrais do ponto de vista da aprendizagem social. Quatro processos determinam sua influência sobre um indivíduo: 1. Processosdeatenção. As pessoas aprendem por meio de um modelo apenas quando o reconhecem e prestam atenção a seus traços críticos. Tendemos a ser mais influenciados por modelos atraentes, repetidamente disponíveis, importantes para nós ou semelhantes a nós em nossa percepção. 2. Processosderetenção. A influência de um modelo depende de quão bem um indivíduo se lembra da ação do modelo depois que este não está mais disponível. 3. Processos de reprodução motora. Depois que alguém viu um novo comportamento ao observar o modelo, a observação deve ser convertida em ação. Esse processo demonstra que o indivíduo pode desempenhar as ativida- des exemplificadas. 4. Processosdereforço. As pessoas são motivadas a exibir o comportamento apresentado pelo modelo quando recebem incentivos ou recompensas positivas. Os comportamentos reforçados positivamente recebem mais atenção, são mais bem aprendidos e desempenhados com mais frequência. Teoria da equidade/justiça organizacional Jane Alves formou-se contadora pela Universidade Estadual no ano passado. Depois de diversas entrevistas com recrutadores ainda no campus da universidade, ela aceitou um cargo em uma das cinco maiores empresas de auditoria do país e foi designada para o escritório de São Paulo. Jane estava muito feliz com a oferta que recebera: um trabalho Teoria da aprendizagem social Teoria que defende que podemos aprender tanto por meio da observação quanto da experiência direta. 07 rob0610_cap07 BR.indd 212 12/13/10 4:33 PM Capítulo 7 Conceitos básicos de motivação 213 desafiador em uma empresa de prestígio, uma excelente oportunidade para obter experiên- cias valiosas e o maior salário oferecido aos formandos de sua turma: dois mil reais por mês. Jane era a melhor aluna de sua turma. Ela era ambiciosa, articulada e esperava-se mesmo que recebesse uma oferta salarial bem alta. Passaram-se 12 meses desde que Jane entrou para a empresa. O trabalho mostrou-se tão desafiador e gratificante quanto ela esperava, e seu empregador está extremamente satisfeito com o desempenho dela. Na realidade, ela até ganhou um aumento de 200 reais por mês. Entretanto, o nível motivacional de Jane caiu drasticamente nas últimas semanas. Por quê? A empresa acaba de contratar um recém-formado da mesma universidade, sem a experiência de um ano acumulada por Jane, com um salário de 2.300 reais — 100 reais a mais do que ela ganha hoje! Dizer que ela está enfurecida é pouco para descrever seu esta- do de ânimo. Jane até fala em procurar outro emprego. A situação de Jane serve para ilustrar o papel que a equidade tem na motivação. Os funcionários estabelecem uma relação entre o que recebem por seu trabalho (remunera- ção, aumentos, reconhecimento) e o que investem nele (esforço, experiência, educação, competência), e depois comparam essa relação entre recompensas-insumos com a mesma relação no caso de outros funcionários. Isso é mostrado no Quadro 7.1. Quando tal com- paração traz a percepção de que essas relações são iguais, dizemos que existe um estado de equidade. Percebemos nossa situação como justa — e achamos que a justiça prevalece. Quando percebemos que as relações são desiguais, experimentamos uma tensão de equi- dade. Quando percebemos que somos desvalorizados, a tensão cria o sentimento de raiva e revolta; quando percebemos que recebemos recompensas em excesso, a tensão cria o sentimento de culpa. J. Stacy Adams sugere que esse estado de tensão negativa oferece motivação para uma ação corretiva.59 O ponto de referência escolhido pelo funcionário aumenta a complexidade da teo riadaequidade.60 Existem quatro pontos de referência que podem ser usados na com- paração: 1. Próprio-interno: as experiências do funcionário em outra posição dentro da mesma empresa. 2. Próprio-externo: as experiências do funcionário em uma situação ou posição fora de sua empresa atual. 3. Outro-interno: outra pessoa ou grupo da mesma empresa. 4. Outro-externo: outra pessoa ou grupo de fora da empresa. Os funcionários podem se comparar a amigos, vizinhos, colegas da mesma empresa ou de outras, ou comparar seu emprego atual com os antigos que já tiveram. O ponto de referência escolhido depende das informações que o funcionário possui sobre os referen- ciais, bem como da atração que eles podem exercer. Há quatro variáveis moderadoras: Teoria da equidade Teoria que defende que os indivíduos comparam esforços realizados e as recompensas