O Pequeno Hans e o Homem dos ratos
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O Pequeno Hans e o Homem dos ratos


DisciplinaConstituição do Sujeito Psíquico8 materiais80 seguidores
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da girafa. Pode ser observado que a girafa, sendo um animal grande, e 
interessante do ponto de vista do seu pipi, era um possível competidor com o cavalo para o papel de 
bicho-papão; além do mais, o fato de tanto seu pai como sua mãe terem aparecido como girafas 
oferecia um indício que ainda não tinha sido seguido, no que se refere à interpretação dos cavalos de 
ansiedade. 
Imediatamente depois da história da girafa, Hans criou duas fantasias menores: uma de 
forçar passagem para um espaço proibido em Schönbrunn, e outra de quebrar uma janela de uma 
carruagem de estrada de ferro no Stadtbahn [ver em [1]]. Em cada um dos casos a natureza punível 
da ação foi enfatizada, e em cada um deles seu pai aparecia como um cúmplice. Infelizmente seu pai 
fracassou ao interpretar essas duas fantasias, de modo que o próprio Hans não lucrou nada em 
contá-las. Em uma análise, no entanto, uma coisa que não foi compreendida, inevitavelmente 
reaparece; como um fantasma inquieto, não pode descansar até que o mistério tenha sido resolvido 
e que o encanto tenha sido quebrado. 
 
Não há dificuldades na maneira para compreendermos essas duas fantasias criminosas. 
Elas pertenciam ao complexo de Hans de tomar posse da sua mãe. Agitava-se em sua mente algum 
tipo de vaga noção de que havia algo que ele poderia fazer com sua mãe por meio do que ele 
chegaria a tomar posse dela; para esse pensamento ilusório ele encontrou algumas representações 
pictóricas, que tinham em comum as qualidades de serem violentas e proibidas, e cujo conteúdo nos 
choca por combinar maravilhosamente com a verdade escondida. Só podemos dizer que havia 
fantasias simbólicas de relações sexuais, e não era um detalhe irrelevante o fato de que seu pai era 
representado como compartilhando das suas ações: `Eu gostaria\u2019, ele parecia estar dizendo, `de 
estar fazendo algo com minha mãe, algo proibido; eu não sei o que é, mas sei que você está fazendo 
isso também.\u2019 
A fantasia da girafa fortaleceu a convicção que já tinha começado a se formar na minha 
mente, quando Hans expressou seu medo de que `o cavalo entrasse no quarto\u2019 [ver em [1]]; e achei 
que então tinha chegado o momento certo para informá-lo de que ele tinha medo do seu pai porque 
ele mesmo nutria desejos ciumentos e hostis contra este - pois era essencial postular-se bem isso 
com relação aos seus impulsos inconscientes. Ao lhe dizer isso, eu tinha interpretado parcialmente o 
seu medo de cavalos para ele: o cavalo tem que ser seu pai - a quem ele tinha boas razões internas 
para temer. Certos detalhes dos quais Hans mostrou que tinha medo, o preto nas bocas dos cavalos 
e as coisas na frente dos seus olhos (os bigodes e os óculos que são o privilégio de um homem 
crescido), me pareciam ter sido diretamente transpostos do seu pai para os cavalos [ver em [1]]. 
Ao esclarecer Hans sobre esse assunto, liquidei sua resistência mais poderosa contra 
permitir aos seus pensamentos inconscientes tornarem-se conscientes; pois seu próprio pai estava 
agindo como seu médico. O pior do ataque estava então acabado; havia uma torrente abundante de 
material; o pequeno paciente convocou coragem para descrever os detalhes da sua fobia, e logo 
começou a tomar parte ativa na condução da análise. 
 
Foi só então que soubemos quais eram os objetos e as impressões de que Hans tinha medo. 
Ele não tinha medo só de cavalos o morderem - logo silenciou a respeito desse ponto -, mas também 
de carroças, de carroças de mudança, de ônibus (sua qualidade comum sendo, como se tornou claro 
agora, que todos estavam pesadamente carregados), de cavalos que começavam a se mover, de 
cavalos que pareciam grandes e pesados, e de cavalos que andavam depressa. O significado 
dessas especificações foi explicado pelo próprio Hans: ele tinha medo de cavalos caindo, e 
conseqüentemente incorporou na sua fobia tudo que parecesse provavelmente facilitar a queda 
destes [ver em [1]]. 
Não é nada raro acontecer que, só depois de fazer uma certa quantidade de trabalho 
psicanalítico com um paciente, um analista possa conseguir saber o conteúdo real de uma fobia, a 
forma precisa de palavras de um impulso obsessivo, e assim por diante. A repressão não só invadiu 
os complexos inconscientes, como está continuamente atacando seus derivados e até impede o 
paciente de ficar sabendo dos produtos da própria doença. O analista, assim, se encontra na 
posição, curiosa para um médico, de vir em auxílio de uma doença e de proporcionar-lhe a devida 
atenção. Mas só aqueles que não entendem nada da natureza da psicanálise vão dar ênfase a essa 
fase do trabalho e supor que por causa disto é provável que se possa fazer mal através da análise. O 
fato é que é preciso pegar o ladrão para poder enforcá-lo, e é necessário algum dispêndio de 
trabalho para se agarrar firmemente as estruturas patológicas, sendo a destruição destas a meta do 
tratamento. 
Já observei no curso do meu comentário corrido sobre o caso clínico [ver em [1]] que é muito 
instrutivo mergulhar desse modo nos detalhes de uma fobia, e assim chegar a uma convicção da 
natureza secundária da relação entre a ansiedade e seus objetos. É isso que contribui para as fobias 
serem ao mesmo tempo tão curiosamente difusas e tão estritamente condicionadas. É evidente que 
o material para os disfarces particulares que o medo de Hans adotou foi coletado das impressões às 
quais ele estava exposto o dia todo, devido à Central de Alfândega ser situada do lado oposto da rua. 
Nessa conexão ele também mostrou sinais de um impulso - embora estivesse agora inibido por sua 
ansiedade - de brincar com as cargas nas carroças, com os embrulhos, barris e caixas como os 
meninos da rua. 
 
Foi nesse estágio da análise que ele se lembrou do acontecimento, insignificante em si, que 
precedeu imediatamente a eclosão da doença e que pode, sem dúvida, ser encarado como a causa 
precipitadora dessa eclosão. Ele foi dar um passeio com sua mãe e viu um cavalo de ônibus cair e 
escoicear com suas patas [ver em [1]]. Isso lhe causou uma grande impressão. Ele ficou aterrorizado 
e pensou que o cavalo estava morto; dessa época em diante, achava que todo os cavalos iriam cair. 
Seu pai salientou para ele que, quando viu o cavalo cair, deve ter pensado nele, seu pai, e ter 
desejado que ele caísse da mesma maneira e morresse. Hans não discutiu essa interpretação: um 
pouco mais tarde fez uma brincadeira que consistia em morder seu pai, e assim mostrou que 
aceitava a teoria de ter identificado seu pai com o cavalo de que ele tinha medo [ver em [1]]. Dessa 
época em diante seu comportamento em relação ao pai era sem constrangimento e sem medo, e de 
fato um pouquinho arrogante. Contudo, seu medo de cavalos persistia; e não estava claro, ainda, 
através de que cadeia de associações a queda do cavalo agitou seus desejos inconscientes. 
Deixem-me resumir os resultados que foram alcançados até agora. Por trás do medo que 
Hans exprimiu primeiro, o medo de que um cavalo o mordesse, descobrimos um medo mais 
profundamente assentado, o medo de cavalos caindo; e os dois tipos de cavalo, o cavalo que morde 
e o cavalo que cai, foram mostrados para representar seu pai, que ia puni-lo pelos maus desejos que 
ele estava nutrindo contra ele. Nesse ínterim a análise se tinha afastado do tema da sua mãe. 
Bem inesperadamente, e certamente sem nenhuma incitação do seu pai, Hans agora 
começava a se ocupar com o complexo do `lumf\u2018, e a mostrar nojo pelas coisas que lhe lembravam a 
evacuação dos seus intestinos [ver em [1]]. Seu pai, que estava relutando em acompanhá-lo nessa 
linha, impulsionou a análise, sem fazer caso de nada, na direção em que ele queria ir. Ele 
desencavou de Hans a lembrança de um acontecimento em Gmunden, cuja impressão ficou oculta 
atrás da do cavalo de ônibus que caiu. Quando eles estavam brincando de cavalos, Fritzl, o 
companheiro de quem ele tanto gostava, mas que, ao mesmo tempo, talvez fosse seu rival diante 
das muitas meninas suas amigas, tinha batido com o pé contra uma