O Pequeno Hans e o Homem dos ratos
182 pág.

O Pequeno Hans e o Homem dos ratos


DisciplinaConstituição do Sujeito Psíquico8 materiais80 seguidores
Pré-visualização50 páginas
pouco tempo antes, quanto ao fato de que as 
mulheres na verdade não possuem pipi, estava fadada a ter apenas um efeito destruidor sobre sua 
autoconfiança e a ter originado seu complexo de castração. Por essa razão é que ele ofereceu 
resistência à informação, e pela mesma razão ela não produziu efeitos terapêuticos. Seria possível 
haver seres vivos que não tivessem pipis? Se assim fosse, não mais se poderia duvidar de que eles 
pudessem fazer desaparecer seu próprio pipi e, se assim fosse, transformá-lo em mulher! 
\u2018Na noite do dia 27 para 28, Hans nos surpreendeu saindo da cama, quando ainda estava 
bem escuro, e vindo para a nossa cama. O seu quarto está separado do nosso dormitório por um 
outro pequeno quarto. Nós lhe perguntamos por que tinha vindo - talvez estivesse com medo. \u201cNão\u201d, 
disse ele; \u201camanhã eu conto a vocês.\u201d Fomos para a cama dormir e ele foi levado, então, de volta 
para sua cama. 
\u2018No dia seguinte interroguei-o com mais detalhes, a fim de descobrir por que entrara em 
nosso quarto, para estar conosco, durante a noite; após alguma relutância, houve o seguinte diálogo, 
que eu imediatamente registrei em taquigrafia: 
\u2018Ele: \u201cDe noite havia uma girafa grande no quarto, e uma outra, toda amarrotada; e a grande 
gritou porque eu levei a amarrotada para longe dela. Aí, ela parou de gritar; então eu me sentei em 
cima da amarrotada.\u201d 
\u2018Eu: (perplexo): \u201cO quê? Uma girafa amarrotada? Como foi isso?\u201d 
\u2018Ele: \u201cÉ sim.\u201d (Rapidamente foi buscar um pedaço de papel, amarrotou-o e disse:) \u201cEstava 
Dani :)
Dani :)
amarrotada assim.\u201d 
\u2018Eu: \u201cE você se sentou em cima da girafa amarrotada? Como foi?\u201d 
 
\u2019Ele repetiu, sentando-se no chão. 
\u2018Eu: \u201cPor que você veio para o nosso quarto?\u201d 
\u2018Ele: \u201cEu mesmo não sei.\u201d 
\u2018Eu: \u201cVocê estava com medo?\u201d 
\u2018Ele: \u201cNão. É claro que não!\u201d 
\u2018Eu: \u201cVocê sonhou com a girafa?\u201d 
\u2018Ele: \u201cNão, eu não sonhei. Eu pensei. Pensei em tudo. Eu tinha acordado antes.\u201d 
\u2018Eu: \u201cO que uma girafa amarrotada pode significar? Você sabe que é impossível amassar 
uma girafa como você amassa um pedaço de papel?\u201d 
\u2018Ele: \u201cClaro que sei. Eu só pensei que estava amassando. É claro que não foi de verdade. A 
girafa amarrotada estava estendida no chão e eu a tirei dali\u2026 eu a peguei com as mãos.\u201d 
\u2018Eu: \u201cComo? Você pode pegar com as mãos uma girafa grande assim?\u201d 
\u2018Ele: \u201cPeguei a amarrotada na mão.\u201d 
\u2018Eu: \u201cE enquanto isso, onde estava a grande?\u201d 
\u2018Ele: \u201cA grande já estava bem longe.\u201d 
\u2018Eu: \u201cO que foi que você fez com a amarrotada?\u201d 
\u2018Ele: \u201cEu peguei na minha mão, por um momentinho, até que a grande parasse de gritar. E 
quando ela parou de gritar, eu sentei em cima da amarrotada.\u201d 
\u2018Eu: \u201cPor que foi que a grande gritou?\u201d 
\u2018Ele: \u201cPorque eu levei para longe dela a pequena.\u201d (Ele notou que eu estava escrevendo tudo 
que dizíamos, e perguntou:) \u201cPor que você está escrevendo isso aí?\u201d 
\u2018Eu: \u201cPorque vou mandar isso para um professor, aquele que pode acabar com a sua 
\u2018bobagem\u2019.\u201d 
\u2018Ele: \u201cAh, então você escreveu também que a mamãe tirou a camisa, e vai dar também para 
o Professor!\u201d 
\u2018Eu: \u201cSim, mas ele não vai entender como você pode pensar que é possível amarrotar uma 
girafa.\u201d 
\u2018Ele: \u201cPois conte a ele que eu mesmo não sei, e assim ele não vai perguntar. Mas se ele 
perguntar o que é a girafa amarrotada, então ele pode escrever para nós, e nós podemos responder, 
ou então vamos logo escrever que eu mesmo não sei.\u201d 
\u2018Eu: \u201cMas por que você entrou no nosso quarto, de noite?\u201d 
 
\u2019Ele: \u201cEu não sei.\u201d 
\u2018Eu: \u201cPois me conte depressa o que é que você está pensando.\u201d 
\u2018Ele: (brincando): \u201cGeléia de framboesa.\u201d 
\u2018Eu: \u201cQue mais?\u201d 
Seus desejos. 
\u2018Ele: \u201cUm revólver para matar as pessoas com um tiro.\u201d 
\u2018Eu: \u201cVocê assegura que não sonhou com isso?\u201d 
\u2018Ele: \u201cAsseguro\u2026 não, não estou bem certo.\u201d 
\u2018Ele continuou dizendo: \u201cA mamãe ficou me perguntando por que foi que eu entrei no seu 
quarto de noite. Mas eu não queria dizer, pois no começo me senti envergonhado com a mamãe.\u201d 
\u2018Eu: \u201cPor quê?\u201d 
\u2018Ele: \u201cNão sei.\u201d 
\u2018De fato, minha esposa o havia questionado a manhã inteira, até que ele lhe contou a história 
da girafa.\u2019 
Nesse mesmo dia, seu pai descobriu a solução da fantasia da girafa. 
\u2018A girafa grande sou eu mesmo, ou melhor, o meu pênis grande (o pescoço comprido), e a 
girafa amarrotada é minha esposa, ou melhor, seu órgão genital. Trata-se, por conseguinte, do 
resultado do esclarecimento que lhe fora dado [ver em [1]]. 
\u2018Girafa: ver a descrição do passeio a Schönbrunn. [Cf. em [1] e [2].] Ademais, ele tem a figura 
de uma girafa e um elefante pendurada acima de sua cama. 
\u2018Tudo isso é a reprodução de uma cena que se desenrolara durante quase todos esses 
últimos dias, pela manhã. Hans sempre entra em nosso quarto, bem cedinho, e minha mulher não 
pode resistir, levando-o com ela para a cama por alguns minutos. Em resposta a esse procedimento, 
invariavelmente passo a admoestá-la para não levá-lo consigo para a cama (\u201ca girafa grande gritava 
por que eu tirei a amarrotada de perto dela\u201d); e ela responde, às vezes sem dúvida com certa 
irritação, que tudo é uma bobagem, que afinal um minuto não conta, e assim por diante. Desse 
modo, Hans fica com ela por um instante. (\u201cAí a girafa grande parou de gritar; e então eu sentei em 
cima da amarrotada.\u201d) 
 
\u2019Esta, portanto, é a solução dessa cena matrimonial, transportada para a vida da girafa; à 
noite, ele fora arrebatado por uma ânsia de ter sua mãe, suas carícias, seu órgão genital, e por essa 
razão veio para nosso quarto. Tudo isso é continuação de seu medo de cavalos.\u2019 
É apenas isso o que tenho a acrescentar à penetrante interpretação do pai de Hans. O 
\u2018sentar-se em cima de\u2019 era provavelmente a imagem que Hans tinha de tomar posse. Todavia, isso 
tudo constitui uma fantasia de desafio relacionada com a sua satisfação pelo triunfo alcançado sobre 
a resistência de seu pai. \u2018Grite quanto quiser! Não adianta, porque a mamãe me leva para a cama, e 
a mamãe é minha!\u2019 Portanto, conforme seu pai suspeitava, justifica-se o fato de adivinhar por trás da 
fantasia um medo de que sua mãe não gostasse dele, de uma vez que seu pipi não se comparava 
com o de seu pai! 
Na manhã seguinte, seu pai pôde obter a confirmação de sua interpretação. 
\u2018Domingo, 29 de março, fui a Lainz com Hans. À porta, despedi-me de minha esposa com 
uma brincadeira, dizendo: \u201cAté logo, girafa grande!\u201d \u201cPor que girafa?\u201d, perguntou Hans. \u201cA mamãe é 
a girafa grande\u201d, respondi, ao que Hans replicou: \u201cAh, é isso mesmo!, e Hanna é a girafa amarrotada, 
não é?\u201d 
\u2018No trem expliquei-lhe a fantasia da girafa, ao que ele disse: \u201cÉ isso, sim.\u201d E quando eu lhe 
disse que eu era a girafa grande e que o pescoço comprido dela o fazia pensar num pipi, ele disse: \u201cA 
mamãe tem um pescoço como uma girafa também. Eu vi quando ela estava lavando o seu pescoço 
branco.\u201d 
\u2018Na segunda-feira, 30 de março, pela manhã Hans veio dizer-me: \u201cSabe de uma coisa? 
Pensei, hoje de manhã, em duas coisas!\u201d \u201cVocê pensou o que primeiro?\u201d \u201cPensei que estava com 
você em Schönbrunn, onde as ovelhas estão; e aí começamos a rastejar por baixo das cordas, então 
fomos contar ao policial, no fundo do jardim, e ele nos agarrou.\u201d Ele se havia esquecido da segunda 
coisa. 
\u2018Posso acrescentar o seguinte comentário a esse respeito. Quando quisemos ver as 
ovelhas, no domingo, observamos que havia um espaço nos jardins cercado com uma corda; assim 
não nos era possível chegar até elas. Hans ficou muito admirado com o espaço cercado somente por 
uma corda, pois seria bem fácil resvalar por debaixo dela. Eu lhe falei que as pessoas educadas não 
rastejavam por baixo da corda. Ele disse que seria relativamente fácil, ao que respondi que o policial 
podia chegar e afastar a gente. Na entrada de Schönbrunn sempre fica um soldado de serviço; e 
certa vez contei a Hans que ele prendia as crianças desobedientes. 
\u2018Ao voltarmos de nossa consulta com o senhor, naquele mesmo dia, Hans confessou seu 
desejo de praticar mais alguma coisa proibida: \u201cSabe, hoje de manhã pensei de novo numa coisa.\u201d 
\u201cO que foi?\u201d \u201cPensei que ia de trem,