1. deleuze e guattari - o que é a filosofia (gilles deleuze e félix guattari)
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1. deleuze e guattari - o que é a filosofia (gilles deleuze e félix guattari)


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troca incessante, mas também não cessam de liberar outras que 
se conservam. Então, resta aos conceitos traçar as ordenadas intensivas destes movimentos infinitos, como 
movimentos eles mesmos finitos que formam, em velocidade infinita, contornos variáveis inscritos sobre o 
plano. Operando um corte do caos, o plano de imanência faz apelo a uma criação de conceitos. À questão: a 
filosofia pode ou deve ser considerada como grega?, uma primeira resposta pareceu ser que a cidade grega, 
com efeito, se apresenta como a nova sociedade dos "amigos", com todas as ambigüidades desta palavra. 
Jean-Pierre Vernant acrescenta uma segunda resposta: os gregos seriam os primeiros a ter concebido uma 
imanência estrita da Ordem a um meio cósmico que corta o caos à maneira de um plano. Se se chama de 
Logos um tal plano-crivo, grande é a distância entre o Logos e a simples "razão" (como quando se diz que o 
mundo é racional). A razão é apenas um conceito, e um conceito bem pobre para definir o plano e os 
movimentos infinitos que o percorrem. Numa palavra, os primeiros filósofos são aqueles que instauram um 
plano de imanência como um crivo estendido sobre o caos. Eles se opõem, neste sentido, aos Sábios, que 
são personagens da religião, sacerdotes, porque concebem a instauração de uma ordem sempre 
transcendente, imposta de fora por um grande déspota ou por um deus superior aos outros, inspirado por 
Eris, na seqüência de guerras que ultrapassam todo agôn e de ódios que recusam desde o início as provas 
da rivalidade(7). Há religião cada vez que há transcendência, Ser vertical, Estado imperial no céu ou sobre a 
terra, e há Filosofia cada vez que houver imanência, mesmo se ela serve de arena ao agôn e à rivalidade (os 
tiranos gregos não seriam uma objeção, porque eles estão plenamente
(7) Cf. Jean-Pierre Vernant, Les origines de Ia pensée grecque, P.U.F., pp. 105-125.
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do lado da sociedade dos amigos tal como ela se apresenta através de suas rivalidades mais loucas, mais 
violentas). E estas duas determinações eventuais da filosofia como grega estão talvez profundamente 
ligadas. Só os amigos podem estender um plano de imanência como um solo que se esquiva dos ídolos. Em 
Empédocles, é Filia que o traça, mesmo se ela não retorna sobre mim sem dobrar o Ódio como o movimento 
tornado negativo que testemunha uma sub-transcendência do caos (o vulcão) e uma sobre-transcendência de 
um deus. Pode ser que os primeiros filósofos, e sobretudo Empédocles, tenham ainda o ar de sacerdotes ou 
mesmo de reis. Eles se apropriam da máscara do sábio, e, como diz Nietzsche, como a filosofia não se 
disfarçaria em seus primórdios? E mesmo, poderá ela jamais prescindir dos disfarces? Se a instauração da 
filosofia se confunde com a suposição de um plano pré-filo-sófico, como a filosofia não tiraria proveito disso 
para pôr uma máscara? Resta que os primeiros filósofos traçam um plano, que movimentos ilimitados não 
cessam de percorrer, sobre duas faces, das quais uma é determinável como Physis, na medida em que dá 
uma matéria ao Ser, e a outra como Noüs, enquanto dá uma imagem ao pensamento. É Anaximandro que 
leva ao maior rigor a distinção das duas faces, combinando o movimento das qualidades com a potência de 
um horizonte absoluto, o Apeiron ou o Ilimitado, mas sempre sobre o mesmo plano. O filósofo opera um vasto 
seqüestro da sabedoria, ele a põe a serviço da imanência pura. Ele substitui a genealogia por uma geologia.
 EXEMPLO III
 Pode-se apresentar toda a história da filosofia do ponto de vista da instauração de um plano de 
imanência? Distinguir-se-iam então os fisicalistas, que insistem sobre a matéria do Ser, e os noologistas, 
sobre a ima-
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gem do pensamento. Mas um risco de confusão surge muito rápido: em vez de o plano de imanência, ele 
mesmo, constituir esta matéria do Ser ou esta imagem do pensamento, é a imanência que seria remetida a 
algo que seria como um "dativo", Matéria ou Espírito. É o que se torna evidente com Platão e seus 
sucessores. Em vez de um plano de imanência constituir o Uno-Todo, a imanência está "no" Uno, de tal modo 
que um outro Uno, desta vez transcendente, se superpõe àquele no qual a imanência se estende ou ao qual 
ela se atribui: sempre um Uno para além do Uno, será a fórmula dos neoplatônicos. Cada vez que se 
interpreta a imanência como "a" algo, produz-se uma confusão do plano com o conceito, de modo que o 
conceito se torna um universal transcendente, e o plano, um atributo no conceito. Assim mal entendido, o 
plano de imanência relança o transcendente: é um simples campo de fenômenos que só possui 
secundariamente o que se atribui de início à unidade transcendente.
 Com a filosofia cristã a situação piora. A posição de imanência continua sendo a instauração filosófica 
pura, mas ao mesmo tempo ela só é suportada em doses muito pequenas, ela é severamente controlada e 
enquadrada pelas exigências de uma transcendência ema-nativa e sobretudo criativa. Cada filósofo deve 
demonstrar, com o risco de sua obra e por vezes de sua vida, que a dose de imanência, que ele injeta no 
mundo e no espírito, não compromete a transcendência de um Deus ao qual a imanência não deve ser 
atribuída senão secundariamente (Nicolau de Cusa, Eckhart, Bruno). A autoridade religiosa quer que a 
imanência não seja sustentada senão localmente ou num nível intermediário, um pouco como numa fonte em 
cascata na qual a água pode brevemente manar sobre cada plataforma, mas sob a
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condição de vir de uma fonte mais alta e descer mais baixo (transascendência e transdescendência, como 
dizia Wahl). Da imanência, pode-se estimar que ela seja a pedra de toque incandescente de toda a filosofia, 
porque toma para si todos os perigos que esta deve enfrentar, todas as condenações, perseguições e 
denegações que ela sofre. Isso demonstra, ao menos, que o problema da imanência não é abstrato ou 
somente teórico. À primeira vista, não se vê por que a imanência é tão perigosa, mas é assim. Ela engole os 
sábios e os deuses. A parte da imanência, ou a parte do fogo, é por ela que se reconhece o filósofo. A 
imanência só é imanente a si mesma, e então toma tudo, absorve o Todo-Uno, e não deixa subsistir nada a 
que ela poderia ser imanente. Em todo caso, cada vez que se interpreta a imanência como imanente a Algo, 
pode-se estar certo que este Algo reintroduz o transcendente.
 A partir de Descartes, e com Kant e Husserl, o cogito torna possível tratar o plano de imanência como 
um campo de consciência. É que a imanência é suposta ser imanente a uma consciência pura, a um sujeito 
pensante. Este sujeito, Kant o nomeará transcendental e não transcendente, precisamente porque é o sujeito 
do campo de imanência de toda experiência possível, ao qual nada escapa, o exterior bem como o interior. 
Kant recusa todo uso transcendente da síntese, mas remete a imanência ao sujeito da síntese, como nova 
unidade, unidade subjetiva. Ele pode até mesmo dar-se ao luxo de denunciar as Idéias transcendentes, para 
fazer delas o "horizonte" do campo imanente ao sujeito8. Mas,
(8) Kant, Crítica da Razão pura: o espaço como forma da exterioridade não está menos "em nós" que o 
tempo como forma da interioridade ("Crítica do quarto paralogismo"). E sobre a Idéia como "horizonte", cf. 
"Apêndice à dialética transcendental".
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fazendo isso, Kant encontra a maneira moderna de salvar a transcendência: não é mais a transcendência de 
um Algo, ou de um Uno superior a toda coisa (contemplação), mas a de um Sujeito ao qual o campo de 
imanência é atribuído por pertencer a um eu que se representa necessariamente um tal sujeito (reflexão). O 
mundo grego, que não pertencia a ninguém, se torna cada vez mais a propriedade de uma consciência cristã.
 Mais um passo ainda: quando a imanência se torna imanente
Alana
Alana fez um comentário
queria muito esse livro!!!! Obrigada!!!!
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