1. deleuze e guattari - o que é a filosofia (gilles deleuze e félix guattari)
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1. deleuze e guattari - o que é a filosofia (gilles deleuze e félix guattari)


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que se diz: "era isso, 
mas eu não sei se eu disse bem, nem se fui assaz convincente". E se percebe que importa pouco ter dito 
bem ou ter sido convincente, já que de qualquer maneira é nossa questão agora.
 Os conceitos, como veremos, têm necessidade de personagens conceituais que contribuam para sua 
definição. Amigo é um desses personagens, do qual se diz mesmo que ele testemunha a favor de uma 
origem grega da filosofia: as outras civilizações tinham Sábios, mas os gregos apresentam esses "amigos" 
que não são simplesmente sábios mais modestos. Seriam os gregos que teriam sancionado a morte do 
Sábio, e o teriam substituído pelos filósofos, os amigos da sabedoria, aqueles que procuram a sabedoria, mas 
não a possuem formalmente(3). Mas não haveria somente diferença de grau, como numa escala, entre o 
filósofo e o sábio: o velho sábio vindo do Oriente pensa talvez por Figura, en-
(3) Kojève, "Tyrannie et sagesse", p. 235 (in Léo Strauss, De Ia tyrannie, Gallimard).
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quanto o filósofo inventa e pensa o Conceito. A sabedoria mudou muito, lauto mais difícil tornou-se saber o 
que significa "amigo", mesmo e sobretudo entre os gregos. Amigo designaria uma certa intimidade 
competente, uma espécie de gosto material e uma potencialidade, como aquela do marceneiro com a 
madeira: o bom marceneiro é, em potência, madeira, ele é o amigo da madeira? A questão é importante, uma 
vez que o amigo tal como ele aparece na filosofia não designa mais um personagem extrínseco, um exemplo 
ou uma circunstância empírica, mas uma presença intrínseca ao. pensamento, uma condição de possibilidade 
do próprio pensamento, uma categoria viva, um vivido transcendental. Com a filosofia, os gregos submetem a 
uma violência o amigo, que não está mais em relação com um outro, mas com uma Entidade, uma 
Objetividade, uma Essência. Amigo de Platão, mas mais ainda da sabedoria, do verdadeiro ou do conceito, 
Filaleto e Teófilo... O filósofo é bom em conceitos, e em falta de conceitos, ele sabe quais são inviáveis, 
arbitrários ou inconsistentes, não resistem um instante, e quais, ao contrário, são bem feitos e testemunham 
uma criação, mesmo se inquietante ou perigosa.
 Que quer dizer amigo, quando ele se torna personagem conceituai ou condição para o exercício do 
pensamento? Ou então amante, não seria antes amante? E o amigo não vai reintroduzir, até no pensamento, 
uma relação vital com o Outro que se tinha acreditado excluir do pensamento puro? Ou então, ainda, não se 
trata de alguém diferente do amigo ou do amante? Pois se o filósofo é o amigo ou o amante da sabedoria, 
não é porque ele aspira a ela, nela se empenhando em potência, mais do que a possuindo em ato? O amigo 
seria, pois, também o pretendente, e aquele de que ele se diria o amigo seria a Coisa que é alvo da 
pretensão, mas não o terceiro, que se tornaria ao contrário um rival? A amizade comportaria tanto 
desconfiança competitiva com
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relação ao rival, quanto tensão amorosa em direção ilo ob jeto do desejo. Quando a amizade se voltasse para 
a consciência, os dois amigos seriam como o pretendente e o rival (mas o que os distinguiria?). É sob este 
primeiro traço que a filosofia parece uma coisa grega e coincide com a contribuição das cidades: ter formado 
sociedades de amigos ou de iguais, mas também ter promovido, entre elas e em cada uma, relações de 
rivalidade, opondo pretendentes em todos os domínios, no amor, nos jogos, nos tribunais, nas magistraturas, 
na política, e até no pensamento, que não encontraria sua condição somente no amigo, mas no pretendente e 
no rival (a dialética que Platão define pela amphisbetesis). A rivalidade dos homens livres, um atletismo 
generalizado: o agôn(4). É próprio da amizade conciliar a integridade da essência e a rivalidade dos 
pretendentes. Não é uma tarefa grande demais?
 O amigo, o amante, o pretendente, o rival são determinações transcendentais, que não perdem por 
isso sua existência intensa e animada, num mesmo personagem ou em diversos. E quando hoje Maurice 
Blanchot, que faz parte dos raros pensadores que pensam o sentido da palavra "amigo" em filosofia, retoma 
esta questão interior das condições do pensamento como tal, não são novos personagens conceituais que ele 
introduz no seio do mais puro Pensado, personagens pouco gregos desta vez, vindos de outra parte, como se 
tivessem passado por uma catástrofe que os arrasta na direção de novas relações vivas promovidas ao 
estado de caracteres a priori: um desvio, um certo desamparo, uma certa destreza entre amigos que converte 
a própria amizade ao pensamento do conceito como desconfiança e paciência infini-
(4) Por exemplo, Xenofonte, República dos lacedemônios, IV, 5. De-tienne e Vernant analisaram 
particularmente estes aspectos da cidade.
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tas(5)"? A lista dos personagens conceituais não está jamais In h.ul.i, c por isso desempenha um papel 
importante na evolução ou nas mutações da filosofia; sua diversidade deve ser compreendida, sem ser 
reduzida à unidade já complexa do filósofo grego.
 O filósofo é o amigo do conceito, ele é conceito em potência. Quer dizer que a filosofia não é uma 
simples arte de formar, de inventar ou de fabricar conceitos, pois os conceitos não são necessariamente 
formas, achados ou produtos. A filosofia, mais rigorosamente, é a disciplina que consiste em criar conceitos. 
O amigo seria o amigo de suas próprias criações? Ou então é o ato do conceito que remete à potência do 
amigo, na unidade do criador e de seu duplo? Criar conceitos sempre novos é o objeto da filosofia. É porque 
o conceito deve ser criado que ele remete ao filósofo como àquele que o tem em potência, ou que tem sua 
potência e sua competência. Não se pode objetar que a criação se diz antes do sensível e das artes, já que a 
arte faz existir entidades espirituais, e já que os conceitos filosóficos são também sensibilia. Para falar a 
verdade, as ciências, as artes, as filosofias são igualmente criadoras, mesmo se compete apenas à filosofia 
criar conceitos no sentido estrito. Os conceitos não nos esperam inteiramente feitos, como corpos celestes. 
Não há céu para os conceitos. Eles devem ser inventados, fabricados ou antes criados, e não seriam nada 
sem a assinatura daqueles que os criam. Nietzsche determinou a tarefa da filosofia quando escreveu: "os 
filósofos não devem mais contentar-se em aceitar os conceitos que lhes são dados, para somente limpá-los e 
fazê-los reluzir, mas é necessário que eles comecem por fabricá-los, criá-los, afirmá-los, persuadindo
(5) Sobre a relação da amizade com a possibilidade de pensar, no mundo moderno, cf. Blanchot, Uamitié e 
Uentretien infini (o diálogo dos dois cansados), Gallimard. E Mascolo, Autour d'un effort de mémoire, Ed. 
Nadeau.
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os homens a utilizá-los. Até o presente momento, tudo somado, cada um tinha confiança em seus conceitos, 
como num dote miraculoso vindo de algum mundo igualmente miraculoso", mas é necessário substituir a 
confiança pela desconfiança, e é dos conceitos que o filósofo deve desconfiar mais, desde que ele mesmo 
não os criou (Platão sabia isso bem, apesar de ter ensinado o contrário...)(6). Platão dizia que é necessário 
contemplar as Idéias, mas tinha sido necessário, antes, que ele criasse o conceito de Idéia. Que valeria um 
filósofo do qual se pudesse dizer: ele não criou um conceito, ele não criou seus conceitos?
 Vemos ao menos o que a filosofia não é: ela não é contemplação, nem reflexão, nem comunicação, 
mesmo se ela pôde acreditar ser ora uma, ora outra coisa, em razão da capacidade que toda disciplina tem 
de engendrar suas próprias ilusões, e de se esconder atrás de uma névoa que ela emite especialmente. Ela 
não é contemplação, pois as contemplações são as coisas elas mesmas enquanto vistas na criação de seus
Alana
Alana fez um comentário
queria muito esse livro!!!! Obrigada!!!!
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