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“O que é o homem em relação à natureza? Nada em relação ao infinito, tudo em relação ao nada, um meio entre o nada e o tudo” (Blaise Pascal). Origem da Filosofia “A filosofia pertence aos deuses, mas os homens podem desejá-la, tornando-se filósofos” (Pitágoras. Século V a.C). A palavra “Filosofia” surge na Grécia no Século VI a.C. nos escritos de Pitágoras, que não querendo denominar-se como sábio, prefere autodenominar-se Philos -Sophos, ou seja, amigo do saber, aquele que busca a sabedoria, amante da sabedoria, para ele uma denominação mais humilde e fiel à sua postura de tentar compreender a realidade de seu tempo. A palavra Filosofia se compõe de dois vocábulos gregos: Philen e Sophia, significando amor à sabedoria. Foi usado pelam primeira vez pelos gregos, como sinônimo de curiosidade ou desejo de saber o que diz respeito às coisas humanas, tendo, pois, desde sua origem, uma significação preponderantemente humanística. No século V a.C. o filósofo Heráclito define melhor o conceito original do vocábulo Filosofia, para ele, a “busca da compreensão da realidade total”, em todas as suas formas de maneira sistemática e disciplinada, opondo-se ao conceito de “polimathéia”, isto é, o saber comum, desconexo, fragmentado, o nível de senso comum, geralmente preconceituoso e limitado, sobre a realidade pessoal, social e da natureza. Deste modo, podemos observar que a filosofia, desde sua definição originária, se faz compreender sobre o homem, sobre o mundo, sobre a própria realidade; um processo sempre dinâmico de apreensão das significações históricas da realidade humana, de maneira humilde e processual. O verdadeiro filósofo rejeita o “status” de possuidor da verdade, como se fosse possível ou conhecê-la ou ainda, que alguém fosse capaz de aprender a totalidade da realidade. Ao contrário, compreende a precariedade de sua busca e o dinamismo do próprio processo de definição das verdades de cada época. Nisto precisamente consiste a filosofia. Um conhecimento sistematizado sobre o mundo da natureza, sobre a condição humana pessoal e social, sobre a sociedade, sobre a cultura. Em termos gerais é um conhecimento humano, de longa tradição histórica, que tem privilégio a pesquisa de questões fundamentais sobre a existência humana, a natureza e a cultura. A Reflexão Filosófica O Professor João Wilson Savino Carvalho em sua obra: “Temas básicos de Filosofia” afirma que: “O conhecimento é uma relação que se estabelece entre o sujeito de conhecimento (a consciência cognoscente) e o objeto cognoscível. Nele, as características essenciais dos objetos passam a fazer parte do sujeito, na forma de conceito. Tudo o que a consciência cognoscente, o sujeito no ato de conhecimento, tem sobre a realidade externa a consciência, o mundo dos objetos, é exatamente o conceito. Qual a garantia que o conceito corresponde ao objeto real? Qual garantia da veracidade ou validade do conhecimento humano? Para o cientista, as respostas a essas questões estão na experiência. A experiência controlada capaz de por a prova o conhecimento e, consequentemente, reorientar o processo. O filósofo, entretanto, trabalha com temas para os quais esse caminho é impraticável, pela própria natureza do questionamento filosófico. Quem poderia conceber uma experiência envolvendo o sentido da existência humana? Ou sobre a finalidade do conhecimento? Tais questões ultrapassam os limites de uma vida ou até os limites (em todos os sentidos ) da sociedade em que existe o pesquisador. Justamente por isso são questões filosóficas. Como produzir conhecimento sobre esses temas? Ou como se dá a produção do conhecimento filosófico? O sujeito cognoscente é, entretanto, capaz de efetuar outra forma de conhecimento, que é aquela em que o pensamento incide não sobre os objetos de conhecimento, mas sim sobre os próprios processos de conhecimento, para analisar as condições de validade desses processos. A essa orientação do pensamento aos processos internos ao sujeito é justamente o que chamamos reflexão. A análise crítica dos caminhos percorridos pelo raciocínio, sua obediência às regras da Lógica, a sua coerência, a sua não-contradição, enfim, suas condições de verdade, é que constitui o meio pelo qual o filósofo firma a validade de suas conclusões. É por esse caminho que definimos o método racional (baseia-se na razão e não na experiência), especulativo (procede por uma projeção racional) e reflexivo-crítico (analisa criticamente as condições de validade dos raciocínios que o constituem). Esses não são, entretanto, estágios do método filosófico (como é o caso do método experimental), mas aspectos de um mesmo processo, a aplicação do raciocínio lógico em uma reflexão profunda, radical, Filosofia PROF. PASTANA abrangente e crítica, sobre os problemas relativos ao sentido de tudo o que existe”. Segundo o professor Dermeval Saviani, a reflexão filosófica é radical, rigorosa e de conjunto. Radical: A palavra latina Radix, radicis significa “raiz” e no sentido figurado “fundamento, base”. Portanto, a filosofia é radical não no sentido corriqueiro de ser inflexível (nesse caso seria antifilosofia), mas enquanto busca explicitar os conceitos fundamentais usados em todos os campos do pensar e do agir. Por exemplo, a filosofia das ciências examina os pressupostos do saber cient ífico, do mesmo modo que, diante da decisão de um vereador em aprovar determinado projeto, a filosofia política investiga as “raízes” (os princ ípios políticos) que orientam sua ação. Rigorosa: Enquanto a filosofia de vida não leva as conclusões até as últimas consequências, e nem sempre é capaz de capaz de examinar os fundamentos dela, o filósofo deve dispor de um método claramente explicitado a fim de proceder com rigor, garantindo a coerência e o exercício da crítica. Mesmo porque o filósofo não faz afirmações apenas, precisa justificá-las com argumentos. Para tanto usa de linguagem rigorosa, que evita as ambiguidades das expressões cotidianas e lhe permite discutir com outros filósofos a partir de conceitos claramente definidos. É por isso que o filósofo sempre inventa conceitos ou cria expressões novas (quanto fizeram isto os gregos) ou altera e especifica o sentido da palavra. De conjunto: Enquanto as ciências são particulares, porque abordam “recortes” da realidade e se distinguem de outras formas de conhecimento, e a ação humana se expressa nas mais variadas formas (técnica, magia, arte, política, etc.), a filosofia é globalizante, porque examina os problemas sob a perspectiva de conjunto, relacionando os diversos aspectos entre si. Nesse sentido, além de considerarmos que o objeto da filosofia é tudo (porque nada escapa a seu interesse), completamos que a filosofia visa ao todo, a totalidade. Daí a função de interdisciplinaridade da filosofia, estabelecendo o elo entre as diversas formas de saber e agir humanos. A maneira pela qual se faz rigorosamente a reflexão filosófica varia conforme a orientação do filósofo e as tendências históricas decorrentes da situação vivida pelos homens em sua ação sobre o mundo. Conceitos de Filosofar O verbo filosofar pode ser usado com três significados distintos: Como sinônimo de Pensar: às vezes, doenças ou morte de pessoas próximas, decepções, perdas irreparáveis e outros problemas existenciais nos fazem pensar (filosofar) sobre o sentido de nossa vida. Mas esse significado é por demais, vago e amplo para caracterizar o sentido de filosofar. Como sinônimo de Vida: Aqui filosofar é viver com sabedoria.O sábio é aquele que se torna um exemplo vivo das virtudes apreciadas em uma sociedade e é tomado como ponto de referência para fortalecer o valor das tradições vigentes. É nesse sentido que as sabedorias orientais são também chamadas filosofias. Como o “Filosofar propriamente dito”: Que teve inicio na Grécia em torno dos séculos VI e V a.C. Por essa época, começou-se a repensar o cosmo, o homem e os deuses com base na razão. Para os primei ros filósofos, assim como para os filósofos de todos os tempos, a razão é o único instrumento para ler e interpretar a realidade. Filosofar, portanto, é encontrar a verdade por meio da razão. O novo conceito de verdade O que é verdade? Na época do surgimento da filosofia, aceitava-se como verdade o que a tradição, as autoridades e os deuses determinavam. Ora, os primeiros filósofos buscaram um novo conceito de verdade, uma verdade tão bem fundamentada na razão que ninguém pudesse refutá-la. Ela deveria libertar o povo da autoridade arbitrária dos deuses, reis oligarcas e tiranos, assim como das profecias enigmáticas dos sacerdotes. A verdade procurada teria de ter um conhecimento definitivo, necessário e absoluto. Para um conhecimento ter tais características deveria abranger tudo o que existe no universo. Logo, seria um conceito universal. A verdade precisaria ser universal, válida para todos. Uma verdade acima das particularidades, das raças, das nações, dos mitos regionais. Tomava- se consciência de que o homem almeja, pela razão, um conhecimento válido em todo lugar. A mentalidade mítica imaginava que a qualquer momento poderiam surgir novos deuses, novos heróis e, o que é pior, novos monstros com poderes sobre-humanos. O homem vivia, pois, inseguro e temeroso da vida e da morte. Ora, a filosofia, naquele momento, veio libertar o homem da insegurança e do temor. Quem descobre a ordem universal não tem medo de nada, pois tudo está previsto. Nem os deuses podem contrariar a verdade total. O filósofo deve conhecer a verdade universal pela razão. Mas no universo existem uma variedade enorme de seres, planetas, terra, mar, fogo, vento, plantas, etc. O filósofo grego procura ordenar todos esses seres na busca de uma única lei que justificasse o seu aparecimento. Filosofar é então procurar na multiplicidade um princípio único que seja a fonte e a origem de toda essa variedade manifestada no universo. Esse anseio de uma verdade universal, que descobre a unidade na multiplicidade, será à base de todo o espírito científico do ocidente. A luminosidade do todo Os primeiros filósofos descobriram que a totalidade das coisas tem luz própria, tem uma evidencia luminosa, clara como o sol, que fala a inteligência por si mesma, sem intermediários, é fonte de conhecimento independente. Qualquer pessoa pode conhecê-la ou interpretá-la. Filosofar é basicamente, admirar a realidade tal qual ela existe; é deixá-la falar por si mesma; é saber contemplá-la sem projetar nela temores míticos e crenças fantasiosas. Enfim, filosofar é ver o relâmpago como fenômeno natural e não como vingança ou ameaça divina; é ver os fatos sociais e políticos como resultados das relações humanas. Essa nova maneira de lidar com a realidade foi o início da filosofia que até hoje 27 séculos após, procura libertar o homem das crenças e temores desumanizantes. NATUREZA E CULTURA “O homem pode adquirir conhecimento ou se tornar um animal, como ele quiser. Deus faz os animais, o homem faz a si próprio. (Georg Lichetnbery) Texto: As meninas-lobos Na índia, onde os casos de meninos-lobos foram relativamente numerosos, descobriram-se em 1920, duas crianças: Amala e Kamala, vivendo em meio a uma família de lobos. A primeira tinha um ano e meio e veio há morrer um ano mais tarde. Kamala, de oito anos de idade, viveu até 1929. Não tinham nada de humano e seus comportamentos eram exatamente semelhantes aquele de seus irmãos lobos. Elas caminhavam de quatro patas apoiando-se sobre os joelhos e cotovelos para os pequenos trajetos e sobre as mãos e os pés para os trajetos longos e rápidos. Eram incapazes de permanecer de pé. Só se alimentavam de carne crua ou podre, comiam e bebiam como os animais, lançando a cabeça para frente e lambendo os líquidos. Na instituição onde foram recolhidas, passavam o dia acabrunhadas e prostradas numa sombra; eram ativas e ruidosas durante a noite, procurando fugir e uivando como os lobos. Nunca choraram ou riram. Kamala viveu durante oito anos na instituição que a acolheu, humanizando-se lentamente. Ela necessitou de seis anos para aprender a andar e pouco antes de morrer só tinha vocabulário de cinquenta palavras. Atitudes afetivas foram aparecendo aos poucos. Ela chorou pela primeira vez por ocasião da morte de Amala e se apegou lentamente às pessoas que cuidaram dela e as outras crianças com as quais conviveu. A sua inteligência permitiu-lhe comunicar- se com outros por gestos, inicialmente, e, depois por palavras de um vocabulário rudimentar, aprendendo a executar ordens simples. (B. Reymond. Le développement social de l’enfant et de l’adolescent. Bruxelas: Dessart, 1965.12-14 pp) O relato desse fato verídico nos leva a discussão a respeito das diferenças entre o homem e o animal. As crianças encontradas na Índia não tiveram oportunidade de se humanizar enquanto viveram com os lobos, permanecendo, portanto, “animais”. Diferenças entre o homem e o animal Os animais têm ação caracterizada, sobretudo, pelos reflexos e instintos. A ação instintiva é regida por leis biológicas, idênticas na espécie e invariáveis de indivíduo para indivíduo. Os atos instintivos são “cegos”, isto é, são atividades que ignoram a finalidade da própria ação. Por outro lado, o ato humano voluntário, é consciente da finalidade, ou seja, o ato existe antes como uma forma de pensamento, uma possibilidade, e a execução é o resultado da escolha dos meios necessários para atingir os fins propostos. Uma das características marcantes da diferenciação da atividade humana para a atividade animal é a linguagem. A diferença entre a linguagem humana e do animal reside no fato de que este não conhece o símbolo, mas o índice. O índice esta relacionado de forma fixa e única com a coisa a que se refere. Por exemplo, as frases com que adestramos cães devem ser sempre a mesma, pois são índices, isto é, indicam alguma coisa. Por outro lado, o símbolo é universal e flexível consideremos a palavra cruz. Além de ser uma convenção de certa forma arbitrária (é assim em português; o inglês de diz cross, e o francês Croix). Mas a palavra cruz não tem um único sentido unívoco na medida em que faz lembrar um instrumento usado para executar os condenados à morte; pode representar o cristianismo, referir-se à morte, adquire outro significado para os roqueiros; pode significar apenas uma encruzilhada de caminhos; ou um enfeite, e assim por diante com múltiplas e infindáveis e inimagináveis significações. É pela palavra que somos capazes de nos situar no tempo, lembrando o que ocorreu no passado e prevendo o futuro pelo pensamento. Enquanto o animal vive sempre no presente, as dimensões humanas se ampliam para além de cada momento. Se a linguagem, por meio da representação simbólica e abstrata, permite que nos distanciemos do mundo, também é o que nos possibilita o retorno a ele para t ransformá-lo. Portanto, se não tivermos oportunidade de desenvolver e enriquecer a linguagem enfraqueceremos a capacidade de compreender e agir sobreo mundo que nos cerca.Na literatura, é singela, e triste, a história de Fabiano, que Graciliano Ramos retrata em Vidas Secas. A pobreza de vocabulário do protagonista prejudica a tomada de consciência da exploração a que é submetido, e a instituição da situação vivida não é suficiente para ajudá-lo a reagir de outro modo. Outra característica que os diferencia é o trabalho. O trabalho humano é uma ação transformadora da realidade, dirigida por finalidades conscientes. Ao produzir técnicas já usadas e ao inventar outras novas, a ação humana se torna uma fonte de ideias e, portanto, experiência propriamente dita. Por isso dizemos que o animal não trabalha – mesmo quando cria resultados materiais com essa atividade, pois sua ação é deliberada,intencional. Dessa forma, o animal não produz propriamente sua existência, apenas a conserva agindo instintivamente ou, quando se trata de animal de maior complexidade orgânica, resolvendo problema por meio da in - teligência concreta. Esses atos visam à defesa, a procura de alimentos e de abrigo. Assim, não devemos pensar que o castor, ao construir o dique, e o João-de-barro, a sua casinha, estejam “trabalhando”. Ao mesmo tempo em que transforma a natureza adaptando-a as necessidades humanas, o trabalho altera p próprio indivíduo, desenvolvendo suas faculdades. Enquanto o animal permanece sempre o mesmo na sua essência, já que repete os gestos comuns à espécie, nós mudamos as maneiras pelas quais agimos sobre o mundo, estabelecendo relações também mutáveis, que por sua vez alteram nossa maneira de perceber, de pensar e de sentir. Ou seja, pelo trabalho, nós nos autoproduzimos. Por ser atividade relacional além de desenvolver habilidades, o trabalho favorece a convivência que, por sua vez, não só facilita a aprendizagem e o aperfeiçoamento dos instrumentos, mas também enriquece a afetividade: experimentando emoções de expectativa, desejo, prazer, medo, inveja, aprendemos a conhecer a natureza, as pessoas e a nós mesmos. O trabalho é, portanto, condição de transcendência e, como tal, expressão da liberdade. Atingir por meio de trabalho esse patamar superior de condição de liberdade, no entanto, não depende apenas da vontade da cada um. Ao contrário, inserido no contexto social que o torna possível, o trabalho é muitas vezes instrumentos de alienação e de desumanização, sobretudo nos sistemas em que as divisões sociais privilegiam alguns e submetem a maioria ao trabalho imposto, rotineiro e nada criativo. Em vez de contribuir para a realização do ser humano, esse destrói sua liberdade. Por fim a última diferenciação entre o homem e o animal: a cultura. O mundo que resulta do pensar e do agir humanos não pode ser chamado de natural, pois se encontra transformado e ampliado por nós. Portanto, as diferenças entre pessoa e animal não são apenas de grau, porque, enquanto, o animal permanece mergulhado na natureza, nós somos capazes de transformá-la, tornando possível a cultura. A palavra cultura possui diversos significados, tais como cultura da terra ou cultura de uma pessoa let rada, culta. Em antropologia, cultura significa tudo que o ser humano produz ao construir sua existência: as práticas, as teorias, as instituições os valores materiais e espirituais. Se o contato com o mundo é intermediada pelo símbolo, a cultura é o conjunto de s ímbolos elaborados por um povo. Dada a infinita possibilidade humana de simbolizar, as culturas humanas são múltiplas e variadas: são inúmeras as maneiras de pensar, de agir, de expressar anseios, temores e sentimentos em geral. Por isso mudam as formas de trabalhar, de se ocupar com o tempo livre, mudam as expressões artísticas e as maneiras de interpretar o mundo, tais como o mito, a filosofia ou a ciência. Todas as diferenças existentes no comportamento modelado em sociedade resultam da maneira pela qual são organizadas as relações entre indivíduos. É por meio delas que se estabelecem os valores as regras de conduta que nortearão a construção da vida social, econômica e política. A cultura significa tudo o que o homem produz ao construir sua existência. Já para Freire é tudo o que o homem cria e recria. Assim, abrange conhecimentos, crenças, arte, moral,leis, costumes e quaisquer outras capacidades adquiridas socialmente pelos homens. MITO E FILOSOFIA A civilização grega se desenvolveu na Península Balcânica, a mais oriental do sul da Europa, rodeada de inúmeras ilhas. Seu relevo montanhoso facilitou a formação de grupos isolados e autônomos, como de fato foram as cidades-estados. A pouca fertilidade do solo acidentado foi compensado pela existência de ótimos portos naturais. Assim os gregos puderam desenvolver a navegação e o comércio, vitais para garantir a sobrevivência e o enriquecimento das cidades- estados. Nos séculos VI e V a.C. as polis conheceram o apogeu econômico, político e cultural. Foi exatamente nesse período glorioso que surgiu na cultura grega o confronto entre mito e filosofia. Tanto o mito quanto a filosofia são explicações que visam responder os questionamentos sobre o sentido da vi da, a natureza do homem e do universo, bem como, justificar as normas políticas, éticas e religiosas da própria comunidade. Durante um longo período da história grega, a mitologia constituiu a fonte exclusiva de explicação para existência do homem e organização do mundo. Mythos = Mytheyo (narrar) + mytheo (designar). O mito é uma narrativa imaginaria que estrutura e organiza de forma criativa as crenças culturais. As divindades constituíam os personagens que pelas divergências, int rigas, amizades e desejo de justiça, explicavam tanto a natureza humana como os resultados das guerras e os valores culturais. A narrativa grega, apesar de fantasiosa é impregnada de sabedoria e conhecimento das paixões humanas, dos problemas existenciais e da necessidade de leis que possibilitem a vida em comum. Como o mito narra à origem do mundo e de tudo o que nele existe? a) Decorrência das relações sexuais entre forças divinas pessoais; b) Por rivalidade ou aliança entre os deuses que faz surgir alguma coisa no mundo; c) Por recompensas ou castigos que os deuses dão a quem desobedece ou os obedece. Diferenças entre mito e filosofia Mito: Fixa a narrativa no passado. Filosofia: Se preocupa em explicar como e porque, no passado, no presente e no futuro. Mito: Narra à origem por meio das genealogias e rivalidades ou aliança entre forças divinas sobrenaturais e personalizadas (urano, ponto e gaia). Filosofia: Explica a produção natural das coisas por elementos e causas naturais e impessoais (céu, mar e terra). Mito: Não se importa com contradições, com o fabuloso e o incompreensível. A autoridade está na confiança religiosa do narrador. Filosofia: Não admite contradições, fabulação e coisas incompreensíveis. Condições históricas para o surgimento da filosofia Podemos apontar que as principais condições históricas para o surgimento da filosofia na Grécia foram: a) As viagens marítimas, que permitiram aos gregos descobrir que os locais que os mitos diziam habitados por deuses, titãs e heróis eram, na verdade, habitados por outros seres humanos; e que as regiões dos mares que os mitos diziam habitados por monstros e seres fabulosos não possuíam nenhum deles. As viagens produziram o desencantamento ou a desmistificação do mundo, que passou, a exigir uma explicação sobre sua origem, explicação que o mito já não podia oferecer. b) A invenção do calendário, que é uma forma de calcula o tempo segundo asestações do ano, as horas do dia, os fatos importantes que se repetem, revelando, com isso, uma capacidade de abstração nova ou uma percepção do tempo como algo natural e não como uma força divina incompreensível. c) O surgimento da vida urbana, com predomínio do comércio e do artesanato, dando desenvolvimento as técnicas de fabricação e de troca, e diminuindo o prest ígio das fam ílias da aristocracia proprietária de terras, por quem para quem os mitos foram criados; além disso, o surgimento de uma classe de comerciantes ricos, que precisava encontrar pontos de poder e de prestígio para suplantar o velho poderio da aristocracia de terras e de sangue (as linhagens constituídas pelas famílias), fez com que essa nova classe social procurasse prestígio pelo patroc ínio e estímulo as artes, as técnicas e aos conhecimentos, favorecendo um ambiente onde a filosofia poderia surgir. d) A invenção da moeda, que permitiu uma forma de troca que não se realiza como escambo ou em espécie (isto é, coisas trocadas por outras coisas) e sim uma troca abstrata, uma troca feita pelo cálculo do valor semelhante das coisas diferentes, revelando, portanto, uma nova capacidade de abstração e de generalização. e) A invenção da escrita alfabética, que, como a do calendário e da moeda, revela o crescimento da capacidade de abstração e generalização, uma vez que a escrita alfabética, diferente de outras escritas (como por exemplo, dos hieróglifos dos egípcios ou os ideogramas dos chineses), supõe que não se represente uma imagem da coisa que está sendo dita, e sim se ofereça um sinal ou signo abstrato dela. Além disso, enquanto nas outras escritas, para cada sinal corresponde uma coisa ou uma ideia, na escrita alfabética ou fonética as letras são independentes e podem ser combinadas de formas variadas em palavras e estas podem ser distribuídas de varias formas para exprimir ideias, ou seja, nas outras escritas o signo representa a coisa assinalada, enquanto na escrita alfabética a palavra designa uma coisa e exprime uma ideia. Nas outras escritas, há tendências em sacralizar os sinais ou os signos, ou a lhes dar um caráter mágico (acredita-se que eles são as coisas assinaladas e que neles se encarnam forças divinas e demoníacas, de maneira que quem sabe escrever ou usar os sinais tem poder sobre as coisas e sobre os outros.), enquanto a escrita alfabética é inteiramente leiga, abstrata, racional e usada por todos. f) A invenção da política, centralizada na ágora (praça pública), espaço onde se debatem os problemas de interesse comum. Separam-se na polis o domínio público e o privado: isto significa que ao ideal do valor de sangue, restrito a grupos privilegiados em função do nascimento ou da fortuna, se sobrepõe a justa distribuição dos direitos dos cidadãos enquanto representantes dos interesses da cidade. Está sendo elaborado o novo ideal de justiça, pelo qual todo cidadão tem direito ao poder. A polis se faz pela autonomia da palavra, não mais a palavra mágica dos mitos, palavra dada pelos deuses e, portanto, comum a todos, mas a palavra humana do conflito, da discussão e da argumentação. O saber deixa de ser sagrado e passa a ser objeto de discussão. HISTÓRIA DA FILOSOFIA Período Pré-socrático (Século VIII a.C. a V a.C.) Características: A filosofia desenvolveu-se inicialmente nas colônias gregas da Jônia e do sul da Itália peninsular e Sicília. Predomínio do problema cosmológico: busca-se a arché, ou seja, o princípio de todas as coisas, a origem do mundo. A physys ( o elemento primordial eterno, ou seja, a natureza eterna em profunda perene transformação) torna-se o objeto da pesquisa e indagação. Os físicos da Jônia, também chamados fisiólogos, são os primeiros filósofos gregos que tentam explicar a natureza material e o princ ípio do mundo e de todas as coisas por meio dos seguintes elementos: Água (Tales de Mileto); Ar (Anaxímenes); Apeíron (Anaximandro); Devir ou Vir-a-ser (Heráclito); Ser (Parmênides); Ar, água, terra e fogo (Empédocles); Homeomerias (Anaxágoras); átomo (Demócrito); números (Pitágoras) Período Socrático ( Século V a IV a.C.) Características: O advento do governo democrático em Atenas enseja a formação de cidadãos participativos: transformar os habitantes da polis em políticos, indivíduos habilitados a tomar parte das decisões no processo democrático, por meio da Paidéia (formação integral e harmônica do homem pela educação). Dessa forma, o centro de interesse se desloca da natureza para o homem. Predomínio do problema antropológico. Os filósofos elegem o ser humano como objeto de pesquisa. A filosofia engloba um número crescente de problemas e se converte, sobretudo com Aristóteles, em um saber enciclopédico (abarca física, biologia, psicologia, metafísica, ética, política, poética, etc.) Período Pós-Socrático (Século IV a.C. a V d.C) Características: A filosofia transforma-se em um modo de vida: forte preocupação com a salvação e a felicidade, que passam a ser vistas como passiveis de alcançar de forma individual e subjetiva, por meio de conjunto de regras morais. Predomínio da ética, que passa a exercer a função desempenhada outrora pelos mitos religiosos (etapa helenística). Surgimento de pequenas escolas filosóficas. A filosofia perde seu vigor, tornando-se repetitiva e pouco criativa (etapa romana). Patrística ( Século I a V) Características: Encontro da filosofia grega com o cristianismo. Primeira elaboração filosófica dos conteúdos do cristianismo pelos padres da igreja, o que explica o nome patrística dado ao período. Nesse período, a questão central reside na necessidade de conciliação das exigências da razão com a revelação divina. Patrística (século V a VIII) Características: Na idade média, a filosofia se separa a teologia, porém, as duas mantêm relações, podendo-se afirmar que a filosofia é um instrumento a serviço da teologia. O tema central é a tentativa de conciliar razão e fé. De maneira simplista, é possível dividir a filosofia medieval em dois grandes períodos: A filosofia patrística e a filosofia escolástica. A patrística procede e prepara a escolástica medieval, e sua principal característica reside no seu caráter apologético: é preciso defender os ideais cristãos perante os pagãos e convertê-los. Presencia-se a retomada a filosofia platônica, especialmente por Santo Agostinho, bem como, do neoplatonismo. Escolástica (Século VIII a XV) Características: O termo escolástica designa a filosofia ministrada nas escolas cristãs ( de catedrais e conventos) e posteriormente nas universidades. A patrística retoma a filosofia platônica, a filosofia escolástica retoma a filosofia aristotélica, nela encontrando seus fundamentos e os elementos necessários para seu desenvolvimento. Santo Tomás de Aquino elabora a síntese magistral do cristianismo com o aristotelismo, fornecendo as bases filosóficas para a teologia cristã: surge a filosofia aristotélico- tomista. Compatibilizar a fé e a razão continua ser o problema central da escolástica. Renascimento ( Século XV a XVI) Características: A filosofia medieval se caracteriza por ser religiosa, dogmática, clerical e fundamentada no principio da autoridade. A filosofia moderna, por sua vez, é profana, leiga, e encontra na razão e na ciência seus pressupostos fundamentais. O renascimento é marcado por uma profunda revolução antropocêntrica: durante esse período instaura-se uma polêmica contra o pensamento medieval (essencialmente teocêntrico) preparando o caminho para o pensamento moderno, para o qual a natureza física eo homem tornam-se o tema central. Revalorização da antiguidade clássica (filosofia Greco-romana), buscada em fontes originais. Propõe um novo modelo de homem – considerando um microcosmo – e um novo modelo de estado. Grande interesse pela epistemologia (teoria do conhecimento). Galileu Propõe o método experimental, assentando as bases da ciência moderna. Racionalismo ( Século XVII) Características: Formulação dos grandes sistemas filosóficos que t raduzem o espírito dos novos tempos, agrupados em duas correntes divergentes: o racionalismo, que privilegia a verdade da razão, e o empirismo, que destaca a validade do puramente fático, isto é, as impressões sensíveis como ponto de partida do conhecimento. Nesse período, a física (Newton) e a química (Lavoisier) se separam da filosofia. Iluminismo ( Século XVIII) Características: Movimento filosófico, literário e político que visa combater o absolutismo, a influência da igreja e da tradição, considerando a razão como único meio para se atingir a completa sabedoria. Dessa forma, as ideias modernas tomam “Fôlego” e se expandem: a confiança na razão do século anterior é acompanhada agora por um crescente espírito crítico (racionalismo exacerbado – “luzes da razão” contra as “trevas da ignorância”. Sonha-se com um homem universal e ideal que concilie natureza e razão, defensor dos direitos humanos, e difusor da cultura. A biologia se separa da filosofia. Século XIX Características: Valorização da ciência e extensão do método cient ífico a outras disciplinas. Confiança no progresso indefinido – material e moral – da humanidade. As correntes filosóficas que predominam no período são o positivismo ( muito próximo do âmbito científico) e o socialismo em todas as suas formas, no contexto da filosofia política. Desdobramento do idealismo Kantiano. A psicologia (Wundt) e a sociologia (Comte) se separam da filosofia e se tornam ciências independentes, dando início a formação das ciências humanas. Século XX Características: pluralidade de correntes filosóficas: neopositivismo, racionalismo, transpositivismo, fenomenologia, existencialismo, hermenêutica, filosofia da vida, neo-escolástica, neokantismo, estruturalismo, escola de Frankfurt, arqueologia, etc. Ciência como tema central dos filósofos. Destaque para a epistemologia. TEORIA DO CONHECIMENTO “Necessário é dizer e pensar que só o ser é, pois o ser é, e o nada, ao contrário, nada é: afirmação que bens deves considerar. Desta via de investigação eu te afasto; mas também daquela outra, na qual vagueiam os mortais que nada sabem, cabeças duplas. Pois é a ausência de meios que move, em seu peito, o seu espírito errante. Deixam-se levar, surdos e cegos, mentes obtusas, massa indecisa, para a qual o ser e o não ser é considerando o mesmo e não o mesmo, e para a qual em tudo há uma via contraditória” (Parmênides) Os primeiros pensadores que dão a expressão filosófica ao problema da existência de uma causa suprema de todas as coisas são os filósofos Jônios: Tales, Anaximandro, Anaxímenes, todos eles de Mileto, na Ásia menor, as margens do mar Egeu. Todos eles viveram entre os séculos VII e V a.C. I – Tales de Mileto: Nasceu (623-546 a.C.) na cidade de Mileto, sendo considerado o pai da filosofia grega e de toda a filosofia ocidental. Pelo que se sabe, Tales foi o primeiro pensador que se pôs expressa e sistematicamente a pergunta: “Qual é a causa última, o princ ípio supremo de todas as coisas?” a pergunta justifica-se pelo fato de que, apesar da aparente diversidade, há em todas as coisas algo de comum: em todas as coisas observáveis encontra-se água, terra, ar e fogo. E concluiu que a água é o princípio único do qual se originam. Por que Tales teria escolhido a água ou o úmido como Physis? Os autores oferecem varias razões para essa escolha, baseando-se naqueles que expuseram as opiniões dos filósofos de Mileto: a) A água apresenta-se sob as mais variadas formas em todos os estados em que vemos os corpos da natureza: l íquido, sólido e gasoso. Vemos a água passar de um estado a outro, de uma forma ou outra, num processo cont ínuo no qual mantém a identidade consigo mesma. O fenômeno da evaporação faz pensar que a água é causa da terra e de tudo o que nela existe. b) A água esta diretamente vinculada a vida: as sementes, o sêmen animal e humano são úmidos ( O cadáver em putrefação é uma umidade que vai se ressecando). As coisas mortas secam, as sementes são úmidas, o alimento suculento. c) A existência de fosseis de animais marinhos descobertos nas montanhas e em grandes altitudes teria levado Tales a considerar que, no inicio, tudo era água e que a vida animal fora causada pela água. II – Anaximandro: Nascido em Mileto pouco depois de Tales, como ele, matemático, astrônomo e filósofo, Anaximandro interroga-se, como Tales sobre a questão da unidade do princ ípio. Mas dá a esta questão uma resposta surpreendente: o princípio de todas as coisas, o elemento primordial, não pode ser uma coisa determinada como a água, terra, o fogo ou o ar, porque o que se quer explicar é justamente a origem das coisas determinadas. O princípio primeiro deve ser alguma coisa indeterminada (Apeíron). Nesse sentido, ele afirmava que o princ ípio das coisas é o ilimitado, sendo o primeiro a introduzir o termo “princípio”. E dizia que não era nem água, nem outro dos chamados elementos, mais outra natureza (infinita), da qual provem todos os céus e os mundos que nele existem. Assim, se exprime Anaximandro em sua linguagem poética. Evidentemente, tendo observado a t ransformação dos quatro elementos um no outro, Anaximandro não quis por um deles como substrato, mas alguma coisa além deles. III – Anaxímenes: Discípulo de Anaximandro é o terceiro celebre filosofo de Mileto. Anaxímenes põe como princípio primordial de todas as coisas o ar. Do ar procedem todos os outros elementos e, por consequência todas as coisas. A escolha do ar seria possivelmente por quê? a) Ao contrario da água, que precisa de um suporte ou um continente, o ar sustenta-se a si mesmo: possui uma autonomia ou auto- suficiência, própria de um fundamento ou um princ ípio b) Sua presença e sua difusão são ilimitadas, podendo compor todas as coisas. c) É o primeiro ato de um ser vivo e também o último, antes de morrer, sendo por isso o princípio vital. O mundo é um ser vivo que respira e que recebe do sopro originário a unidade que o mantém. IV – Heráclito: Nasceu (544-484 a.C.) em Éfeso. De seus escritos restaram pouquíssimos fragmentos; destes segue-se que o que mais impressionou a Heráclito não foi à experiência do múltiplo, que tanto impacto causara em seus concidadãos como Tales, Anaximandro e Anaxímenes, mas a experiência do devir, tudo é vir-a-ser, tudo muda, tudo se transforma. O mundo, o homem e as coisas estão em incessante transformação. “As coisas são como um rio, não há nada permanente”. Heráclito é considerado o primeiro grande representante do pensamento dinâmico da transformação. O mundo tem aparência ordenada, estável e equilíbrio/ se é logos, isto é, racional, pensável, inteligível é porque opera por medidas. O devir é uma sucessão na qual a quantidade da matéria de alguma coisa permanente constante, mas sua substância e sua forma mudam no seu contrário, segundo medidas ou proporções. De modo poético-oracular, Heráclito afirma que, sem cessar, o fogo está sempre se acendendo em medidas iguais as que vão se apagando. O fogo primordial exala sua chama e apaga mantendo a proporção de cada coisa ( se pensarmos nos fenômenos de evaporaçãoda água sobre a ação do calor do sol, da condensação dos vapores sob a forma de nuvens e sua liquefação em forma de chuvas, teremos certa noção do que Heráclito entende por medidas). V – Parmênides: (540 a 470 a.C.), viveu em Eléia, cidade do sul da Magna Grécia (atual Itália) e é o principal expoente da chamada escola eleática. Elaborou importantíssima teoria filosófica na medida em que influenciou de forma decisiva o pensamento ocidental. Ocupou-se longamente em criticar a filosofia heraclitana: ao “tudo flui” (panta rei) de Heráclito, contrapôs a imobilidade do ser. Para Parmênides é absurdo e impensável considerar que uma coisa pode ser e não ser ao mesmo tempo. À contradição opõe o principio segundo o qual o “ser é” e o “não ser não é”. Mais tarde os lógicos chamarão a isto princ ípio da identidade, base de toda construção metafísica posterior. Parmênides concluiu, a partir do principio estabelecido, que o ser é único, infinito, imóvel. Não há, entretanto, como negar a existência do movimento no mundo que percebemos, onde as coisas nascem, morrem, mudam de lugar e se expõe em infinita multiplicidade. Para Parmênides, o movimento existe apenas no mundo sensível, e a percepção levada a efeito pelos sentidos é ilusória. Só o mundo inteligível é verdadeiro, pois está submetido ao princípio que hoje chamamos de identidade e de não- contradição. Os Sofistas O Referente período filosófico (século V a IV a.C.) é fruto de dois deslocamentos geográfico-político; outro, intelectual. O primeiro é o deslocamento da filosofia das colônias gregas da Ásia menor e da Magna Grécia para a Grécia ocidental para a Ática e, mais precisamente para Atenas, que, desde o final da guerra contra os persas (da qual saíra vitoriosa), consolida as instituições democráticas e desenvolve seu poderio econômico e militar. O segundo, que se inicia com os sofistas e Sócrates, consistem na mudança do centro da reflexão filosófica que deixa de ocupar-se com a formação do cidadão e do sábio virtuoso, voltando-se para os temas políticos, éticos e da teoria do conhecimento. A Pólis e os humanos tornam-se os objetos filosóficos por excelência. O período pré-socrático foi dominado em grande parte, pela investigação da natureza. Era a busca de explicações racionais para o universo, manifestada na procura de um princ ípio primordial (arché) para todas as coisas existentes. Seguiu- se a esse período uma nova fase filosófica, caracterizada pelo interesse no próprio homem e nas relações do homem com a sociedade. Essa nova fase foi marcada, no início pelos sofistas. Etimologicamente, o termo sofista significa sábio. Entretanto, com o decorrer do tempo, ganhou o sentido de impostor, devido, sobretudo, as críticas de Platão. Porém, os historiadores da Grécia e da filosofia, consideraram os sofistas fundadores da pedagogia democrática, mestres na arte da educação do cidadão, ou seja, eram professores viajantes que, por determinado preço, vendiam ensinamentos práticos da filosofia. Levando em consideração os interesses dos alunos, davam aulas de eloquência. Ensinavam conhecimentos úteis para o sucesso nos negócios públicos e privados. O momento histórico vivido pela civilização grega favoreceu o desenvolvimento desse tipo de atividade praticada pelos sofistas. Era uma época de lutas políticas e intenso conflito de opiniões nas assembleias democráticas. Por isso, os cidadãos mais ambiciosos sentiam a necessidade de aprender a arte de argumentar em público para, manipulando as assembleias, fazerem prevalecer os seus interesses individuais e de classe. As lições dos sofistas tinham como objetivo, portanto o desenvolvimento do poder da argumentação, da habilidade retórica, do conhecimento de doutrinas divergentes. Eles transmitiam, enfim, todo um jogo de palavras, raciocínios e concepções que seriam utilizados na arte de convencer as pessoas driblando os adversários. Todas essas características dos ensinamentos dos sofistas favorecem o surgimento de concepções filosóficas relativistas sobre as coisas. Segundo essa concepção, não haveria uma verdade única, absoluta. Tudo seria relativo ao homem, ao momento, a um conjunto de fatores e circunstâncias. Pode-se falar em três gerações de sofistas. A primeira, dos criadores Protágoras de Abdera e Górgias de Leontini. A Segunda, dos propagadores: Pródigos de Quios e Hípios de Élis. A terceira, dos meros epígonos, isto é, seguidores que imitam os primeiros, sem grande capacidade crítica e inventiva. Com esta terceira geração, a sofística vai deixando de ser propriamente e uma retórica e uma dialética para tornar-se uma erística, isto é, o gosto da discussão pela simples discussão, invenção de argumentos pró e contra sem qualquer finalidade. Por isso, neste texto vamos nos deter na primeira geração. Sócrates: nascido em Atenas, Sócrates (469-399 a. C.) é tradicionalmente considerado um marco divisório da história da filosofia grega. Por isso, os filósofos que o antecedem são chamados de pré- socráticos e os que o sucederam, de pós- socráticos. O próprio Sócrates, porém não deixou nada escrito e o que se sabe dele e de seu pensamento vem dos textos de seus discípulos e de seus adversários. Conta-se que Sócrates era filho de um escultor e de uma parteira. Uma dupla herança que, simbolicamente, o levou a esculpir uma representação autêntica do homem fazendo-o dar a luz suas próprias ideias. O estilo de vida de Sócrates assemelhava-se, exteriormente, aos dos sofistas, embora não “vendesse” seus ensinamentos. Desenvolvia o saber filosófico em praças públicas, conversando com os jovens, sempre dando demonstrações de que era preciso unir a vida concreta ao pensamento. Unir o saber ao fazer, a consciência intelectual à consciência prática ou moral. O autoconhecimento era dos pontos fundamentais da filosofia socrática. “Conhece-te a ti mesmo”, frase escrita no templo de Apolo era a recomendação básica feita por Sócrates a seus discípulos. Sua filosofia era desenvolvida mediante diálogos críticos com seus interlocutores. Esses diálogos podem ser divididos em dois momentos básicos: a Ironia e a Maiêutica. A Ironia: na linguagem cotidiana, a ironia tem um significado depreciativo, sarcástico ou de zombaria. Mas não é esse o sentido da ironia socrática. No grego, ironia quer dizer interrogação. De fato, Sócrates interrogava seus interlocutores sobre aquilo que pensavam saber: o que é o bem? O que é a justiça? O que é a piedade? O que é a coragem? . Com habilidade de raciocínios, procurava evidenciar as contradições afirmadas, os novos problemas que surgia a cada resposta. Seu objetivo inicial era demolir nos discípulos, o orgulho, a arrogância e a presunção do saber. A primeira virtude do sábio é adquirir consciência da própria ignorância “sei que nada Sei” dizia Sócrates. A ironia socrática tinha um caráter purificador na medida em que levava os discípulos a confessarem suas próprias contradições e ignorância, onde antes só julgavam possuir certezas e clarividências. Nesta fase do dialogo, a intenção fundamental de Sócrates não era propriamente destruir o conteúdo das respostas dadas pelos interlocutores, mas fazê-los tomar consciência profunda de suas respostas, das consequencias que poderiam ser tiradas de suas reflexões, muitas vezes repletas de conceitos vagos e imprecisos. A Maiêutica: libertos do orgulho e da pretensão de que tudo sabiam, os discípulos podiam então iniciar o caminho da reconstrução de suas próprias ideias. Novamente Sócrates lhes propunha uma série de questões habilmentecolocadas. Nesta segunda fase do dialogo, o objetivo de Sócrates era ajudar seus discípulos a conceberem suas próprias ideias. Platão: Nascido em Atenas, Platão (427 – 347 a.C. ) pertencia a uma das mais nobres famílias atenienses. Seu nome de origem era Aristocles, mas, devido, a sua constituição física, recebeu o apelido de Platão, termo grego que significa de ombros largos. Platão foi discípulo de Sócrates, a quem considerava o mais sábio e o mais justo dos homens. Depois da morte de seu mestre, empreendeu inúmeras viagens, num período em que ampliou seus horizontes culturais e amadureceu suas reflexões filosóficas. Platão criou uma alegoria, conhecida como mito da caverna, que serve para explicar a evolução do processo de conhecimento. Segundo, ele a maioria dos seres humanos se encontra prisioneira de uma caverna, permanecendo de costas para abertura luminosa e de frente para a parede escura do fundo. Devido a uma luz que entra na caverna, o prisioneiro contempla na parede do fundo as projeções dos seres que compõe a realidade. Acostumados a ver somente essas projeções, assume a ilusão do que vê, as sombras do real, como se fosse a própria realidade. Ainda para Platão, a primeira etapa de conhecimento é dominada pelas impressões ou sensações advindas dos sentidos. Essas impressões sensíveis são responsáveis pela opinião que temos da realidade. A opinião (doxa, em grego) representa o saber que temos sem tê- lo procurado metodicamente. O conhecimento, entretanto, para ser autêntico, deve ultrapassar a esfera das impressões sensoriais, o plano da opinião, e penetrar na esfera mundo das ideias. Para atingir esse mundo, o homem não pode ter apenas amor às opiniões (filodoxia); precisa possuir um amor ao saber (filosofia). O caminho proposto por Platão para atingir o conhecimento autêntico (epistéme) é a dialética. No que consiste, basicamente, a dialética? Consiste na contraposição de uma opinião com a crítica que dela podemos fazer, ou seja, na afirmação de uma tese qualquer seguida de uma discussão e negação desta tese, com o objetivo de purificá-la dos erros e equívocos. Aristóteles: Nascido em Estagira, na Macedônia, Aristóteles (384-322 a.C.) foi um dos mais importantes gregos na antiguidade. Há informações de que teria escrito mais uma centena de obras, sobre os mais variados temas, das quais restam 47. Desempenhou extraordinário papel na organização do saber grego, acrescentando-lhe sua genial contribuição que influenciou decisivamente a história do pensamento ocidental. Segundo, Aristóteles a finalidade básica das ciências seria desvendar a constituição essencial dos seres percebidos pelos sentidos. Assim, tudo o que vemos, pegamos, ouvimos e sentimos é aceito como elemento da realidade sensível. Portanto, rejeitava a teoria das ideias de Platão, segundo a qual os dados transmitidos pelos sentidos não passam de distorções, sombras ou ilusões da verdadeira realidade existente no mundo das ideias. Para Aristóteles, a observação da realidade leva-nos a constatação da existência de inúmeros seres individuais, concretos, mutáveis, que são captados por nossos sentidos. A indução (operação mental que vai do particular para o geral) representa, para Aristóteles, o processo intelectual básico de aquisição do conhecimento. Ela possibilita ao ser humano atingir conclusões cient íficas de âmbito universal, a partir do trabalho metódico com outros dados sensíveis – que sempre se apresentam seres individuais, concretos e únicos. A Patrística Desde que surgiu o cristianismo, tornou- se necessário explicar seus ensinamentos as autoridades romanas e o povo em geral. Mesmo com o estabelecimento e a consolidação da doutrina cristã, a igreja católica sabia que esses preceitos não podiam simplesmente ser impostos pela força. Eles tinham de ser apresentados de maneira convincente, mediante um trabalho de conquista espiritual. Foi assim que os primeiros padres da igreja se empenharam na elaboração de inúmeros textos sobre a fé e as revelações cristãs. O conjunto desses textos ficou conhecido como patrística, inspirada na filosofia Greco- romana, tentou munir a fé de elementos racionais. Esse projeto de conciliação entre o cristianismo e o pensamento pagão teve como principal expoente santo Agostinho. Aureliano Agostinho (354-430) nasceu em Tagaste, província romana situada na África e faleceu em Hipona, hoje localizada na Argélia. Nesta cidade ocupou o cargo de bispo da igreja católica. Até completar 32 anos, Agostinho não era cristão. Teve uma vida voltada aos prazeres do mundo. De uma ligação amorosa il ícita para a época, nasceu-lhe o filho Adeodato. Foi professor de retórica em escolas romanas. Em sua trajetória intelectual, Agostinho sentiu-se despertado para a filosofia pela leitura de Cícero. Posteriormente, deixou-se influenciar pelo maniqueísmo, seita persa que afirmava ser o universo dominado por dois grandes princípios opostos, o bem e o mal, mantendo uma luta incessante entre si. Mais tarde já insatisfeito com o maniqueísmo viajou para Roma e Milão, entrando em contato com neoplatonismo, que, na época, tinha como característica o ceticismo. Cresceu e se aprofundou em Agostinho uma grande crise existencial, uma inquietação quase desesperada em busca pelo sentido para vida. Foi nesse período critico que ele se encontrou com santo Ambrósio, bispo de Milão, se sentido extremamente atraído pelas pregações. Agostinho defendeu a superioridade da alma humana, a supremacia do espírito sobre o corpo, a matéria. A alma foi criada por Deus para reinar sobre o corpo, para dirigi -lo a pratica do bem. O homem pecador, entretanto, utilizando-se do livre-arbítrio, costuma inverter essa relação fazendo o corpo assumir o governo da alma. Provoca, com isso, a submissão do corpo a matéria, equivalente a subordinação do eterno ao transitório, da essência a aparência. Mas a verdadeira liberdade esta na harmonia das ações humanas com a vontade de Deus. Ser livre e servir a Deus, pois o prazer de pecar é a escravidão. Escolástica No século VIII, Carlos Magno resolveu organizar o ensino por todo o seu império e fundar escolas ligadas às instituições católicas. A cultura Greco-romana, guardada nos mosteiros até então, voltou a ser divulgada, passando a ter influência mais marcante nas reflexões da época. Tendo a educação romana como modelo, começaram a ser ensinadas as seguintes matérias: gramática, retórica e dialética (trivium) e geometria, aritmética, astronomia e música (quadrivium). Todas elas estavam, no entanto, submetidas à teologia. A fundação dessas escolas e das primeiras universidades no século XI fez surgir uma produção filosófico-teológica denominada escolástica. A partir do século XIII, o aristotelismo penetrou de forma profunda no pensamento escolástico, marcando definitivamente. Isso se deveu a descoberta de muitas obras de Aristóteles, desconhecidas até então, e a tradução para o latim de algumas delas, diretamente do grego. A busca da harmonização entre fé cristã e a razão manteve-se, no entanto, como problema básico de especulação filosófica. Tomas de Aquino (1221-1274) nasceu em Nápoles, sul da Itália, e faleceu no convento fossanuova, próximo de sua cidade natal. É considerado o maior filosófico da escolástica medieval. Inserida no movimento escolástico, a filosofia de Tomás de Aquino já nasceu com objetivos claros: não contrariar a fé. De fato, a finalidade de sua filosofia era organizar um conjunto de argumentos para demonstrar e defenderas revelações do cristianismo. Idade Moderna e contemporânea. RENÉ DESCARTES ( Racionalismo) “Eu existo porque penso” René Descartes ( 1596 – 1650), filósofo francês, e reconhecidamente o “pai da filosofia moderna”, é o principal representante do racionalismo, cujos fundamentos se encontraram em suas obras Discurso sobre o método e Meditações metafísicas. Movido pelo espírito cient ífico da época e apoiado na matemática, uma de suas paixões, descartes encaminha suas reflexões filosóficas em direção à verdade. A percepção de que o homem se engana com facilidade e de que os conhecimentos provenientes dos sentidos são muitas vezes duvidosos, impulsiona Descartes na busca de certezas inabaláveis. Dessa maneira m, ele encontra na dúvida um caminho seguro para encontrar a verdade: “Converte a dúvida em método. Começa duvidando de tudo, das afirmações do senso comum, dos argumentos da autoridade, do testemunho dos sentidos, das informações da consci6encia, das verdades deduzidas pelo raciocínio, da realidade do mundo exterior e da realidade do seu próprio corpo” ( Aranha e Martins, 1986: 166). A dúvida metódica conduz Descartes a um primeiro conjunto de verdades: “Eu duvido, isso é certo. Se duvido, é porque eu penso, isso também é certo. Se penso, eu existo: é certo que eu existo porque penso”. Cogito, ergo sum, isto é, “Penso, logo, existo”: eis a primeira certeza cartesiana, da qual é possível ter-se uma idéia clara e distinta. O Cogito cartesiano ( “eu penso”) fundamenta a possibilidade da ciência: admitem-se como verdade apenas idéias claras e distintas. A evidência racional é o critério que deve guiar todo ser humano na construção do conhecimento. Assim, é possível perceber a ênfase no sujeito conhecedor - todo conhecimento resulta exclusivamente do próprio ato de pensar. Nesse sentido, as idéias são inatas, não porque os homens já nascem com elas, mas sim porque elas resultam do próprio ato de pensar. As idéias claras e distintas representam o conteúdo possível do conhecimento humano sobre o real. O real só pode ser conhecido a partir das idéias que resultam da atividade do pensamento. Apenas o uso correto da razão garante um conhecimento evidente e certo. “Minhas idéias provêm das experiências sensíveis” FRANCIS BACON ( Empirismo) Se para o racionalismo ( do latim ratio, “razão”) a origem do conhecimento se encontra na razão, instrumento único e exclusivo capaz de conhecer a verdade, para o empirismo ( do grego empeiria, “experiência”) a mente humana é uma folha de papel em branco preenchida exclusivamente com os dados provindos da experiência sensível, externa ou interna. Francis Bacon ( 1561- 1626), filósofo inglês, é um dos representantes do empirismo, bem como o defensor de um novo caminho para se fazer ciência, at ravés do método indutivo experimental. Em sua obra Novum Organum ( Novo Instrumento), se opõe à lógica aristotélica, essencialmente dedutiva, e propõe a indução como um novo instrumento do pensamento, ou seja, como método de descoberta da realidade fenomenal. Ele é considerado um dos fundadores do pensamento moderno por ter sido o primeiro a expor de forma sistemática o método indutivo, contribuindo positivamente para o desenvolvimento das ciências da natureza – física, química, biologia, etc. No âmbito das ciências modernas, Bacon cumpre um papel orientador, por sua ação contra os preconceitos e as falsas noções, denominados ídolos, que acabam por dificultar a tarefa de conhecer e compreender a realidade, de fazer ciência e ter acesso à verdade. Uma vez destruídos os ídolos, é possível fazer ciência, utilizando um novo método de investigação da natureza, denominado indução, a principal contribuição de Bacon para a evolução do pensamento epistemológico moderno. JOHN LOCKE ( Empirismo) John Locke ( 1632 – 1704), também filósofo inglês, expõe em sua obra Ensaio acerca do entendimento humano, os fundamentos do empirismo. Tem como finalidade principal “investigar a origem, certeza e extensão do conhecimento humano”. Para Locke, a mente humana é uma folha de papel em branco (tabula rasa) e todas as idéias têm origem em duas fontes, a sensação e a reflexão. Em primeiro lugar, os sentidos percebem os objetos sensíveis e imprimem na mente as imagens desses objetos. Nisso consiste a sensação, uma experiência externa, primeira fonte das idéias para efetivar o conhecimento humano. Em segundo lugar, as operações da própria mente sobre as idéias que já possui constituem a Segunda fonte das idéias, denominada reflexão, uma experiência interna, que consiste na percepção das operações que a própria mente realiza - “a percepção, o pensamento, o duvidar, o crer, o raciocinar, o conhecer, o querer e todos os diferentes atos de nossas próprias mentes” ( Locke, 1973: 166). Para Locke, não há idéias inatas, como afirmava Descartes. O conhecimento só ocorre por meio das experiências sensíveis. Só é possível conhecer aquilo que é inicialmente percebido e registrado pelos sentidos, que fornecem material para o trabalho posterior da razão. DAVID HUME (Empirismo) David Hume(1711 – 1776 – sua teoria do conhecimento encontra-se na primeira das três partes do Tratado da Natureza Humana, escrito aos vinte e cinco anos; resumida num Sumário do mesmo, opúsculo polêmico publicado logo após; e na Investigação Acerca do Entendimento Humano, vindo à luz dez anos depois. O ponto de partida é uma classificação de tudo aquilo que se dá a conhecer como sendo de dois tipos: impressões e idéias. As impressões são os dados fornecidos pelos sentidos, sejam internas – como a percepção de um estado de tristeza -, sejam externas, como a visão de uma paisagem ou a audição de um ruído. As idéias são representações da memória e da imaginação e resultam das impressões como suas cópias modificadas; podem ser associadas por semelhança, contigüidade espacial e temporal e causalidade. Em suma, trata-se de um novo passo em relação à teoria de John Locke, segundo a qual a mente é uma tábua rasa, uma folha de papel em branco, em que são impressos caracteres através dos mecanismos da experiência sensível. Cegos ou surdos de nascença não possuem esses caracteres, ou seja, não têm idéias correspondentes às cores ou aos sons, e um ser completamente desprovido dos sentidos jamais seria capaz de qualquer conhecimento. A essa concepção dá-se o nome de empirismo psicológico, por constituir uma teoria do conhecimento baseada na análise das funções subjetivas nele envolvidas. Uma conseqüência é o chamado empirismo lógico, desenvolvido por filósofos posteriores, mas cujas bases já se encontram em David Hume. O empirismo lógico consiste na afirmação de que as palavras só têm significado na medida em que se referem a fatos concretos. Immanuel Kant Immanuel Kant ( 1724 – 1804), filósofo alemão, foi um dos principais representantes doiluminismo. Em três de suas obras, Crítica da razão pura (1781), Crítica da razão prática ( 1788) e Crítica da faculdade de julgar ( 1790), submeteu a razão a um exame criteriosos para verificar a possibilidade, o alcance e os limites da razão como instrumento de acesso ao conhecimento. Daí a sua filosofia ser também denominada de “criticismo kantiano”. Em suas obras Crítica da razão pura, Kant reconheceu a exist6encia de dois tipos de conhecimento: o conhecimento empírico ou a posteriori, obtido por meio da experiência sensível, e o conhecimento puro ou a priori, que independe da experiência e das impressões dos sentidos, produzindo juízos necessários e universais “ “alinha reta é a dist6ancia mais curta entre dois pontos” - tal juízo se refere a toda e qualquer linha reta ( daí a universalidade), bem como, sob qualquer circunstância, a linha reta é sempre a mais curta ( daí a necessidade). Kant também fez uma distinção entre juízos analíticos e juízos sintéticos. Os juízos analíticos são aqueles em que o predicado já está contido no sujeito: “o t riângulo tem três ângulos”; “todo solteiro não é casado”; “todos os corpos são extensos”. Tais juízos são a priori ( não dependem da experiência ) universais e necessários. No entanto, não trazem informações novas sorte o sujeito não enriquece o conhecimento, apenas tornam mais claro aquilo que já se sabe sobre o sujeito. Os juízos sintéticos são aqueles em que o predicado acrescenta informações novas sobre o sujeito, ampliando o conhecimento: “todos os corpos são pesados”; “os corpos se movimentam”. A extensão dos corpos é evidente. Peso e movimento são predicados obtidos pela experiência. Portanto, os juízos sintéticos são a posteriori (dependem da experiência dos sentidos) contingentes particulares. A contribuição inovadora de Kant residiu nos juízos sintéticos a priori: independem da experiência; portanto, são universais e necessários; enriquecem, ampliam e fazem o conhecimento progredir. Tais são os juízos com os quais a matemática e a física trabalham. Como se formulam os juízos sintéticos a priori? Para Kant, não é o objeto que determina o conhecimento do sujeito. Pelo contrário, é o sujeito quem produz o conhecimento, a partir de princ ípios a priori que sintetizam os dados empíricos. Kant atribuiu ao sujeito a elaboração do conteúdo do conhecimento por intermédio de condições subjetivas que são as faculdades e suas respectivas formas a priori de espaço e tempo; o entendimento e as categorias de unidade, pluralidade, totalidade, realidade, negação, limitação, substância, causalidade, comunidade, possibilidade, exist6encia e necessidade. Assim, o conhecimento começa com as experiências sensíveis que atingem os sentidos: a matéria do conhecimento são as impressões que o sujeito recebe dos objetos exteriores, de maneira desorganizada, desordenada. Esses dados empíricos são organizados mental e logicamente pelo espaço e tempo, formas a priori da sensibilidade. Para Kant, espaço e tempo não são propriedades inerentes aos objetos, mas estruturas subjetivas que permitem ao sujeito intuir os objetos. Essas intuições são pensadas pelo entendimento, também a partir de categorias apriorísticas, dando origem aos conceitos. Para Kant, não é possível o conhecimento das ess6encias, das coisas em si mesmas (noúmena), mas apenas dos fenômenos (phaenómena), daquilo que se manifesta à consciência. Já que o conhecimento é um processo de síntese dos dados empíricos elaborados pelo sujeito conhecedor a partir de estruturas subjetivas apriorísticas, a possibilidade do conhecimento metafísico das substâncias, entre elas Deus, o mundo e a alma, se tornaram inviável, na medida em que a experiência sensível de tais substâncias também é inviável. A exist6encia de Deus, a imortalidade da alma e a liberdade humana são postuladas pela razão prática e moral e jamais conhecidas pela razão pura. A filosofia kantiana é também denominada idealismo transcendental: o sujeito constrói o conhecimento e dá significado e sentido à realidade a partir de categorias subjetivas a priori (idealismo); o conhecimento não está particularmente voltado para os objetos, mas para o modo de conhecê-los aprioristicamente ( transcendental). Kant empreendeu no âmbito da filosofia uma “revolução copernicana” ao atribuir ao sujeito um papel determinante no ato de conhecer. Este já não resulta , como se pensava até então, de uma adequação do sujeito a uma realidade exterior (que anteriormente tinha o papel determinante no processo), mas sim de uma construção mental apriorísticas do espírito. O criticismo kantiano, ao efetuar a síntese entre racionalismo e o empirismo, provocou o surgimento de duas correntes filosóficas divergentes: de um lado, os idealistas (Ficht, Schelling e Hegel), que, enfatizando a postura do sujeito como construtor do conhecimento a partir de categorias a priori, concebe a realidade como produto exclusivo do pensamento humano; de outro lado, os positivistas ( em especial, Comte), que, enfatizando o valor da experiência sensível como fundamentos epistemológicos das ciências elegem o real como objeto de investigação do espírito positivo, ao qual cabe descobrir as relações invariáveis entre fenômenos, base exclusiva para explicação dos fatos em termos reais. Augusto Comte Augusto Comte ( 1798 – 1857) filósofo francês foi o principal representante do positivismo, corrente filosófica “que acompanha, promove e estrutura o último estágio que a humanidade teria atingido, fundado e condicionado pela ciência ( Simon, 1986: 120). O positivismo se ocupa não apenas da fundamentação e classificação das ciências, mas também da modificação da sociedade e das reformas práticas das instituições, através de mecanismos adequados capazes de conduzi-la a um “estado positivo”, fundamentado nas idéias de ordem e progresso. Comte afirmou Ter descoberto uma grande lei fundamental, segundo a qual o espírito humano em sua evolução passou por três estados: o estado teológico, o metafísico e o positivo. No estado teológico, o espírito humano encontra nos agentes sobrenaturais a explicação dos fenômenos; no estado metafísico, os fenômenos são explicados não mais por agentes sobrenaturais (fetichismo, politeísmo e monismo), mas por forças abstratas; e, no estado positivo, o último e definitivo, o espírito humano encontra a ciência e, deixando de lado a investigação das causas primeiras e/ou finais, se atém à observação dos fatos, procurando raciocinar sobre eles e descobrir as relações constantes entre os fenômenos observados, isto é, suas leis. Karl Marx Para Karl Marx (1818 – 1883) e Friedrich Engels (1820 – 1895) a teoria hegeliana do desenvolvimento geral do espírito humano não conseguiria explicar a vida social, que se apresentava, de um lado, como avanço técnico, como aumento dopoder do homem sobre a natureza, como enriquecimento e como protiva por meio da moral, do direito, da política: O espírito objetivo se realiza naquilo que se chama mundo da cultura. Essa relação antitética é superada pelo espírito absoluto, síntese final em que o espírito terminando o seu trabalho, compreende-o como realização sua. A mais alta manifestação do espírito absoluto é a filosofia, saber de todos os saberes, quando o espírito atinge a absoluta autoconsciência. Assim, Hegel propõe um novo conceito de história: o presente é retomado como resultado de um longo e dramático processo; a história não é uma simples acumulação e justaposição de fatos acontecidos no tempo, mas um verdadeiro engendramento, um processo cujo motor interno é a contradição. Filosofia Estética O problema do belo e da experiência estética O conceito de belo é eminentemente histórico. Cada época, cada cultura, tem o seu padrão de beleza próprio. Já houve até quem dissesse que “gordura é formosura”. Da mesma forma, as manifestações artísticas têm sido bastante diversas e, por vezes, até desconcertantes, no curso da história. Essa diversidade se deve a vários fatores, que vão do político, social e econômico até os objetivos art ísticos que cada época ou cultura tem se colocado. Sem querer, aqui, fazer história da arte, vamos discutir o naturalismo - postura fundamental que marcou profundamente toda a arte ocidental desde a Grécia Antiga - e sua ruptura no final do século XIX, a qual deu origem à produção art ística do século XX. O naturalismo, segundo Harold Osborne, pode ser definido como a ambição de colocar diante do observador uma semelhança convincente das aparências reais das coisas. A admiração pela obra de arte, dentro dessa perspectiva, advém da habilidade do artista em fazer a obra parecer ser o que não é, parecer ser a realidade do que representa. Dentro da atitude naturalista, podemos distinguir algumas variações, dentre as quais as mais importantes são o realismo e o idealismo. O realismo mostra o mundo como ele é, nem melhor, nem pior. É característico, por exemplo, da arte renascentista do século XV. Já o idealismo retrata o mundo nas suas condições mais favoráveis. Na verdade, mostra o mundo como desejaríamos que fosse melhorando e aperfeiçoando o real. É o padrão da arte grega, que não retrata pessoas reais, mas pessoas idealizadas. Foram os gregos que elaboraram a teoria das proporções do corpo humano. A ruptura com a atitude naturalista vai ocorrer na Segunda metade do século XI X com os impressionistas, que passam a dar primazia às variações da luz e não aos objetos representados. Essa mudança de atitude se deve, em parte, ao aparecimento do bisavô da máquina fotográfica - o daguerreótipo -, que fixa as imagens do mundo de forma mais rápida e mais econômica do que a tela pintada. Assim, os artistas, principalmente os pintores, tiveram de repensar a função da arte e o espaço específico da pintura. Questão da mímesis Na Grécia Antiga não havia a idéia de artista no sentido que hoje empregamos, uma vez que a arte estava integrada à vida. As obras de arte dessa época eram utens ílios ( vasos, ânforas, copos, templos etc.) ou instrumentos educacionais. Assim, o artífice que os produzia era considerado um trabalhador manual, do mesmo nível do agricultor ou do ferramenteiro. Ele era um artesão numa sociedade em que o trabalho manual era considerado indigno. Nesse período ( séc. V e IV a.C. ) foram desenvolvidas técnicas cuja principal motivação era produzir cópias da aparência visível das coisas. A função da arte era criar imagens de coisas reais, imagens que tivessem aparência de realidade. Há várias anedotas que ilustram bem isso, embora poucos exemplares da pintura grega tenham chegado até nós. Dizem que Apeles pintou um cavalo com tanto realismo que cavalos vivos relincharam ao vê-lo. Outra história conta que Parrássio pintou uvas tão reais que passarinhos tentavam bicá-las. Na verdade, talvez essas pinturas só possam ser consideradas realistas em relação à estilização da pintura que a precedeu ou à pintura egípcia, por exemplo. Por outro lado, temos de admirar a fidelidade anatômica das esculturas gregas, tais como a Vitória de Samotrácia e o Discóbulo. Essa atitude perante a arte está fundada sobre o conceito de mímesis. Embora mímesis seja normalmente traduzida por “imitação”, ela, em grego, significa muito mais que isso. Para Platão ( séc. V a.C.), no Crátilo, as palavras “imitam” a realidade. Neste caso, a tradução mais correta para mímesis talvez fosse “representar”, e não “imitar”. Para Aristóteles ( séc. IV a.C.), a arte “imita” a natureza. Arte, para ele, no entanto, englobava todos os ofícios manuais, indo da agricultura ao que hoje chamamos de belas- artes. Assim, a arte, enquanto poíesis, ou seja, “construção”, “criação a partir do nada”, “passagem do não ser ao ser”, imita a natureza no ato de criar. Por outro lado, também aqui poderíamos entender mímesis com o sentido de “representar”. Para Aristóteles, “todos os ofícios manuais e toda a educação completam o que a natureza não terminou”(1). Ainda segundo Aristóteles, a apreciação da arte vem do prazer intelectual de reconhecer a coisa representada através da imagem. Assim, ele resolve o problema de feio. O prazer, no caso, não vem do reconhecimento da coisa feia, mas da habilidade que o artista demonstra ao representá-la. Em sentido estrito, ou seja, estético propriamente dito, Platão distingue a poesia mimética - na qual as personagens falam por si - da poesia narrativa, que não é mimética. Aristóteles, no Capítulo III da Poética, enumera três métodos de mímesis na poesia: o primeiro é a poesia narrativa, sem personificação; o segundo é a poesia dramática, com personificação; e o terceiro é uma mescla dos dois anteriores, com narrativa e personificação. Entretanto, é no sentido de cópia ou reprodução exata e fiel que a palavra mímesis passa a ser adotada pela teoria naturalista. E as obras de arte, dentro dessa perspectiva, são avaliadas segundo o padrão de correção colocado por Platão: “Agora suponhamos que, neste caso, o homem também não soubesse o que eram os vários corpos representados. Ser-lhe-ia possível ajuizar da justeza da obra do artista? Poderia ele, por exemplo, dizer se ela mostra os membros do corpo em seu número verdadeiro e natural e em suas situações reais, dispostos de tal forma em relação uns aos outros que reproduzam o agrupamento natural - para não falarmos na cor e na forma - ou se tudo isso está confuso na representação? Poderia o homem, ao vosso parecer, decidir a questão se simplesmente não soubesse o que era a criatura retratada?”. Cabe a Santo Tomás de Aquino ( séc. XIII) retomar o pensamento de Aristóteles e recuperar o mundo sensível que havia sido consideradofonte de pecado durante quase toda a Idade Média. Se for criação de Deus, o mundo também pode ser belo. Nossa atenção pode se voltar para ele outra vez. Para Santo Tomás, a beleza é um dos aspectos do bem. “A beleza e a bondade de uma coisa são fundamentalmente idênticas”. A beleza é o aspecto agradável da bondade, pois o belo é agradável à cognição. O Renascimento art ístico, ocorrido entre os séculos XIV e XV na Europa, passa a dignificar o trabalho do artista ao elevá-lo à condição de trabalho intelectual. Conseqüentemente, a obra de arte assume outro lugar na cultura da época. Nesse contexto, as artes vão buscar um naturalismo crescente, mantendo estreita relação com a ciência empírica que desponta na época e fazendo uso de todas as suas descobertas e elaborações em busca do ilusionismo visual. Assim, a perspectiva científica, a teoria matemática das proporções, que possibilitam a criação da ilusão da terceira dimensão sobre uma superfície plana, as conquistas da astronomia, da botânica, da fisiologia e da anatomia são incorporadas às artes.