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“O que é o homem em relação à natureza? Nada 
em relação ao infinito, tudo em relação ao nada, 
um meio entre o nada e o tudo” (Blaise Pascal). 
 
Origem da Filosofia 
 
“A filosofia pertence aos deuses, mas os homens 
podem desejá-la, tornando-se filósofos” 
(Pitágoras. Século V a.C). 
 
A palavra “Filosofia” surge na Grécia no 
Século VI a.C. nos escritos de Pitágoras, que não 
querendo denominar-se como sábio, prefere 
autodenominar-se Philos -Sophos, ou seja, amigo 
do saber, aquele que busca a sabedoria, amante 
da sabedoria, para ele uma denominação mais 
humilde e fiel à sua postura de tentar 
compreender a realidade de seu tempo. 
A palavra Filosofia se compõe de dois 
vocábulos gregos: Philen e Sophia, significando 
amor à sabedoria. Foi usado pelam primeira vez 
pelos gregos, como sinônimo de curiosidade ou 
desejo de saber o que diz respeito às coisas 
humanas, tendo, pois, desde sua origem, uma 
significação preponderantemente humanística. 
No século V a.C. o filósofo Heráclito 
define melhor o conceito original do vocábulo 
Filosofia, para ele, a “busca da compreensão da 
realidade total”, em todas as suas formas de 
maneira sistemática e disciplinada, opondo-se ao 
conceito de “polimathéia”, isto é, o saber comum, 
desconexo, fragmentado, o nível de senso 
comum, geralmente preconceituoso e limitado, 
sobre a realidade pessoal, social e da natureza. 
Deste modo, podemos observar que a 
filosofia, desde sua definição originária, se faz 
compreender sobre o homem, sobre o mundo, 
sobre a própria realidade; um processo sempre 
dinâmico de apreensão das significações 
históricas da realidade humana, de maneira 
humilde e processual. O verdadeiro filósofo rejeita 
o “status” de possuidor da verdade, como se 
fosse possível ou conhecê-la ou ainda, que 
alguém fosse capaz de aprender a totalidade da 
realidade. Ao contrário, compreende a 
precariedade de sua busca e o dinamismo do 
próprio processo de definição das verdades de 
cada época. 
 
Nisto precisamente consiste a filosofia. 
Um conhecimento sistematizado sobre o mundo 
da natureza, sobre a condição humana pessoal e 
social, sobre a sociedade, sobre a cultura. Em 
termos gerais é um conhecimento humano, de 
longa tradição histórica, que tem privilégio a 
pesquisa de questões fundamentais sobre a 
existência humana, a natureza e a cultura. 
 
A Reflexão Filosófica 
 
O Professor João Wilson Savino Carvalho 
em sua obra: “Temas básicos de Filosofia” afirma 
que: “O conhecimento é uma relação que se 
estabelece entre o sujeito de conhecimento (a 
consciência cognoscente) e o objeto cognoscível. 
Nele, as características essenciais dos objetos 
passam a fazer parte do sujeito, na forma de 
conceito. Tudo o que a consciência cognoscente, 
o sujeito no ato de conhecimento, tem sobre a 
realidade externa a consciência, o mundo dos 
objetos, é exatamente o conceito. Qual a garantia 
que o conceito corresponde ao objeto real? Qual 
garantia da veracidade ou validade do 
conhecimento humano? 
Para o cientista, as respostas a essas 
questões estão na experiência. A experiência 
controlada capaz de por a prova o conhecimento 
e, consequentemente, reorientar o processo. O 
filósofo, entretanto, trabalha com temas para os 
quais esse caminho é impraticável, pela própria 
natureza do questionamento filosófico. Quem 
poderia conceber uma experiência envolvendo o 
sentido da existência humana? Ou sobre a 
finalidade do conhecimento? Tais questões 
ultrapassam os limites de uma vida ou até os 
limites (em todos os sentidos ) da sociedade em 
que existe o pesquisador. Justamente por isso 
são questões filosóficas. Como produzir 
conhecimento sobre esses temas? Ou como se 
dá a produção do conhecimento filosófico? 
O sujeito cognoscente é, entretanto, 
capaz de efetuar outra forma de conhecimento, 
que é aquela em que o pensamento incide não 
sobre os objetos de conhecimento, mas sim sobre 
os próprios processos de conhecimento, para 
analisar as condições de validade desses 
processos. A essa orientação do pensamento aos 
processos internos ao sujeito é justamente o que 
chamamos reflexão. A análise crítica dos 
caminhos percorridos pelo raciocínio, sua 
obediência às regras da Lógica, a sua coerência, 
a sua não-contradição, enfim, suas condições de 
verdade, é que constitui o meio pelo qual o 
filósofo firma a validade de suas conclusões. 
É por esse caminho que definimos o 
método racional (baseia-se na razão e não na 
experiência), especulativo (procede por uma 
projeção racional) e reflexivo-crítico (analisa 
criticamente as condições de validade dos 
raciocínios que o constituem). Esses não são, 
entretanto, estágios do método filosófico (como é 
o caso do método experimental), mas aspectos 
de um mesmo processo, a aplicação do raciocínio 
lógico em uma reflexão profunda, radical, 
Filosofia 
PROF. PASTANA 
 
abrangente e crítica, sobre os problemas relativos 
ao sentido de tudo o que existe”. 
 Segundo o professor Dermeval Saviani, a 
reflexão filosófica é radical, rigorosa e de 
conjunto. 
Radical: A palavra latina Radix, radicis significa 
“raiz” e no sentido figurado “fundamento, base”. 
Portanto, a filosofia é radical não no sentido 
corriqueiro de ser inflexível (nesse caso seria 
antifilosofia), mas enquanto busca explicitar os 
conceitos fundamentais usados em todos os 
campos do pensar e do agir. Por exemplo, a 
filosofia das ciências examina os pressupostos do 
saber cient ífico, do mesmo modo que, diante da 
decisão de um vereador em aprovar determinado 
projeto, a filosofia política investiga as “raízes” (os 
princ ípios políticos) que orientam sua ação. 
Rigorosa: Enquanto a filosofia de vida não leva 
as conclusões até as últimas consequências, e 
nem sempre é capaz de capaz de examinar os 
fundamentos dela, o filósofo deve dispor de um 
método claramente explicitado a fim de proceder 
com rigor, garantindo a coerência e o exercício da 
crítica. Mesmo porque o filósofo não faz 
afirmações apenas, precisa justificá-las com 
argumentos. Para tanto usa de linguagem 
rigorosa, que evita as ambiguidades das 
expressões cotidianas e lhe permite discutir com 
outros filósofos a partir de conceitos claramente 
definidos. É por isso que o filósofo sempre 
inventa conceitos ou cria expressões novas 
(quanto fizeram isto os gregos) ou altera e 
especifica o sentido da palavra. 
De conjunto: Enquanto as ciências são 
particulares, porque abordam “recortes” da 
realidade e se distinguem de outras formas de 
conhecimento, e a ação humana se expressa nas 
mais variadas formas (técnica, magia, arte, 
política, etc.), a filosofia é globalizante, porque 
examina os problemas sob a perspectiva de 
conjunto, relacionando os diversos aspectos entre 
si. Nesse sentido, além de considerarmos que o 
objeto da filosofia é tudo (porque nada escapa a 
seu interesse), completamos que a filosofia visa 
ao todo, a totalidade. Daí a função de 
interdisciplinaridade da filosofia, estabelecendo o 
elo entre as diversas formas de saber e agir 
humanos. A maneira pela qual se faz 
rigorosamente a reflexão filosófica varia conforme 
a orientação do filósofo e as tendências históricas 
decorrentes da situação vivida pelos homens em 
sua ação sobre o mundo. 
 
Conceitos de Filosofar 
 
O verbo filosofar pode ser usado com três 
significados distintos: 
 Como sinônimo de Pensar: às vezes, 
doenças ou morte de pessoas próximas, 
decepções, perdas irreparáveis e outros 
problemas existenciais nos fazem pensar 
(filosofar) sobre o sentido de nossa vida. Mas 
esse significado é por demais, vago e amplo para 
caracterizar o sentido de filosofar. 
 Como sinônimo de Vida: Aqui filosofar é 
viver com sabedoria.O sábio é aquele que se 
torna um exemplo vivo das virtudes apreciadas 
em uma sociedade e é tomado como ponto de 
referência para fortalecer o valor das tradições 
vigentes. É nesse sentido que as sabedorias 
orientais são também chamadas filosofias. 
 Como o “Filosofar propriamente dito”: 
Que teve inicio na Grécia em torno dos séculos VI 
e V a.C. Por essa época, começou-se a repensar 
o cosmo, o homem e os deuses com base na 
razão. Para os primei ros filósofos, assim como 
para os filósofos de todos os tempos, a razão é o 
único instrumento para ler e interpretar a 
realidade. Filosofar, portanto, é encontrar a 
verdade por meio da razão. 
 
 
 
 
 
 
 
 
O novo conceito de verdade 
O que é verdade? Na época do surgimento da 
filosofia, aceitava-se como verdade o que a 
tradição, as autoridades e os deuses 
determinavam. 
Ora, os primeiros filósofos buscaram um novo 
conceito de verdade, uma verdade tão bem 
fundamentada na razão que ninguém pudesse 
refutá-la. Ela deveria libertar o povo da autoridade 
arbitrária dos deuses, reis oligarcas e tiranos, 
assim como das profecias enigmáticas dos 
sacerdotes. A verdade procurada teria de ter um 
conhecimento definitivo, necessário e absoluto. 
Para um conhecimento ter tais características 
deveria abranger tudo o que existe no universo. 
Logo, seria um conceito universal. 
 A verdade precisaria ser universal, válida 
para todos. 
Uma verdade acima das particularidades, das 
raças, das nações, dos mitos regionais. Tomava-
se consciência de que o homem almeja, pela 
razão, um conhecimento válido em todo lugar. 
 A mentalidade mítica imaginava que a 
qualquer momento poderiam surgir novos deuses, 
novos heróis e, o que é pior, novos monstros com 
poderes sobre-humanos. O homem vivia, pois, 
inseguro e temeroso da vida e da morte. 
 Ora, a filosofia, naquele momento, veio 
libertar o homem da insegurança e do temor. 
Quem descobre a ordem universal não tem medo 
 
de nada, pois tudo está previsto. Nem os deuses 
podem contrariar a verdade total. 
 O filósofo deve conhecer a verdade 
universal pela razão. Mas no universo existem 
uma variedade enorme de seres, planetas, terra, 
mar, fogo, vento, plantas, etc. O filósofo grego 
procura ordenar todos esses seres na busca de 
uma única lei que justificasse o seu 
aparecimento. Filosofar é então procurar na 
multiplicidade um princípio único que seja a fonte 
e a origem de toda essa variedade manifestada 
no universo. Esse anseio de uma verdade 
universal, que descobre a unidade na 
multiplicidade, será à base de todo o espírito 
científico do ocidente. 
 
A luminosidade do todo 
 
Os primeiros filósofos descobriram que a 
totalidade das coisas tem luz própria, tem uma 
evidencia luminosa, clara como o sol, que fala a 
inteligência por si mesma, sem intermediários, é 
fonte de conhecimento independente. Qualquer 
pessoa pode conhecê-la ou interpretá-la. 
Filosofar é basicamente, admirar a 
realidade tal qual ela existe; é deixá-la falar por si 
mesma; é saber contemplá-la sem projetar nela 
temores míticos e crenças fantasiosas. Enfim, 
filosofar é ver o relâmpago como fenômeno 
natural e não como vingança ou ameaça divina; é 
ver os fatos sociais e políticos como resultados 
das relações humanas. Essa nova maneira de 
lidar com a realidade foi o início da filosofia que 
até hoje 27 séculos após, procura libertar o 
homem das crenças e temores desumanizantes. 
 
NATUREZA E CULTURA 
 
“O homem pode adquirir conhecimento ou se 
tornar um animal, como ele quiser. Deus faz os 
animais, o homem faz a si próprio. (Georg 
Lichetnbery) 
 
Texto: As meninas-lobos 
 
Na índia, onde os casos de meninos-lobos foram 
relativamente numerosos, descobriram-se em 
1920, duas crianças: Amala e Kamala, vivendo 
em meio a uma família de lobos. A primeira tinha 
um ano e meio e veio há morrer um ano mais 
tarde. Kamala, de oito anos de idade, viveu até 
1929. Não tinham nada de humano e seus 
comportamentos eram exatamente semelhantes 
aquele de seus irmãos lobos. 
 Elas caminhavam de quatro patas 
apoiando-se sobre os joelhos e cotovelos para os 
pequenos trajetos e sobre as mãos e os pés para 
os trajetos longos e rápidos. 
 Eram incapazes de permanecer de pé. Só 
se alimentavam de carne crua ou podre, comiam 
e bebiam como os animais, lançando a cabeça 
para frente e lambendo os líquidos. Na instituição 
onde foram recolhidas, passavam o dia 
acabrunhadas e prostradas numa sombra; eram 
ativas e ruidosas durante a noite, procurando fugir 
e uivando como os lobos. Nunca choraram ou 
riram. 
 Kamala viveu durante oito anos na 
instituição que a acolheu, humanizando-se 
lentamente. Ela necessitou de seis anos para 
aprender a andar e pouco antes de morrer só 
tinha vocabulário de cinquenta palavras. Atitudes 
afetivas foram aparecendo aos poucos. 
 Ela chorou pela primeira vez por ocasião 
da morte de Amala e se apegou lentamente às 
pessoas que cuidaram dela e as outras crianças 
com as quais conviveu. 
 A sua inteligência permitiu-lhe comunicar-
se com outros por gestos, inicialmente, e, depois 
por palavras de um vocabulário rudimentar, 
aprendendo a executar ordens simples. (B. 
Reymond. Le développement social de l’enfant et 
de l’adolescent. Bruxelas: Dessart, 1965.12-14 
pp) 
 O relato desse fato verídico nos leva a 
discussão a respeito das diferenças entre o 
homem e o animal. As crianças encontradas na 
Índia não tiveram oportunidade de se humanizar 
enquanto viveram com os lobos, permanecendo, 
portanto, “animais”. 
 
Diferenças entre o homem e o animal 
 
Os animais têm ação caracterizada, 
sobretudo, pelos reflexos e instintos. A ação 
instintiva é regida por leis biológicas, idênticas na 
espécie e invariáveis de indivíduo para indivíduo. 
Os atos instintivos são “cegos”, isto é, são 
atividades que ignoram a finalidade da própria 
ação. Por outro lado, o ato humano voluntário, é 
consciente da finalidade, ou seja, o ato existe 
antes como uma forma de pensamento, uma 
possibilidade, e a execução é o resultado da 
escolha dos meios necessários para atingir os 
fins propostos. 
Uma das características marcantes da 
diferenciação da atividade humana para a 
atividade animal é a linguagem. A diferença 
entre a linguagem humana e do animal reside no 
fato de que este não conhece o símbolo, mas o 
índice. O índice esta relacionado de forma fixa e 
única com a coisa a que se refere. Por exemplo, 
as frases com que adestramos cães devem ser 
sempre a mesma, pois são índices, isto é, 
indicam alguma coisa. 
Por outro lado, o símbolo é universal e 
flexível consideremos a palavra cruz. Além de ser 
uma convenção de certa forma arbitrária (é assim 
em português; o inglês de diz cross, e o francês 
Croix). Mas a palavra cruz não tem um único 
sentido unívoco na medida em que faz lembrar 
um instrumento usado para executar os 
condenados à morte; pode representar o 
cristianismo, referir-se à morte, adquire outro 
significado para os roqueiros; pode significar 
apenas uma encruzilhada de caminhos; ou um 
 
enfeite, e assim por diante com múltiplas e 
infindáveis e inimagináveis significações. 
É pela palavra que somos capazes de 
nos situar no tempo, lembrando o que ocorreu no 
passado e prevendo o futuro pelo pensamento. 
Enquanto o animal vive sempre no presente, as 
dimensões humanas se ampliam para além de 
cada momento. 
Se a linguagem, por meio da 
representação simbólica e abstrata, permite que 
nos distanciemos do mundo, também é o que nos 
possibilita o retorno a ele para t ransformá-lo. 
Portanto, se não tivermos oportunidade de 
desenvolver e enriquecer a linguagem 
enfraqueceremos a capacidade de compreender 
e agir sobreo mundo que nos cerca.Na literatura, 
é singela, e triste, a história de Fabiano, que 
Graciliano Ramos retrata em Vidas Secas. A 
pobreza de vocabulário do protagonista prejudica 
a tomada de consciência da exploração a que é 
submetido, e a instituição da situação vivida não é 
suficiente para ajudá-lo a reagir de outro modo. 
Outra característica que os diferencia é o 
trabalho. O trabalho humano é uma ação 
transformadora da realidade, dirigida por 
finalidades conscientes. Ao produzir técnicas já 
usadas e ao inventar outras novas, a ação 
humana se torna uma fonte de ideias e, portanto, 
experiência propriamente dita. Por isso dizemos 
que o animal não trabalha – mesmo quando cria 
resultados materiais com essa atividade, pois sua 
ação é deliberada,intencional. Dessa forma, o 
animal não produz propriamente sua existência, 
apenas a conserva agindo instintivamente ou, 
quando se trata de animal de maior complexidade 
orgânica, resolvendo problema por meio da in - 
teligência concreta. Esses atos visam à defesa, a 
procura de alimentos e de abrigo. Assim, não 
devemos pensar que o castor, ao construir o 
dique, e o João-de-barro, a sua casinha, estejam 
“trabalhando”. 
 Ao mesmo tempo em que transforma a 
natureza adaptando-a as necessidades humanas, 
o trabalho altera p próprio indivíduo, 
desenvolvendo suas faculdades. Enquanto o 
animal permanece sempre o mesmo na sua 
essência, já que repete os gestos comuns à 
espécie, nós mudamos as maneiras pelas quais 
agimos sobre o mundo, estabelecendo relações 
também mutáveis, que por sua vez alteram nossa 
maneira de perceber, de pensar e de sentir. Ou 
seja, pelo trabalho, nós nos autoproduzimos. 
 Por ser atividade relacional além de 
desenvolver habilidades, o trabalho favorece a 
convivência que, por sua vez, não só facilita a 
aprendizagem e o aperfeiçoamento dos 
instrumentos, mas também enriquece a 
afetividade: experimentando emoções de 
expectativa, desejo, prazer, medo, inveja, 
aprendemos a conhecer a natureza, as pessoas e 
a nós mesmos. O trabalho é, portanto, condição 
de transcendência e, como tal, expressão da 
liberdade. 
 Atingir por meio de trabalho esse patamar 
superior de condição de liberdade, no entanto, 
não depende apenas da vontade da cada um. Ao 
contrário, inserido no contexto social que o torna 
possível, o trabalho é muitas vezes instrumentos 
de alienação e de desumanização, sobretudo nos 
sistemas em que as divisões sociais privilegiam 
alguns e submetem a maioria ao trabalho 
imposto, rotineiro e nada criativo. Em vez de 
contribuir para a realização do ser humano, esse 
destrói sua liberdade. 
 Por fim a última diferenciação entre o 
homem e o animal: a cultura. O mundo que 
resulta do pensar e do agir humanos não pode 
ser chamado de natural, pois se encontra 
transformado e ampliado por nós. Portanto, as 
diferenças entre pessoa e animal não são apenas 
de grau, porque, enquanto, o animal permanece 
mergulhado na natureza, nós somos capazes de 
transformá-la, tornando possível a cultura. 
 A palavra cultura possui diversos 
significados, tais como cultura da terra ou cultura 
de uma pessoa let rada, culta. Em antropologia, 
cultura significa tudo que o ser humano produz ao 
construir sua existência: as práticas, as teorias, 
as instituições os valores materiais e espirituais. 
Se o contato com o mundo é intermediada pelo 
símbolo, a cultura é o conjunto de s ímbolos 
elaborados por um povo. Dada a infinita 
possibilidade humana de simbolizar, as culturas 
humanas são múltiplas e variadas: são inúmeras 
as maneiras de pensar, de agir, de expressar 
anseios, temores e sentimentos em geral. Por 
isso mudam as formas de trabalhar, de se ocupar 
com o tempo livre, mudam as expressões 
artísticas e as maneiras de interpretar o mundo, 
tais como o mito, a filosofia ou a ciência. 
 Todas as diferenças existentes no 
comportamento modelado em sociedade resultam 
da maneira pela qual são organizadas as 
relações entre indivíduos. É por meio delas que 
se estabelecem os valores as regras de conduta 
que nortearão a construção da vida social, 
econômica e política. 
 A cultura significa tudo o que o homem 
produz ao construir sua existência. Já para Freire 
é tudo o que o homem cria e recria. Assim, 
abrange conhecimentos, crenças, arte, moral,leis, 
costumes e quaisquer outras capacidades 
adquiridas socialmente pelos homens. 
MITO E FILOSOFIA 
 
 A civilização grega se desenvolveu na 
Península Balcânica, a mais oriental do sul da 
Europa, rodeada de inúmeras ilhas. Seu relevo 
montanhoso facilitou a formação de grupos 
isolados e autônomos, como de fato foram as 
cidades-estados. 
 A pouca fertilidade do solo acidentado foi 
compensado pela existência de ótimos portos 
naturais. Assim os gregos puderam desenvolver a 
navegação e o comércio, vitais para garantir a 
 
sobrevivência e o enriquecimento das cidades-
estados. 
 Nos séculos VI e V a.C. as polis 
conheceram o apogeu econômico, político e 
cultural. Foi exatamente nesse período glorioso 
que surgiu na cultura grega o confronto entre mito 
e filosofia. Tanto o mito quanto a filosofia são 
explicações que visam responder os 
questionamentos sobre o sentido da vi da, a 
natureza do homem e do universo, bem como, 
justificar as normas políticas, éticas e religiosas 
da própria comunidade. Durante um longo 
período da história grega, a mitologia constituiu a 
fonte exclusiva de explicação para existência do 
homem e organização do mundo. 
 Mythos = Mytheyo (narrar) + mytheo 
(designar). O mito é uma narrativa imaginaria que 
estrutura e organiza de forma criativa as crenças 
culturais. As divindades constituíam os 
personagens que pelas divergências, int rigas, 
amizades e desejo de justiça, explicavam tanto a 
natureza humana como os resultados das guerras 
e os valores culturais. A narrativa grega, apesar 
de fantasiosa é impregnada de sabedoria e 
conhecimento das paixões humanas, dos 
problemas existenciais e da necessidade de leis 
que possibilitem a vida em comum. 
 
 Como o mito narra à origem do mundo 
e de tudo o que nele existe? 
a) Decorrência das relações sexuais entre forças 
divinas pessoais; 
b) Por rivalidade ou aliança entre os deuses que 
faz surgir alguma coisa no mundo; 
c) Por recompensas ou castigos que os deuses 
dão a quem desobedece ou os obedece. 
 
 
 Diferenças entre mito e filosofia 
 
Mito: Fixa a narrativa no passado. 
Filosofia: Se preocupa em explicar como e 
porque, no passado, no presente e no futuro. 
 
Mito: Narra à origem por meio das genealogias e 
rivalidades ou aliança entre forças divinas 
sobrenaturais e personalizadas (urano, ponto e 
gaia). 
Filosofia: Explica a produção natural das coisas 
por elementos e causas naturais e impessoais 
(céu, mar e terra). 
Mito: Não se importa com contradições, com o 
fabuloso e o incompreensível. A autoridade está 
na confiança religiosa do narrador. 
 
Filosofia: Não admite contradições, fabulação e 
coisas incompreensíveis. 
 
Condições históricas para o surgimento da 
filosofia 
 
Podemos apontar que as principais condições 
históricas para o surgimento da filosofia na Grécia 
foram: 
a) As viagens marítimas, que permitiram aos 
gregos descobrir que os locais que os mitos 
diziam habitados por deuses, titãs e heróis eram, 
na verdade, habitados por outros seres humanos; 
e que as regiões dos mares que os mitos diziam 
habitados por monstros e seres fabulosos não 
possuíam nenhum deles. As viagens produziram 
o desencantamento ou a desmistificação do 
mundo, que passou, a exigir uma explicação 
sobre sua origem, explicação que o mito já não 
podia oferecer. 
b) A invenção do calendário, que é uma forma de 
calcula o tempo segundo asestações do ano, as 
horas do dia, os fatos importantes que se 
repetem, revelando, com isso, uma capacidade 
de abstração nova ou uma percepção do tempo 
como algo natural e não como uma força divina 
incompreensível. 
c) O surgimento da vida urbana, com predomínio 
do comércio e do artesanato, dando 
desenvolvimento as técnicas de fabricação e de 
troca, e diminuindo o prest ígio das fam ílias da 
aristocracia proprietária de terras, por quem para 
quem os mitos foram criados; além disso, o 
surgimento de uma classe de comerciantes ricos, 
que precisava encontrar pontos de poder e de 
prestígio para suplantar o velho poderio da 
aristocracia de terras e de sangue (as linhagens 
constituídas pelas famílias), fez com que essa 
nova classe social procurasse prestígio pelo 
patroc ínio e estímulo as artes, as técnicas e aos 
conhecimentos, favorecendo um ambiente onde a 
filosofia poderia surgir. 
d) A invenção da moeda, que permitiu uma forma 
de troca que não se realiza como escambo ou em 
espécie (isto é, coisas trocadas por outras coisas) 
e sim uma troca abstrata, uma troca feita pelo 
cálculo do valor semelhante das coisas 
diferentes, revelando, portanto, uma nova 
capacidade de abstração e de generalização. 
e) A invenção da escrita alfabética, que, como a 
do calendário e da moeda, revela o crescimento 
da capacidade de abstração e generalização, 
uma vez que a escrita alfabética, diferente de 
outras escritas (como por exemplo, dos 
hieróglifos dos egípcios ou os ideogramas dos 
chineses), supõe que não se represente uma 
imagem da coisa que está sendo dita, e sim se 
ofereça um sinal ou signo abstrato dela. Além 
disso, enquanto nas outras escritas, para cada 
sinal corresponde uma coisa ou uma ideia, na 
escrita alfabética ou fonética as letras são 
independentes e podem ser combinadas de 
formas variadas em palavras e estas podem ser 
distribuídas de varias formas para exprimir ideias, 
ou seja, nas outras escritas o signo representa a 
coisa assinalada, enquanto na escrita alfabética a 
palavra designa uma coisa e exprime uma ideia. 
Nas outras escritas, há tendências em sacralizar 
os sinais ou os signos, ou a lhes dar um caráter 
 
mágico (acredita-se que eles são as coisas 
assinaladas e que neles se encarnam forças 
divinas e demoníacas, de maneira que quem 
sabe escrever ou usar os sinais tem poder sobre 
as coisas e sobre os outros.), enquanto a escrita 
alfabética é inteiramente leiga, abstrata, racional 
e usada por todos. 
f) A invenção da política, centralizada na ágora 
(praça pública), espaço onde se debatem os 
problemas de interesse comum. Separam-se na 
polis o domínio público e o privado: isto significa 
que ao ideal do valor de sangue, restrito a grupos 
privilegiados em função do nascimento ou da 
fortuna, se sobrepõe a justa distribuição dos 
direitos dos cidadãos enquanto representantes 
dos interesses da cidade. Está sendo elaborado o 
novo ideal de justiça, pelo qual todo cidadão tem 
direito ao poder. 
 A polis se faz pela autonomia da palavra, 
não mais a palavra mágica dos mitos, palavra 
dada pelos deuses e, portanto, comum a todos, 
mas a palavra humana do conflito, da discussão e 
da argumentação. O saber deixa de ser sagrado 
e passa a ser objeto de discussão. 
 
HISTÓRIA DA FILOSOFIA 
 
Período Pré-socrático (Século VIII a.C. a V 
a.C.) 
Características: A filosofia desenvolveu-se 
inicialmente nas colônias gregas da Jônia e do sul 
da Itália peninsular e Sicília. Predomínio do 
problema cosmológico: busca-se a arché, ou seja, 
o princípio de todas as coisas, a origem do 
mundo. A physys ( o elemento primordial eterno, 
ou seja, a natureza eterna em profunda perene 
transformação) torna-se o objeto da pesquisa e 
indagação. Os físicos da Jônia, também 
chamados fisiólogos, são os primeiros filósofos 
gregos que tentam explicar a natureza material e 
o princ ípio do mundo e de todas as coisas por 
meio dos seguintes elementos: Água (Tales de 
Mileto); Ar (Anaxímenes); Apeíron (Anaximandro); 
Devir ou Vir-a-ser (Heráclito); Ser (Parmênides); 
Ar, água, terra e fogo (Empédocles); 
Homeomerias (Anaxágoras); átomo (Demócrito); 
números (Pitágoras) 
 
Período Socrático ( Século V a IV a.C.) 
Características: O advento do governo 
democrático em Atenas enseja a formação de 
cidadãos participativos: transformar os habitantes 
da polis em políticos, indivíduos habilitados a 
tomar parte das decisões no processo 
democrático, por meio da Paidéia (formação 
integral e harmônica do homem pela educação). 
Dessa forma, o centro de interesse se desloca da 
natureza para o homem. Predomínio do problema 
antropológico. Os filósofos elegem o ser humano 
como objeto de pesquisa. A filosofia engloba um 
número crescente de problemas e se converte, 
sobretudo com Aristóteles, em um saber 
enciclopédico (abarca física, biologia, psicologia, 
metafísica, ética, política, poética, etc.) 
 
Período Pós-Socrático (Século IV a.C. a V d.C) 
Características: A filosofia transforma-se em um 
modo de vida: forte preocupação com a salvação 
e a felicidade, que passam a ser vistas como 
passiveis de alcançar de forma individual e 
subjetiva, por meio de conjunto de regras morais. 
Predomínio da ética, que passa a exercer a 
função desempenhada outrora pelos mitos 
religiosos (etapa helenística). Surgimento de 
pequenas escolas filosóficas. A filosofia perde 
seu vigor, tornando-se repetitiva e pouco criativa 
(etapa romana). 
 
Patrística ( Século I a V) 
Características: Encontro da filosofia grega com o 
cristianismo. Primeira elaboração filosófica dos 
conteúdos do cristianismo pelos padres da igreja, 
o que explica o nome patrística dado ao período. 
Nesse período, a questão central reside na 
necessidade de conciliação das exigências da 
razão com a revelação divina. 
 
Patrística (século V a VIII) 
Características: Na idade média, a filosofia se 
separa a teologia, porém, as duas mantêm 
relações, podendo-se afirmar que a filosofia é um 
instrumento a serviço da teologia. O tema central 
é a tentativa de conciliar razão e fé. De maneira 
simplista, é possível dividir a filosofia medieval em 
dois grandes períodos: A filosofia patrística e a 
filosofia escolástica. A patrística procede e 
prepara a escolástica medieval, e sua principal 
característica reside no seu caráter apologético: é 
preciso defender os ideais cristãos perante os 
pagãos e convertê-los. Presencia-se a retomada 
a filosofia platônica, especialmente por Santo 
Agostinho, bem como, do neoplatonismo. 
 
Escolástica (Século VIII a XV) 
Características: O termo escolástica designa a 
filosofia ministrada nas escolas cristãs ( de 
catedrais e conventos) e posteriormente nas 
universidades. A patrística retoma a filosofia 
platônica, a filosofia escolástica retoma a filosofia 
aristotélica, nela encontrando seus fundamentos 
e os elementos necessários para seu 
desenvolvimento. Santo Tomás de Aquino 
elabora a síntese magistral do cristianismo com o 
aristotelismo, fornecendo as bases filosóficas 
para a teologia cristã: surge a filosofia aristotélico-
tomista. Compatibilizar a fé e a razão continua ser 
o problema central da escolástica. 
 
Renascimento ( Século XV a XVI) 
Características: A filosofia medieval se 
caracteriza por ser religiosa, dogmática, clerical e 
fundamentada no principio da autoridade. A 
filosofia moderna, por sua vez, é profana, leiga, e 
encontra na razão e na ciência seus pressupostos 
fundamentais. O renascimento é marcado por 
 
uma profunda revolução antropocêntrica: durante 
esse período instaura-se uma polêmica contra o 
pensamento medieval (essencialmente 
teocêntrico) preparando o caminho para o 
pensamento moderno, para o qual a natureza 
física eo homem tornam-se o tema central. 
Revalorização da antiguidade clássica (filosofia 
Greco-romana), buscada em fontes originais. 
Propõe um novo modelo de homem – 
considerando um microcosmo – e um novo 
modelo de estado. Grande interesse pela 
epistemologia (teoria do conhecimento). Galileu 
Propõe o método experimental, assentando as 
bases da ciência moderna. 
 
Racionalismo ( Século XVII) 
Características: Formulação dos grandes 
sistemas filosóficos que t raduzem o espírito dos 
novos tempos, agrupados em duas correntes 
divergentes: o racionalismo, que privilegia a 
verdade da razão, e o empirismo, que destaca a 
validade do puramente fático, isto é, as 
impressões sensíveis como ponto de partida do 
conhecimento. Nesse período, a física (Newton) e 
a química (Lavoisier) se separam da filosofia. 
 
Iluminismo ( Século XVIII) 
Características: Movimento filosófico, literário e 
político que visa combater o absolutismo, a 
influência da igreja e da tradição, considerando a 
razão como único meio para se atingir a completa 
sabedoria. Dessa forma, as ideias modernas 
tomam “Fôlego” e se expandem: a confiança na 
razão do século anterior é acompanhada agora 
por um crescente espírito crítico (racionalismo 
exacerbado – “luzes da razão” contra as “trevas 
da ignorância”. Sonha-se com um homem 
universal e ideal que concilie natureza e razão, 
defensor dos direitos humanos, e difusor da 
cultura. A biologia se separa da filosofia. 
 
Século XIX 
Características: Valorização da ciência e 
extensão do método cient ífico a outras 
disciplinas. Confiança no progresso indefinido – 
material e moral – da humanidade. As correntes 
filosóficas que predominam no período são o 
positivismo ( muito próximo do âmbito científico) e 
o socialismo em todas as suas formas, no 
contexto da filosofia política. Desdobramento do 
idealismo Kantiano. A psicologia (Wundt) e a 
sociologia (Comte) se separam da filosofia e se 
tornam ciências independentes, dando início a 
formação das ciências humanas. 
 
Século XX 
Características: pluralidade de correntes 
filosóficas: neopositivismo, racionalismo, 
transpositivismo, fenomenologia, existencialismo, 
hermenêutica, filosofia da vida, neo-escolástica, 
neokantismo, estruturalismo, escola de Frankfurt, 
arqueologia, etc. Ciência como tema central dos 
filósofos. Destaque para a epistemologia. 
 
TEORIA DO CONHECIMENTO 
“Necessário é dizer e pensar que só o ser é, pois 
o ser é, e o nada, ao contrário, nada é: afirmação 
que bens deves considerar. Desta via de 
investigação eu te afasto; mas também daquela 
outra, na qual vagueiam os mortais que nada 
sabem, cabeças duplas. Pois é a ausência de 
meios que move, em seu peito, o seu espírito 
errante. Deixam-se levar, surdos e cegos, mentes 
obtusas, massa indecisa, para a qual o ser e o 
não ser é considerando o mesmo e não o mesmo, 
e para a qual em tudo há uma via contraditória” 
(Parmênides) 
 
Os primeiros pensadores que dão a expressão 
filosófica ao problema da existência de uma 
causa suprema de todas as coisas são os 
filósofos Jônios: Tales, Anaximandro, 
Anaxímenes, todos eles de Mileto, na Ásia menor, 
as margens do mar Egeu. Todos eles viveram 
entre os séculos VII e V a.C. 
I – Tales de Mileto: Nasceu (623-546 a.C.) na 
cidade de Mileto, sendo considerado o pai da 
filosofia grega e de toda a filosofia ocidental. 
 Pelo que se sabe, Tales foi o primeiro 
pensador que se pôs expressa e 
sistematicamente a pergunta: “Qual é a causa 
última, o princ ípio supremo de todas as coisas?” a 
pergunta justifica-se pelo fato de que, apesar da 
aparente diversidade, há em todas as coisas algo 
de comum: em todas as coisas observáveis 
encontra-se água, terra, ar e fogo. E concluiu que 
a água é o princípio único do qual se originam. 
Por que Tales teria escolhido a água ou o úmido 
como Physis? Os autores oferecem varias razões 
para essa escolha, baseando-se naqueles que 
expuseram as opiniões dos filósofos de Mileto: 
a) A água apresenta-se sob as mais variadas 
formas em todos os estados em que vemos os 
corpos da natureza: l íquido, sólido e gasoso. 
Vemos a água passar de um estado a outro, de 
uma forma ou outra, num processo cont ínuo no 
qual mantém a identidade consigo mesma. O 
fenômeno da evaporação faz pensar que a água 
é causa da terra e de tudo o que nela existe. 
b) A água esta diretamente vinculada a vida: as 
sementes, o sêmen animal e humano são úmidos 
( O cadáver em putrefação é uma umidade que 
vai se ressecando). As coisas mortas secam, as 
sementes são úmidas, o alimento suculento. 
c) A existência de fosseis de animais marinhos 
descobertos nas montanhas e em grandes 
altitudes teria levado Tales a considerar que, no 
inicio, tudo era água e que a vida animal fora 
causada pela água. 
II – Anaximandro: Nascido em Mileto pouco 
depois de Tales, como ele, matemático, 
astrônomo e filósofo, Anaximandro interroga-se, 
como Tales sobre a questão da unidade do 
princ ípio. Mas dá a esta questão uma resposta 
surpreendente: o princípio de todas as coisas, o 
elemento primordial, não pode ser uma coisa 
 
determinada como a água, terra, o fogo ou o ar, 
porque o que se quer explicar é justamente a 
origem das coisas determinadas. O princípio 
primeiro deve ser alguma coisa indeterminada 
(Apeíron). 
 Nesse sentido, ele afirmava que o 
princ ípio das coisas é o ilimitado, sendo o 
primeiro a introduzir o termo “princípio”. E dizia 
que não era nem água, nem outro dos chamados 
elementos, mais outra natureza (infinita), da qual 
provem todos os céus e os mundos que nele 
existem. Assim, se exprime Anaximandro em sua 
linguagem poética. Evidentemente, tendo 
observado a t ransformação dos quatro elementos 
um no outro, Anaximandro não quis por um deles 
como substrato, mas alguma coisa além deles. 
III – Anaxímenes: Discípulo de Anaximandro é o 
terceiro celebre filosofo de Mileto. Anaxímenes 
põe como princípio primordial de todas as coisas 
o ar. Do ar procedem todos os outros elementos 
e, por consequência todas as coisas. 
 A escolha do ar seria possivelmente por 
quê? 
a) Ao contrario da água, que precisa de um 
suporte ou um continente, o ar sustenta-se a si 
mesmo: possui uma autonomia ou auto-
suficiência, própria de um fundamento ou um 
princ ípio 
b) Sua presença e sua difusão são ilimitadas, 
podendo compor todas as coisas. 
c) É o primeiro ato de um ser vivo e também o 
último, antes de morrer, sendo por isso o princípio 
vital. O mundo é um ser vivo que respira e que 
recebe do sopro originário a unidade que o 
mantém. 
IV – Heráclito: Nasceu (544-484 a.C.) em Éfeso. 
De seus escritos restaram pouquíssimos 
fragmentos; destes segue-se que o que mais 
impressionou a Heráclito não foi à experiência do 
múltiplo, que tanto impacto causara em seus 
concidadãos como Tales, Anaximandro e 
Anaxímenes, mas a experiência do devir, tudo é 
vir-a-ser, tudo muda, tudo se transforma. O 
mundo, o homem e as coisas estão em 
incessante transformação. “As coisas são como 
um rio, não há nada permanente”. Heráclito é 
considerado o primeiro grande representante do 
pensamento dinâmico da transformação. 
 O mundo tem aparência ordenada, 
estável e equilíbrio/ se é logos, isto é, racional, 
pensável, inteligível é porque opera por medidas. 
O devir é uma sucessão na qual a quantidade da 
matéria de alguma coisa permanente constante, 
mas sua substância e sua forma mudam no seu 
contrário, segundo medidas ou proporções. De 
modo poético-oracular, Heráclito afirma que, sem 
cessar, o fogo está sempre se acendendo em 
medidas iguais as que vão se apagando. O fogo 
primordial exala sua chama e apaga mantendo a 
proporção de cada coisa ( se pensarmos nos 
fenômenos de evaporaçãoda água sobre a ação 
do calor do sol, da condensação dos vapores sob 
a forma de nuvens e sua liquefação em forma de 
chuvas, teremos certa noção do que Heráclito 
entende por medidas). 
V – Parmênides: (540 a 470 a.C.), viveu em Eléia, 
cidade do sul da Magna Grécia (atual Itália) e é o 
principal expoente da chamada escola eleática. 
Elaborou importantíssima teoria filosófica na 
medida em que influenciou de forma decisiva o 
pensamento ocidental. Ocupou-se longamente 
em criticar a filosofia heraclitana: ao “tudo flui” 
(panta rei) de Heráclito, contrapôs a imobilidade 
do ser. 
 Para Parmênides é absurdo e impensável 
considerar que uma coisa pode ser e não ser ao 
mesmo tempo. À contradição opõe o principio 
segundo o qual o “ser é” e o “não ser não é”. Mais 
tarde os lógicos chamarão a isto princ ípio da 
identidade, base de toda construção metafísica 
posterior. 
 Parmênides concluiu, a partir do principio 
estabelecido, que o ser é único, infinito, imóvel. 
Não há, entretanto, como negar a existência do 
movimento no mundo que percebemos, onde as 
coisas nascem, morrem, mudam de lugar e se 
expõe em infinita multiplicidade. Para 
Parmênides, o movimento existe apenas no 
mundo sensível, e a percepção levada a efeito 
pelos sentidos é ilusória. Só o mundo inteligível é 
verdadeiro, pois está submetido ao princípio que 
hoje chamamos de identidade e de não-
contradição. 
 
Os Sofistas 
 
O Referente período filosófico (século V a IV a.C.) 
é fruto de dois deslocamentos geográfico-político; 
outro, intelectual. O primeiro é o deslocamento da 
filosofia das colônias gregas da Ásia menor e da 
Magna Grécia para a Grécia ocidental para a 
Ática e, mais precisamente para Atenas, que, 
desde o final da guerra contra os persas (da qual 
saíra vitoriosa), consolida as instituições 
democráticas e desenvolve seu poderio 
econômico e militar. O segundo, que se inicia 
com os sofistas e Sócrates, consistem na 
mudança do centro da reflexão filosófica que 
deixa de ocupar-se com a formação do cidadão e 
do sábio virtuoso, voltando-se para os temas 
políticos, éticos e da teoria do conhecimento. A 
Pólis e os humanos tornam-se os objetos 
filosóficos por excelência. 
 O período pré-socrático foi dominado em 
grande parte, pela investigação da natureza. Era 
a busca de explicações racionais para o universo, 
manifestada na procura de um princ ípio primordial 
(arché) para todas as coisas existentes. Seguiu-
se a esse período uma nova fase filosófica, 
caracterizada pelo interesse no próprio homem e 
nas relações do homem com a sociedade. Essa 
nova fase foi marcada, no início pelos sofistas. 
 Etimologicamente, o termo sofista 
significa sábio. Entretanto, com o decorrer do 
tempo, ganhou o sentido de impostor, devido, 
sobretudo, as críticas de Platão. 
 
 Porém, os historiadores da Grécia e da 
filosofia, consideraram os sofistas fundadores da 
pedagogia democrática, mestres na arte da 
educação do cidadão, ou seja, eram professores 
viajantes que, por determinado preço, vendiam 
ensinamentos práticos da filosofia. Levando em 
consideração os interesses dos alunos, davam 
aulas de eloquência. Ensinavam conhecimentos 
úteis para o sucesso nos negócios públicos e 
privados. 
 O momento histórico vivido pela 
civilização grega favoreceu o desenvolvimento 
desse tipo de atividade praticada pelos sofistas. 
Era uma época de lutas políticas e intenso conflito 
de opiniões nas assembleias democráticas. Por 
isso, os cidadãos mais ambiciosos sentiam a 
necessidade de aprender a arte de argumentar 
em público para, manipulando as assembleias, 
fazerem prevalecer os seus interesses individuais 
e de classe. 
 As lições dos sofistas tinham como 
objetivo, portanto o desenvolvimento do poder da 
argumentação, da habilidade retórica, do 
conhecimento de doutrinas divergentes. Eles 
transmitiam, enfim, todo um jogo de palavras, 
raciocínios e concepções que seriam utilizados na 
arte de convencer as pessoas driblando os 
adversários. 
 Todas essas características dos 
ensinamentos dos sofistas favorecem o 
surgimento de concepções filosóficas relativistas 
sobre as coisas. Segundo essa concepção, não 
haveria uma verdade única, absoluta. Tudo seria 
relativo ao homem, ao momento, a um conjunto 
de fatores e circunstâncias. 
 Pode-se falar em três gerações de 
sofistas. A primeira, dos criadores Protágoras de 
Abdera e Górgias de Leontini. A Segunda, dos 
propagadores: Pródigos de Quios e Hípios de 
Élis. A terceira, dos meros epígonos, isto é, 
seguidores que imitam os primeiros, sem grande 
capacidade crítica e inventiva. Com esta terceira 
geração, a sofística vai deixando de ser 
propriamente e uma retórica e uma dialética para 
tornar-se uma erística, isto é, o gosto da 
discussão pela simples discussão, invenção de 
argumentos pró e contra sem qualquer finalidade. 
Por isso, neste texto vamos nos deter na primeira 
geração. 
Sócrates: nascido em Atenas, Sócrates (469-399 
a. C.) é tradicionalmente considerado um marco 
divisório da história da filosofia grega. Por isso, os 
filósofos que o antecedem são chamados de pré-
socráticos e os que o sucederam, de pós-
socráticos. O próprio Sócrates, porém não deixou 
nada escrito e o que se sabe dele e de seu 
pensamento vem dos textos de seus discípulos e 
de seus adversários. 
 Conta-se que Sócrates era filho de um 
escultor e de uma parteira. Uma dupla herança 
que, simbolicamente, o levou a esculpir uma 
representação autêntica do homem fazendo-o dar 
a luz suas próprias ideias. 
 O estilo de vida de Sócrates 
assemelhava-se, exteriormente, aos dos sofistas, 
embora não “vendesse” seus ensinamentos. 
Desenvolvia o saber filosófico em praças 
públicas, conversando com os jovens, sempre 
dando demonstrações de que era preciso unir a 
vida concreta ao pensamento. Unir o saber ao 
fazer, a consciência intelectual à consciência 
prática ou moral. 
 O autoconhecimento era dos pontos 
fundamentais da filosofia socrática. “Conhece-te a 
ti mesmo”, frase escrita no templo de Apolo era a 
recomendação básica feita por Sócrates a seus 
discípulos. 
 Sua filosofia era desenvolvida mediante 
diálogos críticos com seus interlocutores. Esses 
diálogos podem ser divididos em dois momentos 
básicos: a Ironia e a Maiêutica. 
A Ironia: na linguagem cotidiana, a ironia tem um 
significado depreciativo, sarcástico ou de 
zombaria. Mas não é esse o sentido da ironia 
socrática. No grego, ironia quer dizer 
interrogação. De fato, Sócrates interrogava seus 
interlocutores sobre aquilo que pensavam saber: 
o que é o bem? O que é a justiça? O que é a 
piedade? O que é a coragem? . Com habilidade 
de raciocínios, procurava evidenciar as 
contradições afirmadas, os novos problemas que 
surgia a cada resposta. Seu objetivo inicial era 
demolir nos discípulos, o orgulho, a arrogância e 
a presunção do saber. A primeira virtude do sábio 
é adquirir consciência da própria ignorância “sei 
que nada Sei” dizia Sócrates. 
 A ironia socrática tinha um caráter 
purificador na medida em que levava os 
discípulos a confessarem suas próprias 
contradições e ignorância, onde antes só 
julgavam possuir certezas e clarividências. 
 Nesta fase do dialogo, a intenção 
fundamental de Sócrates não era propriamente 
destruir o conteúdo das respostas dadas pelos 
interlocutores, mas fazê-los tomar consciência 
profunda de suas respostas, das consequencias 
que poderiam ser tiradas de suas reflexões, 
muitas vezes repletas de conceitos vagos e 
imprecisos. 
A Maiêutica: libertos do orgulho e da pretensão 
de que tudo sabiam, os discípulos podiam então 
iniciar o caminho da reconstrução de suas 
próprias ideias. Novamente Sócrates lhes 
propunha uma série de questões habilmentecolocadas. Nesta segunda fase do dialogo, o 
objetivo de Sócrates era ajudar seus discípulos a 
conceberem suas próprias ideias. 
Platão: Nascido em Atenas, Platão (427 – 347 
a.C. ) pertencia a uma das mais nobres famílias 
atenienses. Seu nome de origem era Aristocles, 
mas, devido, a sua constituição física, recebeu o 
apelido de Platão, termo grego que significa de 
ombros largos. 
 Platão foi discípulo de Sócrates, a quem 
considerava o mais sábio e o mais justo dos 
homens. Depois da morte de seu mestre, 
 
empreendeu inúmeras viagens, num período em 
que ampliou seus horizontes culturais e 
amadureceu suas reflexões filosóficas. 
 Platão criou uma alegoria, conhecida 
como mito da caverna, que serve para explicar a 
evolução do processo de conhecimento. 
 Segundo, ele a maioria dos seres 
humanos se encontra prisioneira de uma caverna, 
permanecendo de costas para abertura luminosa 
e de frente para a parede escura do fundo. 
Devido a uma luz que entra na caverna, o 
prisioneiro contempla na parede do fundo as 
projeções dos seres que compõe a realidade. 
Acostumados a ver somente essas projeções, 
assume a ilusão do que vê, as sombras do real, 
como se fosse a própria realidade. 
 Ainda para Platão, a primeira etapa de 
conhecimento é dominada pelas impressões ou 
sensações advindas dos sentidos. Essas 
impressões sensíveis são responsáveis pela 
opinião que temos da realidade. A opinião (doxa, 
em grego) representa o saber que temos sem tê-
lo procurado metodicamente. 
 O conhecimento, entretanto, para ser 
autêntico, deve ultrapassar a esfera das 
impressões sensoriais, o plano da opinião, e 
penetrar na esfera mundo das ideias. Para atingir 
esse mundo, o homem não pode ter apenas amor 
às opiniões (filodoxia); precisa possuir um amor 
ao saber (filosofia). 
 O caminho proposto por Platão para 
atingir o conhecimento autêntico (epistéme) é a 
dialética. No que consiste, basicamente, a 
dialética? Consiste na contraposição de uma 
opinião com a crítica que dela podemos fazer, ou 
seja, na afirmação de uma tese qualquer seguida 
de uma discussão e negação desta tese, com o 
objetivo de purificá-la dos erros e equívocos. 
Aristóteles: Nascido em Estagira, na Macedônia, 
Aristóteles (384-322 a.C.) foi um dos mais 
importantes gregos na antiguidade. Há 
informações de que teria escrito mais uma 
centena de obras, sobre os mais variados temas, 
das quais restam 47. Desempenhou 
extraordinário papel na organização do saber 
grego, acrescentando-lhe sua genial contribuição 
que influenciou decisivamente a história do 
pensamento ocidental. 
 Segundo, Aristóteles a finalidade básica 
das ciências seria desvendar a constituição 
essencial dos seres percebidos pelos sentidos. 
Assim, tudo o que vemos, pegamos, ouvimos e 
sentimos é aceito como elemento da realidade 
sensível. 
 Portanto, rejeitava a teoria das ideias de 
Platão, segundo a qual os dados transmitidos 
pelos sentidos não passam de distorções, 
sombras ou ilusões da verdadeira realidade 
existente no mundo das ideias. Para Aristóteles, a 
observação da realidade leva-nos a constatação 
da existência de inúmeros seres individuais, 
concretos, mutáveis, que são captados por 
nossos sentidos. 
 A indução (operação mental que vai do 
particular para o geral) representa, para 
Aristóteles, o processo intelectual básico de 
aquisição do conhecimento. Ela possibilita ao ser 
humano atingir conclusões cient íficas de âmbito 
universal, a partir do trabalho metódico com 
outros dados sensíveis – que sempre se 
apresentam seres individuais, concretos e únicos. 
 
A Patrística 
 
Desde que surgiu o cristianismo, tornou-
se necessário explicar seus ensinamentos as 
autoridades romanas e o povo em geral. Mesmo 
com o estabelecimento e a consolidação da 
doutrina cristã, a igreja católica sabia que esses 
preceitos não podiam simplesmente ser impostos 
pela força. Eles tinham de ser apresentados de 
maneira convincente, mediante um trabalho de 
conquista espiritual. Foi assim que os primeiros 
padres da igreja se empenharam na elaboração 
de inúmeros textos sobre a fé e as revelações 
cristãs. O conjunto desses textos ficou conhecido 
como patrística, inspirada na filosofia Greco-
romana, tentou munir a fé de elementos racionais. 
Esse projeto de conciliação entre o cristianismo e 
o pensamento pagão teve como principal 
expoente santo Agostinho. 
Aureliano Agostinho (354-430) nasceu em 
Tagaste, província romana situada na África e 
faleceu em Hipona, hoje localizada na Argélia. 
Nesta cidade ocupou o cargo de bispo da igreja 
católica. Até completar 32 anos, Agostinho não 
era cristão. Teve uma vida voltada aos prazeres 
do mundo. De uma ligação amorosa il ícita para a 
época, nasceu-lhe o filho Adeodato. Foi professor 
de retórica em escolas romanas. 
Em sua trajetória intelectual, Agostinho 
sentiu-se despertado para a filosofia pela leitura 
de Cícero. Posteriormente, deixou-se influenciar 
pelo maniqueísmo, seita persa que afirmava ser o 
universo dominado por dois grandes princípios 
opostos, o bem e o mal, mantendo uma luta 
incessante entre si. Mais tarde já insatisfeito com 
o maniqueísmo viajou para Roma e Milão, 
entrando em contato com neoplatonismo, que, na 
época, tinha como característica o ceticismo. 
Cresceu e se aprofundou em Agostinho 
uma grande crise existencial, uma inquietação 
quase desesperada em busca pelo sentido para 
vida. Foi nesse período critico que ele se 
encontrou com santo Ambrósio, bispo de Milão, 
se sentido extremamente atraído pelas 
pregações. 
Agostinho defendeu a superioridade da 
alma humana, a supremacia do espírito sobre o 
corpo, a matéria. A alma foi criada por Deus para 
reinar sobre o corpo, para dirigi -lo a pratica do 
bem. O homem pecador, entretanto, utilizando-se 
do livre-arbítrio, costuma inverter essa relação 
fazendo o corpo assumir o governo da alma. 
Provoca, com isso, a submissão do corpo a 
matéria, equivalente a subordinação do eterno ao 
 
transitório, da essência a aparência. Mas a 
verdadeira liberdade esta na harmonia das ações 
humanas com a vontade de Deus. Ser livre e 
servir a Deus, pois o prazer de pecar é a 
escravidão. 
 
Escolástica 
 
No século VIII, Carlos Magno resolveu 
organizar o ensino por todo o seu império e 
fundar escolas ligadas às instituições católicas. A 
cultura Greco-romana, guardada nos mosteiros 
até então, voltou a ser divulgada, passando a ter 
influência mais marcante nas reflexões da época. 
Tendo a educação romana como modelo, 
começaram a ser ensinadas as seguintes 
matérias: gramática, retórica e dialética (trivium) e 
geometria, aritmética, astronomia e música 
(quadrivium). Todas elas estavam, no entanto, 
submetidas à teologia. 
A fundação dessas escolas e das 
primeiras universidades no século XI fez surgir 
uma produção filosófico-teológica denominada 
escolástica. 
A partir do século XIII, o aristotelismo 
penetrou de forma profunda no pensamento 
escolástico, marcando definitivamente. Isso se 
deveu a descoberta de muitas obras de 
Aristóteles, desconhecidas até então, e a 
tradução para o latim de algumas delas, 
diretamente do grego. 
A busca da harmonização entre fé cristã e 
a razão manteve-se, no entanto, como problema 
básico de especulação filosófica. 
Tomas de Aquino (1221-1274) nasceu em 
Nápoles, sul da Itália, e faleceu no convento 
fossanuova, próximo de sua cidade natal. É 
considerado o maior filosófico da escolástica 
medieval. 
Inserida no movimento escolástico, a 
filosofia de Tomás de Aquino já nasceu com 
objetivos claros: não contrariar a fé. De fato, a 
finalidade de sua filosofia era organizar um 
conjunto de argumentos para demonstrar e 
defenderas revelações do cristianismo. 
 
Idade Moderna e contemporânea. 
RENÉ DESCARTES ( Racionalismo) 
“Eu existo porque penso” 
 René Descartes ( 1596 – 1650), filósofo 
francês, e reconhecidamente o “pai da 
filosofia moderna”, é o principal representante 
do racionalismo, cujos fundamentos se 
encontraram em suas obras Discurso sobre o 
método e Meditações metafísicas. Movido 
pelo espírito cient ífico da época e apoiado na 
matemática, uma de suas paixões, descartes 
encaminha suas reflexões filosóficas em 
direção à verdade. A percepção de que o 
homem se engana com facilidade e de que 
os conhecimentos provenientes dos sentidos 
são muitas vezes duvidosos, impulsiona 
Descartes na busca de certezas inabaláveis. 
 Dessa maneira m, ele encontra na 
dúvida um caminho seguro para encontrar a 
verdade: “Converte a dúvida em método. 
Começa duvidando de tudo, das afirmações 
do senso comum, dos argumentos da 
autoridade, do testemunho dos sentidos, das 
informações da consci6encia, das verdades 
deduzidas pelo raciocínio, da realidade do 
mundo exterior e da realidade do seu próprio 
corpo” ( Aranha e Martins, 1986: 166). 
 A dúvida metódica conduz Descartes a 
um primeiro conjunto de verdades: “Eu duvido, 
isso é certo. Se duvido, é porque eu penso, isso 
também é certo. Se penso, eu existo: é certo 
que eu existo porque penso”. 
 Cogito, ergo sum, isto é, “Penso, logo, 
existo”: eis a primeira certeza cartesiana, da 
qual é possível ter-se uma idéia clara e 
distinta. O Cogito cartesiano ( “eu penso”) 
fundamenta a possibilidade da ciência: 
admitem-se como verdade apenas idéias 
claras e distintas. A evidência racional é o 
critério que deve guiar todo ser humano na 
construção do conhecimento. Assim, é possível 
perceber a ênfase no sujeito conhecedor - todo 
conhecimento resulta exclusivamente do 
próprio ato de pensar. 
 Nesse sentido, as idéias são inatas, 
não porque os homens já nascem com elas, 
mas sim porque elas resultam do próprio ato 
de pensar. As idéias claras e distintas 
representam o conteúdo possível do 
conhecimento humano sobre o real. O real só 
pode ser conhecido a partir das idéias que 
resultam da atividade do pensamento. Apenas 
o uso correto da razão garante um 
conhecimento evidente e certo. 
“Minhas idéias provêm das experiências 
sensíveis” 
 
FRANCIS BACON ( Empirismo) 
Se para o racionalismo ( do latim ratio, “razão”) 
a origem do conhecimento se encontra na 
razão, instrumento único e exclusivo capaz de 
conhecer a verdade, para o empirismo ( do 
grego empeiria, “experiência”) a mente 
humana é uma folha de papel em branco 
preenchida exclusivamente com os dados 
provindos da experiência sensível, externa ou 
interna. 
 Francis Bacon ( 1561- 1626), filósofo 
inglês, é um dos representantes do empirismo, 
bem como o defensor de um novo caminho 
para se fazer ciência, at ravés do método 
indutivo experimental. Em sua obra Novum 
Organum ( Novo Instrumento), se opõe à lógica 
aristotélica, essencialmente dedutiva, e propõe a 
indução como um novo instrumento do 
pensamento, ou seja, como método de 
 
descoberta da realidade fenomenal. Ele é 
considerado um dos fundadores do pensamento 
moderno por ter sido o primeiro a expor de 
forma sistemática o método indutivo, 
contribuindo positivamente para o 
desenvolvimento das ciências da natureza – 
física, química, biologia, etc. 
 No âmbito das ciências modernas, 
Bacon cumpre um papel orientador, por sua 
ação contra os preconceitos e as falsas 
noções, denominados ídolos, que acabam por 
dificultar a tarefa de conhecer e compreender 
a realidade, de fazer ciência e ter acesso à 
verdade. 
Uma vez destruídos os ídolos, é 
possível fazer ciência, utilizando um novo 
método de investigação da natureza, 
denominado indução, a principal contribuição 
de Bacon para a evolução do pensamento 
epistemológico moderno. 
 
JOHN LOCKE ( Empirismo) 
John Locke ( 1632 – 1704), também filósofo 
inglês, expõe em sua obra Ensaio acerca do 
entendimento humano, os fundamentos do 
empirismo. Tem como finalidade principal 
“investigar a origem, certeza e extensão do 
conhecimento humano”. Para Locke, a mente 
humana é uma folha de papel em branco 
(tabula rasa) e todas as idéias têm origem em 
duas fontes, a sensação e a reflexão. 
Em primeiro lugar, os sentidos 
percebem os objetos sensíveis e imprimem na 
mente as imagens desses objetos. Nisso 
consiste a sensação, uma experiência externa, 
primeira fonte das idéias para efetivar o 
conhecimento humano. Em segundo lugar, as 
operações da própria mente sobre as idéias 
que já possui constituem a Segunda fonte 
das idéias, denominada reflexão, uma 
experiência interna, que consiste na percepção 
das operações que a própria mente realiza - 
“a percepção, o pensamento, o duvidar, o crer, o 
raciocinar, o conhecer, o querer e todos os 
diferentes atos de nossas próprias mentes” 
( Locke, 1973: 166). 
 Para Locke, não há idéias inatas, como 
afirmava Descartes. O conhecimento só ocorre 
por meio das experiências sensíveis. Só é 
possível conhecer aquilo que é inicialmente 
percebido e registrado pelos sentidos, que 
fornecem material para o trabalho posterior da 
razão. 
 
DAVID HUME (Empirismo) 
David Hume(1711 – 1776 – sua teoria 
do conhecimento encontra-se na primeira das 
três partes do Tratado da Natureza Humana, 
escrito aos vinte e cinco anos; resumida num 
Sumário do mesmo, opúsculo polêmico 
publicado logo após; e na Investigação 
Acerca do Entendimento Humano, vindo à 
luz dez anos depois. O ponto de partida é 
uma classificação de tudo aquilo que se dá a 
conhecer como sendo de dois tipos: 
impressões e idéias. As impressões são os 
dados fornecidos pelos sentidos, sejam 
internas – como a percepção de um estado de 
tristeza -, sejam externas, como a visão de 
uma paisagem ou a audição de um ruído. As 
idéias são representações da memória e da 
imaginação e resultam das impressões como 
suas cópias modificadas; podem ser associadas 
por semelhança, contigüidade espacial e 
temporal e causalidade. Em suma, trata-se de 
um novo passo em relação à teoria de John 
Locke, segundo a qual a mente é uma tábua 
rasa, uma folha de papel em branco, em que 
são impressos caracteres através dos 
mecanismos da experiência sensível. Cegos ou 
surdos de nascença não possuem esses 
caracteres, ou seja, não têm idéias 
correspondentes às cores ou aos sons, e um 
ser completamente desprovido dos sentidos 
jamais seria capaz de qualquer conhecimento. 
 A essa concepção dá-se o nome de 
empirismo psicológico, por constituir uma 
teoria do conhecimento baseada na análise 
das funções subjetivas nele envolvidas. Uma 
conseqüência é o chamado empirismo lógico, 
desenvolvido por filósofos posteriores, mas 
cujas bases já se encontram em David Hume. 
O empirismo lógico consiste na afirmação de 
que as palavras só têm significado na medida 
em que se referem a fatos concretos. 
 
Immanuel Kant 
 
Immanuel Kant ( 1724 – 1804), filósofo 
alemão, foi um dos principais representantes doiluminismo. Em três de suas obras, Crítica da 
razão pura (1781), Crítica da razão prática ( 
1788) e Crítica da faculdade de julgar ( 
1790), submeteu a razão a um exame 
criteriosos para verificar a possibilidade, o 
alcance e os limites da razão como 
instrumento de acesso ao conhecimento. Daí a 
sua filosofia ser também denominada de 
“criticismo kantiano”. 
Em suas obras Crítica da razão pura, Kant 
reconheceu a exist6encia de dois tipos de 
conhecimento: o conhecimento empírico ou a 
posteriori, obtido por meio da experiência 
sensível, e o conhecimento puro ou a priori, 
que independe da experiência e das 
impressões dos sentidos, produzindo juízos 
necessários e universais “ “alinha reta é a 
dist6ancia mais curta entre dois pontos” - tal 
juízo se refere a toda e qualquer linha reta ( 
daí a universalidade), bem como, sob qualquer 
circunstância, a linha reta é sempre a mais 
curta ( daí a necessidade). 
 Kant também fez uma distinção entre 
juízos analíticos e juízos sintéticos. Os juízos 
analíticos são aqueles em que o predicado já 
 
está contido no sujeito: “o t riângulo tem três 
ângulos”; “todo solteiro não é casado”; “todos 
os corpos são extensos”. Tais juízos são a 
priori ( não dependem da experiência ) 
universais e necessários. No entanto, não 
trazem informações novas sorte o sujeito não 
enriquece o conhecimento, apenas tornam mais 
claro aquilo que já se sabe sobre o sujeito. 
 Os juízos sintéticos são aqueles em 
que o predicado acrescenta informações novas 
sobre o sujeito, ampliando o conhecimento: 
“todos os corpos são pesados”; “os corpos se 
movimentam”. A extensão dos corpos é 
evidente. Peso e movimento são predicados 
obtidos pela experiência. Portanto, os juízos 
sintéticos são a posteriori (dependem da 
experiência dos sentidos) contingentes 
particulares. 
 A contribuição inovadora de Kant 
residiu nos juízos sintéticos a priori: 
independem da experiência; portanto, são 
universais e necessários; enriquecem, ampliam 
e fazem o conhecimento progredir. Tais são os 
juízos com os quais a matemática e a física 
trabalham. 
 Como se formulam os juízos sintéticos 
a priori? Para Kant, não é o objeto que 
determina o conhecimento do sujeito. Pelo 
contrário, é o sujeito quem produz o 
conhecimento, a partir de princ ípios a priori 
que sintetizam os dados empíricos. 
 Kant atribuiu ao sujeito a elaboração 
do conteúdo do conhecimento por intermédio 
de condições subjetivas que são as faculdades 
e suas respectivas formas a priori de espaço 
e tempo; o entendimento e as categorias de 
unidade, pluralidade, totalidade, realidade, 
negação, limitação, substância, causalidade, 
comunidade, possibilidade, exist6encia e 
necessidade. 
Assim, o conhecimento começa com as 
experiências sensíveis que atingem os 
sentidos: a matéria do conhecimento são as 
impressões que o sujeito recebe dos objetos 
exteriores, de maneira desorganizada, 
desordenada. Esses dados empíricos são 
organizados mental e logicamente pelo espaço 
e tempo, formas a priori da sensibilidade. Para 
Kant, espaço e tempo não são propriedades 
inerentes aos objetos, mas estruturas 
subjetivas que permitem ao sujeito intuir os 
objetos. Essas intuições são pensadas pelo 
entendimento, também a partir de categorias 
apriorísticas, dando origem aos conceitos. 
 Para Kant, não é possível o 
conhecimento das ess6encias, das coisas em si 
mesmas (noúmena), mas apenas dos 
fenômenos (phaenómena), daquilo que se 
manifesta à consciência. Já que o 
conhecimento é um processo de síntese dos 
dados empíricos elaborados pelo sujeito 
conhecedor a partir de estruturas subjetivas 
apriorísticas, a possibilidade do conhecimento 
metafísico das substâncias, entre elas Deus, 
o mundo e a alma, se tornaram inviável, na 
medida em que a experiência sensível de tais 
substâncias também é inviável. A exist6encia 
de Deus, a imortalidade da alma e a 
liberdade humana são postuladas pela razão 
prática e moral e jamais conhecidas pela 
razão pura. 
A filosofia kantiana é também denominada 
idealismo transcendental: o sujeito constrói o 
conhecimento e dá significado e sentido à 
realidade a partir de categorias subjetivas a 
priori (idealismo); o conhecimento não está 
particularmente voltado para os objetos, mas 
para o modo de conhecê-los aprioristicamente ( 
transcendental). 
 Kant empreendeu no âmbito da 
filosofia uma “revolução copernicana” ao atribuir 
ao sujeito um papel determinante no ato de 
conhecer. Este já não resulta , como se 
pensava até então, de uma adequação do 
sujeito a uma realidade exterior (que 
anteriormente tinha o papel determinante no 
processo), mas sim de uma construção mental 
apriorísticas do espírito. 
O criticismo kantiano, ao efetuar a 
síntese entre racionalismo e o empirismo, 
provocou o surgimento de duas correntes 
filosóficas divergentes: de um lado, os 
idealistas (Ficht, Schelling e Hegel), que, 
enfatizando a postura do sujeito como 
construtor do conhecimento a partir de 
categorias a priori, concebe a realidade como 
produto exclusivo do pensamento humano; de 
outro lado, os positivistas ( em especial, Comte), 
que, enfatizando o valor da experiência 
sensível como fundamentos epistemológicos 
das ciências elegem o real como objeto de 
investigação do espírito positivo, ao qual cabe 
descobrir as relações invariáveis entre 
fenômenos, base exclusiva para explicação 
dos fatos em termos reais. 
 
Augusto Comte 
 
 Augusto Comte ( 1798 – 1857) filósofo 
francês foi o principal representante do 
positivismo, corrente filosófica “que acompanha, 
promove e estrutura o último estágio que a 
humanidade teria atingido, fundado e 
condicionado pela ciência ( Simon, 1986: 120). 
O positivismo se ocupa não apenas da 
fundamentação e classificação das ciências, 
mas também da modificação da sociedade e 
das reformas práticas das instituições, através 
de mecanismos adequados capazes de 
conduzi-la a um “estado positivo”, 
fundamentado nas idéias de ordem e 
progresso. 
Comte afirmou Ter descoberto uma 
grande lei fundamental, segundo a qual o 
espírito humano em sua evolução passou por 
três estados: o estado teológico, o metafísico e 
 
o positivo. No estado teológico, o espírito 
humano encontra nos agentes sobrenaturais a 
explicação dos fenômenos; no estado 
metafísico, os fenômenos são explicados não 
mais por agentes sobrenaturais (fetichismo, 
politeísmo e monismo), mas por forças 
abstratas; e, no estado positivo, o último e 
definitivo, o espírito humano encontra a 
ciência e, deixando de lado a investigação das 
causas primeiras e/ou finais, se atém à 
observação dos fatos, procurando raciocinar 
sobre eles e descobrir as relações constantes 
entre os fenômenos observados, isto é, suas 
leis. 
 
Karl Marx 
Para Karl Marx (1818 – 1883) e Friedrich Engels 
(1820 – 1895) a teoria hegeliana do 
desenvolvimento geral do espírito humano não 
conseguiria explicar a vida social, que se 
apresentava, de um lado, como avanço técnico, 
como aumento dopoder do homem sobre a 
natureza, como enriquecimento e como protiva 
por meio da moral, do direito, da política: O 
espírito objetivo se realiza naquilo que se chama 
mundo da cultura. Essa relação antitética é 
superada pelo espírito absoluto, síntese final em 
que o espírito terminando o seu trabalho, 
compreende-o como realização sua. A mais alta 
manifestação do espírito absoluto é a filosofia, 
saber de todos os saberes, quando o espírito 
atinge a absoluta autoconsciência. 
Assim, Hegel propõe um novo conceito 
de história: o presente é retomado como 
resultado de um longo e dramático processo; a 
história não é uma simples acumulação e 
justaposição de fatos acontecidos no tempo, mas 
um verdadeiro engendramento, um processo cujo 
motor interno é a contradição. 
 
Filosofia Estética 
 
O problema do belo e da experiência estética 
 
O conceito de belo é eminentemente histórico. 
Cada época, cada cultura, tem o seu padrão de 
beleza próprio. Já houve até quem dissesse 
que “gordura é formosura”. 
 Da mesma forma, as manifestações 
artísticas têm sido bastante diversas e, por 
vezes, até desconcertantes, no curso da 
história. Essa diversidade se deve a vários 
fatores, que vão do político, social e econômico 
até os objetivos art ísticos que cada época ou 
cultura tem se colocado. 
 Sem querer, aqui, fazer história da arte, 
vamos discutir o naturalismo - postura 
fundamental que marcou profundamente toda 
a arte ocidental desde a Grécia Antiga - e sua 
ruptura no final do século XIX, a qual deu 
origem à produção art ística do século XX. 
 O naturalismo, segundo Harold Osborne, 
pode ser definido como a ambição de colocar 
diante do observador uma semelhança 
convincente das aparências reais das coisas. 
A admiração pela obra de arte, dentro dessa 
perspectiva, advém da habilidade do artista em 
fazer a obra parecer ser o que não é, parecer 
ser a realidade do que representa. 
 Dentro da atitude naturalista, podemos 
distinguir algumas variações, dentre as quais 
as mais importantes são o realismo e o 
idealismo. 
 O realismo mostra o mundo como ele 
é, nem melhor, nem pior. É característico, por 
exemplo, da arte renascentista do século XV. 
 Já o idealismo retrata o mundo nas 
suas condições mais favoráveis. Na verdade, 
mostra o mundo como desejaríamos que fosse 
melhorando e aperfeiçoando o real. É o 
padrão da arte grega, que não retrata 
pessoas reais, mas pessoas idealizadas. Foram 
os gregos que elaboraram a teoria das 
proporções do corpo humano. 
 A ruptura com a atitude naturalista vai 
ocorrer na Segunda metade do século XI X 
com os impressionistas, que passam a dar 
primazia às variações da luz e não aos 
objetos representados. 
 Essa mudança de atitude se deve, em 
parte, ao aparecimento do bisavô da máquina 
fotográfica - o daguerreótipo -, que fixa as 
imagens do mundo de forma mais rápida e 
mais econômica do que a tela pintada. Assim, 
os artistas, principalmente os pintores, tiveram 
de repensar a função da arte e o espaço 
específico da pintura. 
 
Questão da mímesis 
Na Grécia Antiga não havia a idéia 
de artista no sentido que hoje empregamos, 
uma vez que a arte estava integrada à vida. 
As obras de arte dessa época eram utens ílios 
( vasos, ânforas, copos, templos etc.) ou 
instrumentos educacionais. Assim, o artífice que 
os produzia era considerado um trabalhador 
manual, do mesmo nível do agricultor ou do 
ferramenteiro. Ele era um artesão numa 
sociedade em que o trabalho manual era 
considerado indigno. 
 Nesse período ( séc. V e IV a.C. ) 
foram desenvolvidas técnicas cuja principal 
motivação era produzir cópias da aparência 
visível das coisas. A função da arte era criar 
imagens de coisas reais, imagens que 
tivessem aparência de realidade. 
 Há várias anedotas que ilustram bem 
isso, embora poucos exemplares da pintura 
grega tenham chegado até nós. Dizem que 
Apeles pintou um cavalo com tanto realismo 
que cavalos vivos relincharam ao vê-lo. Outra 
história conta que Parrássio pintou uvas tão 
reais que passarinhos tentavam bicá-las. 
 
 Na verdade, talvez essas pinturas só 
possam ser consideradas realistas em relação 
à estilização da pintura que a precedeu ou à 
pintura egípcia, por exemplo. Por outro lado, 
temos de admirar a fidelidade anatômica das 
esculturas gregas, tais como a Vitória de 
Samotrácia e o Discóbulo. 
 Essa atitude perante a arte está 
fundada sobre o conceito de mímesis. 
 Embora mímesis seja normalmente 
traduzida por “imitação”, ela, em grego, significa 
muito mais que isso. 
 Para Platão ( séc. V a.C.), no Crátilo, as 
palavras “imitam” a realidade. Neste caso, a 
tradução mais correta para mímesis talvez 
fosse “representar”, e não “imitar”. 
Para Aristóteles ( séc. IV a.C.), a arte 
“imita” a natureza. Arte, para ele, no entanto, 
englobava todos os ofícios manuais, indo da 
agricultura ao que hoje chamamos de belas-
artes. Assim, a arte, enquanto poíesis, ou seja, 
“construção”, “criação a partir do nada”, 
“passagem do não ser ao ser”, imita a 
natureza no ato de criar. Por outro lado, 
também aqui poderíamos entender mímesis 
com o sentido de “representar”. Para 
Aristóteles, “todos os ofícios manuais e toda a 
educação completam o que a natureza não 
terminou”(1). 
 Ainda segundo Aristóteles, a apreciação 
da arte vem do prazer intelectual de 
reconhecer a coisa representada através da 
imagem. Assim, ele resolve o problema de 
feio. O prazer, no caso, não vem do 
reconhecimento da coisa feia, mas da 
habilidade que o artista demonstra ao 
representá-la. 
 Em sentido estrito, ou seja, estético 
propriamente dito, Platão distingue a poesia 
mimética - na qual as personagens falam por 
si - da poesia narrativa, que não é mimética. 
 Aristóteles, no Capítulo III da Poética, 
enumera três métodos de mímesis na poesia: 
o primeiro é a poesia narrativa, sem 
personificação; o segundo é a poesia 
dramática, com personificação; e o terceiro é 
uma mescla dos dois anteriores, com narrativa 
e personificação. 
 Entretanto, é no sentido de cópia ou 
reprodução exata e fiel que a palavra 
mímesis passa a ser adotada pela teoria 
naturalista. E as obras de arte, dentro dessa 
perspectiva, são avaliadas segundo o padrão 
de correção colocado por Platão: “Agora 
suponhamos que, neste caso, o homem 
também não soubesse o que eram os vários 
corpos representados. Ser-lhe-ia possível 
ajuizar da justeza da obra do artista? Poderia 
ele, por exemplo, dizer se ela mostra os 
membros do corpo em seu número verdadeiro 
e natural e em suas situações reais, dispostos 
de tal forma em relação uns aos outros que 
reproduzam o agrupamento natural - para não 
falarmos na cor e na forma - ou se tudo 
isso está confuso na representação? Poderia 
o homem, ao vosso parecer, decidir a questão 
se simplesmente não soubesse o que era a 
criatura retratada?”. 
 Cabe a Santo Tomás de Aquino ( séc. 
XIII) retomar o pensamento de Aristóteles e 
recuperar o mundo sensível que havia sido 
consideradofonte de pecado durante quase 
toda a Idade Média. Se for criação de Deus, o 
mundo também pode ser belo. Nossa atenção 
pode se voltar para ele outra vez. Para Santo 
Tomás, a beleza é um dos aspectos do bem. 
“A beleza e a bondade de uma coisa são 
fundamentalmente idênticas”. A beleza é o 
aspecto agradável da bondade, pois o belo é 
agradável à cognição. 
 O Renascimento art ístico, ocorrido entre 
os séculos XIV e XV na Europa, passa a 
dignificar o trabalho do artista ao elevá-lo à 
condição de trabalho intelectual. 
Conseqüentemente, a obra de arte assume 
outro lugar na cultura da época. 
 Nesse contexto, as artes vão buscar 
um naturalismo crescente, mantendo estreita 
relação com a ciência empírica que desponta 
na época e fazendo uso de todas as suas 
descobertas e elaborações em busca do 
ilusionismo visual. Assim, a perspectiva 
científica, a teoria matemática das proporções, 
que possibilitam a criação da ilusão da 
terceira dimensão sobre uma superfície plana, 
as conquistas da astronomia, da botânica, da 
fisiologia e da anatomia são incorporadas às 
artes.

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