Artigo - Epistemologia da Administração - Franca Filho
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Artigo - Epistemologia da Administração - Franca Filho

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Entretanto, em razão de sua filiação ao paradigma funcionalista originado nas ciências sociais, tal abordagem enfocará apenas aqueles temas relacionados a ordem social como \u201cintegração, estabelecimento de objetivos e autoridade nas organizações burocráticas\u201d, deixando de abordar (ou obscurecendo) \u201cdimensões essenciais das organizações produtivas como poder, influência, conflitos, desigualdades, dominação étnica, embates entre sexos, questões religiosas e ideológicas, dentre outras, que não poderiam estar ausentes num esforço profundo de análise e compreensão de organizações\u201d (Serva e Ruben, 1995:209).
O mesmo ocorre com a abordagem comportamentalista, que também influenciada pelo paradigma funcionalista, ao passo que contribuiu no sentido da abertura das questões organizacionais ao campo das ciências humanas (sobretudo a psicologia), por outro lado, seus estudos, especialmente aqueles dedicados aos processos organizacionais de liderança, motivação, comunicação etc., revelaram-se extremamente comprometidos com uma tendência pragmática e utilitarista de visão. Citando Chanlat (1994), Serva e Ruben (1995) nos relembra mais uma vez que nesta abordagem, \u201ca obsessão pela eficácia, desempenho e aumento de produtividade em curto prazo tem levado vários pesquisadores a restringir seus esforços à mera exploração de técnicas de controle\u201d (p.209). Além disso, \u201csua orientação behaviorista e positivista desemboca numa percepção da natureza humana guiada univocamente pelo tipo ideal de homem requerido pela sociedade centrada no mercado, absorvendo inteiramente os ditames desse tipo histórico de sociedade e generalizando-os para todos os espaços sociais; processo este que Guerreiro Ramos denominou \u2018síndrome comportamentalista\u2019. Em duas palavras, o homem é reduzido a um ser que responde a estímulos, cuja sedimentação valorativa é fundamentalmente econômica, ainda que em alguns casos revestida de \u2018necessidades psicossociais\u2019; \u2018sua categoria mais importante é a conveniência. Em conseqüência, o comportamento é desprovido de conteúdo ético e validade geral. É um tipo de conduta mecanomórfica, ditada por imperativos externos (Guerreiro Ramos, 1981:51)\u201d (p.209).
	Podemos observar assim o quanto este campo da teoria das organizações, sobretudo no seu início aparece influenciado por um pensamento utilitarista que já se fazia bastante presente no próprio campo das ciências sociais mais geral com o seu economicismo. Tal utilitarismo ganha consistência através da ascensão de um paradigma funcionalista. É exatamente a partir dessa base funcionalista que se desenvolverá o campo dos estudos organizacionais, ora renovando-o, ora rompendo-o. Podemos assim considerar em linhas muito gerais um dupla perspectiva norteadora do desenvolvimento da teoria das organizações. De um lado, aquelas abordagens que renovam a tradição de um pensamento funcionalista enfocando em geral temáticas muito caras a ciência econômica de tendência mais neoclássica como as questões da tecnologia, da estrutura, da inovação etc., até outros temas mais ligados a outras disciplinas como a questão da cultura de empresa tornado praticamente um modismo nos anos 80 e 90. A tônica neste âmbito de estudos, que permanece hegemônico na teoria das organizações, diz respeito as possibilidades de adaptação das organizações de natureza empresarial no espaço do mercado. [5: Entre aqueles autores mais destacados nesta perspectiva podemos mencionar alguns nomes mais conhecidos como M.Porter, P.Drucker e E.Schein.]
Por outro lado, desenvolvem-se também uma série de outras abordagens, que tem sido chamadas por alguns de \u201cestudos críticos\u201d das organizações, cuja preocupação fundamental é revelar algumas dimensões importantes da análise organizacional não percebida pela perspectiva funcionalista. Esta corrente crítica dos estudos organizacionais empreende diálogos mais aprofundados com algumas disciplinas no campo mais geral das ciência sociais, a exemplo da antropologia e/ou da psicanálise, trazendo para o mundo da administração o tratamento de temas extremamente presente no dia à dia da gestão como a questão do gênero nas organizações, o conflito inter-étnico, a problemática do poder e da ideologia organizacional, além de um outro enfoque para questões antes já identificadas na vertente funcionalista como a questão da linguagem e da comunicação na dinâmica organizacional, da ética, da cultura etc.. O compromisso maior de uma tal abordagem crítica dos estudos organizacionais, para além da desconstrução do discurso e retóricas gerencias renovados incessantemente pela literatura administrativa de grande circulação, parece ser muito mais aquele de procurar esclarecer o universo simbólico que estrutura e atribui sentido as ações na organização. Tal perspectiva de visão vêm ratificar o pressuposto de entendimento das organizações segundo o qual tão importante quanto compreendê-las enquanto sistemas de atividades significa entendê-las como uma ordem social, que estrutura e atribui sentido as próprias atividades, ou seja, uma ordem simbólica.[6: Entre os autores que mais tem se destacado nesta perspectiva merecem destaque os nomes de Jean-François Chalat e de Omar Aktouf, do lado francofônico, além de Burrel e Morgan ou de S.Clegg, do lado anglo-fônico. Entretanto não são poucas as contribuições de autores situados em outros campos disciplinares e que passam a tratar de temáticas no âmbito dos estudos organizacionais a exemplo de E.Enriquez, V.deGaulejack, J.Girin dentre outros. Do lado brasileiro duas fontes de inspiração fundamental encontram-se nos trabalhos de Guerreiro Ramos e de Mauricio Tragtemberg.]
	Após esta breve leitura acerca do campo dos estudos organizacionais podemos melhor avaliar o quanto este âmbito do conhecimento administrativo distingue-se dos demais. A teoria das organizações apresenta uma vocação fundamental de conhecimento mais explicativo e interpretativo. Tal vocação afirma-se com muito mais ênfase através das chamadas abordagens críticas, enquanto que na perspectiva funcionalista sempre é comum haver algum pendão para um viés mais prescritivo. Em todo caso, seja numa ou na outra abordagem, o objeto principal de estudos são as organizações. O que não é possível concluir em se tratando das áreas funcionais ou das técnicas gerenciais. Em ambos os casos permanece o compromisso com um conhecimento de natureza eminentemente prescritivo. 
Esta primeira classificação do conhecimento produzido em administração nos revela desde já a diversidade das idéias produzidas neste campo, apontando deste modo para uma pluralidade de interpretações possíveis como resposta a questão fundamental posta no início deste texto sobre o que é a administração. É exatamente em razão dessa pluralidade de idéias que se elaboram em nome da administração que sugerimos a seguir três possibilidades para sua interpretação ou definição mesmo. Se a administração aparece assim como um campo plural do conhecimento, porque não então também entendê-la de modo plural?
A administração - três grandes possibilidades de interpretação: arte, ideologia ou ciência? 
	Parece instrutivo notar que estas diferentes interpretações acerca da administração são veiculadas por diferentes atores e instituições a partir do modo mesmo como cada um lida com este conhecimento.
A administração como arte
	Para muitos a administração é uma arte. Quem nunca ouviu aquela célebre frase \u201ca arte de administrar\u201d tão decantada em diferentes contextos? A compreensão da administração como arte repousa sobre o pressuposto do seu entendimento antes de tudo como uma prática, uma ação, um fazer que se aprende na medida em que se exercita (ou se pratica), um learning by doing. A prática administrativa ou o exercício da administração, nesta perspectiva, supõe um conjunto de habilidades tidas como inerentes ao indivíduo, conformando uma espécie de talento natural. A idéia é de comparar a figura do administrador com aquela de um artista no sentido em que, ambos, seja o administrador na gestão de uma organização, seja um artista
Thays
Thays fez um comentário
Muito bom, utilizado na disciplina de Sistemas Organizacionais da UNIVASF.
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