A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
16 pág.
Teoria Literaria - Capitulo 5

Pré-visualização | Página 2 de 8

e foidefinido
num famoso ensaio de Chklovski (1976): A arte como procedimento.
Nesse ensaio, Chklovski (1976) reitera a ideia de Jakubinski de que há uma distinção entre a
natureza da linguagem poética e a natureza da linguagem cotidiana, que ele nomeia, respectivamente,
como língua poética e língua prosaica. A linguagem poética seria distinta da linguagem cotidiana porque nela
a função referencial não se reduziria ao utilitarismo pragmático nem ao automatismo que caracterizam
esta última. A linguagem poética, se caracterizaria exatamente pela ênfase na desautomatização da
percepção que se encontra como que adormecida pelo hábito e pela economia e pragmatismo que
caracterizam a linguagem cotidiana:
E eis que para devolver a sensação de vida, para sentir os objetos, para provar que pedra é
pedra, existe o que se chama arte. O objetivo da arte é dar a sensação do objeto como visão
e não como reconhecimento; o procedimento da arte é o procedimento da singularização
dos objetos e o procedimento que consiste em obscurecer a forma, aumentar a dificuldade
e a duração da percepção; a arte é um meio de experimentar o devir do objeto, o que é já
"passado" não importa para a arte (CHKLOVSKI, 1976, p. 45).
Note-se, na distinção entre reconhecimento e visão, a oposição entre automatismo e percepção
desautomatizada. Segundo Chklovski (1976), a arte se caracteriza por procedimentos de construção que
visam, por meio da desautomatização da percepção adormecida pelos hábitos cotidianos, oferecer ao seu
destinatário uma percepção mais rica em informações sobre os temas ou assuntos de que trata.Jlal visão
é construída pelo artista por meio de recursos de linguagem que se constituem em procedimentos de
singularização cuja função é oferecer novas informações sobre temas e objetos que integram a experiência
cotidiana, mas se encontram como que neutralizados pelo automatismo da percepção.
Os procedimentos de singularização prornovem algo como uma "crise" nos hábitos que regulam
o comportamento humano regido pelas leis da linguagem cotidiana, dificultando, deslocando ou
transtornando tais hábitos de modo que o receptor da obra seja obrigado a rever as suas expectativas
e pré-conceitos e, também, a sua' própria percepção do mundo. São, portanto, os procedimentos de
singularização que, segundo Chklovski (1976), definem a especificidade da linguagem poética ou
artística. Comparem-se, por exemplo, os seguintes textos:
TIIOMAS BONNICI / LÚCIA OSANA ZOLIN (OI\GANIZADORES) - 117
rn~;'fR
i! r-------------~------------____,
'I Meio-dia na Sé
Alessandra P.Caramori
Ainda me lembro daquele beijo em plena praça central
da cidade quando os sinos da igreja anunciavam o
meio-dia.
N assas bocas unidas
Nossas línguas
Um sino
E dois badalos.
A N C o ]UNIOR
No primeiro texto, a referência ao beijo é direta e, portanto, como que transparente à leitura e
à compreensão de todo e qualquer leitor (embora a intensidade e o valor afetivo desse beijo sejam
diferentes para aqueles que o realizaram, como demonstra a autora do bilhete). No segundo texto,
a referência ao beijo torna-se opaca à leitura e à percepção do leitor, que tem de ler a existência de
um beijo na relação estabelecida entre as bocas unidas e o sino com dois badalos (metáfora do beijo
apaixonado, erótico, de língua). No primeiro texto, as funções referencial e emotiva OAKOBSON,
1984) são as mais importantes, e não há necessariamente destaque para a função poética; no segundo
texto dá-se o inverso: a função poética se destaca e subordina as demais.
Os procedimentos adotados pela autora do segundo texto - a "descrição" baseada numa gradação
'que vai do mais externo ao mais interno - tornam o referente (beijo) algo muito particular: (a)já no
título, que indica a posição exterior e tensa dos ponteiros do relógio passando, por sugestão, à indicação
da posição das línguas que "badalam"; ou (b) ria apresentação dos signos que compõem o beijo
(bocas; línguas), a escolha de uma metáfora (um sino, e dois badalos) para representar o movimento
e a intensidade das línguas e das emoções no beijo apaixonado; a ênfase onomatopaica conferida às
nasais [n], às linguodentais [d] e às bilabiais [b] que contribui para a percepção de uma cadência
relacionada com o caráter arrebatador da experiência do eu-lírico e afirma uma associação entre o
beijo e o bimbalhar dos sinos ao meio-dia. Tais procedimentos singularizam esse beijo, tornando-o
distinto de todos os demais beijos presentes em outros textos, sejam literários ou não. Esse processo
de singularização confere ao segundo texto uma densidade maior no que se refere à literariedade, e é
ele que, dando ênfase ao apelo estético do texto, universaliza a experiência ali registrada, tornando-a
artisticamente próxima da experiência de vida do leitor - o que não acontece com o primeiro texto. Por
tais razões, pode-se dizer que Meio-dia na Sé é um texto literário, enquanto que o outro texto é apenas
um bilhete trocado entre enamorados.
Os procedimentos de singularização visam, segundo Chk1ovsk:i,a "criar uma percepção particular
do objeto, criar uma visão e não o seu reconhecimento" (CHKLOVSKI, 1976, p. 50). Já o caráter
estético, da linguagem poética (artística) "é criado conscientemente para libertar a percepção do
automatismo; sua visão representa o objetivo do criador e ela é construída artificialmente de maneira
que a percepção se detenha nela e chegue ao máximo de sua força e duração" (CHKLOVSKl, 1976,
p. 50). O discurso poético é, para Chk1ovsk:i, um "discurso elaborado" (1976, p. 55) ao passo que o
discurso prosaico (cotidiano) é "ordinário, econômico, fácil" (1976, p. 55).
Concebendo a linguagem poética (artística) como fundamentalmente comprometida com a
desautomatização da percepção, o autor afirmará aexistência de um estreito vínculo entre oprocedimento
de singularização e o efeito de estranhamento. É porque causa um efeito de estranhamento que a arte
desautomatiza a percepção, dificultando-a e prolongando-a ao exigir do receptor uma atenção mais
intensa e demorada do que aquela conferida cotidianamente aos demais textos e mensagens.
Ao conceber a arte como algo marcado por um conjunto de procedimentos de singularização,
os formalistas russos contribuíram para um questionamento do modo como, até então, a crítica e a
historiografia literárias eram feitas.
A periodização literária canônica, que circunscreve autores e obras a determinados recortes
histórico-culturais e a determinadas escolas estéticas, organizados de modo sucessivo e linear, sofre,
a partir da noção de procedimento de singularização, um abalo. Pode-se, por exemplo, reescrever a
história da literatura a partir da identificação das séries literárias que tenham em comum um mesmo
conjunto de procedimentos dominantes.
118 - T EO R I A LITERÁRIA
~~4 F o R M A L , S M O R U S S O E N E W C ROo, T , C , S M
Nesse sentido, a importância dada a distinções que se baseiam em valores extraliterários torna-se
secundária em relação ao valor das distinções calcadas em valores exclusivamerite literários. Certos
distanciamentos estabelecidos entre textos vinculados a escolas estéticas diversas tornam-se menos
importantes do que o reconhecimento de que, independentemente da vinculação ideológica a esta
ou àquela doutrina filosófica, política, religiosa etc., os textos podem ser reagrupados numa história
da literatura que privilegie o reconhecimento, neles, de procedimentos de construção comuns. Vale o
mesmo para uma redefinição da noção de gênero em literatura, tão complexa e marcada por contradições
como a própria literatura em decorrência da heterogeneidade dos saberes que tradicionalmente
sustentam a sua definição. .."c .. -0:-
A ênfase conferida ao estudo dos traços específicos do discurso literário pelos formalistasfezcom
que eles recusassem a distinção entre "forma" e "fundo" (forma x conteúdo) na abordagem crítica do
texto literário. Tal distinção, além