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Teoria Literaria - Capitulo 5

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(cesura).
Para se ter uma aproximação concreta dos problemas apontados por Brik (1976), basta, por exemplo,
que dois leitores façam leitura em voz alta do mesmo texto, pois o ritmo está ligado ao sentido, que,
por sua vez, está ligado ao contexto, à interpretação e ao discurso, fatores que desencadearão mudanças
nos pontos de pausa (CHACON, 1998, p. 24).
Para Brik, "o verso é um complexo necessariamente linguístico, mas que repousa sobre leis
partículares que não coincidem com as da língua falada" (BRIK, 1976, p. 139). Nesse sentido, há
dois erros a serem evitados quando do estudo da poesia: a) a redução do verso às questões linguísticas
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FORMALISMO RUSSO E NEW CRITICISM
(sintáticas), que negligenciam o valor e a importância do som e do ritmo para a construção do poema;
b) a redução do verso ao domínio dos sons convencionais e das imagens rítmicas, desprezando o valor
e a importância da estrutura semântica para a construção do poema (tal como faziam os futuristas
russos em sua fase mais radical). O estudo da poesia deve equilibrar um e outro aspectos, pois o ritmo
e a sintaxe "não existem separadamente, mas aparecem simultaneamente, criam uma estrutura-rítmica-
e semântica específica, tão diferente tanto da língua falada quanto da sucessão transracional dos sons"
(BRIK, 1976, p. 138).
Além de Brik, Tomachevski contribuiu, ao escrever A uersificação russa (1942), para a construção
de uma teoria do' verso que o concebe como elemento constitutivo de um "discurso específico, onde
todos os elementos contribuem para o caráter poético" (EIKHENBAUM, 1976, p. 26).
o discurso poético é um discurso organizado quanto a seu efeito fônico. Mas,já que o efeito
fônico é um fenômeno complexo, só um de seus elementos sofre a canonização. Assim, na
métrica clássica, o elemento canonizado é representado pelos acentos que ela submeteu a uma
sucessão e regulou com leis [...] Mas é suficiente que a autoridade das formas tradicionais seja
abalada para que apareça com insistência este pensamento: a essência do verso não se combina
com seus traços primeiros, o verso vive também pelos traços secundários de seu efeito fônico;
ao lado do metro, existe o ritmo que é também aprcensívcl; pode-se escrever versos em que
só se observam estes traços secundários, o discurso permanece poético sem que se mantenha
o metro (TOMACHEVSKI, 1922 apud EIKHENBAUM, 1976, p. 26~27),
Os formalistas russos, por fim, efetuaram uma crítica ao modo como a questão da evolução
literária era tradicionalmente abordada. Partindo de uma concepção de forma como algo que resulta
da escolha de um tema e do conjunto de procedimentos que o singularizam como obra, os formalistas
reconhecerão a existência de um diálogo entre as formas literárias, já que, para eles, uma nova forma
sempre dialoga com as anteriores,justificando a sua emergência em razão do desgaste das formas que a .
precederam. Desse modo, a chamada "evolução literária" passa a ser abordada por um prismadialético,
que nega as bases a partir das quais ela era estudada pela história da literatura e, também, pela crítica
literária, vigentes até as duas primeiras décadas do século XX. Segundo Eikhenbaum,
a história acadêmica da literatura se limitava de preferência ao estudo biográfico e psicológico
dos escritores isolados (que eram tão só e certamente "os grandes") [... ] compreendia-se a
evolução como a ostentação passiva de uma herança que se transmitia de pai a filho, enquanto
a literatura como' tal não existia: era substituída por um material tomado emprestado da
história dos movimentos sociais, da biografia dos escritores ctc. [ ...].
Deveríamos destruir as tradições acadêmicas e nos desembaraçar das tendências da ciência
jornalística, Para os primeiros, seria necessário opor à ideia de evolução literárl~ a da literatura
em si, fora das noções de progresso e de sucessão natural dos movimentos literários, fora das
noções de realismo e romantismo, fora de toda matéria exterior à literatura que consideramos
como série específica de fenômenos. Para os segundos, deveríamos opor aos fatos históricos
concretos, a instabilidade e a variabilidade da forma, a necessidade de levar em consideração
as funções concretas deste ou daquele procedimento, isto é, de contar com a diferença entre
a obra literária tomada como um certo fato histórico e sua livre interpretação do ponto de
vista das exigências contemporâneas, dos gostos e dos interesses literários (EIKHENBAUM,
1976, p, 32-33).
As reflexões de Tynianov em Dostoievski e Gogol (1921) destacaram os problemas fundamentais da
evolução literária, concebendo a existência de uma "substituição dialética que se opera .entre asescolas,
literárias" (EIKHENBAUM, 1976, p. 33):
Quando se fala da tradição ou da sucessão literária, imagina-se geralmente uma linha reta que
encadeia novas folhas de um certo ramo literário a seus mais velhos. Entretanto, as coisassão
muito mais complexas. Não é a linha direta que se prolonga, mas assiste-se antes a uma partida
que se organiza a partir de um certo ponto que se refuta [... ] Toda sucessão literária é antes de
tudo um combate, é a destruição do todo já existente e a nova construção que se efetua a part.ir
dos antigos elementos (1YNIANOV; 1921 apud EIKHENBAUM, 1976, p. 33).
THOMAS BONNICI / LÚCIA OSANA ZOLlN (ORGANIZADO"ES) - 123
<PR A N C O ] UNIa R
t Note-se que tal afirmação concebe a história da literatura como sucessão de formas literárias
. marcada por uma contínua ruptura das novas formas com as antigas. Tal concepção, eminentemente
moderna, confina com a noção de tradição da ruptura (PAZ, 1984) ou tradição do novo, que, segundo
alguns críticos, é típica do modo como a história é vista a partir dos paradigmas da Modernidade.
Os formalistas russos vão privilegiar, em sua concepção da história literária como algo marcado
pela dialética das formas novas e antigas, o estudo dos elementos que, segundo a sua abordagem
imanentista da literatura, caracterizam a especificidade do discurso literário. Recusando-se a
comprometer o rigor de sua proposta de abordagem da literatura com base na materialidade dos
signos e estruturas que constituem o texto literário, eles vão recusar as explicações e abordagens que
subordinam a -especificidade do discurso literário a fatores extraliterários (sociologia, psicologia do
autor etc.). Os formalistas valorizam a investigação da formação dos gêneros literários e o estudo
das substituições que resultam do conflito entre o domínio de um gênero e a emergência de novos
gêneros que o contestam. Nesse sentido, eles se marcarão por Uma maior abertura no que se refere
à valorização dos chamados gêneros "marginais", "menores" ou "subliterários", pois, para eles, "a
literatura de segunda ordem, a literatura de massa, tem então também valor, pois ela participa deste
processo" (EIKI-IENBAUM, 1976, p. 35).
Essa recusa à abordagem da literatura em seus aspectos não-linguísticos e extraliterários pretendeu,
nos estudos mais radicais dos formalistas, afirmar uma autonomia que o fenômeno literário, na verdade,
não tem. A literatura não se define, como alguns de seus estudos sugerem, apenas a partir da "autocriaçâo
dialética de novas formas". A própria noção de literariedade é construída histórica e culturalmente - o
que significa que ela resulta de unia interação complexa que envolve tanto os aspectos imanentes do
fenômeno literário como os aspectos normalmente considerados como extraliterários. No entanto, a
contribuição dos formalistas não pode ser ignorada ou menosprezada por apresentar, como qualquer
outra proposta de abordagem teórica da literatura, limitações ou, eventualmente, "erros". O privilégio
por eles concedido ao estudo dos elementos específicos que constituem a natureza do fenômeno
literário foi um dos mais importantes passos dados pela teoria literária no século:XX, constituindo-se
numa herança que não pôde ser ignorada por nenhuma das propostas