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Teoria Literaria - Capitulo 5

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oitocentistas de crítica literária,
até então fortemente calcados na exploração de dados extrínsecos ao próprio texto literário.
Segundo Teixeira, o conceito de corre/ato objetivo, teorizado por Eliot no ensaio "Hamlet and
his problerns", tem origem na concepção da poesia como o resultado de uma "apropriação pessoal
da tradição literária, em que a visão individual das coisas deve, essencialmente, se transformar em
sabedoria técnica" (TEIXE1RA, 1998, p. 34). Esse conceito terá enorme importância para o Neu/
Critícism e, também, para as demais linhas de crítica e teoria literárias.
[O correlato objetivo corresponde à] criação de um conjunto de objetos, de uma série de
eventos, de uma situação ou de uma paisagem com poder de despertar no leitor a emoção
desejada. O poeta seleciona e dispõe os elementos de tal forma, que, uma vez vislumbrados
na leitura, desencadeiam imediata reação emocional. Quanto mais íntima a relação entre os
elementos do correlato objetivo e a vivacidade da emoção, tanto maior a eficácia do texto.
[ ...]
Entendido como fórmula particular responsável por uma emoção específica, o correlato
objetivo pode indicar não apenas um determinado procedimento artístico, mas também o
conjunto acabado de uma obra (TEIXElRA, 1998, p. 34-35).
Retomemos, aqui, o bilhete e o poema cujo referente é um beijo dado na praça central
de determinada cidade, que pode ser ou não São Paulo, dependendo do modo como se lê e
se interpreta o título "Meio-dia na Sé". No caso do bilhete, temos o registro de uma emoção
individual que funde amor e saudade na afirmação de uma experiência que não foi partilhada
pelo leitor. Naturalmente, não é impossível que o leitor compartilhe dessa experiência, mas, se
o fizer, isso se deverá ao fato de ser ele próprio o destinatário do bilhete ou de o tema rernetê-Io
à memória de fatos que lhe aconteceram. Num caso e no outro, não é propriamente o texto que
lhe propicia a experiência de uma emoção particular, mas sim uma experiência vinculada a um
126 - T E o R I A LITERÁRIA
FORMALISMO RUSSO E NEW CRITICISM
evento que o inclua. Logo, é bastante possível que muitos leitores não venhamacompartilhar
dessa emoção, reconhecendo-a, pelo contrário, como algo que pertence exclusivamente à autora
do texto. No caso do poema, dá-se o contrário: a articulação dos elementos que o compõem cria
um efeito emocional que é experimentado pelo leitor no momento da leitura e; desse modo.iele
sente-se como que compartilhando com o eu-lírico o prazer e a intensidade da paixão amorosa
- trata-se, pois, de uma emoção estética. Note-se que, no caso do poema, o beijo não se reduz a
uma lembrança de um momento de amor-paixão, instalando-se, no horizonte da leitura e da
interpretação, também como algo que acontece num aqui-agora da experiência erótico-amorosa.
Ror suas características, podemos vincular o"poema "Meio-dia na Sé" a alguns dos traços
da poesia moderna e contemporânea brasileira, a saber: a utilização do verso livre e branco, a
abolição da pontuação, a concisão, a valorização do fragmento, a exploração dos aspectos plásticos
da disposição do texto no papel, característica da poesia concreta. Além disso, o poema também se
aproxima da forma haicai, introduzida no Brasil no século XIX e muito cultivada no século :XX,
por poetas como Guilherme de Almeida e Paulo Leminski. Se considerarmos o seu plano sonoro,
veremos que o poema apresenta 18 sílabas gramaticais e 17 sons (já que ocorre uma contração, no
plano da leitura em voz alta, entre a última sílaba de "sino" e o "E" que dá início ao último verso).
Ora, 17 é o número de sons que caracteriza o modelo do haicai tradicional. Além disso, "Meio-
dia na Sé" marca-se pela apreensão poética do sujeito lírico que enfatiza um instante singular da
experiência pretendendo anular, em seus efeitos, o tempo histórico - traço comum ao haicai. No
entanto, o poema apresenta diferenças em relação ao modelo tradicional do haicai, já que, como
os haicais de Guilherme de Almeida, tem título e, além disso, faz uso de quatro versosem"vez'
dos três que caracterizam o haicai tradicional. Observe-se, portanto, que "Meio-dia na.Sé=dialoga
com a tradição na qual se insere, valendo-se dela para constituir-se como obra nova.
O correlato objetivo da emoção estética é, no poema, o modo como a imagem do beijo apaixonado é
construída: por meio de 4 versos curtos que enfócam as bocas, privilegiando uma "descrição" que vai
do mais exterior (as bocas unidas) para o mais interior (a imagem das línguas entrelaçadas, construída
por meio da metáfora "um sino e dois badalos"). A isso, somam-se o título, que situa geográfica e
circunstancialmente o beijo, contribuindo para a afirmação de sua importância e de sua intensidade,
os efeitos sonoros que, por associação, criam uma onomatopeia e sugerem uma sinestesia na ideia de
que o beijo se realiza como uma experiência marcada por uma multiplicidade de elementos táteis e
sonoros tanto externos quanto internos - o que se evidencia na densidade metafórica dos dois últimos
versos, em que as bocas transformam-se num único sino composto por dois badalos (línguas), que,
por sugestão, fazem o corpo e os sentidos "badalarem" na paixão.
A metáfora do beijo afirmada nos dois últimos versos constitui-se no correlato objetivo do estado
passional do eu-lírico, que, por sua vez, é uma voz que se universaliza, não se reduzindo à pessoa
individual da autora do poema. Por fim, note-se que a própria forma gráfica que caracteriza a disposição
dos versos no poema cria, como na poesia concreta, a imagem de um sino com duas bocas "atravessado"
pela língua compartilhada:
Nossas bocas unidas
Nossas línguas
Um sino
E dois badalos
A mais importante contribuição do New Criticism é a defesa do exercício de leitura e crítica de uma
obra com base no estudo minucioso de seus elementos internos, caracterizando o chamado close reading.
Nesse sentido, os novos críticos regem-se por um princípio metodológico semelhante àquele defendido
pelos formalístas russos, privilegiando o estudo das técnicas que atuam sobre a materialidade linguística
da obra em detrimento dos demais aspectos a ela associados e concebendo, portanto, a literatura como
um fenômeno autônomo, "livre das supostas relações determinantes da sociedade com o artista e deste
com o texto" (TEIXElRA, 1998, p. 34).
THOMAS BONNICI / LÚCIA OSI\NA ZOLlN (ORGANIZADORES) - 127
fundar-se em pressupostos objetivos, consagrados pelo sistema de uma teoria aplicável a
qualquer texto e à disposição de qualquer pessoa com um mínimo de condições técnicas para o
exercício da leitura. Esse exercício consiste no exame minucioso [...] do poema, cuja forma os
novos críticos entendem como um organismo dinâmico, regido por tensões e ambiguidades.
Entender o poema equivale a resolver essas tensões e ambiguidades, estabeleci das pela relação
entre as diversas unidades semânticas do texto, que independem do sentimento da composição
(TEIXElRA, 1998, p. 36) .
.~.~
NCO JUNlOR
o close reading pressupõe que a leitura de um texto deva
Outros importantes conceitos a partir dos quais ó NewCriticism vai elaborar a sua metodologia de
abordagem do texto literário são: afalácia da intenção, afalácia da emoção, a heresia da paráfrase e a busca de
"ensinarnentos", Afalácia da intenção e afalácia da emoção foram definidas em dois ensaios escritos por W
K Wimsatt e Monroe C. Beardsley.
No primeiro caso, nega-se o valor do reconhecimento das intenções ou dos sentimentos do autor
para a atividade de leitura crítica da obra por ele produzida, pois "o desígnio ou a intenção do autor
não é nem acessível nem desejável como padrão para julgar-se o êxito de uma obra de arte literária"
(WIMSATT; BEARDSLEY, 1983, p. 86).
Incorre-se na falácia da intenção quando se subordina a apreciação da obra à investigação, sempre
precária e pouco confiável, das possíveis intenções do autor ao escrevê-Ia ou, ainda, das possíveis
emoções