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Resenha crítica do filme Hannah Arendt

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Resenha crítica do filme “Hannah Arendt’ (2012), de Margarethe von Trotta.
	
	A diretora alemã Margarethe von Trotta se consagrou através da produção de filmes que retrataram mulheres fortes, como Rosa Luxemburgo (1986) e Visão (2009), sobre a Santa Hildegard de Bingen. Depois de refletir bastante sobre como transmitir a essência de Hannah Arendt através de uma cinebiografia, já que registrar o exercício de reflexão e produção acadêmica poderia ser maçante para os espectadores, a diretora decidiu focar-se na passagem mais polêmica da carreira da filósofa judia: a cobertura do julgamento do oficial nazista Adolf Einchman em Jerusalém, que ocorreu em 1961. 
	Hannah Arendt é um dos principais nomes da filosofia política e educacional do século XX, uma das suas principais obras é A Origem do Totalitarismo, de 1950. Arendt defendia o sionismo e a organização política judia na Alemanha já no inicio da década de 1930, pois percebeu a tendência racista do partido nacional-socialista que havia assumido o poder, migrou para Praga e depois para a França, onde durante a Segunda Guerra Mundial foi mantida num campo de concentração na cidade de Gurs, até que em 1941 conseguiu escapar para os Estados Unidos da América. 
	O filme começa em Nova York, no ano de 1960, mostrando Arendt como uma professora universitária já consagrada devido à publicação de As Origens do Totalitarismo; as autoridades do recém-criado Estado de Israel investigam os oficiais nazistas exilados em vários países do mundo, até que encontraram na Argentina o oficial Adolf Einchman, criador da “Solução Final” – sistema que consistia na captura dos judeus, transporte para campos de concentração, locação e sistematização das mortes em massa -, e o levaram para ser julgado por seus crimes contra humanidade em Israel. Arendt, devido ao seu interesse em entender todos os aspectos do totalitarismo, solicitou à revista The New Yorker que a enviasse à Jerusalém como correspondente para fazer a cobertura do julgamento de Einchman, depois de uma discussão entre os editores, a solicitação de Arendt é aceita e ela vai cobrir as audiências.
	A primeira coisa que impressiona Arendt é como Einchman não corresponde a figura do oficial nazista do imaginário popular, não se trata de um psicopata sádico, mas sim de um “burocrata medíocre”, um homem comum, com família, preocupações cotidianas, cuja mentalidade não associava os seus atos contra judeus aos de um assassino, ele se julgava como um cumpridor de ordens. As filmagens originais do julgamento de 1961 são usadas para representar as audiências no filme, esse foi um recurso bem explorado pela direção, que ao não recriar um Einchman, passa para os espectadores a mesma visão que teve a filósofa na ocasião e que culminou na criação do conceito de banalidade do mal. 
	Após o retorno à Nova York, o filme mostra os conflitos causados pelas publicações dos artigos escritos por Arendt, que não se limitou a escrever sobre os aspectos já conhecidos do holocausto nem compactuou com a tentativa de legitimação do poder israelense com o julgamento de um homem sem condições de defender-se. Indo muito além do esperado, a filósofa desenvolveu duas linhas de artigos: a primeira sobre o mal radical de uma ideologia e a segunda, causadora de toda a polêmica, sobre a banalidade do mal institucionalizada. A banalidade do mal foi o conceito criado através das analises das justificativas dadas pelos nazistas para se eximirem da culpa pelos crimes cometidos contra a humanidade, dizendo não serem culpados diretos, pois apenas cumpriam ordens. 
	A banalidade do mal se pautava no sistema hierárquico e de divisão de tarefas, assim, qualquer ato contra um individuo não era causado por deliberação pessoal da pessoa responsável pelo extermínio direto desse individuo, mas sim por uma cadeia de ordens de superiores que culminavam no extermínio. Einchman, não se julgava responsável pela morte dos judeus porque nunca matou nenhuma pessoa diretamente, ele afirma apenas ter desenvolvido um sistema de transporte e locação para os campos de concentração, o seu trabalho era puramente burocrático. Através dessa perspectiva as atitudes que causaram a morte de milhões de pessoas são amenizadas, a crueldade quando se torna um trabalho rotineiro de escrever nomes em papéis e não é vista com humanidade, deixa os agentes dessa crueldade cegos a ela. A sociedade nazista não parou para refletir sobre o extermínio racial de forma crítica, apenas cumpriam ordens, passando assim, por um processo de negação do pensamento, os alemães não eram mais seres humanos racionais e críticos, mas apenas peças nas engrenagens do sistema nazista. 
	Esse raciocínio de Arendt, que explicava o pensamento padrão nazista de negação da culpa, junto à acusação contra alguns lideres religiosos que não organizaram movimentos de resistência do povo judeu, o que favoreceu a captura de várias pessoas, causaram uma grande comoção nas comunidades judaicas do mundo todo. A filósofa não foi compreendida pelos seus contemporâneos, que ainda sofriam com feridas do holocausto e foi duramente criticada, até por amigos próximos. Cortou laços com várias pessoas e quase foi expulsa da universidade em que trabalhava. 
	O filme acaba da mesma forma que começou: mostrando o trabalho reflexivo de Arendt, que não se arrependeu do que escreveu, apesar das perseguições. O filme tem muitos méritos, não apenas conseguiu representar o conceito de banalidade do mal e caracterizar bem as situações sofridas pela escritora após as publicações dos artigos, mas também leva os espectadores a refletirem sobre o que constituiu a banalidade do mal, fazendo uma ligação com as atuais relações de poder das nossas instituições e de como o sistema capitalista mantido pela maioria dos países atual na vida das pessoas sem que reflitamos sobre as consequências humanas desse sistema.