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ANTROPOLOGIA E SOCIOLOGIA
DA EDUCAÇÃO
AULA 1
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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Prof. Everson Araujo Nauroski
CONVERSA INICIAL
Você já se perguntou o que nos faz humanos? Essa pergunta tem motivado cientistas de
diferentes áreas, mas principalmente antropólogos e sociólogos têm se esforçado para explicar a
complexidade que envolve o fenômeno humano. Nesta aula iremos mergulhar no fenômeno mais
antigo e universal que acompanha a história das sociedades humanas, a educação.
Desde tempos imemoriais, de geração em geração a experiência acumulada tem sido transmitida
a fim de assegurar não somente a sobrevivência da espécie humana, mas seu progresso e
desenvolvimento. Ao estudarmos os aspectos antropológicos da educação, podemos compreender
as características e diferenças em relação a como os humanos transmitiam suas tradições e
conhecimentos acumulados. Com o passar do tempo, as experiências acumuladas permitiram
diversas transformações nos comportamentos e nas formas de organização dos humanos. Como
bem pontuou Harari (2015), o Homo sapiens vivenciou uma revolução cognitiva que revolucionou de
diferentes maneiras nossas formas de interagir com a natureza e nossos semelhantes.
TEMA 1 – EXISTE UMA NATUREZA HUMANA?
Desde o domínio do fogo, a invenção da roda, o desenvolvimento da agricultura, até os
diferentes saltos de evolução tecnológica, rumo ao que vivemos na atualidade, a resposta aos
desafios e necessidades do ser humano tem vindo principalmente por meio de sua atividade de
transformação da natureza e produção de sua sobrevivência.
Se podemos falar em uma natureza humana, precisamos ter o devido cuidado de contextualizar
a partir de que olhar estamos falando. Poderia ser o olhar do biólogo para quem o ser humano
poderia ser explicado como um organismo complexo, uma organização de bilhões de células, um
conjunto de sistemas e subsistemas que formam um todo orgânico funcional. Seria uma
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possibilidade de definição, mas isso também dependeria se o nosso hipotético biólogo ainda segue
uma perspectiva teórica dentro da biologia. Ou seja, uma possível definição do que seria a natureza
humana poderia ter variações dependendo da filiação teórica do biólogo, se darwinista, materialista,
espiritualista (supondo que tais perspectivas sejam possíveis dentro da biologia), havendo diferentes
concepções em torno da explicação do fenômeno humano.
Figura 1 – DNA Humano
Crédito: Vitstudio/Shutterstock.
Como um químico definiria a natureza humana? Um conjunto de reações químicas em nível
molecular? E um físico? Um médico? Sabemos que o DNA representa a unidade básica de construção
da biologia humana, que estrutura nossas células, órgãos e tecidos, e que, embora muita coisa possa
ser explicada  a partir dos conhecimentos acumulados sobre o genoma humano, no campo da
cultura estamos num terreno diferente, sendo necessária a contribuição das ciências humanas para
que nossa compreensão do humano seja aprofundada.
A visão de um filósofo e metafísico poderia definir a natureza humana como uma substância
racional, cuja inteligência é a manifestação de uma das faculdades da alma. Todavia, um filósofo
materialista teria uma opinião bem diferente, assim como um niilista, ou um existencialista, e as
perspectivas  poderiam aumentar na proporção das diferentes doutrinas filosóficas. Essa pluralidade
de explicações sobre o fenômeno humano reforça o quanto o assunto é complexo e aberto para
novas possibilidades de interpretação.
Mas se existe uma natureza humana em nós como algo dado, como uma essência que nos torna
o que somos, parece que nem sempre a manifestação dessa natureza ocorre como esperado.
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TEMA 2 – AS MENINAS-LOBO
Talvez uma verídica e curiosa história possa nos ajudar a pensar sobre a complexidade de se
definir e compreender o que seja a categoria de natureza humana. Vejamos!
Na Índia, onde os casos de meninos-lobo foram relativamente numerosos, foram descobertas em
1920, duas crianças, Amala e Kamala, vivendo no meio de uma alcateia de lobos. A primeira tinha
um ano e meio e veio a morrer um ano mais tarde. Kamala, de oito anos de idade, viveu até 1929.
Não tinham nada de humano e seu comportamento era exatamente semelhante àquele de seus
‘irmãos’ lobos. Elas caminhavam de quatro, apoiando-se sobre os joelhos e cotovelos para os
pequenos trajetos e sobre as mãos e os pés para os trajetos longos e rápidos. Eram incapazes de
permanecer em pé. Só se alimentavam de carne crua. Comiam e bebiam como os animais, lançando
a cabeça para a frente e lambendo os líquidos. Na instituição onde foram recolhidas, passavam o
dia acabrunhadas e prostradas numa sombra. Eram ativas e ruidosas durante a noite, procurando
fugir e uivando como lobos. Nunca choravam ou riam. Kamala viveu oito anos na instituição que a
acolheu, desenvolvendo alguns traços básicos do comportamento humano típico, como gestos e
algumas palavras.  Necessitou de seis anos para aprender a andar e, pouco antes de morrer, tinha
um vocabulário de apenas cinquenta palavras. Atitudes afetivas foram aparecendo aos poucos.
Chorou pela primeira vez por ocasião da morte de Amala e se apegou lentamente às pessoas que
cuidaram dela bem como às outras com as quais conviveu. Sua inteligência permitiu-lhe
comunicar-se por gestos, inicialmente, e depois por palavras de um vocabulário rudimentar,
aprendendo a executar ordens simples. (Leymond, 1965, p. 12-14)
A situação descrita, além de curiosa e verdadeira, nos choca de certa forma. Ora, se as meninas
eram humanas, por quais razões essa humanidade não emergiu permitindo que ambas pudessem
ingressar no mundo da cultura, da linguagem e da intersubjetividade? Esse questionamento
aparentemente ingênuo coloca em xeque a noção inatista de humanidade. O que vulgarmente
chamamos de natureza humana não é algo inato, pronto e capaz de emergir independentemente do
contexto e condições em que nasçam e vivam os seres humanos. Talvez, inato seja somente nosso
potencial para nos tornarmos humanos, um potencial acumulado em milhares de anos de evolução,
agora condensado em nove meses de gestação.
 O filósofo Aristóteles nos ensina que nascemos da espécie humana, mas a humanidade presente
em nós como potencial precisa ser desenvolvida em cada um, daí a enorme importância que o
filósofo atribuía à educação e à vida social. Contemporaneamente, poderíamos parafraseá-lo dizendo
que carregamos o DNA de nossos progenitores, ou seja, somos da espécie humana, mas tornar-se
humano é um processo, uma conquista que recebe influência  das circunstâncias em que nasce e se
desenvolve uma criança. Você concorda com essa afirmação? Vamos pensar... meu gosto musical,
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minha comida preferida, a fé que professo, os valores em que acredito, o time pelo qual torço etc.
tiveram influência do meio social em que vivo, das pessoas que convivo? Pense nisso.
TEMA 3 –  NOSSA PROTOHUMANIDADE
No mundo natural, muitos dos mamíferos têm seu desenvolvimento em relação à sua
capacidade de sobreviver, dentro do útero.
Figura 2 – Fêmea gnu e seu filhote
Crédito: Andreanita/Shutterstock.
Em se tratando de um filhote gnu, minutos depois do seu nascimento ele já consegue ficar em
pé e acompanhar sua mãe, aliás sua sobrevivência depende disso.   Ou seja, em relação a essa
espécie, assim como a de vários outros mamíferos, o desenvolvimento intrauterino possibilita
garantir o básico para sua sobrevivência após o nascimento.
Vamos agora observar a outra imagem logo abaixo.
Figura 3 – Mãe e seu bebê
Crédito: In the Light Photography/Shutterstock.
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Diferente é a condição dos bebês humanos. A biologia nos explica que o comportamento
humano típico depende em grande medida da capacidade e do tamanho de nosso cérebro. No início
da gestação temos uma cabeça grande em relação ao restante de nosso corpo. Por conta dessa
condição, o período de gestação é insuficiente para um desenvolvimento capaz de garantir maior
autonomia como ocorre em outras espécies. Os bebês humanos ao nascerem são totalmente
dependentes de seus cuidadores. Seu desenvolvimento dependerá de um conjunto variado de
recursos e estímulos para que possa crescer sendo saudável. Daí a importância fundamental do pré-
natal e depois nas fases de crescimento e desenvolvimento do bebê.
Acho que você já percebeu aonde queremos chegar. O que chamamos de natureza humana é na
verdade uma proto-humanidade recebida como herança genética de nossa espécie e progenitores. O
contato com a família, os processos iniciais de socialização e tudo que envolve a complexa relação
familiar entre adultos e crianças, a educação, a inserção na cultura, o desenvolvimento das funções
superiores do cérebro, como linguagem e pensamento, dependem crucialmente da qualidade da
socialização a que serão submetidos os bebês e crianças.  
Isso não aconteceu com Amala e Kamala. Como foram socializadas por lobos, de certa forma
elas se tornaram lobos, não biologicamente como seria óbvio, mas na absorção dos trejeitos e
comportamentos dos animais. O que deveriam ter recebido em termos de cultura originária,
cuidados e comportamentos de base para imitação simplesmente não estava disponível a elas. O que
vulgarmente chamamos de natureza humana, no caso das meninas-lobo, ficou latente, adormecida e
depois de um período sofreu atrofia, visto que o ingresso pleno das duas no mundo humano foi
obstaculizado, conforme pudemos ver no relato. Somente os rudimentos da humanidade como
sociabilidade típica de humanos emergiu. Isso graças ao período em que passaram sendo cuidadas
na instituição que as acolheu.
Algumas considerações que podemos retirar do exposto até esse momento são:
o que chamamos comumente de natureza humana pode ser definido como uma proto-
humanidade;
a biologia humana é complexa e os bebês são totalmente dependentes de seus progenitores;
nascemos da espécie humana, mas tornar-se humano é um processo e uma conquista que
envolve esforço do indivíduo, da família e também da própria sociedade/comunidade;
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o escopo de nossa humanidade depende em boa medida da qualidade dos processos de
socialização do qual participamos ao longo de nossa vida;
existe uma íntima e poderosa conexão entre educação e humanidade.
TEMA 4 – PARA QUE SERVE A SOCIEDADE?
Se imaginarmos que a função primordial da família é cuidar, amar e proteger seus membros,
devemos supor que a sociedade deveria, em alguma medida, ser uma extensão do ambiente familiar.
Que implicações teríamos para o desenvolvimento das pessoas se a sociedade e o conjunto de suas
instituições e recursos estivessem de fato orientados a promover o bem-estar das pessoas?
Vamos imaginar que a sociedade poderia ser um ambiente onde as pessoas pudessem atingir
seu potencial com oportunidades de realizar seus sonhos e sua vocação. Parece utópico se
considerarmos o contexto atual do mundo em que vivemos. Contudo, não deveria ser tarefa da
educação semear o futuro e despertar novos sonhos e utopias em nossos jovens e crianças? Se for
para termos mais do mesmo, em relação à reprodução dos problemas de uma sociedade doentia – e
nós sabemos o quanto a nossa sociedade está doente –, qual seria o sentido do trabalho educativo?
Figura 4 – Criança no lixo
Crédito: Tinnakorn Jorryuang/Shutterstock.
Em face dos problemas e limites da sociedade moderna, é preciosa a contribuição do sociólogo
Robert Merton, sobre a qual refleti no livro Teorias sociológicas e problemas sociais contemporâneos,
de 2018:
Em resumo, podemos colocar a teoria de Merton da seguinte forma: a sociedade capitalista estipula
metas culturais como obter dinheiro e sucesso. Para atingi-las são disponibilizados determinados
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meios, isto é, caminhos ou recursos institucionalizados e legitimados socialmente. O problema
instala-se com descompasso entre as metas estabelecidas e a escassez de recursos disponíveis para
que todos possam realizá-las. A riqueza, o sucesso e a prosperidade material, via de regra, são
erigidos como meta universal na sociedade capitalista, porém acessíveis somente às classes mais
abastadas.  
Dessa forma, o insucesso de muitos na consecução dessas metas é sistêmico, uma vez que os
recursos são insuficientes para todos. Como consequência, tem-se um estado de anomia
generalizado, no qual as regras do jogo são, por assim dizer, abandonadas, fazendo proliferar
condutas desviantes, como a delinquência e a criminalidade, exemplos mais comuns dessa situação.
Merton tipifica os desvios em quatro categorias. O primeiro tipo é a conformidade, conduta na qual
o indivíduo se orienta pelas regras sociais estabelecidas, buscando atingir as metas sociais com
base nos meios institucionalizados. O segundo é o comportamento inovador, no qual as metas são
buscadas por meios nem sempre usuais, podendo haver rupturas parciais com padrões e condutas
institucionalizadas, o que, no limite, pode contribuir positivamente para a mudança social.
A terceira forma de resposta social dos indivíduos seria o comportamento ritualista, aquele sem
interesse em realizar as metas culturais. Merton aponta que tal conduta poderia ocorrer por medo
do fracasso social, produzindo desinteresse e desestímulo. Esse perfil social até segue as regras,
mas de modo mecânico, como um ritual. É como viver no piloto automático realizando as rotinas
diárias e cumprindo os papéis estabelecidos, mesmo sem convicção ou engajamento.
A quarta forma de conduta desviante é a evasão, que se refere àquelas condutas em que os
indivíduos abandonam as metas e os meios socais. Um exemplo poderia ser os andarilhos e
mendigos, que, ao não se identificarem mais com as referências sociais institucionalizadas, evadem-
se da vida social de regras, processos, papéis, status, instituições, obrigações, expectativas etc. No
extremo, a evasão da vida social em uma condição de marginalização dos indivíduos pode ter
implicações graves, comprometendo a saúde e a sanidade dessas pessoas; dessa forma, não são
raros os casos de suicídio.
A quinta e última forma de resposta social identificada por Merton é a rebelião. Trata-se de uma
conduta que não se conforma com a ordem estabelecida, rompe em revolta, negando as metas e
os meios institucionalizados. Discordando de Merton, em relação à rebelião, como comportamento
potencialmente destrutivo da ordem social, podemos dizer que o rebelar-se pode assumir um
caráter propositivo e acelerar transformações mais profundas na sociedade. Poderíamos pensar nas
greves e mobilizações por direitos e liberdade como desfechos positivos de ações de rebeldia.
(Nauroski, 2017, p. 78-81)
A análise de Merton, se aprofundada, pode colocar em xeque a própria estrutura e cultura da
sociedade moderna. A ideologia capitalista de consumismo e acumulação ilimitada parece ser o
principal fator gerador de muitos dos problemas sociais que impactam negativamente indivíduos e
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instituições. O labirinto da existência atual, com seus “becos” sem saída e sentimento de
aprisionamento, teria do novelo de Ariadne (personagem do mito do Minotauro que ajuda Teseu a
escapar do labirinto) a crítica profunda ao modelo de civilização que parece imperar hegemônico na
atualidade.
Ou seja, não se trata somente de pessoalizar e individualizar as condutas desviantes (crimes em
geral), mas de compreender de maneira sistêmica que é a própria sociedade que engendra muitasdas causas dessas condutas. Existe uma relação de corresponsabilidade entre individuo e sociedade
no que concerne a moralidade, ao que apreciamos em termos de uma conduta correta, justa e nobre
e o que consideramos como errado, injusto e odioso. Preferimos falar em justiça e não em direito, em
razão de que as leis nem sempre são criadas para defender ideais de justiça, mas não raro
representam a consubstanciação de interesses escusos.
Na perspectiva de uma corresponsabilidade entre indivíduo e sociedade, é razoável punir quem
age errado, comete um crime, ou ameaça o bem-estar de seus semelhantes, mas parece correto
continuar isentando a sociedade de sua culpa e responsabilidade, sabendo, agora, um pouco melhor
como ela funciona?
TEMA 5 – A CULTURA COMO NOSSA SEGUNDA NATUREZA
Na obra O Mal-Estar da Civilização, de 1929, Sigmund Freud, o pai da psicanálise, apresenta uma
análise pessimista da condição humana. Na perspectiva do autor, a cultura ao mesmo tempo em que
libertou o homem da vida puramente instintiva, criou também uma armadilha, pois a vida em
sociedade, isto é, a vida mediada pelo trabalho (transformação da natureza) e pela cultura (universo
simbólico) traz limitações aos nossos desejos e impulsos. Sem essas limitações, o convívio humano
seria problemático, potencialmente caótico e violento. A ideia de progresso em termos materiais e
tecnológicos ficaria obstaculizada em meio a uma guerra de “todos contra todos”. Mas o preço pelo
progresso tem sido alto, nada menos que a nossa felicidade. 
O desejo para Freud é mais que um simples querer, o desejo é tomado como manifestação do
princípio do prazer, uma força que emana do Id, o lado mais profundo de nossa personalidade, uma
instância de nossa psique que desconhece os limites da moral e opera na busca pelo prazer. O
advento da cultura e, portanto, da vida em sociedade trouxe outro importante e poderoso princípio,
o da realidade, com seus limites, freios e interditos. Esse princípio se materializa em nosso superego,
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nossa consciência moral, um equipamento de nossa personalidade que permite reconhecer e
introjetar os limites e interditos da vida social. Sem o superego dificilmente seriamos capazes de
sentir culpa, remorso e arrependimento.
Graças ao superego somos capazes de frear a atuação do Id e pôr limites aos seus impulsos. A
literatura na área da psicanálise costuma definir como psicopata uma pessoa incapaz de sentir
remorso por ter causado dor para outras pessoas. Uma sociedade de indivíduos sem superego seria
uma arena de psicopatas agindo sem freios ou restrições. Em síntese, viver em sociedade significa
aceitar que não podemos fazer tudo que queremos.
Freud também estudou os mecanismos que criamos para lidar com as limitações impostas pela
vida social e as frustrações que ela acarreta, sendo talvez mais eficiente o processo de sublimação.
Sublimar significa encontrar caminhos socialmente aceitáveis para realizar nossos desejos ou instintos
mais agressivos. Dessa forma, a arte, o esporte, o trabalho e mesmo a religião podem ser condutores
da nossa libido, essa energia vital sem a qual a existência fenece, canalizando essa força em
diferentes possibilidades. Uma sociedade inteligente, para Freud, buscaria diversificar as
possibilidades para a realização da libido.
Ao final de sua reflexão, Freud conclui de modo pessimista que a sociedade moderna tende a se
afirmar reprimindo os indivíduos em nome da civilização, reforçando os mecanismos de culpa e
repressão. Por conta disso, a condição que nos assiste ao longo da vida é de mal-estar, de não
realização, em que a nossa felicidade permanece como um projeto sempre adiado, uma condição
manipulável em que o mercado soube vender seus paliativos, fármacos, ou uma prática estimulada
diuturnamente, o consumo.
Quase trinta anos depois, em 1955, Herbert Marcuse publicava seu livro Eros e Civilização, em
que buscou relativizar o pessimismo de Freud em relação à cultura e à condição humana. Enquanto o
pai da psicanálise não diferenciava a necessidade da inibição dos instintos na vida social da limitação
que surge da escassez de recursos produzidas socialmente, Marcuse argumenta que a condição de
mal-estar poderia ser amainada e até superada se o princípio da realidade não tivesse a configuração
determinante de uma sociedade classista, alienante e opressora. Uma sociedade em as possibilidades
de realização dos desejos estão restritas aos segmentos endinheirados da população.
O problema da neurose, uma doença da incapacidade das pessoas em lidar com suas
frustrações, poderia ser diminuída a ponto de provocar menos danos se a abordagem da psicanálise
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freudiana não fosse, na crítica de Marcuse, tão unilateral, visto que centrou seu foco quase que
exclusivamente na subjetividade. Não se trata somente de uma questão de saber aceitar e se adaptar
às limitações da vida social, sendo necessário reconhecer o lado patológico da própria sociedade.
Marcuse defende um modelo pós-capitalista de sociedade, com menos repressão e alienação,
no qual a sociabilidade humana tivesse mais liberdade e meios para alcançar uma vida mais
prazerosa e realizadora. Trata-se de uma perspectiva que toma possível a emancipação do homem
para além de um trabalho alienado, ou da libido como energia e pulsão não subordinada aos
interesses da produtividade capitalista.
Essa discussão foi ainda complementada por outra importante obra de Marcuse, O homem
unidimensional, de 1964. Ele aprofunda sua crítica à cultura e ao sistema capitalista mostrando como
nesse sistema o princípio do prazer, uma pulsão que poderia se realizar de modo plural e
multifacetado com diversas possibilidades de sublimação, acaba sendo capturado pela lógica do
consumo.   
NA PRÁTICA
Pensando nessa discussão sobre O homem unidimensional, você consegue imaginar ou
identificar as consequências do comportamento de uma cultura como a nossa, na qual parece
predominar esse perfil de pessoas? Como poderíamos relacionar essa questão a problemas como o
consumismo?
FINALIZANDO
Nesta aula vimos que:
a educação é um processo universal e tão antigo quanto a própria humanidade;
o que comumente chamamos de natureza humana é a nossa proto-humanidade, um potencial
que, para se desenvolver, necessita de cuidados e estímulos, com destaque para o papel da
família, da escola e da comunidade;
existe uma relação de corresponsabilidade entre individuo e sociedade, tanto em relação aos
erros quanto acertos;
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a sociedade não pode ser isenta de críticas, e seu melhoramento depende de nosso
engajamento como cidadãos e educadores;
é preciso imaginar novos horizontes e possibilidades civilizacionais a fim de superar o mal-estar
que predomina na atualidade.
REFERÊNCIAS
HARARI, Y. N.  Sapiens – uma breve história da humanidade. São Paulo: Harper, 2011.
LEYMOND, B. Le development social de l’enfant et del’adolescent. Bruxelles: Dessart, 1965.
Disponível em: . Acesso em: 26 fev. 2021.
MELO, A. de. Fundamentos socioculturais da educação. Curitiba: InterSaberes, 2012.
NAUROSKI, E. A. Teorias sociológicas e problemas sociais contemporâneos. Curitiba:
InterSaberes, 2017.
OLIVEIRA, R. C. de.  Antropologia filosófica. Curitiba: InterSaberes, 2012.
PAIXÃO, A. E. da. Sociologia geral. Curitiba: InterSaberes. 2012.

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