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UNIVERSIDADE FEDERAL DO OESTE DO PARÁ INSTITUTO DE CIÊNCIAS DA SOCIEDADE PROGRAMA DE CIÊNCIAS JURÍDICAS Curso: Bacharelado em Direito Componente Curricular: Docente responsável: Período Letivo: Acadêmica: Ana Raquel Monteiro de Souza Matrícula: 2022006514 Resumo: Luly Rodrigues da Cunha Fischer: Manual de Direito Agrário – Capítulo VI : Reforma Agrária e Hipóteses de Incidência e Processo Uma propriedade de 5 mil hectares no município de Macacos, Estado do Pará foi ocupada por 780 famílias. O proprietário foi notificado por edital pelo INCRA de que seria realizada a verificação in loco e não acompanhou a vistoria. Na vistoria realizada pela Autarquia ficou constado que o imóvel possuía níveis de produtividade da área útil do imóvel abaixo do exigido pela legislação, bem como foi constatado que houve desmatamento não autorizado da reserva legal do imóvel anterior à ocupação da área pelas famílias. Considerando as informações acima apresentadas, responda: ● Esse imóvel poderá ser desapropriado para fins de reforma agrária? ● Se esse for o único bem do proprietário, ainda assim poderá ocorrer a desapropriação? ● O procedimento administrativo de notificação do proprietário está de acordo com a legislação em vigor? ● Caso o imóvel venha a ser desapropriado para fins de reforma agrária, todas as famílias que estão hoje o ocupando o imóvel poderão ser assentados na área? ● Alguma limitação ambiental deve ser observada no processo de criação de um projeto de assentamento? ● Qual será a melhor modalidade de assentamento a ser criado no imóvel em questão? A instituição da Reforma Agrária no Brasil, a despeito do histórico processo de concentração fundiária existente no país, apenas foi formalizada com a edição da Lei do Estatuto da Terra (Lei 4504/1964). O texto legal introduziu a primeira definição de forma agrária (art. 1º), assim entendida como “[...] conjunto de medidas que visem a promover a melhor distribuição da terra, mediante modificações no regime de sua posse e uso, a fim de atender aos princípios da justiça social e ao aumento da produtividade” (grifo nosso). Segundo Coca (2013, p. 170-171), Existem diferentes interpretações sobre o que é ou o que deveria ser a reforma agrária no Brasil. Diferentes posturas ideológicas geram diferentes abordagens sobre o tema. Estas análises vão desde aquelas que consideram que a reforma agrária geraria mudanças estruturais na sociedade até aquelas que a defendem como uma medida que fomentaria o capitalismo. Alguns consideram ter neutralidade em suas posições, outros admitem que política e produção teórica não se separam. O primeiro elemento a se destacar, portanto, é que a reforma agrária se exterioriza pela intervenção do Estado, para redimensionar a estrutura agrária do país, visando a melhor distribuição de terras a todos os que dela necessitam, e o aumento da produtividade, promovendo a efetivação de justiça social. Convém reiterar que a reforma agrária, não se realiza pela intervenção na propriedade privada. Essa é apenas uma das possibilidades de obtenção de imóveis para esse político. Seu principal objetivo é sancionar o proprietário que descumpre a função social, sendo a perda da propriedade uma consequência, tal como ocorre com o confisco. A desapropriação por interesse social para fins de reforma agrária é prevista no artigo 184 da Constituição Federal, sendo regulamentada pela Lei nº 8.629/93 c/c Lei Complementar nº 76/93. É o instrumento pelo qual a União, mediante a intervenção judicial, adquire de forma originaria a propriedade privada rural, excluindo-a do âmbito privado por não cumprir a função social, mediante a prévia e justa indenização, em dinheiro, das benfeitorias úteis e necessárias e em Títulos da Dívida Agrária (TDA) o valor da terra nua, com cláusula de preservação do valor real, resgatáveis no prazo de até vinte anos, a partir do segundo ano de sua emissão, estando imunes a esta forma de intervenção a pequena e média propriedade rural, desde que seja a única, e ainda a propriedade produtiva. A desapropriação ressarcitória, prevista no art. 5º, XXIV, da Constituição Federal, consiste na transferência compulsória da propriedade de alguém para o Estado, mediante prévia e justa compensação em dinheiro pela perda da terra e em razão das benfeitorias úteis e necessárias realizadas, quando restar demonstrado pela Administração Pública o interesse público no imóvel, em benefício da coletividade. Também se deve destacar a Lei nº 4.132, de 10.09.1962, cujo objeto são os casos de desapropriação por interesse social, como o aproveitamento de bens improdutivos ou explorados sem correspondência com as necessidades de habitação, trabalho, e consumo dos centros de população a que deve ou possa suprir por seus destino econômico, o estabelecimento e a manutenção de colônias ou cooperativas de povoamento e trabalho agrícola, construção de casas populares, proteção do solo e preservação de cursos e mananciais de água e de reservas florestais, entre outros, conforme o art. 2º da referida lei. A primeira modalidade é a desapropriação por descumprimento da função social de imóvel urbano, prevista no art. 182, §4º, III da Constituição Federal, que concede ao Município o poder de transferir para si a propriedade do solo urbano que não atender à exigência de um adequado aproveitamento conforme o plano diretor. A segunda, objeto de análise central deste capítulo, é a desapropriação para fins de reforma agrária por descumprimento da função social, pela qual a União, conforme disposto no art. 184 da Constituição Federal, pode, no âmbito rural, requerer a propriedade do imóvel que esteja descumprindo com a sua função social. Essa modalidade encontra-se regulamentada pela Lei nº 8.629/93, que dispõe sobre aspectos diversos desse tipo expropriatório, e pela Lei Complementar nº 76/93, que trata do procedimento contraditório especial, de rito sumário, para o processo de desapropriação de imóvel rural por interesse social para fins de reforma agrária. No Direito Agrário a função social da propriedade rural tem seu conteúdo definido, nos termos do art. 186 da Constituição Federal e art. 9º da Lei nº 8.629/93, com o aproveitamento racional da terra a partir da utilização adequada dos recursos naturais disponíveis e preservação do meio ambiente, bem como o respeito às disposições que regulam as relações de trabalho, de forma que a exploração do imóvel favoreça o bem- estar dos proprietários e trabalhadores. Assim, para que um imóvel seja considerado produtivo, primeiramente é necessário calcular a sua área aproveitável, observando as limitações legais acima elencadas, bem como as limitações ambientais em vigor para o uso da propriedade. Em seguida, é necessário verificar se o proprietário utiliza pelo menos 80% da área aproveitável (GUT). Por fim, é necessário calcular se a produção realizada atende ao parâmetro mínimo de eficiência de exploração (GEE). As hipóteses de insuscetibilidade de desapropriação sanção do imóvel rural no ordenamento jurídico brasileiro possuem amparo constitucional e infraconstitucional. No plano infraconstitucional a Lei nº 8.629/93 traz ainda as seguintes hipóteses de imóveis insuscetíveis de desapropriação-sanção: ● Imóvel que por razões de força maior, caso fortuito ou de renovação de pastagens tecnicamente conduzidas deixarem de apresentar no ano respectivo os graus de eficiência na exploração exigidos para a espécie. Contudo, não se reconhece como força maior causas que estancam com a retomada das operações produtivas (MS 24487 STJ); ● Imóvel objeto de implantação de projeto técnico elaborado por técnico habilitado e que esteja seguindo o cronograma técnico-financeiro registrado e aprovado pelo INCRA 6 meses antes do decreto expropriatório e da notificação de vistoria; ● Imóvel destinado àexecução de atividades de pesquisa e experimentação com 80% do GUT que objetivem o avanço tecnológico da agricultura, devidamente aprovado pelo Poder Público; ● O imóvel rural particular objeto de esbulho possessório ou invasão motivada por conflito agrário ou fundiário de caráter coletivo fica imune à desapropriação nos dois anos seguintes à sua desocupação, ou no dobro desse prazo, em caso de reincidência. É competência do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) vistoriar previamente os imóveis rurais antes de notificar o proprietário, levando em consideração fatores como a localização em áreas prioritárias, extensão e histórico da região ou se envolve denúncia por parte de entidades representativas dos trabalhadores rurais, quando, neste caso, terá 120 (cento e vinte) dias para proceder com a vistoria na propriedade, sob pena de ser responsabilizado administrativamente, conforme art. 1º do Decreto nº 2.250/97. Vale ressaltar que, buscando impedir a alteração no domínio e dimensão do imóvel com a finalidade de transformá-lo em pequenas propriedades que não podem ser expropriadas, não se considera qualquer modificação realizada em 6 (seis) meses após a notificação prévia ao proprietário (art. 2º, §4º da Lei nº 8.629/93), contudo estas são tidas como regulares após esse período, contanto que sejam feitas antes da edição do decreto de desapropriação, conforme entendimento exarado pelo Informativo nº 336 do STF. Após constatado o descumprimento de algum dos requisitos da função social da propriedade, o Poder Público declarará o interesse social do bem móvel para fins de reforma agrária através de decreto expedido pelo Presidente da República, onde constará: o sujeito ativo da desapropriação, descrição do bem, justificativa para o interesse social, destinação do bem, fundamento legal específico e os recursos orçamentários destinados. A partir da publicação do decreto presidencial, o Poder Público, através do INCRA, órgão executor da reforma agrária, está autorizado a ingressar com a ação judicial de desapropriação em face do proprietário do imóvel em questão, perante a Justiça Federal, na sessão judiciária onde se encontra o imóvel, por ser procedimento de competência exclusiva da União, sendo processado através do rito sumário, conforme disposto na Lei Complementar nº 76/93, com as alterações da Lei Complementar nº 88/96. Depois de recebida a petição inicial, o juiz deve, em até 48h (quarenta e oito horas), determinar a imissão da posse do imóvel e a expedição de mandando ordenando a averbação no registro imobiliário para conhecimentos de terceiros da existência da ação de desapropriação, bem como a indicação de assistentes técnicos e a citação do expropriado. Entretanto, na hipótese de a desapropriação do imóvel ser parcial e a área remanescente forem inferiores a pequena propriedade ou ocorrer prejuízo substancial a exploração econômica e o valor restarem inferiores à área desapropriada, o expropriado poderá requerer que a totalidade do bem seja desapropriada, nos termos do art. 4º da Lei Complementar nº 76/93. Por fim, tendo a sentença sido proferida e a indenização devidamente paga pelo Poder Público em favor do expropriado, resta autorizada a transferência da propriedade junto ao Registro de Imóveis, e, consequentemente, a efetivação da Reforma Agrária em si, através da efetiva distribuição das terras desapropriadas. O procedimento de destinação do imóvel para fins de reforma agrária está previsto na Lei nº 8.629/1993, regulamentado pelo Decreto n. 9.311, de 15 de março de 2018. Os lotes a serem distribuídos pelo Programa Nacional de Reforma Agrária não poderão ter área superior a 2 (dois) módulos fiscais ou inferior à fração mínima de parcelamento (módulo rural hortigranjeiro). Nos projetos de assentamento criados até 22 de dezembro de 2014, o Incra poderá conferir o CDRU ou o TD das áreas aos assentados mesmo que tenha havido desmembramento ou remembramento de parcelas após a concessão de uso, desde que o desmembramento ou o remembramento tenha ocorrido até 22 de dezembro de 2014; a área a ser titulada não seja superior a quatro módulos fiscais; o beneficiário não seja proprietário de outro imóvel rural a qualquer título, exceto o já titulado pelo Incra no assentamento; e o beneficiário seja considerado agricultor familiar. Entretanto, fica autorizado o INCRA, nos assentamentos com data de criação anterior ao período de 10 anos contados retroativamente a partir de 27 de dezembro de 2013, a conferir a CDRU ou título de domínio relativo às áreas em que ocorreram desmembramentos ou desmembramentos após a concessão de uso. Independentemente do cumprimento dos requisitos de concessão de créditos de instalação e a conclusão dos investimentos, considera-se consolidado o projeto de assentamento após quinze anos de sua implantação, exceto se decisão fundamentada do Incra dispuser de forma diversa. A Constituição Federal de 1988 trouxe consigo diversos avanços, um texto com ampla abrangência temática, bem como introduziu no ordenamento jurídico brasileiro previsões inéditas. Daí porquê diz-se que a Carta Constitucional de 1988 é a mais avançada dentre as muitas que tivemos ao longo da nossa experiência constitucional (COELHO, 2013). De acordo com a leitura do dispositivo, o legislador deixou claro que não se tratava de uma nova espécie de desapropriação, posto que enfatizou que a perda da propriedade se daria “sem qualquer indenização ao proprietário”. Esse dispositivo não ingressou no ordenamento jurídico apto a produzir seus efeitos de imediato, demandando a edição de lei regulamentadora, que dispusesse acerca de sua aplicação. Logo, optou o legislador por produzir uma norma de eficácia limitada (SILVA, 2007). A opção por esta espécie normativa se justifica na medida em que se considera a necessidade da previsão de um procedimento judicial específico para a expropriação, bem como a definição do rol de plantas psicotrópicas a ser considerado, para fins de aplicação do dispositivo. Tal restou regulamentado pela Lei 8.257/91. A Lei 8.257/1991 disciplina que as glebas de qualquer região do país onde forem localizadas culturas ilegais de plantas psicotrópicas serão imediatamente expropriadas e especificamente destinadas ao assentamento de colonos, para o cultivo de produtos alimentícios e medicamentosos, sem qualquer indenização ao proprietário e sem prejuízo de outras sanções previstas em lei, conforme o art. 243 da Constituição Federal. Do resumo das disposições regulamentares e jurisprudenciais podemos concluir que, tal como ocorre com a desapropriação-sanção, o confisco de imóveis rurais é competência privativa da União, recaindo sobre a totalidade do imóvel em que seja apurada a existência de plantio. A inclusão desta nova modalidade expropriatória representou um importante avanço no combate à exploração de mão de obra escrava, mácula que persiste até os dias atuais, mesmo tendo sido, a escravidão, formalmente abolida em 1888, com a edição da Lei Áurea. No que tange ao conceito de “trabalho escravo”, é importante que se façam algumas considerações. Primeiramente, é preciso ter em mente que a escravidão já não existe no ordenamento jurídico brasileiro desde 1888. Logo, a adoção do termo “trabalho escravo” mostra-se errônea, vez que o que há é a exploração de trabalho em condições análogas à de escravo. Assim, a expropriação por exploração de trabalho escravo estará restrita à ocorrência das situações previstas no conceito a ser definido pela lei regulamentadora, a qual, conforme demonstrado acima, tende a adotar um conceito mais restrito que aquele previsto no Código Penal, abarcando uma quantidade de hipóteses menor. Importante salientar que o que difere a simples infração trabalhista da exploração do trabalho em condições análoga à de escravo é o fato de que esta atenta nãosó contra a legislação do trabalho, mas também contra os direitos humanos fundamentais e a dignidade humana do trabalhador. REFERÊNCIAS COCA, Estevan Leopoldo de Freitas. Debatendo o conceito de reforma agrária: considerações sobre os tipos de assentamentos rurais no Brasil. CAMPO-TERRITÓRIO: revista de geografia agrária, v. 8, n. 16, p. 170-197, ago., 2013. Disponível em: http://www. seer.ufu.br/index.php/campoterritorio/article/viewFile/21598/13078. Acesso 2 jan. 2019. COELHO, Inocêncio Mártires. Evolução do constitucionalismo brasileiro pós-88. In: CANOTILHO, J. J. Gomes; MENDES, Gilmar F.; SARLET, Ingo W.; STRECK, Lenio L. (Coords.). Comentários à Constituição do Brasil. São Paulo : Saraiva/Almedina, 2013. p. 40.