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Prof. Thiago Leite, Prof. Matthaus Marçal Pavanini Cardoso 14 Tutela Judicial do Meio Ambiente Direito Ambiental Carreiras Jurídicas Documento última vez atualizado em 02/12/2024 às 14:17. 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 1/68 3 15 43 50 59 68 Índice 14.1) Noções Gerais de Processo Coletivo 14.2) Ação Civil Pública - Lei 7.347/85 14.3) Ação Popular – Lei nº 4.717/65 14.4) Mandado de Segurança Coletivo - Lei nº 12.016/09 14.5) Mandado de Injunção Coletivo - Lei nº 13.300/2016 14.6) Lista de Questões 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 2/68 Noções Gerais de Processo Coletivo Para assistir ao vídeo correspondente, acesse o LDI. A Constituição Federal de 1988 garantiu direitos fundamentais a todos os brasileiros e aos estrangeiros residentes no Brasil. O art. 5º elencou direitos de ordem individual, política, social, e econômica, como o direito à liberdade, à intimidade, à saúde e à propriedade privada. Não poderia o texto constitucional garantir esses direitos sem criar mecanismos assecuratórios destinados a dar maior efetividade a eles. É nesse sentido que foram criadas diversas garantias constitucionais para dar maior concretude a esses direitos, notadamente pelo manejo de ações judiciais específicas como o Mandado de Segurança, Ação Popular, Mandado de Injunção, Habeas Corpus dentre outras. Nesse cenário, como já exaustivamente debatido neste curso de Direito Ambiental, o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, embora não elencado no art. 5º, da CF/88, foi previsto expressamente no caput, do art. 225, de nossa Magna Carta, sendo considerado um direito fundamental de terceira dimensão de caráter transindividual e de natureza difusa. A tutela judicial civil desse direito é feita, em tese, pelo manejo de ações coletivas, como a ação civil pública, ação popular, mandado de segurança coletivo e a mandado de injunção coletivo. Nessa linha, o objetivo desta aula é fazer um estudo sistemático e objetivo dessas ações que tutelam os interesses difusos e coletivos, com foco em sua aplicabilidade à tutela do meio ambiente. Advertimos que não é nossa pretensão discorrer profundamente sobre as teorias históricas ou processualistas voltadas ao processo coletivo, objeto de estudo da disciplina de Direito Processual Civil. Como já sedimentado neste curso, o bem ambiental (macrobem) tem caráter eminentemente difuso caracterizado pela titularidade indeterminável e integra o patrimônio de toda a coletividade. É considerado difuso porque se caracteriza como bem de uso comum do povo incidindo interesse de toda a sociedade (art. 225, caput, da CF/88), fato que autoriza a incidência de um regime jurídico de direito público na sua tutela. Art. 225. Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações. A referida norma constitucional prevê que o direito ao meio ambiente é de todos, sem distinção de qualquer natureza e sem qualquer nota excludente de seus beneficiários. Assim, o direito ao meio ambiente equilibrado é a um só tempo direito individual e marcadamente de toda a coletividade, fato que evidencia sua transindividualidade. 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 3/68 Outra marca que caracteriza sua natureza difusa é a imprescritibilidade do dano ambiental, pois o bem ambiental está fora da disponibilidade do particular, respondendo este objetivamente pela reparação dos danos causados ao meio ambiente. É importante diferenciarmos os direitos difusos dos direitos coletivos. Há definição legal desses interesses. O Código de Defesa do Consumidor-CDC define o direito/interesse difuso como sendo os transindividuais, de natureza indivisível, de que sejam titulares pessoas indeterminadas e ligadas por circunstâncias de fato. Ao seu turno, o interesse/direito coletivo é também de natureza transindividual e indivisível, mas que tem como titular um grupo ou uma categoria de pessoas ligadas por uma relação jurídica básica. Eis o normativo do art. 81, da Lei 8.078/90. Código de Defesa do Consumidor – Lei 8.078/90 Art. 81. A defesa dos interesses e direitos dos consumidores e das vítimas poderá ser exercida em juízo individualmente, ou a título coletivo. Parágrafo único. A defesa coletiva será exercida quando se tratar de: I - interesses ou direitos difusos, assim entendidos, para efeitos deste código, os transindividuais, de natureza indivisível, de que sejam titulares pessoas indeterminadas e ligadas por circunstâncias de fato; II - interesses ou direitos coletivos, assim entendidos, para efeitos deste código, os transindividuais, de natureza indivisível de que seja titular grupo, categoria ou classe de pessoas ligadas entre si ou com a parte contrária por uma relação jurídica base; A diferença central entre os direitos difusos e coletivos é a possibilidade de se determinar a titularidade desses interesses. De fato, no direito coletivo o grupo beneficiário é facilmente identificável. Por outro lado, no interesse difuso os beneficiários são indeterminados ou indetermináveis. Ex. Quando há um dano ambiental na floresta amazônica (incêndio) é impossível identificar o titular do direito lesionado em fase da multiplicidade de seus titulares, considerando que existe um liame entre eles e o fato ocorrido (dano ao meio ambiente). O direito ao meio ambiente equilibrado, embora não previsto no rol do art. 5°, da CF/88, é considerando um direito fundamental. Isso porque, conforme doutrina majoritária, admite- se a existência de direitos fundamentais não previstos no Título II (Dos Direitos e Garantias Fundamentais), da Constituição Federal de 1988. O grau de fundamentalidade não se caracteriza pelo simples fato de um enquadramento topológico normativo, mas sim pela importância desse direito na efetivação da dignidade da pessoa humana. Os direitos fundamentais passaram por diversas transformações e são frutos da evolução do corpo social de um país, sofrendo profundas mutações em relação ao conteúdo e à 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 4/68 titularidade, tendo como origem desse processo transformacional o reconhecimento deles nas primeiras constituições positivas que surgiram com o advento do Estado Moderno. Segundo Marmelstein Lima, Karel Vasak criou uma teoria em que demonstrou a evolução dos direitos humanos com base no lema da revolução francesa liberdade, igualdade e fraternidade, introduzindo a ideia de gerações de direitos, isto é, direito vistos como ideais existentes em uma determinada época consagrando os dogmas preponderantes no corpo social analisado. Embora haja em âmbito doutrinário uma discussão quanto às expressões “gerações” ou “dimensões”, o termo “gerações” é estabelecido apenas com o propósito de situar os diferentes momentos em que esses grupos de direitos surgem como reinvindicações acolhidas pela ordem jurídica, não significando que tenha sido suplantado por aqueles surgidos em momento posterior. Os direitos fundamentais de primeira dimensão são frutos do pensamento liberal-burguês do século XVIII, com forte influência individualista, abarcando os direitos civis e políticos, tendo como ponto fulcral a liberdade e como âmbito de incidência os direitos referidos nas Revoluções Americana e Francesa, sendo os primeiros a serem positivados. Esses direitos foram frutos de uma proteção contra o decadente Estado Absolutista do século XVII, na busca de fortalecer os direitos dos indivíduos frente ao Estado. É nessa concepção que nasce o Estado Moderno garantidor dos direitos civis e políticos, não intervindo na vida pessoal de cada um. Destacam-se assim, nessa geração, os direitos à vida, à liberdade, à propriedade, bem comoobjetivando que aqueles adotem providências para prevenir a repetição ou determinar a cessação de eventuais violações ao meio ambiente. Mas advirta-se a recomendação é apenas um ato administrativo sem força vinculante, servindo como clara advertência que as medidas judiciais cabíveis poderão ser adotadas em caso de não atendimento das indicações nela ventiladas, tendo característica nitidamente preventiva, evitando-se a necessidade de propositura de uma ação civil pública ambiental. Não tem caráter impositivo. 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 28/68 Na fase de conclusão, ou melhor, de encerramento do inquérito civil, são dados os encaminhamentos de tudo que foi apurado durante a fase instrutória devendo o promotor/procurador concluir pela propositura da ação civil pública ou pelo seu arquivamento. Caso opte pelo manejo da ACP, os autos do inquérito civil servirão de fundamento fático- probatório para a ação, devendo ser anexado ao processo judicial. A regra é que não há prazo para conclusão do inquérito civil, mas cada Ministério Público poderá fixar prazo conclusivo. A título de exemplo, o Ministério Público Federal fixa o prazo de 1 ano para encerramento do inquérito civil, prorrogável por sucessivos períodos, nos termos do art. 87, da Resolução n. 87 do Conselho Superior daquele órgão ministerial. Caso o membro do Ministério Público se convença da inexistência de fundamento para a propositura de ação civil pública, deverá promover o arquivamento do inquérito civil e encaminhar os autos ao órgão de revisão competente, no prazo de três dias, contado da comprovação da efetiva cientificação pessoal dos interessados, através de publicação na imprensa oficial ou da lavratura de termo de afixação de aviso no órgão do Ministério Público, quando não localizados os que devem ser cientificados, nos termos do art. 10, §1º, da Resolução n. 87 do Conselho Superior. No Ministério Público Federal, essa atribuição de análise do arquivamento do inquérito civil é feita pela 4ª Câmara de Coordenação e Revisão (Meio Ambiente e Patrimônio Cultural) que atua especificamente nos temas relacionados à flora, fauna, áreas de preservação, gestão ambiental, reservas legais, zona costeira, mineração, transgênicos, recursos hídricos, preservação do patrimônio cultural, entre outros. O órgão superior de revisão, em sessão pública, poderá decidir pela: (1) homologação do arquivamento; (2) conversão do julgamento em diligência, caso necessário esclarecer algum ponto fático fundamental no inquérito civil; bem como pela (3) rejeição do arquivamento. Neste último caso, será nomeado novo promotor para a propositura da ação civil pública. Cumpre destacar que é possível o arquivamento parcial do inquérito civil seja em de cunho subjetivo ou mesmo objetivo. Assim, poderá o órgão especial homologar o arquivamento em relação a determinadas pessoas e/ou referentes a determinados fatos objeto do inquérito. Termo de Ajustamento de Conduta - TAC O Termo de Ajustamento de Conduta – TAC ou também denominado de Compromisso de Ajustamento de Conduta – CAC é um documento utilizado para resolução de conflitos no âmbito extrajudicial visando a adequação da conduta ilícita de um indivíduo aos termos previstos em lei. É um meio alternativo administrativo de solução de conflitos. Foi previsto expressamente no art. 5º, §6º, da Lei 7.347/85, autorizando os órgãos públicos legitimados a tomar dos interessados compromisso de ajustamento de sua conduta às exigências legais, mediante cominações, que terá eficácia de título executivo extrajudicial. Assim, poderá o MP ou mesmo um órgão/entidade ambiental celebrar TAC com pessoas físicas ou jurídicas, de direito público ou privado, objetivando a reparação dos danos causados ao meio ambiente, impondo deveres ao interessado para que regularize sua conduta às exigências legais. 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 29/68 A Resolução n. 179 do CNMP disciplinou o § 6º, do art. 5º, da Lei nº 7.347/1985, no âmbito do Ministério Público. Definiu em seu art. 1º, que o compromisso de ajustamento de conduta é um instrumento de garantia dos direitos e interesses difusos e coletivos, individuais homogêneos e outros direitos de cuja defesa está incumbido o Ministério Público, com natureza de negócio jurídico que tem por finalidade a adequação da conduta às exigências legais e constitucionais, com eficácia de título executivo extrajudicial a partir da celebração. Pela Resolução, o CAC tem natureza jurídica de negócio jurídico, tendo em vista que é formado pela união de interesses das partes. Por outro lado, balizada doutrina nacional entende que o CAC tem natureza jurídica de ato jurídico em sentido estrito, sendo mera aceitação por parte do compromissário dos termos aventados em sua estrutura, considerando que o interesse que se discute é o do meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de interesse difuso, indisponível e inegociável, não pertence as partes envolvidas no ato de compromisso, mas sim a toda a coletividade. Lembrando que o ato jurídico em sentido estrito, constitui simples manifestação de vontade, sem conteúdo negocial, que determina a produção de efeitos legalmente previstos. O Termo de Ajustamento de Conduta é perfeitamente aplicável ao direito ambiental, tendo em vista tratar-se de direito difuso, visando que o compromitente proceda à reparação do dano, à adequação da conduta às exigências legais ou normativas e, ainda, à compensação e/ou à indenização pelos danos que não possam ser recuperados no que tange ao bem ambiental. Cumpre advertir que não é direito subjetivo das partes a celebração do TAC, só havendo possibilidade de assinatura se houver consentimento de ambas as partes dependendo da convergência de vontades. Assim, em um dano provocado ao meio ambiente não tem direito subjetivo a assinatura do TAC aquele que deu causa ao dano, se o MP entender não ser pertinente o instrumento extrajudicial de solução de conflitos. Da mesma forma, mesmo sendo proposto pelo órgão ministerial, não implica um dever para a outra parte participar da avença, haja vista seu caráter não vinculante ou mesmo obrigatório. O STJ, no REsp 895.443/RJ, já sedimentou a tese de que a alegada obrigatoriedade de o Ministério Público propor Termo de Ajustamento de Conduta antes do ajuizamento da ação civil pública, no ordenamento jurídico brasileiro, não confere ao referido instrumento o caráter obrigatório, em que pese sua notória efetividade. Quanto à legitimidade para oferecimento do TAC, somente os órgãos públicos podem fazê-lo. Assim, dos legitimados previstos no art. 5º, da Lei de ação civil pública, somente as associações não poderiam ventilar proposta extrajudicial de transação para a resolução dos danos acarretados ao meio ambiente. Objetiva-se ter um maior controle quanto ao cumprimento dos termos do compromisso, tendo em vista o pouco controle que tem o poder público sobre os atos praticados por aquelas entidades. Mesmo ficando a cargo do Poder Público o manejo do TAC, cumpre lembrar que se o proponente (gestor/procurador/promotor) não elaborar o instrumento de forma a tutela escorreitamente o meio ambiente, ou mesmo deixar de fiscalizar sua execução, responderá, tanto na esfera administrativa como na penal. Esse TAC, por ter sido feito de forma a gerar uma proteção deficiente ao meio ambiente, não vincula as partes, podendo ser manejada ação civil pública específica para abarcar a parte não incluída nele, tendo em vista que o compromisso não vincula as partes quanto à obrigação ambiental de reparar o meio ambiente, mas sim 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 30/68 Questão 2019 | 1578948074 O termo de ajustamento de conduta está previsto no § 6º do art. 5º da Lei nº 7.347/85. Sobre o tema, é correto a�rmar que quanto à forma de cumprimento da dessa obrigação. Nessa linha, se o ente federativo,ainda que por meio dos órgãos integrantes da estrutura estatal, omitiu-se na fiscalização do cumprimento do Termo de Ajustamento de Conduta, deve ser responsabilizado pelos danos ambientais ocorridos. Cumpre advertir ainda que doutrina majoritária entende que se o TAC, de cunho extrajudicial, for homologado em juízo, só poderá ser rescindido por outra decisão judicial, a ser proferia, em tese, em uma ação anulatória. O termo de ajustamento de conduta tem eficácia de título executivo extrajudicial, podendo ser executado pelos interessados em face de seu não cumprimento. Não podemos olvidar que o TAC deve tratar apenas da forma como se dará a execução das medidas necessárias ao dever de recuperar os danos acarretados ao meio ambiente e a recondução das ações do infrator as determinações legais, não implicando qualquer renúncia aos direitos ou interesses difusos relacionados com o meio ambiente. Trata-se apenas de uma negociação à interpretação do direito para o caso concreto, à especificação das obrigações adequadas e necessárias, em especial o modo, tempo e lugar de cumprimento das obrigações ambientais. Ressalto que doutrina majoritária entende que para formulação do TAC ambiental o órgão legitimado deve impor como requisitos indispensáveis: a obrigação ambiental de reparação do dano em face da indisponibilidade desse direito, bem como as demais obrigações a serem estipuladas no caso de não cumprimento dos termos do acordo, tendo em vista a natureza extrajudicial desse título, podendo, inclusive, ser executado por qualquer um dos legitimados, ou beneficiários dos termos nele previstos. Por fim, o STJ entende que a assinatura de termo de ajustamento de conduta, com a reparação do dano ambiental, são circunstâncias que possuem relevo para a seara penal, a serem consideradas na hipótese de eventual condenação, não se prestando para elidir a tipicidade penal. Isso porque, a lavratura do referido compromisso, com a extinção de ação civil pública, se existente, não implica a extinção da ação penal correspondente, haja vista a independência da esfera penal em relação às esferas cível e administrativa. 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 31/68 A) os legitimados ativos das ações coletivas necessariamente precisam ter realizado tal compromisso antes de propor a demanda judicial, vez que se trata de condição para o ingresso dessas demandas coletivas. B) por ter natureza jurídica de título judicial, para ter e�cácia, há que ser homologado pelo juiz competente para análise da ação coletiva. C) por ter natureza preventiva, em casos de demandas ambientais, não poderá ser �rmado após a ocorrência do dano. D) o objeto desses termos de ajustamento de conduta são apenas os interesses difusos, sendo que para os demais direitos de natureza transindividual, por sua indisponibilidade, não podem ser objeto de transação. E) tal instrumento poderá ser proposto, em caso de dano ambiental, tanto pelo Ministério Público como por outros órgãos de defesa ao meio ambiente, como o IBAMA e as Secretarias Municipais de Meio Ambiente. Solução Gabarito: E) tal instrumento poderá ser proposto, em caso de dano ambiental, tanto pelo Ministério Público como por outros órgãos de defesa ao meio ambiente, como o IBAMA e as Secretarias Municipais de Meio Ambiente. GABARITO: ALTERNATIVA E O termo de ajustamento de conduta (TAC) poderá ser proposto, em caso de dano ambiental, tanto pelo Ministério Público como por outros órgãos de defesa ao meio ambiente, como o IBAMA e as Secretarias Municipais de Meio Ambiente. Cumpre salientar que o MP tem legitimidade universal, e os outros órgãos públicos, como o Ibama, devem respeitar sua área de atuação, ou seja, só pode �rmar TAC em matéria ambiental, não em assunto sem relação com sua �nalidade. Demais Considerações Inversão do ônus da prova De acordo com a jurisprudência consagrada do Superior Tribunal de Justiça, os legitimados para propositura da ação civil pública fazem jus à inversão do ônus da prova, a considerar que o mecanismo previsto no art. 6º, inc. VIII, do CDC, busca concretizar a melhor tutela processual possível dos direitos difusos, coletivos ou individuais homogêneos e de seus titulares, independentemente daqueles que figurem como autores ou réus na ação. Aplica- se as regras da integração das normas dentro do microssistema processual coletivo. Na esfera ambiental, o STJ tem jurisprudência consolidada de aplicação da inversão do ônus da prova em ações ambientais que visam a reparação/recuperação do meio 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 32/68 ambiente, buscando dar maior concretude ao princípio da reparação integral do dano e ao princípio da precaução. Nesse sentido foi editada a Súmula 618, que tem como enunciado: Súmula 618 do STJ: A inversão do ônus da prova aplica-se às ações de degradação ambiental. Pelo princípio da precaução, milita a favor do meio ambiente, e, consequentemente, da coletividade, o benefício da dúvida na hipótese da incerteza científica ou mesmo técnica das causas danosas ao meio ambiente. Cabe ao empreendedor/poluidor provar que sua atividade não acarretou o suposto dano ventilado em uma ação civil púbica ambiental, não sendo o legitimado ativo obrigado a provar tecnicamente tal hipótese, bastando, na ação, comprovar a conduta, o dano e o nexo causal, sem necessidade de perquirir quanto ao elemento subjetivo da conduta. Assim, cabe a quem supostamente promoveu o dano ambiental comprovar que não o causou ou que a sua atividade/ conduta não foi potencialmente lesiva ao meio ambiente. Por fim, o STJ já assentou que a inversão do ônus da prova deve ser também admitida em caso de ação civil pública proposta pelo Ministério Público pedindo a recomposição e/ou a reparação decorrente de degradação ambiental. Isso porque, por mais que o Ministério Público não possa ser considerado hipossuficiente, ele atua em juízo como substituto processual e a vítima é toda a sociedade que, em se tratando de dano ambiental, é considerada hipossuficiente do ponto de vista de conseguir produzir as provas. Regime Jurídico da Coisa Julgada Nos termos do art. 502, do CPC, denomina-se coisa julgada material a autoridade que torna imutável e indiscutível a decisão de mérito não mais sujeita a recurso. Corporifica-se quando a decisão judicial se torna intangível, não cabendo mais qualquer tipo de recurso para alterar seu conteúdo. É a pura aplicação do princípio da segurança jurídica nas relações interpessoais, visando a não eternalização das lides sobre fatos já discutidos e decididos em juízo. Mas é importante frisar que o regime jurídico individualista previsto no CPC, não é o mesmo para as ações de natureza coletiva em sentido amplo, embora existam pontos comuns entre eles. O CPC disciplinou a coisa julgada em sua dimensão (limite) objetiva (conteúdo do dispositivo da sentença) e subjetiva (partes envolvidas na demanda). Quanto àquela, o regime jurídico civilista individual é o mesmo para o processo coletivo, devendo a coisa julgada limitar- se a atingir o conteúdo no dispositivo da decisão proferida, nos termos do art. 503, do CPC, podendo as normas do microssistema processual coletivo se embebedarem daqueles presentes no Código Processual Civilista. Quanto aos limites subjetivos da coisa julgada, a regra é bem diferenciada. As normas básicas para o processo coletivo estão previstas no art. 16, da Lei de ação civil pública, vejamos: 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 33/68 Art. 16. A sentença civil fará coisa julgada erga omnes, nos limites da competência territorial do órgão prolator, exceto se o pedido for julgado improcedente por insuficiência de provas, hipótese em que qualquer legitimado poderá intentar outra ação com idêntico fundamento, valendo-se de nova prova. Além dessa regra fundamental, temos outras previstas no famoso art. 103 e 104, do CDC,vejamos: Art. 103. Nas ações coletivas de que trata este código, a sentença fará coisa julgada: I - erga omnes, exceto se o pedido for julgado improcedente por insuficiência de provas, hipótese em que qualquer legitimado poderá intentar outra ação, com idêntico fundamento valendo-se de nova prova, na hipótese do inciso I do parágrafo único do art. 81; II - ultra partes, mas limitadamente ao grupo, categoria ou classe, salvo improcedência por insuficiência de provas, nos termos do inciso anterior, quando se tratar da hipótese prevista no inciso II do parágrafo único do art. 81; III - erga omnes, apenas no caso de procedência do pedido, para beneficiar todas as vítimas e seus sucessores, na hipótese do inciso III do parágrafo único do art. 81. § 1° Os efeitos da coisa julgada previstos nos incisos I e II não prejudicarão interesses e direitos individuais dos integrantes da coletividade, do grupo, categoria ou classe. § 2° Na hipótese prevista no inciso III, em caso de improcedência do pedido, os interessados que não tiverem intervindo no processo como litisconsortes poderão propor ação de indenização a título individual. § 3° Os efeitos da coisa julgada de que cuida o art. 16, combinado com o art. 13 da Lei n° 7.347, de 24 de julho de 1985, não prejudicarão as ações de indenização por danos pessoalmente sofridos, propostas individualmente ou na forma prevista neste código, mas, se procedente o pedido, beneficiarão as vítimas e seus sucessores, que poderão proceder à liquidação e à execução, nos termos dos arts. 96 a 99. § 4º Aplica-se o disposto no parágrafo anterior à sentença penal condenatória. Art. 104. As ações coletivas, previstas nos incisos I e II e do parágrafo único do art. 81, não induzem litispendência para as ações individuais, mas os efeitos da coisa julgada erga omnes ou ultra partes a que aludem os incisos II e III do artigo anterior não beneficiarão os autores das ações individuais, se não for requerida sua suspensão no prazo de trinta dias, a contar da ciência nos autos do ajuizamento da ação coletiva. 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 34/68 Outra norma importante para a análise da coisa julgada no processo coletivo, está prevista no art. 18, da Lei de ação popular, de conteúdo muito similar, mutatis mutandis, ao previsto no art. 16, da Lei de ação civil pública, vejamos: Art. 18. A sentença terá eficácia de coisa julgada oponível "erga omnes", exceto no caso de haver sido a ação julgada improcedente por deficiência de prova; neste caso, qualquer cidadão poderá intentar outra ação com idêntico fundamento, valendo-se de nova prova. Outra diferença no regime individual e coletivo está no modo de produção de efeitos em relação ao resultado do processo. A regra é que no processo individual a coisa julgada é pro et contra, configurando-se independentemente do resultado. No processo coletivo, há limites específicos que analisaremos em seguida. O limite subjetivo da coisa julgada no processo coletivo, quanto ao modo de produção, diferentemente do previsto no CPC, visa atingir não só as partes envolvidas no processo, mas principalmente abarcar aquele que não foi parte, não se aplicando o art. 506, do CPC, que ventila a regra de que a sentença faz coisa julgada às partes entre as quais é dada, não prejudicando terceiros. Apresentaremos um resumo do regime jurídico da coisa julgada em relação à produção de efeitos, em face da natureza da sentença produzida para cada direito vindicado na ação civil pública, tendo em vista o objetivo desta obra. Na tutela do meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de interesse difuso, temos que a produção de efeitos da sentença na ação civil pública atinge toda a sociedade (erga omnes) impedindo que nova ação coletiva possa ser proposta pelos legitimados para discutir os mesmos fatos. Por outro lado, sendo improcedente o pedido formulado na inicial coletiva por falta de prova, poderá, qualquer legitimado propor nova ação coletiva. Direito/Interesse Sentença Produção de Efeitos (Eficácia) Comentários Individuais Homogêneos Procedente Erga omnes - abrange toda a classe litigante; Improcedente Erga omnes - Impede nova ação coletiva, mesmo na falta de provas (posição do STJ). - não prejudica a ação individual. 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 35/68 Nesse sentido, se o IBAMA propõe uma ação civil pública ambiental para reparação de um dano acarretado ao meio ambiente consubstanciada em um desmatamento de 100 hectares de mata nativa no bioma Mata Atlântica sem autorização do órgão ambiental competente, se a ação for julgada improcedente por insuficiência de provas quanto à autoria, poderá, em outra ação coletiva, o IBAMA ou outro legitimado, com novas provas do suposto infrator, propor outra demanda coletiva. Assim, a coisa julgada não se limita aos demandantes, atingindo todos os titulares do direito difuso ao meio ambiente ecologicamente equilibrado perfectibilizando a coisa julgada material se o pedido for julgado procedente ou improcedente, ressalvado se por falta de prova. É o que a doutrina denomina de coisa julgada secundum eventum probationis, isto é, a formação da coisa julgada material ocorrerá se o contexto probatório for suficiente para demonstrar a improcedência do pedido de acordo com o sucesso da prova. Nessa linha, como regra, a coisa julgada dos direitos difusos é secundum eventum probationis, ressalvado a tutela dos direitos/interesses individuais homogêneos. Isso porque mesmo sendo julgado improcedente o pedido e tendo havido o trânsito em julgado, não será admitida uma nova ação coletiva como regra, por qualquer legitimado. Por outro lado, será possível uma demanda individual, em razão da ideia do transporte in utilibus. Melhor dizendo, o regime de transferência do âmbito coletivo para o individual é secundum eventum litis, só atingindo particulares se eles forem beneficiados. Embora o art. 16, da Lei de ação civil pública preveja a sentença civil fará coisa julgada erga omnes, nos limites da competência territorial do órgão prolator, doutrina e jurisprudência dominante afirmar que a eficácia do julgado é nacional, admitindo sua execução individual em qualquer parte do território nacional, desde que provada a existência do direito. A Corte Especial do STJ, ao julgar o REsp 1.243.887/PR, sob a relatoria do Ministro LUIS FELIPE SALOMÃO, firmou entendimento de que a eficácia da sentença proferida em processo coletivo não se limita geograficamente ao âmbito da competência jurisdicional do seu prolato. Prescrição A prescrição é a perda do direito de punir do Estado pelo seu não exercício em determinado lapso de tempo. O Estado permanece inerte quanto ao dever de promover, em juízo, a ação judicial correspondente para reparar direitos coletivos lesados por terceiros. É a perda da pretensão de estar em juízo e não do próprio direito em si considerado. A Lei 7.347/85 não previu expressamente o prazo prescricional para o manejo da ação civil pública para tutelar os direitos coletivos em sentido amplo. Daí resultam correntes doutrinárias ventilando teses sobre o possível prazo prescricional. Doutrina majoritária entende que a prescrição dessa ação é definida pela pretensão de direito material vindicada. Nessa linha, o reconhecimento da prescrição está atrelado à indisponibilidade do direito material protegido. De fato, para a tutela do meio ambiente (macro bem), notadamente para reparação de danos a ele acarretados, a ação civil pública é imprescritível, tendo em vista ser um direito fundamental de terceira dimensão, indisponível, transindividual e de interesse de toda a coletividade. Assim, 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 36/68 se foi realizado um desmatamento em área de preservação permanente a mais de 20 anos e a área ainda continua antropizada, poderá umdos legitimados propor ação civil pública objetivando a reparação do dano causado, não havendo que se perquirir sobre a ocorrência da prescrição, considerando que a tutela ambiental está acobertada pelo manto da imprescritibilidade. Isso porque, as infrações ao meio ambiente são de caráter continuado, motivo pelo qual as ações de pretensão de cessação dos danos ambientais são imprescritíveis. Por outro lado, o Superior Tribunal de Justiça, como regra, milita a tese de que na falta de dispositivo legal específico para a ação civil pública, aplica-se, por analogia, o prazo de prescrição da ação popular, que é o quinquenal (art. 21 da Lei nº 4.717/1965), adotando-se também tal lapso na respectiva execução, a teor da Súmula nº 150/STF. Vejamos: LAP Art. 21. A ação prevista nesta lei prescreve em 5 (cinco) anos. STF Súmula 150: Prescreve a execução no mesmo prazo de prescrição da ação. Nessa cadência, no âmbito do Direito Privado, é de cinco anos o prazo prescricional para ajuizamento da execução individual em pedido de cumprimento de sentença proferida em ação civil pública. Mas frise-se, a Corte Federal, no julgamento do REsp 1.736.091-PE, Rel. Min. Nancy Andrighi, em 2019, superou essa orientação jurisprudencial e passou a entender que o prazo de 5 (cinco) anos para o ajuizamento da ação popular não se aplica às ações coletivas de consumo, como também já se configurava para a tutela do meio ambiente e do patrimônio público. Vejamos trecho do julgado: (...) É, assim, necessária a superação (overruling) da atual orientação jurisprudencial desta Corte, pois não há razão para se limitar o uso da ação coletiva ou desse especial procedimento coletivo de enfrentamento de interesses individuais homogêneos, coletivos em sentido estrito e difusos, sobretudo porque o escopo desse instrumento processual é o tratamento isonômico e concentrado de lides de massa relacionadas a questões de direito material que afetem uma coletividade de consumidores, tendo como resultado imediato beneficiar a economia processual. De fato, submeter a ação coletiva de consumo a prazo determinado tem como única consequência impor aos consumidores os pesados ônus do ajuizamento de ações individuais, 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 37/68 em prejuízo da razoável duração do processo e da primazia do julgamento de mérito, princípios expressamente previstos no atual CPC em seus arts. 4º e 6º, respectivamente, além de prejudicar a isonomia, ante a possibilidade de julgamentos discrepantes. Reexame Necessário O reexame necessário tem natureza jurídica de condição de eficácia da sentença. Nesse sentido, consiste na necessidade de que determinadas sentenças sejam confirmadas pelos tribunais. Assim, enquanto não sujeito ao reexame necessário, tais sentenças não poderão ser executadas. A previsão do reexame necessário está no art. 496, do Código de Processo Civil, fixando a regra de que está sujeita ao duplo grau de jurisdição, não produzindo efeito senão depois de confirmada pelo tribunal, a sentença: I – proferida contra a União, o Estado, o Distrito Federal, o Município, e as respectivas autarquias e fundações de direito público; e II – que julgar procedentes, no todo ou em parte, os embargos à execução fiscal. O reexame também está previsto no processo coletivo, mais precisamente, no art. 19, da Lei 4.717/65, fixando a regra de que a sentença que concluir pela carência ou pela improcedência da ação está sujeita ao duplo grau de jurisdição, não produzindo efeito senão depois de confirmada pelo tribunal. Segundo o STJ, no julgamento do REsp n. 1.220.667-MG, Rel. Ministro HERMAN BENJAMIN, admite-se a aplicação analógica do art. 19 da Lei n.4.717/65 em relação às ações civil públicas, sujeitando-se as sentenças de improcedência de pedidos formulados em ação civil pública, indistintamente, ao reexame necessário, seja por aplicação subsidiária do Código de Processo Civil (art. 475 do CPC/1973), seja pela aplicação analógica do Lei da Ação Popular (art. 19 da Lei n. 4.717/65). Quando a ação civil pública envolver o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado deve também ser aplicado a remessa necessária em favor do interesse da coletividade. Assim, se há ônus proferido na decisão terminativa em face do legitimado que busca tutelar o meio ambiente, cabível o reexame necessário, ficando suspenso os efeitos da decisão proferida. Desistência ou Abandono O art. 5, § 3º, da Lei de ACP, fixa a regra de que em caso de desistência infundada ou abandono da ação por associação legitimada, o Ministério Público ou outro legitimado assumirá a titularidade ativa, considerando que o objeto do processo coletivo é irrenunciável pelo autor coletivo, não lhe pertencendo, mas sim à coletividade. Nesse sentido, havendo desistência de ação coletiva ambiental por parte de uma associação legitimada, teremos a sucessão processual, e não a extinção do processo. Igual regra, mutatis mutandis, foi ventilada também no art. 9º, da Lei de Ação Popular, que prevê se o autor desistir da ação ou der motivo à absolvição da instância, serão publicados editais de chamamento, ficando assegurado a qualquer cidadão, bem como ao representante 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 38/68 do Ministério Público, dentro do prazo de 90 (noventa) dias da última publicação feita, promover o prosseguimento da ação popular. Importante destacar o papel institucional do Ministério Público nesse processo, seja no âmbito da ação civil pública ou da ação popular, em que poderá atuar, se não for naturalmente o autor da demanda, como substituto processual para fins de tutelar o direito/interesse coletivo stricto sensu vindicado na demanda. Cumpre assinalar que a leitura do art. 5, § 3º, da Lei de ACP, autoriza o Ministério Público ou qualquer legitimado a assumir a titularidade ativa da ação coletiva já em curso. Esta possibilidade não se restringe às hipóteses de desistência infundada ou de abandono da causa pela associação legitimada, mencionadas a título exemplificativo pelo legislador, podendo ser aplicado a desistência de qualquer legitimado, inclusive ao Ministério Público. Por fim, a hipótese de substituição processual só se configura se a desistência for infundada. Havendo fundamentos consistentes para a desistência da demanda, de forma a melhor resguardar o interesse da coletividade, não haveria razão para aplicação do instituto jurídico da substituição. Fundo de Direitos Difusos-FDD Para reparação dos direitos metaindividuais lesados, a Lei de ação civil pública criou o Fundo de Direitos Difusos – FDD, que tem por finalidade a reparação dos danos causados ao meio ambiente, ao consumidor, a bens e direitos de valor artístico, estético, histórico, turístico, paisagístico, por infração à ordem econômica e a outros interesses difusos e coletivos. Foi previsto no art. 13, da LACP, vejamos: Art. 13. Havendo condenação em dinheiro, a indenização pelo dano causado reverterá a um fundo gerido por um Conselho Federal ou por Conselhos Estaduais de que participarão necessariamente o Ministério Público e representantes da comunidade, sendo seus recursos destinados à reconstituição dos bens lesados. § 1º Enquanto o fundo não for regulamentado, o dinheiro ficará depositado em estabelecimento oficial de crédito, em conta com correção monetária. § 2º Havendo acordo ou condenação com fundamento em dano causado por ato de discriminação étnica nos termos do disposto no art. 1o desta Lei, a prestação em dinheiro reverterá diretamente ao fundo de que trata o caput e será utilizada para ações de promoção da igualdade étnica, conforme definição do Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial, na hipótese de extensão nacional, ou dos Conselhos de Promoção de Igualdade Racial estaduais ou locais, nas hipóteses de danos com extensão regional ou local, respectivamente.(Incluído pela Lei nº 12.288, de 2010) Nessa linha, qualquer condenação em dinheiro por danos causados a meio ambiente, na forma de indenização, deverá ser aportada ao FDD, que será gerido por um Conselho, devendo os 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 39/68 recursos serem revestidos à reconstituição do bem ambiental lesado. Assim, os recursos arrecadados serão distribuídos para a efetivação das medidas reparatórias e suas aplicações deverão estar relacionadas com a natureza da infração ou de dano causado, sendo prioritariamente aplicados na reparação específica do dano causado, sempre que tal fato for possível. É fundamental que os recursos destinados ao fundo provenientes de condenações judiciais de aplicação de multas administrativas sejam identificados segundo a natureza da infração ou do dano causado, de modo a permitir o cumprimento (parágrafo único, do art. 10, do Decreto 1306/94). O Decreto 1.306/94, que revogou o Decreto 407/91, regulamentou o Fundo de Direitos Difusos definindo seus aportes e as atribuições de seu Conselho Gestor. Nesse diapasão, previu o art. 2º, que constitui recursos do FDD, o produto da arrecadação: das condenações judiciais de que tratam os arts. 11 e 13, da Lei nº 7.347, de 24 de julho de 1985; das multas e indenizações decorrentes da aplicação da Lei nº 7.853, de 24 de outubro de 1989, desde que não destinadas à reparação de danos a interesses individuais; dos valores destinados à União em virtude da aplicação da multa prevista no art. 57 e seu parágrafo único e do produto de indenização prevista no art. 100, parágrafo único, da Lei nº 8.078, de 11 de setembro de 1990; das condenações judiciais de que trata o parágrafo 2º, do art. 2º, da Lei nº 7.913, de 7 de dezembro de 1989; das multas referidas no art. 84, da Lei nº 8.884, de 11 de junho de 1994; dos rendimentos auferidos com a aplicação dos recursos do Fundo; de outras receitas que vierem a ser destinada ao Fundo; de doações de pessoas físicas ou jurídicas, nacionais ou estrangeiras. Recursos do FDD Condenações judiciais de que tratam os arts. 11 e 13, da Lei nº 7.347, de 24 de julho de 1985 -Indenizações decorrentes de todos os direitos tutelados pela ACP, incluindo o meio ambiente. - Multas diárias para o cumprimento da obrigação de fazer. 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 40/68 O interessante da análise desses aportes é percebermos que há um rol mais abrangente de entradas, abarcando, não apenas as indenizações em condenações judiciais, como também recursos oriundos de multas, bem como de doações feitas ao FDD. Mas, acrescente-se que, em qualquer hipótese, não podem ser direcionados ao Fundo os recursos destinados à reparação de danos de direitos individuais (divisíveis), devendo ser atribuídos a cada lesado na medida necessária de sua reparação. Por outro lado, se a lesão for ao patrimônio público em sentido estrito, o destinatário será a Fazenda Pública. Multas e indenizações decorrentes da aplicação da Lei nº 7.853/89 - Referente à tutela dos direitos das pessoas portadoras de deficiência. - Salvo as indenizações destinadas a reparações individuais. Valores destinados à União em virtude da aplicação da multa prevista no art. 57 e seu parágrafo único e do produto de indenização prevista no art. 100, parágrafo único, da Lei nº 8.078/90. - Multas decorrentes de infrações às normas de defesa do consumidor. - O produto da indenização da liquidação promovida pelos legitimados no caso de não haver habilitação de interessados no prazo de um ano. Condenações judiciais de que trata o parágrafo 2º, do art. 2º, da Lei nº 7.913/89 - Recursos destinados aos investidores do mercado de valores mobiliários que não se habilitaram para recebimento dos valores na referida ação civil pública. Multas referidas no §3º, do art. 28, da Lei 12.529/2011. -Produto da arrecadação das multas aplicadas pelo Cade, inscritas ou não em dívida ativa, referentes às infrações contra a ordem econômica. Dos rendimentos auferidos com a aplicação dos recursos do Fundo - Juros e demais rendimentos pela remuneração do capital próprio. De outras receitas que vierem a ser destinada ao Fundo - Leis específicas podem destinar dinheiros ao FDD. De doações de pessoas físicas ou jurídicas, nacionais ou estrangeiras - Destinações de recursos independentemente da existência de infrações a direitos coletivos por pessoas físicas ou jurídicas, nacionais ou estrangeiras. 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 41/68 O FDD, no âmbito federal, é gerido por um Conselho Federal – CFDD órgão colegiado integrante da estrutura organizacional do Ministério da Justiça, tendo composição plural, sendo integrado pelos seguintes membros: 01 representante da Secretaria Nacional do Consumidor do Ministério da Justiça, que o presidirá; 01 representante do Ministério do Meio Ambiente; 01 representante do Ministério da Cultura; 01 representante do Ministério da Saúde vinculado à área de vigilância sanitária; 01 representante do Ministério da Fazenda; 01 representante do Conselho Administrativo de Defesa Econômica - CADE; 01 representante do Ministério Público Federal; 03 representantes de entidades civis que atendam aos pressupostos dos incisos I e II, do art. 5º, da Lei nº 7.347, de 24 de julho de 1985. Compete ao CFDD: zelar pela aplicação dos recursos na consecução dos objetivos previstos nas Leis nºs 7.347, de 1985, 7.853, de 1989, 7.913, de 1989, 8.078, de 1990 e 8.884, de 1994, no âmbito do disposto no art. 1º deste Decreto; aprovar convênios e contratos, a serem firmados pela Secretaria-Executiva do Conselho, objetivando atender ao disposto no inciso I deste artigo; examinar e aprovar projetos de reconstituição de bens lesados, inclusive os de caráter científico e de pesquisa; promover, por meio de órgãos da administração pública e de entidades civis interessadas, eventos educativos ou científicos; fazer editar, inclusive em colaboração com órgãos oficiais, material informativo sobre as matérias mencionadas no art. 1º deste Decreto; promover atividades e eventos que contribuam para a difusão da cultura, da proteção ao meio ambiente, do consumidor, da livre concorrência, do patrimônio histórico, artístico, estético, turístico, paisagístico e de outros interesses difusos e coletivos; examinar e aprovar os projetos de modernização administrativa dos órgãos públicos responsáveis pela execução das políticas relativas às áreas a que se refere o art. 1º deste Decreto; elaborar o seu regimento interno. 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 42/68 Ação Popular – Lei nº 4.717/65 Cumpre destacar que os Estados/DF poderão instituir seus respectivos conselhos para gestão dos recursos provenientes das condenações judiciais em ações civis públicas que visam tutelar os direitos coletivos em sentido amplo, além de outras fontes a serem previstas nas respectivas leis que regulamentarem o FDD no âmbito Estadual/Distrital. Para assistir ao vídeo correspondente, acesse o LDI. A ação popular teve sua origem no direito romano, tendo reflexos no Brasil com a edição da CF/1824, de caráter penal, passando a ter natureza civil somente com a edição da CF/34 ao prevê que todo cidadão seria parte legítima para pleitear a declaração de nulidade ou anulação dos atos lesivos do patrimônio da União, dos Estados ou dos Municípios (art. 113, 38). Somente no ano de 1965, foi regulamentada pela Lei 4.717, vigente até os dias atuais. Suas raízes remontam à ação popular romana. Inicialmente o objeto de proteção da ação popular era apenas o patrimônio público, sendo ampliado pela Constituição Federal de 1988 passando a tutelar também o meio ambiente, bem como outros bens jurídicos como a moralidade administrativae o patrimônio histórico e cultural. Assim, para fins de concurso, importante saber que a tutela do meio ambiente por meio da ação popular só ocorreu com a edição da Carta Política de 1988. É uma ação de caráter cívico-administrativo. Nesse sentido, destacam Hermes Zaneti e Leonardo Garcia a existência de dois tipos de ação popular: uma tradicionalmente disciplinada pela lei 4.717/665, configurando a ação popular propriamente dita, vocacionada à defesa do patrimônio público, e outra intitulada ação popular ambiental, destinada a defesa do patrimônio histórico, cultural e do meio ambiente em uma vertente mais ampla. O meio ambiente, com o advento da CF/88, passou a ser tutelado também por intermédio da ação popular tendo natureza coletiva em sentido amplo considerando que tutela um interesse/direito transindividual de natureza coletiva, sendo seu legitimado o cidadão que atua como substituto processual ao manejar esse remédio constitucional. Legitimidade Ativa Embora não previsto como legitimado ativo para propositura da ação civil pública, o cidadão é parte legítima para propor a ação popular ambiental nos termos do art. 5º, LXXIII, da CF/88, que vise a anular ato lesivo ao patrimônio público ou de entidade de que o Estado participe, à moralidade administrativa, ao meio ambiente e ao patrimônio histórico e cultural, ficando o autor, salvo comprovada má-fé, isento de custas judiciais e do ônus da sucumbência. O requisito é a pessoa física ser cidadão, fato que autoriza o manejo desse remédio constitucional na defesa do patrimônio ambiental. Essa qualidade de cidadão só se configura quando o indivíduo está em pleno gozo dos direitos políticos, consubstanciada no regular alistamento eleitoral, sendo a comprovação evidenciada, na petição inicial, pela juntada do 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 43/68 titular de eleitor. Assim, o brasileiro que estiver com seus direitos políticos suspensos por qualquer ato irregular praticado, não será legitimado para propositura da ação popular, tendo em vista não preencher o requisito da cidadania. Podemos então concluir que o alistado regularmente poderá propor a ação popular ambiental. Isso ocorre para todo brasileiro maior de 16 anos, considerando que a CF/88 permite, facultativamente, essa possibilidade a partir dos 16 anos, sendo o alistamento obrigatório quando atingido os 18 anos, nos termos do art. 14, §1º, da CF/88. Destacamos que o maior de 16 e menor de 18 anos não precisa de assistência ou representação, pois alistado, estará em pleno gozo de sua capacidade eleitoral ativa. Sendo o estrangeiro inalistável, nos termos do art. 14, §2º, da CF/88, não terá o atributo da cidadania brasileira, razão pela qual não poderá manejar a ação popular ambiental. Por outro lado, doutrina majoritária entende que o português equiparado poderá propor o referido remédio. Isso porque embora na condição de estrangeiro, poderá gozar dos mesmos direitos políticos do brasileiro naturalizado (votar e ser votado, por exemplo), desde que tenha residência permanente no Brasil e haja reciprocidade para os brasileiros. Cumpre advertir que pessoa jurídica é ilegítima para propositura da ação popular. Nesse sentido, ressaltou o Supremo Tribunal Federal, no julgamento da ADI 4.650/DF, a participação política por pessoas jurídicas não é inerente ao regime democrático, em geral, e à cidadania, em particular. Isso porque o exercício da cidadania, em seu sentido mais estrito, pressupõe três modalidades de atuação cívica: o ius suffragii (i.e., direito de votar), o jus honorum (i.e., direito de ser votado) e o direito de influir na formação da vontade política através de instrumentos de democracia direta, como o plebiscito, o referendo e a iniciativa popular de leis. Nessa quadratura, segundo a Corte Suprema, esses atributos são inerentes às pessoas naturais, afigurando-se um disparate cogitar a sua extensão às pessoas jurídicas. Esse entendimento foi pacificado na Súmula 365 do STF que tem como verbete: "pessoas jurídicas não têm legitimidade para propor ação popular". Embora tenha doutrina minoritária entendendo que a natureza jurídica da legitimação ativa é ordinária em face de ser um atributo constitucional do cidadão no exercício de seus direitos políticos, prevalece a tese de que seja extraordinária atuando o cidadão em nome próprio em defesa do direito da coletividade. Por fim, nos termos do §5º, do art. 6º, é facultado a qualquer cidadão se habilitar como litisconsorte ou assistente do autor da ação popular. Legitimidade Passiva Devem compor o polo passivo em uma ação popular: (1) o agente público que praticou o ato impugnado, (2) a entidade a qual está vinculado o agente, bem como (3) todo aquele que se beneficiar do ato ilegal ou abusivo, seja pessoa física ou jurídica, de direito público ou privado, configurando-se o litisconsórcio passivo necessário e simples. A ação popular pode ser proposta, então, em face de qualquer pessoa pública ou privada, nos termos do art. 6º, da Lei 4.717/65, assim como contra aqueles cuja criação ou custeio o tesouro público haja concorrido ou concorra com mais de cinquenta por cento do patrimônio ou da 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 44/68 receita ânua, de empresas incorporadas ao patrimônio da União, do Distrito Federal, dos Estados e dos Municípios, e de quaisquer pessoas jurídicas ou entidades subvencionadas pelos cofres públicos. Assim, há necessidade de se incluir em litisconsórcio necessário com essas pessoas jurídicas, as autoridades, funcionários ou administradores que houverem autorizado, aprovado, ratificado ou praticado o ato impugnado, ou que, por omissas, tiverem dado oportunidade à lesão, e contra os beneficiários diretos do mesmo. Nessa linha, as pessoas físicas ou jurídicas, de direito público ou privado, que, de qualquer forma, participaram do ato, ou se beneficiaram diretamente dele têm legitimidade passiva na ação popular. Importante destacar que na ação popular é possível, nos termos do art. 6º, § 3º, que a pessoa jurídica de direito público ou de direito privado, cujo ato seja objeto de impugnação, abstenha- se de contestar o pedido, ou atue ao lado do autor, desde que isso se afigure útil ao interesse público, a juízo do respectivo representante legal ou dirigente. É a autorização para mudança de polo na demanda, podendo a pessoa jurídica transmudar de ré para autora, permitindo que os representantes respondam sozinhos no polo passivo na ação popular ambiental. Assim, poderá a pessoa jurídica, com vista a atender ao interesse público: defender o ato combatido pela ação popular; mudar o polo, atuando junto com o cidadão; ou mesmo permanecer inerte no processo. Exemplo disso ocorre quando um cidadão maneja ação popular objetivando anular ato administrativo emitido pela autoridade de órgão ambiental de um Estado que autorizou edificações em APP fora dos permissivos legais previstos no Código Florestal, e, o representante máximo da entidade ao qual o órgão está vinculado, entende que se trata, efetivamente, de ato lesivo ao meio ambiente, requerendo ao magistrado, por meio de seu representante processual, a mudança de polo na demanda deixando a autoridade reguladora responder unicamente pelo ato lesivo ao bem ambiental. É o que a doutrina denomina de legitimação móvel ou expromissão de parte, em que a pessoa jurídica de direito público ou privado concordando com o objeto da demanda, migra para o polo ativo, desde que a ação coletiva seja útil ao interesse público, atuando ao lado do demandante popular. Participação do Ministério Público na Ação Popular Nos termos do art. 6º, § 4º, da Lei de ação popular, o Ministério Público acompanhará a ação, cabendo-lhe apressar a produção da prova e promover a responsabilidade, civil ou criminal, dos que nela incidirem, sendo-lhe vedado, em qualquer hipótese, assumir a defesa do ato impugnadoou dos seus autores. Nessa linha, o Ministério Público não está adstrito ao pedido do autor, embora seja uma ação coletiva que tutela o direito ao meio ambiente, atuando como parte autônoma na ação popular. Alguns doutrinadores preferem usar o termo custos legis para atuação do MP, ou mesmo fiscal do ordenamento jurídico. Importante frisar que o papel do Ministério Público se cinge à tutela do meio ambiente em ação popular, não podendo atuar na defesa dos interesses do órgão público ou do réu. Cabe a 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 45/68 ele defender o patrimônio ambiental seja contra os atos ilegais ou abusivos praticados pelo agente púbico, seja contra tentativas infames do cidadão que poderá utilizar-se da ação popular com objetivos políticos, desvirtuando sua pretensão protetiva do meio ambiente. Por outro lado, terá o Ministério Público a função de garantir que as requisições ventiladas pelo cidadão sejam atendidas dentro dos prazos fixados pelo juiz. Assim, a função do MP é um fiscalizador e garantidor da produção das provas devendo acompanhar a ação judicial, fiscalizando a aplicação da lei na defesa do meio ambiente. A falta de intimação do MP pode gerar nulidade absoluta, sendo reconhecida se configurado o prejuízo para a defesa do meio ambiente (pas de nullité sans grief). Nos termos do art. 9º, da Lei de ação popular, se o autor desistir da ação ou der motivo à absolvição da instância, serão publicados editais nos prazos e condições previstos no art. 7º, inciso II, ficando assegurado a qualquer cidadão, bem como ao representante do Ministério Público, dentro do prazo de 90 (noventa) dias da última publicação feita, promover o prosseguimento da ação. Assim, caberá ao Ministério Público atuar no polo ativo da ação civil pública nos casos de sucessão processual, na hipótese de outro cidadão não assumir a titularidade da ação popular. Assim, o Ministério Público pode ser autor da ação popular, mas não de forma originária, melhor dizendo, não poderá propô-la, mas ingressar após a propositura pelo cidadão, em caso de desistência. Além disso, o art. 16, da Lei de Ação Popular, impõe o dever do MP, sob pena de falta grave, atuar como legitimado subsidiário para executar a sentença coletiva, caso o autor da ação não o faça em 60 dias da publicação da sentença condenatória, em consonância com o princípio da indisponibilidade da execução coletiva. Objeto e Cabimento da Ação Popular O objeto da ação popular é a decretação da invalidade de ato praticado por agente público. Nessa linha, são atos passíveis de serem anulados: os decretos regulamentares, as resoluções, as portarias, os contratos, os atos administrativos em geral, bem como quaisquer manifestações que demonstre a vontade da administração e que possam, de alguma forma, causar dano ao patrimônio público, à moralidade administrativa, ao patrimônio histórico e cultural e ao meio ambiente. Assim, a ação popular não pode ser manejada com o objetivo de invalidação de ato jurisdicional, pois não se trata de ação autônoma de impugnação contra ato do juiz, salvo a possibilidade em que houve acordo entre as partes homologado judicialmente. Embora a regra seja a impossibilidade de manejo da ação popular contra ato praticado por particular sem vínculo específico com o poder público, doutrina majoritária entende que é possível seu manejo quando abarcar temas ambientais, bem como o patrimônio histórico, tendo nítido caráter material de ação civil pública, embora, quanto à forma, não seja. A ação popular só tutela os direitos difusos, não sendo instrumento processual adequado para a defesa dos demais direitos, como o coletivo estrito senso e os direitos individuais homogêneos. 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 46/68 Cumpre advertir ainda que a ação popular não é sucedânea da ação direta de inconstitucionalidade, não podendo ser manejada para declaração de inconstitucionalidade de lei que ventile temas de cunho geral e abstrato. Por outro lado, é possível o uso da ação popular para invalidar lei de efeito concreto. O objeto da ação popular pode se configurar por ato comissivo ou mesmo por ato omissivo do Poder Público. Se o ato foi praticado, a ação popular visa desconstituí-lo, atuando de forma repressiva na tentativa de anulá-lo. Se, por outro lado, a não edição do ato tem gerado lesividade e ilegalidade, a ação popular será o instrumento de controle das omissões administrativas. Assim, é pacífico na doutrina que o referido remédio constitucional poderá ser utilizado para impugnar atos administrativos omissivos ou comissivos que possam causar danos, notadamente ao meio ambiente. A ação popular é admitida quando coexistirem os seguintes requisitos quanto ao ato perpetrado: deve ser ilegal e lesivo aos direitos difusos protegidos pela referida via processual. No caso de ação popular ambiental, o STJ tem relativizado o requisito da lesividade, bastando que o cidadão indique a ilegalidade presumindo-se que o ato praticado possa provocar dano ao meio ambiente. Assim, temos a lesividade presumida no Direito Ambiental, tendo em vista que o ato perpetrado contraria, em tese, normas específicas que regem a sua prática ou por se desviar de princípios que norteiam o a proteção ao meio ambiente, sendo dispensável a demonstração de prejuízo material ao bem ambiental. Quanto ao requisito da ilegalidade do ato, basta que o requerente demonstre os supostos vícios na edição do ato por meio de alguma mácula em seus elementos constitutivos, seja quanto à competência, ao objeto e à forma, ou mesmo, ao motivo e à finalidade do ato. Nessa linha, ato ilegal é ato viciado em um de seus elementos constitutivos. O art. 2º, da Lei 4.117/65, ventila alguns desses supostos vícios, apresentando caráter meramente exemplificativo. No conceito de ilegalidade estão abrangidos todos os vícios do ato administrativo. O art. 2º da LAP define quais são os elementos do ato administrativo: competência; objeto; forma; motivo e finalidade. Assim, ato administrativo ilegal é o que viola os elementos do ato administrativo. É possível também o manejo da ação popular visando a tutela preventiva, impedindo a edição de ato administrativo que se configure ilegal ou mesmo lesivo ao patrimônio ambiental. Para isso, é preciso que fique demonstrado na inicial a ilegalidade e a lesividade do ato impugnado, sob pena de indeferimento da inicial. Destaque-se que a ação popular visa não apenas a tutela reparatória dos referidos bens difusos, como também a tutela preventiva, nos mesmos moldes da ACP, mas com objeto mais restritivo, tendo em vista que tutela apenas os direitos difusos. Na esfera ambiental, a ação popular além de atuar na busca da desconstituição do ato administrativo, poderá também ter por objeto, como consequência do pedido principal anulatório, a reparação dos danos supostamente causados ao meio ambiente, tornando-se desnecessária o posterior manejo de uma ação civil pública para responsabilização civil. Isso porque, nos termos do art. 11, da Lei de ação popular, a sentença que, julgando procedente a ação popular, decretar a invalidade do ato impugnado, condenará ao pagamento de perdas e danos os responsáveis pela sua prática e os beneficiários dele, ressalvada a ação regressiva contra os funcionários causadores de dano, quando incorrerem em culpa. Nessa quadra, 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 47/68 perfeitamente possível a busca também da responsabilização civil por danos acarretados ao meio ambiente. Competência em Ação Popular Nos termos do art. 5º, da Lei de Ação Popular, a depender da origem do ato impugnado, é competente para conhecer da ação, processá-la e julgá-la o juiz que, de acordo com a organização judiciária de cada Estado, o for para as causas que interessem à União, ao Distrito Federal, ao Estado ou ao Município. Nesse sentido,independentemente da autoridade que emitiu o ato a ser impugnado, será competente o juízo de primeiro grau, não havendo que se suscitar foro privilegiado em ação popular. Assim, se o ato impugnado for de um governador de Estado, não caberá o processamento no Tribunal de Justiça, mas no juiz de primeiro grau competente para as demandas de interesse do Estado. Se o ato impugnado for emanado de autoridade federal, caberá a justiça federal de primeiro grau o processamento da demanda, nos termos do art. 109, I, da CF/88, cabendo a Justiça Estadual os demais casos, como regra, ressalvada a competência da justiça especializada. Para fixação do foro competente para apreciar a ação popular, aplica-se as regras de competências do Código de Processo Civil, conforme previsão expressa do art. 22, da Lei 4.717/65, naquilo em que não contrariem os dispositivos da referida norma, de forma a dar maior concretude ao direito constitucional do cidadão na defesa dos interesses difusos, devendo ser distribuída no foro mais conveniente a ele, buscando assegurar o cumprimento do preceito constitucional que garante a todo cidadão a defesa de interesses coletivos. Assim, nos termos do art. 51 e 52 do CPC, mais precisamente na regra de seus parágrafos únicos, se a União ou Estado forem demandados em ação popular, esta poderá ser proposta no foro de domicílio do autor, no de ocorrência do ato ou fato que originou a demanda, no de situação da coisa ou mesmo no Distrito Federal ou na Capital do Estado, a depender do demandado. Por outro lado, cumpre advertir que o Superior Tribunal de Justiça, no julgamento do CC 164.362/MG, Rel. Ministro Herman Benjamin, sedimentou a tese de que a definição do foro competente para a apreciação da Ação Popular, máxime em temas como o de direito ambiental, reclama a aplicação, por analogia, da regra pertinente contida no artigo 2º da Lei da Ação Civil Pública, e não das previstas no CPC. Segundo o STJ tal medida se mostra consentânea com os princípios do Direito Ambiental, por assegurar a apuração dos fatos pelo órgão judicante que detém maior proximidade com o local do dano e, portanto, revela melhor capacidade de colher as provas de maneira célere e de examiná-las no contexto de sua produção. O STJ, portanto, entende que as ações populares ambientais não devam ser sempre distribuídas no foro mais conveniente ao cidadão, mas sim naquele em que a defesa do interesse coletivo seja mais bem realizada, que, no caso das ações ambientais, se processa, como previsto na ação civil pública, no foro onde ocorreu ou deva ocorrer o dano ambiental. 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 48/68 Sentença na Ação Popular O art. 7º, VI, prevê que a sentença, quando não prolatada em audiência de instrução e julgamento, deverá ser proferida dentro de 15 (quinze) dias do recebimento dos autos pelo juiz. Esse prazo é impróprio, notadamente para atendimento de demandas de cunho ambiental, em que, muitas das vezes, exige a produção de prova quanto ao suposto dano produzido, fato instrutório que normalmente onera o tempo total do processo, não podendo ser o magistrado punido por não ser o responsável pela decisão fora do referido prazo fatídico de 15 dias. Mas, a norma popular prevê uma sanção administrativa de cunho funcional ao juiz que não atender ao referido prazo, consubstanciada na imposição de não inclusão na lista de merecimento para promoção durante 2 anos, além da perda, para efeito de promoção por antiguidade, de tantos dias quantos forem os do retardamento, salvo motivo justo, declinado nos autos e comprovado perante o órgão disciplinar competente. Quanto à natureza da sentença que juga procedente a ação popular, o art. 11, da Lei 4.717/65, fixa a regra de que a sentença que, julgando procedente a ação popular, decretar a invalidade do ato impugnado, condenará ao pagamento de perdas e danos os responsáveis pela sua prática e os beneficiários dele, ressalvada a ação regressiva contra os funcionários causadores de dano, quando incorrerem em culpa. Assim, a ação popular sempre apresentará natureza desconstitutiva, objetivando a desconstituição do ato produzido, como também condenatória, executiva ou mandamental, nos clássicos termos apresentados pela doutrina. Pelo previsto no normativo, se julgada procedente a ação popular o ente federativo demandado será obrigado a corrigir o ato produzido, devendo também arcar com os danos patrimoniais e extrapatrimoniais causados, havendo possibilidade de ação regressiva contra seus agentes administrativos e favorecidos que se beneficiaram do ato objeto da demanda. O principal pedido a ser ventilado em ação popular é a anulação dos atos lesivos e ilegais aos bens jurídicos tutelados, tratando-se de medida judicial desconstitutiva do ato produzido. A necessidade de reparação do dano é medida intrínseca ao pedido anulatório formulado, fato que, mesmo não ventilado nos pedidos da petição inicial, autorizam o órgão julgador a condenar o requerido na necessidade de reparação dos danos, sem que se configure uma sentença extra petita. Nas ações civis públicas ambientais, esse pedido de reparação deve ser expresso, embora esteja subentendido no pedido formulado, com o objetivo de delinear com maior precisão os danos acarretados e a necessidade de reparação com o fim de que o meio ambiente retorne a uma condição não degradada. Nos termos do art. 18, da Lei da ação popular, a sentença terá eficácia de coisa julgada oponível "erga omnes", exceto no caso de haver sido a ação julgada improcedente por deficiência de prova; neste caso, qualquer cidadão poderá intentar outra ação com idêntico fundamento, valendo-se de nova prova. Aqui, como na ação civil pública, temos o instituto da coisa julgada secundum eventum probationis, não se formando a coisa julgada material se a ação popular for julgada improcedente por insuficiência de provas. 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 49/68 Mandado de Segurança Coletivo - Lei nº 12.016/09 Quanto aos limites da coisa julgada, seja de uma sentença procedente ou improcedente, não há que se aplicar a restrição do art. 16 da Lei de ação civil pública, não se limitando ao território do órgão prolator, aplicando-se a todo o território nacional com efeito erga omnes, ressalvado apenas a hipótese de improcedência por insuficiência de prova, como visto. A remessa necessária, em consonância com o art. 19, da Lei 4.717/65, somente se configura se a sentença concluir pela carência ou pela improcedência da ação, não produzindo efeito senão depois de confirmada pelo tribunal. Como visto nas regras da ação civil pública, em face do microssistema processual, aplica-se as normas do referido normativo às ACPs. A doutrina denomina a previsão do art. 19 de reexame necessário invertido, tendo em vista que, na ação popular, milita a favor da coletividade o interesse. Se a sentença for julgada procedente, caberá apelação com efeito suspensivo, tendo caráter automático, não cabendo ao juiz perquirir sobre a necessidade ou não de aplicação do efeito. Alertamos que na ação civil pública o efeito suspensivo não é automático, devendo o magistrado decidir pelo deferimento se preenchido os requisitos. Prescrição na Ação Popular A Lei 4.717/65 previu expressamente o prazo prescricional para o manejo da ação popular para tutelar os direitos difusos. Nos termos do art. 22, a ação popular prescreve em 5 (cinco) anos, fluindo o prazo a partir da publicidade dos atos lesivos. Embora a norma preveja o prazo prescricional de 5 anos para pleitear a tutela popular, entende doutrina majoritária que a análise deve ser feita de acordo com o objeto pleiteado na referida demanda. Para a tutela constitutiva negativa (anulação do ato) manejada na ação popular o prazo de 5 anos é decadencial. Quanto à tutela condenatória (reparação de danos), o prazo é prescricional. No ponto, cumpre lembrarque o prazo de 5 (cinco) anos para o ajuizamento da ação popular não se aplica às ações coletivas de consumo, como também para a tutela do meio ambiente e do patrimônio público. Doutrina majoritária, como destaca João Lordelo, argumenta que a prescrição que ocorre é da via processual por meio da ação popular, e não do direito de a pretensão ser exercida por outra via. Lembrando que a reparação do patrimônio público e do meio-ambiente são imprescritíveis, independentemente da via a ser utilizada. Logo, prescrita a via da ação popular, é possível que outro legitimado entre com ação civil pública, a qualquer tempo. De início, destacamos que não faremos uma análise completa do mandado de segurança previsto na Lei 12.016/09, como analisado na disciplina de Direito Processual Civil. Tentaremos apresentar as regras gerais e as particularidades do mandado de segurança coletivo em relação ao individual, bem como em relação às demais ações coletivas, tangenciando temas como legitimidade e objeto da ação. 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 50/68 Para assistir ao vídeo correspondente, acesse o LDI. O mandado de segurança no Brasil teve sua origem na CF/34 objetivando controlar atos do Poder Púbico atentatórios a direitos certo e inconteste do impetrante, não abrangendo o direito de locomoção, sendo regulamentado inicialmente pela Lei nº 1.533/1951, e, hodiernamente, pela Lei 12.016/09. Com a edição da CF/88, houve um robustecimento do instituto, ao prevê com mais precisão o objeto do mandado de segurança “direito líquido e certo” e a criação do instituto do mandado de segurança coletivo. Vejamos os normativos constitucionais: Art. 5º (....) LXIX - conceder-se-á mandado de segurança para proteger direito líquido e certo, não amparado por habeas corpus ou habeas data, quando o responsável pela ilegalidade ou abuso de poder for autoridade pública ou agente de pessoa jurídica no exercício de atribuições do Poder Público; LXX - o mandado de segurança coletivo pode ser impetrado por: ���partido político com representação no Congresso Nacional; b) organização sindical, entidade de classe ou associação legalmente constituída e em funcionamento há pelo menos um ano, em defesa dos interesses de seus membros ou associados; A edição da Lei 12.016/09 marcou a consolidação das normas e da jurisprudência existente sobre o mandado de segurança, incorporando entendimentos jurisprudenciais e doutrinários que serviram de base para construção do instrumento normativo, bem como disciplinou em uma única norma, o mandado de segurança individual e o coletivo. Normas comuns do Mandado de Segurança Individual e Coletivo Passaremos a uma análise geral das regras que devem ser aplicadas ao mandado de segurança individual e coletivo, destacando suas principais características. A CF/88, em seu art. 5º, LXIX, previu o instituto do mandado de segurança disciplinado seu objeto, legitimados e características essenciais, vejamos: LXIX - conceder-se-á mandado de segurança para proteger direito líquido e certo, não amparado por habeas corpus ou habeas data, quando o responsável pela ilegalidade ou abuso 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 51/68 de poder for autoridade pública ou agente de pessoa jurídica no exercício de atribuições do Poder Público; O Objeto do mandado de segurança é o direito líquido e certo a ser suscitado no mandamus. Esse direito fica caracterizado quando o fato suscitado na petição inicial é incontroverso, podendo ser comprovado facilmente por intermédio de prova pré-constituída. Não se admite a dilação probatória em mandado de segurança, em tese, devendo o impetrante na petição inicial juntar a documentação necessária, ou outras provas, para legitimar sua pretensão deduzida. Mas, advirto, incontroverso é o fato. Poderá a questão jurídica ser controversa, para que seja solucionada pelo judiciário. Nesse sentido é o enunciado da Súmula 625 do STF que apresenta como verbete: controvérsia sobre matéria de direito não impede a concessão de mandado de segurança. Cumpre alertar que essa prova pré-constituída aduz a necessidade de que o impetrante junte todo o arcabouço probatório que dispõe com a petição inicial, não se admitindo instrução probatória, notadamente quando há necessidade de produção de prova técnica a ser aferida pelo crivo do judiciário, cabendo ao impetrante mover ação ordinária para satisfazer sua pretensão, nesses casos. Quanto ao ponto, cumpre advertir que somente quando os documentos necessários à prova do alegado se achem em repartição ou estabelecimento público ou em poder de autoridade que se recuse a oferecê-lo por certidão, caberá ao juiz determinar a exibição do documento, nos termos do art. 6º, §§1º e 2º, da Lei 12.016/2009, sendo uma hipótese em que não se exige, com a inicial, a juntada do documento por razões lógicas. O direito de locomoção não pode ser objeto do mandado de segurança, tendo em vista que existe remédio constitucional específico para isso, qual seja, o habeas corpus, bem como o direito ao conhecimento de informações relativas à pessoa do impetrante, constantes de registros ou bancos de dados de entidades governamentais ou de caráter público, ou para ratificá-los, pois são amparados pelo habeas data. Assim, é possível concluir que o mandado de segurança tem natureza residual, só podendo ser impetrado se não configurar uma das hipóteses dos demais remédios constitucionais. Quanto aos atos que podem ser impugnados pelo mandado de segurança, doutrina entende que qualquer ato de natureza administrativa, comissivo ou omissivo, praticados por autoridade pública ou por aquele que o represente pode ser impugnado, cabendo também para alguns atos legislativos ou judiciais. Por outro lado, não será guerreado pelo referido remédio constitucional os atos praticados por particulares que não tenham qualquer relação com o Poder Público. Vejamos um quadro desses atos com suas respectivas exceções apresentadas pela jurisprudência e doutrina: Mandado de Segurança Ato Guerreado Regra Geral Casos Particulares 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 52/68 Administrativo É possível impetrar mandado de segurança contra ato administrativo Art. 5º, I, da lei 12.016/2009: Não cabe mandado de segurança contra ato administrativo contra o qual caiba recurso administrativo com efeito suspensivo e sem caução. - Desistindo do recurso, cabe mandado de segurança. Súmula 429: A existência de recurso administrativo com efeito suspensivo não impede o uso do mandado de segurança contra omissão da autoridade. Legislativo Não é possível impetrar mandado de segurança contra ato legislativo. Possibilidade 1: - Em face de lei de efeitos concretos. Ex. leis que fixa multa ambiental específica; lei que extingue um determinado espaço territorial especialmente protegido. Possibilidade 2: Em face de projeto de lei ou emenda constitucional com vício no processo legislativo (privativo do parlamentar). Judicial Não é possível impetrar mandado de segurança contra ato judicial. Impossibilidade: - Art. 5º, incisos II e III, da lei 12.016/2009: Não se concederá mandado de segurança quando se tratar: - de decisão judicial da qual caiba recurso com efeito suspensivo; - de decisão judicial transitada em julgado. - Mandado de segurança não é substitutivo de recurso, ação ou reclamação. 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 53/68 Regras para o Mandado de Segurança Coletivo A Constituição Federal que inaugurou o novel mandado de segurança coletivo não disciplinou com precisão as regras básicas para processamento dessa garantia, limitando a nomear os legitimados, fato que, de certo modo, autoriza a aplicação das regras delimitadas para o mandado de segurança individual. Vejamos: Possibilidade: - CabeMS contra decisão judicial que não admite recurso. - Cabe MS contra decisões teratológicas (fora da lógica jurídica e/ou fática) LXX - o mandado de segurança coletivo pode ser impetrado por: a) partido político com representação no Congresso Nacional; b) organização sindical, entidade de classe ou associação legalmente constituída e em funcionamento há pelo menos um ano, em defesa dos interesses de seus membros ou associados; O objeto do mandado de segurança coletivo foi previsto expressamente pelo art. 21, parágrafo único da Lei 12.016/2009, prevendo apenas seu manejo para tutelar direitos coletivos em sentido estrito e direitos individuais homogêneos, não abarcando os direitos/interesses difusos. Vejamos a norma: Art. 21 (...) Parágrafo único. Os direitos protegidos pelo mandado de segurança coletivo podem ser: I - coletivos, assim entendidos, para efeito desta Lei, os transindividuais, de natureza indivisível, de que seja titular grupo ou categoria de pessoas ligadas entre si ou com a parte contrária por uma relação jurídica básica; II - individuais homogêneos, assim entendidos, para efeito desta Lei, os decorrentes de origem comum e da atividade ou situação específica da totalidade ou de parte dos associados ou membros do impetrante. 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 54/68 A Lei 12.016/2009 é limitativa na tutela dos direitos metaindividuais, pois não previu a possibilidade de manejo do mandamus coletivo em face de atos praticados contra os direitos difusos, neles incluídos o do meio ambiente. Assim, não cabe mandado de segurança coletivo contra direito difuso por força da lei do MS. Mas, a doutrina majoritária, dentro de uma visão ampliativa do instituto garantidor, entende que o mandado de segurança coletivo pode ser impetrado para tutelar qualquer direito metaindividual, inclusive para proteger o meio ambiente contra danos a ele perpetrados. Essa é a melhor posição para concurso. Isso porque deve ser aplicado o microssistema processual coletivo dando interpretação conforme a constituição para que se possa incluir os direitos difusos. Segundo Hermes Zaneti e Leonardo Garcia, A lei 12.016/2009 incorreu em grave equívoco ao fracionar indevidamente parcela dos direitos coletivos lato sensu, negando-lhes a tutela adequada pelo mandado de segurança coletivo. Por outro lado, importante destacar a visão de Celso Fiorillo ao prevê que a via do mandado de segurança coletivo tem diminuta operabilidade quanto à defesa de bens e valores ambientais. Destaca o autor que a exigência de prova pré-constituída da liquidez e certeza do fato que se afirma pode inviabilizar a utilização do mandamus, tendo em vista, na maioria dos casos, a necessidade de produção de prova pericial para demonstração do dano ambiental. Legitimidade Ativa A Constituição Federal previu os legitimados para a propositura do mandado de segurança coletivo no seu art. 5º, LXX, bem como no art. 21, caput, da Lei 12.016/2009, vejamos: Art. 5º (...) LXX - o mandado de segurança coletivo pode ser impetrado por: a) partido político com representação no Congresso Nacional; b) organização sindical, entidade de classe ou associação legalmente constituída e em funcionamento há pelo menos um ano, em defesa dos interesses de seus membros ou associados; Art. 21. O mandado de segurança coletivo pode ser impetrado por partido político com representação no Congresso Nacional, na defesa de seus interesses legítimos relativos a seus integrantes ou à finalidade partidária, ou por organização sindical, entidade de classe ou associação legalmente constituída e em funcionamento há, pelo menos, 1 (um) ano, em defesa de direitos líquidos e certos da totalidade, ou de parte, dos seus membros ou associados, na forma dos seus estatutos e desde que pertinentes às suas finalidades, dispensada, para tanto, autorização especial. 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 55/68 Para que o partido político possa impetrar o writ há necessidade de ter representação no Congresso Nacional, bastando para o preenchimento do requisito, que tenha pelo menos um senador ou um deputado federal com mandato efetivo, considerando que a Constituição federal não fez qualquer limitação quantitativa ou qualitativa. Estando o mandado de segurança em curso, o partido político não perderá essa condição para fins de atuação no processo, devendo ser regularmente julgado pelo Poder Judiciário. Ademais disso, preenchido o requisito, há autorização para que todos as demais instâncias do partido político legitimado manejem o mandado de segurança coletivo. Assim, é perfeitamente possível que um diretório municipal possa interpor o mandamus. Mas o principal tema que divide a doutrina é a análise das possíveis limitações dos partidos políticos quanto ao objeto do mandado de segurança coletivo. Isso porque, por determinação legal do caput do art. 21, da Lei 12.016/2009, há fixação de duas limitações ao exercício do direito constitucionalmente estabelecido no art. 5º, LXX, uma de ordem subjetiva autorizando apenas o manejo do writ na defesa de seus interesses legítimos relativos a seus integrantes, outra de ordem objetiva ao prevê que somente poderá ser interposto quando relacionado às finalidades partidárias. Entende uma parte da doutrina que a limitação imposta pela norma legal é inconstitucional, tendo em vista que a Constituição Federal não previu qualquer limitação, seja de ordem objetiva ou subjetiva, não cabendo a norma infraconstitucional fazê-lo, tendo em vista tratar-se de um direito fundamental que só pode ser limitado por expressa determinação constitucional. Quanto às associações, a Constituição Federal previu duas condições para legitimar a atuação dessas entidades: (1) necessidade de constituição ânua; e (2) defesa de seus membros e associados. O requisito da constituição e funcionamento por um ano não se aplica aos sindicatos e às associações, por exegese do art. 5º, LXX, alínea b. O objetivo da norma é evitar a criação de associações com o desiderato de apenas de manejar o mandumus ou mesmo criar processos temerários, com cunhos dissociados da verdadeira finalidade da garantia constitucional. Cumpre assinalar ainda que a associação deve impetrar o mandado de segurança coletivo apenas na defesa de seus membros e associados, não podendo fazê-lo em defesa de entidades do Poder Público. Isso porque, em face das garantias e prerrogativas de direito público atribuídas a essas pessoas, é incompatível a atuação de uma associação em regime de substituição processual da pessoa de direito privado. Por fim, na petição inicial deve ficar demonstrada pela associação a pertinência temática ou nexo de finalidade. Para a legitimação das entidades de classe e sindicatos, não se exige, por critérios lógicos, a constituição ânua, valendo apenas para as associações. Mas, é exigida a pertinência temática ou o nexo de finalidade para propositura do mandamus coletivo. O Supremo Tribunal Federal já se manifestou no sentido de que o interesse protegido não precisa ser típico da categoria, seja associação, sindicato ou entidade de classe. Basta que esteja compreendido entre nas atividades exercidas pelos associados. 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 56/68 Por fim, importante lembrar o teor da Súmula 630 do STF, que ventila a tese de que a entidade de classe tem legitimação para o mandado de segurança coletivo, ainda que a pretensão veiculada interesse apenas a parte da categoria. Quanto à possibilidade de o Mistério Público propor o mandado de segurança coletivo, a Lei, como visto, não previu tal hipótese, mas o Superior Tribunal de Justiça, no julgamento do AgRg no AREsp 746.846/RJ, estabeleceu que a previsão dos legitimados em norma que tutela interesses coletivos, não exclui a legitimidade do ministério público para propor a demanda coletiva, nãoo direito à igualdade, entendida unicamente quanto ao seu aspecto formal (perante a lei). A segunda geração (dimensão) de direitos compreende os direitos econômicos, sociais e culturais, baseados na igualdade em seu aspecto material. Assim, o princípio da igualdade ganha em substancialidade passando a ser entendido como direito prestacional e pelo reconhecimento de liberdades socias, como o direito à sindicalização. Segundo Ingo Sarlet, a nota distintiva dessa geração de direitos, contrapondo a inércia do Estado quanto aos direitos de primeira geração, é sua dimensão positiva, tendo em vista que não procura evitar o intervencionismo estatal na esfera de liberdade individual, atribuindo ao Estado um comportamento ativo na realização da justiça social. Esses direitos estão atrelados ao conceito de justiça social por se ligarem a reinvindicações de equidade social, notadamente das classes menos favorecidas. A terceira geração de direitos fundamentais refere-se aos direitos de solidariedade e fraternidade, em especial o direito ao desenvolvimento, à paz, à autodeterminação dos povos e à utilização do patrimônio histórico e cultural, tendo esses direitos como características distintivas a titularidade coletiva ou difusa, haja vista se destinarem a proteção de grupos humanos. O direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado é considerado, nessa tríade de gerações de Vasak, direito fundamental de terceira geração (dimensão), tendo em vista sua titularidade difusa, indefinida e indeterminável, de natureza nitidamente transindividual que 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 5/68 exige esforços do Estado para sua efetivação e defesa. Neste sentido, trata-se de um direito de proteção, buscando-se a defesa do meio ambiente por intermédio de normas proibitivas e ao mesmo tempo prestacionais, exigindo comportamento ativo do Estado e da sociedade na sua preservação e defesa (caráter bifronte). Nessa quadratura, não restam dúvidas quanto à natureza difusa do bem jurídico ambiental, considerando tratar-se de um bem de uso comum do povo atraindo o interesse de toda a coletividade. Isso justifica o fato de todos os indivíduos serem diretamente interessados na tutela do meio ambiente, haja vista que esse direito está umbilicalmente ligado ao direito à vida. As Ações Coletivas e o Microssistema Processual Coletivo A tutela jurisdicional dos direitos fundamentais, segundo doutrina tradicional, pode ser dividida em individual e coletiva. A tutela coletiva visa a proteção dos bens de natureza metaindividuais consubstanciado no direito difuso, no direito coletivo stricto sensu e no direito material individual homogêneo. Essa tutela coletiva é aplicada no Brasil por meio de um microssistema coletivo que correspondente a um conjunto de normas que objetiva dar maior concretude a esses direitos, tendo em vista que o sistema de tutela individual não possui institutos jurídicos suficientes para atender aos anseios desses interesses transindividuais que surgiram com a massificação do consumo típico da sociedade de massa. No Brasil, o sistema processual coletivo tem sua formação incipiente com a edição da Lei 4.717/65, conhecida como Lei da Ação Popular-LAP, em que surgem os primeiros instrumentos jurídicos necessários a tutela de direitos difusos contra atos lesivos ao patrimônio público. Diversas regras foram criadas como o regime da coisa julgada e a legitimação para propositura da referida demanda. Com a edição da Lei 6.938/81, Lei da Política Nacional do Meio Ambiente, adveio um reforço para a tutela dos direitos difusos, notadamente do direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, com a legitimidade do Ministério Público para propor ação de responsabilidade civil pelos danos causados ao meio ambiente, nos termos do §1º, do art. 14. Vejamos: Art. 14 - Sem prejuízo das penalidades definidas pela legislação federal, estadual e municipal, o não cumprimento das medidas necessárias à preservação ou correção dos inconvenientes e danos causados pela degradação da qualidade ambiental sujeitará os transgressores: § 1º Sem obstar a aplicação das penalidades previstas neste artigo, é o poluidor obrigado, independentemente da existência de culpa, a indenizar ou reparar os danos causados ao meio ambiente e a terceiros, afetados por sua atividade. O Ministério Público da União e dos Estados terá legitimidade para propor ação de responsabilidade civil e criminal, por danos causados ao meio ambiente. 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 6/68 A edição dessas duas normas representou o início, no Brasil, do processo coletivo refletindo uma proteção ainda fragmentária de alguns direitos como o do meio ambiente e o do patrimônio público. A partir da edição da Lei 7.347/85, intitulada Lei de Ação Civil Pública – LACP, temos uma tutela mais efetiva e integral dos direitos coletivos ganhando corporificação maior com as regras advindas, num intervalo de 5 anos, da promulgação da Constituição Federal, em 1988, e, do Código de Defesa do Consumidor-CDC, em 1990 (Lei 8.078/90). A LACP foi inovadora apresentando institutos jurídicos protetivos próprios como, a título de exemplo, a extensão da legitimidade ativa para a propositura da ação coletiva, bem como ampliou a tutela de novos direitos como a defesa ao meio ambiente, ao consumidor e aos bens e direitos de valor histórico, estético, turístico e paisagístico. Nesse diapasão, a tutela do direito fundamental ao processo coletivo recebeu status constitucional em nossa Carta Política de 1988, ao atribuir como função institucional do Ministério Público a promoção do inquérito civil e da ação civil pública, para a proteção do patrimônio público e social, do meio ambiente e de outros interesses difusos e coletivos, nos termos do art. 120, III, da CF/88. Vejamos: Art. 129. São funções institucionais do Ministério Público: III - promover o inquérito civil e a ação civil pública, para a proteção do patrimônio público e social, do meio ambiente e de outros interesses difusos e coletivos; Ademais disso, a CF/88 trouxe os principais mecanismos de defesa desses direitos ao estabelecer a garantia da inafastabilidade da tutela coletiva, protegendo novos direitos coletivos e criando a legitimação adequada com o reconhecimento de outros legitimados concorrentes para a defesa deles. Criou ainda garantias específicas, como na previsão do mandado de segurança coletivo, do mandado de injunção, e da ampliação do objetivo da tutela da ação popular passando a incluir a defesa do meio ambiente. Em 1990, com a edição do CDC, tivemos o surgimento de normas ainda mais inovadoras para instrumentalização dos processos coletivos, como a delimitação do conceito do que seriam os direitos coletivos lato sensu, provocando reformas inovadoras na LACP como, a título de exemplo, a criação do microssistema de tutela coletiva e do instituto do termo de ajustamento de conduta. Com a edição do CDC tivemos uma maior integração dos sistemas de tutela processual coletiva possibilitando o diálogo das fontes das normas processuais de cunho coletivo, como ocorre com a LACP, LAP, CDC além de outras normas que tutelam os direitos materiais coletivos. 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 7/68 O microssistema processual coletivo, nomenclatura criada pela doutrina processualista, corresponde a um conjunto de normas materiais e processuais que servem de base para tutela do direito coletivo. São várias leis esparsas, mas podemos destacar como as que ventilam regras mais relevantes para o direito ambiental: Lei da Ação Popular (Lei n. 4.717/65); Lei da Política Nacional do Meio Ambiente (Lei n. 6.938/81); Lei da Ação Civil Pública (Lei n. 7.347/85); Constituição Federal (CF/88); Código de Defesa do Consumidor (Lei n. 8.078/90); Lei do Mandado de Segurança (Lei 12.016/09); e Lei do Mandado de Injunçãoapenas para o mandado de segurança coletivo, como também para qualquer outra ação na tutela dos direitos transindividuais. Assim, para o STJ, o Ministério Público está legitimado a defender os interesses transindividuais, quais sejam os difusos, os coletivos e os individuais homogêneos. Isso porque a Carta Política, ao evidenciar a importância dos bens ambientais como tuteláveis judicialmente, coadjuvados por uma série de instrumentos processuais de defesa desses interesses difusos, criou um microssistema de tutela desses interesses, neles encartando-se a ação cautelar inominada, ação popular, a ação civil pública e o mandado de segurança coletivo, como instrumentos concorrentes na defesa desses direitos eclipsados por cláusulas pétreas. Advertimos que a Lei 12.016/2009 não elencou o Ministério Público como legitimado, mas, nos termos do art. 12, I, previu sua participação como custus legis, tendo que opinar sobre o mandamus, seja individual ou coletivo, dentro do prazo improrrogável de 10 (dez) dias, após a manifestação do impetrante. Essa oitiva do MP é obrigatória, mesmo que entenda o parquet pela desnecessidade de manifestação nos autos. Legitimidade Passiva Podem ser sujeitos passivos no mandado de segurança autoridades públicas e equiparados a elas. Isso porque o mandado de segurança destina-se à impugnação de atos estatais no exercício da função administrativa. Agentes de pessoas de direito privado, poderão ser impetradas em mandado de segurança, desde que desempenhem funções de ordem pública ou exerçam atribuições típicas do poder público, não cabendo mandado de segurança para combater atos de gestão que não correspondem à atividade fim da entidade, nos termos do §2º, da Lei 12.016/2009. Isso exclui as empresas públicas e sociedades de economia mista que desempenham exclusivamente atividades econômicas e não atuam na prestação de serviços públicos. Nos termos do § 1º, da Lei 12.016/2009, equiparam-se às autoridades os representantes ou órgãos de partidos políticos e os administradores de entidades autárquicas, bem como os dirigentes de pessoas jurídicas ou as pessoas naturais no exercício de atribuições do poder público, somente no que disser respeito a essas atribuições. Importante assunto para concurso, no que tange a legitimidade passiva, é conhecer a teoria da encampação ventilada na Súmula n. 628 do Superior Tribunal de Justiça, aplicável também ao mandado de segurança coletivo. Vejamos: 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 57/68 Súmula n. 628. A teoria da encampação é aplicada no mandado de segurança quando presentes, cumulativamente, os seguintes requisitos: a) existência de vínculo hierárquico entre a autoridade que prestou informações e a que ordenou a prática do ato impugnado; b) manifestação a respeito do mérito nas informações prestadas; e c) ausência de modificação de competência estabelecida na Constituição Federal. Encampar está no sentido de se apossar ou de assumir algo que originariamente não lhe pertence. A teoria da encampação se configura quando o mandado de segurança é interposto contra autoridade errônea e essa passa a defender o ato impugnado havendo possibilidade de julgamento do writ mesmo pela indicação errada da autoridade impetrada. Mas para isso, conforme ventilado na Súmula 628, são necessários três requisitos: a existência de vínculo hierárquico entre as autoridades; manifestação quanto ao mérito; e não haver modificação de competência fixada na Constituição Federal. Procedimento no Mandado de Segurança Coletivo A Lei 12.016/2009 e a CF/88 não previram, especificamente, o procedimento do mandado de segurança coletivo, cabendo a aplicação daquele previsto para o mandado de segurança individual na referida norma. Nesse sentido, devem ser adotado todas as regras do mandado de segurança individual, notadamente aquelas previstas para o modo de impetração (art.4º); requisitos da petição inicial (art.6º); encaminhamentos do juízo (art. 7º); e demais regras procedimentais previstas na Lei 12.016/2009. Por outro lado, há uma regra específica do mandado de segurança coletivo. O art. 22, §2º, estatuiu que é dever do órgão julgador ouvir o representante judicial da pessoa jurídica de direito público, no prazo de 72 horas, nos casos em que o juiz for decidir sobre pedido liminar. É claro que a depender do caso concreto, a necessidade dessa oitiva poderá tornar o writ coletivo ineficaz, não tutelando adequadamente o direito vindicado, razão pela qual poderá o órgão julgador decidir quanto a liminar, postergando a manifestação do órgão de representação da pessoa jurídica de direito público sem que isso gere nulidade no procedimento. Coisa julgada no Mandado de Segurança Coletivo Nos termos do art. 22, da Lei 12.016/2009, no mandado de segurança coletivo, a sentença fará coisa julgada limitadamente aos membros do grupo ou categoria substituídos pelo impetrante. A norma limita a decisão proferida as partes que estão sendo substituídas, gerando efeitos apenas ultra partes. A regra visa tornar o mandado de segurança coletivo um instrumento processual de defesa dos direitos coletivos estrito senso e individuais homogêneos, não abarcando os direitos difusos cuja sentença tem eficácia erga omnes. 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 58/68 Mandado de Injunção Coletivo - Lei nº 13.300/2016 Mas como já ventilado nesta obra, há corrente majoritária na doutrina que entende tratar-se de norma inconstitucional, tendo em vista que o mandado de segurança coletivo, dentro do microssistema processual de massa, é garantia constitucional idônea para defesa dos direitos difusos, dentre eles a tutela do meio ambiente ecologicamente equilibrado, tendo a coisa julgada efeitos erga omnes. O regime jurídico da coisa julgada no mandado de segurança coletivo segue as regras previstas para as demais ações coletivas, por falta de regulamentação na Lei 12.016/2009. Assim, será, como regra, secundum eventum probationis, sem qualquer limitação quanto ao novo meio de prova que pode fundar a repropositura da demanda coletiva, com extensão subjetiva secundum eventum litis, sem prejuízo das pretensões dos titulares de direitos individuais. Para que o indivíduo possa ser beneficiário da decisão proferida no mandado de segurança coletivo, transportando in utilibus a eficácia da coisa julgada, deverá desistir da ação individual (e não apenas suspender o processo como ocorre nas demais ações coletivas). Encampar está no sentido de se apossar ou de assumir algo que originariamente não lhe pertence. A teoria da encampação se configura quando o mandado de segurança é interposto contra autoridade errônea e essa passa a defender o ato impugnado havendo possibilidade de julgamento do writ mesmo pela indicação errada da autoridade impetrada. Mas para isso, conforme ventilado na Súmula 628, são necessários três requisitos: a existência de vínculo hierárquico entre as autoridades; manifestação quanto ao mérito; e não haver modificação de competência fixada na Constituição Federal. Para assistir ao vídeo correspondente, acesse o LDI. A Constituição Federal previu a possibilidade de impetração de Mandado de Injunção em seu art. 5º, LXXI, fixando a possibilidade de conceder mandado de injunção sempre que a falta de norma regulamentadora torne inviável o exercício dos direitos e liberdades constitucionais e das prerrogativas inerentes à nacionalidade, à soberania e à cidadania. O objetivo central do mandado de injunção é dar maior efetividade as normas constitucionais de eficácia limitada que não conseguem produção de efeitos imediatos com a promulgação da CF/88 ou mesmo com edição das Emendas Constitucionais. Assim, são requisitos indispensáveis para propositura do referido remédio constitucional a existência de norma constitucional de eficácia limitada e a inexistência de norma reguladora, tornando inviável o exercíciodos direitos e liberdades constitucionais inerentes à nacionalidade, à soberania e à cidadania. Diferentemente da ação direta de inconstitucionalidade por omissão, que atua no controle concentrado, em caráter objetivo, buscando tornar efetiva norma constitucional destituída de efetividade, o mandado de injunção é meio processual de controle concreto ou incidental de constitucionalidade da omissão, tendo caráter subjetivo sendo a pretensão deduzida em juízo para atender ao interesse de partes determinadas. 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 59/68 O mandado de injunção foi regulamentado pela Lei 13.300/2016 que disciplinou o processo e o julgamento da ação individual e coletiva nos termos do art.5º, LXXI, da Constituição Federal de 1988, podendo ser impetrados seja em face de omissão total ou parcial da norma regulamentadora, nos termos do art. 2º, da referida norma. Vejamos o normativo: Art. 2º Conceder-se-á mandado de injunção sempre que a falta total ou parcial de norma regulamentadora torne inviável o exercício dos direitos e liberdades constitucionais e das prerrogativas inerentes à nacionalidade, à soberania e à cidadania. Parágrafo único. Considera-se parcial a regulamentação quando forem insuficientes as normas editadas pelo órgão legislador competente. Legitimidade Ativa A legitimidade ativa no mandado de injunção individual foi entabulada no art. 3º, da Lei 13.300/2016, que previu como impetrantes, as pessoas naturais ou jurídicas que se afirmam titulares dos direitos, das liberdades ou das prerrogativas inerentes à nacionalidade, à soberania e à cidadania. Assim, será legitimado ativo para impetrar o mandado de injunção individual qualquer pessoa cujo direito subjetivo não pode ser exercido por falta da norma regulamentadora. A lei do mandado de injunção previu um rol mais ampliativo de legitimados ativos, em seu art. 12, para propositura do mandado de injunção coletivo, vejamos os legitimados: Art. 12. O mandado de injunção coletivo pode ser promovido: I - pelo Ministério Público, quando a tutela requerida for especialmente relevante para a defesa da ordem jurídica, do regime democrático ou dos interesses sociais ou individuais indisponíveis; II - por partido político com representação no Congresso Nacional, para assegurar o exercício de direitos, liberdades e prerrogativas de seus integrantes ou relacionados com a finalidade partidária; III - por organização sindical, entidade de classe ou associação legalmente constituída e em funcionamento há pelo menos 1 (um) ano, para assegurar o exercício de direitos, liberdades e prerrogativas em favor da totalidade ou de parte de seus membros ou associados, na forma de seus estatutos e desde que pertinentes a suas finalidades, dispensada, para tanto, autorização especial; IV - pela Defensoria Pública, quando a tutela requerida for especialmente relevante para a promoção dos direitos humanos e a defesa dos direitos individuais e coletivos dos necessitados, na forma do inciso LXXIV do art. 5º da Constituição Federal. 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 60/68 Parágrafo único. Os direitos, as liberdades e as prerrogativas protegidos por mandado de injunção coletivo são os pertencentes, indistintamente, a uma coletividade indeterminada de pessoas ou determinada por grupo, classe ou categoria. Perceba que o rol incluiu os legitimados do mandado de segurança coletivo, acrescentando o Ministério Público e a Defensoria Pública como legitimados para defesa de interesses de natureza coletiva. Assim, teremos como impetrantes: Legitimidade Passiva Será legitimado passivo, figurando como impetrado, o ente estatal responsável pela edição da norma que, pela sua inércia, impede o exercício dos direitos e prerrogativas assegurados pela CF/88, notadamente aqueles inerentes à nacionalidade, à soberania e à cidadania. Assim, a título de exemplo, poderia a Defensoria Pública interpor mandado de injunção coletivo se o ente estatal competente não editasse norma regulamentar expressamente previsto na CF/88, exigindo do empreendedor, para instalação de obra ou atividade potencialmente Impetrantes Característica Ministério Público Quando a tutela requerida for especialmente relevante para a defesa da ordem jurídica, do regime democrático ou dos interesses sociais ou individuais indisponíveis. Partido político Com representação no Congresso Nacional, para assegurar o exercício de direitos, liberdades e prerrogativas de seus integrantes ou relacionados com a finalidade partidária. Organização sindical e entidade de classe Para assegurar o exercício de direitos, liberdades e prerrogativas em favor da totalidade ou de parte de seus membros ou associados, na forma de seus estatutos e desde que pertinentes a suas finalidades, dispensada, para tanto, autorização especial. Associação Legalmente constituída e em funcionamento há pelo menos 1 ano, para assegurar o exercício de direitos, liberdades e prerrogativas em favor da totalidade ou de parte de seus membros ou associados, na forma de seus estatutos e desde que pertinentes a suas finalidades, dispensada, para tanto, autorização especial. Defensoria Pública Quando a tutela requerida for especialmente relevante para a promoção dos direitos humanos e a defesa dos direitos individuais e coletivos dos necessitados, na forma do inciso LXXIV do art. 5º da CF/88. 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 61/68 causadora de significativa degradação do meio ambiente, estudo prévio de impacto ambiental, nos termos do art. 225, §1º, IV, da CF/88. Cumpre destacar que o ato normativo pode ser lei, decreto ou mesmo ato administrativo normativo que dificulte o exercício dos direitos e prerrogativas fundamentais assegurados pela CF/88. Objeto do Mandado de Injunção A norma parâmetro para fins de controle pelo mandado de injunção deve ser sempre uma norma constitucional de eficácia limitada que, em certa medida, por falta de regulamentação específica, impede ou mesmo impõe obstáculo ao exercício do direito garantido pela CF/88. Para a doutrina, poderá servir como parâmetro toda norma constitucional cuja falta de regulamentação viole direitos fundamentais indistintamente, desde que veiculados em normas de eficácia limitada. Nessa linha, Celso Fiorillo adverte que deve ser dada interpretação ampliativa ao art. 5º, LXXI, da CF/88 para abarcar outros direitos fundamentais que não estejam diretamente relacionados com a nacionalidade, soberania e cidadania, tendo em vista que as prerrogativas previstas no normativo referem-se diretamente aos princípios fundamentais da República Federativa do Brasil, encartados no art. 1º, da CF/88. Nessa linha, todo e qualquer direito constitucional, seja ele difuso, coletivo ou individual homogêneo poderá ser objeto a ser protegido pelo writ. Assim, existindo norma constitucional de direito ambiental de eficácia limitada não regulamentada, poderá ser impetrado o mandado de injunção coletivo objetivando o exercício do direito constitucional ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. Conforme destaca o autor: O direito ao meio ambiente está irremediavelmente ligado ao direito à vida e, mais ainda, a uma vida com saúde e qualidade que proporcione bem-estar aos habitantes. E, para que esse preceito seja verificado, não há como desvinculá-lo da satisfação dos direitos sociais encartados no art. 6º, da Constituição Federal, os quais estabelecem o piso vital mínimo. Com isso, toda vez que se objetivar suprir a ausência de norma que torne inviável o exercício do direito a uma vida saudável, o mandado de injunção terá por objeto um bem de natureza difusa. Competência no Mandado de Injunção As regras de competência para impetração do mandado de injunção, seja individual ou coletivo, foram previstas na CF/88, notadamente dos arts. 102, 105, 121 e125, podendo ser previstas também na Constituição Estadual ou em legislação federal. 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 62/68 Em face do objetivo desta obra, segue abaixo um quadro esquemático com as principais competências para processamento e julgamento do mandado de injunção: Efeitos da Sentença no Mandado de Injunção Talvez um dos temas mais polêmico seja a eficácia da decisão proferida em mandado de injunção individual ou coletivo. Quatro são as correntes doutrinarias que tentam explicar os efeitos da decisão proferida. Para fins didáticos, segue esquema abaixo para melhor elucidação do tema: Órgão Competente Impetrado (responsável pela elaboração da norma) STF (art. 102, I, q) • Presidente da República • Congresso Nacional • Câmara dos Deputados • Senado Federal • Mesas da Câmara ou do Senado • Tribunal de Contas da União • Tribunais Superiores • Supremo Tribunal Federal. STJ (art. 105, I, h) Órgão, entidade ou autoridade federal, excetuados os casos de competência do STF e dos órgãos da Justiça Militar, da Justiça Eleitoral, da Justiça do Trabalho e da Justiça Federal. Juízes e Tribunais da Justiça Militar, Justiça Eleitoral, Justiça do Trabalho Órgão, entidade ou autoridade federal nos assuntos de sua competência. Juízes Federais e TRFs Órgão, entidade ou autoridade federal, caso não seja competência dos Tribunais Superiores ou das Justiças Especializadas. Juízes estaduais e TJs Órgão, entidade ou autoridade estadual, conforme disciplinado nas Constituições Estaduais. Correntes Características 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 63/68 A Lei 13.300/2016 regulamentou os efeitos da decisão no art. 8º, vejamos: Corrente não concretista - O efeito da decisão se limita a dar ciência ao ente que não editou a norma regulamentadora. - Tese ventilada no MI-107-DF/STF. - Crítica: o mandado de injunção não teria qualquer eficácia. Corrente concretista geral - A decisão concretiza a norma constitucional e supre a omissão. - Tem efeito erga omnes. - Tese ventilada nos MIs 670 e 708 – STF (lei de greve). - Crítica: o judiciário atua como legislador positivo. Corrente concretista individual - A decisão concretiza a norma constitucional e supre a omissão. - Tem efeito inter partes. - Tese ventilada nos MI 721 – STF. - Crítica: o judiciário atua como legislador positivo. Corrente concretista intermediária - A decisão concretizará a norma constitucional e supre a omissão se o órgão não editar a norma em prazo razoável. - Tem efeito inter partes (individual) ou erga omnes (geral) a depender do caso concreto. - Tese ventilada nos MI 232 – STF. - Crítica: o judiciário atua como legislador positivo. Art. 8º Reconhecido o estado de mora legislativa, será deferida a injunção para: I - determinar prazo razoável para que o impetrado promova a edição da norma regulamentadora; II - estabelecer as condições em que se dará o exercício dos direitos, das liberdades ou das prerrogativas reclamados ou, se for o caso, as condições em que poderá o interessado promover ação própria visando a exercê-los, caso não seja suprida a mora legislativa no prazo determinado. 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 64/68 Denota-se que a lei do mandado de injunção adotou a corrente concretista intermediária ao prevê inicialmente a possibilidade de que o órgão julgador determine prazo razoável para que o impetrado promova a edição da norma regulamentadora, e, somente em caso de não cumprimento do prazo, poderá o órgão julgador fixar as condições em que poderá ser exercido o direito vindicado. Essa corrente concretista intermediária, no que tange ao aspecto subjetivo, adota como regra a vertente individual, ao prevê no art. 9º, da Lei 13.300/2016, que a decisão terá eficácia subjetiva limitada às partes e produzirá efeitos até o advento da norma regulamentadora. Mas admite a possibilidade de se adotar a corrente concretista intermediária geral, em seu § 1º, possibilitando ser conferida eficácia ultra partes ou erga omnes à decisão, quando isso for inerente ou indispensável ao exercício do direito, da liberdade ou da prerrogativa objeto da impetração. Nessa linha, podemos concluir que a Lei 13.300/2016 adotou a teoria concretista intermediária individual como regra, podendo ser aplicada, nos termos do §1º, do art. 9º, a teoria concretista intermediária geral. Coisa Julgada e Litispendência no Mandado de Injunção Coletivo Nos termos do art. 13, da Lei 13.300/2016, no mandado de injunção coletivo, a sentença fará coisa julgada limitadamente às pessoas integrantes da coletividade, do grupo, da classe ou da categoria substituídos pelo impetrante, sem prejuízo do disposto nos §§ 1º e 2º do art. 9º. Os efeitos da coisa julgada só não beneficiarão o impetrante que não requereu a desistência da demanda individual no prazo de 30 (trinta) dias a contar da ciência comprovada da impetração coletiva. Assim, tendo um indivíduo impetrado o mandado de injunção, sendo posteriormente movido, por um dos legitimados, a ação coletiva com o mesmo objeto, terá o indivíduo o prazo de 30 dias para manifestar sua desistência após a regular ciência da impetração, conforme a mesma regra já comentada para o mandado de segurança coletivo. Cumpre destacar que a superveniência da norma regulamentadora antes da decisão judicial terminativa, nos termos do parágrafo único do art. 11, da Lei 13.300/2016, prejudicará a ação impetrada, caso em que o processo será extinto sem resolução de mérito. Por outro lado, caso a decisão seja anterior a norma regulamentadora, previu o art. 11 que a norma regulamentadora superveniente produzirá efeitos ex nunc em relação aos beneficiados por decisão transitada em julgado, salvo se a aplicação da norma editada lhes for mais favorável. Nessa linha, a nova lei será aplicada a partir de sua vigência, não retroagindo, salvo se for mais favorável, caso em que se aplicará aos fatos pretéritos. Ação revisional em Mandado de Injunção Coletivo A Lei 13.300/2016 admite a possibilidade de impetração de ação revisional de mandado de injunção toda vez que sobrevierem relevantes modificações das circunstâncias de fato ou de direito. Nessa linha, poderá um dos legitimados propor a ação revisional objetivando aumentar o campo de abrangência da decisão anterior, integrando-a. Vejamos o normativo do art. 10: 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 65/68 Art. 10. Sem prejuízo dos efeitos já produzidos, a decisão poderá ser revista, a pedido de qualquer interessado, quando sobrevierem relevantes modificações das circunstâncias de fato ou de direito. Parágrafo único. A ação de revisão observará, no que couber, o procedimento estabelecido nesta Lei. Cumpre advertir que a ação revisional não tem natureza rescisória, tendo em vista que seu desiderato não é desconstituir a coisa julgada proferida na decisão de mérito no mandado de injunção coletivo, mas reavaliar a sua eficácia em face da modificação das circunstâncias de fato e de direito. Mandado de Injunção e Ação Direita de Inconstitucionalidade por Omissão A Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão -ADIPO, inaugurada pela CF/88, em seu art. 103, §2º, visa afastar a síndrome da ineficiência das normas constitucionais, assim como o faz o mandado de injunção. Mas, frise-se, há sensíveis diferenças entre os dois mecanismos de controle quanto à inércia regulamentar. O objetivo principal da ADIPO é dar maior concretude a norma constitucional tornando-a mais efetiva para que o titular do direito possa exercê-lo em sua plenitude. É também uma espécie de ação constitucional que só pode ser utilizada no controle abstrato em que se busca a declaração de inconstitucionalidade de lei ou de ato normativo em tese, sem qualquer relação com um casoconcreto, sendo o objeto principal da ação a declaração de inconstitucionalidade. É o chamado processo constitucional objetivo. No mandado de injunção, seja ele individual ou coletivo, temos um processo subjetivo em que existem partes diretamente interessadas visando a edição de norma regulamentadora para o exercício dos direitos e prerrogativas previstas na CF/88. Temos também grandes diferenças em relação aos legitimados, considerando que o mandado de injunção individual pode ser proposto por qualquer pessoa, física ou jurídica, e o mandado de injunção coletivo tem como legitimados o MP, DP, Entidades de Classes/Associações/Sindicatos e Partidos Políticos. No caso da ADIPO, temos como legitimados as pessoas enumeradas no art. 103 da CF/88. Segue abaixo esquema apresentado pelo professor João Lordelo que auxilia no melhor entendimento das diferenças entre o MI e a ADIPO. Vejamos: Tema ADIPO Mandado de Injunção Quanto à finalidade Controle Abstrato Controle Concreto 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 66/68 Quanto à pretensão Processo constitucional objetivo Processo constitucional subjetivo Quanto à competência É do STF, havendo controle concentrado. Não é qualquer órgão do judiciário que pode julgar o MI. Parâmetro Segundo José Afonso da Silva, apenas normas constitucionais de eficácia limitada (ou não autoaplicáveis). Segundo a maioria da doutrina, somente normas que consagram direitos fundamentais podem ser parâmetro em mandado de injunção. Legitimidade ativa A legitimidade ativa é aquela prevista no art. 103 da CF: I - o Presidente da República; II - a Mesa do Senado Federal; III - a Mesa da Câmara dos Deputados; IV - a Mesa de Assembléia Legislativa ou da Câmara Legislativa do Distrito Federal; [pertinência temática] V - o Governador de Estado ou do Distrito Federal; [pt] VI - o Procurador-Geral da República; VII - o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil; VIII - partido político com representação no Congresso Nacional; IX - confederação sindical ou entidade de classe de âmbito nacional. [pt] Qualquer pessoa física ou jurídica pode ajuizar mandado de injunção (art. 5º, inc. LXXI). Há, ainda, o mandado de injunção coletivo, com legitimados específicos: I - pelo Ministério Público; II - por partido político com representação no Congresso Nacional; III - por organização sindical, entidade de classe ou associação legalmente constituída e em funcionamento há pelo menos 1 (um) ano; IV - pela Defensoria Pública. Legitimidade passiva Recai no órgão ou entidade encarregados da elaboração da norma regulamentadora. Decisão de mérito Segundo previsão do art. 103, §2º, CF, o efeito da ADIO é apenas o de dar ciência ao Poder competente para adoção das medidas necessárias e, em se tratando de Os efeitos dependem da corrente adotada: a) Não concretista 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 67/68 Lista de Questões Referências e links deste capítulo 1 2 3 4 https://cj.estrategia.com/cadernos-e-simulados/cadernos/55960904-85b8-44c8-80b5- 1�748aa7298/ https://cj.estrategia.com/cadernos-e-simulados/cadernos/9111add4-cf5e-49f8-bb6a-71b445bd3121 https://cj.estrategia.com/cadernos-e-simulados/cadernos/38f5069e-�ec-4d00-b218- 6f8771bfe3c3/ https://cj.estrategia.com/cadernos-e-simulados/cadernos/d6c14f9a-c953-415a-8e57- d45c9926cc94/ autoridade administrativa, para fazê-lo em 30 dias (caráter mandamental). Na ADI 3682, o STF fixou um prazo de 18 meses para que a omissão fosse suprida. Esse prazo, todavia, consistiu em mero “parâmetro temporal razoável”, não se fixando qualquer sanção pela inércia (não é peremptório). b) Concretista b.1 Concretista geral b.2 Concretista individual b.3 Concretista intermediária (individual ou coletiva) [1] [2] [3] [4] 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 68/68 https://cj.estrategia.com/cadernos-e-simulados/cadernos/55960904-85b8-44c8-80b5-1ff748aa7298/ https://cj.estrategia.com/cadernos-e-simulados/cadernos/55960904-85b8-44c8-80b5-1ff748aa7298/ https://cj.estrategia.com/cadernos-e-simulados/cadernos/55960904-85b8-44c8-80b5-1ff748aa7298/ https://cj.estrategia.com/cadernos-e-simulados/cadernos/55960904-85b8-44c8-80b5-1ff748aa7298/ https://cj.estrategia.com/cadernos-e-simulados/cadernos/55960904-85b8-44c8-80b5-1ff748aa7298/ https://cj.estrategia.com/cadernos-e-simulados/cadernos/55960904-85b8-44c8-80b5-1ff748aa7298/ https://cj.estrategia.com/cadernos-e-simulados/cadernos/55960904-85b8-44c8-80b5-1ff748aa7298/ https://cj.estrategia.com/cadernos-e-simulados/cadernos/55960904-85b8-44c8-80b5-1ff748aa7298/ https://cj.estrategia.com/cadernos-e-simulados/cadernos/55960904-85b8-44c8-80b5-1ff748aa7298/ https://cj.estrategia.com/cadernos-e-simulados/cadernos/55960904-85b8-44c8-80b5-1ff748aa7298/ https://cj.estrategia.com/cadernos-e-simulados/cadernos/55960904-85b8-44c8-80b5-1ff748aa7298/ https://cj.estrategia.com/cadernos-e-simulados/cadernos/9111add4-cf5e-49f8-bb6a-71b445bd3121 https://cj.estrategia.com/cadernos-e-simulados/cadernos/9111add4-cf5e-49f8-bb6a-71b445bd3121 https://cj.estrategia.com/cadernos-e-simulados/cadernos/9111add4-cf5e-49f8-bb6a-71b445bd3121 https://cj.estrategia.com/cadernos-e-simulados/cadernos/9111add4-cf5e-49f8-bb6a-71b445bd3121 https://cj.estrategia.com/cadernos-e-simulados/cadernos/9111add4-cf5e-49f8-bb6a-71b445bd3121 https://cj.estrategia.com/cadernos-e-simulados/cadernos/9111add4-cf5e-49f8-bb6a-71b445bd3121 https://cj.estrategia.com/cadernos-e-simulados/cadernos/9111add4-cf5e-49f8-bb6a-71b445bd3121 https://cj.estrategia.com/cadernos-e-simulados/cadernos/9111add4-cf5e-49f8-bb6a-71b445bd3121 https://cj.estrategia.com/cadernos-e-simulados/cadernos/9111add4-cf5e-49f8-bb6a-71b445bd3121 https://cj.estrategia.com/cadernos-e-simulados/cadernos/9111add4-cf5e-49f8-bb6a-71b445bd3121 https://cj.estrategia.com/cadernos-e-simulados/cadernos/9111add4-cf5e-49f8-bb6a-71b445bd3121 https://cj.estrategia.com/cadernos-e-simulados/cadernos/38f5069e-ffec-4d00-b218-6f8771bfe3c3/ https://cj.estrategia.com/cadernos-e-simulados/cadernos/38f5069e-ffec-4d00-b218-6f8771bfe3c3/ https://cj.estrategia.com/cadernos-e-simulados/cadernos/38f5069e-ffec-4d00-b218-6f8771bfe3c3/ https://cj.estrategia.com/cadernos-e-simulados/cadernos/38f5069e-ffec-4d00-b218-6f8771bfe3c3/ https://cj.estrategia.com/cadernos-e-simulados/cadernos/38f5069e-ffec-4d00-b218-6f8771bfe3c3/ https://cj.estrategia.com/cadernos-e-simulados/cadernos/38f5069e-ffec-4d00-b218-6f8771bfe3c3/ https://cj.estrategia.com/cadernos-e-simulados/cadernos/38f5069e-ffec-4d00-b218-6f8771bfe3c3/ https://cj.estrategia.com/cadernos-e-simulados/cadernos/38f5069e-ffec-4d00-b218-6f8771bfe3c3/ https://cj.estrategia.com/cadernos-e-simulados/cadernos/38f5069e-ffec-4d00-b218-6f8771bfe3c3/ https://cj.estrategia.com/cadernos-e-simulados/cadernos/38f5069e-ffec-4d00-b218-6f8771bfe3c3/ https://cj.estrategia.com/cadernos-e-simulados/cadernos/38f5069e-ffec-4d00-b218-6f8771bfe3c3/ https://cj.estrategia.com/cadernos-e-simulados/cadernos/d6c14f9a-c953-415a-8e57-d45c9926cc94/ https://cj.estrategia.com/cadernos-e-simulados/cadernos/d6c14f9a-c953-415a-8e57-d45c9926cc94/ https://cj.estrategia.com/cadernos-e-simulados/cadernos/d6c14f9a-c953-415a-8e57-d45c9926cc94/ https://cj.estrategia.com/cadernos-e-simulados/cadernos/d6c14f9a-c953-415a-8e57-d45c9926cc94/ https://cj.estrategia.com/cadernos-e-simulados/cadernos/d6c14f9a-c953-415a-8e57-d45c9926cc94/ https://cj.estrategia.com/cadernos-e-simulados/cadernos/d6c14f9a-c953-415a-8e57-d45c9926cc94/ https://cj.estrategia.com/cadernos-e-simulados/cadernos/d6c14f9a-c953-415a-8e57-d45c9926cc94/ https://cj.estrategia.com/cadernos-e-simulados/cadernos/d6c14f9a-c953-415a-8e57-d45c9926cc94/ https://cj.estrategia.com/cadernos-e-simulados/cadernos/d6c14f9a-c953-415a-8e57-d45c9926cc94/ https://cj.estrategia.com/cadernos-e-simulados/cadernos/d6c14f9a-c953-415a-8e57-d45c9926cc94/https://cj.estrategia.com/cadernos-e-simulados/cadernos/d6c14f9a-c953-415a-8e57-d45c9926cc94/ https://cj.estrategia.com/cadernos-e-simulados/cadernos/d6c14f9a-c953-415a-8e57-d45c9926cc94/(Lei 13.300/16). A aplicação do microssistema processual coletivo segue regras próprias, tendo em vista a inexistência de codificação específica quanto ao processo coletivo como visto. Segundo Daniel Assumpção, deve-se definir, inicialmente, dentro do que convencionou chamar de núcleo duro, as normas que serão aplicadas; posteriormente, cabe ao intérprete, fora do núcleo duro, verificar como as normas de outras leis que compõem o microssistema devem ser aplicadas; e por fim, como as regras do Código de Processo Civil se amoldarão as demais normas do processo coletivo. O núcleo duro do microssistema coletivo é formado basicamente pela Lei de Ação Civil Pública e pelo Código de Defesa do Consumidor, havendo um diálogo dessas fontes de forma a suprir as lacunas porventura existentes na defesa dos direitos coletivos. Isso se tornou mais evidente, como visto, pela previsão normativa do art. 90 do CDC e do art. 21, da LACP. Vejamos os normativos: CDC Art. 90. Aplicam-se às ações previstas neste título as normas do Código de Processo Civil e da Lei n° 7.347, de 24 de julho de 1985, inclusive no que respeita ao inquérito civil, naquilo que não contrariar suas disposições. LACP Art. 21. Aplicam-se à defesa dos direitos e interesses difusos, coletivos e individuais, no que for cabível, os dispositivos do Título III da lei que instituiu o Código de Defesa do Consumidor. (Incluído Lei nº 8.078, de 1990) Mas a aplicação desse núcleo duro não é tão simplória quanto parece, notadamente quando há divergências entre suas normas. Fredie Didier e Hermes Zaneti entendem que deve prevalecer a LACP em detrimento das normas fixadas no CDC, por força do art. 21, da LACP, que autoriza a aplicação das regras do CDC somente no que for cabível, deixando transparecer a prevalência das normas ventiladas na LACP. As regras do CDC, principalmente aquelas previstas no Título III, deveriam estar elencadas especificamente na LACP que trata efetivamente de direitos coletivos de um modo geral. Caso a divergência ocorra entre as normas do núcleo duro e as demais existentes no processo coletivo, entende o Superior Tribunal de Justiça-STJ que se deve aplicar, em primeiro 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 8/68 momento, as leis especiais, somente recorrendo ao núcleo se inexistir norma específica quanto ao tema na lei de regência. Nesse sentido, temos o entendimento proferido no julgado do RMS 34.270/MG, de relatoria do então Ministro Teori Zavascki que tem como ementa: RECURSO ORDINÁRIO. MANDADO DE SEGURANÇA COLETIVO. ASSOCIAÇÃO DE MUNICÍPIOS. ILEGITIMIDADE ATIVA PARA, EM NOME PRÓPRIO, TUTELAR DIREITOS E INTERESSES DE PESSOAS JURÍDICAS DE DIREITO PÚBLICO. 1. A legitimação conferida a entidades associativas em geral para tutelar, em juízo, em nome próprio, direitos de seus associados (CF, art. 5º, XXI), inclusive por mandado de segurança coletivo (CF, art.5º, LXX, b e Lei 10.016/09, art. 21), não se aplica quando os substituídos processuais são pessoas jurídicas de direito público. A tutela em juízo dos direitos e interesses das pessoas de direito público tem regime próprio, revestido de garantias e privilégios de direito material e de direito processual, insuscetível de renúncia ou de delegação a pessoa de direito privado, sob forma de substituição processual. 2. A incompatibilidade do regime de substituição processual de pessoa de direito público por entidade privada se mostra particularmente evidente no atual regime do mandado de segurança coletivo, previsto nos artigos 21 e 22 da Lei 12.016/90, que prevê um sistema automático de vinculação tácita dos substituídos processuais ao processo coletivo, podendo sujeitá-los inclusive aos efeitos de coisa julgada material em caso de denegação da ordem. 3. No caso, a Associação impetrante não tem - nem poderia ter - entre os seus objetivos institucionais a tutela judicial dos interesses e direitos dos Municípios associados. (RMS 34.270/MG, Rel. Ministro TEORI ALBINO ZAVASCKI, PRIMEIRA TURMA, julgado em 25/10/2011, DJe 28/10/2011) Assim, o STJ interpreta o art. 22, caput, da Lei 12.016/2009-LMS, como norma especial em relação a norma prevista no §1º, do art. 103, do CDC. Isso porque o art. 22 da LMS diz que a coisa julgada se estenderá a todos que compõem aquele grupo, sem apresentar a regra de exceção prevista no CDC, que ventila a hipótese de que se a coisa julgada material for prejudicial esta não deve ser aplicada aos associados, só vinculando os demais quando for em benefício de todos (secundum eventum litis in utilibus). Quanto à possibilidade de aplicação das regras do Novo Código de Processo Civil-CPC, destaca Hermes Zaneti e Leonardo Garcia que o CPC não deve ser mais pensado como diploma normativo voltado a tutela exclusiva de direitos individuais, como consagrado no revogado CPC-1973, mas sim concebido a partir da teoria do dialogo das fontes, pois nas suas normas é perfeitamente possível inferir regras fundamentais para a tutela coletiva e individual, como se denota das previstas nos arts. 1º ao 12. Assim, tendo presente que as normas do CPC foram pensadas e elaboradas sob a égide dos princípios fundamentais elencados na CF/88, não restam dúvidas de que podem ser utilizadas 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 9/68 Questão 2022 | 4000809434 (MPE-SC/Promotor de Justiça/MPE-SC – 2019) O microssistema da tutela coletiva é o conjunto formado pelas normas processuais, materiais e heterotópicas sobre processo coletivo nas diversas normas jurídicas positivadas em nosso ordenamento jurídico. para tutelar direitos de um modo geral, sejam eles individuais ou coletivos, exigindo-se a aplicação subsidiária e supletiva de suas regras às contendas coletivas. De fato, como ressalta Marcelo Rodrigues, o microssistema processual coletivo não contém todas as normas necessárias a tutela do meio ambiente, devendo se embebedar originariamente de normas expressamente previstas no novo CPC, notadamente quanto às técnicas de tutela provisória, às regras de autocomposição e aos métodos de uniformização de jurisprudência, bem como ao respeito aos precedentes ambientais. 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 10/68 Solução Gabarito: Item certo. O microssistema de tutela coletiva, por não ter uma codi�cação própria, é formado por um conjunto de normas, notadamente pela LACP, CDC, LAP e LMS (dentre outras), abarcando tanto as normas materiais como as processuais, bem como as normas processuais heterotópica, que embora prevista na legislação processual, ventilam efetivamente normas de direito material coletivo. Para assistir ao vídeo correspondente, acesse o LDI. Princípios Fundamentais que norteiam o Processo Coletivo Os princípios que norteiam o processo coletivo têm por base inexorável aqueles enumerados para o processo individual, devendo o aplicador da norma interpretá-los e aplicá-los objetivando a escorreita tutela dos direitos coletivos, tendo em vista que cabe ao julgador compreendê-los e tratá-los de forma diferenciada em relação aos princípios que regem os processos individuais, existindo alguns comuns às duas vertentes, como o princípio do devido processo legal e o princípio do acesso à justiça, como também princípios que norteiam de forma mais pontual o processo coletivo e que serão objeto de estudo nesta obra, como o princípio da participação, o princípio do interesse jurisdicional no conhecimento do mérito do processo coletivo, bem como o princípio da máxima prioridade da tutela jurisdicional coletiva. Princípio do Interesse Jurisdicional no Conhecimento do Mérito do Processo Coletivo As lides coletivas tutelam em regra direitos de toda a coletividade ou de um grupo específico de pessoas ligadas por uma relação jurídica base, devendo ser tutelados por representarem interesses de cunho social. Nessalinha, deve-se dar prioridade ao resultado do processo, tendo o princípio relação direta com o da instrumentalidade das formas. Cabe ao aplicador da norma buscar a solução equitativa do caso concreto com certo grau de justeza em sua resolução, sem que a forma seja empecilho para esse objetivo, pois o que se pretende é o conhecimento da questão de fundo, com a análise do mérito, mesmo que haja algum óbice de ordem formal necessário à admissibilidade do regular curso do processo. Como destaca o professor Rennan Thamay, o que se busca com esse princípio é ressaltar a importância das demandas coletivas, dando seguimento as ações coletivas propostas, visando conhecer seu mérito e toda a discussão e não, simplesmente, acabar com a demanda por ausência de alguns dos requisitos necessários à sua admissibilidade. Exemplo interessante de aplicação desse princípio, como destacam Hermes Zaneti e Leonardo Garcia, está na necessidade de o juiz publicar editais convidando outros legitimados para permitir que tenha sempre um representante no polo ativo, quando reconhecida a ilegitimidade da parte autora, nos termos do art. 9º, da LAP, vejamos: 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 11/68 Art. 9º Se o autor desistir da ação ou der motiva à absolvição da instância, serão publicados editais nos prazos e condições previstos no art. 7º, inciso II, ficando assegurado a qualquer cidadão, bem como ao representante do Ministério Público, dentro do prazo de 90 (noventa) dias da última publicação feita, promover o prosseguimento da ação Princípio da Participação O princípio está relacionado com a participação da comunidade no processo coletivo. Mas essa participação nas ações coletivas é exercida pelos legitimados extraordinários que representam a coletividade ou uma comunidade de indivíduos na defesa de direitos destes, exercendo efetivamente a participação democrática por meio do contraditório. É nesse sentido que Ada Grinover adverte que no processo coletivo há uma participação maior pelo processo e menor, por conseguinte, no processo, quando cotejado com a processualística individualista. Assim, nas ações coletivas, essa participação será exercida pelos legitimados que representam os indivíduos na tutela de seus direitos, sendo que essa legitimação adequada efetivamente exercerá o direito ao contraditório e não o próprio indivíduo (comunidade). Mas não podemos olvidar a possibilidade de participação direta do indivíduo nos processos coletivos, embora a regra seja a não intervenção em ação coletiva, quer na qualidade de assistente, quer de litisconsorte. Nessa linha, não cabe a intervenção de um indivíduo em ações coletivas para a tutela de direitos difusos ou coletivos stricto sensu. Mas admite-se a possibilidade de intervenção de terceiro quando o legitimado extraordinário da ação civil busca tutelar direito individual homogêneo por força do art. 94, do CDC. Vejamos: Art. 94. Proposta a ação, será publicado no órgão oficial, a fim de que os interessados possam intervir no processo como litisconsortes, sem prejuízo de ampla divulgação pelos meios de comunicação social por parte dos órgãos de defesa do consumidor. Destaca doutrina majoritária que essa qualidade de intervenção não se dá na forma de litisconsorte, como expressamente previsto no referido normativo, mas sim de assistente litisconsorcial, tendo em vista que não se pode reconhecer a possibilidade de litisconsorte ulterior de um indivíduo que, em momento algum, foi considerado legitimado para propositura da ação coletiva na tutela dos direitos individuais homogêneos. Outra possibilidade de atuação do indivíduo é na qualidade de autor da ação na tutela de direitos difusos ou coletivos stricto sensu por meio da ação popular. A lei facultou ao cidadão a possibilidade de defender esses direitos, como o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, contra ato lesivo exarado pelo poder público, em nome próprio, revelando-se uma legitimidade extraordinária para o cidadão. 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 12/68 Princípio da Indisponibilidade da Demanda Coletiva O princípio da indisponibilidade da demanda coletiva está associado ao fato de o autor da ação coletiva não poder abdicar do objeto da demanda. Isso porque, em face da natureza jurídica do objeto tutelado, a análise da questão não depende da vontade dos demandantes, mas da resolução da insatisfação social ventilada na pretensão deduzida. Por outro lado, esse princípio apresenta certa flexibilização ao permitir que determinados legitimados para propositura da ação coletiva possam utilizar-se de juízo de conveniência e oportunidade para o seu ajuizamento. Alguns doutrinadores preferem denominá-lo como princípio da disponibilidade motivada, tendo em vista que a lide coletiva não depende da vontade das partes, e sim, da necessidade social de sua resolução, sendo que esse dever de agir não é absoluto, podendo o legitimado se ater a critérios de conveniência e oportunidade para justificar a não propositura da ação. Outro ponto referente ao princípio da disponibilidade motivada está relacionado também como a pós-propositura da demanda, em que o legitimado tem que justificar os motivos que o levaram à desistência da ação coletiva, como na determinação prevista no art. 5º, §3º, da Lei de Ação Civil Pública. Princípio da Reparação Integral do Dano O princípio da reparação integral visa ressarcir a coletividade dos danos causados pelo ato lesivo provocado. Objetiva-se não só a reparação/indenização, como também a punição do agente que provocou os danos. Na esfera ambiental, o princípio aplica-se de forma plena. Isso porque, por força do art. 225, §3º, da CF/88, as condutas e atividades consideradas lesivas ao meio ambiente sujeitarão os infratores, pessoas físicas ou jurídicas, a sanções penais e administrativas, independentemente da obrigação de reparar os danos causados. Lembrando que a responsabilidade é objetiva na esfera civil quanto à reparação integral do dano. Essa reparação não se refere apenas ao dano causado ao bem ou recurso ambiental imediatamente atingido, como também toda a extensão dos danos produzidos em consequência do fato danoso à qualidade ambiental, seja por danos reflexos a determinados indivíduos, ou mesmo os danos morais coletivos resultantes da agressão ao bem ambiental. Princípio da Máxima Prioridade da Tutela Jurisdicional Coletiva Segundo o princípio, deve o Poder Judiciário dar prioridade ao processamento dos feitos relacionados com a tutela coletiva, em face do relevante interesse social neles ventilados, tendo em vista a importância dos interesses de cunho coletivo em face dos individuais. Como destacam Hermes Zaneti e Leonardo Garcia, a prioridade na tutela jurisdicional nos conflitos coletivos possibilita dirimir uma série de litígios repetitivos em um único processo ou 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 13/68 mesmo vários conflitos individuais entrelaçados pela homogeneidade de fato ou de direito, seja por força da economia processual ou mesmo para evitar decisões conflitantes. É nesse sentido que deve o magistrado dar maior prioridade na tramitação dos processos que objetivam a responsabilidade civil daquele que provocou danos ao meio ambiente, dando maior efetividade ao princípio em comento, concretizando o mandamento constitucional do dever do Poder Público de defender o meio ambiente. No entanto, embora haja uma prioridade para a tutela jurisdicional coletiva, as normas do processo coletivo reconhecem a importância do interesse individual na esfera coletiva, criando regras próprias também para tutelar esses direitos. Exemplo disso é o previsto no art. 103 do CDC, em que a coisa julgada não prejudicará os titulares de direitos individuais em caso de improcedência da ação, não havendo óbice para que o indivíduo possa manejar uma açãoindividual para tutelar seu direito lesado. Princípio da Máxima Atipicidade da Tutela Coletiva O princípio da máxima atipicidade da tutela coletiva, denominado também de princípio da não-taxatividade, ventila a ideia de que é possível o manejo de todos os tipos de ações judiciais, sejam de caráter preventivo ou repressivo, objetivando a tutela dos direitos coletivos. Busca-se valorizar o conteúdo da demanda (aspecto substancial) sem que se invoque empecilhos de ordem formal quanto ao procedimento adequado (aspecto formal). Esse princípio está diretamente relacionado com o princípio constitucional da universalidade da jurisdição devendo ser possibilitado um maior acesso à justiça a um grande número de pessoas. Segundo doutrina majoritária, é possível inferir esse princípio do cotejo do art. 83 do CDC com o art. 21 da Lei de Ação Civil Pública, que autoriza a aplicação do Título III do Código de Defesa do Consumidor aos direitos e interesses difusos, coletivos e individuais. Art. 83. Para a defesa dos direitos e interesses protegidos por este código são admissíveis todas as espécies de ações capazes de propiciar sua adequada e efetiva tutela. Nessa linha, poderá ser ajuizada qualquer tipo de ação judicial para tutelar o bem coletivo cabendo ao legitimado requerer qualquer tipo de tutela jurisdicional para satisfação de sua pretensão, seja de ordem declaratória, executiva ou mesmo condenatória. O que efetivamente interessa é o pedido e a causa de pedir e não a nome iuris atribuído a ação coletiva. Esse princípio é corriqueiramente aplicado nas demandas judiciais de cunho ambiental. Busca- se por meio de uma multiplicidade de ações (Ação Civil Pública, Mandado de Segurança Coletivo, Ação Popular, Mandado de Injunção Coletivo) e de tutelas jurisdicionais (preventiva, condenatória, executiva) a escorreita tutela do meio ambiente, não podendo servir de empecilho à propositura da ação ambiental a inexistência de procedimento para a defesa desse direito. 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14/68 Ação Civil Pública - Lei 7.347/85 Para assistir ao vídeo correspondente, acesse o LDI. A incipiente utilização de uma ação civil pública surgiu com o advento da Lei da Política Nacional do Meio Ambiente, Lei 6.938/81, estabelecendo, em seu art. 14, §1º, a possibilidade de manejo da ação coletiva de responsabilidade civil por danos causados ao meio ambiente, tendo incialmente como único legitimado o Ministério Público. Esta ação coletiva foi corporificada, em 1985, na Lei 7.347, ampliando a legitimação, os pedidos e os direitos protegidos, passando a ter envergadura constitucional, em 1988, com a previsão expressa do art. 129, III, que atribuiu como uma das missões institucionais do Ministério Público (Estadual ou Federal) a promoção da ação civil pública para a proteção do meio ambiente dentre outros interesses difusos e coletivos, sendo considerada, hodiernamente, o principal instrumento processual para tutelar o meio ambiente quanto aos danos a ele perpetrados. A ACP ganhou um reforço de cunho processual e material com a edição, em 1990, do Código de Defesa do Consumidor-CDC, que aumentou seu campo de incidência possibilitando, por meio do manejo desta ação, a defesa de qualquer outro interesse difuso ou coletivo, por força do art. 110, bem como de interesses individuais homogêneos. Advertimos, que, desde a edição da Lei 7.347/85, o meio ambiente já era juridicamente tutelado por essa norma, sendo que as reformas produzidas e a formação do microssistema processual, notadamente com o surgimento do CDC, apenas aperfeiçoou o mecanismo de tutela desse direito difuso. Conforme destaca João Lordelo, a ação civil pública foi criada pela Lei 6.938/81, regulamentada pela lei 7.347/85, consolidada pela Constituição Federal e potencializada pelo CDC. Assim, tivemos um alargamento progressivo da defesa dos direitos metaindividuais. Embora irrelevante no campo prático em face da incidência do princípio da atipicidade da demanda coletiva, doutrina nacional faz a distinção entre ação coletiva e ação civil pública: esta é espécie, aquela, gênero. A ação coletiva tem como causa de pedir um direito coletivo em sentido amplo (lato sensu), incluído aí todos os interesses previstos no CDC, como os direitos difusos, coletivos stricto sensu e os direitos individuais homogêneos, podendo ser manejada por meio da ação civil pública, ação popular, mandado de segurança coletivo ou mesmo pelo mandado de injunção coletivo. A ação civil pública, por outro lado, além de tutelar esses direitos, pode ser manejada com o fulcro de proteger um direito individual indisponível, caracterizando uma ação civil pública individual, como a título de exemplo, quando manejada na defesa de um determinado cidadão que necessita de medicamentos, estando o órgão ministerial legitimado a ingressar com a demanda, pois a saúde está ligada ao direito fundamental à vida, constitucionalmente protegido. Mas, independentemente dessa distinção, o importante é notar que tanto por meio da ação civil pública ou por meio da ação coletiva é possível tutelar direitos de natureza transindividual ou metaindividuais, que são denominados, na doutrina tradicional de Barbosa Moreira, naturalmente coletivos (em contrapartida aos acidentalmente coletivos – individuais 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 15/68 homogêneos), abarcando os coletivos em sentido estrito e os difusos, sendo caracterizados pela indivisibilidade do objeto que não pode ser partilhado entre seus titulares. Nesse sentido, seria possível a tutela do meio ambiente, por ser um bem naturalmente coletivo, seja pelo manejo da ação popular ou de qualquer outra ação coletiva. Por fim, ressaltamos que nesta obra, não trabalharemos a Lei de ACP com nível de aprofundamento exigido pela disciplina de Direito Processual Civil, mas somente naquilo que for necessário para lograrmos êxito nas questões de Direito Ambiental, que, em sua grande maioria, tem se limitado a literalidade das normas. Objeto, Legitimidade e Competência Objeto O objeto da ação civil está associado ao tipo de tutela vindicada na pretensão deduzida em juízo. Nesse sentido, o objeto da ACP pode ser uma tutela preventiva ou ressarcitória/reparatória tendo como pano de fundo a tutela dos direitos metaindividuais. São os interesses ou bens juridicamente relevantes protegidos, nos termos do art. 1º, da Lei 7.347/85: o meio ambiente, independentemente de sua vertente; o consumidor; bens e direitos de valor artístico, estético, histórico, turístico e paisagístico; ordem econômica; ordem urbanística, esta já incluída no conceito de meio ambiente artificial; honra e dignidade de grupos raciais, étnicos ou religiosos; bem como o patrimônio público e social. O objeto da ação civil pública é perfeitamente identificável nos artigos 1º, 3º e 11 da Lei de Ação Civil Pública. Vejamos os normativos: Art. 1º Regem-se pelas disposições desta Lei, sem prejuízo da ação popular, as ações de responsabilidade por danos morais e patrimoniais causados: (Redação dada pela Lei nº 12.529, de 2011). l - ao meio-ambiente; ll - ao consumidor; III – a bens e direitos de valor artístico, estético, histórico, turístico e paisagístico; IV - a qualquer outro interesse difuso ou coletivo. (Incluído pela Lei nº 8.078 de 1990) V - por infração da ordem econômica; (Redação dada pela Lei nº 12.529, de 2011). VI - à ordem urbanística. (Incluído pela Medida provisória nº 2.180-35, de 2001) VII – à honra e à dignidade de grupos raciais, étnicos ou religiosos. (Incluído pela Lei nº 12.966, de 2014) VIII – ao patrimônio público e social. (Incluído pela Lei nº 13.004, de 2014) Art. 3º A ação civil poderá ter por objeto a condenação em dinheiro ou o cumprimento de obrigação de fazer ou não fazer. 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicialdo Meio Ambiente 16/68 Art. 11. Na ação que tenha por objeto o cumprimento de obrigação de fazer ou não fazer, o juiz determinará o cumprimento da prestação da atividade devida ou a cessação da atividade nociva, sob pena de execução específica, ou de cominação de multa diária, se esta for suficiente ou compatível, independentemente de requerimento do autor. Cumpre destacar que quando o legitimado da ACP maneja sua pretensão em defesa do meio ambiente tendo como objeto uma tutela preventiva visa evitar a ocorrência do ilícito e consequentemente do dano ao meio ambiente, buscando frustrar sua concretização, representada pela tutela inibitória. Exemplo disso ocorre quando se busca, na ACP, impedir a expedição da licença ambiental pelo órgão competente para construção de um empreendimento em área em que há indícios de existência de vestígios positivos de ocupação humana ancestral, caracterizado por um provável sítio arqueológico. Ocorrendo o ilícito, sem a configuração do dano, a tutela preventiva é denominada de tutela de remoção do ilícito. Busca-se com a ACP o afastamento da conduta ilícita perpetrada contra o meio ambiente. Configura-se tal possibilidade, no exemplo anterior, se o órgão ambiental já estiver expedido a licença de instalação do empreendimento sem a manifestação da provável existência do sítio arqueológico pelo órgão do patrimônio histórico. Após a ocorrência do dano, não restam dúvidas, o manejo da ACP visa a tutela reparatória/ressarcitória pelos danos acarretados ao meio ambiente. Rememorando o exemplo, instalado o empreendimento, configurado estará o dano ao sítio arqueológico cabendo a aplicação da tutela reparatória. Outra questão relevante quanto a tutela ressarcitória, é a possibilidade de existência do dano moral coletivo em matéria ambiental. Prevalece na doutrina a possibilidade de ressarcimento por dano moral coletivo, considerando que embora a coletividade não possua personalidade, ela tem consciência coletiva (valores não patrimoniais intrínsecos à coletividade), o qual pode sofrer dano moral. Segundo STJ, o dano extrapatrimonial coletivo prescinde da comprovação de dor, de sofrimento e de abalo psicológico, suscetíveis de apreciação na esfera do indivíduo, mas inaplicável aos interesses difusos e coletivos. Nesse sentido, o dano moral coletivo se configura em razão de ofensa a direitos coletivos ou difusos de caráter extrapatrimonial, como aqueles voltados ao meio ambiente, que, em tese deriva do fato por si só (in re ipsa), bastando ficar caracterizado o dano ao meio ambiente, independe da comprovação do grande abalo psicológico sofrido pela coletividade. Há uma presunção de que o dano ao meio ambiente maculou de modo ilegal os valores normativos fundamentais da coletividade em si considerada a provocar repulsa e indignação na consciência coletiva. Mas, advirta-se, não é pacífico na doutrina a existência do dano moral coletivo em matéria ambiental, seja em face da não existência de titularidade concreta com a individualização pessoal dos beneficiários, seja pela ausência de critérios para a quantificação e identificação do dano. 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 17/68 Embora não relevante para a tutela do meio ambiente, cumpre lembrar que o parágrafo único do art. 1º, da Lei de ACP, veda a propositura de ação civil pública para veicular pretensões que envolvam tributos, contribuições previdenciárias, o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço - FGTS ou outros fundos de natureza institucional cujos beneficiários podem ser individualmente determinados. Legitimidade Ativa A legitimidade ativa para propositura da ACP foi prevista no art. 5º, da LACP. Vejamos o normativo: Art. 5º Têm legitimidade para propor a ação principal e a ação cautelar: (Redação dada pela Lei nº 11.448, de 2007). I - o Ministério Público; (Redação dada pela Lei nº 11.448, de 2007). II - a Defensoria Pública; (Redação dada pela Lei nº 11.448, de 2007). III - a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios; (Incluído pela Lei nº 11.448, de 2007). IV - a autarquia, empresa pública, fundação ou sociedade de economia mista; (Incluído pela Lei nº 11.448, de 2007). V - a associação que, concomitantemente: (Incluído pela Lei nº 11.448, de 2007). a) esteja constituída há pelo menos 1 (um) ano nos termos da lei civil; (Incluído pela Lei nº 11.448, de 2007). b) inclua, entre suas finalidades institucionais, a proteção ao patrimônio público e social, ao meio ambiente, ao consumidor, à ordem econômica, à livre concorrência, aos direitos de grupos raciais, étnicos ou religiosos ou ao patrimônio artístico, estético, histórico, turístico e paisagístico. (Redação dada pela Lei nº 13.004, de 2014) Assim, o Ministério Público, a Defensoria Pública, a Administração Direta (a União, os Estados, o Distrito Federal, os Municípios) a Administração Indireta (a autarquia, empresa pública, fundação ou sociedade de economia mista), bem como as associações, atendido certos requisitos de constituição em relação a estas, poderão propor ação civil púbica, na forma principal ou cautelar para tutela do meio ambiente. Há, portanto, uma legitimação plúrima em que coexistem vários legitimados elegíveis para propor a ação civil pública, bem como uma legitimação mista ao prevê não apenas pessoas jurídicas de direito público como de direito privado na defesa dos interesses coletivos e difusos. 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 18/68 Esse rol é taxativo, não se admitindo outro legitimado para propositura da ACP. Assim, um cidadão, embora legitimado para propor a ação popular ambiental, não o será para o manejo da ACP, tendo em vista sua ilegitimidade por força do art. 5º, da LACP. A legitimidade para a propositura da ação civil pública, conforme doutrina majoritária, é autônoma, concorrente e disjuntiva. É autônoma por não depender de autorização, ou mesmo participação, do titular do direito transindividual lesado, que no caso do meio ambiente é a coletividade. É concorrente porque existem vários legitimados elegíveis para propositura da demanda. É disjuntiva porque não há necessidade de autorização dos demais legitimados para a propositura da demanda. Assim, poderá um órgão ambiental propor a ação civil pública para tutelar o meio ambiente independentemente de autorização específica da coletividade ou mesmo dos demais legitimados. Essa legitimação ativa é denominada pela doutrina majoritária e pelo STF de extraordinária, tendo em vista que os legitimados atuam em nome próprio para defender direito alheio, configurando uma verdadeira substituição processual de toda a coletividade na defesa do meio ambiente, independentemente da autorização do titular desse direito (coletividade). Essa legitimação extraordinária se justifica em face da relevância do bem jurídico tutelado. Cumpre advertir, embora não seja objeto desta obra, a existência de doutrina que defende a legitimidade autônoma para a condução do processo, considerando que o legitimado, segundo essa corrente, não estaria defendo direito alheio em nome próprio, em face da indeterminabilidade do titular do direito se aplicando na tutela dos direitos coletivos e difusos. É denominada autônoma porque não decorre do direito material vindicado, mas da lei que atribui aos legitimados a missão institucional de tutela daqueles direitos. Por fim, doutrina minoritária, capitaneada por Hermes Zaneti Jr., admite a existência da legitimação conglobante, possibilitando a legitimação ativa para determinados atores mesmo que não estejam previstos expressamente na norma regulamentadora (princípio da tipicidade), desde que não contraria o ordenamento jurídico e as normas definidas para o processo coletivo, fato que autorizaria, a título de exemplo, que o Ministério Público aventasse um mandado de segurança coletivo na defesa de direitos metaindividuais. Quanto ao tema da representatividadeadequada, consubstanciada na análise da possibilidade de o legitimado defender escorreitamente o direito coletivo, entende doutrina majoritária que no Brasil se adota o sistema ope legis em oposição ao sistema ope judicis. Naquele os requisitos necessários para a legitimação e consequente propositura da demanda estão previstos em lei, não cabendo ao juiz fazer qualquer juízo de valor quanto ao preenchimento dos requisitos legais. Por outro lado, no sistema ope judicis, o juiz fará o controle da representação adequada em concreto por meio de decisão com fundamentação apropriada, realizando a sindicabilidade da representação no processo coletivo de ofício. A regra no Brasil é a aplicação do sistema ope legis (sistema legal), mas há decisões dos tribunais superiores admitindo que o Juiz tem o dever-poder de controle da representação em casos pontuais colocadas em juízo (sistema judicial). Vejamos trecho de um julgado do STJ sobre o tema: 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 19/68 (...) Por um lado, é bem de ver que, muito embora a presunção iuris et de iure seja inatacável - nenhuma prova em contrário é admitida -, no caso das presunções legais relativas ordinárias se admite prova em contrário. Por outro lado, o art. 125, III, do CPC [correspondente ao art. 139, III, do novo CPC] estabelece que é poder-dever do juiz, na direção do processo, prevenir ou reprimir qualquer ato contrário à dignidade da Justiça. Com efeito, contanto que não seja exercido de modo a ferir a necessária imparcialidade inerente à magistratura, e sem que decorra de análise eminentemente subjetiva do juiz, ou mesmo de óbice meramente procedimental, é plenamente possível que, excepcionalmente, de modo devidamente fundamentado, o magistrado exerça, mesmo que de ofício, o controle de idoneidade (adequação da representatividade) para aferir/afastar a legitimação ad causam de associação (EREsp 1213614, Min. Ricardo Villas Bôas Cuevas, 2015). Outro exemplo disso refere-se à representação adequada do Ministério Público. Não restam dúvidas na doutrina e jurisprudência de que para a tutela dos direitos difusos e coletivos strictu senso, o órgão ministerial sempre terá legitimidade, tendo em vista ficar caracterizado o interesse social, em face da natureza do bem jurídico tutelado, como ocorre na defesa do meio ambiente em que o Ministério Público é legitimado universal. Mas para a tutela dos direitos individuais e homogêneos, o Ministério Público só tem legitimidade se o direito for indisponível ou socialmente relevante. Vejamos um quadro resumo sobre a legitimidade para propositura de ACP pelas entidades/ órgãos previstos na Lei de ação civil pública. Legitimado Características Ministério Público - O órgão ministerial só pode ajuizar ação civil pública em relação aos temas previstos em sua finalidade institucional conforme estatuídos no art. 127, da CF/88, dentre eles podemos destacar: (1) defesa da ordem jurídica; (2) defesa do regime democrático; (3) proteção do interesse social; bem como (4) proteção do interesse individual indisponível; - O Ministério Público sempre tem legitimidade para a defesa dos direitos difusos e coletivos strictu senso, por serem indivisível, entende-se que há interesse social, como na defesa do meio ambiente; - O MP só tem legitimidade se o direito for indisponível ou socialmente relevante, no caso de direitos individuais homogêneos. Defensoria Pública - A legitimação da Defensoria Pública foi acrescida à Lei da Ação Civil Pública por força da Lei 11.448/07. Posteriormente, foi acrescida a CF/88, por força da Emenda Constitucional n. 80/2014, que acrescentou ao art. 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 20/68 134, da CRFB/88, a defesa dos direitos coletivos, seja por insuficiência técnica, econômica ou organizacional (aspecto subjetivo); - Não existe limitação abstrata quanto a matéria a ser protegida. Cabe a Defensoria Pública ajuizar ações coletivas para a defesa de direitos difusos, coletivos ou individuais homogêneos, mas a legitimação deve passar pelo crivo do Judiciário; - A legitimidade em sentido amplo da Defensoria Pública para propor ação civil pública em defesa do meio ambiente saudável, considerando que o meio ambiente é um direito difuso e justifica a atuação da Defensoria Pública no âmbito da tutela coletiva, isso porque, em qualquer dano ambiental, sempre, ainda que por uma via indireta, os menos favorecidos economicamente podem ser afetados. Administração Direta - Os órgãos da Administração Direita têm como finalidade institucional a defesa do bem comum o que lhe garante, segundo doutrina majoritária, em face da amplitude de seu objeto, a legitimidade universal para propor qualquer ação civil pública na defesa de interesses difusos e coletivos. Assim, para defesa do meio ambiente, os integrantes da administração direta têm plena legitimidade, cabendo no caso concreto a análise da representação adequada. Isso porque, a título de exemplo, embora a Secretaria de Meio Ambiente do Estado do Pará tenha legitimidade para propor ACP na defesa do meio ambiente, poderá não ter representação adequada quando maneja a ação coletiva para defesa do meio ambiente no Estado do Rio Grande do Sul (falta de pertinência territorial). Administração Indireta - Para verificar a legitimidade das entidades da administração indireta, deve- se analisar o ato de instituição para configurar a representação adequada. Nesse sentido, a título de exemplo, faltaria representação adequada a uma autarquia previdenciária se manejasse uma ação civil pública na defesa do meio ambiente natural. - Deve-se sempre verificar no caso concreto a representação adequada de cada integrante da administração indireta, seja autarquia, fundação pública, empresa pública e sociedade de economia mista. - Assim, além da legitimidade, teria representação adequada uma autarquia ambiental que maneja uma ação civil pública na defesa do meio ambiente, considerando ser, em tese, mister institucional a defesa desse bem jurídico. Associação - As associações englobam uma série de entidades, incluindo-se em seu conceito as entidades de classe, sindicatos, bem como os partidos políticos. A Lei de ação civil pública condiciona a legitimação da associação a dois requisitos cumulativos previstos no art. 5º, quais sejam, a constituição ânua 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 21/68 Legitimidade Passiva Embora a Lei de ação civil pública não traga regras próprias para o legitimado passivo, devem ser aplicadas as regras previstas no Código de Processo Civil. Mas é possível inferir que qualquer pessoa poderá ser requerida em uma ação civil pública ambiental seja física ou jurídica, de direito privado ou de direito público. Nesse sentido, será responsável civilmente, podendo configurar como sujeito passivo, todo aquele que se enquadrar no conceito de poluidor, previsto no artigo 3º, IV, da Lei da Política Nacional do Meio Ambiente (Lei 6.938/81), entendido como a pessoa física ou jurídica, de direito público ou privado, responsável, direta ou indiretamente, por atividade causadora de degradação ambiental, sendo esta a degradação da qualidade ambiental resultante de atividades que direta ou indiretamente: prejudiquem a saúde, a segurança e o bem-estar da população; criem condições adversas às atividades sociais e econômicas; afetem desfavoravelmente a biota; afetem as condições estéticas ou sanitárias do meio ambiente; bem como lancem matérias ou energia em desacordo com os padrões ambientais estabelecidos. Assim, a título de exemplo, poderá também ter legitimidade passiva ad causam para responder à ação civil pública para reparação do dano ambiental em uma propriedade rural não só o poluidor como também, a depender do caso concreto, o atual proprietário/possuidor, mesmo não tendo relação direta com odano causado, em face da natureza objetiva das obrigações ambientais. Nessa linha é o enunciado da Súmula 623, do STJ: e a pertinência temática. Constituição ânua: A associação tem que estar constituída há pelo menos 1 ano, nos termos da lei civil. Busca-se evitar a criação de associações objetivando apenas o manejo das ACPs (associação ad hoc). Lembrando que nos termos do art. 5º, §4º da LACP, o juiz poderá dispensar o requisito da pré-constituição quando o bem jurídico discutido for socialmente relevante. Pertinência temática: A associação deve incluir entre suas finalidades, a proteção ao patrimônio público e social, ao meio ambiente, ao consumidor, à ordem econômica, à livre concorrência, aos direitos de grupos raciais, étnicos ou religiosos ou ao patrimônio artístico, estético, histórico, turístico e paisagístico. Nesse sentido, poderá uma associação promover uma ação civil púbica em defesa do meio ambiente desde que tenha em seu estatuto com uma de suas finalidades a defesa do meio ambiente. Súmula 623-STJ: As obrigações ambientais possuem natureza propter rem, sendo admissível cobrá-las do proprietário ou possuidor atual e/ou dos anteriores, à escolha do credor. 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 22/68 Cumpre destacar que o STJ tem entendimento pacífico de que na ação civil pública deve-se discutir efetivamente a responsabilidade civil dos danos causados ao meio ambiente não se admitindo denunciação da lide ou mesmo a discussão sobre o direito de regresso, tendo em vista que o foco é sempre a reparação integral do dano causado ao meio ambiente, em face da responsabilidade objetiva que lastreia essa obrigação ambiental. Vejamos o REsp 28.222/SP, de relatoria da Ministra Eliana Calmon. DIREITO ADMINISTRATIVO E AMBIENTAL. ARTIGOS 23, INCISO VI E 225, AMBOS DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL. CONCESSÃO DE SERVIÇO PÚBLICO.RESPONSABILIDADE OBJETIVA DO MUNICÍPIO. SOLIDARIEDADE DO PODER CONCEDENTE. DANO DECORRENTE DA EXECUÇÃO DO OBJETO DO CONTRATO DE CONCESSÃO FIRMADO ENTRE A RECORRENTE E A COMPANHIA DE SANEAMENTO BÁSICO DO ESTADO DE SÃO PAULO - SABESP (DELEGATÁRIA DO SERVIÇO MUNICIPAL). AÇÃO CIVIL PÚBLICA. DANO AMBIENTAL. IMPOSSIBILIDADE DE EXCLUSÃO DE RESPONSABILIDADE DO MUNICÍPIO POR ATO DE CONCESSIONÁRIO DO QUAL É FIADOR DA REGULARIDADE DO SERVIÇO CONCEDIDO. OMISSÃO NO DEVER DE FISCALIZAÇÃO DA BOA EXECUÇÃO DO CONTRATO PERANTE O POVO. RECURSO ESPECIAL PROVIDO PARA RECONHECER A LEGITIMIDADE PASSIVA DO MUNICÍPIO. I - O Município de Itapetininga é responsável, solidariamente, com o concessionário de serviço público municipal, com quem firmou "convênio" para realização do serviço de coleta de esgoto urbano, pela poluição causada no Ribeirão Carrito, ou Ribeirão Taboãozinho. II - Nas ações coletivas de proteção a direitos metaindividuais, como o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, a responsabilidade do poder concedente não é subsidiária, na forma da novel lei das concessões (Lei n.º 8.987 de 13.02.95), mas objetiva e, portanto, solidária com o concessionário de serviço público, contra quem possui direito de regresso, com espeque no art. 14, § 1° da Lei n.º 6.938/81. Não se discute, portanto, a liceidade das atividades exercidas pelo concessionário, ou a legalidade do contrato administrativo que concedeu a exploração de serviço público; o que importa é a potencialidade do dano ambiental e sua pronta reparação. (REsp 28.222/SP, Rel. Ministra ELIANA CALMON, Rel. p/ Acórdão Ministra NANCY ANDRIGHI, SEGUNDA TURMA, julgado em 15/02/2000, DJ 15/10/2001, p. 253) 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 23/68 Questão 2019 | 62124635 Rafaela capturou, para sua criação doméstica de pássaros, duas jandaias amarelas, espécie que consta na lista federal de fauna ameaçada de extinção. João, �scal do órgão ambiental competente, assistiu à captura dos animais, mas, por amizade a Rafaela, omitiu-se. Tempo depois, Rafaela, residente em Boa Vista – RR, decidiu pedir autorização para a guarda dos pássaros à Secretaria de Serviços Públicos e Meio Ambiente do Município de Boa Vista. No momento da solicitação, ela relatou ter tido a permissão de João para levar para casa as duas aves. Acerca dessa situação hipotética, julgue o item a seguir à luz da lei que regulamenta crimes ambientais, do Decreto n.º 6.514/2008 e do entendimento dos tribunais superiores. O Ministério Público poderá propor ação civil pública em desfavor de Rafaela e do município de Boa Vista, ante a omissão da Secretaria de Serviços Públicos e Meio Ambiente, que não atuou para evitar o dano, apesar da ciência da conduta de Rafaela. Solução Gabarito: CERTA. A conduta descrita no enunciado é um crime ambiental contra a fauna, nos termos do art. 29, caput e §4º, inciso I da Lei Federal n. 9.605/1998, e uma infração administrativa contra a fauna, nos termos do art. 24, inciso II do Decreto n. 6.514/2008: Art. 29. Matar, perseguir, caçar, apanhar, utilizar espécimes da fauna silvestre, nativos ou em rota migratória, sem a devida permissão, licença ou autorização da autoridade competente, ou em desacordo com a obtida: Pena - detenção de seis meses a um ano, e multa. (...) § 4º A pena é aumentada de metade, se o crime é praticado: I – contra espécie rara ou considerada ameaçada de extinção, ainda que somente no local da infração; Art. 24. Matar, perseguir, caçar, apanhar, coletar, utilizar espécimes da fauna silvestre, nativos ou em rota migratória, sem a devida permissão, licença ou autorização da autoridade competente, ou em desacordo com a obtida. Multa de: II - R$ 5.000,00 (cinco mil reais), por indivíduo de espécie constante de listas o�ciais de fauna brasileira ameaçada de extinção, inclusive da Convenção de Comércio Internacional 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 24/68 das Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção – CITES. Além disso, é dever de João, enquanto autoridade em matéria ambiental, lavrar o auto de infração, no momento em que constatada a ocorrência de infração administrativa ambiental, nos termos do art. 96 do Decreto n. 6.514/2008. Nos termos do art. 70, §3º da Lei Federal n. 9.608/1998, “a autoridade ambiental que tiver conhecimento de infração ambiental é obrigada a promover a sua apuração imediata, mediante processo administrativo próprio, sob pena de corresponsabilidade”. Assim, a omissão de João, em nome de sua amizade com Rafaela, igualmente constitui a infração administrativa do art. 24 do Decreto n. 6.514/1998. Por sua vez, a ação civil pública é disciplinada na Lei Federal n. 7.347/1985 para a responsabilidade civil ambiental. Ocorre que, ao cometer a infração ambiental e o crime ambiental descritos nos dispositivos acima, Rafaela e João também devem reparar civilmente os danos ambientais causados. Esse é o sentido do art. 225, §3º da Constituição Federal, ao determinar que “as condutas e atividades consideradas lesivas ao meio ambiente, sujeitarão os infratores, pessoas físicas ou jurídicas, a sanções penais e administrativas, independentemente da obrigação de reparar os danos causados”. Por �m, o Município de Boa Vista responde, igualmente, pelo dano ambiental causado nessa situação, nos termos do art. 3º, caput da Lei Federal n. 9.608/1998, uma vez que João é o �scal do órgão ambiental competente e, portanto, representante municipal na �scalização e autuação administrativa: “as pessoas jurídicas serão responsabilizadas administrativa, civil e penalmente conforme o disposto nesta Lei, nos casos em que a infração seja cometida por decisão de seu representante legal ou contratual, ou de seu órgão colegiado, no interesse ou benefício da sua entidade. A assertiva, portanto, está CERTA. Para assistir ao vídeo correspondente, acesse o LDI. Competência Jurisdicional O art. 2º da Lei de ação civil pública fixa a regra geral de que será competente para julgar a causa o juízo do local da ocorrência do dano. Vejamos:Art. 2º As ações previstas nesta Lei serão propostas no foro do local onde ocorrer o dano, cujo juízo terá competência funcional para processar e julgar a causa. Parágrafo único. A propositura da ação prevenirá a jurisdição do juízo para todas as ações posteriormente intentadas que possuam a mesma causa de pedir ou o mesmo objeto. 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 25/68 O referido normativo fixa a competência do foro do local do dano utilizando-se do critério territorial para determinar o órgão julgador, sendo uma competência de natureza absoluta. Assim, se o dano for local, a ACP deve ser ajuizada no local do dano, mas se a abrangência for regional, o ajuizamento da ACP será na capital do Estado. Por outro lado, em sendo de âmbito nacional, a propositura da ACP será no DF ou capital dos Estados afetados, em consonância com o art. 93, do CDC. Vejamos: Art. 93. Ressalvada a competência da Justiça Federal, é competente para a causa a justiça local: I - no foro do lugar onde ocorreu ou deva ocorrer o dano, quando de âmbito local; II - no foro da Capital do Estado ou no do Distrito Federal, para os danos de âmbito nacional ou regional, aplicando-se as regras do Código de Processo Civil aos casos de competência concorrente. As ações civis públicas ambientais devem ser propostas na justiça comum e não na justiça especializada (critério material), analisando qual a pessoa que figura nos polos da demanda. Sendo em razão da pessoa o critério de fixação, deve-se primeiro observar o art. 109, I, que define a competência da Justiça Federal em razão da presença da União, autarquia federal ou empresa pública federal como partes interessadas na ACP. Assim, sendo a União, entidade autárquica ou empresa pública federal forem interessadas na condição de autoras, rés, assistentes ou oponentes, deverá a ACP ser processada originariamente na Justiça Federal de primeira instância, não havendo foro privilegiado para propositura da ação. Não sendo competência da Justiça Federal para processar e julgar a ACP ambiental, caberá a Justiça Estadual comum o julgamento da demanda. Quanto às ações civis públicas que tem o Ministério Público Federal como autor, o Superior Tribunal de Justiça entende que a Justiça Federal é competente para processar e jugar a ACP ajuizada pelo MPF, tendo em vista que o Ministério Público Federal é um órgão da União. Essa posição foi adotada no REsp 440.002-SE, de relatoria do Ministro Teori Zawaski. Cumpre destacar que há doutrina divergente: se o MPF for autor ou réu em uma ação, qualquer justiça poderá julgar a ação civil pública, devendo ser competente a Justiça Federal somente nos casos ventilados no art. 109, I, da CF/88. AÇÃO CIVIL PÚBLICA. TUTELA DE DIREITOS TRANSINDIVIDUAIS. MEIO AMBIENTE. COMPETÊNCIA. REPARTIÇÃO DE ATRIBUIÇÕES ENTRE O MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL E ESTADUAL. DISTINÇÃO ENTRE COMPETÊNCIA E LEGITIMAÇÃO ATIVA. CRITÉRIOS. 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 26/68 A ação civil pública, como as demais, submete-se, quanto à competência, à regra estabelecida no art. 109, I, da Constituição, segundo a qual cabe aos juízes federais processar e julgar "as causas em que a União, entidade autárquica ou empresa pública federal forem interessadas na condição de autoras, rés, assistentes ou oponentes, exceto as de falência, as de acidente de trabalho e as sujeitas à Justiça Eleitoral e a Justiça do Trabalho". Assim, figurando como autor da ação o Ministério Público Federal, que é órgão da União, a competência para a causa é da Justiça Federal. (...) REsp 440.002-SE. (RSTJ, vol. 187, p. 139). Inquérito Civil O inquérito civil é um procedimento de natureza administrativa que visa a apuração de fatos para subsidiar a ação civil pública a ser manejada pelo Ministério Público. Não há que se falar em contraditório no âmbito do inquérito civil, pois tem natureza inquisitorial. A Lei de ação civil pública, nos termos do art. 8º, §1º, definiu que é competência exclusiva do Ministério Público instaurar, sob sua presidência, inquérito civil, ou requisitar, de qualquer organismo público ou particular, certidões, informações, exames ou perícias, no prazo que assinalar, o qual não poderá ser inferior a 10 (dez) dias úteis. As informações colimadas no inquérito civil podem, enquanto elementos de prova, servirem de fundamentação não só para propositura da ação civil pública, seu principal objetivo, como também para ações penais, tendo em vista que muitos ilícitos de natureza civil são também penais. Podemos então concluir que o inquérito civil é uma investigação administrativa que servirá de fulcro para o exercício da atividade contenciosa do Ministério Público. Nessa linha, podemos destacar como características do inquérito civil ser um procedimento de natureza preparatória, pois, em regra, é instaurado antes da propositura da ACP, de cunho administrativo, por não haver interferência do poder judiciário, tendo natureza inquisitorial, não havendo necessidade de garantir o contraditório por ser simples apuração dos elementos fáticos. Cumpre ressaltar ainda, que esse procedimento é privativo do Ministério Público não 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 14. Tutela Judicial do Meio Ambiente 27/68 cabendo aos demais legitimados a utilização desse instrumento para colheita de elementos de prova, nos termos do art. 8º, §1º, da Lei de ação civil pública. Entende doutrina majoritária, que se trata de um procedimento dispensável caso o órgão ministerial já tenha elementos fáticos suficientes para a propositura da demanda. O inquérito civil apresenta 3 fases bem definidas, nos termos da Resolução 23/2007 do Conselho Nacional do Ministério Público, quais sejam, a instauração, a instrução e a conclusão. A fase de instauração se inicia com a publicação da portaria que exige como requisito principal o indicativo do objeto a que se destina a investigação. Esse ato administrativo pode ser baixado por representação ao órgão ministerial, por requisição do Procurador-Geral, bem como ex officio. Nos termos da Resolução, o Ministério Público poderá instaurar procedimento preparatório ao inquérito civil devendo ser concluído no prazo de 90 dias, com possibilidade de prorrogação por mais 90, uma única vez, em caso de motivo justificável. As regras de suspeição e impedimento, por força do art. 19, da Lei de ação civil pública, previstas 144 a 148 do Código de Processo Civil, são perfeitamente aplicáveis às ações civis públicas. Mas, por outro lado, quanto ao inquérito civil, o promotor/procurador que presidir o inquérito civil não é suspeito ou impedido para a propositura da demanda, considerando o caráter inquisitorial desse tipo de procedimento. Na fase de instrução, há a apuração efetiva dos fatos em que o Ministério Público detém poderes especiais para dar maior concretude ao seu mister institucional. O art. 26 da Lei Orgânica do Ministério Público (Lei Complementar 75/93) atribui a ele poderes instrutórios específicos para a instrução do inquérito civil. Dentre eles podemos destacar: (1) poder de intimação; (2) poder de requisição; (3) poder de vistoria; e (4) poder de recomendação. Nesse sentido, poderá o Ministério Público, no âmbito de um inquérito civil de natureza ambiental requisitar informações dos diversos órgãos ambientais para tutelar o meio ambiente ecologicamente equilibrado, para que sejam fornecidos documentos, como cópias de autos de processos administrativos ambientais, bem como mapas de áreas degradadas georreferenciadas, ressalvam-se os documentos protegidos por sigilo constitucional, que estão sob o manto da reserva de jurisdição. No cumprimento de seu mister institucional, é muito comum o Ministério Público expedir recomendações aos órgãos públicos, aos concessionários e permissionários de serviço público, bem como às entendidas que exerçam outra função delegada do Estado ou mesmo pelo Município,