DOR, Joël - Estruturas e clínica psicanalítica
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DOR, Joël - Estruturas e clínica psicanalítica


DisciplinaPsicologia da Personalidade I3.262 materiais160.570 seguidores
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transgredi-la. Uma outra solução 
em que o sujeito aceitará a obrigatoriedade da castração a ela se 
submetendo, de bom ou mal grado, mas desenvolvendo toda uma 
nostalgia sintomática diante da perda sofrida. No primeiro caso, 
somos levados às perversões: no segundo eáso, à nostalgia sinto-
mática dos histéricos e obsessivos. 
Do ponto de vista freudiano, ^estrutura perversa parece, então, 
encontrar sua origem em torno de dois pólos: de um lado, na 
angústia da castração; de outro, na mobilização de processos 
defensivos destinados a contorná-la. A este título, ele evidencia 
dois processos defensivos característicos da organização do fun-
cionamento perverso: a fixação (e a regressão) e a denegação da 
realidade. Segundo ele, trata-se dos dois mecanismos respectiva-
mente constitutivos da homossexualidade e do fetichismo. 
A homossexualidade resultaria, essencialmente, de uma reação 
de defesa narcísica diante da castração, no decorrer da qual a 
criança fixaria eletivamente a representação de uma mulher pro-
vida de um pênis, a qual persistiria no inconsciente de uma 
maneira ativamente presente no dinamismo libidinal ulterior.8 
Uma leitura atenta do texto "As teorias sexuais infantis" evoca 
imediatamente uma observação: a organização do processo per-
verso, sobre a vertente da homossexualidade, está implicitamente 
relacionada por Freud à homossexualidade masculina. Isto mani-
festa, sem equívoco, que a homossexualidade masculina se origi-
na certamente de uma estrutura perversa enquanto que a questão 
subsiste de saber se acontece o mesmo com a homossexualidade 
femi ina. Este problema é particularmente importante do ponto 
de vista do diagnóstico. De fato, a própria idéia da existência de 
uma estrutura perversa na mulher é bastante problemática, quan-
do, ainda assim, é incontestável que possamos observar manifes-
tações perversas nos comportamentos femininos.9 Em suma, a 
homossexualidade masculina inscreve-se em um dispositivo psí-
quico radicalmente diferente daquele que preside à homossexua-
lidade feminina. 
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Isto se encontra ainda melhor confirmado pelo outro aspecto 
do funcionamento perverso evocado precedentemente: o fetichis-
mo. Clinicamente, ele aparece como uma disposição exclusiva-
mente masculina. O processo defensivo em ação é mais complexo 
do que o que encontramos a propósito da homossexualidade. Ele 
se funda essencialmente sobre a denegação da realidade, ou seja, 
a recusa de reconhecer a realidade de uma percepção traumati-
zante: a ausência do pênis na mãe \u2014 e na mulher. A estratégia de 
defesa instalada pela denegação da realidade está associada a um 
mecanismo correlato: a elaboração de uma formação substituti-
va. Esta operação se desenrola em dois tempos: de um lado, a 
denegação da realidade propriamente dita, isto é, a manutenção 
de uma atitude estritamente infantil diante da ausência de pênis 
feminino. Se bem que percebida pelo sujeito, esta ausência é 
rejeitada no intuito de neutralizar a angústia de castração. Mas 
diversamente do que se passa na homossexualidade, a fixação da 
representação da mãe fálica é mais lábil e autoriza assim uma 
situação de compromisso. Já que a mulher na realidade não tem 
pênis, o fetichista vai, por outro lado, encarnar o objeto suposto 
faltar em outro objeto da realidade: o objeto fetiche, o qual se 
torna encarnação do falo: 
"O fetiche é o substituto do falo da mulher (da mãe) no qual acreditou 
a criancinha e ao qual nós sabemos por que ela não quer renunciar". 1 0 
Por sua mediação, o objeto fetiche institui assim diversos 
dispositivos de defesa: a) ele permite antes de tudo não renunciar 
ao falo; b) permite em seguida conjurar a angústia de castração 
dela se protegendo; c) permite finalmente escolher uma mulher 
como objeto sexual possível enquanto suposta possuir o falo. Aí, 
está portanto uma solução que evita ao f e t i c h i s t a a sa ída h o m o s -
sexual. 
Finalmente, último elemento de revisão, a elaboração progres-
siva da explicitação do processo perverso levará Freud, a partir 
do fetichismo, a isolar a noção de /clivagem do eu,psio é, a 
dimensão de uma clivagem intrapsíquica essencial à descrição da 
estrutura psicológica do sujeito. De fato, o funcionamento do 
fetichismo evidencia um mecanismo psíquico singular: a coexis-
tência de duas formações psíquicas inconciliáveis entre si: de um 
lado, o reconhecimento da ausência de pênis na mulher; de outro, 
a denegação da realidade deste reconhecimento. Há algo aí com-
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pletamentc contraditório entre o fato de que a realidade é denega-
da pelo sujeito sobre um fundo de ausência e que a instauração 
do objeto fetiche permanece a testemunha mais eloqüente do 
reconhecimento permanente desta ausência. Ora, observa Freud, 
estes dois conteúdos psíquicos contraditórios em relação à reali-
dade coexistem no aparelho psíquico sem jamais influenciarem-
se reciprocamente. Daí a hipótese freudiana de uma clivagem 
psíquica que não cessará de se confirmar enquanto instância 
intrínseca à estrutura do sujeito como tal. Remeto-os aos diferen-
tes trabalhos que Freud consagrou a este problema, especialmente 
de um modo indireto, a partir da clínica das psicoses." 
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V. O ponto de ancoramento das perversões 
Voltemos à dialética edipiana, onde a identificação fálica inaugu-
ral é colocada em questão pela intrusão de um pai imaginário, 
fanlasmado pela criança como objeto fálico rival de si própria 
junto à mãe. Este duelo fálico apresenta a seguinte particularida-
de: ele realiza a marca de uma ingerência nos negócios do gozo 
materno. De fato, a criança descobre, através desta figura paterna, 
um concorrente fálico junto à mãe, como objeto único e singular 
de seu gozo. Ao mesmo tempo, a criança descobre correlativa-
mente duas ordens de realidade que vão doravante interrogar o 
curso de seu desejo. Em primeiro lugar, acontece de o objeto do 
desejo materno não ser exclusivamente dependente de sua própria 
pessoa. Por conseguinte, esta nova disposição abre, para a crian-
ça, a expectativa de um desejo materno que seria potencialmente 
outro, diferente daquele que ela tem por ele. Em segundo lugar, 
a criança descobre sua mãe como uma mãe ausente, ou seja, uma 
mãe que em nada satisfaz a criança, identificada com o que 
acredita ser o único objeto de seu desejo, portanto, com o falo. 
No terreno desta dupla ocorrência, a figura do pai entra na liça, 
em um registro que não pode ser outro senão o da rivalidade. 
Reencontramos a pista desta rivalidade mais tarde, sob a forma 
de um traço estrutural estereotipado Ha perversão:>o desafio] Com 
o desafio, somos irremediavelmente levados a encontrar este 
outro traço estrutural: (a transgressãoV, como seu complemento 
inseparável. 
O que institui, e ao mesmo tempo conforta, o terreno da 
rivalidade fálica imaginária, é o desenvolvimento sub-reptício 
de um pressentimento, cujas conseqüências aparecerão como 
irreversíveis, sobre a questão da diferença dos sexos. Trata-se, 
com efeito, para a criança, de antecipar um universo de gozo novo 
por trás desta figura paterna, que lhe aparece como radicalmente 
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estranha, na medida em que ela a supõe como um universo de gozo 
que lhe é interdito. Outra maneira de dizer que no caso, trata-se 
de um universo de gozo do qual ela está excluída. Este pressenti-
mento é o meio pelo qual a criança adivinha a ordem irredutível 
da castração, da qual, de uma certa maneira, ela nada quer saber. 
Da mesma forma, isso pode constituir para ela o início de um novo 
saber sobre a questão do desejo do Outro. Neste sentido, podemos 
compreender como se constitui uma vacilação em torno do pro-
blema de sua identificação fálica. Da mesma forma, percebemos 
como a angústia de castração pode se atualizar em torno desta 
incursão paterna que impõe à criança, não apenas uma nova 
vetorização potencial de seu desejo,