QUESTÕES INDÍGENAS E MUSEUS - Regina Abreu
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QUESTÕES INDÍGENAS E MUSEUS - Regina Abreu


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foram realizadas 
FRP\ufffdR\ufffdÀP\ufffdGH\ufffdUHJLVWUDU\ufffdPDQLIHVWDo}HV\ufffdIROFOyULFDV\ufffdH\ufffd
prospecções arqueológicas.
Também em 1972, o então Departamento de 
Antropologia e Sociologia do ICHL publicou 
a Divisão Regional para o Estudo e Defesa do 
Folclore no Estado de Goiás, cujo texto foi 
aprovado pela Campanha de Defesa do Folclore 
Brasileiro. Uma pesquisa sobre as técnicas 
de tecelagem artesanal, realizada de 1972 a 
1977, constituiu uma coleção inteira de objetos 
(instrumentos de trabalho, desenhos de padrões 
JUiÀFRV\ufffd\ufffdWHFLGRV\ufffdHWF\ufffd\ufffd\ufffdGH\ufffdWHFHODJHP\ufffdDUWHVDQDO\ufffdH\ufffd
de registros de modos de fazer, dando início à 
GLYHUVLÀFDomR\ufffdGDV\ufffdFROHo}HV\ufffdGR\ufffd0XVHX\ufffdSDUD\ufffdDOpP\ufffdGDV\ufffd
coleções indígenas.
Os trabalhos pioneiros de Arqueologia tiveram 
início com a publicação, em 1972, da Carta 
Arqueológica \u2013 Divisão Regional para o 
Cadastramento de Sítios Arqueológicos do Estado de 
Goiás. Em 1975, professores e pesquisadores dos 
GHSDUWDPHQWRV\ufffdGH\ufffd$QWURSRORJLD\ufffd\ufffd*HRJUDÀD\ufffd\ufffd*HRORJLD\ufffd
e Química iniciaram o Projeto Arqueológico 
Anhanguera Estado de Goiás, coordenado por 
Margarida Davina Andreatta, do Museu Paulista.
A partir dessa pesquisa de base multidisciplinar 
teve início a formação de coleções arqueológicas 
que, em meados da década de 1990, passaram 
a constituir a maioria do acervo do Museu 
com o incremento de pesquisas de salvamento 
arqueológico. O desenvolvimento de projetos 
dessa natureza propiciou um substancial aumento 
GH\ufffdREMHWRV\ufffdFODVVLÀFDGRV\ufffdFRPR\ufffdGH\ufffdDUTXHRORJLD\ufffdSUp\ufffd
-histórica e histórica. O acervo arqueológico, 
incluindo líticos, cerâmicas, exsicatas e ósseos 
é de aproximadamente 145 mil peças.
Em 1974, a professora Edna Luísa de Melo Taveira 
realizou trabalho de campo entre os Karajá 
coletando dados para a sua dissertação de 
mestrado sobre cestaria Karajá. Mais tarde, nos 
anos de 1979 e 1980, voltou à aldeia Santa Isabel 
do Morro, na Ilha do Bananal, como integrante 
do projeto de pesquisa (WQRORJLD\ufffdH\ufffd(WQRJUDÀD\ufffdGRV\ufffd
Karajá, coordenado por Maria Heloísa Fénelon 
Costa, do Museu Nacional.
Essas pesquisas com o povo Karajá inauguram 
o que considero os primeiros movimentos no 
sentido de formar coleções baseadas na pesquisa 
HWQRJUiÀFD\ufffdTXH\ufffd\ufffdGHVGH\ufffdHQWmR\ufffd\ufffdWHP\ufffdPDUFDGR\ufffdD\ufffd
política de aquisição de acervo do Museu. Em 
1982, a professora Edna Luisa substituiu o 
sertanista Acary de Passos na direção do Museu 
Antropológico, cargo que exerceu até 1997.
Em 1984, novos estudos tiveram lugar junto 
aos Karajá com vistas à documentação das peças 
coletadas e já integradas ao acervo do Museu. 
Nesse caso não era o pesquisador que ia à aldeia 
UHDOL]DU\ufffdD\ufffdHWQRJUDÀD\ufffdH\ufffdD\ufffdFROHWD\ufffdGH\ufffdSHoDV\ufffd\ufffdPDV\ufffd
eram os indígenas que se dirigiam ao Museu e 
nele participavam do trabalho de documentação 
PXVHROyJLFD\ufffdGDV\ufffdSHoDV\ufffd\ufffdLGHQWLÀFDQGR\ufffdDV\ufffdVHJXQGR\ufffd
matéria-prima, usos funcionais e rituais e 
HYHQWXDLV\ufffdVLJQLÀFDGRV\ufffd\ufffdRX\ufffdVHMD\ufffd\ufffdUHDOL]DQGR\ufffd
uma espécie de HWQRJUDÀD\ufffdGR\ufffdREMHWR. Na mesma 
medida colaboravam também para a realização de 
exposições de itens de suas culturas.
Nos anos 1990, o Museu Antropológico, em 
parceria com a Secretaria de Educação do recém-
-criado estado do Tocantins, reuniu um grupo 
de linguistas da Faculdade de Letras e de 
antropólogos da Faculdade de Ciências Humanas 
H\ufffd)LORVRÀD\ufffdFRP\ufffdR\ufffdTXDO\ufffdGHVHQYROYHX\ufffdXP\ufffdSURMHWR\ufffd
de pesquisa interdisciplinar que considero dos 
mais importantes na relação do Museu com os 
.............................................................
1. Até o ano de 1982 o Museu inventariou 4.186 peças de 
diferentes origens indígenas, entre elas: Karajá do estado 
de Goiás e do atual estado do Tocantins; Xerente, Krahô e 
Apinayé, do atual Tocantins; Xavante, Yawalapiti, Kamayurá, 
Trumai, Kayapó, Txicão, Matipu, Swyá, Kayabi, Kalapalo, Waurá 
e Kuikuro, de Mato Grosso.
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povos indígenas, o de educação indígena, com 
inúmeras atividades e ações, entre elas, cursos 
realizados em aldeias Krahô, Apinayé, Xerente 
e Karajá, em Goiânia e em várias cidades do 
estado do Tocantins, produção e publicação de 
material didático e de exposições compartilhadas 
com professores indígenas etc. Com base 
nesse projeto, inúmeras dissertações e teses 
foram escritas, exposições e seminários foram 
realizados, línguas indígenas foram registradas e 
estudadas e coleções de objetos foram formadas.
Em 1992, o Museu se transfere da sede do Lago 
das Rosas para a sua sede atual, na Praça 
Universitária, na antiga Faculdade de Farmácia 
e Odontologia. Os anos que se seguiram à 
transferência também foram dedicados à criação de 
laboratórios e reservas técnicas e à consolidação 
da infraestrutura necessária à instituição, além 
da reestruturação, no novo ambiente museológico, 
da exposição de longa duração Museu Expressão de 
Vida, que permaneceu de 1985 a 1990 na sede do 
Museu no Lago das Rosas. Foi reaberta ao público 
em 1992, já na atual sede do Museu, e desmontada 
em 2001.
A partir de 2002, o Museu passou a desenvolver o 
projeto Ação Museológica: implantação de um novo 
sistema de comunicação museal para a exposição 
de longa duração do Museu Antropológico da UFG, 
ÀQDQFLDGR\ufffdSHOD\ufffd)XQGDomR\ufffd9LWDH\ufffd\ufffdHP\ufffdVXD\ufffdSULPHLUD\ufffd
HWDSD\ufffd\ufffd&RP\ufffdXPD\ufffdH[WHQVD\ufffdHTXLSH\ufffdGH\ufffdSURÀVVLRQDLV\ufffd\ufffd
técnicos e consultores internos e externos ao 
Museu, o projeto resultou na montagem, em 2006, 
da exposição de longa duração Lavras e Louvores, 
cuja curadoria dividi com a antropóloga Custódia 
Selma Sena.
De 2006 a 2008, as pesquisas com educação 
indígena tiveram continuidade com o projeto 
Aprendizado, socialização e cidadania de crianças 
Terena: interfaces entre a educação comunitária e 
familiar e a educação escolar, coordenado por uma 
antropóloga do Museu e desenvolvido em parceria 
com professores Terena da aldeia Cachoeirinha, no 
município de Miranda, no Mato Grosso do Sul. Além 
de pesquisa de campo, o projeto foi desdobrado em 
inúmeras atividades, como seminários em Goiânia 
e em Cachoeirinha, produção de material didático 
e exposições. O subprojeto Interlocução entre o 
Museu Antropológico e Professores Terena recebeu 
menção honrosa da primeira edição do prêmio Darcy 
Ribeiro, oferecido pelo Ministério da Cultura 
(MinC), através do Instituto Brasileiro de Museus 
(Ibram).
Em 2007 o Museu Antropológico iniciou formalmente 
estudos sobre patrimônio imaterial, com a 
realização da pesquisa Sistematização da 
documentação referente ao patrimônio cultural 
imaterial do Estado de Goiás, inventariando 
referências culturais documentais da região, 
FRP\ufffdÀQDQFLDPHQWR\ufffdGR\ufffd'HSDUWDPHQWR\ufffdGH\ufffd3DWULP{QLR\ufffd
Imaterial do Instituto do Patrimônio Histórico 
e Artístico Nacional (Iphan). De 2008 a 2011, o 
Museu desenvolveu o projeto Bonecas Karajá: arte, 
memória e identidade indígena no Araguaia.
As pesquisas com povos indígenas 
e a construção de lugares de 
interlocução
&RPR\ufffdRXWURV\ufffdPXVHXV\ufffdHWQRJUiÀFRV\ufffdEUDVLOHLURV\ufffd\ufffd
o Museu Antropológico da UFG foi fundado num 
contexto ideológico em que se acreditava que os 
processos de industrialização e urbanização em 
curso no país viriam provocar mudanças de tal 
monta que fariam desaparecer os modos de vida de 
vários grupos populacionais distanciados daqueles 
processos. Era, portanto, necessário e urgente 
resgatar e registrar aquilo que os intelectuais 
GH\ufffdYiULDV\ufffdÀOLDo}HV\ufffdLPDJLQDYDP\ufffdHVWDU\ufffdHP\ufffdYLDV\ufffdGH\ufffd
extinção, especialmente as expressões culturais 
indígenas, como artefatos, mitos, rituais, cantos 
e danças.
No ambiente universitário da época, início 
dos anos 1970, eu era aluna do curso de 
Ciências Sociais, e me recordo de professores \u2013 
principalmente os de Antropologia e de História, 
que também se ocupavam com a criação do Museu 
\u2013 ensinando sobre o modo de vida dos índios, 
os \u2018nossos antepassados\u2019, como se eles já não 
existissem mais. Nos relatórios de pesquisa, em 
GHSRLPHQWRV\ufffd\ufffdQDV\ufffdUHÁH[}HV\ufffdGDV\ufffd&LrQFLDV\ufffd6RFLDLV\ufffd
ORFDLV\ufffd\ufffdH\ufffdQD\ufffdEDVH\ufffdGDV\ufffdMXVWLÀFDWLYDV\ufffdSDUD\ufffdD\ufffd
criação do Museu)