QUESTÕES INDÍGENAS E MUSEUS - Regina Abreu
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QUESTÕES INDÍGENAS E MUSEUS - Regina Abreu


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outros casos, como os das coleções Canó e 
Passos, as peças foram coletadas por pessoas 
interessadas em populações indígenas, mas que, 
sem formação em antropologia, não tinham o 
REMHWLYR\ufffdHVSHFtÀFR\ufffdGH\ufffdIRUPDU\ufffdXPD\ufffdFROHomR\ufffdSDUD\ufffdXP\ufffd
museu, de forma que a coleta não foi realizada em 
um contexto de pesquisa. Nesses casos, algumas 
peças contam com informações sobre a etnia de 
origem, mas raramente sobre o local e a data 
HVSHFtÀFRV\ufffd\ufffdVREUH\ufffdRV\ufffdFRQWH[WRV\ufffdGH\ufffdDTXLVLomR\ufffd
e elaboração, formas de uso ou pessoas que os 
elaboraram. Em situação similar se encontram 
algumas peças adquiridas não diretamente entre os 
povos de origem, mas de intermediários. É o caso, 
por exemplo, do conjunto de peças que João Peret 
comprou da loja Tourismar Lembranças (Furtado, 
2006, p.318). Nessas situações, em que a coleta 
não acontece durante um processo de pesquisa, a 
descontextualização é dupla, não só porque no 
próprio ato de coleta os objetos são retirados 
do âmbito no qual foram produzidos, passando 
a se inserir em uma ordem alheia \u2013 e com isso 
PXLWRV\ufffdGRV\ufffdVLJQLÀFDGRV\ufffdH\ufffdXVRV\ufffdTXH\ufffdHOHV\ufffdSRVVXHP\ufffdHP\ufffd
origem são apagados \u2013, mas também porque muitas 
YH]HV\ufffdQmR\ufffdH[LVWHP\ufffdGDGRV\ufffdVXÀFLHQWHV\ufffdSDUD\ufffdRUJDQL]DU\ufffd
as peças coletadas nessa ordem alheia, a do 
museu. Como sublinham Berta Ribeiro e Lucia van 
9HOWKHP\ufffd\ufffd\ufffd\ufffd\ufffd\ufffd\ufffd\ufffd\ufffdPXLWDV\ufffdGDV\ufffdFROHo}HV\ufffdHWQRJUiÀFDV\ufffd
existentes carecem de documentação satisfatória.
Seguindo a tipologia de museus, em função de 
seus objetivos prioritários, sugerida por Regina 
Abreu (2007), na sua origem o MAE-UFPR parece 
VH\ufffdDGHTXDU\ufffdDR\ufffdFRQFHLWR\ufffdGH\ufffdPXVHX\ufffdHWQRJUiÀFR\ufffd
como lugar essencialmente de produção e difusão 
GH\ufffdFRQKHFLPHQWR\ufffdFLHQWtÀFR\ufffd\ufffd1RWHPRV\ufffdTXH\ufffdLVVR\ufffdR\ufffd
diferenciaria da proposta de Darcy Ribeiro para o 
Museu do Índio, que o encaixaria no segundo tipo 
GHÀQLGR\ufffdSRU\ufffd$EUHX\ufffd\ufffdR\ufffdPXVHX\ufffdFRPR\ufffdLQVWUXPHQWR\ufffdGH\ufffd
políticas sociais, associado a uma antropologia 
de ação (Couto, 2007). As particularidades do 
DFHUYR\ufffdHWQRJUiÀFR\ufffdGR\ufffd0$(\ufffd8)35\ufffdHVWmR\ufffdDVVRFLDGDV\ufffd
a aspectos do contexto histórico no qual foram 
formadas as coleções e às condições acadêmicas e 
ÀQDQFHLUDV\ufffdGR\ufffdPRPHQWR\ufffd8 mas também aos objetivos 
de seu principal incentivador. Loureiro Fernandes 
adquiriu e promoveu a coleta de material 
etnológico para constituir \u2018laboratórios de 
HWQRJUDÀD·\ufffdQR\ufffdUHFpP\ufffdFULDGR\ufffd'HSDUWDPHQWR\ufffdGH\ufffd
Antropologia. Quando ele advogou a criação 
do Maep, já contava com artefatos indígenas 
arrolados e registrados. Seu principal objetivo 
era usar os artefatos como material didático e 
ilustrativo em sala de aula, e para a organização 
de exposições (Furtado, 2006, p.317). O material 
foi em parte coletado com esse espírito, antes 
mesmo da criação do MAE e do DEAN.9 Esse fato 
remete a uma concepção do Museu \u2013 própria 
do século XIX \u2013 em que ele é confundido com 
\u201ccoleções de estudo\u201d (Furtado, 2006) ou pensado 
como repositório das expressões materiais das 
sociedades indígenas (Ribeiro; van Velthem, 2002, 
S\ufffd\ufffd\ufffd\ufffd\ufffd\ufffd\ufffd5HÁH[R\ufffd\ufffdRX\ufffdSURYD\ufffd\ufffdGHVVH\ufffdHQWHQGLPHQWR\ufffdVmR\ufffd
também as informações sobre as peças que existem 
QR\ufffdOLYUR\ufffdWRPER\ufffdH\ufffdQDV\ufffdÀFKDV\ufffdFDWDORJUiÀFDV\ufffdGD\ufffd
época: apenas são registradas informações sobre 
a qual etnia está associada a peça, o local e 
o ano de coleta e o seu agente. Eventualmente 
é registrada a denominação indígena. Não apenas 
essas informações são escassas, mas deve se 
considerar ainda que existem muitas peças sem 
registro, das quais não temos sequer essas 
informações básicas. É claro que as coleções 
do MAE devem ser consideradas como documentos 
(Ribeiro; van Velthem, 2002; Stocking, 1985) 
.............................................................
7. Além da sua crucial contribuição na conformação da 
coleção xetá e na produção dos registros audiovisuais das 
expedições, existem no MAE peças que Kozák adquiriu entre 
vários grupos do Alto Xingu, entre os Kayapó, Xavante, 
Karajá e Ka\u2019apor.
.............................................................
\ufffd\ufffd\ufffd)XUWDGR\ufffd\ufffd\ufffd\ufffd\ufffd\ufffd\ufffd\ufffdDSUHVHQWD\ufffdFRP\ufffdGHWDOKH\ufffdDV\ufffdGLÀFXOGDGHV\ufffd
SROtWLFDV\ufffd\ufffdÀQDQFHLUDV\ufffdH\ufffdDFDGrPLFDV\ufffdHQIUHQWDGDV\ufffdSRU\ufffd/RXUHLUR\ufffd
Fernandes para a criação do MAE.
9. Num relatório de 1942 se menciona, por exemplo, que 
D\ufffdFROHomR\ufffdMi\ufffdGLVSRQtYHO\ufffdFRPR\ufffdJDELQHWH\ufffdGH\ufffdHWQRJUDÀD\ufffdQD\ufffd
universidade estava composto por material kayapó e karajá, 
material dos índios botocudos do Paraná e algumas peças 
tukano e maku (Furtado, 2006, p.134-135).
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da época. Nesse sentido eles têm um valor não 
apenas como fonte de informação sobre os grupos 
indígenas aos quais pertenceram os objetos que as 
compõem, mas também porque documentam uma forma 
de pensar sobre os indígenas e uma forma de fazer 
antropologia. Ou seja, não se referem apenas 
a quem elaborou e usou os objetos, mas também a 
quem os coletou. E esse é um aspecto fundamental 
a ser considerado, porque os dados que eles 
possam nos fornecer sobre os povos indígenas 
devem ser balizados e analisados levando em 
consideração esta outra informação: a que diz 
respeito às diretrizes que orientaram a coleta e 
que impuseram um determinado recorte sobre o tipo 
de peças coletadas, as etnias escolhidas como 
merecedoras de inclusão nas coleções do museu 
ou as informações importantes a serem coletadas 
sobre as peças.
Em relação às diretrizes que orientavam o tipo de 
informação relevante a ser registrada \u2013 sempre 
que a coleta fosse acompanhada de pesquisa \u2013 
é interessante considerarmos o caso Xetá, a 
coleção de peças mais bem documentada das que 
H[LVWHP\ufffdQR\ufffd0$(\ufffd\ufffd7DQWR\ufffdDV\ufffdIRWRJUDÀDV\ufffdTXDQWR\ufffdRV\ufffd
ÀOPHV\ufffdSURGX]LGRV\ufffdH\ufffdDV\ufffdGHVFULo}HV\ufffdSRVWHULRUPHQWH\ufffd
publicadas direcionam o foco aos aspectos 
técnicos da elaboração das peças (materiais 
usados, processo de fabricação desde a coleta 
GDV\ufffdPDWpULDV\ufffdSULPDV\ufffdDWp\ufffdR\ufffdSURGXWR\ufffdÀQDO\ufffd\ufffdH\ufffdDRV\ufffd
FRQWH[WRV\ufffdGH\ufffdXVR\ufffd\ufffdERD\ufffdSDUWH\ufffdGDV\ufffdIRWRJUDÀDV\ufffd
realizadas nos mostram os processos de elaboração 
de cestos, o uso dos machados e formões, as 
diversas formas dos pilões para o processamento 
de alimentos, ou a forma de fabricação de 
material lítico. Poucas informações nos são 
oferecidas, entretanto, sobre aspectos da vida 
dos Xetá que não tenham como foco algum tipo 
de artefato. Por exemplo, nos é oferecida uma 
detalhada descrição do processo de fabricação dos 
tembetás, característicos por sua forma peculiar 
e por serem elaborados com resina; entretanto, 
excetuando a informação de que apenas os homens 
os usavam e de que a perfuração do lábio inferior 
HUD\ufffdUHDOL]DGD\ufffdQR\ufffdÀQDO\ufffdGD\ufffdLQIkQFLD\ufffd\ufffdQmR\ufffdVH\ufffdRIHUHFH\ufffd
QHQKXPD\ufffdLQIRUPDomR\ufffdVREUH\ufffdR\ufffdVLJQLÀFDGR\ufffdGH\ufffdVHX\ufffdXVR\ufffd
para os Xetá. Vários outros objetos, cuja forma 
de uso não é evidente, como garras e crânios de 
animais, são coletados sem registrar nenhum tipo 
de informação sobre eles, tornando-se objetos 
totalmente opacos para o processo de pesquisa.10 É 
importante notar, ainda, que, apesar de acontecer 
a pesquisa e esta nos fornecer informações de 
suma importância sobre as peças, tratava-se de 
expedições de pesquisa de curta duração que não 
permitiam maior aprofundamento sobre a cultura e 
a sociologia dos coletivos indígenas.
Essa orientação é focada nos processos técnicos de 
elaboração e no contexto de uso \u2013 o que estava em 
consonância com a atuação de Loureiro Fernandes 
como arqueólogo \u2013, mas deixa de fora outros 
aspectos como os sentidos indígenas associados 
aos objetos, ou ainda, conforme uma renovada 
SHUVSHFWLYD\ufffdVREUH\ufffdDV\ufffdFRLVDV\ufffd\ufffdRV\ufffdVLJQLÀFDGRV\ufffd
\u201cinscritos em suas formas, seus usos, suas 
trajetórias\u201d (Appadurai, 2008, p.17). O foco nos 
aspectos tipológicos, descritivos, tecnológicos e 
QRV\ufffdFRQWH[WRV\ufffdGH\ufffdXVR\ufffdVH\ufffdUHÁHWH\ufffdWDPEpP\ufffdQD\ufffdSURGXomR\ufffd
ELEOLRJUiÀFD\ufffdGD\ufffdpSRFD\ufffdVREUH\ufffdFXOWXUD\ufffdPDWHULDO\ufffd\ufffdGH\ufffd
forma que a pesquisa dos acervos se vê limitada 
SHOR\ufffdIDWR\ufffdGH\ufffdD\ufffdSURGXomR\ufffdHWQRJUiÀFD\ufffdFRHWkQHD\ufffdGDV\ufffd
coletas seguir as mesmas diretrizes quanto à 
concepção da cultura material.
3RUpP\ufffd\ufffdD\ufffdUHÁH[mR\ufffdH\ufffdD\ufffdDQiOLVH\ufffdVREUH\ufffdRV\ufffdREMHWRV\ufffd
HWQRJUiÀFRV\ufffdYLUDP\ufffdVH\ufffdHVWDJQDGDV\ufffdQD\ufffdPHGLGD\ufffd