Apostila_CPC_Comentado
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O art. 3.° do CPC exige, para propor ou conte star a ação, a exibição de 
interesse. Em que pesem as enganosas disposições do estatuto (art. 295, 
III, e art. 267, VI, c/c art. 301, X), a ausência de interesse não 
condiciona a existência do processo ou da ação, provendo o juiz sobre o 
mérito ao admiti -lo ou rejeitá-lo. 
 
4.1 Interesse processual do réu \u2013 Em relação ao réu, a exigência do 
art. 3.° suscita a crítica há pouco expendida: seu interesse decorre tão -
só do seu chamamento a juízo, porque, não reagindo à iniciativa do 
autor, no mínimo se sujeitará à rígida disciplina imposta à contumácia \u2013 
na qual avul ta a presunção de que cuida o art. 319 \u2013 , e quase fatalmente 
sucumbirá, suportando os efeitos, no plano material, do direito alegado 
pelo adversário. Assim, a \u201cutilidade a t irar da defesa\u201d, lembrada po r 
Lopes da Costa (Direito processual civil brasileiro , v. 1, n.° 96, p. 111), 
mostra-se inerente à condição de acionado em juízo. O que pode 
acontecer é a desnecessidade de alguma das modalidades de resposta 
(art. 297), ou incidente e recurso postos à disp osição das partes, para o 
réu se forrar àqueles efeitos. Por exemplo, revela -se desnecessário o réu 
reconvir, pedindo a declaração da existência da relação jurídica, na 
ação em que o autor pretende declarar sua inexistência, porque o juízo 
de improcedência \u201cencerra também a declaração posit iva dessa 
existência\u201d (Alfredo Buzaid, A ação declaratória no direito brasileiro , 
n.° 207, p. 342) 
 
4.2 Interesse processual do autor \u2013 No tocante ao autor, o dispositivo 
alude ao interesse processual, relativo ao emprego do processo para 
resolver o conf lito, e, não, aos interesses econômico e moral (José 
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Rogério Cruz e Tucci, A \u2018causa petendi\u2019 no direito processual civi l 
brasileiro , n.° 4.6, p. 173). Esses interesses se subordinam ao bem da 
vida pretendido, e, portanto, ao direito posto em causa, cuja distinção 
com o direito ao processo é essencial (Cândido Rangel Dinamarco, 
Inst ituições , v. 2, n.° 544, p. 300). Bem notou José Carlos Barbosa 
Moreira (\u201cAção declaratória e interesse\u201d, n.° 2, p.10) que a variação 
quantitativa do interesse, às vezes mais ou menos intenso, não se mede 
por variáveis econômicas, que dependem daquilo cuja obtenção 
interessa; para algumas pessoas, a obrigação de pequeno valor interessa 
mais do que para outras, e, nada obstante, todas exibem idêntico e 
inobscurecível interesse processual de receber o crédito em juízo. 
 
Na vigência do CPC de 1939, para elidir os termos do seu art. 2.°, que 
reclamava a conf iguração dos interesses econômico e moral, ecoando a 
verba legislativa análoga do art. 76 do CC de 1917 \u2013 não há regra 
correspondente no CC de 2002 \u2013 a doutrina apegava-se a dois vetores: 
na necessidade da tutela judiciária (Gabriel de Rezende Filho, Curso , v. 
1, n.° 177, p. 157); ou, diversamente, na utilidade que resultaria dessa 
tutela (Lopes da Costa, Direito processual civil brasileiro , v. 1, n.° 94, 
p. 109). Consoante Celso Agrícola Barbi (Comentár ios , n.° 24, p. 26), 
esta última concepção é mais liberal, pois \u201ctudo que é necessário é útil, 
mas nem tudo que é út il é necessário\u201d. De outro ponto de vista, a 
imposição da utilidade restringiria o ingresso em juízo, subtraindo a 
livre escolha do autor, na medida em que reclama do pronunciamento 
judicial a efetiva solução da lide (Moniz de Aragão, Comentár ios , n.° 
526, p. 404). É o caso de o autor pretender, já conf igurada a violação 
do direito, a simples declaração em lugar da condenação, pois somente 
a última providência, que pressupõe aquela, põe f im ao li tígio (Lui z 
Machado Guimarães, \u201cDo interesse à simples declaração\u201d, p. 164). O 
art. 4.°, parágrafo único, autorizou o pedido de simples declaração, na 
hipótese versada, pondo termo às divergências a respeito (João Batista 
Lopes, Ação declaratória , n.° 3.13, p. 117), e dele se infere a nítida 
opção pela primeira corrente, na linha preconizada por Alfre do Buzaid 
(A ação declaratória no direito brasileiro , n.° 166, pp. 270-271). 
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Assinala-se, com plena propriedade, que não se pode excluir o interesse 
a determinada providência judicial ainda que ela se revele menos 
extensa em relação a outra qualquer (José Carlos Barbosa Moreira, 
\u201cAção declaratória e interesse\u201d, n.° 2, p. 10). Não se cuida, 
evidentemente, de exceção à regra geral, como aponta Moniz de Aragão 
(Comentár ios , n.° 527, p. 405), mas de solução ad hoc , apesar de 
criticável (José Carlos Barbosa More i ra, \u201cAção declaratória e 
interesse\u201d, n.° 8, pp. 18 -20). 
 
Evoluiu a doutrina contemporânea para noção sincrética. Prende -se o 
interesse tanto à necessidade do processo, sem o qual o autor não 
logrará o bem da vida pretendido, quanto à aptidão do provimento 
pleiteado para concedê-lo (Cândido Rangel Dinamarco, Inst ituições , v. 
2, n.° 544, p. 300; José Rogério Cruz e Tucci, A \u2018causa petendi\u201d no 
direito processual civil brasileiro , n.° 4.6, p. 173). É uma solução bem 
liberal. Leva na devida consideração o bem d a vida almejado e não se 
sobrepõe às opções da parte. Assim, o autor pode pretender certeza 
quanto à existência do seu crédito e sua exeqüibilidade \u2013 efeito da 
declaração \u2013 e, mesmo já dispondo de título executivo, optar pela 
condenação do réu (Araken de A ssis, Comentár ios , n.° 82, p. 181), ao 
contrário do que sustenta Moniz de Aragão ( Comentár ios , n.° 527, p. 
405). 
 
4.3 Interesse processual e força da ação \u2013 Não há, portanto, um 
conceito peculiar de interesse de agir para cada remédio processual 
específ ico, seja no tocante à ação declaratória (José Carlos Barbosa 
Moreira, \u201cAção declaratória e interesse\u201d, n.° 7, p. 17), seja em relação 
a qualquer outra ação. O binômio que compõe o interesse (necessidade 
+ utilidade) se aplica genericamente \u2013 do contrário, outra noção, mais 
abrangente, ocuparia seu lugar \u2013 , convindo tão-só ressal tar aspectos 
particulares em reforço e prova de sua aceitação geral. Os estudos 
dedicados à ação declaratória, neste tópico (Torquato Castro, Ação 
declaratór ia , n.° 34, pp. 87-94; Alfredo Buzaid, A ação declaratória no 
direito brasileiro , n.° 163, pp. 264-264; João Batista Lopes, Ação 
 82 
declaratór ia , n.° 3.4.3, pp. 53-60; Adroaldo Furtado Fabrício, A ação 
declaratór ia incidental , n.° 21, pp. 33-35), evidenciaram o caráter 
unívoco do conceito. Por exemplo, concebe-se o pedido de declaração 
anterior ao nascimento da relação jurídica (José Carlos Barbosa 
Moreira, \u201cAção declaratória e interesse\u201d, n.° 6, pp. 15 -16), desde que 
se conf igure o referido interesse, bem apanhado na fórmula de que a 
hipotética controvérsia se situe em futuro não muito distante 
(Rosenberg-Schwab, Zivilprozessrecht , § 94, II, 2, p. 474). 
 
Em princípio, o interesse dimana da narrativa do autor (Pontes de 
Miranda, Comentár ios , v. 4, p. 15), f icando subentendido no objeto 
litigioso. Por exemplo, na ação de força condenatória, o interesse 
resulta da lesão ao direito alegado (Aldo Attardi, L\u2019interesse ad agire , 
p. 81); na ação executiva, do inadimplemento imputável ao obrigado, a 
teor do art. 580, parágrafo único (Araken de As sis, Manual do processo 
de execução , n.° 22, pp. 189-190); na ação consti tutiva, da alegação do 
direito a estado jurídico novo (Aldo Attardi, Dir it to processuale civile , 
v. 1, p. 69); na ação declarativa, da pretensão à certeza outorgada pela 
ef icácia de coisa julgada (João Batista Lopes, Ação declaratória
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