Apostila_CPC_Comentado
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DisciplinaDireito Processual Civil II7.505 materiais138.212 seguidores
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CARNELUTTI 34, por seu turno, inic ialmente, definiu 
jur isdição como at ividade estatal dir igida a so lucionar uma lide, 
entendida como conflito de interesses qualificado por uma pretensão 
resist ida. Excluía do conceito a execução: 
( . . . ) Não me preocupa que no t r anscurso da h istór ia e 
inclusive na lei a tual a palavra \u201cjur isdição\u201d se ut i l ize fora dos 
l imites de seu sign ificado natural , para indicar qualquer 
função processual . Tal uso se deve à preponderância que teve 
o processo jur isdici onal na len ta elaboração do pensamento 
acerca dos fenômenos processuais. O processo execut ivo e , 
em geral , os outros t ipos de processo permaneceram até on tem 
na sombra, e desse modo a noçã o de jur isdição absorveu 
integralmen te a noção de processo. 
 
31 CALAMANDREI, Piero. Límites en tre jur isdicci ón y admin istr ación en la 
sen tencia civi l . In: Estudi os de derecho pr oc esal c ivi l . Buenos Aires: Edi tor ia l 
Bi bl iográfica Argen t ina, 1961, p.48. 
32 ENRICO ALLORIO (Ensayo Polémico sobre la \u201cJur isdicci ón Volun taria\u201d. In: 
Problemas de Derecho . Buenos Aires: Ejea , 1963, t. II , p.15): \u201c.. . o sea de la 
jur isdicci ón de declaración de cer teza , in separable de la presencia del efect o 
declara t ivo, que iden t i fico con la cosa juzgada . . .\u201d . 
33 COUTURE, Eduardo J. Fundamentos del der echo pr ocesal c ivi l . 2 .ed. Buenos 
Aires: Depalma, 1981, p.42 -43. 
34 CARNELUTTI, Francesco. Siste ma de direito processual c ivi l . Tradução de 
Hil tomar Mar t ins Oliveira . São Paulo: Classic Book, 2000, v. I , p.222. 
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JOSÉ FREDERICO MARQUES 35 assevera que \u201ca at ividade 
jur isdicional pressupõe, sempre, uma situação conten ciosa anter ior\u201d, ou 
seja, para exist ir processo jur isdicional é mister que haja pretensão 
anter ior resist ida. Ainda, OVÍDIO 36 afirma que \u201co vício da doutrina 
carnelut t iana reside \u201c(. . .) em procurar definir o ato jur isdiciona l 
indicando não o que ele é, mas aquilo a que ele serve; não o seu ser, mas 
a sua função, ou a sua fina lidade\u201d. E mais: conceituando-se a 
contencios idade como ato jur isdicional, não há como explicar a 
jur isdicionalidade dos atos de jur isdição vo luntár ia e dos atos 
execut ivos. 
Entretanto, revisando seu posicionamento, CARNELUTTI veio a 
ampliar o conceito de lide, para inc luir não só pretensões negadas ou 
resist idas, mas também pretensões não negadas, com o que se reconheceu 
o caráter jur isd icional da execução. 
Estatalidade e imparcia lidad e são as caracter íst icas da jur isdição, 
consoante a teor ia formulada por OVÍDIO 37: 
a) o a to jur isdicional é pra t icado pela autor idade esta ta l , 
no caso pel o juiz , que o r eal iza por dever de função, o juiz a o 
apl icar a lei ao caso concreto prat ica essa a t ivid ade com o 
final idade especí fica de seu agir , ao passo que o 
admin istr ador deve desenvol ver a a t ividade especí fica de sua 
função t endo a lei por l imite de sua ação, cu jo objet i vo não é 
a apl icação simplesmente da lei ao caso concreto, mas a 
r eal ização do bem comum, segundo o dir ei to objet i vo; b) o 
outro componen te essencia l do a to jur isdicional é a condiçã o 
de terceiro imparcia l em que se encon tra o juiz com relaçã o 
ao in teresse sobre o qual r ecai a sua a tividade. Ao real izar o 
a to jur isdicional , o juiz man tém-se numa posi ção d e 
independência e est r aneidade rela t ivamente ao interesse. 
A tese da imparc ialidade destaca a circunstância de que a 
jur isdição envo lve heteroregulação, visando a estabelecer \u201cregu lação de 
relações est ranhas ao julgador; não de relações de que seja parte\u201d , 
consoante aduz TESHEINER 38. 
 
35 MARQUE S, José Freder ico. Insti tuiç ões de direito processual c ivi l . 3 .ed. Rio de 
Janeiro: Forense, 1967, p.261. 
36 SILVA, Ovídio Araújo Bapt ista da . Curso de Processo Ci vi l . 7.ed. Ri o de Janeiro: 
Forense, 2006, p.24. 
37 Idem, ibidem, p .24. 
38 TESHEINE R, José Mar ia Rosa. Elementos para uma teoria geral do processo . 
São Paulo: Saraiva , 1993, p.71. 
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Para SCHÖNKE 39: \u201cJur isdicción es el derecho y el deber al 
ejercicio de la función de just icia, y jur isdicción civil significa, en 
consecuencia, el derecho e el deber de juzgar en asuntos civiles\u201d . Para 
ARAKEN DE ASSIS 40: \u201cO poder do Estado dest inado a eliminar o 
conflito se chama jur isdição\u201d. 
Destarte, aqui defendemos o ponto de vis ta de que jur isdição é o 
poder do Estado em aplicar e apropr iar regras de direito objet ivo a uma 
pretensão regularmente deduzida; jur isdição é o poder do Estado de dizer 
o direito . Logo, por todo o exposto , refutamos a teor ia de CHIOVENDA, 
uma vez que a mesma encontra empecilhos de caráter prát ico, eis que nas 
at ividades inerentes à prestação jur isdicional (at ividades es sas que dizem 
respeito à competência e à suspe ição) inexiste qualquer possibilidade de 
ocorrer a subst itut ividade. No que tange à teoria defendida por 
ALLORIO, ressaltamos que, em níve l processua l, a mesma padece de 
robustez, dada a exclusão de objet ividade e a sua limit a ção prát ica. 
Relat ivamente à teoria patrocinada por CARNELUTTI, aduzimos que a 
idéia de lide não tem o condão de conceituar a jur isdição , e, sim, 
somente de caracter izá- la como tal. Concernentemente à teor ia 
acastelada por OVÍDIO ARAÚJO BAPTISTA DA SILVA, entendemos 
que a mesma é de fácil argumentação contrár ia , dada a débil atenção à 
questão da jur isdição penal. 
Pois bem, teorias doutrinár ias (acerca do conceito de jur isdição) à 
parte, o importante é ressalt ar que é da garant ia do acesso à just iça, da 
garant ia ao acesso à jur isdição prevista no inciso XXXV do art igo 5º da 
Const ituição Federal, que advém o direito fundamental à efet ividade 
processual. Segundo CÂNDIDO RANGEL DINAMARCO 41, tem-se no 
disposit ivo em comento o \u201cpr incíp io-síntese e objet ivo final\u201d do acesso à 
just iça. Já, conforme acentua CÍNTIA TERESINHA BURHALDE MUA 42: 
 
39 SCHÖNKE, Adol fo. Derecho Procesal Civi l . Barcelona: Bosch , 1950, p.49. 
40 ASSIS, Araken de. Cumulação de Ações . 4 .ed. São Paulo: Revista dos Tr ibunais, 
2002, p.52. 
41 DINAMARCO, Cândido Rangel . Insti tuições de Direito Processual Ci vi l . 5 .ed. 
r ev. e a tual. , São Paulo: Malheiros, 2005, v. I , p.134 e 267. 
42 MUA, Cín t ia Teresinha Burhalde. Acesso material à jurisdição: da legit imidade 
ministerial na defesa dos indi viduais homogêneos . 2006. Disser tação (Mestrado) \u2013 
PUCRS, p.12. 
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\u201cOntológica e finalist icamente, o acesso universal à just iça visa à 
produção de resultados individual e socialmente justos \u201d. 
A tutela jur isdicional deve ser prestada dentro de um pra zo 
razoável, como determina do pela Emenda Const ituciona l nº 45/2004, 
com a introdução do inciso LXXVIII ao art igo 5º da Const ituição 
Federal 43. A so lução do processo em prazo razoável é o que se busca 
encontrar : um ponto de equilíbr io entre os ideais de segurança e 
celer idade 44. No Brasil, o pr incípio da razoável duração do processo fo i 
inser ido por força da Emenda Const itucional nº 45 e fo i elevado à 
garant ia const itucional em que pese tal pr incípio estar consubstanciado 
no nosso sistema jur ídico desde 1973, no próprio Código de Processo 
Civil, mais precisamente no inciso II do
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