Apostila_CPC_Comentado
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nele receberá tutela, aduz 
Marco Tullio Zanzucchi (Diritto processuale civile, v. 1, n. ° 54, pp. 51-
54), e, evidentemente, semelhante pretensão se dir ige contra o Estado, 
que lhe dará a resposta conveniente em cada hipótese concreta. Trata -se, 
pois, de um direito subjet ivo público, inst ituído a part ir do veto à just iça 
de mão própria, ou autotutela, que interdit a os part iculares de reso lverem 
por si seus conflitos. Ninguém \u201ccarece\u201d de açã o, acrescenta Calmon de 
Passos (A ação no direito processual civi l brasileiro, n.° 21, pp. 52-56), 
e, neste sent ido, as \u201ccondições\u201d da ação não inibem o direito de agir em 
juízo. Conforme remarcam Cornu-Foyer (Procédure civile , n. ° 72, p. 
312), \u201cnulle demande ne do it donc rester sans réponse du juge\u201d 
(nenhuma demanda deve ficar sem resposta do juiz), qualquer que seja: 
inadmissibilidade, improcedência ou procedência. Em qualquer das 
hipóteses, houve processo e, conseguint emente, ação. 
 
Nada obstante, o poder ilimitado de provocar a autor idade judic iár ia 
suscitou reações de or igens var iadas. Para Galeno Lacerda ( Despacho 
saneador , p. 76), deste modo formar -se- ia uma relação processua l 
\u201cjust ificada apenas em termos de direito const itucional\u201d; ressent indo -se 
da falta das condições da ação, a relação \u201campara -se pelas abstrações do 
direito const ituciona l, mas {é} ilegít ima segundo os preceitos do direito 
judic iár io\u201d. Idênt ico revela -se o entendimento de Jaime Guasp ( Derecho 
procesal civil , v. 1, p. 215): o direito de acudir aos t r ibuna is é diferente 
da ação, representando \u201cum pressuposto do processo, que permanece fora 
dele, e que melhor se acomoda no terreno civil, talvez no terreno 
polít ico, talvez em ambos\u201d. Nesta linha de raciocínio, dist ingue -se entre 
ação e d ireito ao processo, basicamente porque soa grave que todos, sem 
exceção, exibam aquela; porém, não se entrevê inconveniente em atr ibuir 
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gener icamente este últ imo. Notou Pontes de Miranda ( Tratado das ações , 
v. 1, § 33, p. 169) que semelhante concepção reve la o idealismo de seus 
autores, a gr itante fa lta de co incidência entre o real e o ideal: \u201c preferiam 
que só pudesse ir a juízo quem tivesse razão , e racionavam, no terreno 
jur ídico, como se assim fosse\u201d. 
 
1.4 Conceito eclético de ação \u2013 Desta reação ao caráter abstrato e 
genér ico do direito ao processo surgiu a concepção dominante. A ação 
dist ingue-se do poder geral e incondicionado de provocar a at ividade 
jur isdicional do Estado, buscando -se um meio termo, com o fito de evitar 
exageros de outorgar ação àque les autores cuja demanda não reúna 
requisitos de admiss ibilidade para passar ao exame do mér ito . Coube a 
Galeno Lacerda (Despacho saneador , p . 76; \u201cEnsaio de uma teoria 
eclét ica da ação\u201d, p. 11) a pr imazia no emprego do adjet ivo \u201ceclét ica\u201d 
para semelhante teoria. Para os empedernidos defensores dessa idéia, o 
direito que preexiste ao processo é o de demandar em juízo, enquanto a 
ação consiste na possibilidade de o órgão judiciár io examinar o mér ito , 
seja a favor, seja contra o autor. O exame do mér ito press upõe a 
observância das \u201ccondições\u201d da ação. Por isso, o art. 267, VI, do CPC 
prevê a ext inção do processo, sem julgamento do mér ito , falt ando 
qualquer das condições da ação, incumbindo ao réu, na sua falt a, alegar a 
\u201ccarência\u201d da ação pelo autor (art . 301, X). Outras disposições aludem, 
por igual, a tais \u201ccondições\u201d (art . 295, II e III, e parágrafo único, III). 
Inspirou-se o leg islador brasile iro, neste passo, na lição assaz difundida 
de Enr ico Tullio Liebman (Corso di dirit to processuale civile, n.° 9, p. 
36; Manuale di diritto processuale civile , v. 1, n. ° 73, pp. 121-123). 
 
Por óbvio, a adesão do texto normat ivo, de modo tão claro e 
inequívoco, a uma das teor ias elaboradas acerca do controverso conce ito, 
suscitou compreensíve is cr ít icas (Araken de Ass is, \u201cSobre o método em 
processo civil, n.° 2, pp. 155-156) ; por exemplo, Celso Agr íco la Barbi 
(Comentários , n. ° 20, p. 23), averba de \u201cd iscut ível\u201d a orientação do 
legislador, pois a engenhosa tese de Liebman \u201cnão resiste a uma análise 
mais apro fundada\u201d. 
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E, de fato, reconhecendo Liebman o poder indeterminado e 
inconsumível de provocar a jur isdição e const ituir o processo, embora 
dist into da ação, cuja existência dependerá da ver ificação de t rês 
\u201ccondições\u201d \u2013 legit imidade, interesse e possibilidade do pedido \u2013 , e 
considerando esta o direito a obter o julgamento do mér ito , situou tais 
\u201ccondições\u201d antes e fora do mér ito ( Manuale, v. 1, n. ° 9, p. 35). Ao 
mesmo tempo, deixou de explicar, embora correlacione ação, processo e 
jur isdição, o que acontece quando o órgão judiciár io julga o autor 
carecedor da ação. O silêncio conduz ao rematado absurdo de que não 
exist iu processo, nem at ividade jur isdicional (Liebman, \u201c L\u2019azione nella 
teoria del processo civile\u201d, n. ° 6, pp. 46 -47). 
 
Consoante Liebman, são t rês as \u201ccondições\u201d da ação: a legit imidade, 
definida como a \u201cpert inência subjet iva\u201d, at iva e passiva, da ação (\u201cO 
despacho saneador e o julgamento do mér ito\u201d, n. ° 11, p. 127) ; o 
int eresse, \u201ca ut ilidade e a necessidade de conseguir o recebimento\u201d do 
pedido (\u201cO despacho saneador e o julgamento do mér ito\u201d, n. ° 11, p. 
125); a possibilidade jur íd ica do pedido, a admissibilidade do 
provimento demandado, em tese, no ordenamento ( Corso , n. ° 14, p. 15). 
Esta últ ima \u201ccondição\u201d desapareceu, antes da vigência do CPC 
brasileiro, com a e l iminação, na Itália, do seu mais caro exemplo, que 
era o veto ao divórcio, disso lvendo -a Liebman no campo do interesse 
(Manuale , n. ° 74, p. 121). Ademais, evidenciou Moniz de Aragão 
(Comentários , n.° 521, pp. 393-398) que, vedando o ordenamento pátrio 
o ju iz de abster-se de julgar ante a lacuna da lei (art . 126), o requisito há 
de ser entendido como a proibição \u201cque o torne inviáve l\u201d. Como quer 
que seja, os adeptos dessa corrente est imam que, faltando tais 
\u201ccondições\u201d, apuradas at ravés das afirmações do au tor ou depo is da 
inst rução da causa, não há ação, conforme diagnost icou Kazuo Watanabe 
(Da cognição no processo civil , n. ° 16.3, p. 64). 
 
Ora, isto não é exato, nem sucede na realidade. A legit imidade, ou 
capacidade de conduzir o processo, const itui pressu posto processual. A 
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sua falta implica juízo de inadmissibilidade (Othmar Jauernig, 
Zivilprozessrecht , § 22, II, p. 71). O interesse integra a causa de pedir, 
deflu indo \u201cda exposição fát ica consubstanciada na causa petendi remota\u201d 
(José Rogér io Cruz e Tucci , A \u2018causa petendi\u201d no direito processual 
civil brasileiro , n.° 4.6, p. 173; Araken de Assis, Cumulação de ações , 
n. ° 33, p. 152) e, portanto, pertence ao mér ito . Faltando o interesse de 
agir o órgão judic iár io, a r igor, julgará a ação improcedente (Othmar 
Jauernig, Zivilprozessrecht , § 22, I , p. 71). É preciso atentar que a ação 
poderá ser renovada, porque a co isa ju lgada não vai além do decidido \u2013 
inexigibilidade temporár ia do crédito, por exemplo \u2013 e não se revela 
imune a fatos supervenientes (José Maria Rosa Tesheiner, Eficácia da 
sentença e coisa julgada no processo civil , n. ° 1.7, p. 31). E a 
possibilidade jur íd ica do pedido, naquelas causas em que o problema se 
apresenta, é o próprio mér ito . E, de resto, não há nenhuma diferença 
entre o juízo emit ido antes ou depo is da co leta da prova a respeito desta