Valores políticos aos olhos das crianças
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Valores políticos aos olhos das crianças


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de homens mortais\u201d 
(ARENDT, 2003, 64). Portanto, aqueles que agem na esfera pública devem se preocupar 
com ações e discursos que possam transcender a duração de suas próprias vidas. Esta 
postura encontra adjacência com a preocupação recorrente das crianças com questões 
ambientais trazidas até então. 
Segundo Arendt, \u201co mundo comum é aquilo que adentramos ao nascer e que 
deixamos para trás quando morremos\u201d e quando há uma preocupação com este mundo 
comum, pode-se entender que \u201cos homens ingressam na esfera pública por desejarem que 
algo seu, ou algo que tinham em comum com outros, fosse mais permanente que as suas 
vidas terrenas\u201d (ARENDT, 2003, 65). 
A forma, porém, com que a política vai pertencer ao cotidiano das crianças frente a 
esta preocupação e permanência no mundo comum, vai possuir contornos variados. 
Mesmo sendo possível demonstrar esta preocupação das crianças com o mundo comum, a 
política só aparece como um elemento presente em seu cotidiano quando esta é feita por 
terceiros para seu maior conforto. Isto é, enquanto legitimamente realizada por 
representantes que tem como função trazer melhorias para indivíduos passivos frente à 
política. 
PESQUISADORA \u2013 E você RK, o que você acha que a política tem a ver com o seu dia-
a-dia? 
RK - Eu acho... Que o Arruda... Ai, sei lá, eu acho que pra dar uma vida melhor pra 
gente ter casa. 
PESQUISADORA \u2013 É? E você já viu alguma coisa da política fazer diferença na sua vida 
assim? Que você achou, isso tem a ver com política. 
RK - Ixi... Sei não... Posso ir no banheiro? 
PESQUISADORA \u2013 Pode. 
LG - O que a política tem a ver com a gente...? 
PESQUISADORA \u2013 É. 
LG - Porque todo dia assim ele constrói novos asfaltos, novas casas, dá nossa roupa 
pra gente ir na escola. E constrói novos postos policiais, para dar mais segurança 
para nossa cidade. 
A política também pôde ser identificada no cotidiano das crianças como forma de 
obter benefícios por meio de um sistema de troca. Além de revelar uma percepção 
minimamente assistencialista da política, em que o político é quem \u201cdá\u201d aquilo que se 
necessita, esta questão ressalta um elemento comum àqueles que possuem resistência em 
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atribuir à criança a denominação de cidadão. A cidadania só pode ser construída com base 
em um fluxo e um contra-fluxo pautado em deveres e direitos, isto é, à criança pode-se 
atribuir apenas direitos e não deveres perante a política institucional presente em nossa 
Constituição Federal. Neste estudo, contudo, não houve a intenção argumentativa de 
entender a criança enquanto cidadã perante nossa política institucional, ou seja, enquanto 
eleitora. Porém, enquanto sujeita às ações políticas, pode-se perceber que são atribuídos a 
elas deveres concernentes à esfera pública. O dever que certamente aparece com maior 
destaque é o de freqüentar a escola e concluir um bom ensino. Configurando-se tal dever 
como uma forma das crianças relacionarem-se com a prática política. 
PESQUISADORA \u2013 Você acha que tem alguma coisa no dia-a-dia de vocês, que vocês 
façam e que tem a ver com política? 
(algumas crianças) \u2013 Sim. 
PESQUISADORA \u2013 É? Então vocês que disseram que sim. O quê, por exemplo? 
B \u2013 Educação, segurança, saúde. 
PESQUISADORA \u2013 Mas que você faz... 
B \u2013 Que eu faço? 
PESQUISADORA \u2013 É. 
L \u2013 Estudar. 
B \u2013 É, estudar. 
PESQUISADORA \u2013 É? E você. 
A \u2013 Também faço estudar. 
PESQUISADORA \u2013 E por que vocês acham que isso tem a ver com política? 
L \u2013 Porque ele que deu a escola pra gente. 
Em outro exemplo: 
PESQUISADORA \u2013 No dia\u2013a\u2013dia de vocês, as coisas que vocês fazem, vocês acham 
que alguma coisa tem a ver com política? 
(silêncio) 
Ind \u2013 Não. (e alguns balançam a cabeça negativamente) 
PESQUISADORA \u2013 Não? Por que vocês acham que não? 
TC \u2013 Porque... 
RC \u2013 Porque a gente só estuda. 
Como já visto, a questão negativa de fato está consolidada no imaginário das 
crianças, com isso, a percepção de que a política não pertence a seu cotidiano foi bastante 
ressaltada por diversas outras crianças. 
PESQUISADORA \u2013 Você acha que tem alguma coisa que você faz no dia-a-dia que tem 
a ver com política? 
RK - Um pouco assim... 
PESQUISADORA \u2013 É? O quê? Você consegue me falar? 
RK - Porque assim, muitas coisas que a gente faz não tem assim a ver com política e 
algumas, que eu não sei o quê que é, tem. 
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Ao exprimir a própria dificuldade em saber do que se trata a política, esta fala 
revela que, enquanto existir uma desconexão entre a realidade das crianças e as práticas 
políticas, não haverá sequer o entendimento do que vem a ser a política, quanto mais de 
suas potencialidades de ação. Por tudo isso, fica mais fácil às crianças entenderem e 
expressarem que se elas não sabem do que se trata a política isso se deve ao fato de não 
terem idade o suficiente ou, mais uma vez, por não terem finalizado o ensino regular. 
PESQUISADORA \u2013 Por que vocês acham que vocês não fazem coisas que têm a ver 
com política? 
AR \u2013 Porque política é outra coisa. 
PESQUISADORA \u2013 É outra coisa? Mas vocês acham que é possível algum dia vocês 
fazerem alguma coisa que tenha a ver com política? 
TC \u2013 Ahan (afirmativo). 
RC \u2013 Claro! 
TC \u2013 Se estudar muito. 
PESQUISADORA \u2013 Tem que estudar muito? 
LI \u2013 Tem que formar. Tem que tá formado. 
AR \u2013 Ixi... Até você terminar os estudos... 
PESQUISADORA \u2013 E por que vocês acham que tem que estudar, tem que se formar? 
AR \u2013 Porque se a gente não estudar, não se formar... 
RC \u2013 A gente não vai ser nada na vida. 
AR \u2013 A gente não vai conseguir fazer nada na vida. 
RC \u2013 É. 
De outro modo, a forte percepção da política enquanto profissão leva a um 
afastamento ainda maior da possibilidade da política adentrar em seu cotidiano, sendo mais 
fácil decidir por qualquer outra profissão que não as referentes à representação política. 
Com isto, percebe-se que a política encontra-se como uma \u201copção\u201d de profissão para o 
futuro, porém não sendo esta muito palpável. 
PESQUISADORA \u2013 Tem alguma coisa no seu dia-a-dia que você faz que tem a ver com 
política, que você acha? 
LG - Não. 
PESQUISADORA \u2013 Não? Quando que vocês acham que vão ter alguma coisa no dia-a-
dia de vocês que vai ter a ver com política? Vocês acham que um dia vai ter isso? 
E - Vai... 
AC - A gente pode achar, mas só que a gente não tem certeza, porque a gente não 
pode saber o que vai acontecer... Quando a gente vê o futuro, a gente vai saber se a 
gente pode ser um presidente, um governador... Só que a gente não vê, então a gente 
não sabe qual o rumo que a gente vai tomar. Que opção que a gente vai ter. 
(...) 
PESQUISADORA \u2013 E vocês acham política um assunto legal, interessante? 
Ind \u2013 Eu acho. 
TC \u2013 Hum, mais ou menos. 
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AR \u2013 É, mais ou menos, não muito, porque política tem criança que sabe muito sobre 
política porque fica mais tempo com o presidente, com os outros lá, e que já estudou, 
né? 
(...) 
AC \u2013 Eu não entendo muita pouca coisa sobre política. Olha, é porque política é coisa 
pra adulto, criança gosta é de desenho, assim, de novela eu não gosto muito não. E a 
maioria das outras crianças também não gosta. Gosta de jogar ... de brincar com as 
outras crianças, essas coisas assim de criança mesmo. 
PESQUISADORA \u2013 Sei, e você acha que os adultos se interessam por política? 
AC - Olha... Até que eles têm vontade de voltar a ser criança, só que eles não 
conseguem. É, eles preferem a política, porque eles sabem o que é política, só que 
eles não são mais criança. 
 
Torna-se evidente as causas para um atual desinteresse das crianças com a política. 
O que se questiona é: que alteração irá ocorrer com relação a esta percepção negativa e este 
afastamento da política em meio à realidade destes indivíduos daqui a menos de dez anos, 
quando estas crianças passarem a ser entendidas como eleitoras? Talvez a permanência 
destes elementos acarretará em comportamento semelhante ao que se viu em grande