04-Aristóteles-v.1-Coleção-Os-Pensadores-1987
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Do mesmo modo, as superfluidades são melhores do que as necessidades, e 
com freqüência são também mais desejáveis: viver bem, com efeito, é uma 
superfluidade, ao passo que a simples vida é uma necessidade. Às vezes, porém, o 
melhor não é também mais desejável, pois do fato de ser melhor não decorre 
necessariamente que seja mais desejável: pelo menos, ser filósofo é melhor do que 
ganhar dinheiro, porém não é mais desejável para um homem que carece das coisas 
necessárias à vida. A expressão "superfluidade" aplica-se sempre que um homem 
possui o necessário para a vida e esforça-se por adquirir também outras coisas 
nobres. Grosso modo, talvez as coisas necessárias sejam mais desejáveis, enquanto as 
supérfluas são melhores. 
Igualmente, o que não se pode conseguir de outrem é mais desejável do que 
aquilo que também se pode conseguir de outrem, como sucede, por exemplo, no 
caso da justiça em comparação com a coragem. Do mesmo modo, A é mais 
desejável se A é desejável sem B, porém não B sem A: o poder, por exemplo, não é 
desejável sem a prudência, mas a prudência é desejável sem o poder. Assim, 
também, se de duas coisas repudiamos uma a fim de que nos considerem 
possuidores da outra, é mais desejável essa outra de que desejamos nos considerem 
possuidores; é assim, por exemplo, que repudiamos o amor ao trabalho duro a fim 
de que os outros nos considerem geniais. 
E, por fim, são mais desejáveis aquelas coisas com cuja ausência é menos 
reprovável que nos aflijamos, e também aquelas com cuja ausência é mais 
reprovável que deixemos de nos afligir. 
 
 
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Além disso, de duas coisas que pertencem à mesma espécie, a que possui a 
virtude peculiar à espécie é mais desejável do que aquela que carece dessa virtude. 
Se ambas a possuem, aquela que a possui em maior grau é mais desejável. 
Se uma coisa torna bom tudo aquilo em que toca, enquanto outra não o faz, 
a primeira é mais desejável, exatamente como aquilo que aquece as outras coisas é 
mais quente do que aquilo que não as aquece. Se ambas o fazem, é mais desejável 
aquela que o faz em grau maior, ou a que torna bom o objeto melhor e mais 
importante \u2014 se, por exemplo, uma torna boa a alma e a outra o corpo. 
Deve-se julgar, além disso, as coisas pelos seus derivados, seus usos, suas 
ações e suas obras, e estes por aquelas, já que ambos andam juntos. Por exemplo, 
se "justamente" significa algo mais desejável do que corajosamente", então também 
a justiça é algo mais desejável do que a coragem; e, se a justiça é mais desejável do 
que a coragem, "justamente" significa algo mais desejável do que "corajosamente". 
E do mesmo modo nos outros casos. 
E igualmente, se uma coisa ultrapassa enquanto outra não alcança o mesmo 
padrão de bondade, aquela que o ultrapassa é a mais desejável, como também o é 
aquela que ultrapassa um padrão ainda mais elevado. Mais ainda: se duas coisas são 
preferíveis a uma terceira, a que é preferível em grau maior é mais desejável, e a que 
o é em grau menor é menos desejável. E também quando o excesso de uma coisa é 
mais desejável do que o excesso de outra, a primeira em si mesma é mais desejável 
do que a outra: por exemplo, a amizade do que o dinheiro, pois um excesso de 
amizade é mais desejável do que um excesso de dinheiro. E, do mesmo modo, 
aquilo que um homem preferiria possuir pelo seu próprio esforço é mais desejável 
do que aquilo que ele preferiria possuir pelo esforço alheio: assim, os amigos são 
mais desejáveis do que o dinheiro. 
Deve-se julgar também pelo método de adição e ver se a adição de A à 
mesma coisa a que se adiciona B torna o todo mais desejável do que o faz a adição 
de B. Convém acautelar-se, no entanto, para não aduzir algum caso em que o termo 
comum utilize ou de outra forma qualquer favoreça uma das coisas que lhe são 
acrescentadas, porém não a outra, como, por exemplo, se comparássemos uma 
serra e uma foice em relação à arte da carpintaria: porquanto nessa relação a serra é 
a mais desejável das duas, sem que, no entanto, seja mais desejável de maneira 
absoluta. Uma coisa é também mais desejável se, quando acrescentada a um bem 
menor, faz com que o todo se torne um bem maior. E deve-se julgar igualmente 
pelo sistema da subtração, pois aquela coisa em resultado de cuja subtração o resto 
se torna um bem menor pode considerar-se como um bem maior, seja qual for essa 
coisa cuja subtração faz com que o resto seja um bem menor. 
E também, se uma coisa é desejável por si mesma e a outra pela sua 
aparência, a primeira é mais desejável do que a segunda: por exemplo, a saúde do 
que a beleza. Diz-se que uma coisa é mais desejável pela sua aparência se, na 
suposição de que ninguém tivesse conhecimento dela, não nos interessássemos em 
possuí-la. Além disso, é ainda mais desejável se o é tanta por si mesma como pela 
sua aparência, enquanto a outra coisa só é desejável por uma dessas razões. E da 
mesma forma, o que é mais precioso por si mesmo é também melhor e mais 
desejável. Uma coisa pode ser julgada mais desejável em si mesma quando a 
escolhemos por ela própria, sem que daí nos advenha nenhuma outra vantagem 
provável. 
Além disso, deve-se distinguir em quantos sentidos se usa o termo 
"desejável" e com que fins em vista, por exemplo: a conveniência, a honra ou o 
prazer. Com efeito, o que é útil para todas essas coisas ou para a maioria delas pode 
ser encarado como mais desejável do que aquilo que não é útil de igual maneira. Se 
ambas as coisas possuem essas características, deve-se examinar qual das duas as 
possui de maneira mais assinalada, isto é, qual das duas é mais agradável, ou mais 
honrosa, ou mais conveniente. É também mais desejável o que serve uma 
finalidade melhor, por exemplo: aquilo que contribui para promover a virtude do 
que aquilo que promove o prazer. E analogamente no caso das coisas reprováveis: 
pois é mais reprovável o que mais impede a consecução do que é desejável, por 
exemplo: a doença é mais reprovável ou indesejável do que a fealdade, por ser um 
empecilho maior tanto ao prazer como à virtude. 
Deve-se argumentar, além disso, mostrando que a coisa em apreço é em 
igual medida desejável e reprovável, pois uma coisa de tal índole que se possa 
desejá-la e opor-se a ela por igual é menos desejável do que outra que seja somente 
desejável. 
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As comparações de coisas umas com as outras devem, pois, ser feitas da 
maneira indicada. As mesmas regras ou tópicos são também úteis para mostrar que 
uma coisa qualquer é simplesmente desejável ou reprovável, pois para isso basta 
subtrair o excesso de uma coisa sobre a outra. Com efeito, se o que é mais precioso 
é mais desejável, então o que é simplesmente precioso é desejável; e, se o que é 
mais útil é mais desejável, o que é simplesmente útil é desejável. E analogamente no 
caso das outras coisas que admitem comparações desta espécie. Porque, em alguns 
casos, já ao comparar as coisas entre si estamos afirmando que cada uma delas, ou 
pelo menos uma delas, é desejável: por exemplo, sempre que chamamos uma coisa 
"boa por natureza" e a outra "não por natureza"; pois, evidentemente, o que é bom 
por natureza é desejável. 
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Os tópicos ou lugares referentes a quantidades e graus comparativos devem 
tomar-se da forma mais geral possível, porque, assim tomados, serão 
provavelmente mais úteis num número maior de casos. É possível tornar mais 
universais alguns dos tópicos dados acima alterando ligeiramente a, sua expressão, 
por exemplo: que aquilo que por natureza mostra tal e tal qualidade manifesta-a em 
grau maior do que aquilo que não a manifesta por natureza. E também, se uma 
coisa comunica tal e tal qualidade àquilo que a possui ou a que ela pertence, 
enquanto