05-Epicuro-Lucrécio-Cícero-Sêneca-e-Marco-Aurélio-Coleção-os-Pensadores-1985
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chegar-nos ao nariz; e não contemplamos os ardentes calores, nem conseguimos, 
com os olhos, dar pelo frio, nem costumamos enxergar as vozes; todavia, é 
evidente que tudo isto é de natureza material, porque pode impressionar os 
sentidos: nada pode tocar e ser tocado se não é corpo material. 
Por fim, as roupas penduradas à beira da costa onde se quebram as vagas 
enchem-se de umidade e secam, se as expomos ao sol; contudo, não se vê de que 
modo se deposita a água, nem, por outro lado, como desaparece com o calor: é que 
o líquido se divide em pequenas partículas que os olhos de nenhum modo podem 
ver. 
Da mesma sorte, depois de muitas revoluções do Sol, gasta-se por debaixo, 
pelo uso, o anel que se traz no dedo, escava a pedra a queda de uma gota de água, a 
recurvada relha do arado, apesar de ser de ferro, diminui nos regos, e todos vemos 
como as lajes de pedra das estradas se adelgaçam sob os pés da multidão; ao pé das 
portas, as estátuas de bronze mostram a mão direita gasta pelo toque dos 
transeuntes que as saúdam. Vemos, portanto, que estes objetos diminuem à força 
do uso; mas a vivida natureza impede-nos de ver de que maneira e em que tempo 
desaparecem os corpos. 
Finalmente, nenhum olhar, por mais agudo e atento, pode perceber o que 
vão a pouco e pouco juntando a cada ser a natureza e os dias, nem se pode 
distinguir o que perdem a cada instante as coisas que envelhecem pelo tempo ou de 
fraqueza, ou as rochas que, mergulhadas no oceano, são roídas pelo úmido sal. 
No entanto, nem todas as coisas são, por sua natureza, completamente 
cheias de matéria; o vazio existe.20F10 Ser-te-á de grande utilidade sabê-lo; evitará que 
erres, duvidando, e andes sempre à busca das essências supremas e não confies nas 
minhas palavras. Há, pois, um espaço intato, vazio, desocupado. Se o não houvesse, 
de nenhum modo os corpos se poderiam mover, porque a propriedade 
fundamental dos corpos, que é a de se opor e resistir, estaria em toda parte e 
sempre; nada poderia, por conseqüência, mover-se para a frente, porque nenhuma 
coisa tomaria a iniciativa de se deslocar. Mas agora, pelos mares e pelas terras, e 
pelo alto do céu, vemos, com os nossos próprios olhos, deslocarem-se, de muitas 
maneiras e com várias leis, corpos que, a não haver espaço vazio, não somente 
careceriam deste inquieto movimento, como também não poderiam de modo 
algum ter aparecido, porque, por toda parte, se teria mantido em repouso a matéria 
concentrada. 
Além de tudo, embora os corpos pareçam sólidos, pode ver-se, pelo que vou 
dizer, que há espaços vazios na substância. Mana o fluido líquido das águas pelas 
pedras das cavernas, e tudo aí chora gotas abundantes. Dispersa-se o alimento por 
todo o corpo dos animais. Crescem as árvores e dão seu fruto na estação própria, 
porque o alimento se difunde por todas elas, desde o mais profundo das raízes, 
através dos troncos e de todos os ramos. Passam as vozes pelas paredes e voam 
através das portas das casas, corre até os ossos o frio que enregela. Ora, se os 
corpos não tivessem vazios, absolutamente impossível seria explicar de que maneira 
tudo isto poderia atravessá-los. 
Enfim, por que razão vemos algumas coisas pesarem mais do que as outras, 
sendo das mesmas dimensões? Se houvesse tanta matéria num floco de lã como 
num pedaço de chumbo, é evidente que deveria pesar o mesmo, visto que é 
próprio da matéria exercer uma pressão de cima para baixo, ao passo que, por sua 
própria natureza, o vazio não tem peso. Portanto, aquilo que tem o mesmo 
 
10 Se tudo o que existe como corpo é material e se há movimento desses corpos materiais, tem de haver um espaço vago onde esse 
movimento se exerça; a existência de espaço vazio ou de vácuo é demonstrada, portanto, segundo Lucrécio, pela existência de movimento. 
Não lhe ocorreu sequer admitir, como o fez Zenão de Eléia, a impossibilidade do movimento material; de resto, se o admitisse, não poderia 
mais defender a sua hipótese de um mundo formado de átomos materiais. A ingenuidade filosófica de Lucrécio, como a de todos os 
materialistas do seu tipo, tem de se contentar com os dados dos sentidos, sob pena de que lhe rua todo o edifício ideológico. 
tamanho e é mais leve mostra, sem dúvida alguma, que tem mais espaço vazio; e o 
que é mais pesado indica ter mais quantidade de matéria e menos vazio dentro de 
si. É, assim, verdadeiro o que buscávamos com sagaz razão: existe, misturado aos 
corpos, aquilo a que chamamos vazio. 
E agora vejo-me obrigado a prevenir o que alguns pensam quanto a este 
assuntos para que não possas desviar-te da verdade. Dizem eles que, se as ondas 
cedem perante os esforços dos peixes escamosos e lhes abrem líquidos caminhos, é 
porque os peixes deixam atrás de si espaços aonde podem confluir as águas que se 
desviaram. Assim também se podem mover as outras coisas, umas por entre as 
outras, e mudar de lugar, embora tudo esteja cheio. Mas tudo isto assenta sobre um 
raciocínio falso. De fato, como poderiam os escamosos peixes avançar se as ondas 
lhes não dessem espaço? E como poderiam refluir as águas se os peixes não 
pudessem mexer-se? Por conseguinte, ou têm Se se privar todos os corpos de 
movimento, ou tem de se admitir que há vazio misturado às coisas e que dele toma 
cada corpo a possibilidade de se mover. 
Por fim: se dois corpos planos, depois de se chocarem, se afastam de salto, 
bruscamente, é . fora de dúvida que o ar ocupará todo o vazio que fica entre os 
dois corpos. Mas este ar, qualquer que seja a velocidade com que se precipitem as 
correntes, não poderá encher todo o espaço num só instante: é fatal que primeiro 
ocupe um certo lugar e se apodere depois de todo o resto. E é um erro imaginar 
alguém por acaso que se deve à condensação do ar o que sucede quando os corpos 
se afastam; efetivamente, surge um vazio que nunca houve antes e enche-se o vazio 
que antes houve; nem o ar pode adensar-se de tal modo, e, mesmo que pudesse, 
não conseguiria sem vazio, creio eu, concentrar-se sobre si próprio e reunir em um 
só lugar todas as suas partes. 
Por isso, e apesar da grande demora causada pelas tuas objeções, terás de 
confessar que há vazio nas coisas. Posso ainda, pela menção de muitos argumentos, 
dar mais seguranças às minhas palavras: mas a um espírito sagaz bastam estas 
ligeiras indicações; por elas poderás com segurança conhecer o resto. Assim como 
os cães, logo que dão com sinais certos de passagem, encontram muitas vezes, só 
pelo faro, os abrigos cobertos de folhagem dos animais que erram pelos montes, 
assim também, neste assunto, tu podes, por ti só, explicar uma coisa por outra, 
penetrar por todos os recessos obscuros e de lá retirar a verdade. 
Mas se fores preguiçoso e te desviares, por menos que seja, do nosso 
objetivo, eis o que desde já, Mêmio, te posso dizer: de tal modo, com suave 
linguagem, se derramarão de meu peito, cheio delas, as doutrinas que bebi em 
grandes fontes, que, bem o receio, a pesada velhice se insinuará pelos membros e 
quebrará em nós todos os liames da vida, antes que sobre um só ponto te penetre 
pelos ouvidos, através de meus versos, a grande cópia de argumentos. 
Mas, para continuar o que ia dizendo, toda a natureza é constituída por duas 
coisas: existem os corpos e existe o vácuo em que se acham colocados e em que se 
movem em diferentes direções. Quanto aos corpos, basta o senso comum para lhes 
afirmar a existência; se não pusermos esta crença como fundamento sólido, não 
haverá, quando tratarmos de assuntos mais obscuros, nada em que nos apoiemos 
para estabelecer pelo raciocínio o que quer que seja. Por outro lado, se não 
houvesse o lugar, o espaço a que chamamos vazio, não teriam