05-Epicuro-Lucrécio-Cícero-Sêneca-e-Marco-Aurélio-Coleção-os-Pensadores-1985
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com todo o corpo, assim também o espírito é algumas vezes o único a 
sofrer ou a revigorar-se de alegria, ao passo que a outra parte, a alma, não recebe 
pelos membros e pelos órgãos nenhuma impressão nova. 
Mas, quando o espírito é abalado por um medo violento, vemos que toda a 
alma sente o mesmo pelos membros e que por todo o corpo aparecem suores e 
palidez, a língua se entaramela, a voz se prende, os olhos se obscurecem, os 
ouvidos ressoam, os membros desfalecem; finalmente, vemos que muitas vezes 
caem os homens pelo terror do espírito; qualquer um pode facilmente concluir 
daqui que a alma está ligada ao espírito e que ao ser percutida pela força do espírito 
por seu turno abala e fere o corpo. 
Este mesmo raciocínio demonstra 48F38 que é corpórea a natureza do espírito e 
da alma: quando a vemos impelir os membros, arrebatar o corpo ao sono, demudar 
o rosto, reger e dirigir todo o corpo, como nada disto se pode fazer sem contato e 
como não há contato sem corpo, não é verdade que se tem de aceitar que o espírito 
e a alma são de natureza corpórea? 
Além disto, vês que o espírito sofre com o corpo e com o corpo sente em 
nós; se a força horrível de um dardo penetrando em nós, dilacerando os ossos e os 
nervos, não suprime, no entanto, a vida, segue-se uma languidez, um cair no chão 
cheio de brandura e, já no chão, ura abalo que nasce do espírito e de quando em 
quando uma incerta vontade de se levantar. É, por conseqüência, necessário que 
 
38 Tanto o espírito como a alma são de natureza material, e o grande argumento parece ser o da impossibilidade de explicar doutro modo o 
contato entre o corpo, de um lado, e o espírito e alma, do outro. E, como se sabe, a dificuldade de todos os sistemas dualistas; uma das 
formas de a resolver é o materialismo de Epicuro, adotado por Lucrécio; a outra é um monismo espiritualista. Lucrécio fala da influência 
do espírito e da alma sobre o corpo e da influência do corpo sobre o espírito e alma; mas não esquece também a ligação entre espírito e 
alma. 
seja corpórea a natureza da alma, visto que sofre com dardos, que são corpos, e 
com seus choques. 
Continuarei agora expondo-te 49F39 de que matéria é formado este espírito e 
donde veio ele. Primeiro, digo que é perfeitamente sutil e constituído de elementos 
diminutos. Para que possas saber que isto é assim, basta que atentes neste ponto. 
Parece que nada sucede de maneira mais rápida do que aquilo que o espírito a si 
mesmo propõe e por si mesmo começa. O espírito, portanto, move-se, segundo 
parece, com maior celeridade do que qualquer corpo visível a nossos olhos. 
Mas o que é tão móvel deve compor-se de corpos extremamente redondos e 
extremamente diminutos, de modo a poderem deslocar-se ao mais pequeno 
impulso que os abale. Efetivamente, se a água se agita e corre à mais pequena força, 
é porque é constituída de elementos pequenos e rolantes. Pelo contrário, é mais 
espessa a natureza do mel, o seu líquido mais preguiçoso, o seu movimento mais 
lento; toda a massa de matéria adere mais entre si, certamente porque não é 
formada por elementos tão lisos, tão sutis e tão redondos. 
Um vento leve e lento pode colher e fazer que te caia do alto um grande 
número de sementes de papoula: mas nada pode contra um montão de pedras ou 
de espigas. Portanto, os corpos mais pequenos e mais lisos são por isso mesmo 
mais móveis; ao inverso, aqueles que se encontram mais pesados e mais ásperos são 
mais estáveis. Ora, como se verificou que a natureza do espírito é extremamente 
móvel, tem ele de se compor de elementos muito pequenos, lisos e redondos. Este 
conhecimento, meu caro, te aparecerá em muitos casos como engenhoso e útil. 
Também este fato te mostra a natureza do espírito, a sua ligeira contextura, o 
pequeno espaço em que se conteria se pudesse condensar-se: logo que o seguro 
repouso da morte se apoderou do homem e se retira a natureza do ânimo e da 
 
39 Quanto à constituição íntima do espírito, Lucrécio tira da mobilidade de quanto nele se passa a idéia de que deve ser formado de 
elementos extremamente pequenos e redondos; devem ser, além disso, em pequena quantidade, porquanto a exalação do espírito, pela 
morte, não produz qualquer alteração do peso do corpo nem a retirada da alma tem como resultado modificar-se a linha exterior dos 
órgãos e dos membros. Seria, no entanto, um erro supor que espírito e alma são compostos de uma só qualidade de elementos; a prova, 
neste caso, é ainda dada pela experiência: da boca dos moribundos solta-se um bafo misturado de calor; se há calor, há ar; teremos, 
portanto, o bafo (ar em movimento), o calor e o ar, três elementos, de átomos diferentes; simplesmente, nem ar nem calor nem bafo são 
bastante sutis para explicarem o pensamento: têm de se lhes acrescentar uma quarta substância a que se não dá nome algum, mas que é 
formada de átomos ainda mais lisos e mais pequenos, já no extremo limite de tais conceitos; é essa substância que constitui realmente o 
espírito e explica os fenômenos psicológicos. 
alma, verifica-se que nada se perdeu no total do corpo, nem quanto ao aspecto nem 
quanto ao peso: a morte deixa tudo, exceto a sensibilidade vital e o cálido vapor. É, 
portanto, necessário que toda a alma seja formada de elementos mínimos e 
distribuída pelas veias, pelos órgãos, pelos nervos, visto que, ao retirar-se 
inteiramente de todo o corpo, fica intata a linha exterior dos membros e nada se 
perdeu do peso. 
O mesmo acontece quando se desvanece o perfume de Baco ou quando o 
hálito suave dum ungüento foge nos ares ou quando o sabor se retira de qualquer 
corpo; o objeto em si não fica por isso mais pequeno a nossos olhos, nem coisa 
alguma se lhe retira do peso, evidentemente porque numerosos e diminutos 
elementos constituem o sabor e o odor em toda a substância das coisas. Por 
conseguinte, e uma vez mais, a natureza do espírito e da alma só pode ser formada 
de elementos mais pequenos, visto que ao fugir não leva consigo peso algum. 
Todavia, não devemos julgar que é simples essa natureza. Efetivamente, 
abandona os moribundos um sopro misturado de vapor: ora o vapor traz consigo 
ar e não há calor algum ao qual não esteja misturado ar; como a sua natureza é 
tênue, tem de se aceitar que se movam dentro dele muitos elementos de ar. 
Já, portanto, se descobriu a tríplice natureza do espírito; mas ainda não 
bastam elas todas para criar a sensibilidade: o espírito não aceita que qualquer delas 
possa criar os movimentos sensitivos e tudo o que no espírito se revolve. É preciso, 
então, juntar-lhes uma quarta substância. Carece ela de qualquer nome: nada existe 
de mais móvel ou de mais tênue do que ela, nem formada de elementos mais 
pequenos e mais lisos; é ela que primeiro reparte pelos membros os movimentos 
sensitivos. 
É ela de fato a primeira que se move, formada como é por elementos 
diminutos; depois o calor e o invisível poder do sopro recebem os movimentos e 
em seguida os recebe o ar; depois todos se movem, agita-se o sangue, tudo sentem 
os órgãos e por fim é comunicado aos ossos e às medulas ou o prazer ou um ardor 
contrário. 
Mas não é impunemente que a dor pode penetrar até aí e derramar-se um 
agudo mal: tudo se perturba a tal ponto que falta lugar para a vida e fogem as partes 
da alma por todos os canais do corpo. Mas na maior parte das vezes a superfície do 
corpo é termo destes movimentos: por isso podem reter a vida. 
Agora: de que maneira se misturam estes elementos, de que modo, ligando-
se, exercem a sua ação \u2014 eis o que, apesar dos meus desejos, me impede de 
explicar a pobreza da língua pátria; no entanto, vou, como puder, tocar 
sumariamente