07-Santo-Anselmo-e-Abelardo-Coleção-Os-Pensadores-1988
248 pág.

07-Santo-Anselmo-e-Abelardo-Coleção-Os-Pensadores-1988


DisciplinaFilosofia63.121 materiais1.942.619 seguidores
Pré-visualização50 páginas
do pai, no sentido em que possui a mesma essência e 
sabedoria do pai, assim o espírito é a essência e a sabedoria e os demais atributos do pai e do filho 
Assim como o filho é a substância, a sabedoria e a virtude do pai. no sentido em que 
possui a mesma essência71, sabedoria e virtude do pai, assim o espírito, que procede de um e de 
outro, pode ser considerado igualmente a essência, a sabedoria ou a virtude do pai e do filho, 
porque possui completamente a mesma essência deles. 
 
 
70
 Não há, em português, um verbo que possa equivaler ao spirare, usado por Anselmo. Espirar é o termo que mais se aproxima do sentido 
que "spirare" tem no texto. Spirare aqui significa, simultaneamente, espirar, respirar, soprar, assoprar, etc., sentido que não possui também no 
latim clássico. Doutro lado, o próprio autor percebe a dificuldade de empregar um termo que implica a indicação de uma função fisico-
biológica. específica dos seres animados (e criados), em relação à Divindade (não criada e, sim, criadora), que não admite em sua natureza 
nenhuma função fisico-biológica, por ser justamente e só espírito. 
71
 Anselmo geralmente usa os dois termos substância e essência como equivalentes. Aqui, entretanto, coloca certa distinção, como acontecerá 
no capítulo LXXIX. 
CAPITULO LIX 
Como o pai, o filho e o espírito de ambos se encontram uns nos outros, mutuamente 
É com alegria que contemplo como o pai, o filho e o espírito de ambos estão mutuamente, entre si, unidos 
e iguais, sem que nenhum deles exceda ao outro. 
Com efeito, além de cada um ser essência perfeita e suprema e, contudo, os três não 
constituírem senão uma essência suprema única, que não pode existir sem si mesma, nem fora 
de si mesma, nem ser maior ou menor de si mesma, todavia, não é menos possível demonstrar 
tudo isso a respeito de cada um, em particular. O pai encontra-se, pois, completo no filho e no 
espírito que é comum a ambos; o filho, no pai e no mesmo espírito; e o espírito, no pai e no 
filho porque a memória da essência suprema está completa na inteligência e no amor dela e a 
inteligência, na memória e no amor, e o amor, na memória e na inteligência. 
Efetivamente, o espírito supremo compreende e ama toda a sua memória, recorda-se de 
toda a sua inteligência e a ama totalmente, tem memória de todo o seu amor e o compreende 
totalmente. Entende-se, pois, que o pai está na memória, o filho, na inteligência e o espírito, no 
amor recíproco dos dois. 
Portanto, o pai, o filho e o espírito de ambos abraçam-se com tão grande igualdade e 
vivem em si tão mutuamente, que fica demonstrado que nenhum deles está acima do outro ou 
existe sem o outro. 
 
CAPITULO LX 
Que nenhum deles precisa do outro para recordar, compreender e amar porque cada um é memória, 
inteligência e amor e tudo aquilo que é necessário que seja a essência suprema 
Entretanto, julgo que devo recordar, com toda diligência, aquilo que me ocorre ao 
meditar sobre assuntos desta espécie. Sem dúvida é necessário que se entenda o pai como 
memória, o filho como inteligência e o espírito como amor; porém, duma maneira que o pai 
não precise do filho, ou do espírito, comum aos dois; nem o filho, do pai ou do espírito; nem o 
espírito, do pai ou do filho, como se o pai só pudesse recordar por si, mas compreender só pelo 
filho e amar só pelo espírito, que tem em comum com o filho; e o filho só pudesse 
compreender por si, mas recordar só pelo pai e amar só pelo espírito: e, finalmente, o espírito 
só pudesse, por si, amar apenas, mas recordar somente pela memória do pai e compreender 
pela inteligência do filho. 
Como, portanto, cada um dos três, individualmente, é essência suprema e sabedoria 
suprema em grau tão perfeito que pode recordar, compreender e amar por si mesmo, decorre 
necessariamente que nenhum dos três precisa um do outro para recordar, compreender e amar. 
Com efeito, cada um por si, em particular, é essencialmente memória, inteligência e amor, e 
tudo aquilo que se faz necessário que se encontre presente na essência suprema. 
 
 
CAPÍTULO LXI 
Como, contudo, não são três, mas um único pai, um único filho e um único espírito de um e de outro 
Entretanto, vejo-me deparar com uma questão. Com efeito, se o pai é tanto inteligência 
e amor como é memória; e o filho é tanto memória e amor como é inteligência; e o espírito de 
um e de outro não é menos memória e inteligência do que amor, então, por que o pai não é o 
filho e o espírito do outro; e por que o filho não é o pai e o espírito do outro; e por que esse 
mesmo espírito não é o pai e o filho do outro? Ficara, pois, estabelecido que a memória era o 
pai; a inteligência, o filho, e o amor, o espírito de ambos. 
Essa questão, porém, resolve-se facilmente se prestarmos atenção às verdades que já 
foram esclarecidas pela razão. Efetivamente o pai não é filho e espírito do outro, apesar de ser 
inteligência e amor, porque ele não é inteligência engendrada ou amor procedente de alguém, 
mas tudo aquilo que ele é condiciona-se à sua qualidade de somente engendrar e de ser o 
princípio donde as coisas procedem. O filho, igualmente, não é o pai ou o espírito do outro, 
não obstante tenha memória e ame por si mesmo, porque não é memória que engendra ou 
amor que emana de outro, à semelhança do espírito; mas tudo aquilo que ele é está ligado 
somente à condição de ser engendrado e ser aquele donde procede o espírito72. O fato de o 
espírito estar contido na memória e na inteligência deles não o obriga a ser o pai ou o filho, 
porque ele não é memória que engendra ou inteligência engendrada, mas toda a sua essência 
consiste apenas em proceder de73. 
O que impede, então, que se conclua que, na essência suprema, não há senão um só pai, 
um só filho e um só espírito, e não três pais, ou três filhos, ou três espíritos? 
 
 
72
 Esta passagem parece estar em contradição direta com todo o pensamento expresso anteriormente, segundo o qual o espírito procede 
ab utroque, isto é, de ambos: do pai e do filho, e não somente do filho. A contradição, entretanto, desaparece se for entendido corretamente 
o pensamento de Anselmo neste momento: aqui ele está definindo uma qualidade do filho e não a qualidade do espírito. Salienta, pois. as 
duas qualidades fundamentais do filho \u2014 a de ser engendrado e a de "espirar" o amor. 
73
 Completando a nota anterior, vê-se que Anselmo indica como qualidade fundamental do espírito aquela de proceder de, sem especificar se 
apenas do filho, ou se do pai e do filho. Mas, pelo que o filósofo explica antes, torna-se ocioso insistir que o espírito procede igualmente 
dos dois. 
CAPITULO LXII 
Como parece que deveriam nascer muitos filhos desses três74 
Mas, talvez, aquilo que agora estou pensando não esteja bem de acordo com o que foi 
afirmado anteriormente. Com efeito, não pode haver mais dúvidas de que o pai, o filho e o 
espírito deles, assim como expressam cada um a si mesmo e aos outros dois, assim se 
compreendem cada um a si mesmo e aos outros dois. 
Se, pois, as coisas estão assim, por que não existem, então, na essência suprema, tantos 
verbos como as pessoas que falam e as pessoas faladas? Na verdade, se vários homens 
expressam com o pensamento alguma coisa, parece lógico que se verifiquem tantas expressões 
dela como são as pessoas que a pensam, porque, nos pensamentos de cada uma, forma-se uma 
expressão dela. E, igualmente, se um homem só pensa muitas coisas, formam-se na mente do 
pensante tantas palavras quantas são as coisas pensadas. Mas, na mente do homem, quando ele 
pensa algo que está fora de seu pensamento, a palavra da coisa pensada não nasce da própria 
coisa, porque esta se acha