07-Santo-Anselmo-e-Abelardo-Coleção-Os-Pensadores-1988
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não 
é justa senão pela justiça. Portanto, a substância sumamente boa pareceria que, se é chamada de 
justa, o fosse devido ao fato de participar desta virtude, isto é, da justiça. Mas se assim fosse, 
não seria justa por si mesma, e, sim, por outro. Isto, porém, opõe-se à verdade, já bem 
esclarecida, de que ela é boa e grande e subsistente \u2014 tudo o que ela é \u2014 por si mesma e não 
por outro. 
Se, portanto, por um lado não é justa senão pela justiça, e se, pelo outro, não pode ser 
justa senão por si mesma, o que haverá de mais evidente e de mais necessário, do que concluir 
que essa natureza é a própria justiça? E que, quando se diz que é justa pela justiça, é a mesma 
coisa que dizer que é justa por si? E quando se diz que é justa por si, não queremos significar 
senão que ela é justa pela justiça? Por isso, se perguntássemos o que é esta natureza suprema, da 
qual estamos falando, acaso poderíamos responder com maior verdade do que dizer que é a 
justiça? 
Há de se indagar, pois, em que sentido se deve entender que essa natureza, que é a 
própria justiça em si, é dita justa. Com efeito, como um homem não pode ser a justiça, mas tê-
la (um homem justo não quer dizer um homem existindo como justiça e, sim, que possui a 
justiça); e, como não é exato falar da natureza suprema que possui a justiça, mas que é a justiça, 
então quando dizemos que ela é justa, devemos entender que existe como justiça e não que tem a 
justiça. Ainda. Desde que, ao afirmar que essa natureza suprema existe como justiça, não 
estamos expressando qual ela seja, mas o que ela é, segue-se que, quando se diz que é justa, 
indica-se a sua essência e não a sua qualidade. 
Outrossim, como é a mesma coisa dizer, a respeito da essência suprema, que é justa e 
que é a justiça; e como, também, ao dizer dela que existe como justiça é o mesmo que afirmar 
 
30
 A qualidade e a quantidade são duas das dez categorias do ser, enumeradas por Aristóteles. A primeira delas é a substância: o ser que 
vive em si mesmo. As outras nove são acidentes que não existem em si, mas dependem do ser, cuja substância os sustenta. Entre estes 
acidentes, há a qualidade e a quantidade. A primeira, em sentido restrito, denota que o acidente, que define e determina de maneira 
diferente a substância, expressa a maneira de ser e de agir do sujeito; a qualidade, em sentido amplo, denota qualquer grandeza do ser. 
Aqui está o problema que preocupa Anselmo: na essência suprema, a justiça, por exemplo, seria uma qualidade dela, isto é, um acidente? 
A resposta é dada no fim do capítulo. 
que é a justiça, não há diferença, portanto, em se afirmar que ela é a justiça e que é justa. Desta 
maneira, quando se pergunta "o que ela é", torna-se exatamente indiferente responder que ela é 
justa ou que é a justiça. 
Aquilo que foi esclarecido, mediante este exemplo, acerca da justiça, a razão obriga 
nossa inteligência a estendê-lo a todos os outros atributos com que possa ser qualificada, de 
maneira semelhante, a natureza suprema. Assim, tudo aquilo que se pode afirmar dela não 
expressa qual ela é ou quão grande ela é, mas o que ela é. Evidentemente, tudo aquilo que ela é de 
bom31, é-o em sumo grau. Portanto, ela é a essência suprema, a justiça suprema, a sabedoria 
suprema, a verdade suprema, a bondade suprema, a grandeza suprema, a beleza suprema, a 
imortalidade suprema, a incorruptibilidade suprema, a felicidade suprema, a eternidade 
suprema, o poder supremo, a unidade suprema. O que vale dizer que ela outra coisa não é 
senão o ser supremo, soberanamente vivente. E assim por diante. 
 
CAPÍTULO XVII 
A natureza suprema é de tal forma simples que tudo o que pode ser afirmado da sua essência nela 
resulta uma mesma e única coisa; e que nada pode ser-lhe atribuído, substancialmente, sem que se refira à sua 
essência. 
Como? Se essa natureza suprema reúne em si tantos bens, será que ela é composta por 
uma multiplicidade de bens, ou, antes, trata-se de um bem único, expresso com muitos nomes? 
Tudo aquilo que é composto necessita, para existir, das partes que o compõem, às quais 
deve aquilo que é, porque recebe delas o que é; e elas não existem por causa dele. Assim, ele 
não é soberano em nada. 
Se essa natureza fosse composta, portanto, de muitos bens, necessariamente, estaria 
sujeita às condições dos seres compostos. As verdades necessárias, porém, expostas acima, 
destroem e rechaçam, com raciocínio claro, a falsidade sacrílega desta afirmação. Então, se essa 
natureza, de forma alguma, é composta e, no entanto, por si só ela com certeza é todos aqueles 
bens, estes bens, necessariamente, não podem ser muitos, mas um só. Por conseguinte, quer se 
considere cada um isoladamente, quer se tomem em conjunto, todos eles não diferem um de 
outro. Por isso, quando se fala "justiça" ou "essência", expressa-se a mesma coisa como quando 
usamos as outras designações, tomadas conjuntamente ou uma por uma. 
 
31
 "Bom", aqui, equivale a "positivo". 
Por tal motivo, assim como tudo aquilo que pode ser afirmado da natureza suprema é, 
essencialmente, uma coisa só, assim ela é aquilo que é, de uma única maneira, e de um só ponto 
de vista, essencialmente. 
Quando dizemos, a respeito de um homem, que é corpo, razão e homem, não 
consideramos estas diferentes qualidades do mesmo modo e do mesmo ponto de vista, porque, 
sob certo aspecto, ele é corpóreo e, sob outro, racional, e cada uma destas qualidades não 
constitui tudo aquilo que é o homem em seu conjunto. Mas a essência suprema de maneira 
nenhuma é algo que possa ser diferente, se considerada sob aspectos e pontos de vista 
diferentes, porque aquilo que ela é de alguma maneira, é-o, essencialmente, na totalidade do seu 
ser. Não pode ser afirmado, portanto, nada acerca da sua essência que possa expressar 
verdadeiramente qual e quão grande32 ela é, mas o que ela é33. Com efeito, tudo aquilo que admite 
qualidade e quantidade admite também distinção em sua qüididade e, portanto, não é simples, mas 
composto34. 
 
CAPITULO XVIII 
A essência suprema não tem nem princípio nem fim 
A partir de quando teria começado a existir essa natureza simples, criadora e 
conservadora de todas as coisas? Até quando existirá? Ou, antes, será que para ela não há nem 
"a partir de quando", nem "até quando", isto é, ela não tem princípio nem fim? Com efeito, se 
tem princípio, deriva-o ou dela mesma ou por ela mesma, ou de outro ou por outro, ou do nada 
ou pelo nada. Mas por uma verdade já demonstrada35, resulta que ela de maneira nenhuma 
existe de outro ou do nada, nem por outro ou pelo nada. Portanto, de forma alguma pode ter 
recebido o princípio por outro ou de outro, pelo nada ou do nada. Mas não pode ter tido 
princípio nem dela mesma ou por ela mesma, embora ela exista de si e por si, porque ela existe 
de si e por si, porém, de uma maneira que não permite ter duas essências, uma existente por si e 
em si e, outra, derivada desta e por esta. Com efeito, tudo aquilo que tem princípio de outro ou 
por outro não é de forma alguma igual àquilo donde, ou pelo qual, recebeu a existência. A natu-
reza suprema, portanto, não teve princípio nem de si nem por si. Como não recebeu a 
existência nem por si, nem por outro nem de outro, nem pelo nada nem do nada, por 
conseguinte, ela não tem princípio de maneira nenhuma. 
 
32
 No sentido da qualidade e da quantidade. 
33
 No sentido daquilo que é realmente. 
34
 Mas a essência suprema não é composta e, por isso, não admite qualidade e quantidade. 
35
 Capítulos VI e VII. 
Mas, nem terá fim. Se tivesse fim, não seria, pois, nem sumamente