07-Santo-Anselmo-e-Abelardo-Coleção-Os-Pensadores-1988
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duas espécies: os que produzem uma 
mudança no objeto em que incidem, como as cores, e os que não produzem nenhuma mudança, como acontece com as relações. É 
evidente que os acidentes que produzem mudança são contraditórios com a natureza suprema e não podem ser aplicados a ela. 
significado da palavra acidente, é seguramente certo que, acerca da natureza sumamente imutável 
nada se pode dizer de maneira que permita pensá-la mutável. 
 
CAPÍTULO XXVI 
Em que sentido se deve dizer que ela é uma substância, e como ela está fora de toda substância; e que 
somente ela é aquilo que é. 
Se não paira dúvida sobre aquilo que demonstramos acerca da simplicidade desta 
natureza, de que maneira ela é uma substância? Se toda substância é suscetível de uma soma de 
diferenças ou de mudanças de acidentes e, no entanto, a pureza imutável desta natureza é 
totalmente inacessível a qualquer mescla e mudança, então como conseguiremos dizer que ela é 
uma substância qualquer, a não ser que, por substância, se entenda essência, ficando, assim, fora, 
como está acima, de toda substância? Com efeito, entre aquele ser que é, por si, aquilo que é e 
que cria tudo do nada, e aquele ser que, saído do nada, é aquilo que é em virtude de outro, há 
uma diferença grandíssima: a mesma, justamente, que intercorre entre a substância suprema e 
todas as coisas que não são iguais a ela. E como ela é a única, entre todas as naturezas, que 
procede de si mesma, sem a ajuda de outra natureza, tudo aquilo que ela é, então, como poderia 
não ser tudo aquilo que é, individualmente, e sem a companhia da criatura? 
Portanto, se ela alguma vez recebe o mesmo nome que se dá à criatura, não resta dúvida 
de que este deve ser entendido num sentido diferente47. 
 
CAPITULO XXVII 
Como ela não pode ser colocada entre as substâncias comuns, embora seja uma substância e um espírito 
individual 
Consta, portanto, que não está incluída no tratado comum das substâncias aquela 
substância de cuja essência não participa nenhuma outra natureza. Certamente, como toda 
substância é ou universal, isto é, essencialmente comum a muitas substâncias (ser homem, por 
exemplo, é comum a todos os homens), ou individual, isto é, tem um essência universal em 
comum com as outras substâncias (cada homem, por exemplo, tem, em comum com os outros, 
a sua qualidade de homem), então poderíamos admitir que a natureza suprema se inclua na 
classe das outras substâncias, se ela nem se divide em várias substancias, nem se une às outras 
 
47
 Vale dizer: se, às vezes, ela é chamada de substância como também as criaturas, não podemos, entretanto; entender que a sua substância 
seja a mesma que aquela das criaturas, justamente porque a substância suprema não é substância do mesmo modo que o são as outras. Ela 
subsiste por si e existe por necessidade da sua natureza, enquanto as outras não são independentes da causa que as produziu e, assim, não 
subsistem por si houve uma causa que as fez e que lhes conserva a subsistência. Veja o capítulo seguinte. 
por uma comunhão de essência?48 Entretanto, ela não apenas existe com certeza, mas, ainda, 
possui a resistência em grau máximo e, desde que a essência de qualquer ser costuma ser 
chamada de substância, nada certamente impede que, se é possível dizer algo condignamente 
dela, se chame de substância. E como não se conhece essência mais digna do que o espírito e o 
corpo, e como entre os dois o espírito é mais digno do que o corpo, deve-se afirmar que ela é 
espírito e não corpo. E, como o espírito não pode, de maneira nenhuma, ter partes, nem é 
possível haver vários espíritos da mesma natureza dela, é necessário que este espírito seja 
absolutamente individual. 
E, por não ser composto de partes, nem estar sujeito a modificação por causa de 
diferenças ou acidentes, como já ficou esclarecido acima, é impossível que esse espírito seja, de 
alguma maneira, divisível. 
 
CAPÍTULO XXVIII 
Que este espírito existe de maneira simples e que não pode ser comparado com as coisas criadas 
Pelo que foi dito precedentemente, parece decorrer, como conseqüência, que este 
espírito \u2014 cujo modo de existir é tão admiravelmente singular e tão singularmente maravilhoso 
\u2014, por uma certa razão, exista sozinho, e que as criaturas, se comparadas com ele, não existam, 
embora nos pareçam existir. De fato, se considerarmos bem, parecerá que somente ele tem uma 
existência simples, perfeita e absoluta, e, ao contrário, todas as outras coisas parecem realmente 
quase não existir e ter uma existência apenas emprestada. E, como deste mesmo espírito, 
devido à sua eternidade imutável, de maneira alguma se pode dizer que existiu ou existirá, 
segundo alguma mudança, mas simplesmente que existe; e como não é, também, algo que, de 
maneira variável, não existiu antes ou que não existirá no futuro, mas que é tudo aquilo que tem 
sido ou será; e que tudo aquilo que é, é-o de uma só vez, de maneira simultânea e 
indeterminável; como, repito, o seu ser é feito assim, pode-se dizer dele, com razão, que existe 
de maneira simples49, absoluta e perfeita. 
Entretanto, todas as outras coisas, na verdade, por motivo da mudança em alguma parte 
do seu ser, foram ou serão aquilo que não são, são aquilo que não foram, ou não serão mais, e 
aquilo que foram já não existe mais, e aquilo que serão não existe ainda, e aquilo que elas são 
mal existe no passageiro e brevíssimo e quase não existente presente; em suma, elas existem de 
maneira tão mutável, que, com muita razão, nega-se que existam simples, absoluta e 
 
48
 Esta é uma das passagens do Monológio, em que muitos enxergam a prova do realismo exagerado de Anselmo. Entretanto, deve-se 
observar que, aqui, o autor está se referindo à substância suprema, não criada, colocando-a em comparação com as substâncias criadas. 
49
 Simples denota unidade, ausência de composição, incorpore idade. 
perfeitamente, e afirma-se que elas quase não existem e que sua existência é aleatória. Ainda. 
Como todas as coisas que são diferentes deste espírito passaram do nada para a existência não 
por si mesmas, mas por meio de outro ser; e, se abandonadas a si mesmas, voltariam da 
existência para o nada se não fossem amparadas por um outro ser, então de que maneira 
poderia atribuir-se a elas uma existência simples e perfeita, ou seja, absoluta? Antes, elas mal 
existem ou quase não têm existência. E como, ao contrário, a existência deste único, idêntico a 
si e inefável espírito não pode ser pensada, de maneira nenhuma, originada do nada, ou que 
possa estar sujeita a algum defeito por parte daquilo que ainda não existe; e, como tudo aquilo 
que ele é, é-o não por outro, mas por si, isto é, por aquilo que ele é, então, por que não admitir-
se, por justo motivo, que ele é o único que deve ser entendido como simples, perfeito e 
absoluto? Na verdade, aquele que, tão simplesmente e sob todos os aspectos, é o único 
perfeito, simples e absoluto, este realmente pode ser indicado, com razão, sob certo aspecto, 
como o único que existe. E, ao contrário, tudo aquilo que, pelas considerações anteriores, se 
nos apresenta não tendo uma existência simples, nem perfeita nem absoluta, mas que existe 
apenas, ou quase não existe, certamente pode ser dito corretamente que, sob certo aspecto, não 
existe. Segundo este raciocínio, portanto, o espírito criador é o único que existe de verdade, e 
todas as coisas criadas não existem, apesar de a sua não-existência não ser absoluta, porque 
foram transformadas em algo ao serem criadas do nada por aquele que, único, existe de maneira 
absoluta. 
 
CAPÍTULO XXIX 
Que a palavra deste espírito é a mesma coisa que ele, e que