07-Santo-Anselmo-e-Abelardo-Coleção-Os-Pensadores-1988
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iguais; nem os dois 
são algo que expresse, deles, a essência ou uma relação com a criatura. Mas nem também os 
dois são algo que denote a recíproca relação, de uma para com o outro, porque não podem 
existir nem dois verbos, nem duas imagens. Com efeito, o verbo, pelo fato mesmo de ser verbo 
e imagem, relaciona-se com algo distinto, porque só pode ser verbo e imagem de algo diferente. 
Esta condição é tão própria de um [= o verbo] que, de maneira nenhuma, pode ser aplicada ao 
outro [= o espírito supremo], porque aquele [= o espírito supremo], do qual é verbo e imagem, 
não é nem imagem nem verbo. Fica claro, portanto, que é impossível expressar em que coisa 
sejam dois, o espírito supremo e o seu verbo, se bem que, devido a algumas propriedades de 
cada um, se apresentem, necessariamente, como dois. Entretanto é próprio de um [= o verbo] 
proceder do outro [= o espírito supremo] e é próprio deste que aquele proceda dele. 
 
CAPITULO XXXIX 
Que o verbo procede do espírito supremo por nascimento 
Este conceito parece mais acessível se o expressarmos dizendo que é próprio de um [= 
o verbo] nascer do outro e que é o próprio do outro [= o espírito supremo] que dele nasça o 
verbo. Com efeito, já ficou bem claro que o verbo do espírito supremo não procede deste 
como as coisas criadas, mas como criador de criador e como ser supremo de ser supremo. Para 
exprimir esta semelhança em poucas palavras, diremos que o verbo procede totalmente do 
espírito supremo e, de tal maneira, que não pode proceder senão dele. Portanto, pelo fato de 
proceder somente dele, guarda uma semelhança perfeita com ele, como um filho com o pai e, 
ao mesmo tempo, pelo fato de não proceder como as coisas criadas, decorre que, de maneira 
nenhuma, certamente, pode-se pensar com maior propriedade que não proceda dele senão por 
 
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 Isto é, a inefabilidade. A impossibilidade da expressão diz respeito à essência (o quid) dos dois. 
nascimento. Dizemos, pois, com razão, a respeito de um sem-número de coisas, que nascem 
daquelas que lhes dão a vida, embora não guardem nenhuma semelhança com elas, como é 
aquela que o filho recebe do pai. Assim dizemos que os cabelos nascem da cabeça, os frutos da 
árvore, se bem que os cabelos não tenham nenhuma semelhança com a cabeça e os frutos com 
a árvore. Por isso, repito, se podemos dizer dessas coisas, sem cair no absurdo, que elas 
nascem, com propriedade maior pode-se afirmar que o verbo procede do espírito supremo por 
nascimento, e com quanto maior perfeição \u2014 quase filho do pai \u2014 deriva a sua semelhança 
dele, ao receber a existência. 
 
CAPITULO XL 
Esse espírito é verdadeiramente pai, e o verbo, verdadeiramente filho 
Se é com absoluta conveniência que se diz que o verbo nasce e que é tão semelhante 
àquele do qual nasce, por que, então, não afirmar, antes \u2014 desde que ele é tão semelhante ao 
espírito como um filho ao pai \u2014, que o espírito é tão mais verdadeiro pai e o verbo mais 
verdadeiro filho, ainda mais que o primeiro basta a si mesmo para a perfeição deste nascimento, 
e o segundo expressa completamente a semelhança com o primeiro? 
Com efeito, no que diz respeito às outras coisas, entre as quais sabemos com certeza 
existir uma relação de pai para filho, nenhuma há que seja suficiente para engendrar a prole 
sozinha, sem o concurso de nada, nenhuma nasce de maneira a apresentar perfeita semelhança 
com o pai, sem nenhuma incidência de diferenças. 
Conseqüentemente, se o verbo do espírito supremo procede de maneira tão absoluta 
apenas da essência deste, e é por completo tão semelhante a ele, como filho nenhum procede 
tão completamente da essência do pai, então nada com certeza tem direito maior à relação de 
pai e filho do que o espírito supremo e o verbo dele. Por este motivo, é próprio do primeiro ser 
verdadeiramente pai e, do segundo, ser verdadeiro filho. 
 
CAPÍTULO XLI 
Que o espírito verdadeiramente gera e o verbo é verdadeiramente gerado 
Entretanto, isso não poderia estar certo, se, ao mesmo tempo, o espírito supremo 
verdadeiramente não gerasse e o verbo não fosse verdadeiramente gerado. 
Desde que a verdade daquilo que demonstramos é evidente, é necessário, pois, que a 
conseqüência esteja certa. 
Por isto, decorre que é próprio do espírito supremo engendrar verdadeiramente, e do 
verbo, ser verdadeiramente engendrado. 
 
CAPÍTULO XLII 
Que é próprio do espírito supremo ser genitor e pai e, do verbo, ser gerado e filho 
Gostaria e, talvez, poderia concluir que aquele [= espírito supremo] é verdadeiramente 
pai, e este [= o verbo], verdadeiramente filho, mas, como não há neles distinção de sexo, penso 
que não se deva deixar de examinar se é mais congruente para eles a denominação de pai e filho 
ou a de mãe e filha. Com efeito, se é conveniente chamar ao primeiro de pai e ao segundo de 
filho, porque ambos são espírito, por que, pela mesma razão, não poderia ser dito o primeiro 
mãe e o segundo filha, ainda mais que ambos são a verdade e a sabedoria? Será, talvez, porque, 
naqueles seres que têm diferença de sexo, a denominação de pai e filho convém mais ao sexo 
superior, e aquela de mãe e filha, ao inferior? Isto, na verdade, observa-se dentro da natureza 
em muitos casos. Entretanto acontece também o contrário, como em certas espécies de aves, 
onde o sexo feminino é mais importante e forte, e o masculino é menos importante e mais 
fraco. 
Ou será que convém, com maior razão, que se chame de pai ao espírito supremo porque 
a primeira e principal causa da prole encontra-se no pai? Se a causa materna, de qualquer 
maneira, é sempre precedida por aquela paterna, é, pois, completamente inconveniente aplicar o 
nome de mãe àquele ao qual, para engendrar a prole, não se associa ou precede nenhuma causa. 
É, portanto, certíssimo que o espírito supremo é pai da sua prole. Se, ainda, um filho sempre é 
mais parecido com o pai do que uma filha, e se nenhuma coisa é mais parecida com a outra do 
que, com o pai supremo, a sua prole, é incontestável que esta prole não é uma filha, mas um 
filho. 
Como, portanto, é próprio daquele verdadeiramente gerar, e deste, ser gerado, assim é 
próprio daquele ser verdadeiramente genitor, e deste, verdadeiramente gerado. E, como o 
primeiro é verdadeiro genitor e o outro verdadeira prole, assim um é verdadeiro pai e o outro 
verdadeiro filho. 
 
 
 
 
CAPÍTULO XLIII 
Volta-se a tratar da comunhão entre os dois e das propriedades de cada um 
Depois de encontrar tantas e tão grandes propriedades do espírito supremo e do verbo 
dele, com as quais está demonstrado existir, na suprema unidade, uma certa maravilhosa quanto 
inefável e inevitável pluralidade, se me apresenta como extremamente agradável voltar a tratar 
com freqüência de um mistério tão insondável. Com efeito, se é totalmente impossível que o 
genitor seja o mesmo que a prole, aquele que gera o mesmo que aquele que é gerado, e o pai o 
mesmo que o filho, de maneira que seja necessariamente distinto o genitor do gerado, o pai do 
filho, entretanto, não é menos necessário60 que aquele que gera seja o mesmo que o gerado, o 
pai o mesmo que a prole e, assim, se torne impossível que o genitor seja distinto do gerado, e o 
pai do filho. E, apesar de ambos serem tão distintos um do outro de maneira que parece 
manifesto tratar-se de dois, todavia, aquilo que eles são, tanto um como o outro, apresenta-se 
tão uno e idêntico que fica profundamente oculto em que sejam dois61. Com efeito, o pai e o 
filho diferem sob este aspecto de tal modo que, depois de pronunciar o nome de ambos, 
compreendo ter pronunciado os dois separadamente, e, no entanto, aquilo que constitui o pai e 
o filho é tão igual que eu não