07-Santo-Anselmo-e-Abelardo-Coleção-Os-Pensadores-1988
248 pág.

07-Santo-Anselmo-e-Abelardo-Coleção-Os-Pensadores-1988


DisciplinaFilosofia62.705 materiais1.911.710 seguidores
Pré-visualização50 páginas
perece, 
quando não é como deve ser ou quando não existe nenhuma significação, visto que então a 
significação falta à retidão que não falta? 
D. \u2014 Vejo-o de tal modo que não posso não ver. 
M. \u2014 Logo, a retidão pela qual a significação se diz reta não tem ser ou movimento 
algum pela significação, de qualquer modo que a própria significação se mova. 
D. \u2014 Nada agora é mais claro para mim. 
M. \u2014 Podes então provar que a cor está para o corpo de modo igual como a retidão 
está para a significação? 
D. \u2014 Estou agora mais preparado para provar que a relação é muito diferente. 
M. \u2014 Acho que já conheces bem o que se deve pensar a respeito da vontade e da sua 
retidão e a respeito das outras coisas que devem ter retidão. 
D. \u2014 Vejo perfeitamente que por esta mesma razão se demonstra que, de qualquer 
modo que ela própria seja, a retidão permanece imutável. 
M. \u2014 Por conseguinte, o que achas que se colhe das próprias retidões? São diferentes 
entre si ou existe uma só e mesma retidão de todas as coisas? 
D. \u2014 Concedi acima que, se existem várias retidões. Visto que são várias as coisas nas 
quais são consideradas, é necessário que elas existam e se diversifiquem segundo as próprias 
coisas, o que se demonstrou que de nenhum modo se faz. Por essa razão, não existem várias 
retidões porque existam várias coisas nas quais elas estão. 
M. \u2014 Porventura, tens alguma outra razão pela qual te pareçam serem várias, além da 
própria pluralidade das coisas? 
D. \u2014 Assim como eu sei que esta é nula, assim eu considero que não se pode encontrar 
nenhuma outra. 
M. \u2014 Então, existe uma só e mesma retidão de todas as coisas. 
D. \u2014 Assim me é necessário confessar. 
M. \u2014 Ademais, se a retidão não está naquelas coisas que devem possuí-la, a não ser 
quando são segundo o que devem, e isto só é para elas o serem retas, é claro que uma só é a 
retidão de todas elas. 
D. \u2014 Não se pode negar. 
M. \u2014 Uma só é, portanto, a verdade em todas elas. 
D. \u2014 E é impossível negar-se isso. Todavia, demonstra-me por que razão falamos em 
verdade "desta ou daquela coisa", como para distinguir diferenças de verdades, se elas não 
tomam diversidade alguma das próprias coisas. De fato, muitos apenas concedem que não 
existe nenhuma diferença entre a verdade da vontade e a que se diz da ação, ou de alguma das 
outras coisas. 
M. \u2014 Impropriamente se diz que a verdade é "desta ou daquela coisa", porquanto ela 
não tem o seu ser nas próprias coisas ou delas próprias ou por essas mesmas nas quais se diz 
que ela está. Mas quando as próprias coisas são conforme ela, que sempre está presente 
naquelas que devem ser, então se diz "a verdade desta ou daquela coisa", como a verdade da 
vontade, da ação, do mesmo modo que se diz "o tempo desta ou daquela coisa", uma vez que é 
um só e o mesmo o tempo de todas as coisas que existem juntas no mesmo tempo; e se não 
existisse esta ou aquela coisa, não menos existiria o mesmo tempo. Com efeito, não se diz o 
tempo desta ou daquela coisa porque o tempo esteja nas próprias coisas, mas porque as 
próprias coisas estão no tempo. E assim como o tempo considerado por si não se diz o tempo 
de algo, mas quando consideramos as coisas que nele existem dizemos "o tempo desta ou 
daquela coisa", assim a verdade suprema, subsistente por si, não é própria de nenhuma coisa, 
mas quando algo existe segundo ela, é então que se fala na verdade ou na retidão disso. 
 
SANTO ANSELMO DE CANTUARIA 
O GRAMÁTICO 
Tradução: Prof. Dr. Ruy Afonso da Costa Nunes 
 
 
COMO O GRAMÁTICO E SUBSTANCIA E QUALIDADE 
DISCÍPULO \u2014 Peço-te que me esclareças com certeza a respeito do gramático: se é uma 
substância ou uma qualidade, a fim de que, conhecida essa questão, eu saiba o que deva pensar 
de outras coisas que, semelhantemente, se dizem por derivação. 
MESTRE \u2014 Dize-me, primeiramente, por que duvidas. 
D. \u2014 A razão da minha dúvida é que parece que se podem provar as duas alternativas 
com razões necessárias, ou seja, que é e não é. 
M. \u2014 Prova-o, portanto. 
D. \u2014 Não te apresses a contradizer tudo o que eu disser, mas aguarda que a minha 
exposição chegue ao fim e, em seguida, aplaude ou corrige. 
M. \u2014 Seja como queres. 
D. \u2014 Com efeito, para que se demonstre que o gramático é uma substância basta 
considerar que todo gramático é um homem e todo homem é uma substância. De fato, tudo 
que o gramático tem para que a substância o siga, ele não o tem a não ser pelo fato de ser 
homem. Por isso, uma vez concedida tal coisa, isto é, que é um homem, todas as coisas que 
acompanham o homem acompanham o gramático. Que o gramático, porém, seja uma 
qualidade, confessam-no abertamente os filósofos que trataram desse assunto, e seria um 
atrevimento contestar-lhes a autoridade a respeito dessas matérias. Do mesmo modo, 
porquanto é necessário que o gramático seja ou uma substância ou uma qualidade, de tal 
maneira que, se é uma destas coisas, não é a outra, e se não é qualquer uma delas é necessário 
que seja outra; tudo o que serve para asseverar uma parte destrói a outra, e tudo o que 
enfraquece uma delas, fortalece a outra. Por conseguinte, uma vez que dessas duas partes uma é 
verdadeira e a outra é falsa, rogo-te que me expliques a verdade, descobrindo a falsidade. 
 
II 
M. \u2014 Os argumentos que apresentaste para as duas partes são necessários, exceto o que 
dizes com afirmar que, se uma delas se admite, a outra não pode ser admitida. Por isso, não 
deves exigir de mim que demonstre que uma das partes é falsa \u2014 o que não pode ser feito por 
ninguém \u2014, mas explicarei como não existe contradição entre uma e outra, se isso puder ser 
feito por mim. Mas, primeiramente, eu queria ouvir de ti mesmo o que achas que se pode opor 
a esses teus argumentos. 
D. \u2014 Isso que exiges de mim, eu já esperava de ti atentamente, mas porquanto asseveras 
que as tuas próprias demonstrações são irrepreensíveis, compete a mim, que duvido, explicar o 
que me provoca dúvida; cabe a ti, porém, demonstrar a firmeza e a conveniência de ambas as 
partes. 
M. \u2014 Dize-me, pois, o que achas e eu tentarei fazer o que pedes. 
D. \u2014 Com efeito, aquela proposição que diz que o gramático é um homem, eu julgo 
que se deve rejeitar deste modo: "Nenhum gramático pode ser entendido sem a gramática e 
todo homem pode ser entendido sem a gramática". Ainda mais: "Todo gramático recebe um 
mais e um menos, e nenhum homem recebe mais e menos". Da união dessas duas proposições 
tira-se uma conclusão, isto é, nenhum gramático é homem. 
 
III 
M. \u2014 Isso não se segue. D. \u2014 Por quê? 
M. \u2014 Parece-te, porventura, que o nome animal signifique outra coisa que substância 
animada sensível? 
D. \u2014 O animal nada mais é absolutamente do que uma substância animada sensível, e a 
substância animada sensível não é outra coisa senão o animal. 
M. \u2014 Assim é. Mas dize, também, se todo aquele que não é outra coisa senão uma 
substância animada sensível pode ser entendido sem a racionalidade e não seja racional por 
necessidade. 
D. \u2014 Não o posso negar. 
M. \u2014 Por conseguinte, todo animal pode ser entendido sem a racionalidade e nenhum 
animal é por necessidade racional. 
D. \u2014 Não posso dizer que isso não seja conseqüência do que foi admitido, embora eu 
tema bastante aquilo que suspeito que pretendas. 
M. \u2014 Mas nenhum homem pode ser entendido sem a racionalidade e é necessário que 
todo homem seja racional. 
D. \u2014 De ambos os lados vejo-me em apuros. De fato, se concedo o que dizes, concluis 
que nenhum homem é animal; se nego, não só dizes que eu não posso ser entendido, como que 
realmente existo sem a racionalidade. 
M. \u2014 Não temas. Com efeito, não se tira a conclusão que imaginas. 
D. \u2014 Se assim é como prometes, concedo de boa mente tudo o que propuseste;