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Nu_e_Vestido_-_Mirian_Goldenberg_(Org.)_-_A_civilizacao_das_formas_-_o_corpo_como_valor

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foco o corpo, cuja aparência e
saúde constituem sua preocupação dominante. A crença deste grupo é
a de que o corpo humano é feio, sujo e sua tendência é a debilidade e
a doença, sendo a única esperança nativa evitar essas características
pelo uso de poderosas influências do ritual e da cerimônia Minner
destaca que a maioria dos Sonacirema mostra tendências masoquistas
bem definidas, ressaltando que um povo dominantemente masoquista
desenvolve especialistas sádicos. Como exemplos, cita um ritual coti-
diano realizado apenas pelos homens que envolve uma escarificação e
laceração da superfície do rosto por meio de instrumento cortante e
cerimônias femininas especiais que ocorrem quatro vezes por mês lu-
nar, em que as mulheres assam suas cabeças em pequenos fornos du-
rante mais ou menos uma hora. O autor também menciona outras
práticas baseadas na estética nativa, que dependem da aversão genera-
lizada ao corpo e às funções naturais.
Há jejuns rituais para fazer pessoas gordas ficarem magras, e
banquetes cerimoniais para fazer pessoas magras ficarem gor-
das. Outros ritos ainda são usados para fazer os seios das mu-
lheres maiores, se eles são pequenos, e menores se eles são
grandes. Uma insatisfação geral com a forma dos seios é simbo-
lizada pelo fato de que a forma ideal está virtualmente fora do
espectro da variação humana. Umas poucas mulheres que so-
frem de um quase inumano desenvolvimento hipermamário são
tão idolatradas que podem viver muito bem através de simples
viagens de aldeia em aldeia, permitindo aos nativos admirá-las
mediante uma taxa. (:39)
24 NU & VESTIDO
Minner conclui que é difícil compreender como os Sonacirema con-
seguiram sobreviver por tanto tempo sob os pesados fardos que eles
mesmos se impuseram. Um antropólogo evolucionista, com base
na descrição feita por Minner dos rituais do corpo nessa socieda-
de, concluiria que os Sonacirema se encontram num estágio de evo-
lução inferior, dada a sua obsessão pela magia e o primitivismo de
seus ritos corporais. Cabe perguntar: nossas "civilizadas" atitudes
quanto ao corpo estariam muito distantes das práticas dos "primi-
tivos'' Sonacirema?4
O corpo (des)coberto
Pelado, pelado... nu com a mão no bolso
ULTRAJE A RIGOR
Fim do século XX e início do XXI: os corpos "pavoneiam"*. Assisti-
mos, no Brasil, especialmente nos grandes centros urbanos, a uma cres-
cente glorificação do corpo, com ênfase cada vez maior na exibição
pública do que antes era escondido e, aparentemente, mais controla-
do. Há menos de um século, apesar do calor tropical, os homens ves-
4Se até agora o leitor não percebeu qual é a tribo primitiva estudada por Minner, releia
seu nome, Sonacirema, de trás para diante.
'Foucault (1988), ao descrever as atitudes corporais do início do século XVII, quando
"as práticas não procuravam o segredo; as palavras eram ditas sem reticência excessiva
e, as coisas, sem demasiado disfarce" (:9), sintetiza com a idéia de que "os corpos pa-
voneavam". Segundo o autor, naquela época, os códigos morais eram frouxos se com-
parados aos do século XIX, percebido como o ápice da repressão sexual. Cabe lembrar,
no entanto, que Foucault nega a hipótese de um grande ciclo repressivo que se costu-
ma situar entre os séculos XVII e XX, chamando atenção para uma crescente incitação
ao discurso sobre o sexo ao longo deste período, uma vontade de saber sobre sexuali-
dade, que considera ser peça essencial de uma estratégia de controle dos indivíduos na
sociedade moderna.
A CIVILIZAÇÃO DAS FORMAS: O CORPO COMO VALOR 25
tiam fraque, colete, colarinho duro, polainas e as "santas" mulheres
cobriam-se até o pescoço. Hoje, as anatomias mostradas parecem con-
firmar a idéia de que vivemos um período de afrouxamento moral nun-
ca visto antes. No entanto, um olhar mais cuidadoso sobre essa
"redescoberta" do corpo permite que se enxerguem não apenas os
indícios de um arrefecimento dos códigos da obscenidade e da decên-
cia, mas, antes, os signos de uma nova moralidade, que, sob a aparente
libertação física e sexual, prega a conformidade a determinado padrão
estético, convencionalmente chamado de "boa forma".
Norbert Elias (1990), em O processo civilizador, fornece uma
pista para pensar a paradoxal instauração dessa "moral estética" num
momento em que tudo leva a crer que a liberdade corporal conquis-
tada, especialmente pelas mulheres, não tem precedentes. Para
defender a tese de que, no curso do processo de civilização dos costu-
mes, os momentos de aparente relaxamento moral ocorrem den-
tro de contextos em que um alto grau de controle é esperado —
dentro de um padrão "civilizado" particular de comportamento —,
Elias utiliza como exemplo o uso dos trajes de banho. De acordo
com o autor, os corpos mais expostos exigiram por parte de ho-
mens e mulheres um maior autocontrole, no que diz respeito às suas
pulsões, do que quando o decoro os mantinha escondidos.
Seguindo essa linha de reflexão, pode-se pensar que a aparente
liberação dos corpos, sugerida por sua atual onipresença na publi-
cidade, na mídia e nas interações cotidianas, tem por trás um "pro-
cesso civilizador", que se empreende e se legitima por meio dela.
Devido à mais nova moral, a da "boa forma", a exposição do cor-
po, em nossos dias, não exige dos indivíduos apenas o controle de
suas pulsões, mas também o (auto)controle de sua aparência física.
O decoro, que antes parecia se limitar à não-exposição do corpo
nu, se concentra, agora, na observância das regras de sua exposição.
Em uma entrevista, a atriz americana Rosie Perez, que em sua
estréia no cinema protagonizou uma marcante cena de nudez com
T
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cubos de gelo nos mamilos — no filme Faça a coisa certa, de Spike
Lee —, discute com outras atrizes os prós e contras de se tirar a
roupa, demonstrando que, quando o assunto é nudez, as estrelas
de Hollywood também se sentem constrangidas e inseguras. As
atrizes destacam a grande pressão que sofrem para estarem sem-
pre magras, jovens e com o corpo malhado. "Um dos melhores
momentos de nudez feminina em filmes que já vi foi a de Isabella
Rossellini em Veludo azul. Era um corpo não-malhado. Na déca-
da de 1980, depois de Madonna, os padrões mudaram. Nos fil-
mes de praia da década de 1960, as garotas são bonitas, mas elas
têm coxão e as barriguinhas não são duras. Não se vê mais isso",
reclama Perez*.
Mas não apenas com atrizes ou modelos tal exigência de boa
forma física se torna implacável. Por intermédio do cinema, da te-
levisão, da publicidade e de reportagens de jornais e revistas, a
exigência acaba atingindo os simples mortais, bombardeados cotidia-
namente por imagens de rostos e corpos perfeitos.
Como revela uma outra reportagem7, em que pessoas comuns
foram convidadas a falar sobre nudez e a se despir diante das câmeras,
o receio que muitos indivíduos têm de ficarem nus em público, a dois8
ou mesmo sozinhos não se deve a uma espécie de puritanismo détnodé,
mas à dificuldade em mostrar o corpo com todas as suas imperfei-
ções, sem disfarces. Nota-se, nos entrevistados, um discurso que pro-
cura enfatizar a necessidade de "estar em paz com o corpo", de "gostar
do próprio corpo", mostrando que o problema (ou pudor), quando
existe, não é tanto em relação à nudez, mas à aparência física, isto é,
«"Toda nudez será complicada" (O Globo, 2/7/2000).
7
"Rcar sem roupa, que delícia!" (Cláudia, maio de 2001).
'The Journal of Sex Research, revista especializada dos EUA, mostrou uma pesquisa
com duzentas mulheres universitárias, das quais um terço, independentemente de se-
rem gordas ou magras, disse que a imagem que o parceiro faz do corpo delas é o mais
importante durante o ato sexual. O autor do estudo afirma que a ansiedade em relação
à forma física leva várias mulheres até mesmo a evitarem o sexo (fxtra, 28/9/2000).
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à sua inadequação aos padrões estéticos considerados ótimos. "Não
gosto de ficar nua. Nem de biquíni. Tenho a impressão de que todo
mundo está me observando, olhando direto para minha celulite",