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Nu_e_Vestido_-_Mirian_Goldenberg_(Org.)_-_A_civilizacao_das_formas_-_o_corpo_como_valor

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cultura da beleza e da forma física, a partir de
determinadas práticas37, transforma o corpo "natural" em um cor-
po distintivo (Bourdieu, 1988): o corpo.
O corpo é um corpo coberto por signos distintivos. Um corpo
que, apesar de aparentemente mais livre por seu maior desnu-
damento e exposição pública, é, na verdade, muito mais constran-
gido por regras sociais interiorizadas pelos seus portadores.
Pode-se dizer que ter um corpo "em forma", com tudo o que
ele simboliza, promove nos indivíduos das camadas médias do Rio
de Janeiro uma conformidade a um estilo de vida e a um conjunto
de normas de conduta, recompensada pela gratificação de perten-
cer a um grupo de "valor superior". O corpo é um valor que iden-
tifica o indivíduo com determinado grupo e, simultaneamente, o
distingue de outros. Este corpo, "trabalhado", "malhado", "sara-
do", "definido", constitui, hoje, um sinal indicativo de certa virtu-
de humana. Sob a moral da "boa forma", "trabalhar" o corpo é um
ato de significação, tal qual o ato de se vestir. O corpo, como as
roupas, surge como um símbolo que consagra e torna visível as di-
ferenças entre os grupos sociais. Daí a importância de considerar
"Rodrigues (1979) destaca que "a cultura dita normas em relação ao corpo; normas a
que o indivíduo tenderá, à custa de castigos e recompensas, a se conformar, até o pon-
to de estes padrões de comportamento se lhe apresentarem como tão naturais quanto
o desenvolvimento dos seres vivos, a sucessão das estações ou o movimento do nascer
e do pôr-do-sol. Entretanto, mesmo assumindo para nós este caráter 'natural' e 'uni-
versal', a mais simples observação em torno de nós poderá demonstrar que o corpo
humano como sistema biológico é afetado pela religião, pela ocupação, pelo grupo
familiar, pela classe e outros intervenientes sociais e culturais" (:45).
A CIVILIZAÇÃO DAS FORMAS: O CORPO COMO VALOR 39
que a visão de que um indivíduo pode se tornar totalmente inde-
pendente da opinião do grupo com o qual se identifica e ser abso-
lutamente autônomo é tão enganosa quanto a visão inversa, que
reza que sua autonomia pode desaparecer por completo numa co-
letividade de robôs (Elias & Scotson, 2000). Não se trata de ser
"um" para os outros, e para si "ninguém", uma vez que o fato da
conduta, sentimentos, auto-respeito e consciência individual esta-
rem relacionados funcionalmente com a opinião interna de um
grupo não significa sua anulação como indivíduo, que pode esco-
lher pertencer a este grupo e não a outro.
O corpo é, portanto, um valor nas camadas médias cariocas
estudadas, um corpo distintivo que parece sintetizar três idéias ar-
ticuladas: a de insígnia (ou emblema) do policial que cada um tem
dentro de si para controlar, aprisionar e domesticar seu corpo para
atingir a "boa forma", a de grife (ou marca), símbolo de um perten-
cimento que distingue como superior aquele que o possui e a de
prêmio (ou medalha) justamente merecido pelos que conseguiram
alcançar, por intermédio de muito esforço e sacrifício, as formas
físicas mais "civilizadas".
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Carioquice ou carioquidadel
Ensaio etnográfico das imagens
identitárias cariocas
FABIANO GONTIJO
Cariocas
(Adriana Calcanhoto)
Cariocas são bonitos
Cariocas são bacanas
Cariocas são sacanas
Cariocas são dourados
Cariocas são modernos
Cariocas são espertos
Cariocas são diretos
Cariocas não gostam de dias nublados.
Cariocas nascem bambas
Cariocas nascem craques
Cariocas têm sotaque
Cariocas são alegres
Cariocas são atentos
Cariocas são tão sexys
Cariocas são tão claros
Cariocas não gostam de sinal fechado...